Resumo
A Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) ainda é pouco conhecida e permeada por estigmas, reforçando a necessidade de estratégias integradas de comunicação e educação em Saúde na prevenção combinada ao HIV. Este estudo investigou a percepção pública da PrEP no TikTok, plataforma destacada em 2024 como um dos principais buscadores entre jovens de 18 a 24 anos. Foram analisados 231 comentários extraídos de 56 vídeos publicados entre junho e dezembro de 2024, selecionados pelas quatro hashtags mais populares relacionadas ao tema. A análise de conteúdo categorial classificou os comentários em positivos, negativos e neutros, integrando os dados à revisão de literatura especializada. Os resultados indicam que o TikTok pode influenciar positivamente a percepção pública sobre a PrEP, mas também demandam reflexão crítica sobre os limites e a responsabilidade das plataformas digitais na contenção da desinformação.
Palavras-chave
Comunicação em saúde; Educação em saúde; Mídias sociais; Profilaxia pré-exposição
Abstract
Little is known about pre-exposure prophylaxis (PrEP) and the treatment is surrounded by stigma, reinforcing the need for integrated communication and health education strategies in combination HIV prevention. This study investigated public perceptions of PrEP on TikTok, one of the primary search engines among people aged 18 to 24 in 2024. We analyzed 231 comments extracted from 56 videos published between June and December 2024 selected using the four most popular hashtags related to the topic. The categorical content analysis classified the comments as positive, negative and neutral, integrating the data with a review of the specialized literature. The results suggest that TikTok can positively influence public perceptions of PrEP but also highlight the need for critical reflection on the limits and responsibility of digital platforms in containing misinformation.
Keywords
Health communication; Health Education; Social Media; pre-exposure prophylaxis
Resumen
La Profilaxis Preexposición (PrEP) todavía es poco conocida y repleta de estigmas, reforzando la necesidad de estrategias integradas de comunicación y educación en salud en la prevención combinada al VIH. Este estudio investigó la percepción pública de la PrEP en TikTok, plataforma destacada en 2024 como uno de los principales buscadores entre jóvenes de 18 a 24 años. Se analizaron 231 comentarios extraídos de 56 videos publicados entre junio y diciembre de 2024, seleccionados por los cuatro hashtags más populares relacionadas al tema. El análisis de contenido por categoría clasificó los comentarios en positivos, negativos y neutrales, integrando los datos con la revisión de literatura especializada. Los resultados indican que TikTok puede influir positivamente en la percepción pública sobre PrEP, pero también exigen reflexión crítica sobre los límites y las responsabilidades de las plataformas digitales para contener la desinformación.
Palabras clave
Comunicación en salud; Educación en salud; Medios sociales; Profilaxis preexposición
Introdução
No Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde, a população entre 15 e 24 anos apresenta as maiores taxas de infecção por HIV (Human Immunodeficiency Virus)1. Segundo o Boletim Epidemiológico HIV/Aids 2024, entre 2007 e junho de 2024 foram notificados 541.759 casos de HIV no Brasil, com predominância masculina (70,7%)2. Em 2023, houve 46.495 novos registros — aumento de 4,5% em relação a 2022. A epidemia intensifica-se entre homens: a razão de sexos passou de 14 para cada dez mulheres em 2007 para 27 em 2023. Os mais afetados são jovens e adultos jovens, especialmente autodeclarados negros (63,2%) e homens que fazem sexo com homens (53,6%). As faixas de 15 a 24 anos e de 25 a 34 anos concentram 23,2% e 34,9% dos casos, respectivamente2. Esse é um indicador de alta relevância para refletir sobre formas emergentes de comunicar e educar em saúde, já que as maiores taxas de transmissão do vírus estão na geração nascida na era digital.
Entre as estratégias da chamada Prevenção Combinada ao HIV, destaca-se a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), disponível no Sistema Único de Saúde (SUS). A PrEP consiste no uso programado (sob demanda) ou continuado de medicamentos antirretrovirais por pessoas soronegativas antes da exposição ao vírus, como parte de uma estratégia para reduzir o risco de infecção pelo HIV com eficácia comprovada e reconhecida na prevenção ao HIV3,4. Trazer à cena o debate sobre comunicação e educação em saúde para PrEP é mister para estratégias bem-sucedidas de prevenção combinada, principalmente pelos estigmas que ainda permeiam o HIV/AIDS.
De acordo com declarações de Prabhakar Raghavan, vice-presidente sênior do Google, cerca de 40% dos jovens entre 18 e 24 anos têm deixado de utilizar mecanismos tradicionais de busca, como o próprio Google, passando a recorrer ao TikTok como principal ferramenta para encontrar informações online5. Essa mudança de comportamento é justificada, segundo os próprios usuários, pela dinamicidade da linguagem audiovisual da plataforma que oferece respostas rápidas, contextualizadas e em formatos mais atraentes. Com aproximadamente 775 milhões de usuários ativos, o TikTok consolida-se, assim, não apenas como rede de entretenimento, mas como um ambiente de busca e descoberta de conteúdos, especialmente entre o público jovem5. Nesse sentido, o TikTok proporciona um espaço para a análise e a compreensão da percepção pública sobre temas socialmente relevantes como a PrEP, visto que as maiores taxas de infecção estão na população entre 15 e 24 anos1,2. Com o objetivo de compreender a percepção pública de usuários do TikTok sobre a PrEP com base em comentários em vídeos publicados na plataforma, este artigo busca responder à seguinte questão: de que modo o TikTok pode se configurar como um aliado em estratégias comunicativas de educação em saúde mediante a análise das percepções públicas de seus usuários?”
À luz do cenário tecnológico e epidemiológico exposto, torna-se relevante reavaliar as estratégias de comunicação em saúde direcionadas a esses públicos, considerando o potencial de plataformas digitais como o TikTok, cujo alcance expressivo e linguagem simbólica são capazes de mobilizar afetos, valores e engajamento entre as juventudes. Ao longo do estudo, investiga-se, com a análise da percepção pública, como a plataforma abre novas possibilidades para estratégias de comunicação em saúde “viralizarem” em seu sentido mais profícuo. Em outras palavras, por meio dos dados empíricos coletados e da discussão no estado da arte da literatura científica sobre o tema, argumenta-se como a plataforma pode ser uma aliada na disseminação de conhecimento de forma clara e acessível, mitigando desinformação.
Metodologia
Este estudo possui natureza quanti-qualitativa, adotando um protocolo de pesquisa com abordagem mista para coleta de dados e interpretação de resultados6. Utilizou-se a análise de conteúdo de Bardin, especificamente a do tipo categorial7,8. Foram seguidas as seguintes etapas, que serão explicadas em detalhes: a) criação do livro de códigos; b) coleta de dados; c) aplicação da análise de conteúdo do tipo categorial; d) discussão dos resultados.
A análise de conteúdo do tipo categorial utiliza a construção de uma matriz de categorias, frequentemente denominada “livro de códigos”, como ferramenta para organizar e classificar os dados coletados8. Uma vez que o objetivo do estudo é compreender a percepção pública sobre a PrEP no TikTok por comentários em vídeos publicados na rede social, desenvolvemos um livro de códigos baseado em três categorias principais: comentários positivos, negativos e neutros. Comentários neutros são definidos como aqueles que não expressam juízo de valor, frequentemente manifestando dúvidas ou perguntas. Comentários negativos, por sua vez, refletem avaliações desfavoráveis em relação à forma e/ou ao conteúdo do vídeo. Por fim, consideramos como comentários positivos aqueles que atribuem valor favorável aos mesmos aspectos.
Quanto à coleta de dados, destaca-se a necessidade de explicitar as particularidades do uso do TikTok em pesquisas científicas, bem como as etapas metodológicas adotadas, visando à transparência e à possibilidade de replicação. Criou-se um perfil específico para o estudo sem identificação dos autores ou de seus laboratórios. A conta foi acessada via aba anônima no Google Chrome buscando minimizar o viés algorítmico da plataforma, que personaliza os conteúdos conforme o comportamento do usuário.
Para garantir transparência, detalha-se também como se deu a busca de vídeos na plataforma que oferece filtros como ordenação por relevância, curtidas ou data, além de categorias como vídeos assistidos, não assistidos, curtidos ou de contas seguidas. É possível ainda filtrar por período de publicação: últimos seis meses, três meses, mês, semana ou 24 horas.
Com base no livro de códigos, os critérios de inclusão foram: a) ordenação por data de publicação; b) inclusão de todas as categorias de vídeos; c) recorte temporal de junho a dezembro de 2024; d) apenas vídeos em português; e) análise de uma hashtag por vez, sendo as mais populares: #prep, #prephiv, #comotomarprep e #prevencaohiv.
Todos os vídeos dentro dos critérios foram salvos e separados em pastas específicas para a posterior coleta dos comentários na íntegra. Todos os comentários dos vídeos selecionados compuseram a amostra. Os comentários foram transferidos para planilha Excel e codificados como positivos, negativos e neutros, conforme a Tabela 1. Foi selecionado um total de 69 vídeos, mas 13 deles estavam duplicados pois compartilhavam mais de uma hashtag em comum, o que levou a amostra total de vídeos selecionados a 56. Uma vez desenvolvidos os três códigos e seus elementos de distinção, a codificação de dados foi realizada por dois pesquisadores em momentos diferentes a fim de detectar possíveis discrepâncias nas interpretações dos códigos.
O número total de comentários compõe a amostragem da pesquisa, do tipo não probabilística por relevância, justamente pelas unidades textuais (os comentários) não se constituírem por unidades indivisíveis, conforme manual de análise de conteúdo categorial8. Isso quer dizer que os comentários selecionados foram analisados à luz do objetivo e da pergunta de pesquisa. Por fim, é importante destacar que os comentários foram transcritos para as planilhas de forma literal [sic], mas sem o nome dos autores a fim de preservar a sua identidade e respeitar aspectos éticos. Como a pesquisa trata de comentários públicos em páginas abertas e não houve interação entre os pesquisadores e os usuários da plataforma, não foi necessária apreciação do estudo em Comitê de Ética em Pesquisa.
A Tabela 1 demonstra a relação entre as hashtags, os vídeos e comentários. Foram analisadas quatro hashtags com conteúdos relacionados à PrEP. As quatro hashtags foram escolhidas de acordo com a maior popularidade e prevalência na plataforma. O número total de vídeos encontrados foi 545 nas quatro hashtags mais populares sobre o assunto, sendo elas: #prep, #prephiv, #comotomarprep e #prevencaohiv. Grande parte dos vídeos encontrados foram publicados em idiomas diferentes do português ou não tratavam sobre o assunto, embora as hashtags levassem a eles. Foram selecionados 56 vídeos para coleta de comentários, seguindo os mencionados critérios de inclusão: a) vídeos em português, b) publicados há até 6 meses, compreendendo o período de junho a dezembro de 2024; d) vídeos localizados pelas quatro hashtags mais populares.
O número total de comentários encontrados nos 56 vídeos foi 231. Após classificação no livro de códigos, assim ficou distribuída a amostra: 121 comentários neutros (52,38%), 95 comentários positivos (41,12%) e 15 comentários negativos (6,49%). Os comentários positivos e negativos englobam posições, opiniões e crenças deliberadas e diretamente emitidas acerca do conteúdo do vídeo, ou seja, a PrEP. Já os comentários considerados neutros para a pesquisa são aqueles que emitem perguntas ou tecem algum comentário que não necessariamente se relaciona à temática PrEP, muitas vezes relacionados ao criador de conteúdo, não sendo possível inferir conotação negativa ou positiva. Antes de avançar para a discussão dos resultados, optou-se por apresentar uma exemplificação da amostra. Para isso, foram selecionados cinco comentários transcritos literalmente de cada uma das três categorias (positivos, negativos e neutros), conforme disposto na Tabela 2.
Discussão
Essa seção tem como base uma revisão do estado da arte da literatura científica no campo, adotando como lente teórica as diretrizes do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para a Profilaxia Pré-Exposição de Risco à Infecção pelo HIV, do Ministério da Saúde, bem como os estudos nela referenciados9. Concomitantemente, são expostos os achados sobre a percepção pública dos usuários do TikTok em relação aos conteúdos sobre a PrEP. Nesse sentido, a análise e a discussão dos resultados articulam a literatura existente com os dados empíricos, explorando as possibilidades de uso do TikTok como estratégia comunicativa para a educação em saúde.
PrEP, percepção pública de usuários no Tiktok e estratégias comunicativas para a educação em saúde
No Brasil, a PrEP pode ser utilizada a partir dos 15 anos e vem demonstrando eficácia e segurança em diversos estudos clínicos e subpopulações. No estudo iPrEx, foi avaliado o uso da PrEP oral diária em homens cisgênero que fazem sexo com homens (HSH) e mulheres trans, com uma eficácia profilática de 95%3,4. Entre indivíduos cisgênero heterossexuais, a eficácia geral foi de 62% (80% em homens e 49% em mulheres)10. Em estudo da Partners PrEP, a redução chegou a 75% em parcerias sorodiferentes heterossexuais (84% em homens cis e 66% em mulheres cis)11. É importante ressaltar que os estudos citados levam em conta a alta adesão ao comprimido diário, chamado de tratamento contínuo, testado pelo nível da medicação na corrente sanguínea.
O estudo IPERGAY demonstrou uma redução de 86% no risco de aquisição do HIV com o esquema sob demanda12. A PrEP sob demanda é o termo dado ao protocolo de uso da medicação antes e após a exposição ao risco. A literatura também descreve a eficácia da PrEP em Usuários de Drogas Injetáveis (UDI), com redução de 49% no risco de infecção ao HIV, podendo ser compreendida como uma importante estratégia de redução de danos na prevenção combinada13.
A prevenção combinada é aqui entendida mediante o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para a Profilaxia Pré-Exposição de Risco à Infecção pelo HIV do Ministério da Saúde e engloba9: Testagem regular para a infecção pelo HIV; Profilaxia Pós-Exposição ao HIV (PEP); Uso habitual e correto de preservativos; Diagnóstico oportuno e tratamento adequado das IST; Redução de danos; Gerenciamento de risco e vulnerabilidades; Supressão da replicação viral pelo tratamento antirretroviral; Imunizações; Prevenção da transmissão vertical do HIV, da sífilis e da hepatite B9.
Pelos achados empíricos da pesquisa, é possível discutir, com o estado da arte da literatura científica, como o TikTok pode ser um aliado em estratégias comunicativas para a educação em saúde. Em um estudo sobre política, educação e comunicação pública, Lima14 relata que os recursos e potenciais do TikTok ainda são pouco estudados no meio acadêmico, e afirma que há possibilidades de utilizar o entretenimento causado pela plataforma como meio de engajar jovens em debates, quebrar resistências e ressignificar valores. Adota-se a compreensão de comunicação pública de Zémor15, que a define como trocas e compartilhamentos de informações que possuem relevância social, competindo à esfera pública cumprir com o interesse coletivo. Apesar de a plataforma possuir fins comerciais, utilizar de sua linguagem pode auxiliar as instituições públicas a se comunicarem de forma mais acessível e clara, mitigando resistências ao atuar entre o entretenimento e a educação14. Podemos citar alguns exemplos de comentários identificados, nos quais interesses e dúvidas sobre o assunto ficam evidentes: “Não tem pelo SUS, mas podemos comprar?”, “E consegue comprar em farmácias?”, “Queria tanto saber disso há 6 anos”.
O algoritmo do TikTok aprende com cada interação do usuário, exibindo conteúdos alinhados às suas preferências e favorecendo efeitos de “bolha” ou câmaras de eco16. No entanto, Lupton16 questiona essa teoria, argumentando que ela subestima os usuários. Embora haja influência algorítmica, as pessoas não são passivas: buscam informações, interagem com semelhantes e, muitas vezes, confrontam opiniões opostas. Ela cita o antigo Twitter (hoje X), em que ativistas de saúde são atacados por quem os procura deliberadamente para criticar, evidenciando que nem todos estão isolados em bolhas homogêneas.
Embora o TikTok tenha potencial para difundir conteúdos de saúde, é preciso reconhecer os limites estruturais que moldam essa circulação. A lógica algorítmica da plataforma prioriza viralização e engajamento, nem sempre compatíveis com a qualidade ou a veracidade da informação. Assim, mensagens educativas ganham alcance mais pela estética do que pelo conteúdo, o que também pode favorecer a disseminação de desinformações e conteúdos nocivos. Em um ambiente pouco regulado e orientado por métricas de mercado, instituições públicas enfrentam o desafio de comunicar-se sem abrir mão de princípios éticos14.
Isso impõe uma tensão entre engajamento e responsabilidade social: como comunicar no TikTok sem se submeter totalmente à lógica do entretenimento? Mais do que se adaptar à linguagem jovem, é essencial refletir sobre as condições de circulação da informação digital e defender políticas públicas que promovam letramento midiático, regulação das plataformas e práticas comunicativas comprometidas com o bem comum. O TikTok pode ser um aliado, desde que compreendido criticamente, considerando os limites de seu funcionamento algorítmico e comercial. Exemplo disso é a baixa receptividade a vídeos muito formais ou institucionais. Na plataforma, discursos democráticos convivem com conteúdos extremistas, mesmo com diretrizes que proíbem propaganda político-partidária14.
Nesse contexto, a recente decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a inconstitucionalidade do Art. 19 do Marco Civil da Internet representa um marco no debate sobre a responsabilização das plataformas17. O entendimento de que, em casos graves como racismo, violência ou golpes, pode haver responsabilização mesmo sem ordem judicial, especialmente quando há falha sistêmica na remoção de conteúdos, reforça a necessidade de novas regulações. A articulação entre os direitos à comunicação e à saúde fundamentados pela Constituição Federal ganha centralidade nesse debate. Garantir o acesso qualificado à informação em saúde, especialmente em tempos de infodemia, não é apenas uma medida de cuidado, mas de justiça social.
Nesse caso, compreender o TikTok como um aliado em estratégias comunicativas e educativas, ao mesmo passo que se tece a reflexão crítica, é reconhecer os estudos que vêm demonstrando a plataforma mais indicada atualmente para alcançar a juventude de 15 a 24 anos, já que possui uma dinâmica diferente das tradicionais entre receptor e emissor das informações14. Nesse aspecto, órgãos públicos já adotam a estratégia de comunicação e educação para mitigar resistências aos assuntos de relevância pública14,18,19. Como exemplo, é possível citar contas ativas no TikTok e com alto engajamento, tais como a Câmara, Senado, Supremo Tribunal Federal, Tribunal Superior Eleitoral, Ministério Público, Governos de Estados e Municípios, além dos próprios políticos14.
Refletindo sobre as Tecnologias Digitais e Informação e Comunicação (TDICs), Santos e Carvalho20 pesquisaram como os próprios professores vêm incorporando o TikTok às suas práticas educacionais, sugerindo que a plataforma pode ser utilizada para potencializar processos de ensino-aprendizagem sem demonizá-la. O atravessamento do cotidiano pelas TDICs revela que novas formas possíveis de comunicar e informar precisam ser levadas em consideração. Elas se constituem, principalmente depois da pandemia de Covid-19, como um novo meio para comunicar e educar, e não um fim em si mesma. Outros exemplos de comentários ilustram tal cena: “Eu sou indetectável e meu marido usa PREP há 5 anos”, “A senhora indica o Prep sob demanda? Será que faz mesmo mal para os rins e o fígado? Tenho indicado bastante para meus alunos, para que eles se cuidem”, “Eu acho ótimo e bonito vocês virem a público falar sobre essa infecção. Obrigada por você ser esclarecido”.
Pensar a educação em saúde com jovens para além dos contextos tradicionais e institucionalizados traz desafios próprios do nosso tempo. Um tempo cada vez mais veloz e que se transforma incessantemente. Dialogar com as gerações nascidas na era digital implica a formulação de respostas que não virão meramente dos experts, mas na expertise em ouvir o que as novas gerações têm a nos dizer sobre cultura e comportamento14,18,19. A educação em saúde, nesse sentido, não poderá dissociar a TDICs de seus processos como uma forma que a ignora ou a desconhece18-20. Assim, as mídias sociais têm decretado o fim do modelo de comunicação unilateral, já que agora cada usuário também pode ter uma voz e se tornar ele próprio outra voz a ser ouvida18-21.
Recuero22,23 considera que mídia social é a tecnologia que permite a possibilidade de redes sociais como espaços de trocas e relacionamentos. Em uma pesquisa sobre gênero, sexualidade e algoritmos, Mesquita24 analisa a face “rede social” LGBTQIAP+ do TikTok refletindo que ela é capaz de congregar um espaço de trocas importantes para a comunidade, subvertendo a cisheteronormatividade. O estudo, de natureza antropológica, versa sobre o dilema algoritmo das redes que força os usuários a consumir mais conteúdos e passar mais tempo diante das telas, tornando-se consumidores de publicidade. Contudo, para corpos LGBTQIAP+, a plataforma pode atuar como um facilitador para compartilhar experiências e buscar informações com seus pares, apesar das dinâmicas algorítmicas24. Identificamos comentários que coadunam com a hipótese de esses espaços também se constituírem como espaços sociais, mesmo que virtuais, para o compartilhamento de dúvidas do cotidiano: “PREP tem que tomar mesmo se não for transar? E você substitui o preservativo pela PREP ou usa os 2?” (pergunta), “PREP evita HIV, mas não evita sífilis, gonorreia, herpes, blenorragia, hepatite” (resposta).
Esse é um ponto importante, já que mencionamos anteriormente que o TikTok está se tornando uma fonte primária de buscas para jovens na internet. Sereno25 aplicou questionários e realizou entrevistas com o objetivo de entender se o TikTok é utilizado como ferramenta de busca pelos jovens e sob qual motivação. A amostra englobou 128 estudantes da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB), cerca de 10% do total de discentes. Os resultados apontam que os entrevistados utilizam tanto TikTok como Google para buscar informações, mas há alternância individual sobre qual é o buscador primário, sendo 46,9% para o uso com muita frequência do TikTok e 74% para o uso de muita frequência do Google25. Em uma pesquisa sobre a influência das mídias sociais na percepção sobre jovens e o HIV, feita por meio de revisão de escopo, ressalta-se que o crescente aumento do uso de mídias sociais as torna importantes veículos de comunicação para temas de Saúde Pública25. Dessa forma, as mídias sociais podem tanto promover informações factíveis quanto perpetuar mitos e desinformação sobre o HIV, o que reafirma o compromisso da comunicação pública clara e acessível sobre esses temas25-27. Trazemos mais exemplos de como os usuários recorrem a esse espaço como fonte de informação e trocas: “Uma dúvida que me surgiu agora: A pessoa que vive com HIV e está indetectável pode ter filhos?”, “Quando somos expostos no caso também podemos tomar a prep? Como deve ser tomada?”, “Quem está indetectável pode ainda transmitir pelo sangue?”.
Schwartz et. al.28 exploram como o TikTok pode ser uma plataforma eficaz para disseminar informações factíveis sobre a PrEP. Destaca-se que o TikTok oferece acessibilidade e alcance significativos, especialmente entre uma audiência jovem, o que é crucial para aumentar a conscientização sobre PrEP em grupos de maior risco. A natureza interativa da plataforma também pode melhorar o engajamento dos usuários com conteúdo educacional, facilitando a compreensão e a retenção das informações sobre saúde sexual28. Por outro lado, o estudo identifica desafios importantes, como o enfrentamento a discriminações associadas ao tema, o que corrobora os resultados de nossa pesquisa, apesar de um quantitativo baixo de comentários negativos. Nessa perspectiva, órgãos públicos e estabelecimentos de saúde podem utilizar-se dessa inovadora maneira de comunicar para aumentar o alcance a suas populações-chave.
Nossa pesquisa também identifica que a existência de influenciadores específicos sobre o assunto, como o infectologista Ricardo Kores que acumula mais de 330 mil seguidores e 7 milhões de curtidas, facilita o acesso dessas informações aos usuários que por elas se interessam e as buscam dentro da rede social. Schwartz et. al.28 sugerem a implementação de campanhas direcionadas e a colaboração com influenciadores para maximizar o impacto e a credibilidade das mensagens sobre PrEP, destacando a importância de abordagens adaptadas às características únicas do TikTok.
Ao mesmo tempo, a diversidade de conteúdo na plataforma pode dificultar a localização de informações precisas sobre PrEP. Assim, é esperado que ocorra algum nível de desinformação, reduzindo o acesso às informações confiáveis sobre educação sexual, o que identificamos nos comentários ainda que eles sejam menores quantitativamente quando comparados à amostra de comentários positivos e neutros: “Já ouvi absurdos sobre PreP, inclusive de amigos médicos e professores.”, “Não acredito não…”, “O HIV é uma fraude, a AIDS não!”, “Sangue de Cristo tem poder”.
Lewis e Torres29 realizaram análise crítica do discurso em 121 vídeos do TikTok sobre a PrEP selecionados pelo algoritmo da plataforma. Em sua pesquisa descobriram quatro temas principais que abordam: a) a estigmatização do HIV como uma doença exclusivamente gay, b) a percepção negativa de homens gays como indivíduos de alto risco, c) a controversa visão da PrEP como promotora de práticas sexuais inseguras, e d) as deficiências nos cuidados de saúde e na educação destinados a homens gays e outros beneficiários da PrEP29. Esses achados sublinham a importância de a comunicação pública oferecer novas perspectivas para futuras campanhas de saúde voltadas não somente para PrEP, mas para a luta ainda atual de visibilização da prevenção ao HIV e respeito às pessoas que com ele convivem.
Uma das pesquisas recentes mais relevantes sobre comunicação em saúde com adolescentes destaca o TikTok como aliado estratégico em campanhas de prevenção ao HIV. No estudo de Macapagal et al.30, adolescentes de 14 a 19 anos avaliaram campanhas em grupos focais, e os conteúdos mais engajadores foram os de design dinâmico, com representações positivas da diversidade e sem reforço ao estigma do HIV. O TikTok foi apontado como o canal ideal por sua linguagem visual rápida e alinhada aos hábitos digitais da faixa etária.
Esses achados se articulam com dados epidemiológicos importantes no Brasil, de acordo com o Boletim Epidemiológico HIV/Aids 20242. Entre 2007 e 2024, foram notificados 541.759 casos de HIV no Brasil, 70,7% entre homens. Em 2023, houve 46.495 novos casos, um aumento de 4,5% em relação a 2022. A razão de sexos saltou de 14 para 27 casos masculinos a cada 10 femininos (2007–2023). Jovens e adultos jovens seguem como os mais afetados, sobretudo autodeclarados negros (63,2%) e homens que fazem sexo com homens (53,6%). As faixas etárias de 15 a 24 anos e de 25 a 34 anos concentram 23,2% e 34,9% dos registros, respectivamente2. Diante disso, torna-se urgente repensar estratégias de comunicação em saúde, apostando em plataformas como o TikTok por seu potencial de alcance e engajamento simbólico com as juventudes.
Assinalamos aqui a importância de formas inovadoras de comunicação com as gerações mais jovens, em consonância com o que orienta o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para PrEP9. O documento enfatiza que a adesão à PrEP deve ser incentivada por meio de uma comunicação simples, aberta e acolhedora, capaz de identificar barreiras e facilitadores ao uso da profilaxia. Tal diretriz funciona como um corrimão para repensarmos as estratégias de educação em saúde voltadas às juventudes, considerando suas especificidades culturais, afetivas e tecnológicas.
Nessa direção, os estudos de Guarnieri et al.31 e Deus et al.32 oferecem contribuições relevantes ao iluminar dimensões complementares do cuidado e da prevenção entre adolescentes e jovens no contexto do HIV. Ambos estão inseridos no escopo do projeto PrEP 15-19 Escolhas, iniciativa conduzida pelas universidades UFBA, UFMG e USP, que visa à redução da infecção por HIV entre meninos gays, HSH, bissexuais e pessoas trans entre 15 e 19 anos, por meio da oferta de diferentes modalidades de PrEP e acompanhamento multiprofissional em saúde. O estudo de Deus et al.32 analisa o conhecimento e a percepção sobre a PrEP sob demanda (PrEP-SD), evidenciando tanto o interesse quanto os desafios enfrentados pelos jovens para aderirem à modalidade. Já Guarnieri et al.31 abordam as representações sociais do HIV entre jovens diagnosticados recentemente, destacando como o estigma e a discriminação ainda impactam negativamente o cuidado e a continuidade do tratamento.
Ambas as investigações convergem para a urgência de estratégias comunicativas e educativas sensíveis à realidade juvenil, que levem em conta as dinâmicas afetivo-sexuais, as vulnerabilidades sociais e os imaginários ainda fortemente marcados por estigmas em torno do HIV. A PrEP-SD (Sob Demanda) se mostra promissora por ampliar a autonomia e oferecer maior flexibilidade ao cuidado, mas sua efetividade depende diretamente do letramento em saúde e do suporte institucional. Por outro lado, o enfrentamento do estigma permanece como um dos principais obstáculos, pois atualiza violências simbólicas que afetam diretamente o vínculo e o acesso aos serviços. Nesse sentido, a PrEP não se limita à oferta de uma tecnologia biomédica de prevenção, mas propõe um modelo integral de cuidado que valoriza a escuta qualificada e a mediação por pares, reconhecendo que a superação da epidemia entre jovens exige tanto inovação técnica quanto transformação cultural31,32.
Esses elementos, em conjunto, reforçam a ideia de que comunicar e educar em saúde no século 21 exige mais do que difusão de informação: requer sensibilidade política, crítica social e escuta ativa. Por esses referenciais, é possível apontar caminhos mais potentes para o enfrentamento do HIV/AIDS entre adolescentes e jovens no Brasil.
A análise de Seffner e Parker33 sobre o retrocesso na resposta brasileira à AIDS reforça a importância de recuperar a solidariedade e as políticas públicas inclusivas como fundamentos essenciais para o enfrentamento, especialmente diante da precarização da vida e do desperdício das experiências acumuladas. Esse cenário aponta os desafios contemporâneos que atravessam as estratégias de prevenção e comunicação em saúde, como a PrEP e o uso de plataformas digitais para educação em saúde. A tensão entre garantir o acesso universal a tecnologias biomédicas e combater o estigma, a exclusão social e as desigualdades estruturais, que marcam o contexto atual, exige abordagens que integrem não apenas inovações tecnológicas, mas também transformações culturais e institucionais, reafirmando a centralidade da comunicação como ferramenta de cuidado, cidadania e promoção da justiça social.
Coaduna com essa perspectiva o estudo de Mora, Nelvo e Monteiro34, que analisou 24 campanhas governamentais sobre PrEP e PEP realizadas entre 2016 e 2019, identificou uma subutilização do potencial comunicativo dessas ações que frequentemente desconsideram a realidade sociocultural dos grupos sociais-alvo, comprometendo o acesso e a efetividade das profilaxias. O avanço da biomedicalização da prevenção, aliado ao crescimento do conservadorismo, tem impactado negativamente a resposta brasileira à AIDS, reforçando a necessidade de estratégias comunicativas mais inclusivas, sensíveis e alinhadas às diversidades socioculturais para ampliar o alcance e a eficácia das políticas públicas de saúde.
Dessa forma, a reflexão crítica sobre as práticas comunicativas em ambientes digitais, como o TikTok, deve se inserir nesse horizonte mais amplo de resistência e reconstrução política, garantindo que as ações em saúde sejam pautadas por princípios éticos, inclusivos e democráticos.
Considerações finais
Concluímos que o uso do TikTok abre uma possibilidade potente para comunicar e educar em saúde, especialmente entre jovens. A plataforma, embora comercial, oferece um ambiente propício para dialogar com os jovens em uma linguagem familiar, facilitando a troca de informações relevantes e engajando-os em debates importantes. A interação dinâmica do TikTok permite que usuários não apenas recebam informações, mas também participem ativamente, subvertendo a tradicional comunicação unilateral. Essa característica é especialmente relevante na abordagem de temas complexos como prevenção ao HIV e uso da PrEP, em que a linguagem visual e interativa da plataforma pode contribuir para desmontar estigmas e promover uma reflexão a respeito desses temas.
No entanto, é importante reconhecer os desafios de utilizar o TikTok como meio de comunicação em saúde, como, por exemplo, os efeitos bolha e a possibilidade de disseminação de informações imprecisas ou estigmatizantes entre os próprios usuários nos comentários. Por isso, campanhas direcionadas são fundamentais para maximizar o impacto das ações educativas em saúde e podem ser realizadas em diversos níveis (locais, regionais, nacionais). Em última análise, integrar o TikTok às estratégias comunicativas do setor saúde, alinhando-se às diretrizes de Saúde Pública, pode reafirmar a importância de uma comunicação pública clara, acessível e adaptada às novas gerações e às novas formas de comunicar.
Considerando a metodologia adotada, uma limitação que emerge diz respeito à escolha das hashtags para a seleção dos vídeos, pois vídeos que não utilizaram essas palavras-chave não englobaram a amostra. Sugere-se a realização de estudos que considerem outras métricas de relevância e engajamento, além de análises longitudinais para capturar a evolução das discussões e dos conteúdos ao longo do tempo, proporcionando uma compreensão mais ampla e atualizada das dinâmicas de comunicação em saúde em plataformas como o TikTok.
A discussão sobre o uso do TikTok na educação em saúde exige também atenção aos limites e responsabilidades das plataformas digitais diante da desinformação. O recente julgamento do Supremo Tribunal Federal, que considerou inconstitucional o artigo 19 do Marco Civil da Internet, reconhece que provedores podem ser responsabilizados civilmente quando falham de forma sistêmica na remoção de conteúdos nocivos. Esse entendimento reforça que as plataformas não são apenas intermediárias técnicas, mas agentes com responsabilidade social, sobretudo em temas sensíveis como a saúde. Pensar o TikTok como aliado nas estratégias comunicativas implica também defender mecanismos de regulação, transparência e moderação qualificada para garantir o direito à informação segura e ao cuidado em saúde.
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Financiamento
Pesquisa realizada com bolsa Capes de Doutorado de Iago Marafina.
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Marafina I, Pinheiro R, Ortega F, Santana E. Não pula! Vamos falar sobre PrEP!: comunicação e educação em saúde sobre a profilaxia pré-exposição no TikTok. Interface (Botucatu). 2025; 29: e250296 https://doi.org/10.1590/interface.250296
Disponibilidade de dados
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Referências
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Editado por
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Editora
Mónica Petracci https://orcid.org/0000-0003-4504-8457
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Editora associada
Katia Lerner https://orcid.org/0000-0003-3655-9677
