Open-access Reconstrução pós-desastres e emergências em Saúde Pública: contribuições do Curso Nacional de Saúde Mental e Atenção Psicossocial na Covid-19

Post-disaster reconstruction and public health emergencies: contributions from a national course on mental health and psychosocial care during the Covid-19 pandemic

Reconstrucción pos-desastres y emergencias en salud pública: contribuciones del curso nacional de salud mental y atención psicosocial en la Covid-19

Resumo

Este relato de experiência descreve a formulação e a execução do “Curso Nacional de Saúde Mental e Atenção Psicossocial na Covid-19: Reconstrução Pós-Desastres e Emergências em Saúde Pública”, inserindo-se no debate sobre o papel do campo da Saúde Mental na promoção de sociedades mais preparadas para lidar com eventos extremos. Descreveu-se o perfil dos inscritos e do corpo docente, materiais didáticos que compuseram os seis módulos do curso, bem como questionamentos e comentários nos fóruns virtuais. Inscreveram-se 17.097 pessoas, predominantemente trabalhadores, gestores e estudantes. Oitenta docentes de especialidades distintas produziram materiais didáticos sobre reconstrução pós-pandemia. A análise temática dos questionamentos e comentários derivou seis temas: questões sistêmicas, intersetorialidade, intrassetorialidade, saúde dos trabalhadores, saúde das populações vulnerabilizadas e medicalização. Discute-se a importância da integração das etapas do ciclo de gestão de riscos e desastres no enfrentamento a emergências em Saúde Pública.

Palavras-chave
Reconstrução pós-desastre; Saúde mental; Sistemas de apoio psicossocial; Covid-19; Cursos de capacitação


Abstract

This experience report describes the formulation and execution of the “National Course on Mental Health and Psychosocial Care during the Covid-19 Pandemic: Post-Disaster Reconstruction and Public Health Emergencies”, incorporating this theme into the debate on the role of the mental health field in promoting societies that are better prepared to deal with extreme events. We describe the profile of course enrollees and teachers, the educational resources that made up the six modules of the course, as well as questions and comments raised in online forums. A total of 17,097 people subscribed to the course, made up predominantly of workers, managers and students. Eighty teachers from a range of specialties produced educational resources about post-pandemic reconstruction. The thematic analysis of the questions and comments resulted in six themes: systemic issues, intersectorality, intrasectorality, workers' health, the health of vulnerable populations and medicalization. We discuss the importance of integrating the stages of risk and disaster management cycles when responding to public health emergencies.

Keywords
Post-disaster reconstruction; Mental health; Psychosocial support systems; Covid-19; Training courses


Resumen

Este relato de experiencia describe la formulación y realización del “Curso Nacional de Salud Mental y Atención Psicosocial en la Covid-19: Reconstrucción Pos-desastre y Emergencias en Salud Pública”, insiriéndose en el debate sobre el papel del campo de la salud mental en la promoción de sociedades más preparadas para enfrentar eventos extremos. Se describió el perfil de los inscritos y del cuerpo docente, materiales didácticos que compusieron los seis módulos del Curso, así como cuestionamientos y comentarios en los foros virtuales. Se inscribieron 17.097 personas, (predominantemente trabajadores, gestores y estudiantes). Ochenta docentes de especialidades distintas produjeron materiales didácticos sobre reconstrucción pos-pandemia. El análisis temático de los cuestionamientos y comentarios incluyó seis temas: cuestiones sistémicas, intersectorialidad, intrasectorialidad, salud de los trabajadores, salud de las poblaciones en situación de vulnerabilidad y medicalización. Se discute la importancia de la integración de las etapas del ciclo de gestión de riesgos y desastres en el enfrentamiento de emergencias de salud pública.

Palabras clave
Reconstrucción pos-desastre; Salud mental; Sistemas de Apoyo psicosocial; Covid-19; Cursos de capacitación


Introdução

A Emergência em Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII) causada pela Covid-19 é considerada um dos maiores eventos extremos da contemporaneidade, por sua magnitude, impacto, durabilidade e grande assimetria entre os recursos existentes e aqueles necessários para seu enfrentamento1,2. Nos primeiros anos de difusão do contágio, foram produzidos conhecimentos sobre a doença, inclusive acerca de suas implicações na Saúde Mental e na Atenção Psicossocial, que seguem sendo divulgados3,4. Entretanto, concomitantemente à fase de resposta à Covid-19, foi – e ainda é – preciso reorganizar e redimensionar políticas públicas para a fase de reconstrução pós-emergência5,6.

Devido ao prolongamento e às repercussões sanitárias, políticas, econômicas e sociais, a Covid-19 pode ser mais bem caracterizada como uma sindemia2,7. Nessa perspectiva, os efeitos da ESPII no setor saúde, bem como na saúde individual e coletiva, são maiores que a doença em si. Assim, mesmo que o diagnóstico recebido por uma pessoa seja de Covid-19, suas implicações podem extrapolar os sintomas da doença e afetar diversas áreas da vida, provocando ou agravando o sofrimento psíquico, além de repercutir nas comunidades, sistemicamente2,5.

Portanto, emergências como a causada pela Covid-19 acarretam um excesso de demanda aos sistemas locais, de modo que estratégias diferentes daquelas habituais devem ser aplicadas para cuidar da população, estabilizar o cenário e reconstruir a comunidade atingida8,9. Internacionalmente, diversos documentos oferecem orientações para atuação em eventos extremos (ex., Marco de Sendai 2015-2030)10, demonstrando a importância da Gestão Integral de Riscos e Desastres (Gird). Assim, é preciso que governos, iniciativa privada, coletivos e comunidades se organizem em torno da Gird, porque responder a um evento extremo demanda gerenciar todo o seu ciclo. Isso significa trabalhar tanto em tempos de exceção quanto de normalidade para prevenir riscos futuros e mitigar os existentes, preparar respostas a eventuais crises e oferecê-las quando de sua ocorrência, além de reconstruir, reabilitar e recuperar territórios e contextos que vivenciaram situações excepcionais8,10.

No Brasil, o Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil alinha-se às premissas internacionais sobre intersetorialidade e integralidade, com foco na redução de danos causados por desastres e emergências11. Porém, apesar dos avanços, a experiência e a construção de conhecimentos sobre as outras fases dos eventos adversos, para além da resposta imediata (i.e., resgate e prestação de socorros logo após sua ocorrência), ainda são frágeis na gestão pública do país12.

O campo de desastres e emergências apresenta complexidade singular e demanda atuação intersetorial, de modo que implica a pactuação entre diferentes políticas e interesses públicos8,9. A noção de intersetorialidade é primordial em eventos extremos, juntamente à atuação e à vigilância constante para prevenir e mitigar consequências negativas, mesmo em tempos de normalidade3,8. Relaciona-se a esse debate o Plano de Ação Integral de Saúde Mental 2013-2030, da Organização Mundial da Saúde13, que enfatiza a importância da integralidade na perspectiva de promoção, prevenção e recuperação de transtornos ou outras formas menos instituídas de sofrimento psíquico, em todos os setores da sociedade.

Portanto, é papel do campo da Saúde Mental participar da criação de políticas, planos, propostas de liderança e governança mais efetivas, bem como difundir a importância da Saúde Mental para o bem-estar e bem-viver, sem necessariamente propor tratamentos ou patologizar sujeitos. A intersetorialidade e a integralidade são, então, fundamentais para o avanço das políticas de Saúde Mental e a atuação em todos os momentos da vida, sem restrição às situações de grave sofrimento psíquico13.

À vista disso, o campo da Saúde Mental se expande e se diversifica para além do atendimento a demandas de sofrimento psíquico. Permite-se, assim, refletir sobre seu papel na construção de sociedades mais preparadas, dignas e dispostas a mitigar a magnitude do impacto de eventos extremos que geram desamparo e transbordam a capacidade de manejo exclusivamente no plano individual, exigindo aportes psicossociais. Nesse contexto desafiador, de se pensar a transversalidade da Saúde Mental em uma ESPII com ênfase a processos de reconstrução, insere-se o presente relato de experiência, cujo objetivo é descrever a formulação e a execução do “Curso Nacional de Saúde Mental e Atenção Psicossocial na Covid-19: Reconstrução Pós-Desastres e Emergências em Saúde Pública”.

Sobre o curso

O curso ora analisado, gratuito aos inscritos, foi coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e financiado por uma emenda parlamentar, bem como contou com o apoio da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). A oferta ocorreu na modalidade de Educação a Distância, com carga horária de 50 horas, de junho a outubro de 2022. Embasou-se especificamente no processo de reconstrução das Redes de Atenção Psicossocial (Raps) após a sindemia, em alinhamento às estratégias da Gird. Nesse sentido, pautou-se na perspectiva de continuidade ao “Curso Nacional de Saúde Mental e Atenção Psicossocial na Covid-19”, ofertado pela Fiocruz de maio a setembro de 2020, que abordou a fase de resposta à emergência e contou com aproximadamente setenta mil inscritos14.

A inscrição ocorreu pelo preenchimento de uma ficha contendo dados como nome, sexo, raça/cor, local de residência, além de informações sobre escolaridade, ocupação e tempo de experiência profissional em desastres e emergências. Os inscritos tinham acesso ao Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA), com materiais referentes a cada um dos seis módulos do curso: (a) cartilha; (b) vídeos com aulas síncronas e assíncronas (sendo as aulas síncronas disponibilizadas no AVA após sua realização); (c) vídeos com relatos de experiência; (d) fórum virtual para questionamentos e comentários; (e) videorresposta aos principais questionamentos e comentários dos participantes, disponibilizados aproximadamente duas semanas após a exibição de cada aula síncrona (esses materiais serão analisados detalhadamente na sequência).

Afora os materiais didáticos dos módulos, constavam também no AVA: (a) Guia do Estudante, com informações sobre objetivos e estrutura do curso, recomendações para facilitar o processo de ensino-aprendizagem, calendário de atividades, descrição da equipe de professores e moderadores, orientações sobre suporte técnico, avaliação e certificação; (b) vídeos de apresentação do curso; (c) biblioteca contendo referências utilizadas para confecção dos materiais didáticos e conteúdos adicionais (ex., artigos, manuais e materiais audiovisuais sobre temáticas abordadas nos módulos).

Percurso metodológico

Para analisar o processo de trabalho envolvido na formulação e na execução do curso, o presente relato de experiência utiliza fontes de dados variadas, o que demanda diferentes estratégias de análise. Na primeira etapa, relativa à formulação da proposta, descreve-se o perfil do corpo docente e as características dos materiais didáticos produzidos. Na segunda etapa, referente à execução, apresenta-se o perfil dos inscritos conforme dados da ficha de inscrição, bem como a análise temática indutiva15 de questionamentos e comentários postados pelos participantes no fórum virtual de cada módulo. A análise temática indutiva foi realizada pela equipe de moderadores do curso, composta por cinco psicólogos, pós-graduados em áreas como Gird, Saúde Mental e Atenção Psicossocial (informações sobre esse processo serão detalhadas na sequência).

Por consistir em uma construção derivada da prática profissional e reportar uma experiência com finalidade de ensino e treinamento, sem utilizar dados que pudessem revelar os inscritos, não houve registro e avaliação por Comitê de Ética em Pesquisa (conforme itens V, VII e VIII do Artigo 1º. da Resolução 510/2016, do Conselho Nacional de Saúde)16. Além disso, optou-se por sintetizar os questionamentos e comentários constantes no fórum virtual para resguardar o conteúdo essencial das contribuições e preservar o sigilo dos participantes.

Processo de formulação do curso: descrição do perfil do corpo docente e características dos materiais didáticos produzidos

Oitenta docentes participaram do curso, sendo quatro deles coordenadores da proposta. Em alinhamento à noção de sindemia2,7 e à necessidade de abarcar a complexidade das demandas de reconstrução pós-emergência10, formou-se uma equipe interdisciplinar e intersetorial12, apostando na heterogeneidade e na sinergia do encontro das diversas inserções e intercessões para produção de práticas de cuidado pertinentes a cada situação loco-regional (ex., municípios de pequeno, médio e grande portes nas diferentes regiões do Brasil). Assim, os membros do corpo docente eram profissionais com diferentes formações (ex., Psicologia, Medicina, Direito, Engenharia) e especialidades (ex., pesquisadores do campo de emergências e desastres, saúde mental, saúde do trabalhador e habitação; trabalhadores humanitários; gerentes e profissionais de serviços da Raps; gestores das áreas de saúde, educação, assistência social, proteção e defesa civil; ex-secretários municipais e estaduais de saúde e ex-ministro da saúde).

O corpo docente realizou as seguintes atividades: elaboração de vídeos de apresentação do curso (n = 2); redação e revisão técnico-científica das cartilhas (n = 6); aulas síncronas (n = 8) e assíncronas (n = 17); vídeos com relatos de experiência sobre reconstrução pós-desastres e emergências, considerando tanto a Covid-19 quanto outros eventos extremos (n = 16); moderação e respostas a questionamentos e comentários dos participantes nos fóruns virtuais (n = 6). Essa diversidade de dispositivos de aprendizagem permitiu abarcar diferentes matizes relacionadas às temáticas dos módulos e, ao mesmo tempo, trazer às discussões olhares de distintos campos profissionais e territórios do país. Conforme demonstrado na Tabela 1, as temáticas dos módulos abrangeram a complexidade da demanda de reconstrução pós-Covid-19, com ênfase à noção de sindemia e à necessidade de atuação pautada na perspectiva de intersetorialidade e integralidade.

Tabela 1
Conteúdo programático do curso.

Os coordenadores do curso eram psicólogos com experiência como profissionais, gestores e docentes em Saúde Pública, desastres e emergências. Sua contribuição se deu na conceptualização, formulação e execução do curso, o que demandou dedicação intensa e prontidão na tomada de decisões sobre o formato da proposta, definição do perfil e realização do convite aos professores e à equipe de apoio; delimitação das temáticas dos módulos, produção e disponibilização de materiais didáticos; comunicação e interatividade com docentes, discentes e corpo técnico das instituições envolvidas. Em certa medida, as exigências do trabalho de coordenação se assemelharam à intervenção de território em desastres e emergências, configurando um plantão pedagógico permanente, com necessidade de pactuações e respostas balizadas em indagações, divergências e situações desafiadoras, em constante construção coletiva14.

Quanto aos materiais didáticos, para a elaboração das seis cartilhas foram consideradas recomendações gerais para produção de manuais sobre orientações de cuidados em saúde14. Adotou-se linguagem acessível e formato amigável, atentando-se à disposição do texto e ao uso de cores, figuras e esquemas, com vista a torná-las mais atrativas à leitura. As cartilhas tinham extensão de 26 laudas, em média. O acesso a elas foi disponibilizado adicionalmente a pessoas não inscritas no curso, buscando disseminar conhecimentos sobre reconstrução pós-desastres e emergências17.

Os vídeos também foram produzidos com linguagem acessível, baseados em evidências científicas e recomendações técnicas de organismos nacionais e internacionais. As sete aulas síncronas (uma inaugural e seis referentes a cada módulo), em particular, foram disponibilizadas no AVA após a transmissão ao vivo, o que garantiu maior flexibilidade para o acompanhamento do curso aos inscritos que não puderam vê-las no momento da realização14. Além disso, optou-se por publicizar as sete aulas síncronas também no Youtube, possibilitando o acesso ao público geral interessado na temática. Até 25 de julho de 2024, esses vídeos contavam com 60.983 visualizações no Youtube18.

Processo de execução do curso: descrição do perfil dos inscritos e análise de questionamentos e comentários postados em fóruns virtuais

O curso contou com 17.097 inscrições, sendo a maioria de mulheres cisgênero (68%). Quanto à raça/cor, autodeclararam-se brancas, 48%, pardas, 36% e pretas, 12% das pessoas inscritas. Sobre a atuação profissional, conforme detalhado na Tabela 2, houve predomínio de trabalhadores (38%) e gestores (15%) de diferentes políticas públicas, sobretudo na área da Saúde, bem como de estudantes (23%). Dos inscritos, 57% informaram não possuir experiência profissional em situações de desastres e emergências, ao passo que 35% referiram experiência de até cinco anos. Ademais, 38% eram servidores públicos (25% municipais, 8% estaduais e 5% federais), 14% profissionais autônomos e 13% funcionários de instituições privadas. Os inscritos eram provenientes das cinco regiões do Brasil, conforme apresentado na Tabela 2.

Tabela 2
Perfil dos inscritos quanto à atuação profissional e regiões do país.

Quanto à participação dos inscritos nos fóruns virtuais, 677 questionamentos e comentários (113 por módulo, em média) foram postados no AVA entre junho e outubro de 2022. Os moderadores tiveram uma postura ativa nas respostas aos conteúdos trazidos para os fóruns virtuais, criando interações construtivas, em uma rede intercomunicativa que envolveu discentes e docentes no processo de troca de saberes e experiências pessoais. Os questionamentos e comentários foram analisados, inicialmente, para as respostas escritas no AVA. Perguntas e reflexões que exigiam elaboração mais complexa foram discutidas nos videorrespostas. Com base na proposta de análise temática indutiva15, uma das moderadoras analisou os questionamentos e comentários postados em cada fórum virtual durante a realização do curso e extraiu os principais temas com auxílio do editor de planilhas Excel. Após, esses temas foram discutidos com os demais moderadores, também familiarizados com os conteúdos, para refinamento e definições sobre as respostas por escrito no AVA e nas videorrespostas.

Ao final do curso, compilou-se todo o material referente aos seis módulos para aperfeiçoamento da análise temática indutiva, integrando o corpo de dados15. Assim, realizou-se um processo reflexivo e dialógico em que os cinco moderadores se engajaram em discussões, releitura do corpo de dados e revisão dos temas previamente construídos para assegurar uma organização que representasse os aspectos centrais dos questionamentos e comentários, considerando tanto a frequência quanto a afinidade com os conteúdos do curso. Ao final, seis temas foram derivados da análise temática indutiva, os quais refletem preocupações da Raps no Brasil durante a reconstrução pós-Covid-19: questões sistêmicas, intersetorialidade, intrassetorialidade, saúde dos trabalhadores, saúde das populações vulnerabilizadas e medicalização. A Tabela 3 apresenta esses temas, bem como uma síntese dos questionamentos e comentários que os fundamentaram.

Tabela 3
Síntese dos temas construídos por meio de questionamentos e comentários nos fóruns virtuais.

Desafios e potencialidades para as políticas públicas na reconstrução pós-desastres: reflexões com base no curso

Analisando-se os questionamentos e comentários postados nos fóruns dos seis módulos, identificou-se a heterogeneidade das reflexões compartilhadas pelos inscritos, que por vezes transcendiam o conteúdo proposto e suscitavam discussões diversas e mais amplas. Tratava-se de uma variedade que contemplava desde perguntas concretas, como fluxos da rede assistencial, até relatos subjetivos, em primeira pessoa, sobre a Saúde Mental do trabalhador que atuou na Covid-19. Os seis temas derivados da análise sumarizaram desafios e potencialidades da Raps na reconstrução pós-Covid-19.

Sobre as questões sistêmicas, apesar dos desafios referentes à alocação de recursos, o SUS demonstrou sua potência na Atenção à Saúde durante a ESPII da Covid-1919. Entretanto, ainda é necessário elaborar políticas públicas, assim como estratégias mais específicas, que aprimorem as ações das equipes das Redes de Atenção à Saúde para acolher as demandas de Saúde Mental e Atenção Psicossocial20. Como exemplo, cita-se o importante papel que a APS vem cumprindo, mesmo com dificuldades, como porta de entrada para acolhimento e oferta de cuidados no nível primário, cujo trabalho será aprimorado quanto mais houver capacitações/ações de Educação Permanente que englobem Saúde Mental e Atenção Psicossocial20,21.

Mesmo sem menção direta, a mudança no financiamento da APS vigente à época19, que impactou a configuração e os processos de trabalho das equipes multiprofissionais, perpassou a percepção dos inscritos sobre os desafios da integralidade e do matriciamento. Isso demonstra a importância de pensar a Gird como um ciclo contínuo, em que decisões tomadas em tempos de normalidade estão diretamente vinculadas à capacidade de gestão de momentos de exceção3,8. É, porém, um processo complexo, porque a reconstrução pós-desastres e emergências se confunde com momentos de rotina, incidindo no desenvolvimento das cidades e nos processos da vida social que abrangem educação, trabalho, saúde, entre outros setores.

Nessa direção, as questões sistêmicas se conectam ao tema da intersetorialidade, pois a experiência da ESPII da Covid-19 reforçou a necessidade de articular, tanto na promoção quanto na prevenção e no cuidado em Saúde Mental, respostas em diversos níveis e setores de atuação, e não apenas no campo da Saúde, propondo medidas estruturais, macrossociais e microssociológicas, em que a escuta e o olhar clínico ao sofrimento psíquico se fazem presentes21. Conforme reforçado por organismos internacionais13,22 e em alinhamento ao que a presente experiência procurou debater, as práticas em Saúde Mental precisam acontecer mediante relação entre políticas públicas, sociedade civil, iniciativa privada e Educação Permanente aos gestores e trabalhadores de modo contínuo e não apenas na resposta a uma emergência8,21.

Os participantes do curso ressaltaram que a transversalidade da Saúde Mental requer a abertura de possibilidades de trabalho para profissionais tradicionalmente vinculados ao atendimento direto da população (ex.: psicólogos, terapeutas ocupacionais e assistentes sociais) para uma atuação além da já realizada. Isso pode ocorrer por meio de articulação de redes intersetoriais, promoção da Saúde Mental, inserção do tema em outras políticas públicas e espaços institucionais, constituição de equipes e/ou serviços temporários, elaboração de planos de contingência e prevenção de desastres e emergências. Tais reflexões sugerem, portanto, a relevância de se pensar em soluções e arranjos inovadores para fazer frente aos novos desafios impostos pela Covid-193,7. Algumas soluções e arranjos foram desenvolvidos de modo instituinte em diferentes territórios e regiões do Brasil e integram o acervo didático do curso nos vídeos, com relatos de experiência.

Nesse sentido, destaca-se o tema da intrassetorialidade, visto que a inovação no cuidado em saúde pode se dar pela articulação de dispositivos existentes a novos dispositivos, que venham a ser criados com base nas necessidades da população, e não apenas na lógica biomédica1. Assim, é possível valorizar diferentes saberes por meio da oferta de cuidado ampliado, promovendo a integralidade3,6. Dentre os novos dispositivos estão as TICs, elementos-chave para a continuidade dos atendimentos nos períodos da sindemia que exigiram maior isolamento. As TICs podem ser incorporadas na reconstrução pós-Covid-19, tanto em ações intersetoriais quanto intrassetoriais, quando seu uso trouxer uma dinâmica positiva ao cuidado (para uma discussão mais ampla sobre a transformação digital do cuidado, com possibilidades para além do teleatendimento, acessar a cartilha do módulo 4 do curso)17.

Embora tenham enfatizado a inovação trazida pelas TICs, os participantes ressaltaram também os desafios para efetivar ações inter e intrassetoriais, bem como esgotamento e sofrimento de equipes com condições de trabalho precarizadas. Diferentes estudos têm abordado as repercussões negativas da Covid-19 sobre a Saúde Mental de profissionais da saúde, em particular os que trabalharam na linha de frente6,20. Trabalhar em desastres e emergências em Saúde Pública é potencialmente fator gerador de satisfação pessoal, mas também de sofrimento psíquico, principalmente quando não há preparo para manejar as demandas, tampouco acolhimento às necessidades desses profissionais20,21. No curso, observou-se que o sofrimento psíquico reportado pelos participantes era comumente tomado como algo individual, e não sistêmico. Assim, a reconstrução pós-Covid-19 deve considerar a importância da Raps como apoio a trabalhadores da saúde com demandas de cuidados de base territorial20.

Afora a saúde dos trabalhadores, destacou-se ainda o tema da saúde das populações vulnerabilizadas, refletindo-se que a sobreposição de vulnerabilidades na ESPII da Covid-19 aumentou a exposição da população a riscos3,6. Tal fato requer que as políticas públicas assegurem direitos básicos e as vulnerabilidades possam ser encaradas como fruto de relações entre vidas singulares e contextos em que elas ocorrem, e não como determinantes estanques e definitivos. Uma saída interessante seria a compreensão dos processos saúde-doença como multideterminados por tais relações e contextos23.

Sobre a medicalização, comentários e questionamentos dos participantes revelaram o receio de que a prescrição de psicofármacos se tornasse primariamente, ou até exclusivamente, a estratégia para lidar com o sofrimento gerado pela sindemia, fragilizando a oferta de outras propostas. Repercussões sobre a Saúde Mental são esperadas em decorrência do ônus psicossocial derivado da sindemia, embora as prescrições não possam ser encaradas como mediadoras de conflitos e angústias congruentes ao período pós-Covid-19, que não necessariamente consistem em condições psiquiátricas24. Nas últimas décadas, tem-se observado o aumento da medicalização de eventos normativos da vida, a exemplo das reações de luto25. Nesse contexto de medicalização excessiva, os próprios usuários tendem a solicitar a prescrição24, tal como pontuado por participantes do curso, o que sugere a importância de medidas educativas relacionadas à orientação sobre o uso racional de medicamentos.

Considerações finais

O presente estudo relatou a experiência de formulação e execução do “Curso Nacional de Saúde Mental e Atenção Psicossocial na Covid-19: Reconstrução Pós-Desastres e Emergências em Saúde Pública”, que buscou contribuir na qualificação profissional de trabalhadores e gestores de políticas públicas, atores-chave na redução de riscos desencadeados por eventos extremos. Como essa foi uma ação pontual focada na fase de reconstrução pós-Covid-19, em continuidade à primeira edição do curso voltada à fase de resposta à emergência14, destaca-se a importância da efetivação da Educação Permanente em desastres e emergências. Sugere-se a articulação do ensino-serviço-pesquisa-comunidade, para favorecer a participação popular na construção de políticas públicas que englobem Saúde Mental e Atenção Psicossocial em desastres e emergências, com inclusão de todas as etapas da Gird no enfrentamento a eventos extremos, assegurando a integralidade.

Diante da sindemia de Covid-19, é crucial que as políticas públicas promovam a atuação intersetorial comprometida com a participação social, com ênfase no desenvolvimento de ações voltadas à equidade durante a reconstrução, considerada prioritária pelo Marco de Sendai 2015-203010, junto da recuperação e da reabilitação. As orientações internacionais são claras em relação à importância do trabalho contínuo para a efetiva redução de riscos, bem como sobre quanto esse trabalho preventivo tem um custo financeiro menor do que a recorrente resposta a eventos de grande impacto. Além disso, reforça-se a importância de que todos os setores públicos – incluindo a saúde – estabeleçam seus planejamentos levando em consideração as mudanças climáticas, o desenvolvimento sustentável e a mitigação dos riscos e potenciais impactos das Emergências em Saúde Pública, a fim de aumentar a resiliência dos sistemas. Compreende-se, portanto, que a experiência gerada nesse curso está vinculada ao compromisso de contribuir para a inserção da Saúde Mental e da Atenção Psicossocial em discussões e ações intersetoriais voltadas à constituição de uma sociedade mais digna, equânime e preparada para lidar com crises e adversidades.

Agradecimentos

A Maria Fabiana Damásio Passos, André Guerrero, June Scarfuto, Cinthya Gonçalvez, Jaqueline Assis, Maria Rezende (todos da Fiocruz-Brasília), Carolina Tavares, Catarina Dahl (ambas da Opas), Erick Guilhon e Adriana Marinho (da equipe de diagramação do curso), equipe do NUSMAPS e todos os professores(as) pelo trabalho realizado para a produção do curso.

  • Weintraub ACAM, Meneses SS, Noal DS, Fagundes SMS, Coelho LG, Melo BD, Souza MNG, Magrin NP, Schmidt B. Reconstrução pós-desastres e emergências em Saúde Pública: contribuições do curso nacional de Saúde Mentale Atenção Psicossocial na Covid-19. Interface (Botucatu). 2025; 29: e240082 https://doi.rg/10.1590/interface.240082

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    05 Mar 2024
  • Aceito
    08 Out 2024
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