Open-access Escape room de dimensionamento do quadro de profissionais de enfermagem: relato de experiência no ensino de Pós-Graduação

Escape room de dimensionamiento del cuadro de profesionales de enfermería: relato de experiencia en la enseñanza de postgrado

A pandemia da Covid-19 caracterizou-se pela maior interrupção do processo de ensino-aprendizagem da história e, para minimizar esse evento, o ensino remoto emergencial tornou-se estratégia para retomada e continuidade das aulas. Nesse contexto, as Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) associadas às metodologias de aprendizagem ativa ganharam maior protagonismo para execução de atividades remotas. Este estudo objetivou relatar a experiência da aplicação de um escape room sobre o dimensionamento do quadro de profissionais de enfermagem no ensino de Pós-Graduação. Trata-se de uma metodologia de ensino-aprendizagem ativa e participativa, elaborada por meio da ferramenta Google Forms, em formato de escape room, com subtemas acerca do Dimensionamento de Pessoal de Enfermagem. A estratégia construída e relatada demonstrou ser viável para aplicação em diversos cenários de formação da enfermagem, Graduação, Pós-Graduação, bem como no contexto do trabalho, como educação continuada.

Palavras-chave
Educação em enfermagem; Recursos humanos de enfermagem hospitalar; Covid-19; Educação a distância; Gamificação


ABSTRACT

Covid-19 was characterized by the largest interruption in the teaching-learning process in history. To minimize this event, emergency remote teaching became a strategy to seamless resuming classes. In this context, Information and Communication Technologies (ICT), combined with active learning methodologies, have gained prominence for remote activities. The aim of this study was to report on the experience of applying an escape room to estimate nursing professionals numbers in the context of postgraduate training. It is an active and participatory teaching-learning methodology, developed using the Google Forms tool, in escape room format, with sub-themes on the dimensioning of nursing staff. The reported strategy proved to be viable for application in different settings of nursing training, pre-graduate, post-graduate, as well as in the labor context of continuing education.

Keywords
Education, nursing; Nursing staff, hospital; Covid-19; Education, distance; Gamification

La pandemia de Covid-19 se caracterizó por la mayor interrupción del proceso de enseñanza-aprendizaje de la historia y, para minimizar ese evento, la enseñanza remota de emergencia pasó a ser la estrategia para la reanudación y continuidad de las clases. En este contexto, las Tecnologías de la Información y Comunicación (TICs) asociadas a las metodologías de aprendizaje activo obtuvieron mayor protagonismo para la realización de actividades remotas. El objetivo de este estudio fue relatar la experiencia de la aplicación de un escape room sobre el dimensionamiento del cuadro de profesionales de enfermería en la enseñanza de postgrado. Se trata de una metodología de enseñanza-aprendizaje activo y participativo, elaborado por medio de la Google Forms, em formato de escape room, con subtemas sobre el Dimensionamiento de Personal de Enfermería. La estrategia construida y relatada demostró ser viable para aplicación en diversos escenarios de formación de enfermería, graduación, postgrado, así como en el contexto del trabajo como educación continuada.

Palabras clave
Educación en Enfermería; Recursos Humanos de Enfermería Hospitalaria; Covid-19; Educación a Distancia; Ludificación


Introdução

A Síndrome Respiratória Aguda Grave, causada pelo Coronavírus-2 (SARS-CoV-2), agente causador da Doença Corona Virus Disease 2019 (Covid-19), atingiu nível pandêmico no dia 11 de março de 2020. Por ser de alta transmissibilidade entre humanos, provocou mudanças em todos os setores, atingindo diretamente a economia dos países, gerando uma crise global sem precedentes, sobretudo no setor saúde com superlotação dos serviços em escala mundial1,2.

No ensino superior, a pandemia de Covid-19 caracterizou-se pela maior interrupção do processo de ensino-aprendizagem da história, com a paralisação do sistema de educação em todo o mundo, ao menos momentaneamente3. Para minimizar seus efeitos, o ensino remoto emergencial ganhou protagonismo para a retomada e a continuidade das aulas, com destaque para o uso de Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs)4. No Brasil, destaca-se que o Ministério da Educação, pela portaria n. 544 de junho de 2020, autorizou, de forma excepcional, a substituição de disciplinas presenciais por atividades digitais5.

As TICs podem ser definidas como dispositivos desenvolvidos, cujos objetivos consistem em obtenção, armazenamento e processamento de informações que favoreçam e facilitem sua comunicação e compartilhamento entre as pessoas. Elas apresentam o potencial de apoiar o processo de ensino-aprendizagem colaborativo, crítico, reflexivo e, nesse sentido, permitem a formação de gerações conectadas em rede6.

As TICs são instrumentos facilitadores do processo de aprendizagem, porém, por se tratar de uma possibilidade de apoio ao docente, é a capacidade do educador de utilizá-la que vai determinar o êxito da atividade de formação. Ao serem associadas às metodologias de aprendizagem ativa, refletem o compromisso do educador em mediar a aprendizagem, distanciando-se da educação tradicional. Vale ressaltar que a adoção de metodologias de aprendizagem ativas não é um modismo pedagógico, passageiro e despropositado, uma vez que se consolidou como horizonte a ser alcançado, reconhecida inclusive nas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN)7,8.

Dentre inúmeras metodologias de aprendizagem ativas e participativas, destaca-se a trilha de aprendizagem, definida como um conjunto sistemático e multimodal de unidades de aprendizagem com diferentes modos de navegação, que podem ir desde modelos lineares, prescritivos, até modelos mais hierárquicos com possibilidade de alcançar um modelo em rede, de navegação livre e personalizada para cada estudante. Esses esquemas de navegação personalizados na medida em que se reconhecem as variáveis, como objetivos de aprendizagem, perfil do estudante, características de aprendizagem, podem auxiliar no desenvolvimento de competências9,10. Possibilitam a inserção de diversas atividades de aprendizado e, quando associados às mídias digitais, apresentam itinerários formativos que sejam mais próximos das preferências e da literacia digital do estudante11.

As trilhas de aprendizagem podem ser estruturadas no formato de escape room, em português “sala de fuga”, uma estratégia de gamificação que pode ser utilizada no ensino. Estruturada como um jogo, é organizada de modo que as equipes participantes tenham como desafio “escapar” das salas resolvendo enigmas e desafios apresentados dentro de um determinado tempo. De forma divertida e competitiva, a equipe consegue por meio de pistas, quebra-cabeças, charadas, palavrascruzadas, entre outros desafios, resolver as etapas propostas até chegar ao resultado final, escapando da sala12.

O escape room, popular entre jovens, possibilita que os estudantes aprendam por meio de jogos nos quais há competição (equipe versus equipe), mas também colaboração (intraequipe). Ou seja, ao serem apresentados à problemática e trabalharem em grupo para respondê-la, precisam estabelecer consensos e tomar decisões de forma coletiva. Dentre muitas vantagens, o escape room proporciona maior satisfação dos estudantes com a experiência de aprendizagem, expondo-os a certo grau de estresse em ambiente seguro e controlado, desenvolvimento de habilidades e atitudes, incentivo ao trabalho em equipe, comunicação, criatividade, aprendizagem ativa, além de ser válido para a aquisição de competências profissionais13.

Estudo descritivo na enfermagem mostrou que o escape room estimula o aprendizado de forma divertida, além de aumentar a motivação, a participação e o engajamento do estudante14. Outro estudo demonstrou que o escape room permite agregar maior conhecimento ao estudante15.

Nesse relato, a temática do escape room construído foi o dimensionamento do quadro de profissionais de enfermagem, uma ferramenta para a gestão de pessoas contemplada na estrutura do conhecimento de administração em enfermagem16. Seus cálculos possibilitam prever o número necessário de profissionais para desempenhar as atividades de enfermagem de diferentes categorias. Cabe ressaltar que, dentre cinco processos de trabalho do enfermeiro, o processo de trabalho “administrar” necessita de conhecimentos e ferramentas para organizar o ambiente de trabalho; e identificar o quantitativo de pessoal necessário para prestar assistência é de fundamental importância, sendo uma temática do ensino de Graduação da Enfermagem17,18.

Diante do desafio de adotar metodologias de ensino-aprendizagem ativas e participativas no contexto do ensino remoto durante a pandemia da Covid-19, questionou-se: “De que forma uma trilha de aprendizagem no formato de escape room pode ser utilizada no processo de ensino-aprendizagem?”. Para responder a essa indagação, o estudo teve como objetivo relatar a experiência da aplicação de um escape room como metodologia de ensino-aprendizagem ativa e participativa sobre a temática da área de administração em enfermagem.

Método

Trata-se de um estudo que relata a experiência de desenvolvimento e aplicação de um escape room na área de ensino de administração de serviços de enfermagem, focado no dimensionamento do quadro de profissionais de enfermagem durante o ano letivo de 2021. O relato de experiência é um estudo qualitativo que tem por objetivo descrever uma experiência, um fenômeno ou um processo em detalhes18.

A proposta foi idealizada por duas estudantes vinculadas a um programa de Pós-Graduação em Enfermagem de uma universidade federal, uma de Mestrado e outra de Doutorado, sob supervisão de docentes da disciplina de Estratégias de Ensino em Administração em Enfermagem, ministrada para estudantes da Pós-Graduação.

Sequencialmente, as estudantes, sob a supervisão dessas docentes, passaram pelo seguinte processo de construção, apresentado na Figura 1 e descrito detalhadamente abaixo:

Figura 1
Sequência da construção da proposta relatada nesta experiência.

No início da disciplina Estratégias de Ensino em Administração em Enfermagem” foi solicitado aos pós-graduandos que, em duplas, escolhessem um tema pertencente à Estrutura do Conhecimento sobre Administração dos Serviços de Enfermagem16 e uma metodologia de ensino ativa e participativa para desenvolver e aplicar em aula aos demais estudantes matriculados nessa disciplina. Coube aos estudantes de Pós-Graduação elaborar um plano de aula e ministrá-lo em até 50 minutos, atividade proposta como parte do desenvolvimento docente de estudantes da Pós-Graduação.

As estudantes, sob orientação de docentes, decidiram trabalhar com a temática “Dimensionamento do quadro de profissionais de enfermagem”, um instrumento gerencial indispensável para os serviços de saúde e de enfermagem, cuja finalidade é prever a quantidade e a formação de trabalhadores para atender direta ou indiretamente às necessidades assistenciais de enfermagem de acordo com o perfil dos pacientes atendidos naquele serviço. Justifica-se a importância da temática devido à compreensão de que a realização do cálculo adequado resulta em redução de mortalidade e eventos adversos e, consequentemente, impacta na qualidade e na segurança da assistência18,19.

A escolha da estratégia associada ao tema foi consensual; em reuniões para discussões e reflexões, decidiu-se pelo escape room em formato de trilha de aprendizagem, considerada adequada para estimular a participação do estudante no processo de aprendizagem. O escape room é uma ferramenta que incentiva os estudantes a aprender e acompanhar o desenvolvimento de seus próprios conhecimentos. Nessa estratégia, eles ficam dentro de uma “sala” que pode ser física ou virtual, na qual o intuito é fugir; para tanto, é necessário resolver enigmas propostos que, ao serem solucionados, permitem deixar a sala com sucesso e vencer20.

Uma das motivações da escolha do tema e da metodologia foi justamente o fato de se tratar de temática complexa, mas que afeta diretamente o cotidiano dos serviços de saúde, seja na perspectiva dos pacientes e na qualidade seja na segurança da assistência ou na saúde do trabalhador. Durante a pandemia da Covid-19, essa temática pôde ser analisada diante do novo contexto por meio de discussões sobre qual seria a composição ideal das equipes de enfermagem para manutenção da qualidade e da segurança da assistência prestada, tanto para pacientes como para os profissionais de enfermagem; isso demonstra não se tratar de uma ferramenta inócua, mas que interfere de forma significativa na qualidade assistencial19. Ainda, por envolver processos de cálculo, é considerada uma temática complexa pelos estudantes.

O escape room, em formato de trilha de aprendizagem sobre dimensionamento de pessoal de enfermagem, pareceu oportuno, visto que se trata de um assunto importante e complexo. Justificou-se pelo estímulo de participação que a metodologia permite ao incentivar a aprendizagem de forma divertida e envolvente. Contudo, a todo momento foi pontuada a potencialidade de replicação da metodologia para outras temáticas do processo de trabalho “administrar”.

Para a elaboração da estratégia, foram realizadas reuniões no formato on-line entre as estudantes proponentes e docentes via plataforma Google Meet. As estudantes realizaram a busca de artigos científicos e resoluções para o embasamento e a elaboração do escape room. Assim, seguiu-se a Resolução do Conselho Federal de Enfermagem Cofen 543/201721, que estabelece os parâmetros mínimos para dimensionar o quantitativo de profissionais das diferentes categorias de enfermagem. O plano de aula foi compartilhado no Google Drive para elaboração conjunta, bem como a construção do escape room. Descrevia como objetivo geral da aula compreender e ser capaz de realizar as etapas do cálculo de dimensionamento do quadro de profissionais de enfermagem para unidades de internação. Os objetivos específicos foram: conhecer e compreender a resolução do conselho de classe destinada ao dimensionamento de enfermagem e realizar os seis passos para o dimensionamento do quadro de profissionais de enfermagem.

O escape room foi elaborado na ferramenta Google Forms, em formato de trilha de aprendizagem, com estações divididas em seções denominadas salas, por se tratar da proposta de escapar dessas salas e avançar na proposta de resolução dos enigmas. Assim, o escape room foi estruturado em seis salas temáticas e 21 seções, tendo em cada sala um subtema do processo de dimensionamento do quadro de profissionais de enfermagem: Sala 1 (um) - Sistema de Classificação de Pacientes (SCP); Sala 2 (dois) - Número Médio Diário de Pacientes (NMDP); Sala 3 (três) - Total de Horas de Enfermagem (THE); Sala 4 (quatro) - Constante de Marinho (KM); Sala 5 (cinco) - Quantitativo de pessoal total e por categoria; Sala 6 (seis): sala de fuga. O fluxo do escape room pode ser consultado na Figura 2 a seguir:

Figura 2
Escape room - dimensionamento do quadro de profissionais de enfermagem.

Para cada sala, foi elaborada uma questão objetiva com quatro alternativas, na qual apenas uma era correta. Além das quatro assertivas, havia a opção denominada “dica”, à qual os estudantes poderiam recorrer antes de marcar a alternativa escolhida. Assim, se optassem pela alternativa correta, os estudantes seriam direcionados para a próxima sala e, caso optassem pela alternativa incorreta, seriam direcionados para a Sala de Reforço, estruturada com conteúdo para revisão. Após navegar pelo conteúdo, o estudante poderia retornar ao escape room para sua continuidade.

A proposta original era de que o escape room fosse realizado em até 30 minutos, visto que o público-alvo eram os estudantes de Graduação em Enfermagem. Cada questão possuía pontuação de dois pontos e poderia totalizar 12 pontos ao final. Caso o grupo errasse a questão e fosse para a Sala de Reforço, seria descontado 0,30 ponto; em caso de infração, também se descontaria 0,30 ponto. Assim, com dois critérios de pontuação, a equipe vencedora seria aquela que “escapasse” da sala primeiro (tempo) e também atingisse a maior pontuação (acertos).

O escape room, após estruturado, foi avaliado por dois juízes com titulação de doutores, atuantes no ensino de Graduação de Enfermagem da área de Administração que utilizam metodologias de aprendizagem ativas. A avaliação pelos juízes consistiu em percorrer o escape room como um estudante o faria e, ao final, responder a um questionário que avaliava o tema escolhido, a metodologia de aprendizagem ativa utilizada, o conteúdo e a pertinência da atividade, com espaço para sugestões e comentários.

Após as devolutivas, foram feitas correções pelas proponentes e, por fim, o escape room foi aplicado e testado em sala de aula, no formato remoto, para estudantes de Pós-Graduação, como produto avaliativo da disciplina.

Resultados da experiência

A metodologia ativa e participativa sobre o dimensionamento do quadro de profissionais de enfermagem proposta por pós-graduandos foi implementada em novembro de 2021. No momento da aplicação, participaram 21 pós-graduandos e quatro docentes da disciplina. As estudantes proponentes apresentaram o plano de aula, encaminhado previamente aos estudantes, juntamente com material de apoio para estudo que incluía dois artigos científicos e a legislação do dimensionamento do quadro de enfermagem. O contato prévio com o material abordado no momento síncrono, considerando a sala de aula invertida, não era inicialmente o foco da abordagem, mas foi requerido para que o estudante tivesse acesso ao conteúdo antes da aula, com a instrução individual de leitura prévia22. O não cumprimento do estudo prévio, acerca do tema, teria um impacto negativo na implementação da estratégia e na participação dos estudantes.

No início da aula, realizou-se uma dinâmica de aquecimento com perguntas sobre os passos para a realização do dimensionamento por meio da ferramenta Mentimeter. O objetivo dessa dinâmica era os participantes relembrarem o conteúdo e organizarem as etapas do cálculo do dimensionamento para iniciar o escape room.

Ao término dessa primeira abordagem, as regras e orientações para participação no escape room foram lidas e poderiam ser consultadas no início da atividade (Seção 1). Sanadas todas as dúvidas, foi encaminhado o link para o acesso ao escape room pelo chat da plataforma Google Meet e com a turma dividida aleatoriamente em quatro grupos denominados: Florence Nightingale, Anna Nery, Dorothea Orem e Wanda Horta, enfermeiras que marcaram a história da profissão. Cada grupo foi acompanhado por um dos docentes, que atuou como juiz para observar e intervir sempre que necessário, conduzindo o grupo para que conseguissem participar da atividade.

Apresentadas as regras do jogo, na sequência, os participantes acessaram a Seção 2, na qual, para entrar nas salas temáticas propriamente ditas, tinham de decifrar um enigma de acesso, estruturado no formato de caça-palavras e relacionado aos conceitos e termos do dimensionamento de enfermagem. A resposta correta era a intersecção de letras do caça-palavras que, após solucionado, direcionava os participantes à seção seguinte, Sala Temática 1.

A Sala Temática 1, intitulada “Sistema de Classificação de Pacientes (SCP)”, tinha por objetivo que os participantes conseguissem aplicar um dos instrumentos de classificação de pacientes existentes na literatura para identificação da carga de trabalho (Seção 3), o de Fugulin et al.23. Na primeira sala temática, dois dos quatro grupos foram diretamente para a Sala de Reforço (Seção 4) por terem errado a primeira tentativa de resposta, e um dos grupos solicitou a opção “Dica”. Tanto a Sala de Reforço quanto a Dica (Seção 5) retardam a progressão no escape room e, portanto, diminuem a possibilidade de escaparem em primeiro lugar. Além do tempo, como critério de pontuação era descontado 0,3 ponto cada vez que o grupo acessava uma dessas duas opções. Na Sala de Reforço da Sala Temática 1, estava disponibilizado o instrumento de SCP23 com os respectivos graus de dependência de enfermagem, e na opção Dica, da mesma sala, havia uma explicação de como deveria ser realizado o cálculo.

A Sala Temática 2, intitulada “Número médio diário de pacientes (NMDP) por grau de dependência”, deriva da compilação dos dados do SCP aplicado, número obtido pela soma do escore total dos pacientes dos diferentes graus de dependência, dividido pelo total de dias do período de coleta de dados. O objetivo era que os participantes calculassem esse valor (Seção 6). Nessa etapa, dois grupos solicitaram a Dica, diminuindo, assim, a possibilidade de escapar primeiro. A Seção 7, “Reforço da Sala Temática 2”, apresentava a conceituação de NMDP, e a Seção 8, “Dica”, descrevia o cálculo a ser utilizado.

Na Sala Temática 3, intitulada “Total de Horas de Enfermagem (THE)”, o objetivo era que os participantes calculassem o THE considerando os resultados das Salas Temáticas 1 e 2 (Seção 9). Nessa etapa, dois grupos solicitaram a Dica. O Reforço da Sala Temática 3 (Seção 10) apresentava o referencial mínimo para o quadro de profissionais de enfermagem, segundo a Resolução Cofen 543/201721, e as horas de enfermagem por paciente nas 24 horas de cuidado. Na Seção 11, “Dica”, estava descrito qual era o cálculo a ser feito.

Na Sala Temática 4, intitulada “Cálculo da Constante de Marinho (Km)”, o objetivo era que os participantes calculassem a Km, considerando a jornada de trabalho semanal dos trabalhadores de enfermagem proposta (Seção 12). Nessa etapa, dois grupos solicitaram a Dica. A Seção 13, “Reforço da Sala Temática 4”, apresentava a conceituação da Km, e na Seção 14, “Dica”, estavam descritos o cálculo e as informações necessárias para realizá-la.

Por fim, na Sala Temática 5, intitulada “Quantitativo de enfermeiros e profissionais de ensino médio” (Seção 15), o objetivo era calcular a quantidade de profissionais (QP) para a unidade de internação apresentada no caso proposto, quantidade total sem especificações por categoria. Nessa etapa, um dos grupos errou a resposta e foi para a Sala de Reforço; após o retorno à sala, solicitou a Dica. Outro grupo solicitou inicialmente a Dica para responder; assim, um grupo perdeu 0,6 ponto e o outro perdeu 0,3. A Seção 16, “Reforço da Sala Temática 5”, apresentava uma informação sobre a importância de calcular o QP, e a Seção 17, “Dica”, descrevia o cálculo a ser utilizado.

Ainda, na mesma Sala Temática, a Seção 18 apresentou especificamente o quantitativo da categoria de enfermeiros e técnicos de enfermagem, juntamente com o Reforço para a pergunta (Seção 19) que incluía a distribuição percentual de profissionais de acordo com a complexidade assistencial. A Dica (Seção 20) continha a definição da composição da equipe de enfermagem para cada tipo de cuidado. A última Seção (21) informava que os participantes haviam escapado da sala e chegado ao final da atividade, com um convite para que avaliassem a atividade proposta.

Todos os grupos conseguiram iniciar o escape room e decifrar sem dificuldades o enigma inicial. Passados 30 minutos do início da realização do escape, os quatro grupos informaram que ainda não haviam concluído a atividade; assim, foram acrescidos 15 minutos para sua conclusão. Essa necessidade se deveu ao fato de que todos os grupos fizeram uso dos recursos de Dica e de Sala de Reforço em algum momento da atividade, por terem dúvidas ou por terem assinalado a alternativa incorreta.

Dos quatro grupos, dois conseguiram escapar, concluindo com êxito a trilha; os outros dois não conseguiram terminar, mesmo com o acréscimo de tempo, e retornaram à sala principal do Google Meet. Ao término, houve um momento para discussão entre os estudantes da Pós-Graduação sobre a atividade proposta, do ponto de vista pedagógico, o alcance dos objetivos, a participação e o engajamento.

Como última ação, as pós-graduandas proponentes do escape room pediram que os participantes avaliassem a atividade realizada por meio de uma escala entre: Ruim (1), Regular (2), Bom (3) e Ótimo (4). Considerando o retorno obtido, a proposta do escape room foi considerada bem-sucedida e avaliada como ótima.

Discussão

Metodologias ativas e participativas ganham cada vez mais destaque na educação em Enfermagem, uma vez que têm como premissa que o estudante esteja no papel central da formação e sua participação, seu envolvimento e sua motivação sejam cruciais para a aprendizagem autônoma, crítica e reflexiva. Nesse sentido, pretendeu-se, nesta experiência, apresentar a potência de uma estratégia de ensino para ser utilizada na Graduação em Enfermagem, construída por estudantes da Pós-Graduação sob supervisão docente, iluminando possibilidades de vincular a formação docente, na PG, para além do desenvolvimento da pesquisa.

Nesta experiência, o escape room foi utilizado como metodologia ativa e participativa de ensino-aprendizagem, proposta que se ancora na recomendação do Conselho Nacional de Saúde (CNS)24 por meio da Resolução 569, de dezembro de 2017, que aprovou o Parecer Técnico n. 300/2017. Esse documento apresenta os princípios gerais a serem incorporados nas DCN dos cursos da área da Saúde: “a utilização de metodologias diversificadas para o processo de ensino-aprendizagem, que privilegiam a participação e a autonomia dos estudantes” e, ainda, a “integração entre os conteúdos curriculares, de forma a possibilitar processos de aprendizagem colaborativa e significativa, com base na ação-reflexão-ação, a partir de competências técnicas, comportamentais, éticas e políticas”. Nesse sentido, a proposta permitiu que os discentes fossem participantes ativos na construção do conhecimento e os docentes adotassem o papel de facilitadores desse processo.

Metodologias ativas apresentam estratégias diferentes para o desenvolvimento dos conteúdos, tendo a intenção de que seja um processo mais significativo para o estudante, estimulando seu protagonismo na construção de conhecimentos de forma crítico-reflexiva, enquanto o professor desempenha o papel de facilitador do ensino-aprendizagem25. Nessas metodologias, é indicada a avaliação formativa que permite abordar as dificuldades dos estudantes, e cabe ao professor identificar alternativas para melhorar continuamente o desenvolvimento deles26.

Oportuno destacar sua construção no contexto da pandemia da Covid-19 e, portanto, a adequação da proposta ao ensino remoto, considerando as possibilidades e limitações inerentes ao próprio distanciamento na formação em enfermagem. Uma pesquisa identificou que, após algum tempo em atividades remotas durante a pandemia, os estudantes mostraram falta de interesse e motivação para se envolverem em estratégias de ensino27. O escape room pode ser uma estratégia para reverter essa falta de interesse e melhorar o engajamento.

Destaca-se que o tema “Dimensionamento do quadro de profissionais de enfermagem” foi estruturado com perguntas que refletissem problemas e situações reais. Porém, além do cálculo, as questões foram elaboradas para estimular o debate sobre as implicações na qualidade e na segurança da assistência ao paciente, bem como para os trabalhadores, no que se refere à quantidade de profissionais adequada à carga de trabalho. Em suma, a temática do dimensionamento é bastante potente para discutir outras perspectivas do processo de trabalho do enfermeiro: o administrar.

No escape room proposto, o professor assumiu o papel de mediador e coadjuvante. Embora presente durante toda a atividade, a centralidade da ação esteve no processo a ser percorrido pelo grupo de estudantes.

A mesma estratégia, mas denominada em outro estudo como escape zoom, foi analisada em um estudo com estudantes de enfermagem, e identificou-se um alto nível de concordância quanto ao fato de a estratégia favorecer a aprendizagem ativa e colaborativa, promovendo uma forma diferente de aprendizagem e trabalho em equipe. Os estudantes recomendaram sua ampliação em outras disciplinas28.

Dentre as inúmeras estratégias de ensino-aprendizagem de metodologias ativas e participativas, estudos apontam que as principais utilizadas no Brasil na modalidade de ensino on-line são: Aprendizagem Baseada em Problemas (Problem-Based Learning - PBL), sala de aula invertida (flipped classroom), aprendizagem por pares (peer instruction), gamificação, estudo de caso, simulação, seminário, objeto virtual de aprendizagem (OVA) e problematização com o Arco de Maguerez8.

Destaca-se que o escape room se enquadra também na definição de OVA, ou seja, é um recurso digital que atende a um conjunto de características, padrões e formas, construído em etapas, com primazia de pensar os objetivos de aprendizagem considerando o espaço virtual. Recomenda-se que, mediante objetivos bem estabelecidos, os objetos virtuais de aprendizagem possibilitem ao estudante exercitar, analisar e interpretar conceitos e conteúdo de maneira interativa e colaborativa. São inúmeras as formas de sua aplicabilidade no ambiente pedagógico, como a utilização de vídeos, figuras, gráficos, charges, entre outros9.

Ainda, destaca-se que a experiência teve como limitação a definição inadequada do tempo para a execução. Foi planejado que os estudantes despenderiam 30 minutos para completar a atividade; contudo, foi necessária uma readequação no momento de sua implementação. Ao final, mesmo com o tempo estendido, apenas dois dos quatro grupos participantes conseguiram finalizar e enviar as respostas, escapando da sala. Outra limitação encontrada foi que, para as orientações iniciais e apresentação das regras do jogo e suas pontuações, todos os estudantes deveriam estar presentes. Os atrasos ou as entradas a posteriori ao início da aula comprometeram o andamento da atividade.

Conclusão

A proposta de escape room, construída e implementada por pós-graduandos no formato de trilha de aprendizagem, demonstrou ser uma estratégia de ensino-aprendizagem pertinente para ser utilizada no contexto da pandemia da Covid-19, no ensino remoto, com possibilidades de aplicação na Graduação em Enfermagem, na Pós-Graduação, bem como na educação continuada de enfermeiros. Sobretudo nas temáticas da estrutura do conhecimento sobre administração em enfermagem, a proposta oferece uma experiência ativa e interativa que promoveu o engajamento dos estudantes, ao colocá-los no cerne do processo e exigir que resolvessem os desafios apresentados para “escapar” da sala.

Considera-se que o escape room desencadeou o engajamento e a abordagem do tema de forma descontraída, sendo avaliado de maneira positiva pelos participantes. Além disso, o sucesso da proposta esteve atrelado ao contato prévio com a temática, seja pela sala de aula invertida seja por meio de exercícios de aquecimento, embora outras formas possam ser adotadas, como a exposição dialogada.

Como estratégia de ensino-aprendizagem, sugere-se que o escape room seja avaliado quanto à sua eficácia em pesquisas futuras e em outros cenários, a fim de contribuir para a compreensão de sua aplicabilidade no processo de ensino e aprendizagem.

Agradecimentos

Aos estudantes e docentes da disciplina de Pós-Graduação envolvida neste relato e aos docentes que atuaram como juízes.

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Editado por

  • Editor
    Tiago Rocha Pinto
  • Editora associada
    Marta Quintanilha Gomes

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Mar 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    28 Ago 2023
  • Aceito
    15 Out 2024
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