Open-access Cuidado de si na sociedade atual e a Saúde Pública: entrevista com David Le Breton, André Rauch e Aggée Myazhiom

Self-care in currenty society and Public Health: interview with David Le Breton, André Rauch and Aggée Myazhiom

El cuidado de sí en la sociedad actual y la Salud Pública: entrevista con David Le Breton, André Rauch y Aggée Myazhiom

Palavras-chave
Corpo; Saúde; Cultura; Sociologia; Filosofia

Keywords
Body; Health; Culture; Sociology; Philosophy

Palabras clave
Cuerpo; Salud; Cultura; Sociología; Filosofía

Palavras-chave
Corpo; Saúde; Cultura; Sociologia; Filosofia

Keywords
Body; Health; Culture; Sociology; Philosophy

Palabras clave
Cuerpo; Salud; Cultura; Sociología; Filosofía

David Le Breton

André Rauch

Aggée Célestin L. Myazhiom

Compreendendo a importância de realizar releituras contemporâneas do cuidado de si na sociedade atual e da identificação de implicações dessa temática para a Saúde Pública, foram realizadas entrevistas com pesquisadores das Ciências Humanas e Sociais da Universidade de Estrasburgo na França. Essas entrevistas aconteceram no período de outubro de 2024 até fevereiro de 2025, com os professores David Le Breton, André Rauch e Aggée Célestin Lomo Myazhiom em Strasbourg.

David Le Breton nasceu dia 26 de outubro de 1953 na cidade francesa chamada Le Mans. Na Universidade de Tours, França, ele se formou em Sociologia, Psicologia e Linguística. No seu Doutorado em Sociologia, Le Breton foi orientado por Jean Duvignaud e, no Doctorat D’État, por Pierre Ansart. Professor de Sociologia da Universidade de Estrasburgo, ele é membro do Institut Universitaire de France e do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Estrasburgo (Usias). No Brasil, publicou obras como: Rostos: ensaio sobre antropologia (Vozes Ed.), Desaparecimento de si (Vozes Ed.), Antropologia do corpo (Vozes Ed.), Antropologia das emoções (Vozes Ed.), Antropologia dos sentidos (Vozes Ed.), A sociologia do corpo (Vozes Ed.), Adolescência (Sesi-SP), Antropologia da dor (FAP-Unifesp), Adeus ao corpo (Papyrus), Comportamentos de risco: dos jogos da morte ao jogo da vida (Autores Reunidos). Em 2022, aposentou-se oficialmente, mas continua escrevendo e pesquisando ativamente, além de proferir diversas conferências e supervisionar estágios de Pós-Doutorado.

André Rauch é um historiador francês que nasceu em Paris no dia 13 de março de 1942. É formado em Filosofia pela Universidade de Estrasburgo e fez seu Doutorado em Filosofia na mesma universidade sob a orientação de Georges Gurdorf. Depois, obteve título de Doutor em Letras e Ciências Humanas pela Universidade Paris-Descartes sob a orientação de Georges Snyders. Foi professor da Universidade de Montpellier e, depois, da Universidade de Estrasburgo onde se aposentou em 2007. André Rauch é autor de vários livros, dentre os quais destacam-se: Le corps en éducation physique. Histoire et principes de l’entraînement, Paris, 1982; Le souci du corps. Histoire de l’hygiène en éducation physique, Paris, 1983; Vacances et pratiques corporelles. La naissance des morales du dépaysement, Paris, 1988; Boxe, violence du XXe siècle, Paris, 1992; Les vacances, Paris, 1993; Histoire de la santé, Paris, 1995; Vacances en France de 1830 à nos jours, Paris, 1996 (éd. de Poche, 2001); Le premier sexe. Mutations et crise de l’identité masculine, Paris, 2000 (édition de poche, 2001); L’identité masculine à l’ombre des femmes. De la Grande Guerre à la gay pride, Paris, 2004; Histoire du premier sexe de la révolution à nos jours, Paris, 2006.

Aggée Célestin Lomo Myazhiom é historiador e socioantropólogo. Foi professor da Universidade de Dschang no Camarões e atualmente é professor da Universidade de Estrasburgo. Foi professor visitante na Universidade de Ciências de Tóquio no Japão e pesquisador e professor visitante no Instituto de Pesquisa de Línguas e Culturas da Ásia e África (ILCAA, TUFS, Japão). É Associado Global na Universidade de Estudos Estrangeiros de Tóquio e diretor de publicação da revista multidisciplinar de humanidades Histoire et Anthropologie. É chefe do programa de Mestrado em Atividades Físicas Adaptadas e Saúde, cofundador da Rede Francófona Internacional de Estudos e Pesquisa sobre Deficiência e membro da Comissão de Estudos e Pesquisa da Federação Francesa de Esportes Adaptados (Paris). Autor e coautor de vários livros, dos quais se destacam: Sociétés et rivalités religieuses au Cameroun sous domination française (2001); Remember Sida (2002); Ces alsaciens venus d’ailleurs (2009); Vih-Sida. La vie en danger (2010); Tourisme handicap (2014); Sports, loisirs et sociétés en Afrique de l’Ouest (2015); Le handicap dans notre imaginaire culturel (2015); Les malentendus culturels dans le domaine de la santé (2016); Le handicap et ses empreintes culturelles (2017).

A primeira entrevista realizada foi com David Le Breton no dia 2 de outubro de 2024 em sua sala que fica na Maison interuniversitaire des sciences de l’homme (MISHA) na Universidade de Estrasburgo. No final da entrevista, pedi indicações ao Le Breton de mais dois pesquisadores que poderiam contribuir com as discussões sobre a temática abordada. Nesse momento, ele indicou o professor André Rauch e o professor Aggée Célestin Lomo Myazhiom. Em 4 de dezembro de 2024, a entrevista com André Rauch foi feita via telefone e, no dia 5 de fevereiro de 2025, aconteceu a entrevista com Aggée Lomo em sua sala, na Faculdade de Ciências do Esporte da Universidade de Estrasburgo. Cabe destacar que todas as entrevistas tiveram o consentimento dos pesquisadores para serem gravadas e utilizadas para fins acadêmicos. A seguir, as entrevistas foram transcritas na língua original, o francês, e posteriormente traduzidas para o português. Essas entrevistas fazem parte de uma pesquisa de Pós-Doutorado realizada pela entrevistadora e desenvolvida na Universidade de Estrasburgo sob a supervisão de David Le Breton, professor emérito da referida universidade.

Como destaca o sociólogo e antropólogo David Le Breton1, vivemos atualmente em uma sociedade que valoriza a conectividade, permanecendo a maior parte do tempo imersa em redes sociais. Esse autor, no livro “La fin de la conversation? La parole dans une société spectrale”, publicado em 2024 na França, ainda sem tradução no Brasil, mostra como nossa sociabilidade e as experiências corpóreas vão se modificando na contemporaneidade.

Diante desse contexto, interessa-nos identificar como o cuidado de si é reconhecido atualmente e se existem repercussões do cuidado de si para a Saúde Pública na sociedade em que estamos inseridos.

O cuidado de si foi abordado por Michel Foucault2-5 quando o autor estava no terceiro momento de sua vida acadêmica. Esse momento específico se direciona aos estudos sobre a constituição de si como sujeito. Nesse período de emergência dos estudos sobre o cuidado de si, Michel Foucault estava doente e desejava investigar questões sobre os sujeitos, sobre uma estética da existência, sobre a construção de si mesmo e sua autoformação6. Para Eribon6:

A sabedoria antiga havia se tornado pessoal para ele de uma outra maneira; durante os últimos oito meses de sua vida, a redação de seus dois livros desempenhou para ele o papel que a escrita filosófica e o diário pessoal desempenharam na filosofia antiga: aquele de um trabalho sobre si mesmo, de autoestilização. Aqui ocorre um incidente cuja lembrança queima em mim como um golpe heroico. Durante esses oito meses, então, Foucault trabalhou para escrever e reescrever esses dois livros, para liquidar essa longa dívida consigo mesmo. (p. 349)

Em seu livro “La sociologie du corps”, Le Breton7 demonstra que os estudos sobre o “cuidado de si” contribuíram com uma mudança epistemológica nos estudos de Michel Foucault, em que o autor desloca seu foco da hipótese repressiva, presente nos estudos biopolíticos, para um foco nas subjetividades.

Em seus estudos sobre o cuidado de si, Foucault2-5 faz um retorno à Antiguidade greco-romana e nos mostra, em diferentes períodos, como o cuidado de si vai se alterando de acordo com cada época. Desse modo, reconhecemos que o cuidado de si é um fenômeno sócio-histórico que muda com o tempo e é construído pelos sujeitos em relação com a cultura em que se vive.

Ayres8 tematiza o cuidado de si quando apresenta fundamentos importantes para a Saúde Pública com a ideia de colaborar com práticas de saúde. Para ele, “Foucault nos mostra o desenvolvimento do cuidado de si como uma forma de vida no Ocidente cristão” (p. 81).

A história das técnicas de si abordadas por Michel Foucault faz menção a uma genealogia do sujeito e das maneiras de se constituírem no começo da cultura ocidental6.

Diante desse contexto, reconhecemos a importância de apresentar reflexões sobre essa temática na atualidade e buscar relações do cuidado de si com a Saúde Pública na sociedade em que estamos inseridos. Nesse sentido, essas entrevistas mostram as experiências vividas e os arcabouços teóricos dos pesquisadores entrevistados. Os estudos de David Le Breton estão relacionados à temática do corpo, da dor, dos riscos, das emoções, das cicatrizes, do silêncio, dentre outros temas de pesquisa. André Rauch investiga a história do corpo e da saúde. Aggée Célestin Lomo Myazhiom dedica-se aos estudos interculturais, às vulnerabilidades, às pessoas com deficiência, dentre outras temáticas.

Pergunta: Segundo você, o que é o “cuidado de si”?

David Le Breton: Há muitas maneiras de abordar questões do cuidado de si. Não abordarei a questão histórica que Michel Foucault tratou e que não é da minha competência, mas vejo duas modalidades ligeiramente diferentes de cuidado de si nos mundos contemporâneos. Uma dimensão um tanto narcisista. Estamos mais focados em nós mesmos, em um desejo de fazer o bem a nós mesmos, muitas vezes esquecendo os outros e por meio de inúmeras atividades, do uso de cosméticos, tatuagens, atividades físicas e esportivas, do uso de aplicativos de namoro, redes sociais... Acima de tudo, o cuidado de si é uma forma de se exibir, de se destacar aos olhos dos outros, portanto de preparar o nosso rosto, o nosso corpo, em uma preocupação de se esculpir. Por exemplo, do lado das mulheres, uma preocupação de magreza, de sedução, de juventude, etc., que envolve a maquiagem, outra forma de cuidado de si, e também a cirurgia estética ou a dermatologia estética, por exemplo. Trata-se de criar um corpo que seja agradável de ver e de conviver.

Uma maneira de olhar para si mesmo e otimizar de alguma forma a maneira como os outros nos receberão e, ao mesmo tempo, um cuidado um pouco narcisista consigo mesmo, agradar-se melhora a existência etc. e, então, há outra preocupação mais básica consigo mesmo.

A necessidade antropológica de estar atento a si mesmo ao longo da vida diária; se não prestarmos atenção a nós mesmos, nos tornamos vulneráveis. Quando andamos na cidade, quando dirigimos o carro, quando estamos em casa para evitar acidentes domésticos, estamos atentos às nossas ações para não nos machucar, queimar etc. Esse cuidado de si é uma espécie de narcisismo elementar, é o narcisismo primário de Freud, protege contra ferimentos, acidentes, morte...

Há outro cuidado de si, mas um pouco diluído na vida cotidiana e não vem desse narcisismo que mencionei logo no início da minha fala, é o prazer de simplesmente ser você mesmo. Lá encontramos atividades físicas como caminhadas, por exemplo. Os caminhantes são homens e mulheres que encontram grande alegria em caminhar nas florestas, ao longo da costa, nos desertos... Eles estão atentos ao ambiente, aos animais, mas também às pessoas com quem caminham, seu companheiro, seus filhos, seus amigos etc. Há uma partilha, estamos juntos em uma espécie de felicidade, de júbilo, mas que também se refere a um cuidado de si, mas com os outros. Se você quer se divertir, uma maneira simples é fazer uma caminhada nas florestas ou em parques públicos, ou levar sua bicicleta com outras pessoas apaixonadas por cicloturismo, por exemplo. Provavelmente, é menos fácil no Brasil, onde essas atividades às vezes são perigosas, mas na Europa muitas pessoas pedalam longas distâncias com suas mochilas. Eles vão com suas famílias etc., o mesmo vale para caminhantes no Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, ou em outras trilhas. Muitas famílias andam de bicicleta com crianças ou adolescentes. O cuidado de si é o desejo de melhorar nossa existência, de ser feliz na própria vida, de ser feliz com os entes queridos. Então, finalmente, mencionei três maneiras ligeiramente diferentes de cuidar de si. Uma dimensão mais narcisista, uma dimensão mais elementar, mas também o fato de estar atento aos perigos inerentes ao ambiente que exige atenção a si mesmo para não se expor a acidentes, conflitos com os outros, doenças... O imperativo de se proteger faz parte do cuidado de si.

André Rauch: Então, como o Sr. Le Breton lhe disse, eu não sou um sociólogo, sou um historiador, então responderei à sua pergunta como historiador. Na minha opinião, o cuidado de si é, antes de tudo, abandonar Deus. Em outras palavras, durante muito tempo na história da França ou do Ocidente, talvez do mundo, a principal preocupação era ser fiel a Deus, isto é, aplicar sua lei, amar somente a Ele. E se preocupar com todos os rituais. Orações, entre outras, que vão para Deus. Quando o cuidado de si começa, isto é, durante o Renascimento, e provavelmente ainda mais no século 18. Há uma mudança do amor a Deus para o amor a si mesmo. É uma quebra da Aliança com Deus, em uma palavra é um pecado de orgulho. Essa é uma fratura muito profunda no pensamento, nos sentimentos e nos sistemas de valores. Em outras palavras, isso é algo que faz emergir os pensamentos, os hábitos, os gestos, que até agora eram tradicionalmente herdados dos antigos, em direção a algo que é inventado, que é novo e, desse ponto de vista, mudará profundamente as atitudes em relação a si mesmo, pensamentos sobre si mesmo. Devemos lembrar que enquanto estivermos no mundo, digamos no universo cristão, mas provavelmente também no muçulmano e também no judeu, o cuidado de si é algo que vem do orgulho, ou seja, um desafio a Deus. Quando o cuidado de si se torna primordial em nossa sociedade, essa referência ao pecado capital do orgulho desaparece, é apagada em favor de outra consideração que é a de “se cuidar”, de “preocupar-se consigo”, de colocar essa atenção a si mesmo no centro das preocupações. Não se importar consigo mesmo se torna uma falta grave, no sentido de que cada um de nós deve cuidar de si mesmo, do seu corpo, dos seus pensamentos, dos seus amigos etc. É um dever moral, higiênico e psicológico.

Aggée Célestin Lomo Myazhiom: Essa é uma questão muito complexa para mim, porque a noção de cuidado de si abre vários campos, porque antes de falar de cuidado de si, para mim a gente tem de falar de uma forma geral primeiro do cuidado com o outro, da relação com o outro. Como finalmente concebemos o que chamamos de dimensão da alteridade e, muitas vezes, ao tratar do assunto penso frequentemente em Aristóteles quando ele indica que quando eu aponto o “eu existo” significa que sou diferente e, como sou diferente, ao mesmo tempo penso que o outro existe; portanto, o cuidado de si se abre para a questão do cuidado com o outro. Porque cuidar de si é também cuidar dos outros: é também a forma como vamos pensar as diferentes relações com a sociedade, como construímos as sociedades; e, então, se adotarmos um ponto de vista estritamente individual, a preocupação consigo mesmo talvez também abra a questão do bem-estar.

Isso ainda diz respeito, na área em que trabalho, à questão da qualidade de vida: como vou cuidar do meu corpo? Como vou assumir o controle da minha vida diária? Trabalhamos na minha faculdade (Ciências do Esporte) e no meu laboratório de pesquisa (UMR Lincs, CNRS e Universidade de Estrasburgo) em práticas corporais, o que abre questões relacionadas ao estilo de vida. E, então, quando continuamos a reflexão, isso também pode abrir espaço para questões éticas e morais. Essas últimas talvez nos permitam finalmente entender qual é o meu lugar no mundo e como vou interagir, porque não estou sozinho no mundo, não é só o meu corpo que existe. Esse é um primeiro elemento.

E, assim, eu simplesmente continuo porque quando você mencionou a questão de falar também sobre pessoas com deficiência, eu enfatizo que pessoas que são vulneráveis, que são frágeis, que estão em uma situação em que seu corpo é totalmente diferente, a vida social também será diferente. É um pouco mais complicado falar sobre essa questão do cuidado de si para essas pessoas, porque isso requer, às vezes, quando você tem uma deficiência muito séria ou muito grave, quando você tem múltiplas deficiências (várias deficiências), quando você não consegue falar, quando você não consegue se amar, nos relacionamentos com os outros, isso pode exigir suporte contínuo. É por isso também que trabalhamos muito tudo que diz respeito às teorias do suporte e à questão da presença ao outro. Essa questão é abordada, por exemplo, no trabalho de Alexis Honneth sobre reconhecimento, porque o cuidado de si também levanta a questão do reconhecimento social. Nesse reconhecimento social, há também a dimensão do pleno reconhecimento jurídico da condição de pessoa considerada com deficiência. Porque para lidar com o cuidado de si é preciso também evocar o outro, a dimensão da alteridade. Isso então abre sua discussão com David Le Breton. Aqui, devemos mencionar as teorias do cuidado, particularmente o trabalho de Carol Gilligan e, também, estudos feministas sobre a ética da solicitude. Esse tema nos permite abordar pessoas vulneráveis, situações de vulnerabilidade e aquelas que são consideradas cadetes sociais.

Pergunta: O “cuidado de si” tem repercussões na Saúde Pública?

David Le Breton: No cuidado de si, obviamente, há a relação com a comida, a relação com a nutrição. Na França, a agricultura orgânica é amplamente desenvolvida em mercados, lojas de departamento e até mesmo em restaurantes, onde é uma fonte de reconhecimento demonstrada por vários donos de restaurantes que usam produtos locais ou cozinham suas próprias refeições. Não é comida que vem de outro lugar, que foi congelada, industrializada etc. É um cuidado de si, particularmente entre as classes médias da sociedade francesa. A preocupação com a saúde e a proteção de si é mais difícil no Brasil. Embora as classes média e privilegiada tenham fácil acesso a esses produtos, eles são relativamente caros para as classes trabalhadoras, que dificilmente podem comprá-los no dia a dia. Isso, claro, tem um impacto na Saúde Pública porque o prazer de comer nos círculos da classe trabalhadora no Brasil está mais centrado em alimentos muito gordurosos, fast food etc., o que não é o melhor para a saúde. Em um nível mais global, esse tipo de alimento causa uma série de patologias, o que os médicos também chamam de obesidade ou sobrepeso, mesmo para crianças ou adolescentes. Sem dúvida, há uma preocupação mais compartilhada sobre essas questões na França. Não que produtos orgânicos sejam baratos na França, ainda são um pouco caros, mas geralmente você pode comprar produtos locais. Nos mercados, por exemplo, os agricultores locais vêm vender seus produtos etc. Na França, provavelmente temos um pouco menos de problemas com obesidade e problemas cardíacos, mesmo que eles também estejam presentes, principalmente entre as gerações mais jovens. Esse problema não está necessariamente relacionado à comida, mas também ao uso compulsivo de smartphones. Descrevo isso no meu livro “O Fim da Conversa?”, o fato de termos entrado na era da humanidade sentada. A maioria dos nossos contemporâneos passa o dia inteiro sentado ao volante do carro, atrás da tela, atrás da televisão, enfim, eles ficam sentados permanentemente. O corpo deles não funciona. Todos os recursos de energia, forma etc. que eles têm são subutilizados. Esse fato é particularmente evidente entre adolescentes, por exemplo, em corridas de 800 metros, trinta ou quarenta anos atrás, o adolescente médio corria em 3 minutos; hoje, são 4 minutos, o que ainda é bastante lento. Mas nossos adolescentes ficam sentados diante de seus smartphones quase o dia todo e pagam o preço com sua saúde e falta de sono. A falta de sono é enorme entre os adolescentes porque, mesmo à noite, eles continuam enviando e recebendo e-mails, mensagens de texto ou as recebendo A maioria deles dorme com o telefone ligado ao lado. Dito isso, há mais de 40% de “adultos” franceses que fazem o mesmo. Ficar atrás de uma tela o dia todo destrói o mundo ao seu redor; não há mais atenção aos outros ou ao meio ambiente. Claro que a saúde é afetada porque temos o mesmo corpo que os homens e mulheres de centenas de milhares de anos atrás, somos capazes de resistir ao frio e ao calor, seríamos capazes de caminhar dezenas de quilômetros e lutar contra o meio ambiente. Mas hoje, até para pequenos gestos, usamos próteses. Acabei de ir à Biblioteca da Universidade Nacional para procurar livros. Na minha frente estavam quatro ou cinco estudantes. Eles correram em direção ao elevador por um ou dois andares. Continuei subindo as escadas. Sabemos que hoje os adolescentes correm 800 metros em 4 minutos e em três minutos há cerca de trinta anos. Eles estão tão desacostumados ao menor esforço que param nas escadas rolantes em vez de continuar andando, param de repente, esperam passar. Eles personificam, em toda a sua força, uma humanidade sentada, hipnotizada pela tela. Essa subutilização dos recursos do corpo leva a problemas de saúde. Médicos de Saúde Pública estão denunciando o sobrepeso de nossos adolescentes e patologias que já não deveriam existir porque eles estão na flor da idade e deveriam estar se exercitando.

Os caminhantes são homens ou mulheres que têm melhor saúde. Eles se afastam do ambiente urbano para respirar o ar das florestas, redescobrem uma sensorialidade plena, levam o seu tempo e não deixam mais que o tempo os leve. Na cidade, muitas vezes é preciso pressa, mas nas trilhas não há pressa, você encontra uma sensação de bem-estar que é muito menos presente na vida urbana e na vida profissional ou em outros lugares. O cuidado de si dos caminhantes ou ciclistas leva ao prazer de serem eles mesmos, sem narcisismo, porque os caminhantes geralmente são homens ou mulheres bastante generosos, que se escutam, se ajudam, se aconselham, comem juntos nos alojamentos ou pousadas que podem ser encontrados ao longo das trilhas. Essa feliz preocupação consigo mesmo alimenta a boa saúde, mas afeta principalmente os “mais velhos”.

Porque você precisa ter tempo, dias ou horas para caminhar. Isso nem sempre acontece com pessoas que trabalham e só têm o fim de semana. Muitas vezes são os aposentados que caminham porque têm tempo, eles viajam pela França, pelo mundo inteiro para caminhar ou passear.

André Rauch: Estávamos falando sobre saúde, então vamos falar sobre doença. Se observarmos o que está acontecendo na sociedade francesa ou europeia, observamos que o bem-estar, a saúde e a doença, que depois da Revolução se tornaram uma questão coletiva, estão se tornando cada vez mais individuais. E se você observar atentamente os comunicados de imprensa emitidos pelas empresas de planos de saúde, companhias de seguros de saúde e assim por diante, verá que eles o incentivam a cuidar de si mesmo, ou seja, a assumir o controle da sua própria saúde, a ganhar autonomia em relação à sua saúde, em relação ao seu bem-estar, ao que muitas vezes é chamado de assumir o controle de si mesmo. Bem, podemos discutir o que essa fórmula significa, mas ela mostra claramente que o indivíduo, ou seja, o indivíduo responsável, é um grande ideal em nossa sociedade hoje. Alguém que precisa dos outros, de certa forma, perde sua autonomia, perde sua independência e, desse ponto de vista, como a palavra indica, torna-se dependente daqueles que o cercam. Isso é o que acontece em particular quando os indivíduos em nossa sociedade, as pessoas, aos poucos envelhecem e não conseguem mais cuidar de si mesmas e, nesse momento, para o cuidado de si elas ficam dependentes do seu ambiente ou de um ambiente que pode ser adaptado à sua, desculpe a palavra, deficiência.

Aggée Célestin Lomo Myazhiom: Então, eu trabalho muito com questões de desigualdades no acesso à saúde: ou seja, como podemos ter acesso à saúde para todos, independentemente do status social. A questão do cuidado de si obviamente tem impacto na Saúde Pública; precisamos ver como as pessoas acessam o sistema de saúde.

Aqui na França, o sistema de saúde está organizado dessa maneira desde 1945, com a criação da Previdência Social. Há um ditado na França: para a saúde, todos têm acesso de acordo com suas necessidades e contribuem de acordo com seus meios. Ou seja, quando estou doente, seja qual for a doença, vou ao hospital e o hospital me acolhe. Preciso ser tratado: então existe o que chamamos de direito obrigatório de acesso aos cuidados. Mas, ao mesmo tempo, quando quero ter acesso aos cuidados, tenho de pagar: cada um pagará de acordo com as suas possibilidades. A segurança social em matéria de saúde baseia-se no princípio da solidariedade. Mas às vezes há brechas, mesmo que teoricamente todos possamos acessar o sistema igualmente. Há um grande número de pessoas que são deixadas para trás, marginalizadas, sem acesso a cuidados: é o que chamamos de divisão social, a divisão da saúde. Para as pessoas ricas, que são socialmente integradas, não há problema com o que você acabou de dizer, no sentido de que o cuidado de si não terá impacto na questão do acesso aos cuidados. Porque, por exemplo, quando estou doente, posso facilmente ir ao médico, posso facilmente ir a uma academia, por exemplo, vou ao fisioterapeuta, vou a um professor de educação física para que ele possa me dizer ‘bom, você tem que correr um pouco’. Pessoas socialmente integradas podem fazê-lo. Mas quando não têm dinheiro é mais complicado, mesmo que o Estado ajude. Foi isso que eu estava explicando antes. Quando você olha para as ruas na França, há muitas pessoas vivendo nas ruas. Estima-se que possa haver entre 4 milhões e 5 milhões de pessoas que vivem em condições precárias de moradia, que não têm moradia digna. Na França, há aproximadamente de 500 a 600 mil pessoas sem teto, ou seja, sem residência fixa. A situação é ainda mais complicada para as mulheres. Sobre esse assunto, talvez David Le Breton pudesse lhe dar uma tese de Doutorado que ele orientou. É o livro de Berenice Peñafiel sobre mulheres em situação de rua. Para elas, a questão do cuidado de si e da relação com o corpo é extremamente complicada. Como essas mulheres, quando estão nas ruas, cuidam da higiene pessoal, da menstruação, da estética corporal e se lavam? Como elas simplesmente se alimentam? Para esse tipo de pessoa, percebemos que o sistema de Saúde Pública está falhando, que não consegue atender a todos... É por isso que na França o papel das associações com as patrulhas de rua é importante: as associações circulam pelas ruas. Pode ser a Cruz Vermelha, mas também pode ser a Médicos do Mundo, a Caritas etc. Há muitas associações que circulam pelas ruas à noite e durante o dia, especialmente no inverno, para ajudar as pessoas. Você deveria ir até essas associações e fazer perguntas sobre cuidado de si, higiene pessoal e manutenção do corpo: é complicado para as pessoas que estão nas ruas aqui em Estrasburgo. Na cidade há uma estrutura instável chamada CCAS (Conselho Municipal de Ação Social) que distribui senhas para que as pessoas possam ir se lavar. Esses são vouchers para ir a chuveiros públicos. Temos, aqui e ali, em diferentes piscinas municipais. As pessoas vêm com o bilhete e o entregam, depois é aberto um box de chuveiro para elas se lavarem. É um verdadeiro problema de Saúde Pública para as pessoas nas ruas da França.

Agradecimentos

À Universidade de Estrasburgo pelo acolhimento durante a realização do estágio pós-doutoral.

  • Financiamento
    Essa pesquisa contou com o apoio da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Processo #23077.171632/2023–63.
  • Mendes MIBS. Cuidado de si na sociedade atual e a saúde pública: entrevista com David Le Breton, André Rauch e Aggée Myazhiom. Interface (Botucatu). 2025; 29: e250323 https://doi.org/10.1590/interface.250323

Referências

  • 1 Le Breton D. La fin de la conversation? La parole dans une société spectrale. Paris: Métailié; 2024.
  • 2 Foucault M. História da sexualidade 3: o cuidado de si. Rio de Janeiro: Graal; 1985.
  • 3 Foucault M. A hermenêutica do sujeito. São Paulo: Martins Fontes; 2006.
  • 4 Foucault M. Ética, sexualidade e política. Rio de Janeiro: Forense Universitária; 2010.
  • 5 Foucault M. Histoire de la sexualité 4: lex aveux de la chair. Paris: Gallimard; 2018.
  • 6 Eribon D. Michel Foucault (1926-1984). Paris: Flammarion; 1991.
  • 7 Le Breton D. La sociologie du corps. Paris: Presses Universitaires de France; 2024.
  • 8 Ayres JRCM. Cuidado e reconstrução das práticas de Saúde. Interface (Botucatu). 2004; 8(14):73-92. doi: 10.1590/S1414-32832004000100005.
    » https://doi.org/10.1590/S1414-32832004000100005

Editado por

  • Editora
    Antonio Pithon Cyrino
  • Editor associado
    Daniel Granada da Silva Ferreira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Set 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    28 Maio 2025
  • Aceito
    29 Jun 2025
location_on
UNESP Distrito de Rubião Jr, s/nº, 18618-000 Campus da UNESP- Botucatu - SP - Brasil, Caixa Postal 592, Tel.: (55 14) 3880-1927 - Botucatu - SP - Brazil
E-mail: intface@fmb.unesp.br
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro