RESUMO
Objetivos: Avaliar o nível de distress e sua correlação com características sociodemográficas e clínicas de mulheres sobreviventes de câncer de mama.
Método: Estudo descritivo-analítico, longitudinal e quantitativo, realizado em um cancer center no Brasil entre 2021 e 2022, nos tempos três (T1), seis (T2) e nove (T3) meses do término de tratamento oncológico cirúrgico e clínico (exceto terapia endócrina). Foram aplicados o questionário de caracterização sociodemográfica e clínica e o Termômetro de Distress com uma lista de problemas com 35 itens, distribuídos em cinco domínios: prático, familiar, emocional, espiritual e físico. Análise dos dados: teste de independência, Qui-quadrado, não paramétrico U de Mann-Whitney e Kruskal-Wallis (p ≤ 0,05).
Resultados: Composto por 101 participantes, a maioria era casada ou mantinha união estável, e o distress avaliado foi > 4. Os problemas mais incidentes foram os emocionais, espirituais e físicos. Mulheres com idade mais avançada demonstraram aumento do nível distress no T1 e T3, e quanto maior o grau de instrução, maiores os níveis de distress, com significância estatística em T2 e T3.
Conclusão: A maioria das mulheres apresentou problemas emocionais, espirituais e físicos, o que enfatiza a necessidade de uma abordagem multidimensional no cuidado das sobreviventes de câncer de mama.
Descritores:
Sobreviventes de câncer; Neoplasias da mama; Qualidade de vida; Angústia psicológica
ABSTRACT
Objectives: To assess the level of distress and its correlation with sociodemographic and clinical characteristics of female breast cancer survivors.
Method: Descriptive-analytical, longitudinal, and quantitative study conducted at a cancer center in Brazil between 2021 and 2022, at three moments: three (T1), six (T2), and nine (T3) months after the completion of surgical and clinical cancer treatment (excluding endocrine therapy). The sociodemographic and clinical characterization questionnaire and the Distress Thermometer were applied, in addition to a 35-item list of problems, distributed across five domains: practical, family, emotional, spiritual, and physical. Data Analysis: Statistical tests applied included the Chi-square test, Mann-Whitney’s U, Kruskal-Wallis, and the independence test, with a significance level of p ≤ 0.05.
Results: The study involved 101 participants, mostly married or in common law marriage. A distress level >4 was observed in most participants. Emotional, spiritual, and physical problems were the most frequently reported. Older women experienced higher distress at T1 and T3, while women with higher education levels reported significantly higher distress at T2 and T3.
Conclusion: Most of the women experienced emotional, spiritual, and physical issues, and the need for a multidimensional approach in the care of breast cancer survivors stood out.
Descriptors:
Cancer survivors; Breast neoplasms; Quality of life; Psychological distress
RESUMEN
Objetivos: Evaluar el nivel de distress y su correlación con las características sociodemográficas y clínicas de mujeres sobrevivientes de cáncer de mama.
Método: Estudio descriptivo-analítico, longitudinal y cuantitativo, realizado en un centro oncológico en Brasil entre 2021 y 2022, en tres momentos: tres (T1), seis (T2) y nueve (T3) meses después de la finalización del tratamiento oncológico quirúrgico y clínico (excepto la terapia endocrina). Se aplicaron el cuestionario de caracterización sociodemográfica y clínica, el Termómetro de Distress, y una lista de problemas con 35 elementos, distribuidos en cinco dominios: práctico, familiar, emocional, espiritual y físico. Análisis de los datos: prueba de independencia, Chi-cuadrado, teste no paramétrico U de Mann-Whitney y Kruskal-Wallis (p ≤ 0,05).
Resultados: Participaron 101 mujeres, la mayoría casadas o en una unión estable, con un nivel de distress > 4. Los problemas más frecuentes fueron emocionales, espirituales y físicos. Las mujeres de mayor edad presentaron un aumento en el nivel de distress en T1 y T3, mientras que aquellas con mayor nivel educativo también mostraron mayores niveles de distress, con significancia estadística en T2 y T3.
Conclusión: La mayoría de las mujeres presentó problemas emocionales, espirituales y físicos, lo que resalta la necesidad de un enfoque multidimensional en el cuidado de las sobrevivientes de cáncer de mama.
Descriptores:
Supervivientes de Cáncer; Neoplasias de la Mama; Calidad de Vida; Distrés Psicológico
INTRODUÇÃO
O câncer de mama é a neoplasia mais prevalente diagnosticada entre as mulheres mundialmente e a principal causa de mortes por câncer nesse grupo. Em 2022, o câncer de mama resultou em 670.000 mortes globalmente, sendo o tipo de câncer mais frequentemente diagnosticado em mulheres em 157 dos 185 países analisados1. No Brasil, estima-se que, no triênio 2023-2025, 73.610 novos casos de câncer de mama serão diagnosticados, o que representa uma taxa de incidência de 66,54 por 100.000 mulheres, sendo a primeira causa de morte na população feminina2. O avanço nas técnicas de diagnóstico e nos tratamentos multimodais tem contribuído para um aumento significativo na taxa de sobrevivência a longo prazo, com mais de 7,8 milhões de mulheres sobrevivendo cinco anos após o diagnóstico globalmente3.
A American Society of Clinical Oncology (ASCO), em conjunto com o Institute of Medicine, define a sobrevivência ao câncer como o período que começa no momento do diagnóstico e se estende por toda a vida do paciente. Esse período é dividido em três fases: sobrevivência aguda, prolongada e permanente. A sobrevivência aguda começa no diagnóstico e dura até o final do tratamento inicial. A sobrevivência prolongada ocorre após a conclusão do tratamento inicial e se estende por vários meses, com foco nos efeitos do câncer e de seus tratamentos. A sobrevivência permanente começa anos após o término do tratamento, enfatizando o manejo dos efeitos a longo prazo, a redução de riscos e a promoção da saúde4.
Sobreviver ao câncer de mama não é fácil, e muitas sobreviventes experienciam distress em algum momento, com origem multifatorial e relacionado ao diagnóstico e ou aos tratamentos oncológicos. A National Comprehensive Cancer Network (NCCN) define o distress como uma experiência emocional negativa e multifatorial, que pode variar desde sentimentos comuns de vulnerabilidade, tristeza e medo até quadros mais graves, como ansiedade e depressão, impactando a capacidade do paciente de lidar com o câncer e seu tratamento5. O distress pode englobar problemas psicológicos, físicos, práticos, espirituais e sociais, afetando negativamente a qualidade de vida (QV), a eficácia do tratamento, a recuperação e a sobrevida dos pacientes6.
Diante das evidências sobre a importância de identificar o distress, a NCCN recomenda, desde 1999, a avaliação de todos os pacientes com câncer6. Em 2007, essa avaliação foi reconhecida como o sexto sinal vital, compreendendo sua importância tão crucial quanto os sinais vitais físicos para o acompanhamento integral do paciente com câncer6. Essa adoção reflete a necessidade de uma abordagem integral no cuidado ao paciente, considerando não apenas aspectos físicos, mas também os emocionais e psicológicos. Além disso, a Sociedade Internacional de Psico-Oncologia reforçou essa visão, promovendo a integração da avaliação do distress nos cuidados contínuos do paciente com câncer, como parte central de uma prática centrada na pessoa, visando ao bem-estar global do paciente7,8.
A NCCN elabora e atualiza regularmente o guideline Distress Management, um manual multidisciplinar que estabelece padrões assistenciais para a avaliação e manejo do distress. As diretrizes incluem critérios para a identificação e estratificação da gravidade do distress, fatores de risco, períodos de maior vulnerabilidade ao longo do tratamento oncológico, e recomendações específicas para intervenção5. O guideline também orienta a utilização do Termômetro de Distress (TD), uma ferramenta validada para a triagem do sofrimento emocional, além de oferecer estratégias para o manejo dos sintomas e recomendações terapêuticas personalizadas com base no nível de distress identificado5. Essa abordagem tem sido fundamental para a promoção de um cuidado mais sensível e personalizado, reconhecendo que o controle efetivo do distress contribui significativamente para melhorar a QV, otimizar os resultados do tratamento e fortalecer a resiliência dos pacientes5,9.
Uma revisão sistemática cujo objetivo foi revisar a prevalência de sofrimento psicológico entre pacientes com câncer na região do Sudeste Asiático concluiu que há necessidade de mais estudos para aprofundar a compreensão desses sintomas complexos. Além disso, diante da identificação de sofrimento psíquico clinicamente significativo, destaca-se a importância da adoção de intervenções terapêuticas adequadas para promover a QV desses pacientes10. Nesse contexto, considerando a escassez de estudos sobre o tema, a alta prevalência e o fato de o distress ainda ser pouco reconhecido, diagnosticado e tratado pelos profissionais de saúde, torna-se fundamental compreender sua ocorrência e os fatores que o influenciam5-6,10. A identificação dessas variáveis pode contribuir para ampliar a conscientização entre os profissionais, orientar a formulação de intervenções mais adequadas e, sobretudo, permitir a personalização do cuidado oncológico por meio de estratégias mais eficazes no enfrentamento do sofrimento emocional. Portanto, diante dessa relevância, com destaque à importância de investigar tais influências com vistas à elaboração de um plano de cuidados alinhado às necessidades específicas de mulheres sobreviventes do câncer de mama, este estudo teve como objetivo avaliar o nível de distress e sua correlação com características sociodemográficas e clínicas de mulheres sobreviventes de câncer de mama.
MÉTODO
Estudo descritivo-analítico, longitudinal e quantitativo, realizado de acordo com a ferramenta Strengthening the reporting of observational studies in epidemiology (STROBE).
A população-alvo do estudo foi composta por mulheres diagnosticadas com câncer de mama que concluíram o tratamento inicial (exceto terapia endócrina) entre janeiro e julho de 2021. As participantes foram atendidas em um cancer center localizado na cidade de São Paulo, Brasil, uma instituição privada que presta assistência tanto a pacientes da saúde suplementar quanto do Sistema Único de Saúde (SUS). O recrutamento foi realizado por meio do prontuário eletrônico do paciente (PEP), com os seguintes critérios de inclusão: idade acima de 18 anos, diagnóstico de câncer de mama, sexo feminino, tumor em qualquer estágio patológico, submetidas a terapias clínicas com quimioterapia antineoplásica, radioterapia e tratamento cirúrgico, atendidas na instituição mencionada, e que finalizaram o tratamento (exceto terapia endócrina) há pelo menos três meses. Foram excluídas as pacientes que não haviam passado por procedimentos cirúrgicos para o tratamento do câncer de mama; com histórico de outros tipos de câncer, exceto câncer de pele não melanoma; que não eram fluentes na língua portuguesa; e aquelas com distúrbios psiquiátricos registrados em prontuário médico que inviabilizassem o preenchimento do TD. O convite para participação no estudo foi realizado por telefone ou, caso a paciente não atendesse, por contato pessoal na sala de espera antes da consulta médica.
O cálculo do tamanho da amostra foi feito com base em uma análise de regressão linear, considerando um tamanho de efeito médio, poder de 0,80 e nível de significância de 0,05. Isso resultou em uma estimativa de 55 participantes, aos quais foram adicionados 46 (83,6%) para compensar possíveis perdas e assegurar representatividade e robustez estatística11. A variável dependente foi o nível de distress e os problemas relatados pelas pacientes, mensurados por meio do TD. As variáveis independentes incluíram idade, estado civil, crenças, classe socioeconômica, grau de instrução, presença de comorbidades, estadiamento patológico, tipo histológico, subtipo molecular, tipo de tratamento e tipo de cirurgia. As variáveis dependentes foram coletadas por meio de entrevistas, enquanto as variáveis independentes foram obtidas a partir do PEP.
A coleta de dados foi conduzida individualmente, em salas privativas, pela pesquisadora principal, enfermeiros pós-graduados em oncologia e residentes de enfermagem em oncologia, entre junho de 2021 e maio de 2022, em três encontros. Estes ocorreram durante os atendimentos ambulatoriais para consulta de seguimento e/ou realização de exames, nos tempos de três (T1), seis (T2) e nove (T3) meses após o término do tratamento cirúrgico e clínico (exceto terapia endócrina). No primeiro encontro, foram aplicados o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), o questionário de caracterização sociodemográfica e clínica, com coleta de informações não disponíveis no PEP, e o TD. Nos encontros subsequentes, foi aplicado apenas o TD.
A avaliação do distress foi realizada por meio do TD, traduzido e validado para a língua portuguesa em 2009, por Decat12. Os resultados desse estudo evidenciaram uma sensibilidade de 82% e uma especificidade de 98%, o que sugere que o TD é uma ferramenta viável e eficiente para a avaliação do distress psicológico12. Trata-se de uma ferramenta visual analógica que permite ao respondente classificar seu próprio nível de distress na semana anterior, utilizando uma escala de 0 (sem distress) a 10 (extremo distress), com resultado maior ou igual a quatro, indicando a presença de distress moderado a alto. Este instrumento também identifica as principais causas do distress, em uma lista de problemas (LP) com 35 itens, distribuídos em cinco domínios: prático (cinco itens), familiar (dois itens), emocional (seis itens), espiritual (um item) e físico (21 itens). Trata-se de um instrumento amplamente utilizado no Brasil, fácil de ser aplicado, com a vantagem de vir acompanhado por orientações sobre como e quando usar, em quem aplicar e como tratar12-13.
As variáveis foram descritas por média, mediana, desvio-padrão, valores mínimo e máximo, além de frequências absolutas e relativas (%). A normalidade dos dados foi verificada por meio do teste de Shapiro-Wilk. As variáveis que apresentaram distribuição normal, conforme esse teste, foram analisadas com o teste de correlação de Pearson. Já as variáveis que não apresentaram distribuição normal foram analisadas por meio dos testes não paramétricos de Mann-Whitney e Kruskal-Wallis. A associação entre variáveis categóricas foi avaliada pelo teste de independência e teste Qui-quadrado. A análise foi realizada utilizando os softwares R (versão 3.5) e IBM SPSS (versão 25). O nível de significância foi estabelecido em 5%, considerando p ≤ 0,05 como estatisticamente significativo. A análise dos dados tencionou identificar os fatores correlacionados ao nível de distress em mulheres sobreviventes de câncer de mama, visando subsidiar estratégias para o aprimoramento do acompanhamento psicológico e da QV dessas pacientes. Além disso, buscou-se atender aos desfechos do estudo, relacionados à identificação da intensidade do distress e sua correlação com variáveis sociodemográficas e clínicas nas diferentes fases do período pós-tratamento.
A realização desta pesquisa foi precedida da apreciação e aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo / Escola Paulista de Enfermagem, de protocolo número 3.203.556/2019 e CAE: 04281018.5.1001.5505, segundo as diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisa em seres humanos e Comitê de Ética-CEP da Fundação Antônio Prudente sob o número de protocolo 3.351.638/2019 e CAE: 04281018.5.3001.5432. Os participantes que concordaram em participar assinaram o TCLE e foram informados quanto aos objetivos e tipo de participação, sendo assegurado o anonimato e sigilo, bem como facultado o direito de retirar o consentimento a qualquer momento, de acordo com a Resolução no 466/12.
RESULTADOS
Participaram do estudo 101 mulheres sobreviventes de câncer de mama, com características sociodemográficas e clínicas distintas (Tabela 1).
O nível de distress >4 foi observado em 61,4% das participantes no T1, 66,3% no T2 e 59,0% no T3. Observou-se uma correlação significativa, embora fraca e positiva, entre idade e nível de distress, indicando que o avanço da idade esteve associado a um aumento do distress no T1 e T3. Quanto ao grau de instrução, níveis mais elevados de escolaridade estavam associados a maiores níveis de distress, especialmente no T2 e T3, conforme apresentado na Tabela 2.
Os problemas mais citados na LP foram aqueles de natureza emocional, espiritual e física (Figura 1). A frequência total de problemas relatados manteve-se semelhante entre T1 e T3, com um aumento específico nos problemas familiares e espirituais/religiosos. Ressalta-se que essa análise considerou todos os pacientes que relataram pelo menos um problema nos domínios da LP.
Entre os problemas práticos, questões relacionadas a plano de saúde/financeiro e cuidar da casa tiveram grande destaque. No domínio, problemas familiares, o item “companheiro” foi o mais mencionado nos momentos T2 e T3. Em relação aos problemas emocionais, a “preocupação” foi o fator mais recorrente em todos os tempos de avaliação. No domínio, problemas físicos, dores e dificuldades de memória/concentração foram os mais relatados, com um agravamento perceptível no T3.
A Figura 2 apresenta os problemas mais frequentemente relatados, estratificados por nível de distress, nos três tempos de avaliação. O domínio, problemas emocionais e problemas físicos, concentraram os três itens mais mencionados, representando mais de 50,0% dos relatos gerais. Destacaram-se “preocupação” (68,9%), “memória/concentração” (51,3%) e “nervosismo” (50,7%). Entre os problemas práticos, “cuidar da casa” foi citado por 21,2% dos participantes.
Problemas relatados com maior frequência, estratificados por nível de sofrimento, ao longo dos três momentos de avaliação.
A análise da associação entre o nível de distress em mulheres sobreviventes de câncer de mama e as variáveis da LP nos três momentos de avaliação revelou significância estatística para problemas emocionais, especialmente para “depressão” (p=0,001) e “preocupação” (p=0,007). Além disso, a quantidade de problemas com associação significativa aumentou ao longo do tempo, sendo seis no T1, 11 no T2 e 14 no T3, conforme apresentado na Tabela 3.
DISCUSSÃO
Este estudo avaliou o distress em mulheres sobreviventes de câncer de mama, identificando elevados níveis de distress associados a problemas emocionais, espirituais e físicos, com correlação significativa com faixas etárias mais elevadas e maior grau de instrução. Os principais problemas relatados foram “preocupação”, dificuldades de “memória/concentração” e “nervosismo”. A análise indicou significância estatística para diversos problemas nos três tempos de avaliação, sendo observada uma ampliação do número de problemas ao longo do tempo. Esses resultados corroboram os achados de pesquisas semelhantes14-17. Estudos de meta-análise sobre a prevalência e incidência de distress em mulheres com câncer de mama indicam que entre 50% e 52% das pacientes apresentavam essa condição14,18.
O sofrimento psicológico de mulheres com câncer de mama está relacionado a diversos fatores, incluindo o impacto do diagnóstico, os efeitos adversos do tratamento, a limitação nas atividades diárias e profissionais, o apoio social disponível e as estratégias de enfrentamento adotadas18. Além disso, a dor associada ao tratamento, as alterações na aparência física e outros efeitos colaterais, como custos elevados, disfunção cognitiva e sexual, e questões estéticas, contribuem para um quadro emocional negativo que persiste em muitas pacientes após o diagnóstico19. Intervenções psicológicas, como terapias cognitivo-comportamentais, mindfulness e suporte psicossocial, têm mostrado eficácia na redução do distress, promovendo a resiliência e a adaptação ao diagnóstico e ao tratamento. Essas abordagens poderiam ser exploradas como intervenções primárias no contexto do acompanhamento de sobreviventes de câncer de mama5,20-21. Adicionalmente, a implementação de um plano de cuidados que inclua intervenções multidisciplinares como apoio espiritual, práticas integrativas e complementares (como arteterapia, ioga e atenção plena), atividade física e componentes educacionais é reconhecida por contribuir significativamente para a melhoria da qualidade de vida de pacientes com câncer de mama6,22-23.
Esse sofrimento se manifesta de maneiras distintas ao longo da trajetória do câncer de mama, com variações significativas entre as fases de diagnóstico, tratamento e sobrevivência24-25. Estudos indicam que os níveis mais elevados de distress ocorrem entre uma e quatro semanas após o diagnóstico, reduzindo-se progressivamente nos meses seguintes24. No presente estudo, observou-se uma redução nos níveis distress entre seis e doze meses após o término do tratamento (exceto terapia endócrina), confirmando essa tendência em uma amostra brasileira. Em adição, o apoio social desempenha um papel fundamental na mitigação do sofrimento psicológico5,9. Mulheres que contam com uma rede de apoio sólida tendem a apresentar menores níveis de distress, o que reforça a importância de envolver familiares e amigos no processo terapêutico16.
Na análise da associação entre distress e variáveis clínicas e sociodemográficas, uma revisão sistemática e meta-análise indicou que fatores como nível educacional elevado, estágio avançado do tumor, preocupações emocionais, ausência de plano de saúde, mastectomia radical modificada e histórico de depressão estão associados ao aumento do sofrimento psicológico. Em contrapartida, idade avançada e maior renda mensal foram identificadas como protetores 14.
No presente estudo, verificou-se uma correlação significativa, embora fraca e positiva, entre distress e idade no T1, sugerindo maior sofrimento entre mulheres mais velhas. Essa associação pode estar relacionada a sintomas do período pós-menopausa, como ondas de calor e suores noturnos18, além das incertezas do período pós-tratamento, especialmente para aquelas que exercem o papel de suporte emocional na família26.
Ademais, esses achados estão em consonância com os resultados da presente pesquisa no que se refere à ausência de associação com o estadiamento, uma vez que a maioria das participantes foi diagnosticada nos estágios I e II; ao plano de saúde, pois todas eram beneficiárias da saúde suplementar; e à mastectomia radical, uma vez que mais da metade foi submetida à ressecção segmentar; e ao nível educacional, com significância para níveis mais elevados de escolaridade no T2 e T3. Uma possível explicação para esse resultado é que pessoas com níveis educacionais mais elevados geralmente possuem uma compreensão mais detalhada sobre a ocorrência, o desenvolvimento, o prognóstico e os possíveis impactos das doenças, o que pode torná-las mais sensíveis às informações prognósticas, resultando em uma carga psicológica mais intensa14. Entre os domínios da LP, os problemas emocionais, espirituais/religiosos e físicos foram os mais frequentemente reportados em todas as avaliações, apresentando um padrão consistente com estudos globais8,16,25. Os problemas mais relatados envolveram preocupação (68,9%), dificuldades de memória/concentração (51,3%), nervosismo (50,7%), dores (47,3%) e medo (40,1%). Esses achados convergem com estudos internacionais, nos quais os sintomas emocionais são predominantes, enquanto sintomas físicos, como dor e comprometimento cognitivo, são mais comuns em mulheres com câncer de mama27-28.
É importante ressaltar que pacientes em terapia endócrina enfrentam sintomas físicos, como disfunção cognitiva e sintomas psicológicos associados ao tratamento29. No presente estudo, 83,2% das participantes estavam em uso dessa terapia, o que reforça sua relevância na experiência das pacientes. Observou-se um aumento nos problemas relatados ao longo do tempo, apesar da redução do distress nos diferentes períodos. Um possível fator para essa tendência é a resiliência, que desempenha um papel crucial na adaptação ao câncer e nas dificuldades relacionadas ao tratamento16,30. Além disso, o impacto de longo prazo da terapia endócrina, especialmente em relação aos efeitos colaterais, como alterações cognitivas e emocionais, poderia ser mais aprofundado, uma vez que essas alterações podem contribuir para um distress prolongado.
Dessa forma, é fundamental realizar a triagem precoce para definição do plano terapêutico, pois isso pode melhorar a QV e, além disso, potencialmente impactar na taxa de sobrevida livre de doença5,9. O protocolo da NCCN para o manejo do distress compreende: 1) reconhecer, monitorar, documentar e tratar o distress oportunamente em todas as fases da doença; 2) identificar o nível e a natureza do distress; 3) realizar o rastreamento sistemático do distress em cada consulta médica ou em intervalos regulares; e 4) avaliar e conduzir o manejo do distress conforme as diretrizes de prática clínica31. Este estudo reforça a importância do suporte emocional e da inclusão da triagem de distress na rotina clínica. O uso crescente de tecnologias digitais para monitoramento de sintomas psicológicos, como aplicativos para detecção precoce do distress e plataformas de telepsicologia, pode representar uma abordagem promissora para garantir uma gestão mais eficiente e personalizada do sofrimento das pacientes.
As limitações deste estudo incluem o fato de ter sido conduzido durante a pandemia de COVID-19, o que pode ter amplificado os níveis de distress14, e a realização em uma instituição privada, com um perfil sociodemográfico distinto do cenário nacional, o que pode comprometer a generalização dos resultados. Além disso, o fato de o estudo não ter incluído, entre as variáveis analisadas, a presença de condições psiquiátricas preexistentes representa uma limitação importante, uma vez que essas comorbidades podem influenciar significativamente os níveis de distress.
Apesar das limitações, este estudo contribui significativamente para a compreensão do sofrimento psicológico e seus fatores associados, podendo orientar a implementação de intervenções mais eficazes. Pesquisas futuras devem explorar o distress em diferentes estágios da doença e com acompanhamento prolongado, visando compreender melhor seus impactos ao longo do tempo.
CONCLUSÃO
Os resultados deste estudo evidenciam que o câncer de mama exerce um impacto profundo e persistente sobre o bem-estar mental e emocional das mulheres sobreviventes. As participantes relataram níveis elevados de distress, com variações moderadas entre os três momentos de avaliação, refletindo a continuidade do sofrimento emocional ao longo do tempo. Observou-se um aumento progressivo no número de problemas relatados, especialmente nos domínios emocionais, espirituais e físicos, sugerindo a complexidade e a intensidade das questões enfrentadas pelas mulheres durante e após o tratamento.
A correlação significativa entre os níveis de distress, idade e escolaridade indica que fatores sociodemográficos desempenham um papel importante na experiência do sofrimento psicológico. A implementação de intervenções que abordem de maneira holística e individualizada os aspectos emocionais, espirituais e físicos pode ser crucial para a promoção do bem-estar e a melhoria da QV das mulheres após o diagnóstico de câncer de mama.
Este estudo contribui para a compreensão do impacto psicológico do câncer de mama em mulheres sobreviventes, ao explorar lacunas relevantes na literatura. Diferente de abordagens tradicionais focadas somente no período de tratamento ativo, esta pesquisa analisou o distress em diferentes momentos após o diagnóstico, evidenciando a persistência do sofrimento emocional ao longo do tempo. Além disso, ao adotar uma perspectiva multidimensional, incluindo aspectos emocionais, físicos e espirituais, o estudo amplia a compreensão sobre a complexidade da experiência vivida pelas sobreviventes.
Outro avanço importante foi a análise da influência de fatores sociodemográficos, como idade e escolaridade, que se mostraram significativamente associados aos níveis de distress. Essa abordagem revela a necessidade de estratégias de cuidado mais personalizadas e sensíveis às particularidades de cada paciente. Por fim, os achados oferecem subsídios valiosos para o desenvolvimento de intervenções de suporte emocional a longo prazo, especialmente voltadas para o período pós-tratamento, etapa ainda pouco explorada em estudos anteriores. Embora a pesquisa tenha revelado informações importantes, as limitações no tamanho da amostra e na abrangência dos fatores sociodemográficos devem ser consideradas.
Agradecimentos
Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), bolsa de produtividade em pesquisa nível 2, processo PQ 306687/2018-6, para Edvane Birelo Lopes De Domenico. À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Programa Capes-PRINT, número do processo 88881.311044/2018-00, Oncologia.
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Fonte: Dados da pesquisa, 2022.*Meses transcorridos do término do tratamento: T1= 3 meses, T2= 6 meses e T3= 9 meses.
Fonte: Dados da pesquisa, 2022.*Meses transcorridos do término do tratamento: T1= 3 meses, T2= 6 meses e T3= 9 meses.