RESUMO
Objetivo: Analisar o perfil epidemiológico e clínico da tuberculose na população indígena de Mato Grosso (2011-2020).
Método: Trata-se de um estudo descritivo com dados registrados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). Foram realizadas análises estatísticas estratificadas por variáveis sociodemográficas e clínicas comparativas entre os casos de tuberculose na população geral e indígena do estado do Mato Grosso (Brasil), utilizando os testes qui-quadrado e exato de Fisher no SPSS® 25.0. As taxas de incidência foram calculadas por 100 mil habitantes e analisadas ao longo dos anos e por área geográfica via GeoDa® 1.20.0.36 e Qgis® 3.32.1. Os dados foram agregados por regionais de saúde.
Resultados: Foram registrados 11.288 casos de tuberculose na população geral e 879 casos em indígenas, com incidência média de 36,3 e 173,1 casos/100.000 habitantes, respectivamente. Indígenas apresentaram maior proporção de mulheres (48,8% vs. 30,3%, p<0,001), jovens (10-17 anos: 21,4% vs. 2,3%, p<0,001), formas pulmonares (97,4% vs. 90,0%, p<0,001) e maior taxa de cura (88,9% vs. 76,5%, p<0,001). A distribuição espacial foi heterogênea na população indígena, predominando em áreas remotas do estado.
Conclusão: A tuberculose apresentou maior incidência na população indígena de Mato Grosso (2011-2020) em comparação à população geral. Entre indígenas, houve maior proporção de mulheres e jovens acometidos, além do predomínio das formas pulmonares e menor frequência de comorbidades.
Descritores:
Tuberculose; Saúde de populações indígenas; Epidemiologia
ABSTRACT
Objective: To analyze the epidemiological and clinical profile of tuberculosis in the indigenous population of Mato Grosso (2011-2020).
Method: This is a descriptive study using data recorded in the Information System for Notifiable Diseases (Sistema de Informação de Agravos de Notificação, SINAN). Statistical analyses were performed, stratified by sociodemographic and clinical variables, comparing tuberculosis cases in the general and indigenous populations of Mato Grosso (Brazil), using the chi-square and Fisher's exact tests in SPSS® 25.0. The incidence rates were calculated per 100,000 inhabitants and analyzed over the years and by geographic area via GeoDa® 1.20.0.36 and Qgis® 3.32.1. The data were aggregated by regional health departments.
Results: A total of 11,288 tuberculosis cases were recorded in the general population and 879 cases in indigenous people, with mean incidence values of 36.3 and 173.1 cases per 100,000 inhabitants, respectively. Indigenous individuals had a higher proportion of women (48.8% vs. 30.3%, p<0.001), young people (10-17 years old: 21.4% vs. 2.3%, p<0.001), pulmonary forms (97.4% vs. 90.0%, p<0.001) and a higher cure rate (88.9% vs. 76.5%, p<0.001). The spatial distribution was heterogeneous in the indigenous population, with predominance in remote areas of the state.
Conclusion: Tuberculosis had higher incidence in the indigenous population of Mato Grosso (2011-2020) when compared to the general population. Among indigenous individuals, there was a higher proportion of affected women and young people, predominance of pulmonary forms and lower frequency of comorbidities.
Descriptors:
Tuberculosis; Health of Indigenous Peoples; Epidemiology
RESUMEN
Objetivo: Analizar el perfil epidemiológico y clínico de la tuberculosis en la población indígena de Mato Grosso (2011-2020).
Método: Estudio descriptivo con datos registrados en el Sistema de Información de Agravios de Notificación (SINAN). Se realizaron análisis estadísticos estratificados por variables sociodemográficas y clínicas, comparando los casos de tuberculosis en la población general e indígena del estado de Mato Grosso (Brasil), utilizando la prueba de chi-cuadrado y la prueba exacta de Fisher en SPSS® 25.0. Las tasas de incidencia se calcularon por 100 mil habitantes y se analizaron a lo largo de los años y por área geográfica a través de GeoDa® 1.20.0.36 y Qgis® 3.32.1. Los datos fueron agregados por las regionales de salud.
Resultados: Se registraron 11.288 casos de tuberculosis en la población general y 879 casos en la población indígena, con una incidencia media de 36,3 y 173,1 casos por 100.000 habitantes, respectivamente. Los indígenas presentaron una mayor proporción de mujeres (48,8% vs. 30,3%, p<0,001), jóvenes (10-17 años: 21,4% vs. 2,3%, p<0,001), formas pulmonares (97,4% vs. 90,0%, p<0,001) y una mayor tasa de curación (88,9% vs. 76,5%, p<0,001). La distribución espacial fue heterogénea en la población indígena, con predominio en áreas remotas del estado.
Conclusión: La tuberculosis presentó una mayor incidencia en la población indígena de Mato Grosso (2011-2020) en comparación con la población general. Entre los indígenas, hubo una mayor proporción de mujeres y jóvenes afectados, con preponderancia de las formas pulmonares y una menor frecuencia de comorbilidades.
Descriptores:
Tuberculosis; Salud de poblaciones indígenas; Epidemiología
INTRODUÇÃO
A tuberculose (TB) é uma das doenças infectocontagiosas mais antigas do mundo e que ainda acomete a população mundial. Seu agente etiológico, o Mycobacterium tuberculosis, afeta principalmente os pulmões (forma pulmonar), porém, em casos mais graves também pode acometer outros órgãos e/ou sistemas (forma extrapulmonar), causando complicações como a meningite1.
Estima-se que, mundialmente, 8,2 milhões de pessoas foram acometidas por TB em 2023 (casos novos), o número mais alto para um único ano desde que a Organização Mundial da Saúde (OMS) iniciou a monitorização global da TB em meados da década de 1990. Além disso, após o controle da pandemia de covid-19, a TB voltou a se configurar como a principal causa de óbitos por doenças infecciosas no mundo2. No Brasil, foram registrados 80.012 casos de TB (37,0/100 mil habitantes) em 2023, e 5.935 óbitos no ano de 20233.
A TB é considerada uma doença multicausal e, dentre os fatores extrínsecos ao indivíduo, os baixos indicadores socioeconômicos corroboram com a proliferação da doença4,5. Com relação aos aspectos epidemiológicos, existem grupos chamados de “populações vulneráveis” que apresentam maior risco de morbimortalidade pela doença, sendo eles: pessoas vivendo com HIV, pessoas privadas de liberdade (PPL), pessoas em situação de rua, usuários de álcool e outras drogas, tabagistas e indígenas4,6. Estes grupos são assim definidos pela situação de pobreza, falta de saneamento básico, pouco acesso a serviços de saúde, más condições de moradia, políticas públicas pouco eficazes, entre outras5,7.
Estudos indicam que comunidades indígenas apresentam taxas de incidência de TB consideravelmente mais altas em comparação com a população geral, refletindo desigualdades no acesso a serviços de saúde e determinantes sociais que exacerbam a vulnerabilidade a doenças infecciosas7. No Brasil, a situação não é diferente. Especificamente em Mato Grosso, registrou-se a maior taxa de incidência de TB em indígenas entre os estados brasileiros (303,6/100 mil habitantes entre 2011-2017), muito superior à da população geral em 2017 (36,3/100 mil habitantes)8,9.
Apesar dos dados mencionados, pouco se sabe sobre as características epidemiológicas e clínicas desses casos, informações fundamentais para subsídio de intervenções eficazes e equitativas por meio de políticas públicas de saúde. Portanto, este estudo tem como objetivo analisar o perfil epidemiológico e clínico dos casos de TB na população indígena de Mato Grosso entre os anos de 2011 e 2020.
MÉTODO
Trata-se de um estudo observacional, descritivo, com um componente espacial, baseado em dados secundários dos casos de TB no estado de Mato Grosso, no período de 2011 a 2020, norteado pelo instrumento Strengthening the Reporting of Observacional Studies in Epidemiology (STROBE).
O estado de Mato Grosso, localizado na região Centro-Oeste do Brasil, possui 141 municípios e 16 regiões de saúde (Figura 1). Sua capital é Cuiabá, e o estado ocupa uma área de 903.207,050 km2. Em 2022 a população de Mato Grosso foi de 3.658.813 habitantes. O estado possui uma densidade demográfica de 4,05 hab/km2 e Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) alto (0,725)10.
De acordo com dados do Censo, realizado em 2022, Mato Grosso é o sétimo estado com maior população indígena do Brasil, com 58.231 pessoas indígenas, correspondendo a 1,59% da população do estado11. Segundo a Organização dos Povos Indígenas do Brasil, essa população está organizada em 39 etnias e 17 famílias linguísticas12. O estado conta com 79 terras indígenas, destas, 56 encontram-se regularizadas, 3 homologadas, 7 declaradas, 3 delimitadas e 10 em fase de estudo13. A Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESaI), criada em 2010, é a responsável por coordenar a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI). Assim sendo, é ela quem organiza as ações de saúde dentro dos 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI). Programas estaduais e municipais atuam de forma complementar e em articulação com a Sesai. Ao todo, Mato Grosso conta com 5 DSEI (Cuiabá, Araguaia, Kaiapó de Mato Grosso, Xavante e Xingu)12.
A população do estudo foi formada por todos os casos novos de TB em pessoas com 10 anos ou mais, residentes no estado de Mato Grosso, registrados no SINAN no período de 2011 a 2020. Foi considerado como caso novo aquele que foi notificado na variável “tipo de entrada” na ficha de notificação de TB como: caso novo (1), não sabe (4) e pós-óbito (casos identificados tardiamente, ou seja, no momento ou após a morte do paciente) (6).
Foram excluídos aqueles assinalados com a categoria “mudança de diagnóstico”, por não se tratar de casos da doença. Excluíram-se também aqueles que continham o código do IBGE de um município de residência não localizado no estado de Mato Grosso, aqueles casos com encerramento como “transferência” (refere-se ao paciente encaminhado para outro serviço para seguimento do tratamento) e que tiveram encerramentos por indicação de uso de esquemas de tratamento diferentes do esquema básico (conforme recomendação do Ministério da Saúde, esses casos devem ser encerrados no SINAN e notificados no Sistema de Informação de Tratamentos Especiais da Tuberculose - SITETB). O número de casos na área durante o período do estudo, submetidos a esses critérios, determinou o tamanho da amostra.
As variáveis de interesse foram as informações referentes ao diagnóstico laboratorial (data e exames laboratoriais realizados), classificação da forma clínica da doença, idade, gênero, raça/cor, escolaridade, coinfecção pelo HIV, uso de antirretrovirais, uso de álcool, tabaco e outras drogas, doença mental, se recebe algum auxílio em programa de transferência de renda do governo e situação de encerramento.
A confirmação laboratorial foi incluída na análise após o agrupamento das variáveis referentes aos testes diagnósticos (baciloscopia de escarro, cultura e teste rápido molecular) em uma única variável, de forma que a realização de qualquer um dos três testes foi considerada suficiente para a confirmação laboratorial da TB.
Os dados relativos aos casos de TB foram obtidos através do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) fornecidos pela Vigilância Epidemiológica da Secretaria Estadual de Saúde de Mato Grosso. Os dados demográficos e as malhas digitais foram obtidos no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)14.
Foi realizada uma análise descritiva com intuito de conhecer as distribuições das características da população de estudo. Para as comparações das variáveis categóricas, foram utilizados os testes do qui-quadrado de Pearson e o exato de Fisher e seus respectivos valores de p. As análises estatísticas foram realizadas por meio do software estatístico Statistical Package for the Social Sciences (SPSS® versão 25.0). Os dados ausentes foram tratados por exclusão automática nas análises estatísticas realizadas, sem imputação de valores.
Foram estimadas taxas de incidência dos casos notificados por TB. Foi tomado como numerador o número de casos e como denominador a população residente nos períodos estudados e multiplicados por 100 mil. A razão de incidência foi obtida dividindo a taxa de incidência da população indígena pela taxa de incidência da população geral, permitindo a comparação da magnitude do risco de tuberculose entre os dois grupos. Além disso, as taxas foram apresentadas em séries anuais e conforme sua distribuição espacial por meio de mapas temáticos com as incidências por regional de saúde na população geral e em indígenas, utilizando-se os softwares de geoprocessamento GeoDa® versão 1.20.0.36 e Qgis® versão 3.32.1. O cálculo das incidências por regiões de saúde foi devido à necessidade de agregar os municípios por conta de dificuldades operacionais em se estabelecer o denominador para a população indígena por município.
O projeto de pesquisa foi aprovado em 18 de agosto de 2021 pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Mato Grosso. Certificado de Apresentação de Apreciação Ética: 47657721.7.0000.8124.
RESULTADOS
Do total inicial de 16.899 casos de tuberculose notificados no SINAN, referentes aos 10 anos do período analisado (2011 a 2020), foram excluídos: 86 registros duplicados (0,5%); 633 mudanças de diagnóstico (3,7%); 587 casos com idades até 9 anos (3,5%); 2 registros sem identificação de sexo (0,01%); 1.204 transferências (7,1%); 2.056 casos de drogarresistência, mudanças de esquema e falências (12,2%); 60 casos (0,4%) por não residirem no estado de Mato Grosso. Restaram, portanto, 12.271 registros (73%).
No período de 2011 a 2020 no estado de Mato Grosso, ocorreram 12.271 casos novos de TB. Desses, 11.288 ocorreram na população geral (92,84%) e 879 (7,16%) na população indígena, correspondendo a uma média de 1.227 casos anuais na população geral e de 88 casos anuais na população indígena. A incidência na população geral variou entre 29,2 y 47,1/100.000 habitantes com média 36,3 casos, e na população indígena entre 103,5 y 401,0/100.000 habitantes com média de 173,1 casos. As maiores incidências foram registradas no ano de 2013 (47,1 casos/100.000 habitantes) e 2015 (401 casos/100.000 habitantes), respectivamente para população geral e população indígena. A razão de incidências de desenvolver TB na população indígena em comparação com a população geral foi de aproximadamente 4,66 (IC95% 4,37 - 4,97) (Figura 2).
Taxas de incidência (por 100 mil habitantes) e números de casos novos por tuberculose nas populações geral e indígena, Mato Grosso, 2011-2020. Brasil, 2023.
Ao analisar os casos de TB nas duas populações, foi possível observar maior proporção de casos na população masculina (68,4% vs. 31,6%, p<0,001), com idades entre 18 e 39 anos (44,1%, p<0,001) e indivíduos com ensino fundamental incompleto (48,6%, p<0,001). Em contrapartida, comparando as populações femininas, mulheres indígenas apresentaram maior proporção de casos que as da população geral (48,8% vs. 30,3%, p<0,001). A média de idade na população geral foi de 53 anos, enquanto na população indígena foi de 46 anos. No entanto, as maiores proporções encontradas foram na faixa etária de 18 a 39 anos em ambas as populações (39,7% vs. 44,5%, p<0,001 - indígena e geral, respectivamente). A população indígena possuiu maior ocorrência de recebimento de benefício governamental (61,9% vs. 7,1%, p<0,001) (Tabela 1).
Com relação às variáveis clínicas da TB, houve maior porcentagem de indivíduos apresentando a forma pulmonar na população indígena (97,4% vs. 90,0%, p<0,001). Porém, a confirmação laboratorial foi mais baixa nessa população (54,4% vs. 45,6%, p<0,001). As doenças e agravos associados ocorreram mais na população geral (14,0% vs. 3,9%, p<0,001). A população indígena obteve maiores índices de encerramento por cura quando comparada à população geral (88,9% vs. 76,5%, p<0,001) (Tabela 2).
A Figura 3 apresenta as incidências por regional de saúde na população geral (A) e em indígenas (B). Em todos os anos analisados (2011-2020), a incidência de TB na população indígena foi maior do que na população geral. No entanto, a distribuição dos casos entre indígenas variou ao longo dos anos de forma heterogênea, predominando principalmente nas regiões mais remotas do estado. Em contraste, na população geral os casos se concentraram principalmente na região da Baixada Cuiabana. Além disso, as menores taxas de incidência na população geral foram observadas nas regiões de saúde de Diamantino, Cáceres e Pontes e Lacerda.
Distribuição espacial da incidência (por 100 mil habitantes) por TB na população geral (A) e indígena (B), Mato Grosso, por região de saúde, 2011-2020. Brasil, 2023.
DISCUSSÃO
Com base nos resultados deste estudo, foi possível observar uma disparidade significativa na incidência de tuberculose entre a população indígena e a população geral de Mato Grosso no período de 2011 a 2020. A incidência de TB na população indígena foi cerca de 4,66 vezes maior do que na população geral, com uma média anual de 173,1 casos por 100.000 habitantes, comparada à média de 36,3 casos por 100.000 habitantes na população geral. Além disso, a análise revelou características epidemiológicas e clínicas distintas entre as duas populações, com uma maior proporção de mulheres indígenas acometidas, maior prevalência de formas pulmonares da doença, maior proporção de encerramento por cura e menores índices de comorbidades. A distribuição da incidência na população indígena apresentou variações anuais e regionais, com maior concentração de casos nas regiões mais remotas do estado, ao passo que na população geral os casos se concentraram principalmente na região da Baixada Cuiabana.
No final do período estudado, a taxa de incidência diminuiu em 6,0/100.000 habitantes na população geral, enquanto na população indígena a taxa aumentou em 19,9/100.000 habitantes. Esse aumento pode estar relacionado a ações de capacitação técnica implementadas em 2015, que melhoraram a sensibilidade para o diagnóstico da doença, permitindo uma maior detecção de casos entre os povos indígenas15. Por outro lado, é importante destacar que altas incidências em populações indígenas brasileiras são observadas pelo menos desde 1997 em outros estados, como Rondônia16, e essa persistência pode indicar que medidas de prevenção e controle ainda são insuficientes para reduzir significativamente a transmissão da TB entre indígenas17.
A análise evidenciou que as taxas de incidência na população indígena mantiveram-se elevadas ao longo do período. Analisando por região de saúde, constatou-se que há regiões em que elas são ainda mais amplas. As maiores incidências do período analisado (2011-2020) na população geral concentraram-se, principalmente, nas regiões da Baixada Cuiabana e de Barra do Garças, enquanto a população indígena apresenta altas incidências em todo o estado, principalmente nas regiões de Barra do Garças e Peixoto de Azevedo. Esses padrões regionais podem estar relacionados à localização das aldeias normalmente mais isoladas geograficamente5,6,9.
A proporção de casos de TB na população indígena mostrou-se mais igualmente distribuída entre os sexos, fugindo ao padrão na população em geral, onde os homens são os mais acometidos, muitas vezes mais expostos tanto em decorrência das relações laborais quanto pelo seu distanciamento dos serviços de saúde17,18. Por outro lado, pode-se relacionar tal aspecto a fatores culturais e sociais, uma vez que, tradicionalmente em algumas comunidades, a mulher passa mais tempo em ambientes fechados e com condições sanitárias inadequadas, tendo maior exposição a condições que favorecem a transmissão da TB19,20.
A maior proporção de casos de TB entre indivíduos de 10 a 17 anos na população indígena, em comparação à população geral, pode estar associada à alta densidade domiciliar, dificuldades no acesso aos serviços de saúde e barreiras geográficas e culturais, que retardam o diagnóstico e o tratamento adequado. Além disso, a desnutrição e a maior prevalência de infecções respiratórias podem comprometer a resposta imunológica dos jovens indígenas, tornando-os mais suscetíveis ao adoecimento. O contato próximo entre indivíduos de diferentes faixas etárias dentro das aldeias, incluindo crianças e adolescentes convivendo com adultos sintomáticos não tratados, também pode aumentar o risco de exposição21.
A maior proporção de casos de TB entre indígenas com menor escolaridade (analfabetos e aqueles com ensino fundamental incompleto) quando comparados à população em geral, está diretamente associada a piores condições socioeconômicas, maior vulnerabilidade à desnutrição e menor acesso à informação sobre medidas preventivas e sintomas da doença, o que pode retardar o diagnóstico e agravar a transmissão9,18. Corrobora a esta hipótese o fato de que cerca de 52,5% dessa população recebe benefício governamental, sugerindo que enfrentam maiores vulnerabilidades socioeconômicas, devido a condições de pobreza, insegurança alimentar e dificuldades de acesso ao mercado de trabalho formal. Além disso, essa disparidade pode refletir desigualdades estruturais históricas que impactam os povos indígenas, incluindo menor acesso à educação e oportunidades econômicas9,22.
No que se refere à forma clínica, a pulmonar foi a mais frequente dentre os casos de TB em indígenas, com um percentual menor de formas extrapulmonares quando comparado com a população em geral. Isso parece ter íntima relação com a menor taxa de coinfecção TB-HIV apresentada nesta população. Especialistas apontam que pessoas com esse tipo de coinfecção tendem a apresentar mais a forma clínica extrapulmonar23. Além disso, foi observada uma baixa oferta de TARV e uma maior taxa de confirmação laboratorial entre os indígenas quando comparado com a população em geral. Estes achados, apesar de parecerem contraditórios, sugerem que pode haver testagem ativa e uso adequado de métodos diagnósticos, possivelmente devido a estratégias de vigilância em áreas indígenas, como a presença de equipes de saúde da atenção primária. No entanto, a baixa oferta de TARV pode indicar barreiras no acesso ao cuidado contínuo, seja pela limitação de serviços especializados próximos às comunidades indígenas, dificuldades logísticas no seguimento dos pacientes ou menor integração entre os programas de TB e HIV24.
Além da baixa prevalência de coinfecção TB-HIV, os indígenas também apresentaram menores proporções de todas as outras comorbidades estudadas (abuso de álcool, doença mental, drogadição, tabagismo e AIDS). Culturalmente, algumas populações indígenas podem apresentar padrões distintos de uso de substâncias e exposição a fatores de risco, seja pela influência de normas comunitárias, restrições socioculturais ou menor urbanização, o que poderia resultar em menor prevalência real dessas condições. No entanto, essa diferença também pode estar relacionada ao subdiagnóstico dessas comorbidades17.
A maior proporção de encerramento por cura entre indígenas com tuberculose, em comparação com a população geral, pode estar relacionada a fatores como a organização dos serviços de saúde indígena, que frequentemente incluem modelo de atenção primária diferenciada, com equipes de saúde indígenas e estratégias de busca ativa. Além disso, o fato de uma parcela significativa dessa população receber auxílio governamental pode favorecer a adesão ao tratamento, reduzindo barreiras socioeconômicas que poderiam levar ao abandono9. Estes resultados indicam que provavelmente faltem programas de prevenção mais eficientes. No entanto, o achado de maior proporção de óbitos por tuberculose entre indígenas, aliado à menor ocorrência de outros desfechos, como abandono e óbito por outras causas, sugere um perfil de maior vulnerabilidade clínica. Isso pode indicar que, embora haja maior adesão ao tratamento, alguns indígenas possam apresentar condições de saúde mais graves no momento do diagnóstico, potencialmente devido a dificuldades no acesso precoce ao cuidado. Além disso, a baixa proporção de agravos associados nessa população também pode estar influenciando positivamente na taxa de encerramento por cura.
Na análise espacial das regiões de saúde durante a série histórica, destacaram-se as regiões de Barra do Garças (DSEI Xavante) e Peixoto de Azevedo (DSEI Kaiapó do Mato Grosso). A cidade de Peixoto de Azevedo é um importante polo-base do DSEI Kaiapó-MT, concentrando os atendimentos de saúde indígena da região, fator este que pode explicar suas altas incidências. O mesmo evento se repete nas cidades de Barra do Garças, Porto Alegre do Norte e Rondonópolis, que dão nome às suas respectivas regiões de saúde. Essas áreas são caracterizadas por desafios históricos, como precariedade no saneamento básico, habitação inadequada e ausência de infraestrutura adequada nos serviços de saúde indígena que dificultam o diagnóstico precoce e o tratamento adequado5,7,19. O vínculo direto da Sesai com o Ministério da Saúde possibilitou um aumento no investimento, criação de Equipes Multidisciplinares de Saúde Indígena (EMSI) e maior organização para proporcionar atenção à saúde em Mato Grosso. Contudo, a política é relativamente nova e sua implementação e estruturação estão aquém do esperado25.
Os resultados deste estudo devem ser interpretados considerando suas limitações, especialmente a possibilidade de subnotificação de casos no SINAN26. Ressalta-se a dificuldade de acesso aos dados censitários de indígenas desagregados por município e por ano, o que interferiu na visualização dos dados. A falta de dados populacionais intercensitários específicos por raça/cor exigiu a utilização da taxa média de crescimento populacional estimada pelo IBGE11,14, o que pode impactar a precisão das taxas de incidência. Além disso, devido ao pequeno tamanho populacional, mesmo um único caso de TB pode resultar em uma taxa de incidência elevada, exemplificando o problema dos pequenos números na epidemiologia, onde variações mínimas no numerador podem gerar grandes flutuações nas estimativas, comprometendo a estabilidade e a interpretação dos dados. Por fim, reconhece-se que a agregação dos dados por regionais de saúde para análise espacial pode implicar em inferência ecológica, sendo este um fator a ser considerado na interpretação dos resultados.
Apesar dessas limitações, o estudo preenche uma lacuna na literatura ao caracterizar a epidemiologia da TB entre indígenas em Mato Grosso, um dos estados com maior população indígena no Brasil. Nossos achados são consistentes com estudos que apontam maior vulnerabilidade dessa população à TB, reforçando a necessidade de estratégias específicas de controle da doença.
CONCLUSÃO
Este estudo permitiu traçar um panorama das características e distribuição espacial da TB que influenciam na manutenção da transmissão da doença em uma região com significativa concentração de população indígena. Os resultados demonstraram que a população indígena apresenta incidências mais altas (173,1 casos/100.000 habitantes) de TB ao se comparar com a população geral (36,3 casos/100.000 habitantes) indicando a persistência da doença em territórios de vulnerabilidade socioeconômica, condições habitacionais inadequadas, dificuldades de acesso aos serviços de saúde, falhas em algumas das estratégias programáticas para o controle da doença (seja na detecção de casos, adesão ao tratamento ou nas ações estratégicas para populações especiais) e também que as políticas vigentes não estão sendo suficientes para controlar os casos de TB nessa população, destacando-se que são fatores que historicamente impactam as populações indígenas.
As disparidades encontradas neste estudo demonstram que é essencial fortalecer políticas de prevenção da TB em saúde indígena, ampliando a busca ativa de sintomáticos respiratórios e expandindo o acesso ao diagnóstico molecular, especialmente em áreas remotas. Além disso, a integração entre políticas de saúde e assistência social pode contribuir para a melhoria das condições de vida e reduzir os determinantes sociais da TB. A capacitação contínua de profissionais de saúde sobre especificidades culturais indígenas e a participação ativa dessas comunidades no planejamento e execução das estratégias são fundamentais para garantir um controle mais eficaz da doença.
A implementação de ações intersetoriais, aliada à produção de pesquisas que envolvam as comunidades indígenas, pode contribuir para o desenvolvimento de soluções adaptadas à realidade local. Essas medidas não apenas fortalecerão a prevenção, detecção e tratamento da TB, mas também promoverão maior equidade no acesso à saúde e na redução das desigualdades sociais, elementos essenciais para o enfrentamento da tuberculose entre indígenas.
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O acesso ao conjunto de dados poderá ser realizado mediante solicitação ao autor correspondente.




Fonte: Elaborado pelos autores com o software Qgis®.
Fonte: Elaborado pelos autores a partir de dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN).
Fonte: Elaborado pelos autores com o software Qgis a partir de dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN).