Open-access Experiências de usuários de profilaxia pré-exposição ao HIV durante a inundação em Porto Alegre

RESUMO

Objetivo:   Compreender as experiências de usuários de profilaxia pré-exposição ao vírus da imunodeficiência humana durante a inundação em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil.

Método:  Trata-se de uma pesquisa de natureza qualitativa. Participaram 25 usuários, e a coleta dos dados ocorreu por entrevistas semiestruturadas, realizadas por telefone, no período de maio a julho de 2024. Adotou-se a análise de conteúdo do tipo temática.

Resultados:  Os resultados foram organizados em duas categorias empíricas: “Desgraça coletiva: repercussões para o cotidiano”, que revelou sentimentos de perda, medo e instabilidade emocional diante do desastre, e “Acabou a PrEP: estratégias e (des)continuidade”, com uma subcategoria, “Relação com o (Des)Serviço. Foram evidenciadas interrupções no acesso à medicação, falhas na comunicação institucional e sensação de insegurança em relação à manutenção do cuidado.

Conclusão:  A continuidade do uso da PrEP foi comprometida durante o desastre, demonstrando a necessidade de políticas públicas que garantam o cuidado contínuo em contextos adversos, por meio de protocolos de emergência e de uma comunicação clara e acessível.

Descritores:
Profilaxia Pré-Exposição; HIV; Inundações; Desastres Naturais

ABSTRACT

Objective:  To understand the experiences of users of human immunodeficiency virus pre-exposure prophylaxis during the flood in Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brazil.

Method:  This is a qualitative study. Twenty-five users participated, and data collection was conducted through semi-structured interviews held via telephone, from May to July 2024. Thematic content analysis was adopted.

Results:  The findings were organized into two empirical categories: “Collective tragedy: repercussions for everyday life,” which revealed feelings of loss, fear, and emotional instability in the face of the disaster; and “The PrEP is over: strategies and (dis)continuity,” with one subcategory, “Relationship with the (Non)Service”. Disruptions in access to medication, failures in institutional communication, and a sense of insecurity regarding continuity of care were evident.

Conclusion:  PrEP use continuity was compromised during the disaster, highlighting the need for public policies that ensure continuous care in adverse contexts, through emergency protocols and clear, accessible communication.

Descriptors:
Pre-Exposure Prophylaxis; HIV; Floods; Natural Disasters

RESUMEN

Objetivo:  Comprender las experiencias de los usuarios de profilaxis preexposición al virus de la inmunodeficiencia humana durante la inundación en Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil.

Método:  Investigación de naturaleza cualitativa. Participaron 25 usuarios y la recolección de datos se realizó mediante entrevistas semiestructuradas, realizadas por teléfono, entre mayo y julio de 2024. Se adoptó el análisis de contenido de tipo temático.

Resultados:  Los resultados se organizaron en dos categorías empíricas: “Desgracia colectiva: repercusiones en la vida cotidiana”, que reveló sentimientos de pérdida, miedo e inestabilidad emocional ante el desastre; y “Se acabó la PrEP: estrategias y (des)continuidad”, con una subcategoría, “Relación con el (Des)Servicio”. Se evidenciaron interrupciones en el acceso a la medicación, fallas en la comunicación institucional y una sensación de inseguridad respecto a la continuidad del cuidado.

Conclusión:  La continuidad en el uso de la PrEP se vio comprometida durante el desastre, lo que muestra la necesidad de políticas públicas que garanticen el cuidado continuo en contextos adversos, mediante protocolos de emergencia y una comunicación clara y accesible.

Descriptors:
Profilaxis Pre-Exposición; VIH; Inundaciones; Desastres Naturales

INTRODUÇÃO

A produção e emissão de gases de efeito estufa e outros poluentes atmosféricos têm sido os principais contribuintes para as mudanças climáticas e o aquecimento global nos últimos dois séculos1. As consequências de tais mudanças incluem epidemias, erupção de vulcões, terremotos, secas, incêndios e inundações. Eventos como chuvas intensas e estiagens severas tornam-se mais recorrentes, aumentando a incidência de catástrofes naturais2. As mudanças climáticas, combinadas ao rápido processo de urbanização, muitas vezes em áreas inadequadas para a ocupação humana, ampliam os riscos e as situações de perigo associados a esses eventos, especialmente para pessoas que vivem em áreas densamente povoadas, em países em desenvolvimento, com ausência de infraestrutura ou de serviços públicos eficientes (1,2.

É evidente que essas catástrofes afetam a sociedade, o meio ambiente, a economia e a saúde pública, tornando ainda mais visíveis as vulnerabilidades e desigualdades já existentes3-5. Em períodos de calamidade pública, há diversos riscos à saúde, como carência de alimentos, falhas no sistema de tratamento de água e esgoto1,3) e comprometimento do sistema de saúde.

Entre os vários aspectos da saúde pública afetados por esses cenários, está a resposta à epidemia de HIV/Aids. O Brasil ocupa posição de destaque na América Latina em número de casos da doença, e o estado do Rio Grande do Sul apresenta a maior prevalência nacional6. Em Porto Alegre, capital do estado, a epidemia encontra-se generalizada, com índices elevados de detecção de HIV em gestantes e um coeficiente de mortalidade 1,8 vezes superior à média nacional6. Como resposta à epidemia, a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) tem sido adotada no país como uma estratégia central da prevenção combinada, sendo recomendada tanto para uso contínuo quanto sob demanda7.

Ainda que a PrEP represente um avanço significativo no controle do HIV, o acesso a ela e sua continuidade podem ser comprometidos por eventos ambientais extremos. Um estudo de revisão mostrou que há uma relação entre as mudanças climáticas e a prevenção do HIV, com potencial de exacerbar as iniquidades sociais e de impactar significativamente as populações já em risco. As consequências das mudanças climáticas, como deslocamento e migração, insegurança alimentar e instabilidade econômica, favorecem a disseminação e o impacto do HIV. O deslocamento, por exemplo, pode levar à ruptura das redes sociais e sistemas de apoio, elementares para a manutenção da saúde e o acesso a cuidados, influenciando fatores sociais e comportamentais que aumentam a vulnerabilidade ao HIV. Além disso, em tempos de crise, as estruturas e normas sociais tradicionais podem romper-se e, assim, levar ao aumento da violência e da exploração de gênero3.

Esse cenário torna-se particularmente relevante à luz do desastre ambiental ocorrido no Rio Grande do Sul entre abril e maio de 2024. Nesse período, chuvas intensas e prolongadas provocaram a maior inundação já registrada no estado. Estima-se que 2,4 milhões de pessoas tenham sido afetadas, com 600 mil deslocadas e 213 óbitos ou desaparecimentos confirmados. As perdas materiais incluíram tanto áreas urbanas quanto rurais, evidenciando a gravidade do risco hidrológico enfrentado8.

A cidade de Porto Alegre, supostamente protegida por um sistema contra inundação, que inclui diques, muros, comportas e bombas construídas na década de 1970, foi severamente afetada8. A falha desse sistema, atribuída à falta de manutenção adequada por parte da administração municipal, provocou uma série de colapsos interdependentes: interrupção do fornecimento de energia elétrica, falhas no abastecimento de água potável e bloqueio das principais vias de acesso terrestre à cidade por mais de três semanas9.

Esse colapso teve implicações diretas na capacidade de resposta dos serviços de saúde. Aproximadamente 1.170 estabelecimentos, entre farmácias, unidades de saúde, centros de testagem e aconselhamento (CTA) e hospitais, tiveram suas atividades interrompidas ou prejudicadas, o que comprometeu o fornecimento de medicamentos e o acesso a estratégias de prevenção, como a PrEP9.

Considerando-se esse cenário, formulou-se a seguinte questão de pesquisa: quais foram as experiências de manutenção da PrEP ao HIV em usuários de um centro de testagem e aconselhamento de Porto Alegre atingido pela inundação? Como objetivo, buscou-se compreender as experiências de usuários de profilaxia pré-exposição ao HIV durante emergência climática em Porto Alegre (RS, Brasil).

MÉTODO

Trata-se de uma pesquisa de natureza qualitativa, a qual se caracteriza por abordar o universo de significados, motivos, atitudes, crenças e valores das pessoas envolvidas no fenômeno considerado10. Este estudo é recorte de um projeto maior em que se procura analisar as experiências no início e manutenção na da PrEP ao longo de um ano (0, 30, 90, 180 e 360 dias). O cenário de pesquisa principal foi o Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) localizado em Porto Alegre, o qual é referência para toda a população da cidade e responsável pela realização de estratégias de prevenção em saúde, como testagem rápida para o HIV, PrEP e Profilaxia Pós-Exposição (PEP) ao HIV.

A abordagem inicial dos participantes ocorreu presencialmente no CTA, no momento da inclusão na profilaxia, quando entrevistas semiestruturadas foram feitas em uma sala reservada, apenas para pesquisadora e participante, com vistas a manter um ambiente confortável e seguro; o instrumento compreendia 11 perguntas, além da caracterização sociodemográfica. As entrevistas subsequentes, referentes aos marcos temporais de 30, 90, 180 e 360 dias, foram realizadas por telefone, com 10 perguntas. Em nenhuma das etapas, foi realizado teste piloto. As perguntas contemplaram aspectos relacionados a acesso, manutenção da PrEP, motivação para o uso e experiências no serviço de saúde, e a compilação das informações coletadas está sendo finalizada após um ano de pesquisa. Para este artigo, utilizam-se as informações geradas na entrevista de 90 dias de uso da Prep.

Participaram da primeira entrevista, momento zero, 28 pessoas. Os critérios de inclusão foram idade acima de 18 anos, agendamento no serviço para uso inicial de PrEP e telefone com linha ativa. Não houve critério de exclusão. Todas as pessoas em atendimento foram convidadas a participar do estudo, de forma consecutiva. O número de participantes foi orientado pelo “poder da informação”, sendo considerados: o objetivo do estudo, a especificidade da amostra, a teoria, a qualidade do diálogo e a estratégia de análise11. A coleta de dados continuou até a saturação ser atingida, o que foi determinado quando nenhum novo tema emergiu.

Os participantes e a pesquisadora não se conheciam previamente; o contato inicial ocorreu no momento da abordagem para participação, na fase de geração de dados. Os participantes ficaram cientes de que a entrevistadora fazia parte de uma equipe de pesquisa interessada em compreender aspectos relacionados à profilaxia pré-exposição. Para geração dos dados, a pesquisadora principal, que é enfermeira e estava cursando o mestrado na época, esteve três dias da semana no serviço ao longo de 60 dias.

No período que correspondeu aos 90 dias da profilaxia, o município foi atingido por um evento climático extremo, caracterizado por inundações severas, o que impactou diretamente as condições de vida dos participantes. Como consequência, ocorreu a perda de três participantes por falta de resposta às chamadas telefônicas, após três tentativas em distintos momentos, no período de uma semana.

Os relatos das situações vividas na inundação foram marcantes. Em seus depoimentos, 25 participantes (Quadro 1) abordaram as condições que enfrentaram para atravessar as inundações, a inviabilidade de acesso à PrEP e as implicações dessa situação. A análise dos relatos possibilitou a construção de duas categorias empíricas e uma subcategoria, as quais são o foco do presente artigo.

A geração de dados referente aos 90 dias de manutenção da PrEP ocorreu entre os meses de maio e julho de 2024. Entrevistas semiestruturadas, conduzidas pela pesquisadora principal por meio de ligação telefônica via celular, foram gravadas em aparelho digital, contando com a autorização prévia dos participantes e respeitando sua privacidade. Para cada entrevista, com duração média de 25 minutos, utilizou-se um roteiro com 10 perguntas, previamente elaborado, que abordava aspectos relacionados ao conhecimento e a experiências, aceitação e barreiras na continuidade do uso da PrEP. Foram feitas anotações no decorrer das ligações. Diante do evento climático extremo e do fechamento temporário do CTA, o roteiro de entrevista foi adaptado para incluir perguntas específicas sobre as vivências dos participantes durante a inundação, proporcionando-lhes uma escuta ativa sobre os efeitos percebidos com a dificuldade de acesso à PrEP e de continuidade do cuidado em saúde. Esse contexto emergencial permitiu ampliar a compreensão dos desafios enfrentados pelos usuários em situações de vulnerabilidade intensificada e das fragilidades dos serviços de saúde em cenários de crise socioambiental.

Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) previamente. Os aspectos éticos do estudo foram respeitados, conforme as Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisa em Seres Humanos da Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde do Ministério da Saúde12. Não foi necessário repetir nenhuma entrevista. As entrevistas foram transcritas com uso do aplicativo Transkriptor13 e codificadas de forma independente por dois pesquisadores com o uso do software Nvivo14. Utilizou-se a análise de conteúdo do tipo temática10 por meio de distintas etapas: pré-análise, exploração do material, tratamento dos resultados obtidos e interpretação.

Os temas foram indutivamente derivados dos dados, em vez de serem identificados antecipadamente. Embora não tenha sido utilizada uma árvore de codificação formal, o processo envolveu uma abordagem interativa, em que as categorias foram refinadas à medida que os dados eram analisados. As discrepâncias nas codificações foram resolvidas por consenso entre dois codificadores, garantindo a congruência na interpretação das respostas dos participantes. As transcrições das entrevistas não foram devolvidas aos participantes para comentários ou correções. Após a leitura aprofundada e classificação das falas, foram recortadas as unidades a serem referenciadas por temas, que, agrupadas por convergência de ideias10, deram origem às duas categorias.

Para garantir e orientar a pesquisa, seguiram-se as recomendações da Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research15. A pesquisa foi submetida a dois Comitês de Ética em Pesquisa, por meio da Plataforma Brasil, sob o CAAE nº 73048923.4.0000.5347 e nº 73048923.4.3001.5338, sendo aprovada. Os participantes foram nomeados com a letra P, em sequência numérica (Ex.: P01, P02).

RESULTADOS

Para apresentação dos resultados, são consideradas duas categorias empíricas, a saber, “Desgraça coletiva”: repercussões para o cotidiano e “Acabou a PrEP”: estratégias e (des)continuidade, além de uma subcategoria: “A relação com o (Des)Serviço”.

Caracterização dos usuários

Os 25 participantes (Quadro 1) apresentaram idade mínima de 20 e máxima de 57 anos, e a média foi de 30 anos; 21 (84%) indicaram ser da cor branca; 23 (92%) declararam ter escolaridade superior a 12 anos. Quanto à identidade de gênero, 22 (88%) autodeclararam-se homens CIS. No que se refere à inundação, 19 (76%) afirmaram ter sido atingidos; 14 (56%) precisaram sair de casa; 10 (40%) tinham a medicação e mantiveram o seu uso; seis (24%) ficaram sem medicamento; e nove (36%) descontinuaram o uso da PrEP por iniciativa própria. Os 25 entrevistados residiam na cidade de Porto Alegre, e a maior parte (49%) no centro da cidade.

Quadro 1
Perfil dos participantes usuários de profilaxia pré-exposição ao HIV durante a inundação, Porto Alegre, RS, Brasil, 2024.

“Desgraça coletiva”: repercussões para o cotidiano

A partir das experiências relatadas pelos participantes, construiu-se o Quadro 2. A análise revelou que as inundações forçaram os participantes a deixarem suas residências e a buscarem abrigo em casa de parentes e amigos. Muitos dos que permaneceram em seus domicílios ficaram sem luz e/ou água, o que afetou sua estabilidade e segurança imediatas.

Quadro 2-
Síntese dos relatos, agrupados a partir das experiências de usuários de profilaxia pré-exposição ao HIV durante a inundação em Porto Alegre, RS, Brasil, 2024.

“Acabou a PrEP”: estratégias e (des)continuidade

A segunda categoria, “Acabou a PrEP”: estratégias de (des)continuidade, engloba os depoimentos sobre como a catástrofe afetou a tomada da profilaxia durante a calamidade e mesmo após seu término. A subcategoria “A relação com o (des)serviço” enfoca o acesso, indicando que os participantes tinham dúvidas sobre o local ao qual se dirigir para consulta e retirada da medicação, preocupação em ir a um local diferente e incerteza quanto à forma de tratamento/acolhimento nos locais temporários, além de terem que lidar com a ausência de informações, conforme mostra o Quadro 3.

Quadro 3 -
Síntese dos principais resultados, agrupados a partir das experiências de usuários de profilaxia pré-exposição ao HIV durante a inundação em Porto Alegre, RS, Brasil, 2024.

DISCUSSÃO

De forma inédita, o estudo revelou as experiências dos participantes, mostrando que desastres ambientais, como as inundações ocorridas em Porto Alegre, afetam diretamente a continuidade do cuidado em saúde, em especial, o uso de profilaxia pré-exposição ao HIV. As narrativas evidenciam que o impacto não é apenas físico, mas também psicológico e social, refletindo as múltiplas camadas de vulnerabilidade enfrentadas pelos usuários.

Em Porto Alegre, o número de pessoas desabrigadas ou que tiveram que deixar suas residências só aumentava, e não somente em razão da inundação em si. Isso porque seus múltiplos efeitos ultrapassavam os danos materiais e atingiam profundamente o bem-estar psicológico9. Quando essas tragédias resultam na perda da moradia, com uma saída brusca do domicílio, instauram-se prejuízos físicos, emocionais e mentais significativos. A casa, nesse contexto, representa mais do que um abrigo; ela sustenta parte importante da identidade do indivíduo, situando sua vida tanto no espaço geográfico quanto no simbólico16.

Embora não tenham sido encontrados estudos específicos na literatura que avaliem as consequências de inundações na assistência e manutenção dos usuários de PrEP, pesquisas demonstram como desastres naturais afetam o cuidado e podem ter efeitos devastadores para a saúde, especialmente entre pessoas que vivem com HIV. Essa população foi identificada como um grupo vulnerável às condições climáticas severas17-18.

Uma pesquisa recente, realizada na Califórnia, que avaliou o impacto dos incêndios florestais nos resultados de saúde entre pessoas vivendo com HIV, constatou que os usuários enfrentaram dificuldades na adesão à terapia antirretroviral (TARV) e no acesso a medicamentos, principalmente devido ao fechamento de muitas farmácias locais. As equipes de saúde igualmente relataram limitações em contatar os pacientes, além de diminuição no cuidado contínuo de prevenção ao HIV, pois muitos usuários buscaram atendimento emergencial para avaliação de exposição. Além das barreiras de acesso, fatores como depressão e estresse relacionados aos incêndios, mudanças bruscas na rotina, evacuações de emergência e esquecimento de medicamentos provocaram danos à saúde mental18.

A interrupção dos serviços de saúde e a falta de planejamento de contingência para situações emergenciais foram pontos críticos. Em uma revisão, pesquisadores apontaram que a falta de infraestrutura de saúde pública adequada para emergências resulta em descontinuidade do tratamento3. Isso corrobora os resultados encontrados neste estudo, em que a suspensão das atividades do CTA e a inundação foram determinantes para o distanciamento dos participantes do uso regular da PrEP. A diversidade de estratégias adotadas pelos usuários para manter a profilaxia, como comprar a medicação por conta própria, contar com apoio de parceiros ou buscar novos serviços, demonstra resiliência individual, mas também as fragilidades do sistema de saúde em garantir o acesso contínuo a tratamentos preventivos em cenários de emergência3,9. A literatura internacional enfatiza que a continuidade da PrEP em contextos de emergência é uma questão crítica para o sucesso das políticas de prevenção ao HIV19.

No cenário do presente estudo, especificamente no setor da saúde, as inundações expuseram o descaso das administrações, evidenciando a negligência das administrações do estado do Rio Grande do Sul, da capital Porto Alegre e de vários municípios, que adotam políticas de estrangulamento do setor público e privatização de áreas de interesse público20. O Sistema Único de Saúde (SUS) precisou redirecionar a atenção primária para os abrigos coletivos e implementar hospitais de campanha para operar como retaguarda assistencial9,20. A dificuldade de acesso aos cuidados foi agravada por danos à infraestrutura de saúde, escassez de profissionais e recursos limitados, aumentando a pressão sobre um sistema já sobrecarregado21.

Os atendimentos foram deslocados para locais não afetados, porém, tais mudanças nem sempre foram comunicadas à população. O centro de testagem e aconselhamento de referência dos usuários precisou ser redirecionado e fragmentado. Os resultados deste estudo apontam uma fragilidade recorrente na gestão pública em situações de emergência: a dificuldade em disponibilizar informações claras, acessíveis e atualizadas para a população. Essa ausência comunicacional é também destacada em outras pesquisas17,18, que mostram como a desinformação pode gerar sentimento de insegurança e frustração, dificultar o acesso oportuno aos serviços de saúde, atrasar a renovação de prescrições e comprometer a continuidade do tratamento. Quando essas barreiras persistem, tornam-se fatores determinantes para o abandono da profilaxia, como foi relatado por alguns participantes e evidenciado na descontinuidade do uso da PrEP.

A literatura destaca o potencial de tecnologias digitais e de serviços de saúde remotos para mitigar os efeitos da ausência de comunicação em tempos de calamidade19,22. Pesquisas realizadas nos Estados Unidos e na África do Sul indicam que o uso de consultas por telefone e de plataformas digitais pode ajudar a manter a adesão à PrEP em períodos de interrupção dos serviços presenciais, como observado em um estudo sobre o uso de telemedicina para o seguimento de pacientes em situações de pandemia22. Além disso, estratégias adicionais de marketing, alavancando plataformas de mídia social, posts de divulgação e uma linha direta específica para PrEP, fazem-se necessárias23. Nesse sentido, a adaptação do instrumento de entrevistas neste estudo para incluir questões sobre o impacto da enchente foi uma tentativa de captar as necessidades emergenciais dos participantes e serviu como um recurso mediador do cuidado em tempos de crise, procurando informar e auxiliar na busca dos cuidados em saúde.

A preocupação com a continuidade dos cuidados em contextos adversos dialoga com a vulnerabilidade dos serviços de prevenção ao HIV, que podem sofrer cortes programáticos ou ser limitados em seu escopo e capacidade24. Embora ofereçam intervenções básicas, os serviços frequentemente não conseguem enfrentar questões mais profundas, como o estigma, o que torna essencial o investimento adequado para uma abordagem mais completa25,26. Os usuários mostraram-se inseguros e preocupados com o atendimento diante das limitações da Atenção Primária em Saúde (APS), devido à dificuldade de conciliar demanda programada e espontânea, especialmente demandas sexuais e de pré-natal.

Um estudo realizado na África do Sul, que investigou o impacto da seca no tratamento do HIV, demonstrou redução na adesão à TARV e agravamento das vulnerabilidades sociais já existentes, principalmente a pobreza generalizada, levando muitas pessoas a priorizarem necessidades básicas de saúde, como o acesso à água e a alimentos. Essa realidade pode ter influenciado negativamente o cuidado com o HIV e a adesão ao tratamento27.

Os achados do presente estudo sugerem que, apesar de os usuários de PrEP buscarem alternativas para manter seu tratamento, as estruturas de saúde pública precisam integrar abordagens mais flexíveis e resilientes, que considerem não só o acesso aos medicamentos, como também o apoio contínuo ao cuidado em saúde, especialmente em contextos de vulnerabilidade social e desastres ambientais3. A literatura mundial reforça a necessidade de os programas de PrEP serem capazes de se adaptar rapidamente a crises, incorporando tanto o cuidado presencial quanto o remoto, para assegurar que os indivíduos em risco permaneçam protegidos contra a infecção pelo HIV, mesmo em circunstâncias adversas19.

A interrupção do uso da PrEP representa uma ameaça à saúde dos indivíduos, pois agrava o risco de infecção pelo HIV, além de afetar a continuidade do tratamento em longo prazo. Por isso, é fundamental que estados e municípios desenvolvam planos de gestão de riscos de desastres, envolvendo os diferentes setores e atores da sociedade. Mais do que medidas de preparação e resposta a catástrofes, é preciso que haja prevenção contra futuras ameaças à mitigação dos riscos existentes, além de políticas de reabilitação e reconstrução20.

Por fim, reconhece-se que o estudo apresenta limitações, pois a amostra foi composta por participantes de uma área específica afetada por inundações no estado do Rio Grande do Sul. Ainda assim, os resultados fornecem subsídios valiosos para a formulação de políticas públicas sensíveis ao contexto de desastres e à prevenção do HIV.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Considerando-se as experiências de usuários de profilaxia pré-exposição ao HIV no decorrer de uma emergência climática em Porto Alegre, observou-se que houve descontinuidade da PrEP. Assim, torna-se evidente a necessidade de políticas públicas que garantam o cuidado contínuo em contextos adversos, por meio de protocolos de emergência e comunicação efetiva e acessível entre os serviços de atendimento em saúde e os usuários.

Este estudo oferece uma contribuição original e relevante ao apontar certos impactos de um desastre socioambiental no acesso à prevenção do HIV. Vulnerabilidades sociais, estruturais e institucionais, que se intensificam em situações de crise, ratificam a necessidade de aprimoramento nos sistemas de gestão e comunicação dos serviços públicos de saúde, especialmente em situações emergenciais.

Agradecimentos

O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001. Agradeço à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) pelo apoio institucional e acadêmico durante a realização desta pesquisa. Reconhecimento e sincero agradecimento, principalmente, aos participantes da pesquisa, cuja disponibilidade e confiança foram essenciais para a construção deste trabalho.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    25 Ago 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    28 Jan 2025
  • Aceito
    12 Maio 2025
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