Open-access Comportamento sexual e práticas preventivas de caminhoneiros para prevenção de Infecções Sexualmente Transmissíveis

RESUMO

Objetivo:  analisar o comportamento sexual e as práticas preventivas de caminhoneiros para prevenção das Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST).

Método:  estudo transversal realizado em Picos, Piauí, com 211 caminhoneiros abordados em três postos de combustíveis entre agosto de 2023 e janeiro de 2024. Utilizou-se questionário autoadministrado para coleta de dados sociodemográficos, comportamentais e de saúde sexual. Disponibilizou-se Teste Rápido para sífilis, HIV e hepatites B e C. As análises estatísticas foram descritivas e inferenciais.

Resultados:  Do total da amostra, 209 eram do sexo masculino (99,1%). Referiram ter apresentado algum sinal ou sintoma na região genital sugestivo de IST (n=60; 28,4%). O uso regular de preservativos foi indicado por 22,1% (n=44), e 31% (n=54) obtiveram os insumos na rede pública. Identificou-se associação significativa entre sinais/sintomas e número de parcerias sexuais nos últimos 12 meses (p=0,004), parcerias casuais (p=0,015) e uso de drogas ilícitas (p=0,017). Entre os que relataram sintomas prévios de IST, 61% buscaram tratamento, majoritariamente no Sistema Único de Saúde, e 39% não procuraram atendimento.

Conclusão:  os resultados revelam práticas sexuais diversas entre caminhoneiros, com fatores associados à maior exposição às IST. Ressalta-se a importância de estratégias voltadas à promoção da saúde sexual dessa população.

Descritores:
Comportamento Sexual; Medidas Preventivas; Caminhoneiros; Infecções Sexualmente Transmissíveis

ABSTRACT

Objective:  to analyze the sexual behavior and preventive practices of truck drivers related to the prevention of sexually transmitted infections (STIs).

Method:  a cross-sectional study conducted in Picos, Piauí, Brazil involving 211 truck drivers approached at three fuel stations between August 2023 and January 2024. A self-administered questionnaire was used to collect sociodemographic, behavioral, and sexual health data. Rapid tests for syphilis, HIV, and hepatitis B and C were offered. Data were analyzed using descriptive and inferential statistics.

Results:  of the total sample, 209 participants (99.1%) were male. Sixty participants (28.4%) reported experiencing signs or symptoms in the genital region suggestive of an STI. Consistent condom use was reported by 44 participants (22.1%), and 54 (31%) obtained supplies from the public health system. A significant association was found between signs/symptoms and number of sexual partners in the past 12 months (p=0.004), casual partners (p=0.015), and illicit drug use (p=0.017). Among those reporting previous STI symptoms, 61% sought treatment, mostly through the Unified Health System (SUS), while 39% did not seek care.

Conclusion:  the findings reveal diverse sexual practices among truck drivers and identify factors associated with increased exposure to STIs. These results underscore the need for strategies to promote the sexual health of this population.

Descriptors:
Sexual Behavior; Preventive Measures; Truck Drivers; Sexually Transmitted Infections

RESUMEN

Objetivo:  analizar el comportamiento sexual y las prácticas preventivas de los conductores de camiones para la prevención de las Infecciones de Transmisión Sexual (ITS).

Método:  estudio transversal realizado en Picos, Piauí, con la participación de 211 conductores de camiones abordados en tres estaciones de servicio entre agosto de 2023 y enero de 2024. Se utilizó un cuestionario autoadministrado para recopilar datos sociodemográficos, conductuales y de salud sexual. Se ofrecieron pruebas rápidas para sífilis, VIH y hepatitis B y C. Los análisis estadísticos fueron descriptivos e inferenciales.

Resultados:  de la muestra total, 209 eran hombres (99,1%). Un total de 60 participantes (28,4%) refirió haber presentado algún signo o síntoma en la región genital sugestivo de ITS. El uso regular de preservativo fue informado por el 22,1% (n=44), y el 31% (n=54) obtuvo insumos a través del sistema público de salud. Se encontró una asociación significativa entre signos/síntomas y el número de parejas sexuales en los últimos 12 meses (p=0,004), parejas ocasionales (p=0,015) y el uso de drogas ilícitas (p=0,017). Entre quienes informaron síntomas previos de ITS, el 61% buscó tratamiento, principalmente en el Sistema Único de Salud (SUS), mientras que el 39% no buscó atención.

Conclusión:  Los resultados revelan prácticas sexuales diversas entre los conductores de camiones, con factores asociados a una mayor exposición a las ITS. Se destaca la importancia de estrategias orientadas a la promoción de la salud sexual de esta población.

Descriptores:
Comportamiento Sexual; Medidas Preventivas; Conductores de Camiones; Infecciones de Transmisión Sexual

INTRODUÇÃO

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, em diversos países, todos os dias, ocorre cerca de 1 milhão de novos casos de IST curáveis em pessoas na faixa etária de 15 a 49 anos, a maioria assintomáticas. Somente no ano de 2020, estimaram-se 374 milhões de novas infecções, a maioria causadas por clamídia, gonorreia, sífilis ou tricomoníase1. No Brasil, entre os anos de 2020 e 2022, o número de casos de infecção pelo HIV aumentou 17,2%2 e, no ano de 2023, a taxa de detecção de sífilis adquirida foi de 113,8 casos por 100.000 habitantes3. Esses dados evidenciam que as IST configuram um grave problema de saúde pública, em razão de sua elevada prevalência e das consequências clínicas que podem acarretar, como doença aguda, infertilidade, incapacidade e, inclusive, óbitos2.

O aumento dos casos de IST tem gerado maior demanda por atendimento em hospitais e clínicas, ocasionando congestionamento dos serviços, sobrecarga dos profissionais de saúde e custos elevados para o sistema público(,5. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019 revelaram que no Brasil cerca de 1 milhão de pessoas maiores de 18 anos foram diagnosticadas com alguma IST6. As características que elevam a vulnerabilidade consistem na não adoção de práticas preventivas, especialmente o não uso do preservativo, multiplicidade de parcerias sexuais, uso de substâncias psicoativas, início precoce das relações sexuais, uso de drogas ilícitas e lícitas, baixa escolaridade, baixo nível socioeconômico e outras vulnerabilidades sociais7,8.

Embora sujeitos de diferentes perfis possam estar suscetíveis à infecção por IST, grupos sociais como caminhoneiros, profissionais do sexo, usuários de drogas e populações em situação de vulnerabilidade social demandam atenção específica. E marcadores sociais como gênero, classe social, etnia, orientação sexual e condições de trabalho precarizadas intensificam essa vulnerabilidade (7. Estudos recentes que avaliem conjuntamente o comportamento sexual e a Testagem Rápida (TR) em caminhoneiros são escassos, evidenciando uma lacuna de conhecimento científico7,9.

A profissão de caminhoneiro é predominantemente exercida por homens que permanecem por longos períodos fora de casa e longe dos familiares, da esposa/o ou companheira/o. Essas situações os expõem a consumir bebidas alcoólicas e outras substâncias psicoativas, aumentando a probabilidade de relações com outras parcerias sexuais sem uso do preservativo7,9. Estudo realizado no estado do Mato Grosso com 388 motoristas de caminhão demonstrou que mais de 50% daqueles casados e 20,2% dos solteiros tiveram relações sexuais durante as viagens, e 74 (19%) afirmaram ter adquirido alguma infecção relacionada à prática sexual7.

Diante do cenário supracitado, o presente estudo tem como objetivo analisar o comportamento sexual e práticas preventivas contra IST de caminhoneiros. Trata-se de um estudo relevante, pois pode subsidiar o desenvolvimento de medidas específicas de prevenção voltadas a esse público.

MÉTODO

Realizou-se um estudo transversal no município de Picos, estado do Piauí, cuja área geográfica é de 534,7 km² e população estimada em 83.090 habitantes10. Picos é um importante entroncamento rodoviário, servido por diversas rodovias federais e estaduais, com economia baseada no comércio, indústria, agricultura e pecuária, o que contribui para um fluxo intenso de caminhoneiros10.

A população do estudo foi composta por caminhoneiros residentes ou de passagem por Picos, que trafegavam pelas rodovias BR-316 (Rodovia Belém - Maceió), BR-407 (Rodovia Juazeiro - BA - Piripiri - PI), BR-230 (Rodovia Transamazônica) e BR-020 (Rodovia Brasília-DF - Fortaleza - CE). O cálculo amostral foi realizado com o programa Epi-INFO, versão 7.2.0.1, considerando a frota de 1.981 caminhões registrados na cidade de Picos10, uma prevalência estimada de IST de 19%6, erro amostral de 5% e intervalo de confiança de 95%, resultando em uma amostra de 211 caminhoneiros. Utilizou-se amostragem por conveniência, composta por motoristas presentes nos locais selecionados no momento da visita do pesquisador. Excluíram-se acompanhantes e sujeitos que não exerciam a função de condutor profissional.

A coleta de dados ocorreu entre agosto de 2023 e janeiro de 2024, no período noturno (entre 18h e 22h), uma vez por semana, em três postos de combustíveis. Elencaram-se esses locais, estrategicamente, em virtude da localização próxima às BRs e da grande concentração de caminhoneiros que as utilizam para descanso, alimentação e higiene pessoal. A equipe de coleta contemplou 2 discentes do curso de Enfermagem e uma enfermeira mestranda em Saúde Coletiva, previamente treinados para os procedimentos de abordagem, orientação e realização do TR. Realizou-se a abordagem com base nos princípios éticos estabelecidos para pesquisas envolvendo seres humanos, garantindo respeito, sigilo e consentimento livre e esclarecido.

A pesquisadora deste estudo elaborou o questionário, submetendo-o a um pré-teste com um grupo de 10 caminhoneiros não incluídos na amostra final. O pré-teste teve como objetivo avaliar a clareza e compreensão das perguntas, bem como o tempo médio de aplicação. Não houve necessidade de realização de ajustes no instrumento após essa etapa. As variáveis categóricas foram expressas em alternativas dicotômicas do tipo “sim” ou “não” e em múltipla escolha, organizadas em blocos temáticos.

Os participantes que aceitaram participar do estudo assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), sendo informados sobre os objetivos e procedimentos da pesquisa. Após o preenchimento do questionário, depositaram-se os formulários em envelopes lacrados, garantindo o sigilo das informações.

Realizaram-se os Testes Rápidos (TR) para sífilis, HIV e hepatites B, em local reservado e com privacidade. Orientou-se aqueles com resultados reagentes quanto à importância do tratamento e que o teste tem caráter, apenas, de triagem, sendo necessária confirmação diagnóstica por meio de exames complementares11. Todos os participantes com resultados positivos foram encaminhados ao Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) de Picos-PI e/ou ao hospital de referência do município para confirmação do diagnóstico e início do tratamento - se indicado.

As variáveis analisadas incluíram aspectos sociodemográficos (idade, sexo, cor/raça, escolaridade, estado civil, número de filhos, renda pessoal e familiar), comportamento sexual (tipo de parceria - fixa e/ou eventual, número e tipo de parceiros, uso de preservativos, locais de obtenção, práticas sexuais, histórico e tratamento de IST, conhecimento sobre formas de transmissão e prevenção), comportamento social (uso de bebidas alcoólicas, drogas lícitas e ilícitas nos últimos 12 meses e ao longo da vida, uso de anfetaminas, histórico de prisão) e variáveis relacionadas à atividade profissional (uso de substâncias para prolongar o tempo ao volante, uso de maconha, cocaína ou outras drogas).

Realizou-se a análise dos dados por meio de estatística descritiva e análise bivariada, considerando-se nível de significância estatística de p ≤ 0,05 e intervalo de confiança de 95%.

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Fortaleza, parecer n.º 6.164.747/2023, com registro CAAE n.º 69482023.9.0000.5052, conforme os princípios éticos da Resolução n.º 466/12 do Conselho Nacional de Saúde.

RESULTADOS

Para este estudo, foram convidados a participar 527 caminhoneiros. Houve recusa de 316 (60%), chegando-se ao tamanho amostral de 211 participantes. O TR apresentou resultado positivo em 13 participantes (6,2%). Oito (3,8%) positivos para sífilis, quatro (1,9%) para hepatite C e um (0,5%) para hepatite B, e nenhum caso positivo para HIV.

Na Tabela 1, apresentam-se as características sociodemográficas dos caminhoneiros participantes. Quase a totalidade (209; 99,1%) de homens. A idade variou de 21 a 73 anos, com média de 41 anos e desvio padrão de 10,7. Cerca de 104 (49,3%) estavam na faixa etária de 40 a 59 anos. 116 (55,0%) autodeclararam-se de cor parda. Com relação à escolaridade, 107 (51,0%) possuíam Ensino Médio incompleto ou completo. A renda mensal de três a quatro salários mínimos foi referida por 93 participantes (44,7%). A maioria (150; 71,8%) era casada ou vivia em união estável. Em termos de religião, 152 (72,0%) se identificaram como católicos. Pouco mais da metade (112; 53,1%) tinha até dois filhos.

Tabela 1 -
Perfil sociodemográfico de caminhoneiros que trafegam na região de Picos, PI, Brasil, 2024. (n=211)

Na Tabela 2, apresentam-se dados referentes ao comportamento sexual dos caminhoneiros. A maioria, 141 (60%), informou que o sexo vaginal era a única forma de prática sexual. 127 Relataram ter tido uma parceria sexual nos últimos 12 meses (60,5%) e 83 (39,5%) duas ou mais parcerias. Referiram sentir atração sexual somente por mulheres 206 (97,6%) e cinco (2,4%) por homens ou por homens e mulheres. No que diz respeito ao uso de preservativos, 155 (77,9%) disseram usar às vezes ou nunca durante as relações sexuais e 113 (65,0%) afirmaram adquirir preservativos em farmácias, comércios, distribuidoras de bebidas e supermercados. Cento e oito (54,8%) mantiveram relações sexuais com profissionais do sexo e 74 (38,5%) com parcerias eventuais nos últimos 12 meses.

Dos 211 entrevistados, 60 (28,4%) relataram sintomas pregressos de alguma IST, das quais se destacam feridas genitais 17 (24,7%), bolhas 27 (39,1%), seis (8,7%) verrugas e 19 (27,5%) corrimento uretral. Destes, 35 (58,3%) tiveram confirmação diagnóstica, 6 gonorreias (17%), três (8,6%) foram hepatites virais, três (8,6%) clamídia, três herpes genitais (8,6%), dois sífilis (5,7%), um HPV (2,9%), um (2,9%) cancro mole e uma tricomoníase (2,9%). 15 não souberam especificar o tipo da IST (42,8%).

Tabela 2 -
Comportamento sexual de caminhoneiros que trafegam na região de Picos, PI, Brasil, 2024. (n=211)

Na tabela 3, apresentam-se informações acerca do uso de drogas (ilícitas) por caminhoneiros que trafegam na região de Picos, PI, em 2024. Quarenta e seis (23%) referiram ter usado drogas nos últimos 12 meses, sendo a maconha mais mencionada 25 (41,7%) e 18 (30%) cocaína. 60 (29,9%) relataram o uso de anfetamina.

Tabela 3 -
Uso de drogas ilícitas por caminhoneiros que trafegam na região de Picos, PI. Brasil, 2024. (n=211)

Na tabela 4, apresenta-se uma análise bivariada dos fatores associados aos sinais e sintomas autorreferidos de IST em caminhoneiros que transitaram na região de Picos, PI. Em 2024, identificou-se associação estatisticamente significativa para as variáveis “número de parcerias sexuais", apresentando-se uma associação significativa (p=0,004), OR com duas ou mais parcerias relatando sintomas, comparados com até uma parceria. Houve associação significativa do uso de preservativos (p=0,006) à menor prevalência de sintomas, com 10,0% dos usuários relatando sintomas, em comparação com 90,0% dos que não usavam. Relações sexuais com parceiras casuais (p=0,015) mostraram associação significativa, com 42 caminhoneiros (70,0%) apresentando sintomas. Embora a relação com profissionais do sexo não tenha sido estatisticamente significativa (p=0,057), houve uma tendência de associação. O uso de drogas ilícitas nos últimos 12 meses demonstrou associação significativa com a presença de sintomas de IST.

Tabela 4 -
Fatores associados à história de sinais e sintomas de IST autorreferidos por caminhoneiros que trafegam na região de Picos, PI, Brasil, 2024. (n=211)

Na Tabela 5, apresenta-se uma análise univariada dos 13 resultados dos testes rápidos reagentes em caminhoneiros. oito (3,8%) foram para sífilis, quatro (1,9%) para Hepatite C e um (0,5%) para Hepatite B. Não houve nenhum resultado reagente para HIV.

A respeito dos caminhoneiros com resultados reagentes, oito (61,5%) tinham mais de 40 anos, oito (61,5%) se autodeclararam não brancos, todos (13, 100%) possuíam Ensino Fundamental ou médio e sete tinham renda mensal inferior a três salários mínimos (53,8%). Em relação ao comportamento sexual, oito (61,5%) disseram ter mais de duas parcerias sexuais e 11 (84,6%) declararam atração sexual por mulheres. Todos os 13 (100%) caminhoneiros afirmaram não usar preservativo ou fazê-lo apenas ocasionalmente nos últimos 12 meses, oito (61,5%) tiveram relações sexuais com parceiras casuais e nove (69,2%) com profissionais do sexo.

Tabela 5 -
Teste rápidos positivos para sífilis, HIV e Hepatites B e C em caminhoneiros que trafegam pela cidade de Picos, PI, Brasil, 2024. (n=13)

DISCUSSÃO

Permitiu-se analisar neste estudo o comportamento sexual e as práticas preventivas em relação à prevenção das IST entre caminhoneiros que transitam por Picos, Piauí. Os resultados dos TR revelaram que a sífilis apresentou 3,8% de casos reagentes, proporção superior à encontrada na população geral que é de 0,09 %12, reforçando maior exposição e vulnerabilidade desse grupo às IST. Ressalta-se que não foi possível identificar quais casos de sífilis foram efetivamente tratados, uma vez que os Testes Rápidos (TR) permanecem com resultados reagentes mesmo após o tratamento. Observou-se predominância do sexo masculino entre os participantes, o que reflete a construção cultural e histórica da profissão de caminhoneiro como majoritariamente exercida por homens. Fatores como medo de assaltos ou de outras formas de violência13 podem contribuir para a baixa adesão das mulheres a essa profissão.

Observou-se baixa proporção de caminhoneiros que referiram usar preservativos com a parceira sexual com quem vive em união estável, dado semelhante aos achados de um estudo realizado com caminhoneiros que residiam ou passavam por Maringá, Paraná14. A intensa mobilidade geográfica inerente à profissão e os longos períodos ausentes de casa6,15 faz com que os caminhoneiros se exponham a relações sexuais com parcerias eventuais6,9, o que torna as parcerias fixas também vulneráveis a adquirir IST 7,16.

Verificou-se, ainda, baixa escolaridade e renda entre os participantes, achado consistente com a literatura7,14. Tais condições socioeconômicas aumentam a vulnerabilidade às IST por dificultarem o acesso a serviços de saúde8,17) e aos insumos preventivos, como preservativos14,18,19. Conhecer os dados sociodemográficos desse público é fundamental para orientar políticas públicas e estratégias de prevenção adaptadas à sua realidade.

Embora não tenha sido encontrada associação estatisticamente significativa entre o autorrelato de IST e a religião, observou-se que caminhoneiros que seguiam certas doutrinas religiosas usavam menos preservativos, indicando a possível influência das crenças religiosas no comportamento6. Portanto, ao planejar políticas públicas de prevenção de IST entre caminhoneiros, é fundamental considerar não apenas características individuais, mas também aspectos culturais e religiosos que moldam o comportamento sexual. A elevada prevalência de católicos entre os caminhoneiros destaca a importância de estratégias de comunicação e educação sensíveis a esses aspectos, visando promover práticas mais seguras e conscientes em relação à saúde sexual. Também não foi observada associação entre a orientação sexual e o auto relato de sintomas de IST. A maioria referiu atração sexual por mulheres cis, indicando orientação heterossexual, embora alguns tenham mencionado atração por homens e por pessoas de ambos os sexos. Colher informações acerca das parcerias sexuais durante as viagens é um tema sensível aos caminhoneiros e pode levá-los a omitir informações especialmente quando desenvolvem atividades sexuais com pessoas do mesmo sexo ou transgêneros por receio de vergonha ou de sofrerem preconceito7,9.

As variáveis práticas sexuais com o envolvimento de múltiplas parcerias, uso inconsistente de preservativos com parcerias ocasionais (amigo(a), “ficantes”, rolos, paqueras) e interação com profissionais do sexo apresentaram associação significativa com IST, semelhante ao observado nos resultados de outros estudos com caminhoneiros de rota longa14,18. A cultura masculina se destaca como um fator determinante nas práticas sexuais de risco, especialmente na baixa adesão ao uso de preservativos20. Em um estudo realizado com caminhoneiros de Teresina, Piauí, observou-se que 64,5% dos que percorriam rotas longas relataram múltiplas parcerias sexuais. 45,8% afirmaram nunca utilizar preservativos14. Outro levantamento revelou que caminhoneiros mantiveram relações com parceiras casuais e com uso de preservativo apenas esporádico nessas ocasiões14.

A solidão e o tempo prolongado de afastamento familiar associados às rotas longas dos caminhoneiros podem contribuir para a busca de satisfação sexual com trabalhadores do sexo nos locais de descanso9,20. No entanto, é preocupante observar a falta do uso do preservativo nesses encontros, o que pode ser atribuído a uma combinação de fatores, incluindo percepção de baixo risco, normas culturais, uso de substâncias psicoativas, desinformação e falta de acesso a preservativos13,14.

Além disso, o estudo revelou uma limitação significativa relacionada à baixa adesão de muitos caminhoneiros à realização dos testes rápidos para sífilis, HIV e Hepatites virais. Essa falta de adesão pode decorrer de múltiplos fatores, incluindo a escassez de tempo em razão das demandas laborais, o desgaste físico resultante de extensas jornadas de trabalho e deslocamentos, bem como o receio diante de um possível resultado reagente e das implicações relacionadas ao estigma e ao impacto na esfera pessoal e profissional.

As relações sexuais realizadas durante o uso de drogas psicoativas, assim como o uso de drogas ilícitas, contribuem para uma maior prevalência de sintomas autorreferidos de IST. Essas descobertas corroboram outros estudos e evidenciam a complexa interação entre comportamentos sexuais, uso de substâncias e riscos à saúde de caminhoneiros21,22. Por outro lado, o uso de drogas ilícitas concomitantemente ao uso de "rebite" aumenta o descuido com o uso de preservativos e a escolha das parcerias, aumentando o risco de contaminação por IST14.

Muitos caminhoneiros relataram ter apresentado sintomas sugestivos de IST e a maioria buscou tratamento em um serviço de saúde, enquanto outros optaram por farmácias e/ou remédios caseiros. De modo geral, os homens tendem a não se preocupar com a adoção de práticas preventivas e pela busca por serviços de saúde23,24. Nos achados deste e de outros estudos3,6,23, observou-se que a maioria procurou tratamento para IST possivelmente devido ao desconforto causado pelos sintomas.

Estratégias educativas são fundamentais para a prevenção das IST considerando a diversidade de práticas sexuais identificadas neste estudo. Estas devem enfatizar a importância de uma prática sexual segura que inclui o uso correto e consistente de preservativos em todas as relações sexuais, a comunicação aberta e honesta com os parceiros sobre o status de IST e a realização regular de testes para a garantia da saúde sexual25.

Nesse contexto, é fundamental que os municípios situados nas rotas de circulação de caminhoneiros desenvolvam ações estratégicas voltadas à prevenção e ao tratamento das IST. Ressalta-se, nesse cenário, a função da enfermagem, considerando sua atuação na linha de frente das práticas de promoção da saúde e prevenção de agravos26. Ademais, esses profissionais podem desenvolver uma escuta qualificada, o que os torna essenciais para ações adaptadas à realidade dos caminhoneiros.

Encontrou-se, também, uma associação significativa entre o não uso de preservativos e maior prevalência de sintomas autorreferidos de IST, indicando que o uso regular de preservativos pode auxiliar a redução do risco de contrair essas infecções. Esses dados são reforçados por estudos14,27 e demonstram uma maior exposição e vulnerabilidade às IST dessa parcela da população.

A pesquisa também revelou que a maioria dos participantes adquiria preservativos em comércios, destacando a importância de implementar estratégias de distribuição gratuita em locais acessíveis, como pontos de parada e descanso. A dificuldade de acesso a preservativos gratuitos pode resultar em um uso inconsistente, aumentando o risco de IST, especialmente entre aqueles que enfrentam barreiras econômicas e longas jornadas de trabalho. Esses desafios tornam ainda mais urgente a oferta de preservativos em estratégias locais, considerando as rotas longas, a falta de convívio familiar, falhas na fiscalização e pouco tempo disponível em suas cidades de origem7,13.

A incompatibilidade do horário de trabalho dos caminhoneiros com o horário de funcionamento dos serviços de saúde pode ser um dos impeditivos para a baixa procura dos caminhoneiros por esses serviços23,27. Para melhorar o acesso a cuidados de saúde, é essencial adaptar o horário dos serviços para atender às necessidades dessa população. Ademais, devido à alta mobilidade, estes enfrentam dificuldade de vínculo com os serviços de saúde, situação que pode ser um grande dificultador da busca pelos serviços de saúde, especialmente por se tratar de IST21,28,29.

Ações de promoção da educação em saúde entre os caminhoneiros são cruciais, especialmente considerando que é muito baixo o uso regular de preservativos. Essa educação pode abordar a importância da proteção contra as IST e questões relacionadas ao exercício da sexualidade, visando reduzir os preconceitos existentes em relação a esses temas e promover práticas mais seguras8.

Este estudo apresenta como limitação a possibilidade de viés de resposta. Para minimizá-lo, adotou-se o procedimento de garantir o anonimato dos participantes e solicitar que inserissem seus questionários em envelopes lacrados. Apesar dessa precaução, os resultados fornecem subsídios importantes para a formulação de políticas públicas direcionadas à promoção da saúde sexual de caminhoneiros no Brasil e em contextos semelhantes, caracterizados por extensas malhas rodoviárias e condições laborais análogas.

CONCLUSÃO

O estudo identificou baixa frequência no uso de preservativos entre caminhoneiros, além do envolvimento em parcerias ocasionais e do uso de substâncias psicoativas e ilícitas, fatores associados à maior exposição às IST. Tais comportamentos podem implicar impactos à saúde individual e ao contexto ocupacional.

As evidências reforçam a necessidade de estratégias de prevenção voltadas a essa população, considerando suas condições de trabalho e vulnerabilidades específicas. A ampliação do acesso a insumos de prevenção, ações educativas e abordagens que integrem saúde sexual e enfrentamento ao uso de substâncias pode contribuir para a redução de riscos e para a promoção da saúde entre caminhoneiros.

AGRADECIMENTOS

Agradeço à Universidade de Fortaleza pelo apoio institucional à realização deste estudo e à Profa. Dra. Maria Alix Leite Araújo pela orientação e supervisão durante todas as etapas da pesquisa.

Expresso ainda minha gratidão à minha família, pelo apoio, paciência e incentivo ao longo deste percurso.

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    Carlise Rigon Dalla Nora
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Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Out 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    07 Jan 2025
  • Aceito
    13 Jul 2025
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