RESUMO
Objetivo: analisar a associação entre os fatores do ambiente social e as repercussões do contexto da pandemia da COVID-19 no peso ao nascer.
Método: Trata-se de um estudo transversal, aninhado a uma coorte. Realizado nos três meses iniciais da pandemia, em três maternidades públicas em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. Foi incluída uma amostra de 1684 puérperas. Para a análise, aplicou-se a regressão logística multinomial.
Resultados: A inatividade física durante a gestação aumentou a chance de baixo peso ao nascer (RP= 3,84; IC95%: 1,11-13,21; p: 0,033). Variáveis ambientais como número de famílias que recebem até meio salário-mínimo (RP = 1,00; IC95%: 1,00-1,00; p: <0,001) e renda per capita (RP= 1,01; IC95%: 1,00-1,02; p: 0,002) apresentaram associações estatisticamente significativas ao baixo peso ao nascer.
Conclusão: Os achados evidenciam que determinantes individuais e contextuais podem ter influenciado diretamente o peso ao nascer durante a pandemia, reforçando a necessidade de ações que integrem a atenção obstétrica e políticas sociais voltadas à redução das desigualdades.
Descritores:
Recém-nascido; Peso ao Nascer; COVID-19; Epidemiologia; Meio social
ABSTRACT
Objective: to analyze the association between social environment factors and the impacts of the COVID-19 pandemic context on birth weight.
Methods: This is a cross-sectional study, nested in a cohort. Conducted in the first three months of the pandemic, in three public maternity hospitals in Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil. A sample of 1,684 postpartum women was included. Multinomial logistic regression was applied for the analysis.
Results: Physical inactivity during pregnancy increased the chance of low birth weight (RP = 3.84; 95%CI: 1.11-13.21; p: 0.033). Environmental variables such as the number of families earning up to half a minimum wage (RP = 1.00; 95%CI: 1.00-1.00; p: <0.001) and per capita income (RP= 1.01; 95%CI: 1.00-1.02; p: 0.002) showed statistically significant associations with low birth weight.
Conclusion: The findings show that both individual and contextual determinants directly influenced birth weight during the pandemic, reinforcing the need for actions that integrate obstetric care and social policies aimed at reducing inequalities.
Descriptors:
Infant Newborn; Birth Weight; COVID-19; Epidemiology; Social Environment
RESUMEN
Objetivo: analizar la asociación entre los factores del entorno social y las repercusiones del contexto de la pandemia de COVID-19 en el peso al nacer.
Método: Se trata de un estudio transversal, anidado en una cohorte. Realizado en los primeros tres meses de la pandemia, en tres maternidades públicas de Belo Horizonte, Estado de Minas Gerais, Brasil. Se incluyó una muestra de 1684 puérperas. Para el análisis se aplicó la regresión logística multinomial.
Resultados: La inactividad física durante el embarazo aumentó la probabilidad de bajo peso al nacer (RP = 3,84; IC95%: 1,11-13,21; p: 0,033). Variables ambientales como el número de familias que reciben hasta la mitad de un salario mínimo (RP = 1,00; IC95%: 1,00-1,00; p: <0,001) y el ingreso per cápita (RP= 1,01; IC95%: 1,00-1,02; p: 0,002) mostraron asociaciones estadísticamente significativas con bajo peso al nacer.
Conclusión: Los hallazgos muestran que tanto los determinantes individuales como los contextuales influyeron directamente en el peso al nacer durante la pandemia, reforzando la necesidad de acciones que integren la atención obstétrica y las políticas sociales orientadas a reducir las desigualdades.
Descriptores:
Recién Nacido; Peso al Nacer; COVID-19; Epidemiología; Medio Social
INTRODUÇÃO
O peso ao nascer é reconhecido como um dos principais indicadores das condições vivenciadas pelo feto durante a gestação, refletindo o ambiente intrauterino e o potencial de sobrevivência neonatal. Segundo estimativa global recente, em 2020 cerca de 14,7% dos recém-nascidos vivos no mundo nasceram com peso inferior a 2.500 gramas (≈ 19,8 milhões de bebês) (1 .
Considera-se como baixo peso ao nascer a medida inferior a 2.500 gramas, condição que se destaca por sua potencial associação com o aumento da mortalidade infantil e com a maior probabilidade de complicações de saúde nas fases subsequentes do desenvolvimento infantil2,3. É, também, um parâmetro utilizado para estimar, de forma indireta, o estado geral de saúde ao nascimento4. Alterações nesse indicador, especialmente quando indicam restrição de crescimento intrauterino, demandam identificação e intervenção precoce5.
Ademais, evidências científicas demonstram que o baixo peso ao nascer não é apenas um preditor significativo de morte e morbidade perinatal, mas também aumenta o risco de doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) na idade adulta. As DCNTs mais comuns incluem doenças cardiovasculares, diabetes mellitus tipo 2 (DMT2), hipertensão (HT), dislipidemia, proteinúria e doença renal crônica (DRC)6.
Diversos aspectos maternos ou inerentes ao ambiente social, como condições nutricionais, estabilidade financeira e fatores sociais, podem desempenhar papel determinante no desfecho peso ao nascer7. Durante a pandemia de COVID-19, essas questões foram agravadas, uma vez que o aumento do estresse econômico e social limitou o acesso a cuidados pré-natais adequados, acompanhamento de saúde regular e suplementação essencial, contribuindo para um aumento na incidência de recém-nascidos com baixo peso ao nascer, especialmente no período de confinamento8.
Aliado a isso, a infecção dos SARS-CoV-2 pode acometer o desenvolvimento fetal, ocasionando parto prematuro, baixo peso ao nascer e comprometimento do crescimento intrauterino (7. A pandemia, iniciada em 2020, além dos grandes índices de mortalidade pelo vírus, agravou impactos socioeconômicos, segurança alimentar, medo de contaminação pelo vírus e, sobretudo, dificultou a constância das consultas pré-natais, influenciando o peso ao nascer (8,9.
Os impactos do contexto pandêmico sobre fatores socioeconômicos e a assistência à saúde materno-infantil também foram observados em diferentes países. Um estudo realizado no Uruguai apontou que a emergência sanitária desencadeou uma crise social, econômica e psicológica significativa, caracterizada pela retração do Produto Interno Bruto (PIB), queda no consumo privado e aumento das taxas de pobreza (9.
Entre os grupos mais vulneráveis, houve um crescimento expressivo da pobreza e do desemprego, além de mudanças na alimentação, com maior consumo de alimentos ultraprocessados. Além disso, a pandemia afetou a qualidade do acompanhamento perinatal, sobretudo na rede pública, onde a substituição de consultas presenciais por atendimentos telefônicos gerou atrasos no cuidado, falhas no monitoramento das gestantes e dificuldades de acesso aos serviços de saúde (3,9.
Considerando o potencial impacto da pandemia da COVID-19 sobre distintos aspectos relacionados ao nascimento, formulou-se como pergunta norteadora deste estudo: quais são as repercussões da infecção por SARS-CoV-2 no peso ao nascer de recém-nascidos de mulheres durante o contexto pandêmico?
Diante disso, o objetivo deste estudo foi analisar a associação entre os fatores do ambiente social e as repercussões do contexto da pandemia da COVID-19 no peso ao nascer.
MÉTODO
Delineamento e local do estudo
Trata-se de um estudo observacional com delineamento transversal, aninhado a uma coorte denominada “Parto e aleitamento materno em filhos de mães infectadas por SARS-CoV-2”. As instituições participantes deste estudo foram três maternidades pertencentes à rede do Sistema Único de Saúde (SUS), localizadas no município de Belo Horizonte, Minas Gerais, no período de 2020 a 2022.
Amostra
A amostra foi constituída por meio de sorteio aleatório entre as mulheres que pariram nos respectivos hospitais durante os três meses de alta incidência de COVID-19 (maio, junho e julho) de 2020, no Brasil.
Para o cálculo do tamanho amostral, considerou-se o delineamento de estudo do tipo coorte. A distribuição do número de gestantes entre as maternidades participantes foi realizada de forma proporcional ao número total de nascimentos registrados em cada instituição. Adotaram-se como parâmetros uma razão de 9:1 entre gestantes não expostas (sem diagnóstico de COVID-19) e expostas (com diagnóstico de COVID-19), uma prevalência do desfecho de 50%, Odds Ratio de 1,5, nível de confiança de 95% e poder estatístico de 80%. Foram incluídas 1.684 puérperas na presente análise.
Critérios de inclusão e exclusão
Foram incluídas, neste estudo, todas as puérperas que tiveram parto hospitalar de gestação única, cujos recém-nascidos (RN) apresentaram idade gestacional igual ou superior a 22 semanas, peso ao nascer superior a 500 gramas e RN vivos, sendo admitidas em uma das três maternidades selecionadas no momento do parto.
Excluíram-se mulheres que não eram fluentes em português, que apresentavam deficiência intelectual ou auditiva, que eram moradores de rua ou condenadas por ordem judicial (10.
Coleta de dados
A coleta de dados se deu por meio de prontuários eletrônicos e/ou físicos das parturientes e ocorreu por meio de questionário semiestruturado (dados sociodemográficos, dados de internação, dados clínicos/história obstétrica e dados de gravidez e parto), elaborado pelos pesquisadores. A coleta de dados foi realizada por profissionais de enfermagem, estudantes de enfermagem e de pós-graduação em enfermagem previamente treinados.
Variáveis
Com base na hipótese formulada por este estudo, no objeto de estudo e na disponibilidade dos dados, foi proposto um modelo de análise dos fatores associados ao peso do recém-nascido apoiado na subdivisão entre os fatores proximais (Quadro 1), intermediários e distais (conforme a posição em que ocupam na denominada “Cadeia de causalidade”) (Figura 1).
Contexto da Pandemia
A infecção pelo SARS-CoV-2 foi verificada com base nos prontuários das puérperas, fornecidos pelos hospitais. Para as mulheres sintomáticas foram investigados o teste confirmatório utilizado pelas instituições e seus resultados. Na ausência do teste confirmatório, mas na presença de sintomas (como febre, tosse e falta de ar) a puérpera foi considerada caso suspeito de SARS-CoV-2 (Quadro 2).
Com base na hipótese do estudo, nos dados disponíveis e no modelo teórico adotado, foi construído um Gráfico Acíclico Direcionado (DAG) no software DAGitty®, estruturado12) segundo a lógica da cadeia de causalidade hierarquizada em níveis distais, contextuais, proximais e intermediários, com foco no desfecho “peso ao nascer”.
Modelo de análise dos fatores associados ao peso do recém-nascido. Gráfico Acíclico Dirigido (DAG), 2025.
Na figura apresentada, os fatores contextuais abrangem aspectos sociais, econômicos, políticos e ambientais, como IDHM, renda per capita, taxa de urbanização, violência e cobertura da Estratégia Saúde da Família. Os fatores distais incluem características sociodemográficas maternas, como idade, escolaridade, estado conjugal e renda domiciliar. Já os fatores proximais relacionam-se diretamente à gestação e ao parto, como idade gestacional, paridade, via de nascimento e cor da pele. Por fim, os fatores intermediários referem-se ao cuidado e condições de saúde durante a gestação, como número de consultas de pré-natal, acompanhamento nutricional, presença de comorbidades e hábitos maternos. Essa estrutura analítica possibilita uma compreensão mais abrangente e qualificada das influências sobre o peso neonatal.
Análise dos dados
A análise dos dados foi realizada por meio da utilização do software Stata®, versão 17.0. Aplicou-se a regressão logística multinomial para a variável categorizada do peso do recém-nascido, considerando-se o valor p inferior a 0,05. Conforme o peso, foi criada a categoria baixo peso, para pesos abaixo de 2500 gramas, entre 2500 e 3000 gramas, como peso insuficiente, e igual ou acima de 3000 gramas, peso adequado (1,2 .
No modelo, em relação aos métodos de seleção das variáveis, considerou-se a perspectiva backward, com valor p maior que 0,20 para as variáveis. Realizou-se o teste de Mann-Whitney para variáveis de ambiente social e teste Qui-quadrado de Pearson ou exato de Fisher para avaliar a associação de variáveis categóricas. Neste estudo, também se realizou análise com correção de Bonferroni. Para a melhor apresentação dos resultados, incluíram-se tabelas e figuras.
Aspectos éticos e financeiros
O estudo “Parto e amamentação em filhos de mães infectadas pelo SARS-CoV-2” foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (COEP/UFMG) (CAAE: 32378920.6.1001.5149), e recebeu apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) - Chamada CNPq/MCTI/FNDCT Nº 18/2021 - Faixa A − Grupos Emergentes (Processo: 403481/2021-0) e Chamada 01/2021 − Demanda Universal, respectivamente.
Todos os diretores de cada maternidade assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido(TCLE), conforme as diretrizes éticas descritas na Resolução n. 466 do Conselho Nacional de Saúde, de 12 de dezembro de 2012, que dispõe sobre pesquisas com seres humanos. Todas as puérperas, devido a indisponibilidade de assinarem o TCLE, tiveram seu consentimento gravado na etapa de seguimento da coleta de dados via telefone. Todos os procedimentos realizados em estudos envolvendo participantes humanos estavam em conformidade com os padrões éticos do comitê de pesquisa institucional, bem como com a declaração de Helsinque de 1964 e suas emendas posteriores ou padrões éticos comparáveis.
RESULTADOS
A amostra foi composta por 1.684 mulheres, com média de idade de 30 anos completos (DP 6,48 anos), ensino médio completo (59,80%), solteiras (61,15%), renda média no domicílio de até um salário-mínimo (39,10%) e cor da pele ou raça declarada como parda (58,40%). Cerca de 79,19% das gestantes realizaram 6 ou mais consultas pré-natais e 62,78% foram multíparas.
A via de nascimento predominante foi a vaginal, com 72,55%, 87,58% tinham a idade gestacional igual ou superior a 37 semanas e o peso do recém-nascido, em 61,76% dos casos, foi considerado adequado, ou seja, acima de 3000 gramas (Figura 2).
Sobre a infecção da COVID-19, 4,36% da amostra eram positivas com teste comprobatório ou presença de sintomas, caracterizadas então como caso suspeito de infecção por SARS-CoV-2. Além disso, 17,84% das gestantes responderam ter tido acompanhamento nutricional, 36,09% realizavam atividade física, pré e pós-parto, 6,68% faziam uso do tabaco/cigarro, 6,02% o uso de álcool e 15,74% tinham DiabetesMellitus Gestacional (DMG). As gestantes com a escolaridade do ensino fundamental foram mais prevalentes, com 31,03% associado ao peso insuficiente. (Tabela 1).
Na tabela 2, são apresentadas as variáveis relacionadas à gestação e atividades da gestante.
Em relação à paridade, entre as multíparas, 64,63% tiveram recém-nascidos classificados com peso adequado e, entre as primíparas, esse percentual foi de 57,83%. Em relação à via de nascimento, o percentual foi maior quando o parto foi vaginal, com 63,96% em comparação com a cesariana para o peso adequado do recém-nascido. Assim como a idade gestacional (que explica bem o fato do baixo peso, com menos de 37 semanas), 63,16% foram considerados com baixo peso e já para idades com 37 ou mais semanas, 69,03% foram considerados como peso adequado.
Na tabela 3 são apresentados os valores medianos e a diferença interquartílica de cada uma das variáveis de ambiente social, por cada uma das categorias de peso do recém-nascido.
Levando-se em consideração os recém-nascidos com baixo peso, a taxa de urbanização dos municípios onde as gestantes residem foi de 98,90%, com o número mediano de famílias que recebem até meio salário-mínimo foi de 18798 e a proporção de famílias atendidas pela Estratégia de Saúde da Família foi de 67,22%. Já o índice de proteção social básica foi de 2 pontos, a renda per capita de R$ 686,42, o índice mineiro de responsabilidade social de 0,66 e o percentual de população pobre ou extremamente pobre ficou em 11,69%. O índice de desenvolvimento humano mineiro (IDHM) foi de 0,73, dividindo-se em Renda, com valor de 0,72, Longevidade em 0,86 e Educação em 0,65. Por fim, a taxa de violência mediana ficou em 401,84, a maior entre as três categorias.
O modelo final das variáveis paridade, atividade física, número de famílias que recebem até meio salário-mínimo, renda per capita e taxa de violência é mostrado na tabela 4.
Observou-se associações estatisticamente significativas, avaliando-se o aumento da chance de baixo em relação a primiparidade. Em relação a prática de exercícios físicos durante a gestação, aquelas que não praticaram apresentaram maior chance de terem filhos com baixo peso.
Observou-se que, adicionalmente aos fatores individuais, os contextuais mostraram-se associados ao desfecho desse estudo (Tabela 4): o número de familiares com renda inferior a meio salário-mínimo, a renda per capita e a taxa de violência também estiveram associados ao baixo peso.
DISCUSSÃO
Este estudo demonstrou que, adicionalmente aos fatores individuais, os contextuais mostraram-se associados ao desfecho de baixo peso ao nascer.
Apesar de não apresentar significância estatística, aproximadamente um quinto das gestantes realizou menos de seis consultas pré-natais durante a pandemia, caracterizando acompanhamento inadequado. Esse achado é relevante, pois a literatura nacional demonstra que a assistência pré-natal insuficiente associa-se a piores desfechos maternos e neonatais, reforçando a necessidade de estratégias que assegurem a continuidade e a qualidade do cuidado mesmo em contextos adversos (13.
A paridade, definida como o número de gestações anteriores de uma mulher, constitui um fator determinante no peso ao nascer dos recém-nascidos. A literatura apresenta resultados divergentes: enquanto alguns estudos apontam que primíparas apresentam maior risco de baixo peso ao nascer em comparação às multíparas, outros sugerem efeito oposto. Em pesquisa realizada em Governador Valadares, Minas Gerais, observou-se que ser primigesta aumentou significativamente o risco de baixo peso ao nascer14, achado semelhante ao do presente estudo, no qual a primiparidade esteve associada a maior probabilidade para esse desfecho quando comparada à multiparidade.
Em contrapartida, estudo conduzido na Índia demonstrou que mulheres multíparas apresentaram maior proporção de recém-nascidos com baixo peso, divergindo dos resultados encontrados15. A primiparidade pode estar associada a maior risco de baixo peso em virtude de fatores como adaptação uteroplacentária e diferenças hormonais maternas16. No contexto pandêmico, essa relação foi possivelmente potencializada por fatores adicionais, como estresse materno, acesso reduzido ao pré-natal e impactos socioeconômicos, que repercutiram negativamente na nutrição e na saúde gestacional (17.
Revisões sistemáticas também indicam que a pandemia de COVID-19 agravou desfechos neonatais, com aumento da ocorrência de partos prematuros e de baixo peso ao nascer, sobretudo entre gestantes em situação de maior vulnerabilidade social e com acesso limitado a cuidados de saúde adequados (18..
Verificou-se, ainda, que a ausência de atividade física durante a gestação apresentou associação com maior razão de prevalência de recém-nascidos com baixo peso ao nascer, o que indica a inatividade como um fator relevante para desfechos neonatais adversos. Esses achados contrastam parcialmente com os resultados de uma revisão sistemática com meta-análise de ensaios clínicos randomizados, que demonstrou que o exercício pré-natal reduz o risco de macrossomia, sem associação significativa com baixo peso ou pequenos para a idade gestacional, sugerindo efeito protetor principalmente contra o excesso de peso fetal (19.
Durante a pandemia de COVID-19, ensaios clínicos evidenciaram que programas de exercícios supervisionados de forma virtual foram eficazes em reduzir o ganho de peso gestacional excessivo e em aumentar a proporção de recém-nascidos com peso adequado, além de impactarem positivamente outros comportamentos maternos, como a redução do tabagismo (20. Em contraposição, estudo de coorte realizado no mesmo período apontou que a inatividade física esteve associada a maior risco de ganho ponderal excessivo, diabetes gestacional, pré-eclâmpsia e parto prematuro (21.
Dessa forma, os resultados do presente estudo dialogam com a literatura ao reforçar a importância da manutenção de níveis adequados de atividade física durante a gestação, especialmente em cenários de vulnerabilidade, como o vivido durante a pandemia, em que restrições de mobilidade e sobrecarga psicossocial ampliaram a exposição das gestantes a riscos de desfechos perinatais adversos.
O número de famílias com renda inferior a meio salário-mínimo apresentou associação estatisticamente significativa com o baixo peso ao nascer, refletindo o impacto direto da vulnerabilidade econômica sobre os desfechos neonatais. Ademais, a renda per capita também se associou ao baixo peso, sugerindo que diferenças entre territórios podem gerar heterogeneidade socioeconômica capaz de influenciar negativamente a saúde materno-infantil.
Estudos realizados em diferentes contextos reforçam esses achados, evidenciando que as repercussões da pandemia de COVID-19 acentuaram desigualdades sociais e impactaram negativamente os desfechos perinatais. Dados nacionais brasileiros apontaram aumento progressivo na prevalência de baixo peso ao nascer ao longo da pandemia, sinalizando a influência do contexto socioeconômico sobre a saúde materno-infantil22.
De forma semelhante, a análise preditiva brasileira demonstrou que fatores como baixa escolaridade materna, insegurança alimentar e menor acesso ao pré-natal configuram determinantes importantes para o risco de baixo peso23. Além disso, investigação conduzida no Brasil identificou que a insegurança alimentar durante a gestação esteve associada a maior prevalência do baixo peso24, achado corroborado por estudo de abrangência nacional na Índia, que observou aumento da probabilidade de recém-nascidos com baixo peso em áreas de maior vulnerabilidade durante a pandemia25.
Resultados consistentes também foram relatados em um estudo caso-controle, conduzido na Jordânia, que demonstrou a influência de determinantes maternos e socioeconômicos sobre o risco de baixo peso ao nascer, reforçando a importância do contexto social na determinação desse desfecho26. Tais evidências ressaltam a relevância de políticas públicas voltadas à mitigação das desigualdades sociais, garantindo acesso a recursos nutricionais, suplementação adequada e assistência pré-natal qualificada, de modo a prevenir desfechos adversos associados ao baixo peso ao nascer.
Foi evidenciado que maiores taxas de violência aumentaram as chances de baixo peso em relação ao peso adequado. A pandemia de COVID-19 evidenciou uma série de impactos nas esferas social e da saúde pública, com efeitos particularmente acentuados sobre populações em contextos de maior vulnerabilidade. A exposição à violência está associada ao aumento dos níveis de medo e estresse psicológico, os quais repercutem diretamente sobre a saúde materno-fetal.
Evidências apontam que o aumento do estresse materno está relacionado a maiores riscos de parto prematuro e de baixo peso ao nascer27. Esse fenômeno foi amplamente descrito durante a pandemia, período em que se observou elevação da violência doméstica contra gestantes, associada a maior probabilidade de recém-nascidos com baixo peso e prematuridade28. Revisões sistemáticas internacionais também confirmam que o estresse e a ansiedade materna, potencializados por situações de violência ou insegurança social, exercem efeito negativo sobre o crescimento fetal29.
No Brasil, estudos evidenciaram que a violência doméstica entre gestantes se intensificou durante a pandemia, ampliando desigualdades e riscos perinatais (30. Esses resultados indicam que a violência, em suas múltiplas formas, atua como determinante social da saúde, reforçando a necessidade de políticas integradas de proteção materno-infantil em cenários de vulnerabilidade.
É importante destacar que a avaliação do peso ao nascer foi realizada nos estágios iniciais da pandemia de COVID-19. No entanto, considerando a longa duração desse período e suas múltiplas fases, é possível que outros estudos apresentem resultados distintos. Diante dos profundos impactos socioeconômicos gerados pela pandemia, os quais provavelmente se estenderão por vários anos, ressalta-se a necessidade de novos estudos longitudinais que investiguem de forma mais abrangente suas repercussões na saúde materno-infantil.
Nesse contexto, considerando que a pandemia de COVID-19 se configurou como um grave problema de saúde pública no cenário brasileiro, os achados deste estudo representam contribuições relevantes tanto para a prática profissional quanto para o avanço do conhecimento científico. Ao identificar associações com o baixo peso ao nascer, o estudo fornece subsídios importantes para instituições de saúde e órgãos governamentais, possibilitando o planejamento de estratégias e programas voltados à qualificação da assistência à saúde materno-infantil no Brasil.
Entre as limitações deste estudo, destaca-se que, embora a amostra tenha sido composta por gestantes atendidas em três maternidades públicas de grande porte, ela não reflete de forma integral a população gestante do município analisado. Outro aspecto que merece consideração é o reduzido número de participantes que relataram sintomas de COVID-19, o que pode ter limitado a capacidade do estudo em identificar possíveis associações entre essa condição e o peso ao nascer. Por fim, no contexto da metrópole investigada, aborda a influência do ambiente no peso ao nascer durante um dos períodos mais críticos da pandemia de COVID-19, considerando uma população em condição de maior vulnerabilidade social.
CONCLUSÃO
O presente estudo analisou a associação entre fatores do ambiente social e as repercussões do contexto da pandemia da COVID-19 no peso ao nascer. Os resultados demonstraram que, além de determinantes clínicos como a prematuridade e a prática de atividade física durante a gestação, elementos contextuais, incluindo renda per capita, número de famílias com renda inferior a meio salário-mínimo e taxas de violência, exerceram influência significativa sobre a ocorrência de baixo peso ao nascer. Verificou-se, ainda, que a pandemia acentuou desigualdades sociais e potencializou vulnerabilidades já existentes, repercutindo negativamente nos desfechos perinatais.
Tais evidências reforçam a importância de compreender o peso ao nascer não apenas como resultado de fatores biológicos individuais, mas também como expressão das condições sociais e ambientais em que a gestação se desenvolve. Nesse sentido, torna-se fundamental o fortalecimento de estratégias intersetoriais que integrem ações de saúde, assistência social e segurança pública, de modo a garantir cuidado integral às gestantes e reduzir iniquidades em saúde materno-infantil, especialmente em contextos adversos como o da pandemia.
Agradecimentos
Ao Observatório de Pesquisa e Estudos em Vacinação da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais - OPESV-EEUFMG, pelo apoio na realização deste estudo. Aos hospitais participantes, pelo apoio durante a realização deste estudo: Maternidade do Hospital Júlia Kubitschek, Maternidade do Hospital Risoleta Tolentino Neves e Hospital Sofia Feldman e Unidade Local de Saúde de Matosinhos, em Portugal.
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Disponibilidade de dados e material
O acesso ao conjunto de dados poderá ser realizado mediante solicitação ao autor correspondente. Por se tratar de dados sensíveis obtidos mediante autorização ética e institucional específica, qualquer compartilhamento, mesmo após anonimização, exige cuidados rigorosos com a segurança da informação, conforme orientações recebidas por meio do parecer do Comitê de Ética em Pesquisa da UFMG. Assim, o banco de dados permanece restrito à equipe de pesquisa, sendo necessário avaliar caso a caso qualquer solicitação externa de acesso.
O acesso ao conjunto de dados poderá ser realizado mediante solicitação ao autor correspondente. Por se tratar de dados sensíveis obtidos mediante autorização ética e institucional específica, qualquer compartilhamento, mesmo após anonimização, exige cuidados rigorosos com a segurança da informação, conforme orientações recebidas por meio do parecer do Comitê de Ética em Pesquisa da UFMG. Assim, o banco de dados permanece restrito à equipe de pesquisa, sendo necessário avaliar caso a caso qualquer solicitação externa de acesso.



Fonte: Elaborado para fins deste estudo, 2025.
Fonte: Elaborado para fins deste estudo, 2025.