Open-access Interprofissionalidade em Residências Multiprofissionais na Atenção Primária à Saúde no Brasil: uma revisão de escopo

RESUMO

Objetivo:  Analisar a literatura sobre a Educação Interprofissional em Residências Multiprofissionais em Saúde no contexto da Atenção Primária à Saúde no Brasil.

Método:  Realizou-se buscas entre setembro de 2023 e janeiro de 2024, nas bibliotecas e bases de dados: Medline/Pubmed; Cochrane Library; Scopus; Embase; Web of Science; SciELO; Lilacs e BDENF via Biblioteca Virtual em Saúde; Catálogo de Teses e Dissertações CAPES; Biblioteca Digital de Teses e Dissertações; e, Google Acadêmico. A seleção ocorreu por duas pesquisadoras de forma independente, utilizando o software Rayyan®. Para a análise dos dados, utilizou-se análise de conteúdo temática, com auxílio do software IRAMUTEQ® na fase de tratamento dos resultados obtidos.

Resultados:  Foram identificados 3.407 textos, com 1.558 duplicados, 1.791 excluídos após a leitura de título e resumos e 52 após a leitura completa. Foram incluídos seis textos na revisão. O processamento resultou em seis classes: cenário; competências trabalhadas; obstáculos; relacionamentos entre os profissionais; processos de trabalho; e, resultados.

Conclusão:  O estudo aponta que a Educação Interprofissional em Residências Multiprofissionais, por meio das atividades conjuntas entre a equipe no cotidiano, impulsiona mudanças na formação e na qualificação do trabalho na Atenção Primária à Saúde, indicando avanços, desafios e caminhos para consolidar as práticas colaborativas.

Descritores:
Atenção Primária à Saúde; Estratégia Saúde da Família; Educação Interprofissional

ABSTRACT

Objective:   To analyze the literature on Interprofessional Education in Multiprofessional Health Residencies in the context of Primary Health Care in Brazil.

Method:  Searches were conducted between September 2023 and January 2024 in the following libraries and databases: Medline/Pubmed; Cochrane Library; Scopus; Embase; Web of Science; SciELO; Lilacs and BDENF via the Virtual Health Library; CAPES Catalog of Theses and Dissertations; Digital Library of Theses and Dissertations; and Google Scholar. The selection was carried out by two researchers independently, using the Rayyan® software. For data analysis, thematic content analysis was used, with the aid of the IRAMUTEQ® software in the results processing phase.

Results:  A total of 3,407 texts were identified, of which 1,558 were duplicates, 1,791 were excluded after reading the title and abstracts, and 52 excluded after full-text reading. Six texts were included in the review. The processing resulted in six classes: setting; developed competencies; obstacles; professional relationships; work processes; and outcomes.

Conclusion:  The study indicates that Interprofessional Education in Multiprofessional Residencies, joint daily activities among team members, drives changes in training and improves work quality in Primary Health Care, indicating advances, challenges, and paths to strengthen collaborative practices.

Descriptors:
Primary Health Care; Family Health Strategy; Interprofessional Education

RESUMEN

Objetivo:   Analizar la literatura sobre Educación Interprofesional en Residencias Multiprofesionales de Salud en el contexto de la Atención Primaria de Salud en Brasil.

Método:  Se realizaron búsquedas entre septiembre de 2023 y enero de 2024, en bibliotecas y bases de datos: Medline/Pubmed; Biblioteca Cochrane; Scopus; Base; Web de la Ciencia; SciELO; Lilas y BDENF vía Biblioteca Virtual de Salud; Catálogo de Tesis y Disertaciones de CAPES; Biblioteca Digital de Tesis y Disertaciones; y, Google Académico. La selección fue realizada por dos investigadores de forma independiente, utilizando el software Rayyan®. Para el análisis de los datos se utilizó el análisis de contenido temático, con la ayuda del software IRAMUTEQ® en la fase de procesamiento de los resultados obtenidos.

Resultados:  Se identificaron 3.407 textos, con 1.558 duplicados, 1.791 excluidos después de la lectura del título y resúmenes y 52 después de la lectura completa. Se incluyeron seis textos en la revisión. El procesamiento dio como resultado seis clases: escenario; habilidades trabajadas; obstáculos; relaciones entre profesionales; procesos de trabajo; y, resultados.

Conclusión:  El estudio indica que la Educación Interprofesional en Residencias Multiprofesionales, por medio de actividades conjuntas entre el equipo en el cotidiano, impulsa cambios en la formación y cualificación del trabajo en la Atención Primaria de Salud, indicando avances, desafíos y caminos para consolidar prácticas colaborativas.

Descriptores:
Atención Primaria en Salud; Estrategia de Salud de la Familia; Educación Interprofesional

INTRODUÇÃO

A Atenção Primária à Saúde (APS), considerada como principal meio de entrada dos usuários nos serviços de saúde, possibilita a oferta de atendimento integral e a articulação do conhecimento entre os profissionais de saúde e os usuários, tornando a assistência mais resolutiva e equitativa, além de exercer um papel fundamental na implementação das políticas públicas por sua abrangência e forma de atuação no território1,2. Sua organização é estabelecida por meio da Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), instituída no Brasil em 2006 e editada posteriormente em 2011 e em 20173. A Estratégia Saúde da Família (ESF) é a principal estratégia para a ampliação e a consolidação da APS no país4.

Visando transformar e adequar a formação dos profissionais de saúde para o desempenho de suas funções no Sistema Único de Saúde (SUS), tem sido desenvolvida no país a Educação Permanente em Saúde (EPS), definida como a aprendizagem realizada no cotidiano do trabalho, considerando o interesse dos envolvidos e a consequente transformação das práticas5. Assim, o Ministério da Saúde (MS) instituiu a Política Nacional de Educação Permanente em Saúde (PNEPS) em 2004 e a reformulou em 2007, definindo os novos caminhos para a implementação das ações de EPS, priorizando necessidades do território6.

Em consonância com a PNEPS, as Residências Multiprofissionais em Saúde (RMS), criadas pela Lei nº 11.129, de 30 de junho de 2005, são voltadas para a educação em serviço7 e objetivam qualificar a formação profissional em saúde para o SUS8. A educação em serviço é a principal característica das RMS, que apresentam 80% de sua carga horária total desenvolvida em campo de prática e 20% sob forma de estratégias educacionais teóricas7.

Além de considerarem as necessidades e particularidades do território durante a organização dos programas, as RMS se tornam uma ferramenta importante para a construção de saberes significativos, devido ao seu potencial transformador, inovador e reflexivo, por meio da vivência em serviço, que é embasada e refletida nos espaços de preceptoria, supervisão e momentos teóricos. Isso possibilita a experimentação da prática, a discussão, a reflexão e a problematização da realidade nos campos de atuação, orientando à formação de profissionais de saúde para a atuação no SUS8,9.

Além disso, é importante considerar que tem sido fomentada, também no Brasil, a Educação Interprofissional (EIP), definida como o aprendizado conjunto e interativo de duas ou mais profissões com intuito de melhorar a assistência por meio da prática colaborativa10. A EIP tem sido incorporada às políticas de educação na saúde como abordagem prioritária, devido ao potencial estratégico que exerce de fortalecimento do SUS11.

A interprofissionalidade pode ser entendida como a junção de diferentes saberes, representados por categorias distintas de profissionais de saúde, com execução em conjunto de ações ou delegação das mesmas para outros profissionais de forma colaborativa12. Ela tem sido responsável pelo alcance da integralidade do cuidado, traduzida na forma de organização dos serviços e das práticas de saúde, com influência nos processos de trabalho objetivando ampliar o atendimento das necessidades de saúde e da população atendida13.

Considera-se a APS um cenário altamente favorável para a EIP ao preconizar o trabalho em equipe multiprofissional, visando ao atendimento integral14, reforçado pelas RMS, que, por meio do projeto político-pedagógico, permitem o aprendizado mútuo e integrado entre as diversas categorias profissionais que a compõem. Ademais, com a criação da Residência Multiprofissional em Saúde da Família (RMSF), aumentou-se o escopo de profissões no campo de prática, fortalecendo o trabalho em equipe pela articulação dos profissionais e promovendo a ampliação do cuidado ao usuário8,15.

Apesar dos avanços na implementação da ESF e das RMS na APS no Brasil8,13, ainda há lacunas significativas na compreensão das práticas de EIP nas RMSF. Considera-se necessário o desenvolvimento de uma base sólida de conhecimento acerca da efetividade e dos impactos dessas práticas na formação dos profissionais residentes que atuam no contexto da APS e na qualidade do cuidado em saúde prestado pelas equipes multiprofissionais aos usuários.

Neste sentido, é crucial mapear e analisar sistematicamente as práticas de EIP adotadas nas RMS, identificando tanto as barreiras quanto os facilitadores para sua implementação efetiva que auxiliem a subsidiar políticas públicas e estratégias que possam aprimorar a formação e a prática interprofissional, contribuindo para uma assistência à saúde mais integrada e resolutiva no SUS. A partir da questão norteadora “Como ocorre a Educação Interprofissional em Residência Multiprofissional em Saúde da Família no Brasil?”, objetiva-se com esta pesquisa, analisar a literatura sobre a EIP em RMS no contexto da APS no Brasil, identificando suas práticas e os fatores que influenciam seu desenvolvimento.

MÉTODO

Trata-se de uma revisão de escopo da literatura. Utilizou-se o check-list do PRISMA Extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR)16, cujo protocolo de revisão foi registrado no Open Science Framework (OSF) (DOI 10.17605/OSF.IO/9TSGF). A pergunta norteadora foi elaborada utilizando-se o acrônimo PCC, em que P=População (residentes), C=Conceito (Educação Interprofissional) e C=Contexto (APS)17.

Os critérios de inclusão para a seleção do material foram: 1) trabalhos derivados de pesquisas (artigos originais, dissertações e teses) e relatos de experiência; 2) ter sido publicado desde 2005, ano de criação das RMS pelos Ministérios da Saúde e da Educação e Cultura7; 3) publicação em língua portuguesa, inglesa ou espanhola; 4) estar disponível como texto completo em uma das bases de dados utilizadas, adotando como critério de disponibilidade aquele concedido via acesso da rede institucional do pesquisador; 5) tratar da APS no Brasil. Como critérios de exclusão, foram definidos: trabalhos duplicados; editoriais, artigos de opinião, artigos de revisão, documentos e resumos de eventos científicos; e trabalhos que não versavam sobre a temática do estudo.

A busca foi realizada nas bibliotecas e bases de dados: National Library of Medicine (Medline)/Pubmed; Cochrane Library; Scopus; Embase; Web of Science; Scientific Electronic Library Online (SciELO); Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (Lilacs) e Base de Dados de Enfermagem (BDENF) via Biblioteca Virtual em Saúde (BVS); Catálogo de Teses e Dissertações CAPES; Biblioteca Digital de Teses e Dissertações (BGTD) e Google Acadêmico.

Os Descritores em Ciências da Saúde utilizados foram: Educação Interprofissional; Educação Permanente; Atenção Primária à Saúde; Estratégia de Saúde da Família; Relações Interprofissionais; e Equipe de Assistência ao Paciente. As chaves de busca foram elaboradas e ajustadas para cada biblioteca e base de dados, com emprego dos operadores booleanos AND e OR, e se encontram expostas no protocolo da revisão registrada na OSF.

A seleção dos textos foi realizada de forma independente (cega) por duas pesquisadoras treinadas e calibradas, sob a orientação de uma terceira pesquisadora, utilizando-se o aplicativo Rayyan® (www.rayyan.ai), com o objetivo de facilitar a identificação e a exclusão de textos duplicados e de resolver os conflitos de seleção entre as revisoras. A calibração prévia à seleção foi realizada a partir dos dez primeiros textos da lista de identificação, para alinhamento conceitual e metodológico, os quais foram incluídos na amostra do estudo.

A seleção dos documentos foi realizada em duas etapas. Na primeira, após a exclusão das duplicatas, foram lidos os títulos e os resumos para avaliar se os mesmos atendiam aos critérios de seleção. Os artigos classificados nesta etapa foram lidos na íntegra e os critérios de seleção foram novamente aplicados. O detalhamento da seleção encontra-se apresentado na Figura 1.

Figura 1:
Fluxograma da seleção dos textos da revisão de escopo.

Após a seleção dos textos, foram identificadas as seguintes características: título; região do estudo; periódico de publicação; autor; ano de publicação; local publicado; objetivo; metodologia; e principais resultados (Quadro 1). Esses dados foram tabulados no software Excel® , permitindo sua análise descritiva.

Para análise do conteúdo dos textos, foi realizada a Análise de Conteúdo Temática18, contemplando suas três fases: pré-análise; exploração do material; e tratamento dos resultados com a interpretação dos dados. Na pré-análise, foi realizada a leitura flutuante dos seis textos incluídos, definimos os objetivos e organizamos o corpus em arquivos de texto separados no software LibreOffice Writer® Versão: 6.3.2.2 (x64), sendo arquivo para cada estudo. Na segunda fase, corresponde à exploração do material, definimos três unidades de registro previamente estabelecidas: fatores que promovem a EIP; fatores que prejudicam a EIP; e resultados da EIP na APS. A partir dessas unidades, extraímos os trechos relevantes dos textos e os agrupamos por categorias, gerando um novo corpus.

Na terceira fase, de tratamento dos resultados obtidos, as pesquisadoras realizaram a interpretação dos dados, após o processamento lexicográfico do corpus com suporte do software Interface de R pour Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires (IRAMUTEQ®), versão 0.7. O corpus foi convertido em formato para UTF-8 e, em seguida, foram verificados os parâmetros de aproveitamento, considerado satisfatório quando superior a 75%19. Posteriormente, foi obtida a Classificação Hierárquica Descendente (CHD), que agrupa os Segmentos de Texto (ST) em classe de palavras, segundo o método de Rainert20. Essa técnica permite compreender a estruturação e a distribuição dos diferentes grupos de palavras existentes no corpus. Os resultados foram apresentados em forma de dendrograma, que ilustra a divisão do corpus em classes de palavras, organizadas de acordo com as unidades de registro.

Por se tratar de uma revisão bibliográfica com documentos de acesso público, não houve necessidade de sua submissão e aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa.

RESULTADOS

A busca resultou na identificação de 3.407 textos, a partir dos quais foram excluídos 1.558 por serem textos duplicados. Dos 1.849 textos restantes, 1.791 foram excluídos após a leitura de título e resumos e 52 excluídos após a leitura completa do texto, por não se adequarem aos critérios de seleção definidos na metodologia, restando seis textos, os quais foram incluídos na revisão.

O corpus deste estudo foi criado a partir da análise dos seis documentos selecionados (cinco artigos científicos e uma dissertação de mestrado) organizados em uma unidade de registro. A análise das características dos seis textos mostra que todos foram publicados a partir de 2018 e possuíam metodologia qualitativa, sendo cinco artigos de pesquisa e um de relato de experiência. Houve predominância de estudos sobre a compreensão da prática colaborativa no contexto da APS (n=3), realizados nas regiões Sul e Sudeste (n=4) e disponíveis no Lilacs (n=3) (Quadro 1).

Quadro 1.
Caracterização dos textos incluídos nesta revisão de escopo.

Diante da questão norteadora “Como ocorre a Educação Interprofissional em Residências Multiprofissionais em Saúde da Família no Brasil?”, os resultados desta pesquisa evidenciam que a EIP vem se configurando, nesse espaço, como um processo dinâmico, influenciado por diferentes fatores que emergiram na análise dos dados. A investigação revelou seis classes principais que estruturam a compreensão desse fenômeno.

A CHD foi formada por 18 linhas de comando, destacados por 131 segmentos, dos quais 107 obtiveram aproveitamento total (81,7%). Foram registradas 4.697 ocorrências de palavras, 825 formas diferentes e 505 hapax, ou seja, palavras com apenas uma aparição. A unidade foi composta por um corpus único que se repartiu em dois subcorpus, gerando duas categorias. Uma categoria gerou as classes I (14%), III (15,9%) e IV (20,6%), sendo as classes IV e III aquelas com maior proximidade do discurso. A segunda categoria gerou as classes V (17,6%), II (16,8%) e VI (14,9%), sendo as classes V e II com discurso mais aproximado (Figura 2).

Figura 2.
Dendrograma apresentando a Classificação Hierárquica Descendente obtida na análise dos textos, apresentando as formas de ocorrência da interprofissionalidade nas residências Multiprofissionais em Saúde no contexto da APS no Brasil.

A apresentação dos resultados, seguindo a ordem de repartição das classes no dendrograma, é feita com base nas palavras em destaque que mais apareceram durante a análise. Inicia-se pela Classe VI, que evidencia como a EIP na RMFS ocorre no contexto da APS, onde os residentes vivenciam práticas colaborativas no cotidiano dos serviços. Em seguida, a Classe II trata sobre o desenvolvimento das competências interprofissionais e se destaca como um aspecto central desse processo, ao mesmo tempo em que a Classe V aborda os desafios e barreiras estruturais que dificultam sua plena implementação. A relação entre os profissionais envolvidos na EIP e sua atuação colaborativa apresentam-se como o eixo mais significativo do estudo, representado na Classe IV, embora obstáculos organizacionais e institucionais abordados na Classe III impactem a efetividade da interprofissionalidade na rotina das Unidades Básicas de Saúde (UBS). Por fim, a Classe I trata sobre os resultados alcançados a partir da prática interprofissional, reforçando o potencial da EIP para transformar as dinâmicas de trabalho e fortalecer a formação dos residentes.

Dessa forma, as classes VI e II referem-se aos fatores que promovem a EIP, as classes V e IV traduzem os fatores que prejudicam a EIP, enquanto a classe III, representa os resultados obtidos por meio da EIP na APS.

Classe VI: Cenário

Composta por 14,9% dos vocábulos, a classe VI apresenta o cenário em que a EIP é alcançada na APS e seus desdobramentos no cotidiano dos residentes. As principais palavras definidoras da classe foram: residência; período; unidade de saúde; processo; e, reunião.

A palavra com maior expressão (mais frequente) na classe foi “residência”, que traz luz às mudanças na formação profissional, tendo como campo de atuação a unidade de saúde, outra palavra presente nesta classe. O fragmento do texto A4 exemplifica essa visão: “sido impulsionados pela existência da residência na unidade de saúde que contribuiu fortemente para as reflexões e problematizações a respeito do processo de trabalho evidenciando a potência da aproximação do ensino com o serviço”23.

Já os vocábulos “período” e “processo” referem-se ao tempo de duração da residência e ao processo formativo de cada ciclo da residência, para que as atividades sejam trabalhadas pelos residentes. Conforme evidenciado no texto A5, “foi percebido que o período da residência e as atividades propostas para cada ciclo do processo formativo também influenciavam sobremaneira na adoção de objetivos compartilhados”24. Ao considerar que as atividades de cada ciclo exigem um período para começo e fim, os residentes enfrentam dificuldades para compartilharem entre si os objetivos alcançados durante o processo formativo, impactando a evolução das metas coletivas e integradas no trabalho em equipe24.

Por fim, a palavra “reunião” esteve associada à reunião de equipe, conforme o texto A5 “as reuniões de equipe são espaços importantes para a conectividade”24, sendo um local protegido de discussão e troca de conhecimento que envolve todos os residentes e os demais profissionais lotados ESF, que foi o meio escolhido para implementar a APS.

Classe II: Competências

A formação da classe II representa o surgimento das competências colaborativas no contexto da residência, representando 16,8% do discurso. As palavras mais representativas para esta classe foram: interprofissional; colaboração; preceptor; liderança; e comunicação. Elas traduzem os aspectos envolvidos no desenvolvimento das competências.

Nessa classe, o termo “interprofissional” surge ao lado do termo “colaboração”, representando as atividades realizadas em conjunto, com destaque para o papel exercido pelo preceptor como agente responsável por guiar os residentes a essa prática colaborativa. O termo “preceptor” representa a figura de um profissional vinculado ao campo de atuação na APS, importante durante o processo formativo dos residentes para o desenvolvimento das competências, bem como, para o trabalho interprofissional. Essa visão é encontrada no texto A5: “para que essa interação se caracterize como interprofissional é preciso que uma dinâmica de trabalho colaborativo mediada pelos preceptores gere aprendizagem compartilhada, mudanças das práticas e desenvolvimento de competências comuns”24.

Dentre as competências necessárias para o desenvolvimento da prática colaborativa, estão as palavras “comunicação” e “liderança”, presentes no texto A2, “os participantes elegeram como principais competências interprofissionais a comunicação, o trabalho em equipe, a abordagem centrada na pessoa e a liderança colaborativa”22. O desenvolvimento dessas competências é necessário para a efetivação de uma formação interprofissional.

Classe V: Obstáculo

A classe V detém 17,8% do discurso e ocupa o segundo lugar de relevância das palavras, com proximidade com a classe II. Transmite a ideia de dificuldades atuais vivenciadas no cotidiano dos serviços para implantar a EIP. As palavras que definem essa classe são: interferência; médico; resistência; institucional; e modelo.

Apresentando ligação de sentido, as palavras “interferência” e “resistência” estão presentes no recorte do texto A6, que destaca que “as implicações organizacionais e ideológicas provocaram resistências a um modelo mais integrado de trabalho, colaborar com o outro não depende só de um esforço para que o usuário seja mais bem entendido, se trata de um processo de relações humanas”25, e demonstram os prejuízos para a EIP e a consequente diminuição da efetivação do cuidado.

A existência de práticas de ensino e processos de trabalho ainda enraizados no modelo hospitalocêntrico e médico-centrado dificultam a efetivação das mudanças propostas pela EIP. Conforme descrito no texto A6, “a naturalização da prática de passar o caso para diferentes especialistas e a lógica do cuidado médico centrado evidencia conflitos internos quanto à corresponsabilidade do cuidado com o usuário”25.

Ainda nesta classe, o vocábulo “institucional” representa a gestão, a exemplo de sua utilização no texto A6: “algumas equipes tentaram instituir uma agenda integrada para atendimentos compartilhados entre residentes multiprofissionais e médicos mas, infelizmente a dinâmica institucional mantinha agendamento individual e o cuidado fragmentado”25. O mesmo sugere o predomínio de formas verticalizadas de liderança, ainda em vigor.

Classe IV: Relacionamento

Demonstrando a relação existente entre os profissionais que compõem o processo de promoção da saúde para uma atuação colaborativa, a classe IV é a mais significativa, com 20,6% dos vocábulos. As palavras que trazem sentido para essa classe são: diferentes; comunidade; participante; discussão; e, serviço.

O vocábulo “diferentes” refere-se aos múltiplos saberes, representados pela variedade de profissões existentes na RMSF e no contexto da APS como um todo. Essa ideia ficou explícita no texto A3, que destacou que “aprender com o colega com formação profissional diferente permitiu a aquisição de conhecimentos que viabilizaram abordagens e orientações mais próximas da realidade dos usuários, família e comunidade”15.

Interligadas pelo sentido, as palavras “comunidade” e “participante” referem-se aos profissionais e aos pacientes que estão inteiramente envolvidos em uma relação harmônica, inseridos em um cenário (representado pela palavra “serviço”) que propicia o aprendizado e a resolutividade de demandas diversas e, muitas vezes, complexas. O trecho que melhor exemplifica esse sentido está presente em A3: “os participantes apontaram que o trabalho com os profissionais de outros serviços realizado com diferentes equipamentos da rede de atenção à saúde resultou em uma aproximação com a comunidade e suas reais necessidades sociais e de saúde por meio de atividades coletivas”15.

Na existência de diferentes profissões e saberes, interligados pela comunidade e profissionais, a palavra “discussão” apareceu como um ponto para troca e aprendizado. Conforme relatado no texto A3, a “atuação dos participantes com as diferentes profissões ocorreu majoritariamente por meio de discussões de caso tidos como espaços nos quais enxergávamos os pontos de convergência entre as atuações profissionais e as unia a fim de construir um plano de cuidado em comum”15.

Classe III: Processo de Trabalho

Com 15,9% do discurso, esta classe aproxima-se da Classe IV (Obstáculos), apresentando os fatores que interferem na relação entre os atores que atuam na APS construindo o processo de trabalho, com impactos na efetividade da interprofissionalidade na prática diária das Unidades Básicas de Saúde (UBS), mesmo com os resultados positivos que as práticas colaborativas têm produzido. As palavras que representam esta classe são: ação; falta; EIP; complementar; e, agenda.

Iniciando a análise, a palavra “ação” representa as iniciativas geradas no campo de prática em prol de ampliar a assistência ofertada à população adscrita, com atividades de educação em saúde. Para desenvolver uma ação, vários atores estão envolvidos, acarretando um compartilhamento de ideias que podem melhorar a qualidade da assistência, assim como gerar aprendizado para os profissionais incluídos. Conforme descrito no texto A1, “a minha percepção das ações compartilhadas é que foram elas e o convívio diário que completaram a minha formação e me tornaram uma profissional mais completa”21.

No entanto, para que seja benéfico tanto para os profissionais quanto para a comunidade, é necessário o envolvimento de todos os atores. Estes fatores podem ser vistos nos fragmentos do texto A1 “a falta de comprometimento e interação em uma ação pode prejudicar o produto final”21 e “um ponto negativo foi a falta de adesão por parte da equipe à ação entendendo que a ação foi de extrema importância”). O vocábulo “falta” reflete a ausência de fatores essenciais, tanto relacionados aos insumos quanto às questões inerentes aos profissionais. Como descrito nos textos, “a fragilidade do apoio da gestão quanto à infraestrutura, falta de insumos”21) (A1), “a sobrecarga de trabalho e o desgaste emocional atribuídos principalmente ao cumprimento do prazo obrigatoriedade de tarefas e a falta de significado na realidade dos trabalhadores”23) (A4) e “a falta de qualificação dos profissionais”24) (A5) estão presentes.

Ainda sobre os desafios encontrados, a palavra “agenda” aparece indicando as dificuldades vivenciadas no cotidiano do trabalho para reunir os profissionais e oportunizar um trabalho em conjunto. O texto A1 destaca que “os narradores indicaram possíveis desdobramentos da EIP como um desafio para atuação mútua devido às agendas dos profissionais”21. Em contrapartida, a palavra “complementar” relacionada ao termo “EIP” traduz a necessidade de agregar. Conforme o texto A1, “a EIP complementa a formação do profissional no decorrer de suas ações com aprendizagem compartilhada entre os mesmos e a troca de habilidades”21.

Classe I: Resultados

Representada por 14% dos vocábulos, a classe I apresenta os resultados obtidos a partir de uma atuação interprofissional. Tiveram maior relevância para esta classe as palavras: assistência; visão; grupo; conhecimento; e integral.

A palavra “assistência” refere-se à atuação dos profissionais, sendo que, nos textos explorados, a mesma foi melhor desenvolvida por meio da EIP. Conforme descrito no texto A1, “a resolutividade do problema é bem mais eficaz e a assistência ao paciente passa a ser integral com a EIP”21.

As palavras “visão” e “integral” complementam-se no sentido para representar a expansão da assistência prestada e do conceito ampliado de saúde defendido pelo SUS. O texto A5 descreve esse pensamento quando relata que “o contexto da EIP na fala de alguns residentes parece favorecer uma visão mais integral dos pacientes”24.

Quanto ao emprego do vocábulo “grupo”, este refere-se ao seu sentido literal, ou seja, à existência de um conjunto de pessoas dispostas intencionalmente próximas, com um objetivo. Nesse entendimento, o texto A3 refere que “através das atividades em grupo que permitiram a articulação de conhecimentos práticos e populares para assim resolver as necessidades coletivas e não apenas individuais”15.

A última palavra dessa classe é “conhecimento”, usada no texto A1 para ilustrar sua importância para a prática profissional, sabendo-se que o conhecimento, a assimilação da informação interpretada e sua compreensão remetem à ideia de aprendizado mútuo e à aquisição de experiências: “os residentes consideram que a EIP favorece ao conhecimento entre as profissões e atribuem aos conhecimentos uma visão abrangente da assistência” 21.

DISCUSSÃO

Este mapeamento da literatura mostra que a EIP, exercida por meio das RMSF, vem promovendo mudanças no processo de trabalho e no relacionamento interpessoal das equipes, além de transformações no próprio cenário, que precisa oferecer o suporte necessário à nova forma de atuação profissional, a prática colaborativa. Verificou-se, também, o desenvolvimento das competências colaborativas impulsionadas pela atuação do profissional preceptor e os obstáculos que ainda permeiam a implementação da EIP na APS, devido aos fatores culturais ainda presentes no processo formativo dos profissionais e, consequentemente, no modelo de atuação dos mesmos.

O compilado dos textos analisados apresenta o diferencial da EIP para a formação profissional dos residentes e a influência exercida por ela no território onde a RMSF está inserida. Nesse sentido, o cenário aqui mencionado envolve tanto a RMSF, representada pelas determinações presentes no projeto pedagógico, quanto a UBS, englobando os diversos profissionais atuantes e um território cheio de peculiaridades, com vista ao cumprimento dos princípios e diretrizes do SUS.

O objetivo da criação das RMSF foi reorientar o profissional já formado por meio de sua inserção no campo de prática, cobrindo a lacuna deixada pela formação durante a graduação26. Com esse propósito, possibilitam ao residente um período de atuação e reflexão sobre as demandas da política pública de saúde e da população, tornando-se corresponsáveis em solucionar os problemas vivenciados naquele cenário27.

A reunião de equipe é um cenário em que a EIP é amplamente difundida. Elas tornam-se meios de consolidar a prática interprofissional. Embora sejam incipientes nos serviços, a discussão de casos e a organização do processo de trabalho, é importante a valorização desses espaços e a proteção das agendas para que eles aconteçam. Elas são consideradas facilitadoras para implementação de intervenções por meio da educação em saúde na UBS24,28.

Por meio das competências colaborativas trabalhadas na EIP, o residente torna-se capaz de desenvolver a interprofissionalidade, o que tem impulsionado mudanças na assistência ao usuário, considerando a integralidade do cuidado. A EIP objetiva desenvolver três tipos de competências profissionais: competências comuns; competências complementares; e competências colaborativas29. Nesse sentido, para que haja a prática colaborativa, trabalha-se na EIP os seguintes domínios de competências colaborativas: comunicação em equipe; cuidados/serviços focados no relacionamento; esclarecimento e negociação de papeis; funcionamento da equipe; processamento nas diferenças e desacordos da equipe; e, liderança colaborativa30. Nos textos analisados, a comunicação em equipe e a liderança colaborativa foram as competências mais destacadas.

A comunicação entre todos os envolvidos no processo de cuidar é fundamental para o desenvolvimento do trabalho em equipe22,31. O objetivo da comunicação entre as equipes deve ser o usuário, mantendo a atenção centrada no paciente. As fragilidades nesse processo podem surgir devido ao uso do prontuário eletrônico e ao emprego de ferramentas informais de comunicação, por meio de tecnologias comunicativas, por exemplo, que não permitem o diálogo aberto entre os profissionais com as trocas necessárias para promover o enriquecimento da prática, tornando-os meros transmissores de informação32.

Já a liderança colaborativa pode ser compreendida como uma liderança compartilhada, bem como a presença de outros profissionais tornando-se referências dentro da equipe, promovendo crescimento dos integrantes32,33. Para o sucesso da colaboração interprofissional, é necessário o comprometimento de toda equipe e, nesse sentido, é exigido de quem atua no papel da liderança habilidades específicas para a prática da colaboração, para que ela consiga motivar os profissionais para os objetivos compartilhados, promover a comunicação e construir confiança e relacionamentos com outros profissionais34.

O preceptor, em especial, foi destacado nos estudos como o profissional capaz de conduzir os residentes à prática colaborativa. O papel do preceptor é definido pela legislação vigente como o profissional que supervisiona as atividades práticas realizadas no campo de prática de maneira direta35, e assume o papel de guiar os residentes para o desenvolvimento desses domínios, considerando a função um ato que envolve o aprender, o ensinar e o fazer, tornando a prática significativa8.

Embora a EIP na RMSF apresente-se potente na formação dos profissionais, ela tem encontrado alguns obstáculos para sua concretização, principalmente relacionados aos padrões educacionais e culturais ainda presentes na atualidade, considerando a formação uniprofissional e os modelos de assistência predominantes antes da criação do SUS25, assim como fatores inerentes às condições de trabalho21,23.

Apesar de o trabalho na APS remeter à ideia de equipe multiprofissional, transformar este cenário para uma atuação interprofissional ainda é um grande desafio, sendo necessário um ensino colaborativo e uma abertura dos profissionais para aprender com o coletivo8. Faz-se necessário refletir que a configuração de uma equipe multiprofissional a partir do trabalho de diferentes categorias profissionais que atuam em um mesmo ambiente de trabalho, ocorre, muitas vezes, ao mesmo tempo que, na prática, o trabalho se dá de forma independente. Por outro lado, a interprofissionalidade implica do trabalho conjunto, com comunicação ativa durante o processo de construção para um cuidado integrado e colaborativo. Isto exige um esforço durante todo o processo de trabalho para romper com os entraves do simples agrupamento de distintas áreas ao superar as barreiras hierárquicas disciplinares promovendo a interação entre os saberes e com responsabilidade na atenção à saúde. Dentre essas barreiras, destacam-se o desconhecimento sobre a temática, a dificuldade de entender a clareza de papeis, a falta de diferenciação entre multiprofissionalidade e interprofissionalidade e os modelos de formação tradicionais guiados pela hegemonia médica, além da competitividade entre as profissões, corroborando os achados da presente pesquisa15.

Visando mudar essa lógica, a pedagogia adotada pela RMSF incorpora ações de EPS na prática diária dos serviços, aumentando a possibilidade de intervenção e de construção de práticas transformadoras na APS por meio da ESF. Ademais, a RMSF mostra-se potente para incentivar o trabalho em equipe e direcionar as mudanças necessárias no processo de trabalho, sendo o SUS um espaço de trabalho privilegiado para a sua incorporação23,36. O reconhecimento da necessidade de formar profissionais aptos para a colaboração e o trabalho em equipe, a partir da EIP, ainda é muito recente, incoerente com modelo de formação uniprofissional ainda existente no Brasil. Portanto, os profissionais com maior tempo de formação necessitam ainda mais de ações de EPS direcionadas para a interprofissionalidade no contexto da APS28.

A RMSF favorece o desenvolvimento da EIP por promover a presença categorias profissionais distintas no campo de prática e estimular a interação destes com os demais profissionais do serviço. Dentre os fatores que influenciam a EIP, as questões relacionadas aos profissionais encontram-se no nível micro37, representante das relações interpessoais, necessárias para o desenvolvimento das competências colaborativas. A RMSF, enquanto modalidade de formação interprofissional, possibilita a interação entre os diversos saberes representados pelos residentes, profissionais próprios dos serviços, usuários e suas famílias, com uma estrutura organizacional pautada na lógica do trabalho em equipe e rede32.

No entanto, para sua efetivação, é necessário haver um investimento no processo de trabalho, levando todos os profissionais atuantes a contribuírem e se envolverem com a temática da interprofissionalidade, incluindo a gestão, responsável em possibilitar a existência de espaços para trocas e aprendizados.

A inserção da RMSF contribuiu no campo de prática para o processo de trabalho em geral e, em relação à formação do residente, vem preparando os profissionais para atuação no SUS, com habilidades de relacionamento com o usuário. O SUS representa um espaço de ensino/aprendizagem, capaz de qualificar o profissional e transformar o próprio sistema de saúde ao proporcionar aos atores a reflexão sobre as necessidades vivenciadas no cenário no qual estão inseridos, sendo que o foco das ações deve ser as necessidades da população e o desenvolvimento da integralidade da atenção38.

Estudos comprovam que a residência amplia a qualificação para os trabalhadores, por meio do fortalecimento da EPS, assim como promove melhorias no processo de trabalho, impulsiona o papel do formador do SUS e a troca de saberes entre os profissionais envolvidos8,32,38. Com o desenvolvimento da EIP na RMSF, é possível observar ganhos a partir de uma assistência qualificada e integral que envolve diversos saberes. O potencial para gerar a prática colaborativa vem da EIP, que envolve estudantes, trabalhadores, usuários e familiares na atenção à saúde, melhora os resultados obtidos nessa nova reorganização em resposta ao crescimento das necessidades complexas em saúde, aliado à demanda de atendimento integral4,15.

Em relação aos resultados obtidos com a EIP, compilado de 50 anos de pesquisas sobre a EIP e a prática colaborativa da OMS, menciona a resolutividade da assistência prestada aos usuários e a relação destes com os profissionais, além da melhora no ambiente de trabalho12. Mais tarde, um estudo englobando as iniciativas de EIP nos diversos países ao redor do mundo revelou uma crescente expectativa dos países sobre seu desenvolvimento, como estratégia para qualificar os serviços (39.

No Brasil, no decorrer da trajetória de construção e consolidação do SUS, houve a aplicação do conceito ampliado de saúde e a expansão de suas ações, assim como em outros países, objetivando garantir a integralidade da assistência à saúde por meio da integração e da articulação de diversos saberes e práticas, de diferentes categorias profissionais, capazes de produzir intervenções em comum, de forma colaborativa25. Nesse sentido, os grupos são entendidos como facilitadores para o ensino de EIP, os quais são potentes na produção de conhecimento, proporcionada pelas trocas de saberes e experiências24.

Dessa forma, após a análise dos textos, destacam-se as atividades de promoção à saúde, como os grupos e ações de educação em saúde juntos à comunidade, os quais permitem a troca de saberes entre os profissionais e os usuários. Em relação aos obstáculos, nota-se a resistência de profissionais formados segundo o modelo biomédico e de gestores com práticas verticais e burocratizadas, que ainda reverberam o processo de trabalho. No entanto, verifica-se a transformação na assistência, por meio de ampliação na visão dos profissionais que começam a contemplar o paciente de forma integral, como resultados da inserção da EIP na RMSF.

O processo de desenvolvimento da RMSF no SUS e a promoção da EIP no cotidiano da APS é paulatino e deve ser consolidado com as próximas gerações de profissionais formados por e para este sistema. O SUS, como maior campo de prática em saúde do país, oferece um ambiente privilegiado para a formação interprofissional, pois proporciona experiências diversificadas, estimula o trabalho em equipe e fortalece a integralidade do cuidado. A expectativa é que os achados deste estudo permitam avançar com discussões para um modelo de ensino e cuidado verdadeiramente colaborativo, contribuindo para a qualificação dos profissionais e para a efetivação dos princípios do SUS tendo como apoio o processo formativo na RMSF.

Como limitação deste estudo, destaca-se a escassez de textos que atendiam aos critérios de seleção, tendo em vista a dimensão da temática abordada, sendo este também, um dificultador para a realização da pesquisa. Como contribuições, considera-se que a discussão levantada a partir da identificação das atividades que os residentes realizam em conjunto com os demais profissionais lotados nos campos de prática, e que surgem como fatores que promovem a EIP nas RMSF na APS pode potencializar o desenvolvimento da EIP neste e em outros contextos. Observa-se também, que a pesquisa mapeou as dificuldades encontradas para efetivação da EIP na APS, como a atuação da gestão e o estigma dos modelos formação uniprofissionais, médico/centrados ainda presentes no país, barreiras essas que precisam ser superadas para que a formação dos novos profissionais de saúde de fato os prepare para as necessidades do sistema.

CONCLUSÃO

O presente estudo ressalta que o desenvolvimento da Educação Interprofissional na Residência Multiprofissional em Saúde da Família é favorecido por meio das atividades realizadas em conjunto entre os residentes e os demais profissionais do serviço no cotidiano da equipe multiprofissional. A exemplo de fatores dificultadores, foram evidenciados a existência de uma cultura hospitalocêntrica médico-centrada e a gestão, além, do processo de trabalho atual estabelecido. Como resultados da Educação Interprofissional nas Residências Multiprofissionais em Saúde da Família, observou-se a melhora da assistência prestada por meio de uma visão integral do paciente, a ampliação do conhecimento dos profissionais e a troca de saberes propiciada por meio da realização dos grupos.

Embora, desde 2010, a Educação Interprofissional venha ganhando destaque nas discussões sobre os avanços na melhoria da assistência prestada ao paciente, esta revisão revelou uma produção ainda incipiente, concentrada em estudos realizados predominantemente nas regiões Sul e Sudeste a partir de 2018. A Residência Multiprofissional de Saúde da Família, enquanto promotora de Educação Permanente em Saúde, favorece a mudança para o modelo de atenção vigente no país, capacitando os profissionais para atuarem de acordo com os princípios e diretrizes da Atenção Primária à Saúde, com vistas a uma assistência colaborativa, mais assertiva às necessidades dos usuários e consequentemente, colaborando para um Sistema Único de Saúde mais fortalecido como política pública. No entanto, ainda existe uma necessidade de maiores estudos sobre a temática e investimentos na disseminação desses conhecimentos por meio de ações de Educação Permanente em Saúde, considerando a existência de profissionais atuantes nos campos de prática com formação uniprofissional e o engessamento das práticas gerenciais dificultam a implementação da Educação Interprofissional nas Residências Multiprofissionais em Saúde da Família.

Os achados desta revisão indicam que a Educação Interprofissional, ao ser incorporada nas Residências Multiprofissionais em Saúde da Família, potencializa práticas colaborativas, amplia a integralidade do cuidado e ressignifica os processos de formação e trabalho. Sua efetivação, no entanto, é desafiada por estruturas ainda centradas em modelos hierárquicos e por práticas gerenciais pouco flexíveis. A análise revela que a Educação Permanente em Saúde desempenha papel estratégico nesse cenário, ao promover a articulação entre formação, serviço e gestão, impulsionando a transformação dos modos de cuidar e fortalecer o Sistema Único de Saúde como política pública. Ainda assim, a produção científica sobre o tema é incipiente e regionalmente concentrada, o que reforça a necessidade de maior investimento em pesquisa, formação docente e institucionalização da Educação Interprofissional como política permanente.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    25 Ago 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    02 Set 2024
  • Aceito
    22 Maio 2025
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