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Revista Brasileira de Enfermagem

Print version ISSN 0034-7167On-line version ISSN 1984-0446

Rev. bras. enferm. vol.60 no.2 Brasília Mar./Apr. 2007

https://doi.org/10.1590/S0034-71672007000200017 

REVISÃO

 

A tutoria acadêmica no contexto histórico da educação

 

Academic tutoring in the historic context of education

 

La tutoria académica en el contexto histórico de la educación

 

 

Lorena Teresinha Consalter GeibI; Mônica KrahlII; Denise Sain PolettoIII; Carolina Barbosa SilvaIV

IDoutora em Medicina e Ciências da Saúde. Pesquisadora do grupo EDUCARE. Professora Titular do Curso de Enfermagem da Universidade de Passo Fundo, RS
IIMestre em Enfermagem. Pesquisadora do grupo EDUCARE. Professora Titular do Curso de Enfermagem da Universidade de Passo Fundo, RS
IIIMestre em Enfermagem. Pesquisadora do grupo EDUCARE. Professora Titular do Curso de Enfermagem da Universidade de Passo Fundo, RS
IVBolsista do grupo EDUCARE. Acadêmica do Curso de Enfermagem da Universidade de Passo Fundo, RS

 

 


RESUMO

Trata-se de artigo de revisão com o objetivo de orientar a construção de um modelo tutorial para cursos de graduação. Dessa forma, busca resgatar a evolução histórica das tutorias na educação desde a Antigüidade até a atualidade, inserindo-as em diferentes modelos de universidade. A tutoria, concebida como responsabilidade do mestre pelo aluno até torná-lo independente e capaz de ensinar outros alunos, surgiu junto com a universidade e, no transcurso dos séculos, foi valorizada como qualificadora do processo pedagógico. Na perspectiva atual, considera-se que a tutoria aglutina a formação humanística (cuidativa) e a técnico-científica (educativa) numa dimensão hermenêutico-emancipatória, compatível com a Pedagogia do Cuidado, orientadora de um modelo tutorial em construção.

Descritores: Educação em enfermagem; Educação superior; Tutoria.


ABSTRACT

It deals with a revision article aiming at guiding the building of a tutorial model for undergraduate courses. Thus, it seeks to ransom the historic evolution of tutoring since ancient times until nowadays, inserting itself into different models of the university. Tutoring, conceived as the responsibility of the teacher for the student until he/she is made independent and able to teach other students, has risen at the university and, along the centuries, has been valued as a qualifier of the pedagogical process. In the present perspective, one considers that tutoring also joins the humanistic (caring) shaping and technical-scientific (educational) shaping in a hermeneutic-emancipating dimension, which is compatible with the Care Pedagogy that guides the tutorial world under construction.

Descriptors: Education, nursing; Education, higher; Preceptorship.


RESUMEN

Se trata de artículo de revisión con el objetivo de orientar la construcción de un modelo tutorial para los cursos de grado. Así, se busca rescatar la evolución histórica de las tutorías en la educación desde la Antigüedad hasta la actualidad, insertándolas en diferentes modelos de universidad. La tutoría, concebida como responsabilidad del maestro frente al alumno hasta tornarlo independiente y capaz de enseñar a otros alumnos, surgió con la universidad y en el transcurso de los siglos fue valorada como calificadora del proceso pedagógico. En la actual perspectiva, se considera que la tutoría aglutina la formación humanística (cuidativa) y la técnico-científica (educativa) en una dimensión hermenéutico-emancipatoria, compatible con la Pedagogía del Cuidado, orientadora de un modelo tutorial en construcción.

Descriptores: Educación en enfermería; Educación superior; Tutoría.


 

 

1. INTRODUÇÃO

As Diretrizes Curriculares, ao sinalizarem com a possibilidade de flexibilizar e inovar os projetos político-pedagógicos, desafiaram os docentes vinculados ao Grupo de Pesquisa em Educação em Enfermagem e Saúde da Universidade Federal de Santa Catarina e ao Grupo Educare da Universidade de Passo Fundo (RS) a pensarem novas proposições e metodologias de ensino, que pudessem nortear a formação de profissionais para o século XXI. Foi nessa perspectiva que surgiu a Pedagogia do Cuidado(1) como concepção teórica sustentada pelo conceito educare e seu sentido na origem latina (educere =educação), mas que inclui outra genealogia (education and care), emergida da complementaridade da díade básica educação e cuidado.

A Pedagogia do Cuidado nos remete a um modelo de busca de possibilidades para o futuro através de uma prática pedagógica orientada para o processo de humanização e de construção de soluções solidárias.

Para a operacionalização da Pedagogia do Cuidado, idealizou-se um modelo chamado Programa Tutorial(2), constituído pelas duas dimensões do educare: a) a dimensão educativa - caracterizada por oferecer ao aluno programas de suporte pedagógico que o auxiliem a melhorar seu desempenho acadêmico, oportunizando reforço, treinamento e desenvolvimento da capacidade de estudar e aprender com maior eficácia; instrumentalizar-se em técnicas e procedimentos; desenvolver a capacidade de comunicar-se de forma oral ou escrita e, também, de participar dos movimentos sociais ao nível estudantil, das associações profissionais e da comunidade em geral; b) dimensão cuidativa: - procura cuidar do aluno, promovendo a ampliação de suas competências para viver, estudar e trabalhar de forma mais saudável.

A figura do tutor ocupa uma posição central no Programa Tutorial, uma vez que ele estabelece o elo de ligação entre o aluno e a estrutura acadêmica, mediando a interposição das dimensões educativa e cuidativa. Para melhor caracterizá-lo, realizamos um resgate histórico da tutoria no contexto da educação informal e formal com a intenção de implantar e avaliar o modelo tutorial idealizado a partir do diagnóstico e expectativas de docentes e discentes de um curso de graduação em enfermagem. Este artigo situa a tutoria na educação em geral, desde a Antigüidade até os dias atuais, com ênfase no ensino superior.

 

2. A TUTORIA NA ANTIGÜIDADE: INDIVIDUALIZADA, IMITATIVA E SERVIL

Na Antigüidade, a educação assumia, para os povos primitivos, um caráter "estacionário e imitativo"(3), em que a transmissão da herança cultural se realizava pelos xamãs, curandeiros ou feiticeiros, considerados os "educadores". Ao mesmo tempo, esses "professores" auxiliavam o aprendiz na interpretação da vida.

A transição da sociedade tribal primitiva para os estágios da civilização ocorreu com a formação de uma linguagem escrita, a partir da qual se estabeleceu o ensino formal ministrado pelo sacerdócio, que constituía uma classe especial de professores.

Na civilização grega, o nascimento das Polis, espaços onde se debatem os problemas de interesse comum, deu aos gregos "um grau de consciência de si mesmos, que não ocorrera antes em lugar algum"(4), e forma uma concepção de cultura e do lugar do indivíduo na sociedade, oportunizando o desenvolvimento individual do aprendiz. O ensino era ministrado pelos tutores, escolhidos pelos critérios da estima mútua, afetividade e amizade. Os tutores eram responsáveis pela educação sobre honra, justiça, patriotismo, espírito de sacrifício, autodomínio e honestidade(5).

A educação romana contribuiu com uma postura pragmática, orientada pelo critério da utilidade e da eficácia. Preocupada com a formação do caráter moral, a educação era de responsabilidade da família e, secundariamente, da escola, que funcionava em casas particulares, ruas, praças ou edificações públicas, com um ensino considerado lúdico quando comparado à educação recebida no lar.

Manacorda(6), ao discorrer sobre as origens do educador romano, diz que "provavelmente a evolução histórica foi do escravo pedagogo e mestre na própria família ao escravo mestre das crianças de várias familie [preceptor/tutor], ao escravo libertus que ensina na sua própria escola"(6:78). [grifos no original]. Geralmente, esses mestres provinham da Grécia, transmitindo sua cultura aos romanos de forma servil.

 

3. A TUTORIA MEDIEVAL: NA GÊNESE DA UNIVERSIDADE

Na Idade Média, a educação era concebida como instrumento para a salvação da alma e obtenção da vida eterna, numa visão pedagógica fundamentada no teocentrismo. Surgiram as escolas monacais (escolas junto aos mosteiros) para ensinar o clero e a nobreza a interpretar os textos sagrados, preservar os princípios religiosos, combater a heresia e converter os infiéis(4). A educação era concebida como preparação para o futuro (outra vida).

No século XI, surgiu o feudalismo, no qual a condição dos homens era determinada pela sua relação com a terra: proprietários ou servos. Apareceram as escolas seculares, de ensino não religioso, para suprir as necessidades da nova classe social em aprender a ler, escrever e calcular.

Por volta do século XII, instalaram-se as pequenas escolas nas cidades mais importantes, com professores leigos, nomeados pela autoridade municipal. O ensino era voltado para a prática cotidiana, com a inclusão de noções de história, geografia e ciências naturais(4).

Aos poucos foram surgindo e multiplicando-se o que se poderia chamar hoje de "escolas particulares", nas quais "os mestres instalavam-se por conta própria e, contando apenas com sua reputação, ensinavam aqueles que aceitassem pagar para matricular-se em suas escolas"(7). A reação da Igreja a esse movimento, que ameaçava o seu monopólio em matéria escolar, foi a instituição da licentia docenti, ou seja, uma autorização de ensino outorgada em cada diocese pela autoridade episcopal a toda pessoa reconhecidamente capaz de ensinar.

O ensino superior foi desenvolvido nessas escolas livres sob a única responsabilidade do mestre, que firmava contrato com seus ouvintes.

No início do século XIII surgiram as universidades, organizadas inicialmente em corporações de professores e estudantes, denominadas de univesitas, "termo que podia ser usado por qualquer espécie de associação legal"(8). Por volta de 1190 os estudantes começaram a se reagrupar conforme sua procedência geográfica, constituindo as "nações", culminando com o estabelecimento do studio generalia locais de aprendizagem (escolas livres), aos quais os estudantes de várias localidades eram atraídos pela fama do professor (8). O termo servia para designar aquelas instituições que possuíam as quatro faculdades: artes, teologia, decretos (direito canônico, direito romano e direito civil) e medicina. O caráter de studio generalia ou, posteriormente, de universidade era conferido formalmente pelo reconhecimento oficial do papa, por meio de uma bula(9).

No sul da Itália, no ano de 1224, constituiu-se a primeira universidade a Universidade de Nápoles que conferia aos mestres e estudantes os privilégios do clero ( isentando-o do serviço oficial, do serviço militar, de impostos contribuições) e a colação de grau, ou seja, a licença para ensinar, antes só conferida pela Igreja. Para obter o grau o aluno era obrigado, ao entrar na universidade, a ficar sob a responsabilidade de um mestre até dominar certas habilidades, como a leitura de textos, a definição de palavras, o significado de frases e outras. Quando adquiria esse domínio, ensinava, sob supervisão docente, a alunos mais jovens. Vê-se, assim, que o papel de tutor e monitor está presente na origem da universidade (3).

O espírito corporativo vigente nessa época permitiu que a comunidade acadêmica estabelecesse seu próprio estatuto, suas normas de funcionamento. Essa autonomia favoreceu a emergência de sistemas pedagógicos e institucionais bastante distintos, como os de Bolonha e Paris. Bolonha foi caracterizada como a universidade de estudantes em virtude de ser deles a iniciativa de se organizar em "nações". Nessa instituição, cada "nação" escolhia o seu reitor, com as atribuições de: 1) chefiar a corporação estudantil; 2) defender os seus interesses perante o poder civil; 3) organizar o ensino, contratando os professores e exigindo-lhes a prestação de serviços. Os poderes conferidos inicialmente aos estudantes, que se impuseram aos mestres, gradativamente foram compartilhados entre os professores e o reitor-estudante, estabelecendo-se um equilíbrio de poder(9).

Em Paris, a instituição tornou-se conhecida como a universidade dos mestres, pois era dominada pelos professores, os quais haviam constituído sua própria organização o Colégio de Doutores(10). Caracterizada como uma universidade para o ensino da teologia, também era organizada em nações. Cada nação elegia seu reitor, mas desde 1245 havia um só reitor, geralmente um mestre, para as quatro nações.

Os graus conferidos pela universidade medieval foram: a) licentia ubique docenti licença de ensinar em toda a cristandade, precursora da licenciatura. Para a sua concessão eram examinadas "a vida, os hábitos e a ciência do candidato"(7); b) bacharelado grau obtido após cinco a sete anos de estudos na mesma classe, com permissão para a participação ativa nas disputatio (disputas públicas organizadas entre os estudantes, presididas por um mestre), leituras extraordinárias, candidatura à licença e ao doutorado após quatro ou cinco anos de exercício; c) doutorado acessível aos licenciados. O doutorado Introduzia no Colégio de Doutores, permitindo ensinar.

Os estudantes limitavam-se a reproduzir um saber cristalizado, o que contribuía para a homogeneidade das instituições, que seria rompida no século XVI, quando os processos de regionalização e nacionalização fizeram com que as instituições de ensino perdessem progressivamente sua autonomia, ficando sob o controle dos poderes políticos.

 

4. TUTORIA NA UNIVERSIDADE MODERNA: FORTALECIMENTO

Com a queda de prestígio, as universidades, nos séculos XVI a XVIII, caracterizavam-se por: 1) perda do monopólio pela migração de estudantes para os colégios, onde o internato, o sistema de biblioteca, a repetição de exercício, o sistema de tutorias e o teatro eram fortes atrativos e onde se iniciava a individualidade no processo ensino-aprendizagem. É onde se situa o germe da tutoria tal qual a concebemos hoje; 2) movimento da Reforma e da Contra-Reforma, que impulsionaram católicos e protestantes a disseminarem instituições com o propósito de difundir as novas verdades ou defender as tradicionais; 3) torpor acadêmico, no qual a sobrevivência do modelo medieval, com o mesmo modelo de ensino e de administração, contribuiu para a estagnação institucional, o descrédito social e o aumento da concorrência dos colégios; 4) a perda da qualidade, motivada pela redução na duração dos cursos, as facilidades de aprovação e fraudes nos exames, o desrespeito aos estatutos e o absenteísmo de professores e alunos nas aulas e disputas, que levaram ao questionamento sobre a significação social dos estudos e dos graus e ao esvaziamento da universidade. Nesse cenário, cresceram em importância as formações obtidas fora dela, especialmente nos colégios, onde seis ou oito anos de estudos sob a direção de regentes profissionais ou de tutores escolhidos entre os fellows (graduados alojados nos colégios) eram suficientes para a aquisição de uma sólida cultura clássica(7); 5) a emergência do pluralismo, a partir das novas verdades que invadiram a universidade com as descobertas de Copérnico, Galileu, Newton e Bacon e que quebraram sua homogeneidade, tornando-a pluralista e heterogênea.

 

5. TUTORIA NA UNIVERSIDADE PÓS-INDUSTRIAL: O ENFRAQUECIMENTO

No século XIX a evolução da universidade sofreu o impacto da Revolução Francesa e da Revolução Industrial. Em 1806, Napoleão criou a chamada "Universidade Imperial", com as seguintes características: 1) monopólio do Estado - com corpo docente encarregado exclusivamente do ensino secundário e superior monopolizado pelo Estado, com o objetivo de formar os recursos humanos capacitados a ocuparem os empregos civis e militares; 2) laicização a universidade imperial obedecia a um único mestre e era regida por uma rigorosa disciplina. O corpo docente jura obediência aos estatutos e regulamentos, o que assegurava um comportamento uniforme de pessoas a serviço do imperador; 3) criação das faculdades - foi prevista a criação das faculdades tradicionais: direito, medicina, teologia, ciências e letras; 4) a carreira pelo diploma como requisitos para o exercício profissional, a colação de grau e o diploma foram muito valorizados por permitir o acesso aos altos postos na hierarquia civil e militar(9).

Um acontecimento marcante do século XIX foi a abertura da universidade às mulheres. Rompeu-se o caráter da universidade como instituição para o clero e, portanto, masculina, embora continuasse aristocrática e elitista. Outro acontecimento importante foi a extraordinária expansão da universidade para os cinco continentes. Essa expansão favoreceu o surgimento de novos modelos. Rompeu-se a uniformidade medieval e instalou-se a pluralidade de organização, forma e conteúdo, especialmente a partir das reformas ocorridas na França, Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos(9).

No século XX, surgiu na França o modelo de universidade popular apoiada nos princípios da educação mútua e da acessibilidade à classe operária. A educação mútua era entendida como a ausência de mestre, patrão ou chefe. As atividades eram recreativas (bailes, festas populares, teatros) e intelectuais (cursos, bibliotecas) com valorização da cultura popular, da educação operária e da educação de adultos.

A partir da segunda metade do século XX, registra-se notável expansão da universidade tanto em países desenvolvidos quanto nos em desenvolvimento. Portanto, a universidade tornou-se universal, atingindo praticamente todos os países e consolidando alguns modelos: o francês, o inglês, o norte-americano e o alemão.

 

6. A TUTORIA NOS DIFERENTES MODELOS DE UNIVERSIDADE

Modelo Francês

O modelo francês orientou-se pela concepção napoleônica de universidade a serviço do Estado. Com administração centralizada e submissão total aos interesses estatais, a universidade francesa formava os profissionais de que o Estado necessitava, com hierarquias sociais e intelectuais evidenciadas nos custos e duração dos estudos. A valorização das profissões liberais em detrimento da má remuneração do magistério atingia também os docentes do ensino superior, obrigando-os a buscarem rendimentos complementares e múltiplas funções (docentes, administrativas).

A centralização e ausência de autonomia, de ritos de juramento dos professores de fidelidade absoluta aos interesses do Estado, lógica liberal e de desigualdade, investimentos mínimos em bibliotecas, laboratórios e pessoal, a preocupação parecia mais voltada a garantir a tirania estatal e o monopólio do diploma obtido em programas uniformes do que em fornecer uma formação humanizada e qualificada por meio de programas tutoriais. A opressão e a submissão de docentes e discentes contrapunham-se às iniciativas libertadoras, estas só existentes nas sociedades secretas, onde os estudantes se iniciavam nos combates ideológicos(7).

Modelo Inglês

O modelo inglês caracteriza-se por instituições de formação moral e preparação profissional. É educativo por excelência. Essa educação universal se apóia nos princípios da liberdade, eqüidade, ponderação, moderação e sabedoria(11). Coerente com esses princípios, mantém internatos e tutorias nas universidades com o propósito de formar o gentleman, possuidor de inteligência cultivada, gosto refinado, espírito leal, justo e severo, conduta nobre e cortez, acompanhadas por um vasto saber(11).

Científica e humanista, a universidade inglesa não prescinde da tutoria na formação da personalidade, base de sustentação da educação universal adotada neste modelo.

Modelo Norte-Americano

De inspiração inglesa, a universidade norte-americana, na sua fase inicial, incorporou o sistema de internato, o ensino geral literário e religioso e o tutorado, por meio do qual garantia a formação moral, considerada tão importante quanto a intelectual. Aos poucos, no entanto, foi adquirindo características próprias de integração com as empresas(7).

A democratização do ensino superior contribuiu para a sua rápida expansão, havendo uma multiplicidade e diversidade de instituições, predominando as formações pragmáticas, responsáveis pelo alto grau de desenvolvimento tecnológico e de interação empresa-universidade. A preocupação com a liberdade e a educação moral foi esmaecendo, assim como a função tutorial.

Modelo Alemão

O modelo alemão foi orientado por correntes filosóficas defensoras da busca da verdade como direito da humanidade. O ensino seria decorrência da pesquisa e deveria "estimular a reflexão pessoal, pois professor e aluno trabalham juntos, como iguais, livres e responsáveis"(9). A tutoria torna-se um processo mediador na formação acadêmica, pois o estudante assume a responsabilidade por si próprio, enquanto o professor o faz participar pela sua liberdade da criação intelectual.

Esse processo aproxima-se da nossa concepção de modelo tutorial por favorecer a emancipação pessoal e acadêmica, na qual o aluno universitário obtém a sua formação humanística (dimensão cuidativa) e técnico-científica (dimensão educativa) num clima de igualdade, liberdade e responsabilidade.

 

7. A TUTORIA NA ATUALIDADE

A experiência tutorial atual em alguns cursos universitários brasileiros tem evidenciado, em seus contextos educacionais, modalidades educativas que buscam facilitar e qualificar efetivamente a aprendizagem dos alunos, dentro das demandas de conhecimento do mundo globalizado, muito embora de forma diversificada.

Para o Centro de Desenvolvimento da Educação Médica da Universidade de São Paulo, tutorar significa cuidar, proteger, amparar, defender e assisti, tendo a atividade tutorial, no âmbito da educação, o sentido de acompanhamento próximo, orientação sistemática de grupos de alunos, realizada por pessoas experientes na área de formação(12).

O tutor, segundo esse entendimento, é um importante exemplo, no qual o aluno busca se identificar relativamente a conhecimentos, habilidades e atitudes. Deve ter senso de coesão grupal e apresentar atributos pessoais que contemplem paciência e tolerância, senso ético, autenticidade, comunicação efetiva; que saiba conter suas emoções bem como as do grupo e que goste e acredite nos benefícios das atividades grupais (12). O processo tutorial é presencial, consistindo de um recurso psicopedagógico para a formação do profissional, envolvido e comprometido com competências técnicas e relacionais para o exercício da profissão.

O crescente ingresso de estudantes na universidade, os avanços tecnológicos, as dificuldades de adaptação dos alunos aos horários, as relações interpessoais, a estrutura universitária, a distância física dos campi, entre outros, têm despertado nos meios acadêmicos a necessidade de ampliar as formas convencionais de trabalhar a educação(13).

A proposta de tutoria da Associação Brasileira de Ensino a Distância surge na modalidade de educação a distância, que objetiva ampliar a visão do aluno para o processo de construção de seu conhecimento. Esse espaço acadêmico, com recursos virtuais de comunicação, possibilita interatividade através de orientações, discussões e indicações de fontes bibliográficas entre o professor tutor e os alunos, sendo essencial ao tutor que esteja plenamente consciente do seu papel, domine o conteúdo a ser trabalhado e, essencialmente, saiba "para quê" e o "significado do proposto"(13).

O tutor, nessa modalidade educativa, significa professor e educador, ampliando o entendimento de proteção, defesa, amparo, direção ou, mesmo, tutela de alguém, devendo desenvolver capacidades, valores, atitudes, disposição e estratégias motivacionais de apoio à autonomia de seus alunos, possibilitando o encontro da subjetividade ética para a tomada de decisão.

 

8. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao longo dos séculos, o tutor assumiu papéis e valorização diferenciados. No período que antecedeu o ensino superior, a tutoria era exercida nas comunidades tribais com a finalidade de ensinar as estratégias de sobrevivência e as práticas culturais e religiosas. Nos primórdios da civilização, o tutor assumia a formação moral do aprendiz.

A tutoria, concebida como a responsabilidade do mestre pelo aluno até torná-lo independente e capaz de ensinar outros alunos, surgiu junto com a universidade. O seu enfraquecimento na idade moderna determinou a migração dos alunos para os colégios, onde o sistema tutorial persiste. A tutoria, no transcurso dos séculos, é valorizada como qualificadora do processo pedagógico. Essa valorização, contudo, foi menor a partir da Revolução Industrial, quando se rompeu a uniformidade presente na universidade medieval. As instituições de ensino superior passaram a adotar modelos diferenciados. A tutoria, então, ausente no modelo francês e em processo de esvaziamento no modelo norte-americano, encontrou expressividade e prestígio nas universidades inglesa e alemã. Nesta última, aglutina a formação humanística (cuidativa) e a técnico-científica (educativa) numa dimensão hermenêutico-emancipatória, compatível com a proposição da Pedagogia do Cuidado, orientadora do modelo tutorial em construção.

 

REFERÊNCIAS

1. Geib L. Educare: a Pedagogia do Cuidado. Passo Fundo (RS): Ediupf; 2000.         [ Links ]

2. Saupe R, Geib LTC. Programas tutoriais para os cursos de enfermagem. Rev Latino-am Enfermagem 2002;10(5):721-6.         [ Links ]

3. Monroe P. História da educação. São Paulo (SP): Nacional; 1983.         [ Links ]

4. Aranha MLA. História da educação. São Paulo (SP): Moderna; 1989.         [ Links ]

5. Monroe P. História da Educação. 6ª ed. São Paulo (SP): Editora Nacional; 1958.         [ Links ]

6. Manacorda MA. História da educação: da antiguidade aos nossos dias. São Paulo (SP): Cortez; 2000.         [ Links ]

7. Charle C, Verger J. História das Universidades. São Paulo (SP): Ed. da Universidade Estadual Paulista; 1996.         [ Links ]

8. Minogue K. O conceito de universidade. Brasília (DF): Ed. Universidade de Brasília; 1981.         [ Links ]

9. Rossato R. Universidade: nove séculos de história. Passo Fundo (RS): Ediupf; 1998.         [ Links ]

10. Verger J. Histoire des universités em France. Paris (FRA): Bibliotheque Historique Privat; 1986.         [ Links ]

11. Newman JH. The idea of university. New York (NY): Image Book; 1959.         [ Links ]

12. Bellodi PL. Projeto Docentes Tutores Acadêmicos e seus padrinhos. (citado em: 23 set 2004). Disponível em: URL: http://medicina.ufg.br/tutores.html

13. Emerenciano MS, Souza CAL, Freitas LG. Ser presença como educador, professor e tutor. (citado em: 23 set 2004). Disponível em: URL: http://www.abed.org.br/publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?UserActiveTemplate=4abed&infoid=124&sid=120

 

 

Submissão: 18/08/2006
Aprovação: 15/12/2006

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