SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.67 issue3Nursing contribution in health decision makingERRATA author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Revista Brasileira de Enfermagem

Print version ISSN 0034-7167

Rev. bras. enferm. vol.67 no.3 Brasília MayJune 2014

https://doi.org/10.5935/0034-7167.20140063 

RELATO DE EXPERIÊNCIA

Modos de condução da entrevista em pesquisa fenomenológica: relato de experiência

Driving modes of the interview in phenomenological research: experience report

Modos de conducción de la entrevista en la investigación fenomenológica: relato de experiencia

Cristiane Cardoso de PaulaI 

Stela Maris de Mello PadoinI 

Marlene Gomes TerraI 

Ívis Emília de Oliveira SouzaII 

Ivone Evangelista CabralII 

IUniversidade Federal de Santa Maria, Departamento de Enfermagem. Santa Maria-RS, Brasil.

IIUniversidade Federal do Rio de Janeiro, Escola de Enfermagem Anna Nery, Departamento de Enfermagem Materno-Infantil. Rio de Janeiro-RJ, Brasil.


RESUMO

O objetivo deste artigo é relatar a experiência dos modos de condução da entrevista na produção de dados em pesquisa fenomenológica. O estudo proposto trata de um relato de experiência de uma investigação fenomenológica na qual as pesquisadoras apresentam sua experiência com crianças, tendo como suporte a entrevista como encontro existencial. Para tanto, descrevem-se os modos de condução da entrevista em suas dimensões ôntica e ontológica. A ôntica se refere aos fatos relacionados à entrevista, presentes no pesquisador, no sujeito pesquisado e no ambiente, tanto no seu planejamento quanto no seu desenvolvimento. A ontológica é fundada na empatia e intersubjetividade. A entrevista possibilita o acesso a estruturas significantes para a compreensão do ser, de modo a construir possibilidades investigativas / assistenciais que permitam desvelar o ser do humano.

Palavras-Chave: Entrevista; Coleta de Dados; Pesquisa Qualitativa

ABSTRACT

This paper aimed to report the experience of driving modes of an interview on data production in phenomenological research. The proposed study is an experience report of a phenomenological investigation in which the researchers present their experience with children, considering the interview as an existential encounter. It describes ways of conducting the interview in its ontic and ontological dimensions. The ontic dimension refers to the facts related to the interview, presented in the researcher, in the researched subject and in the environment; both in its planning and its development. The ontological dimension is based on empathy and intersubjectivity. The interview enables the access to meaningful structures to comprehend the being, as a way of building investigative/assistance possibilities that enable to reveal the being of the human.

Key words: Interview; Data Collection; Qualitative Research

RESUMEN

El objetivo del presente artículo es informar la experiencia de los modos de conducción de la entrevista en la producción de datos en investigación fenomenológica. El estudio propuesto es un relato de experiencia de una investigación fenomenológica en que las investigadoras presentan su experiencia con los niños, apoyada por la entrevista como encuentro existencial. Describe los modos de conducción de la entrevista en sus dimensiones óntica y ontológica. La óntica se refiere a los hechos relacionados a la entrevista, presente en el investigador, en el sujeto investigado y en el ambiente, tanto en su planeamiento cuanto en su desarrollo. La dimensión ontológica se basa en la empatía y la intersubjetividad. La entrevista posibilita el acceso a estructuras significantes para la comprensión del ser, de modo a construir posibilidades investigador/asistenciales que permiten desvelar el ser del humano.

Palabras-clave: Entrevista; Recolección de Datos; Investigación Cualitativa

INTRODUÇÃO

Na abordagem qualitativa de pesquisa em saúde se busca compreender o significado individual ou coletivo de um determinado fenômeno. Nos estudos da enfermagem se considera a complexidade e diversidade do ser humano, do ponto de vista de quem vivencia, assim contribui para melhor compreensão da distância entre a prática e o conhecimento. Em torno de como as pessoas significam, elas organizarão suas vidas, inclusive o cuidado com sua saúde(1-2).

A partir desta concepção para caracterizar o método qualitativo, pode-se apontar a modalidade fenomenológica. Na busca da coerência e consistência da investigação é preciso atentar para as características e delineamentos, principalmente: a construção do objeto de estudo e questões de pesquisa; as estratégias na etapa de campo e a postura do pesquisador; a escolha da técnica de produção de dados, desde a coleta, a análise e até as proposições.

A escolha da técnica de produção de dados, com vistas a apreender aspectos da subjetividade dos sujeitos da pesquisa, aponta a entrevista como uma das possibilidades. Esta pode variar, conforme sua estruturação, desde uma conversa informal até um roteiro padronizado, sendo denominadas como: estruturadas, semiestruturadas e não estruturadas(3).

Podem ser desenvolvidas nas modalidades: face a face e mediada. Na primeira, entrevistador e entrevistado se encontram um diante do outro e estão sujeitos às influências verbais e não verbais. Na segunda, a comunicação acontece por meio do telefone, ambiente virtual, questionário, entre outros. Pode ser utilizada como única técnica, como procedimento preliminar ou associada a outras. E, também, ambas podem ser desenvolvidas em grupo ou individualmente(3-5).

Dentre os tipos, tem-se a entrevista na pesquisa fenomenológica, a qual pretende acessar o vivido do ser humano por meio de um movimento de compreensão. Como modo de acesso ao ser, a entrevista fenomenológica é desenvolvida como um encontro, singularmente estabelecido entre o sujeito pesquisador e cada sujeito pesquisado(6-7).

Neste artigo tem-se como objetivo relatar a experiência da entrevista na produção de dados em pesquisa fenomenológica a qual foi utilizada na tese de doutorado com criança que tem AIDS por transmissão vertical e que está em transição da infância para a adolescência, sustentada no referencial heideggeriano. A relevância está em criar subsídios que apoiem critérios de qualidade e de validade em pesquisa qualitativa, tendo em vista que a entrevista fenomenológica pretende compreender as experiências e as vivências, convergentes com o objeto de estudo de fenômenos que permeiam a prática assistencial.

Após aprovação pelos Comitês de Ética em Pesquisa de três hospitais do Rio de Janeiro (protocolos de aprovação EEAN/UFRJ 096/06; IPPMG/UFRJ 09/07; HUGG/UNIRIO 36/07), entrevistou-se 11 meninos (as) de 12 a 14 anos, que conheciam seu diagnóstico(8-11). A aprovação pelo Comitê de Ética da(s) instituição(ões) que compõe(m) o(s) cenário(s) para produção dos dados é imprescindível, por tratar-se de pesquisa envolvendo seres humanos, conforme a Resolução brasileira nº 196/96. Para tanto, os princípios éticos da pesquisa devem ser garantidos segundo a legalidade e a moralidade dos atos científicos.

MODOS DE CONDUÇÃO DA ENTREVISTA EM UMA PESQUISA FENOMENOLÓGICA

Ao término da tese de doutorado percebeu-se a necessidade de compartilhar o saber construído na experiência de condução da entrevista na produção de dados em pesquisa fenomenológica. Esta foi a motivação da produção desse artigo. Denominamos essa técnica de entrevista fenomenológica e passamos a descrever suas dimensões ôntica e ontológica, segundo o referencial heideggeriano(12). Essas dimensões são consideradas relacionais e estão presentes nos diferentes momentos na sua condução: anterior ao encontro, no encontro face a face e posterior ao encontro.

A ôntica busca a descrição, remete aos fatos, um quê conhecido. Configura-se como algo dado, estático. Diz respeito ao fenomênico, àquilo que aparece pelos significados e é captado na entrevista. Fundamenta-se tanto no senso comum quanto no científico, sendo passível de mensuração e classificação(12). Na condução da entrevista, esta dimensão se refere aos fatos presentes no pesquisador, no sujeito pesquisado e no ambiente, contempla o planejamento e o desenvolvimento da produção de dados.

A ontológica busca a compreensão, remete ao ser, um quem desconhecido. Desenvolve-se em um horizonte amplo de possibilidades e configura-se como movimento. Está para além do fenomênico, porque expressa a interpretação do fenomenal e revela sentidos. Ou seja, para além daquilo do que aparece e evidencia aquilo que é, transpõe o comum, àquilo que nem todos veem(12). Na condução da entrevista, esta dimensão está fundada na empatia e na intersubjetividade, mediante a redução de pressupostos.

A dimensão ôntica inclui a determinação dos sujeitos da pesquisa e do cenário; aprovação pelo Comitê de Ética; aproximação e ambientação ao cenário do estudo; o acesso aos sujeitos de pesquisa; a assinatura dos Termos de Consentimento Livre e Esclarecido e de Assentimento Livre e Esclarecido, este último quando se tratar de pesquisa com crianças e adolescentes.

A determinação dos sujeitos de pesquisa acontece a partir: do conhecimento (científico) já produzido; da problematização da temática de pesquisa; e do objeto do estudo. Faz-se necessário estabelecer os critérios de inclusão e de exclusão e suas especificidades. Quanto ao número de participantes, este não é pré-determinado, visto que a etapa de campo, desenvolvida concomitante ao movimento analítico, se encerra quando os significados expressos nos depoimentos mostram suficiência de estruturas essenciais para compreender o fenômeno investigado, anunciando no alcance dos objetivos o desvelamento dos sentidos(13-14).

A escolha do(s) cenário(s) está diretamente relacionada ao problema e ao objeto de estudo, onde é possível acessar os sujeitos da pesquisa. É importante considerar o número de sujeitos que cada local oportuniza e a rotina de atendimento, e correlacionar essas questões com o cronograma previsto para o desenvolvimento dessa etapa da pesquisa.

Assim, se inaugura a etapa de campo propriamente dita, quando acontece o movimento de aproximação e de ambientação(15). A aproximação ao(s) cenário(s) objetiva que o pesquisador conheça a estrutura do cenário e a dinâmica de funcionamento e seja conhecido das pessoas, bem como apresente a proposta de pesquisa. A ambientação possibilita desenvolver um compromisso entre o pesquisador e as pessoas que compõem o(s) cenário(s) da pesquisa, estabelecendo atitudes de ajuda para seleção do local para a entrevista e acesso aos sujeitos da pesquisa. Esse movimento estende-se às entrevistas, em que o pesquisador busca perceber a singularidade, os significados do silêncio, da fala, do dito e do não dito, e respeitá-las, exercitando a escuta, para mergulhar no difícil exercício de redução dos pressupostos.

Algumas questões importantes devem ser consideradas antecipadamente: onde perguntar (destaque à necessidade de privacidade); a quem perguntar (seleção dos sujeitos da pesquisa); o que perguntar (questões orientadoras da entrevista construída a partir do objeto/objetivo da pesquisa).

A seleção do local para a realização da entrevista visa um ambiente de privacidade em que, preferencialmente, os sujeitos possam dispor-se sem nenhum objeto entre eles. Se for desenvolvida em um serviço de saúde, uma sala próxima ao local onde eles são atendidos pode ajudar a minimizar a preocupação em perder a consulta agendada.

O acesso aos sujeitos da pesquisa inclui: a seleção dos sujeitos em cada cenário da pesquisa, segundo os critérios de inclusão/exclusão previamente estabelecidos; o convite feito, individualmente ou em grupo, para os possíveis sujeitos que serão entrevistados os quais são denominados depoentes; a disponibilidade para participar da entrevista; o agendamento para o encontro.

Com o desenvolvimento da entrevista, pode ocorrer uma exposição do sujeito, pois ele, ao falar de suas vivências, pode obter a consciência daquilo que, até então, estaria velado. O atendimento às demandas decorrentes da entrevista, especialmente, as psicológicas, resultantes do (re)pensar e do expressar de vivências/sentimentos singulares à sua história pessoal, familiar e social deverão ser atendidas. Isto depende da disponibilidade e compromisso dos profissionais da(s) instituição(ões) e minimiza os riscos e potencializa os benefícios da investigação. Assim, é fundamental que o pesquisador faça um contato prévio com os profissionais, visando garantir o atendimento, quando necessário, de demandas dos sujeitos da pesquisa.

Na dimensão ontológica, a entrevista acontece no encontro face a face. Emerge com o estabelecimento da questão do outro - sujeito entrevistado -, fundada na empatia e na intersubjetividade, mediante a redução de pressupostos(6). Assim, o encontro da entrevista exige do pesquisador um posicionamento de descentrar-se de si, para direcionar-se, intencionalmente, à compreensão do sujeito da pesquisa. Esse posicionamento denomina-se atitude fenomenológica.

Nesse sentido, é preciso abertura do pesquisador para compreender a perspectiva do outro. Não há uma prescrição do que deva ser feito, pois se trata de um encontro de subjetividades.

A empatia é que possibilita esta compreensão, sem necessidade de viver o vivido do outro. É a forma de acesso que o pesquisador possui para penetrar nos objetos vividos. A compreensão acontece em um movimento, em que a entrevista se inicia pelo modo de ser impessoal, que é o mais imediato do ser no mundo. Para aproximar-se do sujeito da pesquisa, o pesquisador tem a intenção de construir uma ponte entre o próprio sujeito e o outro, de inicio inteiramente fechado, e de tal maneira desenvolver uma relação de ser-com(12).

Assim, o encontro pesquisador-sujeito da pesquisa possibilita uma vivência em que compartilham compreensões, interpretações e comunicações, na esfera da intersubjetividade. Essa implica na comunicação em copresença. Acontece na experiência da compreensão do mundo da vida, na qual a subjetividade do sujeito entrevistado está centrada numa realidade que é estranha ao pesquisador. Do movimento de confronto entre essas subjetividades emerge, então, o encontro(12).

O encontro promove uma abertura à escuta indo além do aparente para alcançar a expressão de significados. Então, a partir da análise dessa significação, determina-se: como perguntar (condução da entrevista mediada por questões empáticas a fim de evitar induzir a fala dos sujeitos da pesquisa); como encerrar a entrevista (desenvolvendo um feedback, perguntando se o sujeito da pesquisa gostaria de acrescentar algo e agradecendo sua disposição para esse encontro); e para quantos perguntar (estabelecido a partir do que se mostra nas entrevistas e responde ao objetivo).

Na experiência do encontro com as crianças, para iniciar a entrevista, a pesquisadora se apresentava e reiterava alguns aspectos descritos no Termo de Assentimento Livre e Esclarecido, como o uso do gravador, reforçando o sigilo e o anonimato. Procurava se colocar de frente para a criança, sem que nada ficasse entre eles. Posicionava o gravador ao lado, em uma distância que assegurasse a qualidade da gravação e que, se possível, não interferisse na relação.

A entrevista iniciava com a questão orientadora: "como está sendo, para você, virar adolescente?" A outra questão - "Como é o seu dia a dia tendo AIDS?" - somente era mencionada quando o sujeito da pesquisa falava da doença, respeitando o modo como a nominava.

O diálogo se desencadeava com a elaboração de questões empáticas, que são elaboradas a partir da fala do próprio sujeito da pesquisa e emerge do exercício de escuta. Isso indica um movimento necessário e imprescindível de intencionalidade e direcionalidade(15) com foco no objeto de estudo.

Durante o encontro, o pesquisador precisa atentar aos modos de mostrar-se do sujeito entrevistado, captando o dito e o não dito, observando as outras formas de discurso(12,16): silêncio, gestos, reticências e pausas, respeitando o espaço e o tempo do outro.

Durante o desenvolvimento da entrevista pode haver intercorrências, como ruídos, movimentos do ambiente, interferências de outras pessoas, entre outros. Isso pode reduzir ou interromper a atitude relacional estabelecida entre os sujeitos, a disposição de ambos no diálogo, a abertura do sujeito pesquisado para se expressar e do pesquisador para compreender.

A condução das entrevistas, uma a uma, foi possibilitando os ajustes necessários, o que exige atenção, disponibilidade, envolvimento e esforço para alcançar a atitude fenomenológica. Tal ajuste se deu desde a escuta da primeira entrevista. Na experiência, percebeu-se que, em um dos momentos de silêncio do sujeito entrevistado, ao invés de aproveitar suas palavras ditas anteriormente para retomar o diálogo e aprofundar aquilo que era pertinente ao horizonte do objeto de estudo, a pesquisadora perguntou: "o que mais está acontecendo?". Destaca-se que a expressão "o que" restringe aquilo que pode ser dito. Repetiu-se essa situação quando o entrevistado falou a palavra "normal" e a entrevistadora resgatou o discurso dele para questionar sobre esse significado. Então, um modo de elaborar as questões empáticas, que possibilitam a abertura, poderia ser retomando algo que foi dito por ele/a e utilizando a palavra "como": "como é vir sempre aqui?".

Portanto, foi necessário que a pesquisadora se lançasse no exercício constante de retomar o objetivo do estudo e, durante o encontro fenomenológico, ficasse atenta e sensível ao que estava sendo dito pelo depoente, na elaboração das questões empáticas que possibilitaram o aprofundamento e a busca por clareza na compreensão do objeto de estudo.

Foi se descobrindo no fazer: como começar, como reduzir pressupostos, como elaborar as questões empáticas, como desenvolver a intersubjetividade e como perceber quando a entrevista terminava. Uma estratégia utilizada foi registrar palavras-chave ditas pelo próprio depoente, para que, ao buscar um aprofundamento, fosse possível retomar seu dito usando suas próprias palavras. Também para retomar o diálogo, quando a criança evidenciava um silêncio sem retomar aquilo que estava sendo expresso em seu discurso ou quando mostrava que já havia dito o que desejava sobre determinada questão.

A transcrição dos encontros foi desenvolvida pela própria pesquisadora, no intuito de resgatar a comunicação verbal e não verbal, bem como a subjetividade do outro. Foi priorizado que essa composição do discurso, expresso face a face, fosse transformada em discurso escrito o mais próximo possível de quando foi desenvolvida cada entrevista, a fim de que as lembranças não se perdessem. Por vezes, foi necessário um afastamento de tempo maior, pois este confronto de subjetividades provoca o descentramento dos sujeitos envolvidos, o que resultou em mobilização da pesquisadora.

O discurso textual foi composto da seguinte forma: cabeçalho objeto e objetivo da pesquisa, código do depoente, data e horário do encontro; as questões orientadoras e empáticas registradas em cor cinza; o que foi expresso pelo depoente registrado em cor preta; a comunicação não verbal de ambos os sujeitos colocada entre colchetes.

Após as primeiras entrevistas, desenvolveu-se uma análise preliminar com a intenção de refletir: a adequação das questões orientadoras e das questões empáticas utilizadas na entrevista, quanto à compreensão dessas questões pelos sujeitos, se possibilitavam a fluência do depoimento e se atendiam ao objeto e objetivo da pesquisa. Foi possível perceber que as questões estavam adequadas.

Essa análise buscou verificar se facetas do cotidiano e estruturas essenciais estavam sendo reveladas nos depoimentos, a fim de sustentar o enfoque da perspectiva existencial, o quadro de referência da Fenomenologia e o referencial teórico-metodológico heideggeriano.

Para a análise preliminar, foram desenvolvidas escutas e leituras atentas do primeiro depoimento. Esse (re)vivenciar o depoimento, após a entrevista, mostrou a necessidade de redução de pressupostos e pré-conceitos, impregnados da compreensão dominante de teorias tradicionais e de opiniões sobre o ser. É imprescindível que a redução fenomenológica aconteça, pois o que se pretende é a compreensão do próprio depoente, que não acontece guiada pelo conhecimento científico, mas pelos significados expressos por ele.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Por determinação teórica, a episteme produzida na investigação fenomenológica revela singularidades obscurecidas no cotidiano das pessoas. O acesso à dimensão ontológica, pertinente aos fenômenos, necessariamente considera a dimensão ôntica, referente aos fatos.

Ao considerar estas dimensões na condução da entrevista, para o estabelecimento da atitude fenomenológica compreende-se que é necessário que o pesquisador se entregue ao envolvimento subjetivo, respeitando a singularidade do ser, sua historicidade e vivências que foram compartilhadas. A disponibilidade para o tempo de cada depoente, que não é o cronológico, mas o vivido no encontro e o revivido em suas lembranças e sentimentos despertados e nos comportamentos. Na experiência relatada, foi possível apreender e exercitar a atitude fenomenológica mediada pela empatia e intersubjetividade, e se mobilizar com aquilo que foi dito e com o que foi silenciado. Nesse movimento, permitiu-se escutar, calar, sentir, falar e refletir para compreender.

Buscou-se manter o horizonte da objetividade (dimensão ôntica) exigida pela investigação fenomenológica, em específico no foco do objeto de estudo, para assegurar a produção de dados que possibilitasse a análise compreensiva dos depoimentos. A atitude fenomenológica (dimensão ontológica) é o critério de rigor que se impõe na condução da entrevista como técnica de produção de dados nesta abordagem qualitativa de pesquisa.

Portanto, a contribuição deste estudo oferece subsídios para o desenvolvimento da etapa de campo da pesquisa qualitativa, especialmente na modalidade fenomenológica. Oferece recursos teóricos (ôntico) e possibilidades (ontológico) para a produção de dados, com vistas ao rigor da pesquisa e à compreensão dos resultados, respectivamente. A compreensão do vivido do participante da pesquisa remete a reflexões das ações de cuidado dos profissionais da saúde, que poderão incidir na prática assistencial.

REFERÊNCIAS

1. Lacerda MR, Labronici LM. Papel social e paradigmas da pesquisa qualitativa de enfermagem. Rev Bras Enferm. 2011 Mar-Apr;64(2):359-64. [ Links ]

2. Cuesta Benjumea C. La investigación cualitativa y el desarrollo del conocimiento en enfermería. Texto Contexto Enferm. 2010 Oct-Dic;19(4):762-6. [ Links ]

3. Silva GRF, Macêdo KNF, Rebouças CBA, Souza AMA. Entrevista como técnica de pesquisa qualitativa. Online Braz J Nurs. 2006;5(2). [ Links ]

4. Sade C, Barros LMR, Melo JJM, Passos E. O uso da entrevista na pesquisa-intervenção participativa em saúde mental: o dispositivo GAM como entrevista coletiva. Ciênc Saúde Coletiva. 2013;18(10):2813-24. [ Links ]

5. Belei RA, Gimeniz-Paschoal SR, Nascimento EM, Matsumoto PHVR. O uso de entrevista, observação e videogravação em pesquisa qualitativa. Cad Educação. 2008;30(1):187-99. [ Links ]

6. Carvalho AS. Metodologia da entrevista: uma abordagem fenomenológica. Rio de Janeiro: Agir; 1987. [ Links ]

7. Moreira RCR, Lopes RLM, Santos NA. Entrevista fenomenológica: peculiaridades para la producción científica en enfermería. Index Enferm. 2013;22(1-2):107-10. [ Links ]

8. Paula CC, Cabral IE, Souza IEO. O cotidiano de crianças infectadas pelo HIV no adolescer: compromissos e possibilidades do cuidado de si. DST J Bras Doenças Sex Transm. 2008;20(3):174-8. [ Links ]

9. Paula CC, Cabral IE, Souza IEO. O cotidiano do ser-adolescendo com aids: movimento ou momento existencial?. Esc Anna Nery Rev Enferm. 2009 Jul-Set;13(3):632-9. [ Links ]

10. Paula CC, Cabral IE, Souza IEO. O (não)dito da aids no cotidiano de transição da infância para adolescência. Rev Bras Enferm. 2011 Jul-Ago;64(4):658-64. [ Links ]

11. Paula CC, Cabral IE, Souza IEO. Existential movement experienced by adolescents with acquired immunodeficiency syndrome: a phenomenological study. Online Braz J Nurs. 2013;12(1):33-48. [ Links ]

12. Heidegger M. Ser e tempo. Petrópolis: Vozes; 2011. [ Links ]

13. Boemer MR. A condução de estudos segundo a metodologia de investigação fenomenológica. Rev Latinoam Enferm. 1994;2(1):83-94. [ Links ]

14. Paula CC, Cabral IE, Souza IEO, Padoin SMM. Movimento analítico-hermenêutico heideggeriano: possibilidade metodológica para a pesquisa em enfermagem. Acta Paul Enferm. 2012;25(6):984-9. [ Links ]

15. Simões SMF, Souza IEO. Um caminhar na aproximação da entrevista fenomenológica. Rev Latinoam Enferm. 1997 Jul;5(3):13-7. [ Links ]

16. Neves EP, Souza IEO. Pesquisa em enfermagem: buscando resgatar a posição do sujeito que a desenvolve. Texto Contexto Enferm. 2003 Jul-Set;12(3):387-93. [ Links ]

Recebido: 09 de Outubro de 2012; Aceito: 17 de Fevereiro de 2014

AUTOR CORRESPONDENTE: Cristiane Cardoso de Paula. E-mail: cris_depaula1@hotmail.com

Creative Commons License This is an Open Access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution Non-Commercial License which permits unrestricted non-commercial use, distribution, and reproduction in any medium, provided the original work is properly cited.