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Revista Brasileira de Enfermagem

Print version ISSN 0034-7167On-line version ISSN 1984-0446

Rev. Bras. Enferm. vol.69 no.6 Brasília Nov./Dec. 2016

https://doi.org/10.1590/0034-7167-2016-0277 

RELATO DE EXPERIÊNCIA

Casos de papel e role play: estratégias de aprendizagem em enfermagem

Los ejercicios de modelado y de role play: estrategias de aprendizaje en enfermería

Ana Luísa Petersen CogoI 

Daiane Dal PaiI 

Graziella Badin AlitiII 

Heloísa Karnas HoefelII 

Karina de Oliveira AzzolinI 

Lurdes BusinII 

Margarita Ana Rubin UnicovskyII 

Maria Henriqueta Luce KruseI 

IUniversidade Federal do Rio Grande do Sul, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem. Porto Alegre-RS, Brasil.

IIUniversidade Federal do Rio Grande do Sul, Departamento de Enfermagem Médico-Cirúrgica. Porto Alegre-RS, Brasil.


RESUMO

Objetivo

relatar a experiência de docentes de uma universidade pública da região Sul do Brasil na utilização de casos de papel e role play como estratégias de aprendizagem para o cuidado em enfermagem ao adulto hospitalizado.

Método

relato da experiência de aprendizagem adotada na disciplina de Cuidado de Enfermagem ao Adulto I do curso de Bacharelado em Enfermagem.

Resultados

a elaboração dos casos de papel considerou as necessidades de cuidado originadas pelo perfil epidemiológico da morbimortalidade das doenças crônicas não transmissíveis, o processo de enfermagem como método para assistir, bem como os aspectos sociais dos indivíduos hospitalizados. O planejamento do role play fez-se pela criação de um cenário em laboratório de práticas e diálogos envolvendo a interação entre estudantes e professores.

Conclusão

os casos de papel e o role play instigaram os estudantes à busca ativa do aprendizado e aproximaram a teoria das situações reais de cuidado.

Descritores: Educação em Enfermagem; Aprendizagem Baseada em Problemas; Tecnologia Educacional; Bacharelado em Enfermagem; Ensino Superior

RESUMEN

Objetivo

contar la experiencia de docentes de una universidad pública de la región Sur de Brasil con el empleo de casos y ejercicios de modelado y de role play como estrategias de aprendizaje en el cuidado de enfermería al adulto internado.

Método:

narrativa experiencial de aprendizaje de la materia Cuidado de Enfermería al Adulto I, del curso de Enfermería.

Resultados:

para la elaboración de los casos y ejercicios de modelado se consideraron las necesidades del cuidado desde el perfil epidemiológico de la morbimortalidad de las enfermedades crónicas no transmisibles, el proceso de enfermería como método para cuidar, así como los aspectos sociales de los sujetos internados. Para el role play se creó un escenario en laboratorio de prácticas y conservaciones, en que interactuaban profesores y alumnos.

Conclusión:

los casos y ejercicios de modelado estimularon el aprendizaje de los estudiantes y el acercamiento de la teoría a la práctica en situaciones reales de cuidado.

Descriptores: Educación en Enfermería; Aprendizaje Basada en Problemas; Tecnología Educacional; Bachillerato en Enfermería; Educación Superior

ABSTRACT

Objective:

to report professors' experience in a public university of Southern region of Brazil using case studies and role play as learning strategies for nursing care of hospitalized adults.

Method:

learning experience report from the Nursing Care of Adults I class of nursing undergraduate course.

Results

the development of case studies and role play considered health care needs from epidemiological profile of chronic noncommunicable diseases morbidity and mortality, nursing as an assisting method, and social aspects of hospitalized individuals. Role play planning was made by creating a stage in laboratory of practices and dialogues comprising students and professors interaction.

Conclusion

case studies and role play encouraged students to active search for learning and brought theory closer to real health care situations.

Descriptors: Education; Nursing; Problem-based Learning; Educational Technology; Baccalaureate; Higher Education

INTRODUÇÃO

A área da educação, bem como a enfermagem, tem sido frequentemente contemplada por um discurso de mudança e por um ciclo de reformas recorrentes. A expansão do ensino superior no Brasil vem ocorrendo nas últimas décadas, trazendo novos desafios e a necessidade do acompanhamento constante pela busca de aprimoramento da qualidade do ensino(1).

O conhecimento que deve fazer parte de um currículo profissional não é algo fixo, mas sujeito a mudanças e flutuações, já que é construído na história e na cultura. Sendo assim, aquilo que deve ser ensinado não foi estabelecido em algum momento privilegiado do passado, estando em constante mudança(1-2). Como professoras de um curso de graduação em Enfermagem, temos nos preocupado em propor aos estudantes mais do que um conhecimento que seja verdadeiro, pensamos em organizar um conhecimento que seja socialmente válido.

As reformas educacionais instituídas no Brasil desde a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases em dezembro de 1996 vêm determinando novas configurações aos padrões curriculares. Nessa direção, as Diretrizes Curriculares Nacionais instigaram mudanças na forma de ensinar e aprender, referindo métodos ativos de aprendizagem e incorporação de tecnologias de ensino. Além disso, alertam para a importância da formação crítica e reflexiva, comprometida com a implementação das políticas de saúde, com a complexidade do mundo do trabalho e com as necessidades de saúde da população(2). Assim, um dos desafios que se coloca na formação em saúde é o de construir conhecimento alinhado ao cotidiano do Sistema Único de Saúde (SUS) e a adoção de posturas pedagógicas que considerem o princípio da integralidade na formação dos profissionais em saúde.

Ademais, um dos maiores desafios enfrentados na atualidade pelos professores no ensino de Enfermagem é a proposta de métodos de ensino que despertem o interesse e desenvolvam a aprendizagem dos estudantes(3). No contexto da universidade pública brasileira, observam-se estudantes inseridos em um mundo conectado, agentes de múltiplas tarefas e expostos a uma grande quantidade de informações e de estímulos provenientes das mídias digitais.

Diante dessas questões, ao discutirmos as mudanças necessárias no ensino do cuidado ao adulto, propusemos buscar respostas que delimitassem o que deveria ser o conteúdo em si e como deveria se dar a construção do conhecimento. Assim, procuramos questionar nossas práticas para não reproduzir as mesmas verdades e situações. Tentamos propor uma transformação que privilegiasse a participação dos estudantes, estimulando as perguntas ao invés das respostas, a dúvida ao invés das certezas, a problematização em vez da prescrição. Com tal postura, objetivamos a formação profissional construída com características criativas e inovadoras, sintonizados com uma nova visão de mundo(4).

Nessa direção, retomamos alguns conceitos, pressupostos ou procedimentos e os relacionamos, de maneira direta ou através de indagações, com a história, com as possibilidades de organizar o conhecimento do modo mais próximo à assistência. Esta, por sua vez, esteve na pauta das discussões desse grupo de professores no que se refere à preocupação com o cuidado integral a uma população que tem se caracterizado pelo envelhecimento, o que é mais grave no Brasil devido às desigualdades sociais e à dificuldade de acesso ao sistema de saúde.

Por outro lado, o trabalho da enfermagem tem se caracterizado pela incorporação intensiva de tecnologia e pela centralidade do hospital na solução dos problemas de saúde. Faz sentido então, a proposição de referências amparadas em estratégias de renovação, comprometidas com a qualificação de enfermeiros que venham efetivamente contribuir com a implantação e/ou aperfeiçoamento de uma oferta de atenção à saúde mais justa, mais igualitária e resolutiva(4).

A necessidade de inovar os procedimentos e métodos adotados no processo de ensino e aprendizagem sobre o cuidado ao adulto hospitalizado fez que nos debruçássemos primeiramente sobre a seguinte pergunta: O que e como pretendemos ensinar? Considerando tratar-se de um aprendizado teórico e prático, nossas intenções voltaram-se à definição de conhecimentos e habilidades envolvidos na disciplina de nossa responsabilidade. Nessa direção, o presente estudo objetiva relatar a experiência de docentes de uma universidade pública da região Sul do Brasil na utilização de casos de papel e role play como estratégias de aprendizagem para o cuidado em enfermagem ao adulto hospitalizado.

MÉTODO

Trata-se do relato de experiência da estratégia de aprendizagem adotada na disciplina de Cuidado de Enfermagem ao Adulto I, com carga-horária de 300 horas semestrais, distribuídas de segunda a quinta-feira, ofertada na quarta etapa do curso de Bacharelado em Enfermagem para uma média de 40 a 50 estudantes por semestre. A referida disciplina objetiva proporcionar aos discentes conhecimentos técnico-científicos para o cuidado de enfermagem sistematizado a adultos em situações clínicas e cirúrgicas, considerando sua inserção na família, sociedade e políticas públicas. As mudanças foram incorporadas na disciplina a partir do segundo semestre de 2014, quando ocorreu a transição para o novo currículo.

O grupo de oito professoras da disciplina reuniu-se previamente, em média duas horas por semana ao longo de um ano, para discutir o que deveria mudar em relação ao currículo anterior e como poderiam ser implementadas essas mudanças. As discussões foram registradas em ata.

Levando em conta os diferentes entendimentos e motivações das professoras, buscaram-se textos e relatos de experiências exitosas na área da saúde. Nesse momento, outras variáveis foram consideradas, como a carga horária da disciplina e dos professores, a disponibilidade de sala de aula, laboratório de habilidades e campos de prática, bem como o quantitativo de estudantes a serem atendidos semestralmente.

Nesses encontros, elegemos o caso de papel e role play como técnicas de ensino promotoras de uma aprendizagem mais coerente com os desafios inerentes do cuidado integral do adulto hospitalizado. Foram elaborados cinco casos de papel com os seus respectivos cenários a serem desenvolvidos no semestre letivo.

Os casos de papel são oriundos da abordagem educacional da Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP)(5), enquanto o role play surgiu no psicodrama(6), sendo incorporado posteriormente em atividades educativas; e, mesmo sendo procedentes de distintos referenciais pedagógicos, entendemos que essas técnicas poderiam ser utilizadas de forma integrada e complementar, tanto na condução da atividade teórica como da prática.

A ABP foi proposta pela Faculdade de Medicina da Universidade de McMaster no Canadá e rapidamente se difundiu como uma proposta curricular. No entanto, mesmo sem adotar o método da ABP na sua completude, instituições de ensino têm apostado nessa proposta educativa, a qual se caracteriza pelo trabalho em grupo, inter-relação de conhecimentos prévios, indissociabilidade entre teoria e prática, busca de soluções a problemas factíveis, respeito à autonomia do estudante e avaliação formativa(2,5,7).

Uma das técnicas descritas pela ABP são os casos de papel a serem desenvolvidos em grupos tutoriais. Trata-se de narrativas que apresentam um contexto, que pode ser vivenciado pelo estudante nos campos de prática, agregando conhecimentos prévios a temática proposta, estimulando a elaboração de questionamentos a serem respondidos e buscando fontes que possam colaborar com essa trajetória(5,8). Tal técnica vai além da aprendizagem de conhecimentos, mas desenvolve habilidades, comportamentos e atitudes sobre os problemas pautados no caso de papel, denominados "objetivos de aprendizagem"(8).

Assim, quando é elaborado um caso de papel, ele é avaliado por um grupo de professores que procura assegurar a relevância, a sequência lógica, a extensão do problema, a factibilidade e a contextualização. O acompanhamento com a avaliação dos casos de papel é fundamental para verificar se os objetivos estão sendo alcançados(5,8).

O role play como método de ensino possibilita que uma pessoa assuma o papel de outro com o propósito de sensibilizar os demais. A utilização da dramatização torna a vivência mais próxima do real, sendo considerada uma prática de ensino de simulação ao proporcionar a imersão e a experiência vivida. A aprendizagem não é somente individual como também coletiva, oportunizando a diminuição da ansiedade e o desenvolvimento de confiança nas ações executadas, pois, diante de uma conduta inadequada, essa pode ser revista e refeita, sem comprometer a segurança de um paciente(6)).

A experiência de utilização dos casos de papel e role play como estratégias de aprendizagem para o cuidado em enfermagem é apresentada a seguir. São descritos os processos de elaboração dos casos e planejamento da role play, bem como os momentos teóricos e práticos que compuseram a dinâmica de trabalho com essas estratégias.

ELABORAÇÃO DOS CASOS DE PAPEL E PLANEJAMENTO DA ROLE PLAY

A adoção de estratégias baseadas na ABP e role play levou à elaboração de situações-problema e o seu desenvolvimento, dando origem aos "casos de papel". O objetivo dos casos de papel foi apresentar circunstâncias de cuidado que instigassem a busca por conhecimento teórico sobre patologia, sinais e sintomas, semiologia, semiotécnica, articulado ao processo de enfermagem. Para além de casos clínicos, desafiamo-nos para que essas circunstâncias de cuidado envolvessem aspectos sociais, relacionais e organizacionais, com vistas ao despertamento para as múltiplas necessidades humanas envolvidas no cuidar, bem como para os complexos contextos de cuidado. A Figura 1 ilustra o processo de seleção dos conteúdos e habilidades para a construção dos casos de papel.

Fonte: As autoras, 2016.

Figura 1 Processo de seleção dos conteúdos e habilidades para os casos de papel 

Os casos de papel envolveram situações recorrentes nos campos de prática, ou seja, tratou-se de narrativas amparadas na realidade(2). Assim, a escolha da patologia abordada em cada caso foi amparada no perfil epidemiológico da morbimortalidade da região Sul do Brasil, com foco especial às doenças crônicas não transmissíveis e fatores de risco relacionados. Cientes de que o processo de adoecimento vai além dos determinantes biológicos, os casos envolveram aspectos sociais implicados na história do usuário, bem como a premissa de caracterizar a sua singularidade.

O processo de enfermagem enquanto método de assistir foi o princípio norteador dos casos, com o intuito de instigar o raciocínio clínico e o pensamento crítico. Para tanto, os casos envolveram sinais, sintomas e exames diagnósticos a fim de desafiar a aplicação de conhecimentos da semiologia e despertar para a identificação de diagnósticos de enfermagem, os quais deram subsídios às intervenções. Essas intervenções d e enfermagem, por sua vez, relacionaram-se a procedimentos e técnicas de enfermagem no cuidado ao adulto hospitalizado.

Com o objetivo de oferecer maior realismo às situações relatadas e se aproximar dos desafios proporcionados pelo mundo do trabalho, características da unidade hospitalar foram descritas junto ao caso. Incluíram-se elementos da rotina da unidade, organização do trabalho hospitalar, tecnologias utilizadas no campo prático, relações interpessoais, participação da equipe multiprofissional e da família.

Depois de identificados os conhecimentos e habilidades que constituíram os casos de papel, a construção textual de cada caso foi iniciada pela colaboração de dois a três professores e, na sequência, lidos e discutidos pelo corpo de professores responsáveis pela disciplina. Para incitar a identificação dos estudantes com a situação-problema descrita no caso, destinou-se como personagem principal das narrativas uma estudante de enfermagem chamada "Marina", que vivenciava suas primeiras experiências de cuidado, promovendo assim a autorreflexão dos estudantes acerca de sentimentos frequentemente experimentados nesta fase de formação profissional(9).

Com o caso concluído, a role play foi planejada com a criação de um cenário em laboratório de práticas. Tratou-se de cenário similar à internação hospitalar, sendo o manequim posicionado no leito hospitalar e dois atores, professoras, diante de prescrições médicas e de enfermagem, simulando dúvidas e tomadas de decisão em diálogos produzidos no preparo e realização de cuidados. O principal objetivo da role play foi a dramatização da prestação do cuidado integral, focado na singularidade da situação relatada pelo caso de papel. O cenário foi preparado pelos profissionais do laboratório de práticas, que conta com duas enfermeiras e duas técnicas de enfermagem, juntamente com as professoras da disciplina, considerando a área física, os equipamentos e os manequins disponíveis. Os roteiros com o passo a passo dos procedimentos de enfermagem foram elaborados de acordo com a literatura(10) e as rotinas da instituição hospitalar na qual são realizadas as atividades práticas da disciplina.

A seguir, descrevem-se os momentos teóricos e práticos da dinâmica de trabalho adotada para a aplicação da estratégia de aprendizagem.

CASO DE PAPEL: DISPARADOR DA BUSCA PELO CONHECIMENTO TEÓRICO

A utilização dos casos de papel tem como princípio fundamental despertar o estudante para buscar o conhecimento por meio de uma narrativa que simula uma situação do futuro cotidiano profissional. Esse método encontra-se centrado no estudante como protagonista do processo de aprendizagem, portanto, exige a sua participação ativa na busca pelo conhecimento e não meramente informativa como é o caso da prática pedagógica tradicional(11). Para solucionar a situação problema, os estudantes são estimulados a identificar suas dúvidas e a formular os questionamentos.

Assim, os casos de papel são apresentados e discutidos no grande grupo, com o objetivo primeiro de serem definidas as questões de aprendizagem, momento denominado de "abertura do caso". Com base nessas questões, que variaram de 7 a 10, cada grupo de aproximadamente seis estudantes organiza a sua estratégia para a resolução das questões, utilizando quaisquer recursos de difusão do conhecimento, de forma crítica e identificando fontes acadêmicas de pesquisa sob a tutoria de dois professores. A discussão em pequenos grupos beneficia o aprimoramento da comunicação, explanação de ideias e capacidade de posicionamento e argumentação(5). Nessa perspectiva, busca-se o desenvolvimento do pensamento crítico e da capacidade de análise, bem como a avaliação da informação disponível(8). As respostas às questões devem ser construídas com base na reflexão, organização e síntese do conhecimento, a fim de que o momento denominado "fechamento do caso" seja uma oportunidade de troca e construção entre todos os grupos e professores.

Cada caso de papel foi desenvolvido ao longo de três dias, sendo dois momentos de discussão no grande grupo: a "abertura do caso" e o "fechamento do caso". Entre esses dois momentos, ocorreram nos pequenos grupos, a busca pela resolução das questões de aprendizagem. A operacionalização dos casos de papel e do role play foi planejada com a divisão da turma para que a resolução das questões de aprendizagem ocorresse paralelamente ao role play, integrando de maneira indissociável o conhecimento teórico e as habilidades práticas para o cuidado em saúde.

Além da tutoria presencial do professor em sala de aula, há o acompanhamento sobre os caminhos percorridos pelos estudantes no processo de busca de resolução das questões, por meio de suas postagens em ambiente virtual de aprendizagem. Cada grupo enviou a tarefa para o ambiente virtual, contendo respostas às questões do caso devidamente referenciadas.

ROLE PLAY: CONSTRUINDO O SENTIDO DA PRÁTICA PELA SINGULARIDADE DO CASO

A estratégia role play propunha o desenvolvimento das habilidades necessárias para a realização dos procedimentos de enfermagem a partir do caso de papel. Todo procedimento esteve integrado ao contexto do caso de papel, conferindo sentido à prestação do cuidado simulado. Assim, o cuidado foi vivenciado na especificidade do caso. Neste sentido, optamos por reformular o ensino prático no laboratório de enfermagem, utilizando uma atividade de aprendizagem mais ativa e envolvente, que caracterize com maior fidedignidade o ambiente clínico real. Para nortear esse processo, adaptamos a técnica de role play para o ensino prático a partir dos casos de papel. Tal técnica permite aos estudantes lidar com situações de cuidados a partir de uma perspectiva individual e realista(3,6).

Os mesmos três dias utilizados para o desenvolvimento dos casos de papel, também o foram para o role play. No cenário do laboratório de práticas, dois professores simularam o atendimento ao paciente, conforme situação descrita no caso de papel, realizando a assistência e encenando possíveis dúvidas e temores vivenciados por "Marina". Nesse contexto, um dos professores assume a personagem "Marina" e a outra, sua colega. Cabe destacar que os procedimentos de enfermagem foram apresentados e praticados pelos estudantes em aula anterior, a fim de que o role play não representasse o primeiro contato com as habilidades práticas relacionadas ao cuidado.

Após a encenação dos professores, os estudantes foram divididos em grupos de seis para desenvolverem em duplas o role play com a supervisão da professora. Ao término de cada sessão de role play, as professoras e colegas realizaram feedback sobre o desempenho na realização dos cuidados. Acredita-se que a visualização/realização da encenação aliada ao feedback mantém a atenção e o interesse do estudante nesse cenário de aprendizado.

No terceiro dia, as professoras oportunizam a iniciativa dos estudantes para uma nova participação no role play, quando os colegas acompanham por meio de checklist previamente elaborado. Ao término, o estudante é estimulado a uma autoavaliação, indicando aspectos de aprimoramento e esclarecendo dúvidas.

O feedback e o trabalho cooperativo também se tornam possíveis nos pequenos grupos. Esse processo de aprendizagem baseado na técnica de role play adaptada é utilizada para obter a atenção dos estudantes e permitir um aprofundamento da técnica, ao invés do aprendizado superficial muitas vezes resultante da aprendizagem passiva(3). O aprendizado teórico-prático baseado no caso de papel busca romper a fragmentação do ensino que desconsidera a identidade dos pacientes e a singularidade de cada situação.

Assim, acredita-se que tal estratégia tenha potencial para desenvolver um ensino de habilidades integrado ao processo de cuidar. Achamos que o relato dessa experiência possa contribuir com outras realidades, impulsionando ideias para o incremento e/ou a inovação das estratégias de ensino para a Enfermagem e outros cursos na área da saúde.

Pode-se destacar como limitações encontradas na aplicação dessa estratégia a avaliação positiva restrita às percepções dos envolvidos, sem haver, até o presente, uma mensuração da sua eficácia para o aprendizado. Ainda consideramos como limitação a necessidade de mais recursos físicos e tecnológicos, bem como de um quantitativo maior de docentes envolvidos e principalmente engajados. Essas estratégias de ensino rompem com as práticas até então desenvolvidas, trazendo a necessidade de preparar os docentes para esses novos desafios.

CONCLUSÃO

A experiência com a estratégia de aprendizagem permite apontar que as discussões do grupo de professores foram essenciais para a construção coletiva de uma nova proposta para a disciplina. Além disso, as circunstâncias de cuidado narradas pelos casos de papel e encenadas pelo role play instigaram o aprendizado e aproximaram a teoria das situações reais de cuidado. Assim, destaca-se a potencialidade da utilização conjunta e articulada das técnicas casos de papel e role play para o ensino de enfermagem.

Considera-se fundamental oferecer a oportunidade ao estudante de realizar procedimentos em ambiente simulado antes de ter contato com pacientes hospitalizados. Ao longo dos semestres letivos, em que tais estratégias foram desenvolvidas, observou-se boa aceitação pelos estudantes, os quais se revelaram valorizados, motivados e ativos no processo de aprendizado.

Diante do exposto, recomenda-se que sejam desenvolvidos estudos de acompanhamento e avaliação dessas estratégias de aprendizagem. Como limitações desta experiência, destacamos a necessidade de haver uma área física com múltiplos espaços e acesso a recursos materiais (biblioteca, informática e internet), além da atualização continuada dos docentes e disposição para repensar as práticas pedagógicas vigentes.

REFERÊNCIAS

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Recebido: 20 de Junho de 2016; Aceito: 23 de Agosto de 2016

AUTOR CORRESPONDENTE: Ana Luísa Petersen Cogo. E-mail: analuisa@enf.ufrgs.br

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