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Revista Brasileira de Enfermagem

versão impressa ISSN 0034-7167versão On-line ISSN 1984-0446

Rev. Bras. Enferm. vol.72 no.1 Brasília jan./fev. 2019

http://dx.doi.org/10.1590/0034-7167-2018-0414 

ARTIGO ORIGINAL

Uniformes de enfermeiras do Exército Brasileiro: identidade visual na II Guerra Mundial

Margarida Maria Rocha BernardesI 
http://orcid.org/0000-0003-2849-413X

Alexandre Barbosa de OliveiraII 
http://orcid.org/0000-0003-4611-1200

Sônia KaminitzIII 
http://orcid.org/0000-0001-6029-693X

Antônio Marcos Tosoli GomesIV 
http://orcid.org/0000-0003-4235-9647

Sérgio Corrêa MarquesIV 
http://orcid.org/0000-0003-2597-4875

Fernando Rocha PortoIII 
http://orcid.org/0000-0002-2880-724X

IEscola Superior de Guerra. Rio de Janeiro-RJ, Brasil.

IIUniversidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro-RJ, Brasil.

IIIUniversidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro-RJ, Brasil.

IVUniversidade do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro-RJ, Brasil.


RESUMO

Objetivo:

Analisar os efeitos simbólicos do vestuário militar oficial das enfermeiras do Exército Brasileiro na II Guerra Mundial.

Método:

A pesquisa foi desenvolvida usando o método histórico, com fontes imagéticas. Os dados foram discutidos à luz de conceitos da teoria do mundo social, de Pierre Bourdieu.

Resultados:

As imagens selecionadas demonstram o significado próprio dos uniformes, explicitando as funções e a posição social de quem os porta, sendo de uso privativo e obrigatório no campo militar.

Considerações finais:

No caso das enfermeiras da Força Expedicionária Brasileira, a apropriação de uniformes promoveu a comunicação visual da figura-tipo da enfermeira militar no contexto da guerra, ao mesmo tempo que conferiu distinção no âmbito do exército, mas não necessariamente no campo da enfermagem. Simbolicamente, elas permaneceram entre os muros dos quartéis mesmo após o término da guerra e, por conseguinte, mantiveram-se desconhecidas e marcadas pelos signos do esquecimento.

Descritores: Enfermagem; Enfermagem Militar; II Guerra Mundial; História; Vestuário

ABSTRACT

Objective:

To analyze the symbolic effects of the official military uniform of the nurses from Brazilian Army in World War II.

Method:

This research was developed using the historical method, with iconographic sources. The data were discussed based on the concepts of the social world theory, by Pierre Bourdieu.

Results:

The images selected demonstrate the own meaning of the uniforms, evidencing the functions and the social position of those who wear it, being private and obligatory to use it in the military field.

Final considerations:

In the case of the nurses from the Brazilian Expeditionary Force, the appropriation of uniforms promoted the visual communication representing military nurse in the context of war, at the same time it served for distinction purposes in the army, but not necessarily in the nursing field. Symbolically, they remained amongst the walls of the barracks even after the end of the war and, thus, they remained unknown and marked by the symbols of forgetfulness.

Descriptors: Nursing; Military Nursing; World War II; History; Clothing

RESUMEN

Objetivo:

Analizar los efectos simbólicos de la vestimenta militar oficial de las enfermeras del Ejército Brasileño en la II Guerra Mundial.

Método:

La investigación fue desarrollada usando el método histórico con fuentes de imágenes. Los datos fueron discutidos a la luz de conceptos de la teoría del mundo social, de Pierre Bourdieu.

Resultados:

Las imágenes seleccionadas demuestran el significado propio de los uniformes, explicitando las funciones y la posición social de quien los porta, siendo de uso privativo y obligatorio en el campo militar.

Consideraciones finales:

En el caso de las enfermeras de la Fuerza Expedicionaria Brasileña, la apropiación de uniformes promovió la comunicación visual de la figura-tipo de la enfermera militar en el contexto de la guerra, al tiempo que confería distinción en el ámbito del ejército, pero no necesariamente en el campo de la enfermería. Simbólicamente, permanecieron entre los muros de los cuarteles incluso después del término de la guerra, y, por consiguiente, se mantuvieron desconocidas y marcadas por los signos del olvido.

Descriptores: Enfermería; Enfermería Militar; Segunda Guerra Mundial; Historia; Vestuario

INTRODUÇÃO

Durante a II Guerra Mundial (1939-1945), o governo brasileiro passou a sofrer pressão dos Estados Unidos da América para permitir que as tropas norte-americanas usassem portos e aeroportos das regiões Norte e Nordeste do país, localizações estratégicas no aspecto militar. Em contrapartida, obteve dos EUA as promessas de reaparelhamento das forças armadas brasileiras e de construção de uma usina siderúrgica. Com o sucessivo torpedeamento de navios mercantes brasileiros por submarinos alemães, e com a crescente pressão política interna e externa, Getúlio Vargas, presidente à época, declarou estado de guerra em todo território nacional no dia 31 de agosto de 1942 pelo Decreto-Lei nº 10.358(1).

No processo de mobilização nacional para a guerra, foi oficialmente criado e treinado um grupamento de 67 enfermeiras da reserva do Exército Brasileiro (EB), que foi incorporado junto ao efetivo da Força Expedicionária Brasileira (FEB). O grupamento seguiu para o front italiano em 7 de julho de 1944, retornando ao país no final do conflito(2). Preparadas e uniformizadas com vestimentas militares, elas partiram para atender os feridos e os necessitados de cuidados em virtude do conflito internacional. O vestuário usado se configurava como canal de mensagem visual na proposição identitária do grupo devido aos padrões socioculturais relacionados a certas vestimentas, que enunciam o modus operandi das relações de poder e de construções de identidades(3).

Neste sentido, o significado social que o traje adquire se expressa por meio da sua estética. Isto revela a ligação intelectual e afetiva que se estabelece entre ele e o seu usuário, considerando os aspectos plásticos do corpo em movimento, bem como a estrutura corporal e o referencial social da moda aplicado para a confecção da vestimenta(4). No caso dos uniformes militares, os cortes e recortes nos tecidos para a modelagem são apresentados visando construção para a identificação dos emblemas de distinção na hierarquia do grupo e a linguagem visual própria da instituição. Pensar nessa perspectiva é articular mente e corpo para a inculcação da disciplina a ser seguida por enfermeiras no campo militar. As enfermeiras da FEB passaram por treinamentos para incorporação do habitus militar, implicando na construção da identidade social instituída por meio de disposições dos corpos para sentir, pensar e agir, uma espécie "particularmente acabada de violência simbólica"(5).

Ademais, o vestuário e os acessórios militares são entendidos como forma de comunicação, que marcam e deliberam as relações entre os grupos. Para tanto, apresenta-se como objeto deste estudo a representação identitária das enfermeiras da FEB por meio do uniforme militar. Neste estudo foram articulados, portanto, temas relacionados a cultura, identidade e comunicação organizacional com as noções de vestuário, moda e corpo.

A justificativa do estudo está necessidade de ser ampliado o diálogo da enfermagem com pesquisas sobre as representações objetais e marcas simbólicas da profissão, especialmente no período da II Guerra Mundial, no sentido de identificação das relações de poder e contrapoder na construção cultural da identidade da mulher enfermeira no Brasil.

OBJETIVO

Analisar os efeitos simbólicos do vestuário militar oficial das enfermeiras do Exército Brasileiro na II Guerra Mundial.

MÉTODO

Aspectos éticos

Para o desenvolvimento deste estudo não foi necessária aprovação por Comitê de Ética e Pesquisa, uma vez que as imagens utilizadas têm mais de 70 anos, cuja utilização é livre de restrições e garantida pela legislação nacional sobre direitos autorais(6-7).

Referencial teórico-metodológico

O referencial de análise foi apoiado por conceitos da teoria do mundo social, de Pierre Bourdieu.

Tipo de estudo

Estudo desenvolvido na abordagem histórica.

Procedimentos metodológicos

Para a obtenção de imagens fotográficas foi consultada tanto a bibliografia quanto os acervos imagéticos sobre o recorte do estudo. Como base para a discussão, foram utilizados livros de memórias das enfermeiras veteranas e referências com conteúdos afins à temática, sendo os achados categorizados, avaliados criticamente e tratados em consonância com o contexto histórico.

Hipótese

Os signos agregados nos uniformes oficiais das enfermeiras militares ostentados no conflito da II Guerra Mundial foram elementos simbólicos determinantes na perspectiva da profissão, além de permitirem a definição da identidade de gênero na afinidade do habitus militar.

Cenário do estudo

Acervos documentais disponíveis na Fundação Oswaldo Cruz, especificamente no Fundo Virgínia Portocarrero da Casa de Oswaldo Cruz, além do Arquivo Histórico do Exército do Comando Militar do Leste, ambos localizados na cidade do Rio de Janeiro.

Fonte de dados

As fontes históricas foram constituídas por desenhos dos uniformes e fotos de enfermeiras ostentando-os.

Coleta e organização dos dados

A pesquisa e a seleção das imagens ocorreram no período de agosto a dezembro de 2017. Os critérios de seleção foram: registros obtidos na delimitação temporal da II Guerra Mundial, que retratassem as enfermeiras militares brasileiras trajando os uniformes oficiais confeccionados exclusivamente para elas.

Etapas do trabalho

Aplicados os critérios, foram selecionados para análise um croqui desenhado a nanquim pela enfermeira da FEB Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero e mais duas imagens fotográficas de enfermeiras da FEB com uniforme oficial de passeio.

Análise dos dados

Para o tratamento das imagens foi aplicada uma matriz de análise composta por: dados de identificação, plano de conteúdo, plano de expressão e dados relevantes de outras fontes(8). Após aplicação da matriz, os dados foram submetidos à técnica da triangulação de fontes circunstanciadas ao contexto, para a discussão com a literatura de aderência ao objeto de estudo.

RESULTADOS

Várias são as situações atípicas registradas pelas enfermeiras da FEB em sua documentação memorialística sobre a atuação feminina brasileira na II Guerra Mundial. Alguns estudos(9-10) foram desenvolvidos para desvelar a memória e a história deste primeiro grupamento feminino de enfermeiras das forças armadas do país, enquanto neste, diferentemente dos demais, optou-se pela análise das vestimentas utilizadas nos cenários de guerra.

Como já pontuado na seção anterior, a Figura 1 é um croqui localizado no diário de guerra da enfermeira da FEB Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero. A fonte registra o uniforme militar das enfermeiras brasileiras, além de ilustrar a qualidade da função e da cultura que ele próprio comunica. Nos espaços sociais das interações, as enfermeiras deveriam estar dotadas de atributos simbólicos da autoridade ligada a seu posto como oficiais do exército.

Fonte: Acervo da Fundação Oswaldo Cruz.

Figura 1 Croqui do uniforme desenhado a nanquim pela enfermeira Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero, 1943 

No croqui veem-se representados elementos do fardamento como: bolsa com alça, para ser usada a tiracolo (frente e perfil); jaqueta representada de frente e de costas, com quatro botões, ajustada na cintura; insígnias nos ombros; e quepe com o brasão do EB. Estes elementos de composição do fardamento militar foram inspirados nos uniformes masculinos, considerando as variações no vestir das mulheres.

A Figura 2 retrata a enfermeira da FEB Lúcia Osório antes de embarcar para o front italiano. Ela foi registrada na Escola de Educação Física do Exército, localizada na Fortaleza de São João (bairro da Urca – Rio de Janeiro/RJ).

Fonte: Acervo da Fundação Oswaldo Cruz.

Figura 2 Uniforme oficial verde-oliva de passeio com jaqueta das enfermeiras da Força Expedicionária Brasileira, 1943 

Na fotografia identificam-se atributos ostentados pela agente retratada, que está vestindo uniforme de gabardine confeccionado exclusivamente para as integrantes do grupamento feminino de enfermagem. A enfermeira tem a cabeça coberta com um quepe, que exibe ao centro um distintivo que remete ao brasão do EB. Sua vestimenta é composta de jaqueta com cinto, camisa fechada com gravata e saia.

O casaco de mangas compridas, abotoado por quatro botões escuros grandes, possui quatro bolsos com pestanas externas e botões pretos pequenos fechando-os, sendo os dois de cima menores que os de baixo. Na pestana esquerda, encontra-se um distintivo oval. O uniforme é de mangas compridas e, na parte de cima da manga, no ombro esquerdo, tem uma braçadeira com o país de origem em letras maiúsculas. No casaco há um cinto de aproximadamente cinco centímetros, com fivela forrada. Por dentro do casaco há uma camisa arrematada por uma gravata. As mãos da enfermeira estão cobertas com luvas que parecem ser de couro. A bandeira brasileira está aparente no ombro direito da enfermeira. Nas pestanas do casaco, em ambos os lados, há um emblema, assim como uma estrela em cima e no centro da pestana de cada ombro.

Os atributos de paisagem referem-se a cenário ao ar livre, no contexto de ambiente de grande dimensão. Estes atributos configuram-se como traves, cordas e muro baixo, chão gramado, e uma montanha que contorna geograficamente o Rio de Janeiro, tratando-se de espaço para treinamento físico de militares do EB.

A Figura 3 traz a enfermeira Jandyra Faria de Almeida, natural de Itaparica, na Bahia. Ela utiliza o mesmo uniforme da Figura 2. Nesta foto, é possível ver com mais detalhe a parte de baixo do uniforme, a saber: uma saia-calça, além do par de sapatos escuros.

Fonte: Acervo da Fundação Oswaldo Cruz.

Figura 3 Enfermeira Jandyra Faria de Almeida no front italiano, 1943 

A figura, também individual, foi registrada no front italiano. O cenário é ao ar livre, com uma paisagem de montanha ao fundo. O piso é liso, com um jardim ao lado, visualizando-se grades baixas e mais vegetação. Pela sombra, pode-se inferir que era um dia ensolarado.

Das imagens apresentadas, cumpre ressaltar que os uniformes possuem um significado próprio, explicitando a função e posição social de quem os porta. No âmbito do campo militar, são de uso privativo e obrigatório.

DISCUSSÃO

Neste estudo, enfoca-se o uniforme oficial de passeio retratado no corpo de duas enfermeiras da FEB, comunicando os sentidos e os valores que revestiam seus corpos, o que, em última instância, visou inculcá-las como oficiais enfermeiras do EB, no contexto da II Guerra Mundial. Com efeito, o uniforme militar tende a legitimar a autoridade e a hierarquia de quem o porta e o modelo idealizado devia ser usado como fardamento formal e social. Ao mesmo tempo, destaca-se a ideia de que o uniforme de enfermeira pode ser artefatos capaz de promover a confiança na relação estabelecida com os pacientes.

A imagem do croqui selecionado comprova que o desenho é documento de arquivo, reúne as características de ser íntegro e autêntico, qualidades que indicam que não foi modificado. Portanto, sua condição original de confiabilidade foi mantida, o que justifica, per se, o interesse dos pesquisadores. Evidencia-se neste croqui, enquanto documento arquivístico, um valor secundário presente na construção da memória manifesta na vestimenta das enfermeiras naquele contexto.

Outros autores(11-12) identificaram o poder e a influência que, particularmente, o uniforme pode ter para a imagem geral de enfermeira. O uniforme seria seu aspecto tangível, ou marca, contrapondo-se ao aspecto intangível, percebido por meio da sociologia bourdieusiana, por exemplo, na forma como a enfermeira se comporta.

A Figura 2 remete aos antigos registros fotográficos, com chapas de baixa sensibilidade, que obrigavam o retratado a um longo tempo de exposição, forçando-o a permanecer imóvel e fazendo pose.

Nas pestanas do casaco pode ser visualizado um emblema. A enfermeira Virgínia Portocarrero afirmou que: "o emblema era uma cruz dourada sobre o ônix. Todas nós tínhamos. Essa cruz era só nossa, das enfermeiras"(13).

Esta imagem demarca os momentos finais das enfermeiras ainda no Brasil, antes da partida para a Itália. Mostra que o uso do uniforme inclui a postura formal assumida pelo grupo fardado, sendo o uniforme potente aliado na moldagem de comportamentos. Ao vesti-lo, as profissionais incorporam um papel que as impulsiona a atuar conforme expectativas sociais e com vistas ao comprometimento corporativo, um aparelho ideológico que irá moldar seus atos, hábitos e postura(14).

Além de adornar, a roupa protege, aquece e envolve os corpos, cingindo também a autoimagem, anseios e a imagem que se quer projetar. A sociedade tem seus padrões de vestimenta, e esses padrões podem esclarecer como funcionam certas relações de poder e construções de identidades.

Alguns registros das memórias das enfermeiras veteranas apontam que dona Darcy Vargas, esposa do então presidente da república, Getúlio Dornelles Vargas, e dona Santinha Dutra, esposa do ministro da guerra à época do conflito, Eurico Gaspar Dutra, decidiram o modelo dos uniformes do grupamento feminino do Exército(13).

Na suposta dificuldade de definir os uniformes femininos das primeiras mulheres oficialmente incorporadas às fileiras do EB, essas autoridades manipularam suas esposas para o fazerem. Por sua vez, essas senhoras foram manipuladoras nas decisões tomadas, pois, mesmo não sendo enfermeiras e nem estarem participando do conflito, assumiram a criação dos uniformes das voluntárias, decidindo sem consulta a quem real e efetivamente iria portá-los no cotidiano do trabalho de guerra.

As cinco primeiras enfermeiras que partiram do Brasil não chegaram a receber seus uniformes de serviço, dada a urgência do embarque. Desta forma, trabalharam por 20 dias com o uniforme oficial de passeio de gabardine verde-oliva, que não era funcional e apropriado para o trabalho nos hospitais de campanha. Após entendimentos entre as delegações brasileira e norte-americana, decidiu-se que as enfermeiras da FEB passariam a utilizar o uniforme de verão norte-americano para as atividades de serviço, sendo que o verde-oliva brasileiro de gabardine seria destinado somente a passeio(2).

Na Figura 3, a hexis corporal revela cabeça lateralizada e olhar voltado para a chapa fotográfica. Percebe-se um sorriso prestativo, complacente, esperado de uma enfermeira militar. Fazia parte da hexis corporal mostrar positividade enquanto profissional de assistência aos feridos de guerra. No braço esquerdo do casaco há um logotipo, não encontrado na Figura 2. Trata-se do símbolo da Força Expedicionária Brasileira, que mostra uma cobra fumando.

Curiosamente, no uniforme militar trajado pela enfermeira não é possível identificar o posto militar. Tal medida é um dos aspectos que remetem à luta propriamente simbólica dessas enfermeiras em seu processo de inclusão no campo militar, pois, ainda antes do embarque para o teatro de operações italiano, elas não tinham definido o seu posto na cadeia hierárquica do exército. Tal situação foi parcialmente resolvida pelo coronel-médico Emmanuel Marques Porto, chefe do Serviço de Saúde da FEB, que orientou às enfermeiras que colocassem as estrelas do posto de 2º tenente nos ombros do uniforme de gabardine verde-oliva, já na Itália. Contudo, o seu soldo não era compatível com o posto de 2º tenente(2).

Os estudos de moda explicitam que, nos anos 1940, calças compridas não eram roupas apropriadas às mulheres. No entanto, a inserção de mulheres naquele universo masculinizado, de trabalho em cenário de guerra, conduziu à necessidade de adaptação inclusive das vestimentas para formatos que pudessem ser mais operacionais.

De fato, a adaptação da saia para a calça revelou o travestir da roupa feminina para a masculina. Assim, o uso de calças, que era particularmente controverso entre as mulheres, passava a ser requerido como sinal de modernidade em um contexto no qual as identidades de mulheres e homens eram definidas e fixadas por marcadores físicos, culturais, psicológicos e intelectuais(15).

Não obstante, o uso de saias-calças pelas enfermeiras foi solução prática para os movimentos de seus corpos femininos para os cuidados de guerra. Nas duas imagens, as enfermeiras foram retratadas usando este tipo de saia. Destarte, as saias-calças dos uniformes não rompiam com as conexões de gênero, mas inseriam-se no campo das representações das enfermeiras como agentes que utilizavam roupas para trabalhar em prol dos homens, reafirmando o papel de cada um no front: homens com calças para lutar e mulheres com calças para cuidar. Assim, os princípios antagônicos das identidades masculina e feminina se inscrevem sob a forma permanentes de se servir do corpo ou de manter a postura, naturalizando uma determinada ética(16).

A diferença entre os uniformes registrados nas duas fotografias reside na existência do símbolo da cobra fumando no braço esquerdo da enfermeira Jandyra, cuja foto foi produzida já na Itália, depois de receber o símbolo.

As outras peças (quepe, gravata, e cinto), que compõem os trajes, simbolizam objetos masculinizados presentes na composição do uniforme dos soldados. A enfermeira está ereta, postura relacionada, dentre outras coisas, à necessidade de manter o quepe na cabeça. Usar gravata finalizando um colarinho é artefato masculino e, independentemente do modo como colocado, irrita o pescoço e gera desconforto(17).

Os signos com características específicas da instituição dispostos nos uniformes, tanto dos soldados quanto das enfermeiras, são tidos como indicadores da tradição, hierarquia e disciplina, que norteavam a formação do habitus dos cidadãos voluntários, homens ou mulheres, remetendo à incorporação da autoridade e confiança, virtudes necessárias para a promoção do discurso de proteção da soberania do país(15).

Ademais, as duas fotografias se distinguem pela certa tensão, na primeira imagem, da enfermeira Lúcia Osório, e a descontração reservada da enfermeira Jandyra Almeida, na segunda. Esta, ao se deixar fotografar com o símbolo aparente no braço esquerdo, fez ver e deu a reconhecer o discurso do símbolo ostentado. O símbolo da cobra fumando foi utilizado nos uniformes dos militares brasileiros durante a campanha na Itália. Foi elaborado por sugestão dos aliados norte-americanos, que tinham como cultura o uso de distintivos que imediatamente identificassem a origem de seus grupamentos militares.

O significado deste símbolo é até a atualidade bastante controverso. "A cobra está fumando" era expressão de consenso dos militares brasileiros, sendo oficializado como emblema da FEB na II Guerra Mundial. Os veteranos afirmam que o surgimento do símbolo se deu em função da propaganda negativa sobre a FEB antes do embarque para a guerra, que dizia ser mais fácil uma cobra fumar do que a FEB embarcar para combater as tropas nazifascistas na Europa. Este descrédito foi fomentado no Brasil por políticos de oposição ao governo federal e pela própria sociedade civil, em função das condições precárias de recrutamento dos soldados. No entanto, após a declaração de guerra aos países do Eixo, os soldados da FEB "fizeram a cobra fumar"(18).

No campo militar, o fardamento identifica quem o veste, situando-o em uma hierarquia, além de fornecer informações sobre suas realizações e méritos por meio da ostentação de medalhas. Simboliza, portanto, uma forma extraordinária de vestimenta consagrada, sendo traje determinado pela decisão de outros, com esquemas de pertencimento à instituição e grupos, que em termos de discurso falado representa estar vinculado a controles e à censura(15).

A farda, nas Forças Armadas, tem a função explícita de permitir imediata identificação da posição hierárquica de seus usuários. Assim, o corpo social da tropa, por intermédio do uso dos uniformes, consente o domínio do Estado. Os quartéis submetem os militares ao cotidiano do detalhamento administrativo, ordenando sua ação, determinando hábitos e condutas frente ao que representa o poder desses homens com seus uniformes(19).

Portanto, além de socializar visualmente seus integrantes, os uniformes militares também lhes concedem, pelas vestimentas e adornos pertencentes aos seus postos e graduações, identificação com o significado imediato do poder que detêm, independente do que são como pessoas ou do que possuem como capital cultural, das posições sociais que ocupam e de sua origem familiar e socioeconômica. Logo, o fardamento equipara e nivela respectivamente seus poderes, de acordo com seus postos. Em geral, os uniformes têm um traço comum: "criam ou recriam formas de ação originais, em seus fins e seus meios, de forte conteúdo simbólico"(5). Ademais os profissionais de enfermagem têm a responsabilidade de manter e promover uma imagem adequada, porque esta deve ser a aparência de uma pessoa ou profissão que é projetada para a sociedade que, por sua vez, percebe-a, reconhece-a e a insere(20).

Para a II Guerra Mundial, o fardamento de toda a tropa brasileira foi confeccionado com tecido de pouca qualidade e baixo custo, o que causou ao comandante da FEB, marechal Mascarenhas de Moraes, alguns constrangimentos e dissabores. A escolha do material não foi responsabilidade sua, porém cabia-lhe, como chefe das tropas brasileiras, assumir as falhas. Percebeu-se claramente o desconforto e apreensão dos militares aliados ingleses, norte-americanos, franceses e russos, ao se depararem com os uniformes verde-oliva, muito semelhantes aos dos inimigos alemães, fato que acabou por provocar confusões, sobretudo nos postos avançados e no patrulhamento em setores paralelos ou vizinhos à tropa norte-americana(21).

Apesar das dificuldades, acertos e desacertos, o uso cotidiano do uniforme pelas enfermeiras nos cenários de guerra funcionou como ganho simbólico, uma vez que o uniforme de uma enfermeira pode constituir-se em uma poderosa estreatégia para que elas possam se identificar com a profissão(12).

Ao passarem a integrar a FEB e a trajar seus uniformes, as enfermeiras ineditamente assumiram uma figura-tipo de enfermeira no país, a militar. Suas vestimentas específicas foram ardilosamente modeladas para atuação em uma condição atípica de guerra, mas também representavam visualmente uma norma social de pertencimento àquele grupo. Tanto assim que a assimilação do habitus militar seria favorecida pelo uso sistemático dos uniformes. Isto representa uma estratégia de asseguramento da inserção dessas enfermeiras no campo militar, o que também serviu para fortalecer o sentimento de pertença e de unidade do grupamento mediante a homogeneização de atitudes, gestos e práticas.

Limitações do estudo

Embora a pesquisa tenha sido realizada com número reduzido de imagens, o que pode ser considerado limitação numa análise mais ampla, os resultados encontrados vieram a demarcar, pela comunicação visual, o ingresso de enfermeiras em instituições culturalmente masculinizadas, como as forças armadas.

Contribuições para a área da enfermagem

Esta pesquisa de imagens dos uniformes oficiais das enfermeiras brasileiras e de seu significado enquanto parte do fortalecimento da identidade profissional da enfermeira militar buscou contribuir com a construção da história da enfermagem pela comunicação visual no contexto da II Guerra Mundial.

Quando determinado grupo começa a atuar, a aparência e os vestuários utilizados se enraízam. Os hábitos emergem de forma aparentemente natural no seu meio, sendo reconhecidos por serem entendidos como a maneira de agir em determinada situação. Isso ocorre até que mudanças mais atualizadas sejam valorizadas. Dessa maneira, entende-se que a cultura visual contribui para a identificação do profissional enfermeiro e é continuamente formada e transformada pelos indivíduos nos espaços organizacionais para que os mesmos sejam reconhecidos pelas vestimentas e suas características, como os adornos, as insígnias, a cor, o tipo de tecido e a modelagem.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estudo enfocou no uniforme enquanto indumentária que contém signos da identidade de uma força armada brasileira na II Guerra Mundial, utilizado para reforçar e transmitir valores institucionais por meio da comunicação visual não verbal. Neste sentido, as enfermeiras da FEB, ao trajarem e modelarem seus corpos com uniformes dotados de emblemas, símbolos de identidade profissional, também passaram a dar visibilidade imagética de sua inserção, anunciando a luta simbólica pela inclusão de signos e práticas femininas em um campo culturalmente considerado masculino, durante o conflito mundial. Os efeitos da submissão aos esquemas, normas e rituais do campo militar resultaram numa inserção das enfermeiras sistematicamente demarcada pelas questões de gênero, naquele contexto.

Os uniformes estão presentes em toda a vida militar, desde o recrutamento até a sua baixa, e dão suporte na promoção da autoestima de quem os veste. No caso das enfermeiras da FEB, tal apropriação conferiu distinção no âmbito do EB, mas não necessariamente no campo da enfermagem. Elas permaneceram entre os muros dos quartéis mesmo após o término da guerra e, por conseguinte, desconhecidas.

Sobre esses signos do esquecimento, a Canção do expedicionário (música emblemática dos cidadãos soldados que foram incorporados à FEB durante a II Guerra Mundial) questiona em sua letra: "você sabe de onde eu venho?" Isto inclui as enfermeiras, e ainda espera resposta.

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Recebido: 12 de Junho de 2018; Aceito: 22 de Julho de 2018

Autor Correspondente: Margarida Maria Rocha Bernardes E-mail: margarbe@globo.com

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