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Revista de Administração Pública

versão impressa ISSN 0034-7612versão On-line ISSN 1982-3134

Rev. Adm. Pública v.40 n.3 Rio de Janeiro maio/jun. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-76122006000300004 

ARTIGOS

 

Tecendo uma virtuosa "colcha de retalhos": a constituição e interpretação de um corpus lingüístico num estudo sobre reflexividade e articulação empreendedora

 

Weaving a virtuous 'patchwork quilt': the constitution and interpretation of a linguistic corpus in a study about reflectivity and entrepreneurial articulation

 

 

Sérgio Carvalho Benício de MelloI; Marcio Gomes de SáII

IProfessor adjunto da UFPE, pesquisador do CNPq e da Capes e coordenador do Núcleo de Marketing e Tecnologia de Negócios — Núcleo MTN/Propad/UFPE. PhD em marketing pela City University, London (Cass Business School). Endereço: Av. dos Economistas, s/nº, 1º andar, salas D-28, D-30, D-39 — Cidade Universitária — CEP 50670-901, Recife, PE, Brasil. E-mail: nucleomtn@dca.ufpe.br
IIProfessor assistente da UFMA, pesquisador do Núcleo MTN/Propad/UFPE. Mestre em administração pela UFPE. Endereço: Rua Ceará, 1640-A, casa 203 — Nova Imperatriz — CEP 65907-090, Imperatriz, MA — Brasil. E-mail: mgsa77@hotmail.com

 

 


RESUMO

Este artigo apresenta a etapa fundamental de um processo investigativo maior, a constituição e a análise interpretativa de um corpus lingüístico capaz de propiciar avanço na direção apontada em etapa prévia — quando focos e questões de interesse foram consolidados — de um estudo sobre reflexividade e articulação empreendedora. Daí essa "colcha" aqui tecida ser denominada "virtuosa", ou seja, algo capaz (que tem a virtude) de "produzir efeitos". Pretende-se trazer à tona esse processo de entrelaçamento de evidências oriundas das mais diversas fontes e a natural construção desse corpus e das interpretações, à luz do aporte teórico dos autores. Como foi tecido esse corpus? Qual foi sua importância para o avanço deste estudo? Estas são as principais questões. Como resultado, o referido corpus demonstrou ter grande utilidade para acesso e agrupamento de evidências no "caso ilustrativo", e a interpretação, à luz do aporte teórico, de questões importantes (previamente elencadas) para o fenômeno central em estudo: a "articulação empreendedora de caráter reflexivo", por meio das evidências encontradas no caso.

Palavras-chave: corpus lingüístico; interpretação hermenêutica; reflexividade; articulação empreendedora.


ABSTRACT

This article presents the basic stage of a larger inquiry process, the constitution and the interpretative analysis of a linguistic corpus capable of advancing in the direction indicated in a previous stage — when focus and interest issues were consolidated — of a study on reflectivity and entrepreneurial articulation. Thus this 'patchwork quilt' that is weaved here is called 'virtuous', something capable (that has the virtue) 'of producing effect'. The objective is to present this process of interlacement of evidences of different sources and the natural construction of this corpus and the interpretations, according to the authors' theoretical framework. How was this corpus weaved? What was its importance for the advancement of this study? These are the main questions that guide this article. As result, the related corpus demonstrated to have great utility for access and grouping of evidence in the 'illustrative case', as well as the interpretation, according to the theoretical contribution, of important issues (previously listed) for the central phenomenon in study, the 'entrepreneurial articulation of reflective character', by means of the evidence found in the case.

Key words: linguistic corpus; hermeneutic interpretation; reflectivity; entrepreneurial articulation.


 

Costura
Arte de minha vó
Entrelaçar linhas
Aprender com a experiência.

 

1. Primeiras linhas

As interpretações das notas escritas no campo, ou seja, a descrição densa previamente realizada e apresentada em Sá (2005), consolidaram os focos e questões de interesse da investigação maior da qual este artigo faz parte. O pensar, o agir e o interagir do ator central no que se refere (ou se aproxima) à idéia de "reflexividade" (Beck, 1992, 1997); a historicidade dessas articulações, como elas se dão, ou seja, o que pensam o ator central e alguns dos pares (com os quais ele interage) sobre suas respectivas relações nesse escopo "reflexivo".

Ao avançarmos com esta pesquisa, nos defrontamos com um dilema. Ao mesmo tempo em que se tornou nítida a necessidade de que esses focos de interesse fossem priorizados, uma investigação composta de várias partes — que se entrecruzam e se sobrepõem em sua execução — não pode desprezar um sem-número de evidências importantes, originárias de diversas fontes, que emergiram naturalmente no período de campo. O que então decidimos? Tecer uma virtuosa "colcha de retalhos". Ou seja, constituir e analisar interpretativamente um corpus lingüístico capaz de nos propiciar avanço na direção que apontamos — dos nossos principais focos de interesse. Daí essa "colcha" que tecemos ser denominada "virtuosa", ou seja, algo capaz (que tem a virtude) de "produzir efeitos" — sendo essa uma das definições que Houaiss (2001) apresenta para a palavra e que será usada aqui.

Propomos trazer à tona esse processo de entrelaçamento de evidências oriundas das mais diversas fontes e a constituição e análise interpretativa de um corpus lingüístico que, aqui denominaremos "colcha", será parte essencial para o desenrolar da investigação maior da qual falamos. Para tal, iremos relatar quais são e como encontramos esses "retalhos" dos quais dispomos e, em seguida, em que são importantes. Ou seja, buscaremos mostrar como e para que "tecemos essa colcha" — a interpretação que faremos a partir dela, à luz de nosso arcabouço teórico, ou seja, o "efeito produzido".

Como foi tecido esse corpus lingüístico do qual falamos? Qual é a sua importância para o avanço deste estudo? São as duas questões que nos guiam. Mas antes de irmos além, é preciso oferecer ao leitor uma idéia geral do estudo maior do qual falamos.

 

2. Sobre a origem de nossa matéria-prima...

"Reflexividade e articulação empreendedora na sociedade contemporânea: podemos fazer diferente?" é o título da investigação maior na qual foi "costurada a colcha" que é o foco central deste artigo. De que se trata? Onde se passa? Responder a essas duas questões é nossa obrigação para que o leitor possa se situar e continuar a nos acompanhar.

De que se trata?

Neste início de novo milênio, inúmeras "tensões contemporâneas" (isto é, "a ditadura do consumo", a desigualdade social, o "fim do emprego", as mudanças nas noções de espaço e tempo, as problemáticas ecológicas) nos levaram a refletir sobre uma questão apresentada por Mills (1982:17): "Quais as principais questões públicas para a coletividade e as preocupações-chave dos indivíduos em nossa época?" Não estariam essas "questões" e "preocupações" inter-relacionadas numa visão de mundo "reflexiva"? (Beck, 1992, 1997)

A teoria da estruturação de Giddens (2003) nos ofereceu a inspiração inicial para reflexões sobre o imbricamento que acreditamos existir entre agência e estrutura. As "idéias reflexivas" do sociólogo alemão Ulrich Beck nos mostraram que, quer a observemos ou não, a "reflexividade" é algo inerente ao nosso tempo, cabendo-nos decidir qual postura adotar ao percebê-la. Ou seja, quanto mais avança a modernização das sociedades modernas, mais elas ficam dissolvidas, consumidas, modificadas. Continuaremos tratando os problemas herdados da "era industrial" a partir de uma visão de mundo moderna tradicional (isto é, ortodoxa ou "simples") ou iremos nos confrontar com eles reflexivamente? Pensaremos e agiremos de acordo com uma racionalidade instrumental tradicionalmente moderna ou seremos capazes de entender que esse quadro que nos é dado pede por uma racionalidade "diferente"?

Neste estudo, abordamos um tema relacionado ao comportamento empreendedor: a articulação empreendedora de "caráter reflexivo" que surge como fenômeno observado tendo em mente nosso objetivo: construir um argumento teórico que apresente como esta pode se dar na sociedade contemporânea? Por meio de quais práticas esse "caráter reflexivo" pode ser observado? Quais são os significados inerentes a ela? Em suma, podemos fazer diferente?

Observamos a figura do empreendedor "para além" do "herói mitificado neoliberal" (Ogbor, 2000). Diferentemente do "mito", em nossa concepção, esse também pode ser um ator social, como outro qualquer, capaz de apresentar "indícios de reflexividade" em suas ações e compartilhá-los em suas articulações.

Partimos ao campo para buscar apoio empírico a essa argumentação. A estratégia partiu da perspectiva metodológica da "sociologia do cotidiano" de Pais (2003). Ela nos conduziu a bisbilhotar, num "estudo de caso ilustrativo" (Stake, 1994, 1995), "indícios reflexivos" na ação e articulação de um empreendedor peculiar. Ao observarmos as características sociais, psicológicas e comportamentais desse empreendedor, o contexto de sua ação, seu cotidiano, múltiplas técnicas de pesquisa adotadas permitiram a formação de um corpus lingüístico que aqui apresentamos.

Onde se passa?

Em Pernambuco, um pólo tecnológico surge e se projeta com grande destaque no cenário da tecnologia da informação (TI) do país. Nesse pólo, Marcelo Fernandes é sócio da Global Tech (empresa de e-solutions e e-results) e, ao mesmo tempo, preside a filial estadual do Comitê para Democratização da Informática (CDI) — ONG que trabalha visando a inclusão social e o resgate da cidadania de jovens de comunidades de baixa renda pela inclusão digital.

A Global Tech (GT) tem hoje sua sede no Porto Digital, estrutura de negócios viabilizada com investimentos do governo do estado para "embarcar" empresas que trabalham com TI. Anteriormente ocupava duas salas no Instituto Tecnológico do Estado de Pernambuco (Itep) — uma outra estrutura, também viabilizada pelo governo do estado, para a incubação de empreendimentos de base tecnológica (entre outras atividades) e que hoje é uma fundação de direito público vinculada à Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente do Estado de Pernambuco. A sede do CDI-PE fica no Itep, ocupando as duas salas anteriormente ocupadas pela GT e outras nove.

Em entrevista realizada dentro do escopo de uma outra investigação (prévia a esta, mas realizada pelo mesmo núcleo de pesquisa), observou-se que o empreender de Marcelo era peculiar. Sua inserção em problemáticas sociais de forma ativa (e empreendedora) tornava sua ação "diferente". Mais do que isso, a forma como costurava parcerias, ou seja, se articulava, nos levou a escolhê-lo como caso ilustrativo para o estudo recentemente realizado.

Durante o período de um mês, um de nós o acompanhou diariamente, e tentou registrar, de diversas formas, tudo aquilo que julgava ser importante. Esses registros reunidos compuseram o nosso corpus lingüístico.

 

3. O que entendemos por uma virtuosa "colcha de retalhos"?

Retornando ao "ofício da costura". O que concebemos como um corpus lingüístico? Essa pergunta é análoga a que já fizemos. Para que o leitor entenda o que intentamos neste artigo, é preciso também assimilar o que queremos costurar. Essa compreensão é básica para que prossigamos...

Originária do latim, a palavra corpus significa conjunto, corpo. Geralmente, quando utilizada no meio acadêmico, é compreendida como um conjunto temático de dados, informações textuais e documentos. Mas, para Barthes (1964), um corpus é uma coleção finita de diversos materiais (sons, imagens, escritos, entre outros) reunidos arbitrariamente por um pesquisador. Seguindo por esse caminho, extrapola-se o significado convencionalmente aceito e abre-se espaço para que ele seja constituído por múltiplos "materiais de linguagem" dos mais diversos, independentemente da forma que se apresentam.

Para nós, um corpus lingüístico ou, em nossa analogia, uma virtuosa "colcha de retalhos", é um conjunto de fontes lingüísticas, que possibilita a "produção de efeitos", ou seja, gerar evidências basilares e significativas para o estudo de fenômenos que se dão no contexto do qual emergiram os textos constituintes do corpus. Entendemos um corpus (lingüístico) como uma representação (também lingüística) de uma determinada realidade num determinado tempo, ou seja, um contexto.

Apesar de Bauer e Aars (2002:44-45) não recomendarem a mistura de textos, sons e imagens num mesmo corpus, julgando que o material que o compõe deva ser homogêneo, esse tipo de delimitação não cabe em nosso "tecer". O que é decisivo para que alguma fonte seja ou não agrupada em nosso corpus é a sua significância para a compreensão que buscamos ter sobre o contexto e, conseqüentemente, o fenômeno de interesse em questão. Para surpresa dos tradicionalistas, as "experiências do vivido" (Pais, 2003), os sentimentos, as percepções narradas pelo pesquisador também constituem nosso corpus (Sá, 2005). Para nosso alento, Barthes (1964) já nos fornecia respaldo teórico necessário para que possamos dar continuidade ao ofício aqui escolhido.

 

4. Conhecendo os "retalhos"

Ao nos projetarmos em direção ao campo empírico, já imaginávamos que nossa investigação iria constituir (e se constituir a partir de) uma pluralidade de fontes e evidências empíricas. No entanto, o que não esperávamos é que essa diversidade fosse tão fértil e que, dessa mesma forma, se entrelaçasse. Nos sentimos então "tecendo uma virtuosa colcha de retalhos", sendo esses "retalhos", tanto ricos em si quanto ao serem congregados nessa "colcha". Desse modo, acreditamos ser necessário apresentá-los ao leitor, explicando-os um a um, assim como se deu esse "tecer". É a isso que esta seção será dedicada. Em linguagem acadêmica, queremos explicar os procedimentos metodológicos empregados. Sendo assim, pedimos ao leitor que espere, até a próxima seção, para que vejamos o "que há nas entrelinhas?", e assim clarificar qual foi a importância, para o avanço deste estudo, do que foi constituído a partir desses procedimentos.

As notas de campo. Ao longo do período (um mês) em que um de nós passou em campo, acompanhando o dia-a-dia do "caso ilustrativo" (Stake, 1994, 1995), um caderninho foi "fiel companheiro", recebeu um sem-número de notas diárias. Elas foram sistematicamente transcritas (também diariamente) e, posteriormente, geraram dois dos "retalhos" de que aqui falamos.

O primeiro deles abarca tudo aquilo de inusitado, inesperado, os sentimentos, as impressões e percepções, enfim, aquilo que DaMatta (1978) chamou de "anthropological blues" e que nós, aqui em administração, simplesmente chamamos de "blues" e dissemos ser também "audível" na pesquisa em administração. O segundo engloba as notas que foram produzidas com "estímulos do hemisfério esquerdo", o da razão. Elas trazem as observações de foram "descritas de forma densa" (Geertz, 1978), ou seja, interpretadas pelo próprio pesquisador que as escreveu. Assim como são os hemisférios de nosso cérebro, "blues" (emoção) e razão são "retalhos" complementares e, naturalmente, engendrados. No entanto, além de serem partes desse corpus lingüístico, o "blues" e a razão que emergiram dessas notas não ficaram restritos a elas. Também se expandiram por todo o processo investigativo — assim propiciando uma natural interligação entre suas partes. Explicando melhor, como as demais fontes insurgiram ao longo desse período de campo, elas são permeadas (e permeiam) pelas notas que foram escritas simultaneamente (Sá, 2005). Seguindo em nossa analogia, é como se "esses dois retalhos fossem compostos pela mesma linha utilizada na costura de toda a colcha"...

As conversas e reuniões observadas e gravadas. Durante esse período, conversas informais e reuniões, ou seja, "interações lingüísticas" de terceiros foram observadas e tiveram seus áudios gravados. O papel do pesquisador era justamente observá-las, anotar pontos mais significativos (principalmente aqueles que estão "além do dito") em seu caderno e gravá-las para posterior análise.

Essas interações (assim como as observações e as gravações) se mostraram ricas por serem extratos das interações cotidianas das quais toma parte o ator central, foco da parte empírica deste estudo.

Nesses momentos, o ator central sempre concedia "um minuto" inicial para que eu me apresentasse e solicitasse permissão de gravação da interação aos demais participantes. É válido salientar que, apenas num momento, em que nitidamente tratava-se de "assunto pessoal", foi solicitada a não-participação do pesquisador e, também, apenas em uma reunião, houve um pedido explícito para a sua não-gravação. Nas demais reuniões e conversas informais das quais o nosso "ator central" participou e o pesquisador o acompanhou (e julgou ser apropriado o registro com gravação) não houve qualquer impedimento quanto à gravação das mesmas.

As conversas/entrevistas não-estruturadas. Após uma primeira semana, muito mais dedicada apenas à observação do modus operandi do empreendedor, uma série de "interações lingüísticas" entre o pesquisador e o ator, assim como com demais atores que o circundavam, começou a, naturalmente, acontecer.

Com base nessas interações, anotações também foram feitas no caderninho, algumas com base na gravação da própria fala/impressões do pesquisador ao sair do ambiente no qual se deu a interação. A espontaneidade dessas interações se deu de forma progressiva. Como o pesquisador passou a se fazer presente no cotidiano, lócus da investigação, a forma costumeira como sua presença passou a ser encarada possibilitou-lhe se tornar bem mais do que um "estranho que chega para fazer perguntas"; aos poucos foi absorvido pelo contexto e tornou-se mais uma das pessoas que, por ora, compartilha de determinados espaços. Essa forma de obter informações se mostrou de extrema valia, pois além de ser uma maneira menos intrusiva e mais natural de se acessar informantes, "reduz o viés e os aspectos ocultos" inerentes à "fala captada numa entrevista", ou seja, a transmutação que pode (e tende) a acontecer num "inquérito ou sabatina investigativa".

Muitas delas não foram gravadas, apenas tiveram alguns dos seus pontos de destaque anotados posteriormente, mas em algumas outras — nas quais o pesquisador acreditou não ser o gravador um "elemento inibidor" — foi possível a gravação. De uma forma ou de outra, ambas compõem um "retalho" significativo para essa "colcha" que aqui está sendo engendrada.

"Documentos", artefatos materiais e mensagens eletrônicas observados. Durante o processo, aqui, acolá, o pesquisador se deparou com notas e matérias em mídia impressa, entrevistas e reportagens em mídias televisivas, certificados de participação em cursos, prêmios recebidos, certificados de afiliações a associações, certificados concedidos a parceiros, catálogo com os cartões de visita (pertencente ao empreendedor), folder institucional, material de papelaria, correspondências (impressas), cartões de visita (que me foram entregues) e até mesmo crachás de identificação/participação em eventos; enfim, todos esses artefatos espontaneamente expostos e/ou obtidos não poderiam ser, de forma alguma, desprezados.

Mensagens eletrônicas também foram observadas, ora durante sua escrita, ora após, mas sempre com a anuência do ator central. A ele foram solicitadas algumas mensagens específicas (cujo teor o pesquisador julgou importante) e outras que ele julgasse serem significativas no sentido de serem/representarem (um pouco) de suas inúmeras "interações virtuais" diárias. Mensagens de ambos os tipos foram encaminhadas ao pesquisador.

As entrevistas aos pares e ao ator central sobre suas relações. Foram realizadas em decorrência de um dos focos de interesse consolidados em etapa prévia: a visão dos que tomam parte dessas articulações, ou seja, o que pensam alguns dos pares (com os quais o ator central interage) sobre suas relações com ele, assim como o que ele pensa sobre suas relações com alguns dos seus pares. Concebemos quatro questões elementares a serem agrupadas num roteiro para entrevista semi-estruturada e apresentadas a alguns dos pares e ao ator central: a) Qual é a história da parceria de vocês?; b) Como é essa relação?; c) O que os une?; d) Vocês compartilham sonhos e ideais?; (Caso sim, quais?).

Essa entrevista foi realizada com seis pessoas com as quais o ator central constantemente interage e que representam cinco das organizações com as quais uma e/ou outra das organizações capitaneadas por ele mantêm relação de parceria. As mesmas questões também foram feitas para os três sócios que o ator central tem em uma delas, assim como para ele. A respeito das parcerias uma a uma procedemos da seguinte forma: um de nós disse ao ator central que gostaria de "ouvir algumas histórias" de suas parcerias e, uma a uma, falamos os nomes das marcas das organizações selecionadas (primeiramente aquelas das quais tínhamos o depoimento de um de seus membros com os quais o ator central interage e, na seqüência, outras que julgamos serem também das mais significativas), em seqüência, e, à medida que a história transcorria, recolocávamos as questões que também já tinham sido previamente mencionadas, mas que não foram contempladas na narrativa. Fizemos da mesma forma em relação aos seus sócios, entendendo-os como parceiros membros de uma unidade organizacional da qual são sócios (leia-se: Global Tech). Todas as entrevistas também foram gravadas.

Conversas/entrevistas com o ator central. Foram muitas. Conversas sobre os mais diversos temas que naturalmente emergiam em seu/nosso cotidiano e entrevistas realizadas de duas formas distintas, tanto sem nenhuma estruturação prévia — acontecendo ao longo dessas conversas sobre esses temas que emergiam ou então alguns temas de interesse que eram provocados pelo pesquisador, porém sem qualquer tipo de roteiro prévio para o seu desenrolar — quanto às semi-estruturadas, tendo sido essas, basicamente, de dois tipos: a que se voltou para as questões que acima apresentamos e relacionadas a histórias de parcerias e relacionamentos específicos; e um roteiro cuidadosamente consolidado ao longo desse período de campo (Sá, 2005) e executado ao final.

Ao final, como ficou essa "virtuosa colcha"? Como já dissemos, as notas de campo foram transcritas diariamente e reunidas num documento por meio de textos que foram relidos, tanto diariamente — imediatamente após o término de sua transcrição, tendo nesse momento seus trechos "fortes" destacados — quanto foram relidos por diversas vezes para que pudessem ser devidamente considerados. Essas foram "as linhas que serviram à costura". Nesse ínterim, diversas "notas nas notas" foram feitas, ou seja, um de nós se ateve a fazer comentários e provocações críticas, levantando e/ou recuperando questões e aspectos que, ou estavam explícitos, mas que não foram devidamente atentados na(s) leitura(s) anterior(es), ou então estavam nas entrelinhas, fora do alcance de um primeiro olhar. Todas as evidências coletadas via gravação de áudio (num total de cerca de 11 horas de fitas, todas transcritas) foram escutadas antes de serem encaminhadas para a transcrição e, escutadas novamente, após a execução (por uma terceira pessoa) da transcrição. Todas as transcrições recebidas foram lidas paralelamente à escuta do respectivo áudio de cada uma delas. Nessa releitura e escuta simultâneas, as correções das falhas e imprecisões, os devidos ajustes, a inserção de informações significativas (principalmente quanto à pragmática do que foi dito, ou seja, gestos, semblantes, olhares e demais informações importantes que apontam indícios do que está "para além do dito"), assim como uma demarcação de trechos "fortes" (de maior destaque para posterior análise); enfim, todas essas atividades foram realizadas pelo pesquisador. Essas transcrições (revisadas e comentadas) foram agrupadas assim como as notas de campo (também revisadas e comentadas). O resultado final: uma "colcha de grandes dimensões"...

 

5. Sobre o método

Na mitologia grega, Hermes, filho bastardo de Zeus, era tido como o "mensageiro dos deuses", detentor da capacidade de "abrir coisas fechadas", interpretar "os desejos dos outros", desvendar os "significados das coisas".

Tendo origem na tradição mitológica da Grécia Antiga, o termo "hermenêutica" foi cunhado no século XVII e se refere ao problema da compreensão e/ ou interpretação do significado de textos, ações humanas e produtos culturais em geral. Inicialmente relacionado ao estudo de textos bíblicos, a partir do século XIX o conceito foi estendido para o campo histórico por alguns teóricos alemães da "escola histórica" — ficando essa fase conhecida como "hermenêutica romântica" — e assim passou a ser vista como um método de interpretação histórica também relativo às ciências sociais. Ao se observar a obra dos "românticos" — com destaque para Wilhelm Dilthey, por muitos considerado o "pai" da ciência social compreensiva —, pode-se dizer que a ciência social hermenêutica não se distingue, em suas origens, da ciência social compreensiva ou interpretativa. Já no século passado, a hermenêutica assume um caráter mais filosófico no sentido de que compreender e interpretar não devem ser apenas atividades relacionadas a procedimentos científicos, mas sim relativas à experiência humana (Hamlin, 1998:85-89).

Ao falar sobre entendimento, interpretação e hermenêutica, Outhwaite (1985:19) afirma que:

A relação entre esses termos não é esclarecida por qualquer dos escritores analisados nos capítulos seguintes [refere-se a Wilhelm Dilthey, Heinrich Rickert, Georg Simmel e Max Weber] (...). Dadas essas diversidades e inconsistência de uso, não se faz muito necessário impor uma distinção rígida entre "entendimento" (Verstehen) e "interpretação" (Deutung ou Interpretation).

Aproximadamente, pode-se dizer que a "interpretação" tende a vir de uma perspectiva teórica particular (como na "interpretação marxista da história"), enquanto "entendimento" sugere uma perspectiva mais abrangente.

Demo aponta que a hermenêutica, como metodologia, refere-se à arte de interpretar textos. Partindo da constatação de que a realidade social, e principalmente a comunicação humana propriamente dita, possui múltiplas dimensões, nuances e variações que é fundamental atentar não só para "o dito", mas igualmente para o "não-dito". Dessa feita,

a hermenêutica se especializa em perscrutar os sentidos ocultos dos textos, na certeza de que no contexto há por vezes mais do que no texto. Esgueira-se nas entrelinhas, porque nas linhas está, por vezes, precisamente o que não se queria dizer. Assim, um discurso não se entende apenas na sua forma, no seu formato, na sua gramática, mas no conteúdo que quer dizer (...).

Nenhum conteúdo está todo no texto, pois se tal coincidência existisse, nada precisaria de explicação. Ademais, não lemos; interpretamos; o que significa:

ao ler, fazemos dizer, como o tradutor sempre é pelo menos um pouco "traidor". Nada se compreende sem interpretar, porque é a mesma coisa

(Demo, 1995: 247-248, destaque nosso)

Acompanhamos o mesmo autor e obra e, fazendo uso de suas palavras, acreditamos ser a hermenêutica "(...) a metodologia da interpretação, ou seja, dirige-se a compreender formas e conteúdos da comunicação humana, em toda a sua complexidade e simplicidade". Assim como, "(...) coloca-se a missão essencial de compreender 'sentidos', ou seja, o conteúdo típico humano que se exprime em qualquer contexto histórico, no qual não existem apenas fatos dados, acontecimentos externos, mas também 'significação', 'sentido', 'valores'" (Demo, 1995:249).

Agora estamos prontos para seguir adiante! Apenas lembremos o leitor que nosso esforço interpretativo se dará, naturalmente, à luz de nosso aporte teórico (Sá, 2005).

 

6. O que há por entre as linhas?

Até agora trouxemos à tona, principalmente, os procedimentos metodológicos de que lançamos mão para a constituição do corpus lingüístico, a "colcha" da qual tanto falamos. Mas a que este nos serviu? Essa questão soma-se à que fizemos logo nas "primeiras linhas": qual é a importância desse corpus para o avanço deste estudo? No entanto, ambas podem ser revistas e recolocadas em melhores termos: o que, de fato, pudemos interpretar a partir do que constituímos ao longo desse laborioso "tecer"? Por que dizemos ser virtuosa essa "colcha"? Essas são questões que nos desafiam a vasculhar toda a "colcha", "retalho por retalho", linhas e, principalmente, por entre elas.

Também se faz necessário uma ressalva: é preciso deixar claro que esse corpus é apenas uma representação do real, uma construção de quem pesquisa (Pais, 2003). Quando perguntamos "o que há por entre as linhas?", queremos, por intermédio do que foi entrelaçado, ou seja, dessa nossa construção, ir além, compreender o que há de significativo (para o escopo deste estudo) no contexto observado, nas peculiaridades do cotidiano, da ação e articulação do empreendedor ator central, assim como alguns dos significados e interesses inerentes ao fenômeno em questão. Não apenas reduzidos às especificidades do "caso ilustrativo" escolhido, mas sim retomando nossa "lente teórica" e — de sua posse, voltando ao caso — entrelaçando com esse "olhar", indícios empíricos que apóiem nossa argumentação. Reiteramos que a "colcha" somente nos tem utilidade se apoiar nossa interpretação — e, conseqüentemente, a argumentação que costuramos em Sá (2005) – sobre o que está por entre suas linhas.

Antes de irmos adiante, é preciso recuperar as indagações norteadoras que levamos ao campo:

a) Como pode se dar a "articulação empreendedora de caráter reflexivo" na sociedade contemporânea?
b) Por meio de quais práticas esse "caráter reflexivo" pode ser observado?
c) Quais são os significados inerentes a esse tipo de articulação?

Obviamente, percebe-se que a indagação (a) e seus desdobramentos não são questões propriamente voltadas para o trabalho de campo. Serão abordadas em reflexões posteriores ainda no âmbito da investigação da qual este artigo faz parte. Agora, buscamos compreender desdobramentos pertinentes às indagações (b) e (c).

Se o que há por entre as linhas "da colcha", ou até mesmo por baixo dela, é mais do que uma realidade, um contexto, o cotidiano da ação e articulação do ator central de nosso "caso ilustrativo", o esforço que aqui faremos é extrapolar essa "colcha". Precisamos interpretar (um fenômeno) com o seu apoio, mas não presos a ela. É nesse intento que recorreremos tanto a trechos ilustrativos dos diversos "retalhos" (previamente apresentados) que a compõem quanto a diversos teóricos que se fazem presentes no arcabouço teórico que propicia sustentação e sentido para nossas interpretações. Ambos ("retalhos" e teóricos) fornecem subsídios para o esforço interpretativo que se segue. As indagações (b) e (c) estarão implícitas nas próximas linhas. Seus respectivos desdobramentos serão explicitados, paulatinamente, à medida que forem sendo trabalhados. Vamos em frente!

De início, é importante explicitar que as análises interpretativas a serem apresentadas na seqüência são referentes ao escopo das respectivas questões que as antecedem e se encaixam no argumento engendrado em Sá (2005). Baseiam-se na totalidade desses trechos que se encontram espalhados pelos "retalhos" que compõem o corpus e não apenas nos que serão relacionados a seguir com fins ilustrativos.

Após vasculharmos todo o corpus, constatamos que muitos trechos evidenciam uma primeira questão: como o ator central acessa seus pares e se articula com eles? Os trechos reunidos no extrato A nos servem como exemplos.

[Ex A]1 Marcelo redige um e-mail (que, pra variar, começa com uma graça!) para alguém da ANI,2 agradecendo o apoio, mas já fortalecendo os laços e declarando suas expectativas de apoio para projetos futuros do CDI. (t1: NC1)

[Em conversa sobre a criação de um informativo das atividades do CDI.]

Durval: (...) É ser totalmente transparente?

Marcelo: Totalmente transparente. (...)

Marcelo: Porque eu acho que é uma maneira da gente crescer e, ao mesmo tempo, uma maneira da gente se resguardar. Se eu estou querendo que você interaja comigo, eu tenho que lhe dar, pelo menos, a oportunidade de fazer isso. (...) (t2: RG1)

[Indagando-o sobre a criação do dia da inclusão digital no estado.]

Pesquisador: Como foi a história, mesmo, com José Carlos [deputado estadual]? (...)

Marcelo: (...) o CDI precisava colocar, de uma forma geral, a discussão da inclusão digital na discussão pública, mesmo, do governo e tal e, por coincidência, a gente estava procurando fazer um trabalho desse aqui, e a DMI, que é a empresa que faz assessoria de imprensa da gente, também faz a de José Carlos. E aí, eu comentando com o Antônio [jornalista e assessor de imprensa de ambos], ele disse: "olha, eu faço a assessoria de um deputado, deixa eu conversar com ele". E aí ele falou. Eu tive algumas reuniões com José Carlos, a gente foi explicando o que era, apresentando o CDI, a missão, e tal, até que ele encampou a idéia, e resolveu apresentar um projeto que foi aprovado por unanimidade e Pernambuco tem uma lei que diz que no último sábado do mês de março de todos os anos será um dia para comemorar e refletir sobre a inclusão digital no estado. (t3: EN1)

[Sobre um projeto em desenvolvimento com um parceiro.]

Pesquisador: Tem uma história que eu estou querendo escutar, que você não terminou ainda, que é a do "provedor social"3 (...)

Marcelo: Normalmente, como é que eu faço com essas coisas. Eu não podia operar um provedor aqui (...). Então, eu peguei uma pessoa que eu achava de relativa confiança (...) um colega do Comitê Gestor da Internet,4 que tem provedor. E aí é um cara que, poxa! Então, a gente foi almoçar um dia, num dos raros dias que a gente teve reunião com almoço. E aí nós conversamos e aí eu disse: rapaz, eu tive uma idéia maluca. Então, eu contei para ele como se fosse a minha idéia. Eu não o envolvi. E ele, sabe, do tipo, joga um verde e o cara, poxa, interessa? Interessa! Então, é isso que a gente está trabalhando agora. (t4: EN2)

As interações midiáticas, assim como os encontros presenciais do ator central (com seus pares) são, geralmente, introduzidos como rapport. De múltiplas formas, mas sempre com agilidade, combina ações, reuniões, parcerias, enfim, se articula. Construir e manter laços pessoais em relacionamentos entre pessoas que representam organizações faz parte de seu modus operandi. Esse tipo de ator é um exímio construtor e mantenedor de relações, notadamente um sujeito relacional. A cordialidade — característica das relações sociais do povo brasileiro (Holanda, 1995) — é um aspecto que se faz presente e propicia a manutenção e a pessoalidade dessas relações. Ter conhecimento e domínio do aparato tecnológico inerente a uma "sociedade em rede" (Castells, 1999a), assim como da força das mídias contemporâneas são elementos também facilitadores de relações cotidianas em pleno século XXI.

Além da credibilidade, transparência é um condicionante necessário nesses tipos de relacionamentos — ao menos sob a ótica de um "ator reflexivo". Ela é tida como um instrumento capaz de viabilizar aprendizagem e, principalmente, catalisar "boas impressões" junto a instituições financiadoras. Demonstrar credibilidade com transparência é uma estratégia para gerar mais interação.

A política naturalmente surge nesse contexto, quer seja no "subpolítico" (Beck, 1997) ou mesmo no campo político (estrutura formal) em si. Esse tipo de articulação se faz necessária para a "confrontação reflexiva" (Beck, 1992, 1997). Muito embora não tenha demonstrado consciência da forte presença desse componente em sua atuação, o ator central interage politicamente de forma intensa. Claramente há penetração no campo político de uma atuação que tem origem no "subpolítico". Essa é uma tendência observada na sociedade contemporânea (Castells, 1999b; Chomsky, 2002); os diversos movimentos e organizações que se confrontam com algumas das "tensões contemporâneas" buscam esse espaço nas esferas públicas de discussão "mundo afora", "reinventando o político" (Beck, 1997), lutando por voz não somente na mídia e junto às comunidades/públicos interagentes, mas também nas instâncias formais do Estado. A importância de discussões e políticas públicas pertinentes a uma "sociedade de risco" é atentada e, conseqüentemente, observada nas articulações estratégicas.

Enquanto a "ditadura do movimento" — imperante no início deste novo milênio praticamente — nos obriga a viver em "alta velocidade" agindo de forma irrefletida, tornando-nos cada vez mais "corpos sem vontade" (Virilio, 1997), um "ator reflexivo" procura por espaços em suas interações para inserir as questões "reflexivas" com as quais se envolve. A "agenda" e, principalmente, a mentalidade das pessoas precisam ser modificadas nesse sentido. Para isso, tecer fortes "teias relacionais" é de grande utilidade. É por entre suas "brechas" que "desafios de confrontação" são inseridos como tema capaz de interligar pessoas — que deles podem passar a compartilhar. Inserir esses desafios no convívio social pode, ao mesmo tempo em que "aliados" são conquistados, estreitar relações.

Seguindo em nosso esforço interpretativo, constatamos outros tantos trechos que evidenciam as demais questões que nos são importantes: quais "indícios do cotidiano" nos apontam "ações e interações reflexivas"? Por meio de quais práticas "competências de confrontação" são desenvolvidas? Quais "posturas e ações de confrontação" podemos observar nesse processo? No extrato B estão reunidos os trechos exemplificadores quanto a essas questões.

[Ex B] Marcelo chega e fala-me enquanto almoça... assim que termina pede os certificados que entregará hoje aos parceiros que contribuíram com o trabalho do CDI. Ressalta a importância de valorizá-los e reconhecer o que fazem. Em algum momento me diz, "chamamos hoje aqui os grandes parceiros para mostrar o que eles estão apoiando...". (...) Tem início o "evento" e Marcelo agradece aos primeiros parceiros que acreditaram na idéia. (...) O certificado diz, "O CDI agradece à ____ por toda contribuição dada em prol da Inclusão Social através das ferramentas de Tecnologia da Informação" [AM1]. (...) Marcelo mostrou seu poder de articulação (...). O Eduardo veio de São Paulo somente para o evento, a Adriana, de Brasília pelo mesmo motivo. (t1: NC2)

[Em reunião com parceiros da ENE (empresa), Marcelo fala sobre sua experiência numa formação promovida pela GOL.]

"No ano retrasado, passei um ano num curso de uma formação. E numa parte da discussão, a gente foi um dia dormir na rua. (...) Porque a gente tem uma visão da cidade onde você até vê isso e ignora ou, no máximo, acaba de fechar o vidro do carro. E você convivendo com eles [meninos de rua] e aí teve um deles que tem 12/13 anos, tinha a idade do meu filho, e ele começou a conversar com a gente e aí nós fomos com um orientador que já trabalha com eles. (...)" (t2: RG2)

Pesquisador: Fundação GOL: qual é a história dessa parceria?

Marcelo: A Fundação GOL foi o primeiro financiador para o CDI Pernambuco. (...) É um relacionamento estreito, extremamente positivo. A GOL contribuiu em tudo, em formação, minha principalmente [ver anteriormente t2: RG2] e das pessoas [que trabalham no CDI]. (...) Desde o diretor geral, que é o Tarcísio, até a gerente que acompanha a gente, que é a Zuleika, o diretor do projeto, que é o Saulo. Enfim, são pessoas que têm proporcionado um crescimento, tanto pessoal como para a equipe, como para o CDI como um todo e de oportunidades que é inigualável. (t3, EP1)

[Em reunião, falam sobre as dificuldades para levar internet para as escolas de informática que o CDI implanta em comunidades de baixa renda.]

Marcelo: Isso é aprendizado! Esse negócio de internet. Eu fico pensando como eu fui inocente nesse negócio de internet.

Durval: Ninguém teve a oportunidade de levar a internet para a comunidade de baixa renda. Ninguém nunca levou. Não tínhamos com quem pegar a experiência (...).

Marcelo: Eu estou dizendo inocente, quer dizer, a gente correu atrás do dinheiro e dinheiro é um fator que, por incrível que pareça, não era o mais importante (...). (t4: RG3)

O interesse central desta investigação maior (na qual este estudo está inserido) é um fenômeno que chamamos de "articulação empreendedora de caráter reflexivo". Não é apenas a "reflexividade" (Beck, 1992, 1997) nem apenas a articulação empreendedora (de um empreendedor) e sim uma possível aproximação das duas idéias, ou seja, um tipo específico de articulação empreendedora que apresente indícios de reflexividade. O "caso ilustrativo" escolhido mostra-se pertinente nesse sentido. Diversas práticas cotidianas de um "empreendedor reflexivo" nos oferecem base empírica para a análise interpretativa dessa questão. A atuação efetiva numa ONG já é, por si só, um indício de que, não apenas voltado para atividades comerciais (empresariais), um "empreendedor reflexivo" se volta para desafios outros (que estão "para além" dos desafios mercadológicos) e se lança num novo embate. Neste, o dever é a "confrontação reflexiva", é enfrentar um foco de "tensão contemporânea". Para tal, articular-se é mister, assim como fazer uso de laços previamente constituídos, construir outros e mais outros, tantos forem necessários e acessíveis. Mas não apenas construí-los, também mantê-los, com a consciência da importância de parceiros para viabilizar ações de confrontação; para isso, pode-se fazer uso das mais diversas estratégias.

A "confrontação reflexiva" não é "algo" que surge apenas com crenças e opiniões. Também não se desenvolve a "consciência reflexiva" necessária a essa confrontação apenas pelas ações. É preciso rever convicções, reconstruir conceitos e transformar posturas, ações. São desafios internos, inerentes a cada indivíduo, e sociais, pois é preciso que a sociedade, em todas as suas instâncias e esferas, passe a se ver (e a ver o mundo) de forma reflexiva, entendendo os reflexos de suas ações e posturas, os mais diversos danos à vida no planeta — gerados pela própria humanidade. Para tal, um movimento parece ser importante: o colocar-se no lugar do outro, entender a situação do outro, vivenciar o que é vivenciado pelo outro, sendo o outro aquele que é excluído numa "era", simultaneamente, da informação e da exclusão (Castells, 1999b). Esse é um tipo de postura que apresenta traços reflexivos, ou seja, possibilita a confrontação. Ações e interações reflexivas são práticas que possibilitam "abrir (cada vez mais) nossos olhos", sair do lócus "privilegiado", cômodo e imóvel de uma vida apenas voltada para questões individuais, e assim condizente com o exacerbado individualismo contemporâneo (Baudrillard, 1998; Bauman, 1999, 2004; Giddens, 2002; Beck, 1992, 1997), ignorando questões que, de uma forma ou de outra, afetam a humanidade, na próxima esquina, no trabalho (ou na ausência dele), na "eterna corrida para lugar nenhum", no calor crescente ou na chuva ausente...

Aqui se entende o ser humano com um eterno potencial desenvolvedor de competências, um "devir humano" (Morin, 1989). Mas, na sociedade contemporânea, quais são as competências que precisam ser desenvolvidas? Nesse sentido, competências de confrontação. E essas competências precisam ser observadas dentro de um processo maior, um "reeducar", uma reformulação no pensar, na racionalidade instrumental finalista hegemônica em todas as esferas da vida humana. Uma eterna busca por preparação (os desafios de confrontação são mutantes, nunca estaremos plenamente preparados para enfrentá-los) para encarar esses desafios, apresentados diariamente, que chamam à confrontação.

Pode o "empreendedor" aprender a viver, pensar, fazer e aprender "na incerteza"? (Caso sim, como o faz?) Como e onde posso observar a racionalidade instrumental em seus atos/fala? E a não-instrumental? Essas são outras questões com as quais fomos ao campo e lá encontramos vários indícios que apóiam (empiricamente) nossa interpretação sobre as mesmas. Os trechos do extrato C, a seguir reunidos, são exemplos.

[Ex C] [Em conversa sobre captação de recursos durante reunião.]

Carlos: (...) você leva o projeto e ela te dá o dinheiro?

Marcelo: Isso. Tem as duas coisas. Tem umas que dizem assim: "eu só apóio, se for integralmente gasto nas escolas. Eu não quero contribuir em nada para a sua infra-estrutura daqui". Aí eu tenho que correr para outro financiador que pague a minha infra-estrutura. A gente hoje tem vários financiadores, e aí é mais ou menos essa discussão que a gente estava tendo. (...) Então, quando eu estou conversando com você, eu já tenho que falar: a ______ [organização X] tem o potencial de fazer isso e isso. Então, eu vou desde a primeira conversa, a negociação, a primeira oferta que eu lhe fiz, você me fez uma contra-oferta, isso vai ficando documentado até chegar a ponto da execução. (...) agora, a gente está com um déficit muito grande de máquinas nas escolas. Tem máquina velha quebrando, e a gente está correndo atrás. (...) E aí você vê, por exemplo, que daqui para lá [se referindo e apontando para demais salas da sede da ONG], a gente não tem dinheiro para pagar energia elétrica. (...) Por fim, a gente queria, justamente, aproveitar dia 22, que vai ser o primeiro dia da inclusão digital por lei no estado, e aí com a influência de vocês, trazer gente para cá para dizer o seguinte: "olha, a gente está precisando de... a gente não precisa de uma empresa que participe com milhões para cá. A gente precisa, talvez, de 20 empresas que participem com R$700 por mês" (...).

[Sobre o Conselho Deliberativo do CDI matriz e do CDI-PE, em formação.]

(...) Então, o que eles fazem é usar a rede de influência para captar para o CDI. E aí é literalmente isso (...).

(t1, RG4)

[Em entrevista concedida a meio de comunicação em alusão ao dia da inclusão digital no estado.]

Entrevistadora: O que Pernambuco conquista com a inclusão digital de fato acontecendo aqui no estado?

Marcelo: Eu acho que conquista, principalmente, o direito de você ter justiça social. Conquista o direito das pessoas terem oportunidades iguais (...). Eu acho que a inclusão digital é o verdadeiro caminho para a inclusão social. (...) isso não pode ser restrito para um número pequeno de pessoas. É um crime que o país comete não levando a inclusão digital e a inclusão social para todos. (t2: AM2)

A incerteza é algo inerente à sociedade contemporânea (Giddens, 2000) e, por mais que muito ainda se tente "reduzi-la" a formas de pensar e agir tradicionalmente modernas (Beck, 1992, 1997), não mais podemos limitar pensamentos e práticas a modelos e questões condicionados por uma racionalidade (ainda) cartesiana. Viver na incerteza é "se abrir" e experienciar o novo como ele é em nosso tempo: "constantemente novo". Desafios que se transmutam constantemente, "ganham novas vestes", desafiam a capacidade da humanidade de lidar com eles. Por mais que possam ser aparentemente efêmeros, estão inseridos numa "ação de confrontação".

Confrontar-se com "desafios reflexivos", muito mais do que angariar recursos é transformar consciências. Fazer uso de redes pessoais não apenas para captar recursos "vendendo" idéias de ação social por "um punhado de dólares a mais". Aperceber-se num mundo reflexivo e auxiliar outros a fazer o mesmo, ou seja, compreender que o mundo se reflete em problemas (como os muitos que herdamos da "sociedade industrial"). Mas, ao mesmo tempo, neste início de novo milênio, não há muito espaço para "idealismos utópicos" que não demonstram capacidade de "fazer diferente", e recursos (financeiros e de outras naturezas) são fundamentais; a busca deles acontece, geralmente, em bases instrumentais.

A interação com atores que pautam sua atuação pela racionalidade moderna "simples" requer, naturalmente, ações instrumentais. Em verdade, a questão é mais profunda. Por mais que haja envolvimento e consciência da reflexividade do mundo, esses "deslocamentos" ainda se encontram em estágio embrionário, ou seja, o que é passível de discussão são "indícios reflexivos" que podem ser observados no cotidiano de "atores reflexivos" (isto é, esse tipo de empreendedor), mas que ainda agem e interagem, fortemente alicerçados na tradição moderna.

Em contrapartida, as conquistas "reflexivas" acontecem em outros meios. A inclusão social como finalidade dos "desafios" encampados permite o "fluir de idéias e ideais reflexivos" na sociedade contemporânea. Lutas outrora reduzidas a movimentos político-partidários agora encontram meios propícios para se fazer um "novo tipo de política". Meio capaz de abrigar ações e falas que apresentam os indícios de reflexividade na articulação do ator-empreendedor.

Num último foco, nos deparamos com as questões relacionadas à indagação

(c) (anteriormente apresentada): quais são os interesses que podemos observar nessas articulações? Quais estão explícitos? Quais não? Podemos observar interesses mercadológicos (tácitos)? Quais outros interesses/significados podem ser observados? Podemos observar crenças e valores "reflexivos" nesse processo? Eles são compartilhados com os pares? Há respeito pelas diferenças nessas interações? Há significados não-instrumentais nesse processo? Quais? Vamos aos exemplos.

[Ex D] Pesquisador: No geral, Marcelo, quando as empresas (...) procuram, quando há a aproximação com elas, como é que você vê essa questão do que elas buscam (...)?

Marcelo: A maioria das empresas não tem no seu ponto de reflexão a questão do social. Nelas, muitas vezes, e aí é onde estão algumas perturbações, quem toca os projetos de cidadania da empresa é o departamento de marketing. Aí você já viu que o que o cara quer é uma foto sua no balanço social. (...) Muitas delas [já com um segundo perfil] vêm buscando que, na realidade, você seja um parceiro para entrar com recursos, para que ela tenha menos despesas (...). E tem aquelas que [com um terceiro perfil], até não sabem direito o que querem fazer, mas querem construir alguma coisa, têm uma visão de longo prazo, têm uma... mesmo que no primeiro momento não haja um foco, um raciocínio muito desenvolvido, mas ela quer ser parceira. Ela quer construir alguma coisa. Então, tem três casos. Agora, na maioria dos casos, realmente, infelizmente, ainda é marketing ou uma ação pontual porque teve um problema [ex.: com uma comunidade próxima]. (t1: EN3)

Pesquisador: Eu queria saber o que é que une vocês? (...)

Carla: O que une a gente é o trabalho que ele faz desde o início, a seriedade da instituição, a seriedade do Marcelo e, eu não sei se existe essa palavra, mas é como se fosse o andamento da parceria. O que é que a gente considera um parceiro? É aquele, como se fosse um amigo. Ele é nosso amigo pessoal. (...) E tudo o que a gente sempre pediu, nós somos uma grande empresa, então existem problemas burocráticos (...). Marcelo sempre se adaptou a isso, porque ele tem uma estrutura, porque ele já esteve na empresa, então, a cabeça de empresário dele veio para o CDI de Pernambuco (...). (t2, EP2)

[Ao iniciar uma reunião, fala-se sobre a relação da ENE com comunidades de baixa renda.]

Osmar: Existem algumas evoluções nesses relacionamentos, com essas que a gente chama comunidades especiais. Eu, até, nas comunidades, costumo ser um pouco objetivo, mas eu acho que isso é bom, porque diz, mais ou menos, o que a gente pretende. Eu lembro que às vezes alguns líderes comunitários chegam para a gente e dizem: "rapaz, me diga exatamente o que você quer. Você está querendo ser deputado, ou alguma coisa?".

Marcelo: Isso é entendível, porque eles são muito procurados por pessoas que, na realidade, querem usar dele e não contribuir com ele.

Osmar: (...). Bom, qual é a idéia para 2005, em termos de relações com comunidades especiais? São ações integradas, que a gente possa enlaçar, principalmente externamente, com o objetivo de promover desenvolvimento sustentável nessas comunidades. Qual a moeda de troca disso? Fazer com que essa experiência, pelo menos no que diz respeito à comunidade, seja praticada. Meu interesse na comunidade não é ser deputado. Meu interesse com a comunidade é que ela me pague em dia e não me roube, para ser bastante objetivo. Obviamente, a ENE tem a sua visão social de se sentir... (t3: RG5)

Pesquisador: Você já parou e pensou por que e para que você está fazendo isso que você faz? O que realmente o move a dedicar forças nesse sentido?

Marcelo: Olha, duas coisas me movem sempre. A primeira eu já te falei: eu tenho uma profunda fé no ser humano. (...) Eu tenho essa fé no ser humano e sou uma pessoa que gosto de realizar, de empreender. Então, eu tenho um lado de satisfação pessoal, tenho aprendido muito, tenho recebido muito de volta. E, ao mesmo tempo, eu faço porque eu gosto, eu vejo que consigo realizar coisas que mesmo na minha limitação financeira etc., etc., eu consigo fazer alguma coisa. (...) Porque você ter o poder de mobilizar não sei quantas pessoas e movê-las por um bem, uma causa, não sei o quê, então, no fundo, quanto mais gente você mobilizar... (...)

Pesquisador: Bom, Marcelo, como é que você constrói... Você já me falou que compartilha sonhos e ideais com outras pessoas, não é? Como é que isso acontece?

Marcelo: Não tem uma sistemática. Tem assim, sei lá, eu gosto de pessoas muito abertas. Então, às vezes o cara está lá e começo a falar. Às vezes você vê que ora você tem convergência ora você não tem convergência. E isso naturalmente vai acontecendo. (...) (t4: ES1)

Sem dúvida, a "articulação empreendedora de caráter reflexivo" emerge, na sociedade contemporânea, cercada de interesses instrumentais por todos os lados. Os trechos 1, 2 e 3 apresentados exemplificam esse aspecto. Mas muitos não estão explícitos, são "encobertos" pelo discurso da responsabilidade social corporativa. Em geral, ao "vestirem a máscara" de socialmente responsáveis e "gerenciar impressões e relações" com consumidores e comunidades, as empresas apresentam interesses mercadológicos ao se aproximar de ações sociais. Não é preciso avançar numa análise mais aprofundada para compreender a própria contraditoriedade interna desses discursos. Assim como a doutrina neoliberal apresenta diversas — e até um tanto quanto óbvias — contradições (Chomsky, 2002), as grandes multinacionais e o empresariado em geral (fiéis seguidores "dessa cartilha") não poderiam apresentar interesses destoantes do pensamento hegemônico. Refletir sobre qual é o real interesse da corporação ao querer "fazer algo" é importante. Mas ainda é preciso pensar se há possibilidade de significados serem compartilhados nessa interação, ou seja, será possível realmente envolvê-la em "desafios de confrontação"?

Decerto que não é possível reduzir os "horizontes significativos" humanos aos interesses que atendem essa "normalidade alienante", o "fazer algo diferente", a "crença no ser humano", o "vencer desafios de confrontação" são aspectos que também se fazem presentes nesses horizontes. Até mesmo a atitude de compartilhar sonhos e ideais de transformação guarda também em si, um significado distinto do instrumental.

Quanto ao último grupo de questões, precisamos de um maior aprofundamento para uma interpretação adequada. O faremos numa próxima etapa desta investigação, mas já fora do escopo deste artigo.

 

7. Seguindo o "fio" da história...

Tendo demonstrado grande utilidade para acesso e agrupamento de evidências no "caso ilustrativo", e interpretação, à luz de nosso aporte teórico, de questões importantes (previamente elencadas) para o fenômeno central em estudo, por meio dessas evidências encontradas no caso, esta etapa aqui se encerra. Mas é preciso dar continuidade à investigação.

A riqueza dessas fontes e evidências congregadas e do que foi possível delas compreender — a partir da constituição de um corpus lingüístico — não se esgota no que aqui retratamos. Temos convicção que diversas outras "peças" ainda podem ser confeccionadas partindo da virtuosa "colcha" que tecemos — em diversos outros estudos subseqüentes a este (ainda por nascer!). Entretanto, é preciso deixar de lado, apenas por ora, as "tentações investigativas" que nos invadem a mente e avançar na direção que, de início, apontamos. Isso não significa dizer que aqui iremos cometer a heresia de não lançar mão dessas evidências, tão laboriosamente obtidas, ainda no escopo desta investigação (mais adiante, numa outra etapa), muito pelo contrário. Como já dissemos desde o início, nos cercamos delas, ou melhor, nos "cobrimos", mas deixando nossos olhos do lado de fora, bem abertos!

Uma releitura do título da investigação maior e dos seus focos de interesse — consolidados em etapa anterior e aqui reapresentados nas "primeiras linhas" — da qual tomam parte esse corpus, assim como o que ele nos ajudou a interpretar, fornecem pistas

de para onde "o fio da história" nos levará...

 

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Artigo recebido em jul. e aceito em nov. 2005.

 

 

Agradecimentos: esta pesquisa integra um estudo maior que foi beneficiado pelo apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). A ela fazemos questão de agradecer.
1 Os extratos do corpus [Ex], que a partir de agora aparecem, estão em ordem alfabética estabelecida por temáticas decorrentes das nossas indagações norteadoras (anteriormente apresentadas). Todos foram submetidos à apreciação do ator central do caso em estudo e por ele validados. Assim sendo, trechos [tN] das diversas fontes foram agrupados e enumerados em cada um desses extratos. Todas as fontes foram acessadas no período de 1º de março de 2005 a 1º de abril de 2005 – com exceção de uma das notas de campo (ver observação a seguir). Aos interessados em aprofundar o entendimento dos contextos aos quais os trechos pertencem, consultar Sá (2005). Para compreender a origem de cada um desses trechos, é mister que o leitor observe a notação que segue abaixo:
ES: entrevista semi-estruturada, mais especificamente, com roteiro composto por questões consolidadas em Sá (2005) tendo como foco "(1) o pensar, o agir e o interagir do ator central no que se refere (ou se aproxima) à idéia de "reflexividade" (Beck, 1992, 1997);
EP: entrevistas semi-estruturadas, mais especificamente, com roteiro composto por questões consolidadas em Sá (2005) tendo como foco "(2) a historicidade dessas articulações, como elas se dão, ou seja, o que pensam ator central e alguns dos pares (com os quais o mesmo interage) sobre suas respectivas relações";
NC: notas de campo escritas entre 1º de março de 2005 e 31 de março de 2005, com exceção de uma delas que é relativa a um contato prévio ao período acima mencionado – mais precisamente em 27 de janeiro de 2005;
RG: reuniões e conversas gravadas do ator central com seus mais diversos interagentes;
EN: entrevistas não-estruturadas e conversas gravadas do ator central com o pesquisador, assim como do pesquisador com alguns dos seus interagentes;
AM: artefatos materiais dos mais diversos conforme tópico específico em seção anterior, artefatos materiais e mensagens eletrônicas observados.
2 Os nomes de pessoas e organizações que surgem a partir de agora são fictícios, com exceção de Marcelo Fernandes, CDI, Global Tech e Comitê Gestor da Internet no Brasil.
3 Esse "provedor social" consiste num serviço de acesso à internet cuja parte de sua renda seria revertida para ações de inclusão digital junto a comunidades de baixa renda.
4 O Comitê Gestor da Internet no Brasil tem como objetivo fomentar as atividades de implantação, administração e uso da internet em nosso país. Por isso, promove reuniões periódicas com seus membros para tratar dos assuntos referentes à internet no Brasil. Fonte: <www.cg.org.br>.

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