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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.97 no.5 São Paulo Nov. 2011

https://doi.org/10.1590/S0066-782X2011001400016 

RELATO DE CASO

 

Endocardite por lactococcus garvieae: primeiro relato de caso da América Latina

 

 

Tatiana Franco HirakawaI,II; Fernando Augusto Alves da CostaI,II; Marcos Cairo VilelaI,II; Micheli RigonI,II; Henry AbensurII; Maria Rita Elmor de AraújoII

IFGM - Clínica Paulista de Doenças Cardiovasculares, São Paulo, SP - Brasil
IIHospital Beneficência Portuguesa de São Paulo, São Paulo, SP - Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

Lactococcus garvieae, patógeno zoonótico emergente, é responsável por mastite em ruminantes e septicemia em peixes. Embora seja considerado oportunista e raramente causar infecções em humanos, sua incidência deve estar subestimada devido à dificuldade do diagnóstico. Há pouquíssimos relatos de osteomielite, abscesso hepático e peritonite, e apenas nove casos descritos na literatura mundial de endocardite. Relatamos o primeiro caso de endocardite por Lactococcus garvieae da América Latina em paciente portadora de prótese valvar metálica, com quadro de febre diária, calafrios, nodos de Osler e seis hemoculturas positivas para Lactococcus garvieae, que preenchiam os critérios de Duke para o diagnóstico de "endocardite infecciosa definitiva".

Palavras-chave: Endocardite bacteriana, diagnóstico, Lactococcus garvieae, próteses valvares cardíacas.


 

 

Introdução

Lactococcus garvieae, patógeno zoonótico emergente, originalmente isolado em mastites de ruminantes e responsável por septicemias em peixes, é considerado oportunista e de baixa virulência em humanos, com raríssimos casos descritos de endocardite (nove casos na literatura mundial)1-7, osteomielite8, abscesso hepático9, septicemia e peritonite5. Entretanto, a dificuldade do diagnóstico para diferenciá-lo do Enterococcus pode subestimar uma incidência maior e desvalorizar sua real importância. Neste estudo, relatamos o primeiro caso de endocardite por Lactococcus garvieae da América Latina e décimo caso mundial.

 

Relato de caso

Paciente do sexo feminino, 58 anos, branca, previamente hipertensa, diabética tipo 2, dislipidêmica e ex-tabagista, foi submetida à troca de valva mitral por prótese metálica há seis meses, devido a uma estenose mitral severa de etiologia reumática. Com histórico de febre diária há seis dias (38,5º C), calafrios, sudorese, nódulos eritematosos nas mãos e nos membros inferiores, mialgia e fraqueza, deu entrada no hospital. Como hábito alimentar, consumia diversos tipos de peixes com frequência e referia ter ingerido um queijo branco recentemente. Apesar de negar tratamento odontológico nos últimos meses, é portadora de prótese dentária e perfurou sua gengiva com uma "espinha de peixe" cinco dias antes do início dos sintomas.

Na admissão, apresentava-se febril (38,2º C), com nodos de Osler na mão esquerda, membros inferiores e dentição com estado de conservação precário, sem outras alterações no exame físico. Exames laboratoriais evidenciaram alterações de provas inflamatórias, PCR = 81,9 e VHS = 47,1, sem leucocitose. Nenhum foco de infecção foi identificado, apesar de exaustiva investigação diagnóstica.

Hemoculturas colhidas em três sítios diferentes isolaram cocos gram-positivos, identificados como Lactococcus garvieae por meio de exame bioquímico e confirmado com estudo genético. Foi novamente isolado em outras três amostras de hemoculturas, colhidas com intervalo de cinco dias. O antibiograma demonstrou resistência apenas à clindamicina, com sensibilidade à penicilina, gentamicina, vancomicina e demais antibióticos.

Foram realizados dois ecocardiogramas transesofágicos, porém, não se visibilizou vegetação, e a prótese mitral apresentava-se competente. No entanto, segundo os critérios modificados de Duke, a paciente recebeu o diagnóstico de endocardite e foi medicada com vancomicina 1 g de 12 em 12 horas durante 28 dias, devido à alergia confirmada à penicilina. Evoluiu com remissão completa dos sinais e dos sintomas, normalização dos exames laboratoriais e negativação das hemoculturas.

Na tentativa de identificar a origem da infecção, o queijo branco consumido pela paciente foi enviado para exame microbiológico. Na busca por uma "porta de entrada", devido à história familiar de polipose intestinal, a paciente foi submetida a um enema opaco. Todavia, ambos os exames pareciam dentro da normalidade.

A paciente recebeu alta assintomática após 30 dias de internação, e foi encaminhada para acompanhamento ambulatorial com cardiologista.

 

Discussão

Lactococcus garvieae é uma das oito espécies pertencentes ao gênero Lactococcus, originalmente conhecido como o grupo lático do gênero Streptococcus, sendo separado deste em 1985, após análise genética10.

Formado por cocos gram-positivos, catalase negativa e de crescimento anaeróbio facultativo, são bactérias produtoras de ácido lático, que lhes atribui capacidade de fermentação e propriedade bactericida, sendo utilizadas pela indústria alimentícia para fermentação e como conservantes de alimentos10.

No entanto, sabe-se que algumas espécies podem ser patogênicas a animais e humanos, principalmente o Lactococcus garvieae e o Lactococcus Lactis10.

Considerado um patógeno zoonótico emergente, o Lactococcus garvieae é responsável por mastites de ruminantes e septicemia em peixes. Peixes infectados que não desenvolvem a doença podem contribuir com a disseminação5.

É considerado patógeno raro em humanos, oportunista e de baixa virulência. Há pouquíssimos casos descritos na literatura, nos quais o Lactococcus garvieae é o agente causal de endocardite1-7, osteomielite8, abscesso hepático9, septicemia e peritonite5. Existem nove casos de endocardite relatados na literatura mundial, dos quais quatro acometem próteses valvares1,3 e cinco valvas nativas2,4,5,7.

Este é o primeiro relato de caso de endocardite causada por Lactococcus garvieae na América Latina em paciente portadora de prótese valvar metálica em posição mitral que preencheu os critérios modificados de Duke para o diagnóstico de "endocardite definitiva" (Tabela 1).

 

 

A patogenicidade e infectividade do Lactococcus garvieae ainda permanecem inconclusivas. Sabe-se que os Lactococcus tipicamente não fazem parte da flora humana3, mas o consumo de leite ou peixes contaminados podem ser fontes de infecção5. Também foram isolados em alimentos manufaturados, devido à sua utilização em produtos alimentícios. No entanto, acidez gástrica, enzimas pancreáticas, secreções biliares e intestinais, peristalse e integridade das células epiteliais são fatores protetores da infecção oral e gastrointestinal. A existência de desordens gastrointestinais como úlceras, pólipos ou divertículos podem atuar como facilitadoras da infectividade bacteriana.

No caso descrito, é possível que a fonte de infecção seja os peixes consumidos rotineiramente pela paciente e a porta de entrada seja o ferimento perfurante causado pela "espinha de peixe", bem como sua dentição precária. Porém, não há dados que confirmem essa hipótese.

Há dificuldade na distinção com os Enterococcus, pois seus fenótipos são semelhantes. Outro desafio está em isolar o Lactococcus garvieae do lactis. Alguns estudos sugerem a utilização do antibiograma, caracterizando o garvieae como resistente à clindamicina, enquanto o lactis é sempre sensível; hipótese sustentada nesse caso.

Em relação ao ecocardiograma, encontramos na literatura escassos relatos de pacientes que apresentavam vegetações em valva nativa2 e casos com ausência de alterações, tanto no exame transtorácico quanto no transesofágico, de pacientes com endocardite em próteses valvares8, semelhante ao aqui descrito.

O exame padrão ouro para o isolamento do Lactococcus garvieae, apesar do alto custo, é o estudo genético, com o reconhecimento de seu seqüenciamento de DNA10.

 

Conclusão

Endocardite causada por Lactococcus garvieae é extremamente rara, sendo esse o décimo caso descrito na literatura mundial, e sua patogenia ainda permanece inconclusiva. Possíveis fontes de infecção são leite e peixes contaminados, com relatos de crescimento dessa bactéria em alimentos manufaturados. Comorbidades gastrointestinais e condição bucal precária podem facilitar a infectividade desse patógeno, assim como próteses valvares são fatores predisponentes, o que demanda a necessidade de orientar os pacientes sobre a importância da higiene oral e do tratamento dentário na prevenção de endocardite, bem como investigar distúrbios gastrointestinais quando necessário.

As semelhanças fenotípicas entre o Lactococcus e o Enterococcus dificultam muito seu diagnóstico microbiológico, sendo ainda necessário o estudo genético para o isolamento de certeza do Lactococcus garvieae. A indisponibilidade desses exames na maioria dos centros médicos do mundo provavelmente gera um subdiagnóstico do Lactococcus garvieae, que pode representar uma significância clínica muito além do que lhe é atribuída.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflito de interesses pertinentes.

Fontes de Financiamento

O presente estudo não teve fontes de financiamento externas.

Vinculação Acadêmica

Não há vinculação deste estudo a programas de pós-graduação.

 

Referências

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Correspondência:
Fernando Augusto Alves da Costa
Praça Amadeu Amaral, 47 cj 12A - Bela Vista
01327-010 - São Paulo, SP - Brasil
E-mail: alvesdacosta@uol.com.br, faacosta@cardiol.br

Artigo recebido em 05/06/10; revisado recebido em 20/08/10; aceito em 09/09/10.

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