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Pesquisa Agropecuária Brasileira

Print version ISSN 0100-204XOn-line version ISSN 1678-3921

Pesq. agropec. bras. vol.34 no.4 Brasília Apr. 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-204X1999000400001 

DIVERSIDADE MORFOLÓGICA DE FRUTOS E SEMENTES DE BARU (DIPTERYX ALATA VOG.)1

 

SUELI MATIKO SANO2, LUCIO JOSE VIVALDI e CARLOS ROBERTO SPEHAR3

 

 

RESUMO - O objetivo deste estudo foi identificar caracteres morfológicos distintos que possibilitem agrupar plantas semelhantes pertencentes a populações de baru (Dipteryx alata Vog.). Foram marcadas 63 plantas nos estados de Goiás e Minas Gerais. Avaliaram-se 20 frutos e sementes por planta, coletados no chão em 1994 e 1995. Mediram-se os parâmetros: peso, comprimento, largura e espessura dos frutos e das respectivas sementes, e cor do tegumento das sementes. Realizaram-se análises de componentes principais e de agrupamento. Observou-se variabilidade entre plantas nos frutos e nas sementes de baru. A análise dos componentes principais mostrou que a distribuição espacial dos dados é da forma contínua. Os dois primeiros componentes explicaram 75% e 80% da variação total das características morfológicas em 1994 e 1995, respectivamente. Todas as variáveis foram importantes na discriminação dos grupos. As configurações de quatro a seis grupos foram consistentes nos dois anos. Menos da metade das plantas permaneceu no mesmo grupo nos dois anos. Isto evidencia que os frutos e sementes possuem variação anual quanto às suas características morfológicas, embora existam exceções. A obtenção de grupos distintos indica presença de variabilidade genética no material coletado.

Termos para indexação: agrupamento, drupa, tamanho, dimensão, cerrado.

 

MORPHOLOGICAL DIVERSITY OF FRUITS AND SEEDS OF BARU (DIPTERYX ALATA VOG.)

ABSTRACT - The aim of this study was to identify distinct morphological characters that may group similar plants in populations of "baru" (Dipteryx alata Vog.). Sixty three plants were marked in Goiás and Minas Gerais States, of which 20 fruits and seeds were evaluated, collected from the ground in 1994 and 1995. The following measurements were taken: weight, length, width and dimension of fruits and its respective seeds, and color of seed tegument. Analysis of principal components and cluster analysis were performed. Variances between plants were observed but not within plants. The analysis of principal components showed continuous spatial distribution of the data. The first two components explained 75% and 80% of total variance of morphological characters in 1994 and 1995, respectively. All variables were important for discrimination of groups. The configurations of four to six groups were consistent for both years. Less than half of trees remained in the same group in both years. This shows that fruit and seeds may have annual variation for morphological characters, though exceptions were observed. Distinct grouping indicates presence of genetic variability within material collected.

Index terms: cluster, drupe, fruit size, fruit dimension, savanna.

 

 

INTRODUÇÃO

O barueiro (Dipteryx alata Vog.) é uma leguminosa arbórea (Papilionoideae), que ocorre geralmente nas áreas férteis do cerrado. Apresenta uma multiplicidade de usos, e em muitas propriedades tradicionais da região essas árvores são mantidas nas pastagens. Na época da seca, a polpa do fruto é consumida pelo gado bovino (Almeida et al., 1990); possui alto teor de fibra (Togashi, 1993), é rica em açúcar, potássio, cobre e ferro (Vallilo et al., 1990) e pode ser utilizada para ração. A amêndoa, apreciada como alimento humano, é rica em óleo insaturado, proteína, cálcio e fósforo, assemelhando-se ao amendoim (Togashi, 1993). Sua madeira apresenta alta durabilidade e é utilizada para confecção de mourões.

Estudos de procedências e progênies de baru (também conhecido como cumbaru) têm mostrado diferenças no crescimento (Siqueira et al., 1986; Aguiar et al., 1992; Sano et al., 1994), e indicam necessidade de seleção. As características morfológicas das sementes podem ser utilizadas para identificação de cultivares (Isleib & Wynne, 1983).

Este estudo objetivou identificar grupos com caracteres morfológicos distintos entre populações de Dipteryx alata Vog. como base para avaliar a diversidade genética.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Árvores de baru com bom aspecto fenotípico e alta produção de frutos, numeradas e marcadas com placas de alumínio, a partir de 1989, foram utilizadas para este estudo. Foram selecionadas três plantas no município de Cristalina, GO, 35 em Formosa, GO, sete em Padre Bernardo, GO, uma em Trajanópolis, GO, três em Simolândia, GO, e nove em Paracatu, MG (Tabela 1). Estão localizadas na região central do cerrado, entre as latitudes 14°23' e 17°27' Sul e longitudes 46°26' e 48°22' Oeste de Greenwich e altitude variando de 500 a 1.000 m; área restrita, se considerada a extensão do bioma. As coordenadas geográficas foram obtidas através do Global Position System (ensign GPS, Trimble Navigation Limited) em 1995, cuja precisão é cerca de 100 m. Não foi possível obter dados de todos os locais, devido à captação de número insuficiente de satélites.

 

 

Avaliaram-se 20 frutos e as respectivas sementes por planta, de material coletado do chão, entre agosto e outubro. Mediram-se os parâmetros: peso e dimensões dos frutos e das respectivas sementes e cor do tegumento. O fruto é uma drupa que contém uma semente. A semente, com dois embriões, foi considerada na análise dos dados. As cores do tegumento das sementes foram anotadas com base na caderneta para identificação de cores de solos de Munsell Color Company (1958).

A análise de agrupamentos (cluster) dos dados de frutos e sementes foi realizada via componentes principais, para caracterizar a distribuição dos dados no espaço. Verificada a existência de grupos, foram aplicados os métodos Centroide, Ward e Máxima Verossimilhança (Maximum Likelihood Estimates - EML) (SAS Institute, 1989), e os resultados, comparados entre si. Como houve concordância entre os três métodos, adotou-se o EML. Após escolha do número de grupos, foi avaliado o grau de repulsão entre elementos de diferentes grupos e o de atração entre elementos do mesmo grupo, por meio da análise discriminante (técnica de Jacknnife). Finalmente, para obter as variáveis mais importantes para a separação dos grupos, utilizou-se o método passo a passo (stepwise), associado à análise discriminante, existente no SAS. Os dados de produção de frutos foram analisados via correlação de Pearson.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Foram predominantes as cores vermelho-escuro (2.5YR 3/2) a vermelho-amarelo (5YR 3/4) no tegumento das sementes, segundo a escala de cores de Munsell Color Company (1958). As tonalidades variaram de marrom-amarelado (10YR 5/6) a quase preto (2.5YR 2/0), chegando a vermelho-escuro (7.5R 4/4). Houve variação na coloração do tegumento entre árvores e também dentro da amostra de algumas árvores, mas não houve tendência definida quanto à formação de grupos.

Os dois primeiros componentes explicaram 75% da variação total das características morfológicas dos frutos e sementes de baru em 1994, e 80% em 1995 (Tabela 2), na análise dos componentes principais. Foi evidenciada a distribuição espacial contínua dos dados (Figs. 1 e 2) e os grupos apresentados nessas figuras. Todas as variáveis foram importantes na discriminação dos grupos, destacando com maior influência o peso e a largura de fruto, e o peso da semente (Tabela 3). A formação de quatro a seis grupos válidos foi consistente nos três métodos de análise de agrupamento. No caso dos cinco grupos obtidos via EML (Tabela 4), a taxa de alocação errada no ano de 1994 foi de 8% e em 1995 foi de 12% (técnica de Jacknnife), o que confirma a validade dessa separação.

 

 

 

 

 

 

As médias das dimensões dos frutos e sementes foram ligeiramente maiores no ano de 1995 do que no ano de 1994 (Tabela 5). Menos da metade das plantas permaneceu no mesmo grupo nos dois anos (Tabela 4). Algumas plantas não apresentaram variação anual quanto ao peso e dimensão de frutos e sementes, enquanto outras mudaram de grupo de um ano para outro. Isso mostra a influência de fatores ambientais no peso e dimensão dos frutos e das sementes de baru. No ano de 1994, não foi possível obter frutos inteiros de oito plantas; foram utilizados frutos cujo exocarpo e mesocarpo haviam sido consumidos pelo gado, restando o endocarpo lenhoso e a semente nele contida. Seis destes constituíram-se no grupo de menores medidas de fruto (Tabela 5), e o restante, no grupo seguinte. No ano de 1995, com os frutos inteiros, essas plantas permaneceram nos grupos das menores médias, indicando que a parte consumida do fruto teve pouca influência, e o método de agrupamento foi sensível para separá-los.

 

 

O peso mínimo de 0,53 g e o máximo de 2,08 g em 1994, e 0,73 g e 2,25 g em 1995, nas sementes de D. alata Vog., estão de acordo com as observadas por Ducke (1948), Melhem (1974) e Filgueiras & Silva (1975) originadas de outras regiões de cerrado. Os pesos médios dos frutos variaram entre plantas, mas a média geral da espécie e das sementes pouco se alterou. Segundo Harper (1987), o tamanho das sementes é uma característica da espécie, da variedade e da planta, com variações e algumas exceções. Numa mesma espécie, planta ou infrutescência, alta amplitude no peso das sementes pode ser encontrada, mas a média pode permanecer constante (Harper et al., 1970).

Neste estudo, árvores próximas em diferentes locais apresentaram-se em grupos distintos, o que indica presença de variabilidade genética dentro da população. Outros autores detectaram variabilidade genética entre e dentro da população em experimentos de teste de progênies de outras procedências (Siqueira et al., 1986; Aguiar et al., 1992). Como ganhos na produtividade podem ser obtidos apenas com a seleção de sementes (Harper et al., 1970), a caracterização de populações de baru poderá ser otimizada mediante estudos comparativos de grupos diferenciados de matrizes.

 

CONCLUSÕES

1. Podem-se obter grupos morfológicos distintos de Dipteryx alata (Vog.) por meio do peso e dimensões de frutos e sementes.

2. Apesar da diversidade de cor do tegumento das sementes em Dipteryx alata (Vog.), esta característica qualitativa não contribui para formação de grupos.

 

REFERÊNCIAS

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1 Aceito para publicação em 26 de maio de 1998. Projeto financiado parcialmente pela FAP-DF.
2 Bióloga, M.Sc., Embrapa-Centro de Pesquisa Agrope- cuária dos Cerrados (CPAC), Caixa Postal 08223, CEP 73301-970 Planaltina, DF. E-mail: sueli@cpac.embrapa.br
3 Eng. Agr., Ph.D., Embrapa-CPAC.

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