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Pesquisa Agropecuária Brasileira

Print version ISSN 0100-204X

Pesq. agropec. bras. vol.46 no.1 Brasília Jan. 2011

https://doi.org/10.1590/S0100-204X2011000100013 

ZOOTECNIA

 

Desempenho animal e características de pasto de capim-xaraés sob diferentes intensidades de pastejo, durante o período das águas

 

Animal performance and sward characteristics of xaraés palisade grass pastures subjected to different grazing intensities, during rainy season

 

 

Marciele Neves CarlotoI; Valéria Pacheco Batista EuclidesII; Denise Baptaglin MontagnerIII; Beatriz LemppIII; Gelson dos Santos DifanteIV; Cássia Cristina Lemes de PaulaI

IUniversidade Federal de Mato Grosso do Sul, Caixa Postal 549, CEP 79070-900 Campo Grande, MS. E-mail: marcielecarloto@yahoo.com.br, cassia-lemes@hotmail.com
IIEmbrapa Gado de Corte, Caixa Postal 154, CEP 79002-970 Campo Grande, MS. E-mail: val@cnpgc.embrapa.br
IIIUniversidade Federal da Grande Dourados, Caixa Postal 533, CEP 79804-970 Dourados, MS. E-mail:demontagner@yahoo.com.br, beatrizlempp@ufgd.edu.br
IVUniversidade Federal do Rio Grande do Norte, Caixa Postal 1524, CEP 59072-970 Natal, RN. E-mail: gdifante@ufrnet.br

 

 


RESUMO

O objetivo deste trabalho foi avaliar o valor nutritivo, a estrutura do dossel, a ingestão de forragem e a produção animal em pastos de capim-xaraés (Urochloa brizantha cv. Xaraés), manejados a 15, 30 e 45 cm de altura, sob lotação contínua, durante o período das águas. Mensalmente, foram realizadas amostragens para estimar as características dos pastos e determinar o peso dos animais. A produção de forragem decresceu com o aumento da intensidade de pastejo; no entanto, o pasto com 15 cm de altura apresentou o maior valor nutritivo. O consumo de matéria seca foi menor no pasto com 15 cm (1,89% peso vivo - PV) do que nos com 30 cm (2,26% PV) e 45 cm (2,34% PV). O ganho médio diário foi semelhante entre as diferentes alturas de manejo, em média, 730 g por novilho. As taxas de lotação foram menores para os pastos com 45 cm (2,0 UA ha-1) e 30 cm (2,5 UA ha-1) do que para o com 15 cm (3,5 UA ha-1). Houve maior ganho por área no pasto com 15 cm (678 kg ha-1) do que no com 45 cm (324 kg ha-1).

Termos para indexação: Brachiaria brizantha, Urochloa brizantha, Cerrado, estrutura do dossel, taxa de lotação, valor nutritivo.


ABSTRACT

The objective of this work was to evaluate the nutritive value, sward structure, herbage intake and animal performance on xaraés palisade grass (Urochloa brizantha cv. Xaraés) pastures with 15, 30 and 45 cm sward heights, under continuous stocking, during rainy season. Monthly, the pastures were sampled for estimating the sward characteristics and the animals were weighted. Forage production decreased with the increase of grazing intensity; however, the 15-cm sward height pasture showed the greatest nutritive value. Dry matter intake was lower in the 15-cm pasture (1.89% live weight - LW) than in the 30 cm (2.26% LW) and 45 cm (2.34% LW) pastures. The average daily gain was similar among the different sward heights, with 730 g per steer average. The stocking rates were lower for the 45 cm (2.0 AU ha-1) and 30 cm (2.5 AU ha-1) pastures than for the 15 cm (3.5 AU ha-1) pasture. There was a greater gain per area for the 15 cm (678 kg ha-1) pasture than for the 45 cm (324 kg ha-1) pasture.

Index terms: Brachiaria brizantha, Urochloa brizantha, savanna, sward structure, stocking rate, nutritive value.


 

 

Introdução

A cultivar Xaraés de braquiária brizanta [Urochloa brizantha cv. Xaraés (Syn. Brachiaria brizantha cv. Xaraés)], lançada pela Embrapa Gado de Corte em 2002, apresenta boa adaptação aos solos de Cerrado de média fertilidade, boa resposta à adubação, é tolerante a fungos foliares e de raiz, seu florescimento é intenso, rápido e concentrado no outono, e apresenta produtividade anual média de 120 kg ha-1 de sementes puras (Valle et al., 2004). Embora promova desempenho animal inferior ao obtido com a cv. Marandu, ela possui vantagens, como maior velocidade de rebrota e produção de forragem; o que garante maior taxa de lotação e resulta em melhor produtividade por área (Euclides et al., 2008, 2009). Essas características a tornam excelente alternativa à cv. Marandu, atualmente presente em extensas áreas de todos os estados da região Centro-Oeste e Sudeste, no oeste e na área de Mata Atlântica da Bahia (Valle et al., 2004).

A legislação vigente, que regulamenta o lançamento de cultivares de plantas forrageiras, segundo portaria do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Brasil, 2008), requer a apresentação de resultados referentes ao valor de cultivo e uso (VCU) da cultivar a ser lançada. Esta exigência não assegura o uso adequado de novo material; portanto, há a necessidade de se desenvolverem estudos para aprimorar o manejo do pastejo, com o intuito de otimizar o uso da forragem e o desempenho animal.

Conforme Hodgson (1990), a essência do manejo do pastejo resume-se em encontrar um balanço eficiente entre crescimento, consumo da planta e produção animal. Da Silva (2004) sugere que, para cada cultivar, há uma amplitude específica de condições do pasto, para que as metas de produção animal possam ser alcançadas. Carnevalli et al. (2001a, 2001b), Flores et al. (2008) e Difante et al. (2009) afirmam que é possível controlar a condição do pasto, ao ajustar-se o manejo do pastejo de acordo com a altura das plantas.

Os animais utilizam sua habilidade seletiva para aumentar a qualidade de sua dieta, e essas escolhas podem ser diretamente influenciadas por características estruturais do pasto, relacionadas à acessibilidade da forragem (Carvalho et al., 1999). Esse fato influencia o consumo de forragem e o desempenho dos animais. Assim, o manejo dos pastos, com base nas características estruturais das plantas, que interagem com fatores ambientais, tem se mostrado mais eficiente para aumentar a produção de forragem e animal (Trindade et al., 2007; Difante et al., 2009).

O objetivo deste trabalho foi avaliar o valor nutritivo, a estrutura do dossel, a ingestão de forragem e a produção animal em pastos de capim-xaraés, manejados a 15, 30 e 45 cm de altura, sob lotação contínua, durante o período das águas.

 

Material e Métodos

O experimento foi conduzido na Embrapa Gado de Corte, Campo Grande, MS (20º25'S, 54º51'W e altitude de 530 m), de 1/11/2007 a 10/6/2008.

Durante o período experimental, a precipitação pluvial, a umidade relativa do ar e a temperatura foram registradas, e, para o cálculo do balanço hídrico, foram utilizadas a temperatura média e a precipitação mensal acumulada. A capacidade de armazenamento de água do solo (CAD) foi de 75 mm (Figura 1).

 

 

Os pastos de capim-xaraés (Urochloa brizantha cv. Xaraés) foram estabelecidos em novembro de 2000, e, desde então, vinham sendo manejados sob pastejo.

O solo da área experimental é um Latossolo Vermelho distrófico, cuja análise química apresentou os seguintes resultados: 5,1 de pH em CaCl2; 43,1% de saturação por bases; 1,9% de saturação por alumínio; 42 g kg-1 de matéria orgânica; 2,5 mg dm-3 P (Mehlich 1); e 54,7 mg dm-3 K (Mehlich 1). Em janeiro de 2008, foi feita uma adubação de manutenção, com 40 kg ha-1 de P2O5 e de K2O. Foram aplicados 100 kg ha-1 de N na forma de ureia, em duas épocas: novembro de 2007 e março de 2008.

A área experimental de 4,0 ha foi dividida em seis piquetes de 0,67 ha. Optou-se pelo método de pastejo de lotação contínua, com taxa de lotação variável. Utilizou-se o delineamento experimental de blocos ao acaso, com três tratamentos e duas repetições. Os tratamentos foram constituídos pelas intensidades de pastejo, representadas pelas alturas do dossel de 15, 30 e 45 cm.

Em outubro de 2007, as alturas dos pastos começaram a ser monitoradas. Em 10 de novembro de 2007, iniciou-se a distribuição dos animais nos piquetes, de acordo com o crescimento dos pastos, até gerar as alturas pretendidas, que foram atingidas no dia 13 de dezembro de 2007. Quando todos os piquetes estavam com os animais avaliadores, as coletas de dados foram iniciadas.

Foram utilizados 48 novilhos Nelore, com idade média de 12 meses e peso inicial médio de 220 kg. Desses, foram selecionados 18 animais, que foram distribuídos entre as seis unidades experimentais; assim, as médias de peso dos três animais foram praticamente as mesmas em cada piquete. Os animais avaliadores permaneceram no mesmo piquete até o final do período experimental. O restante do lote foi mantido no piquete reserva e utilizado como animais reguladores nas unidades experimentais sempre que houvesse necessidade de ajuste da taxa de lotação para manter as alturas dos pastos pré-determinadas. Todos os animais receberam água e mistura mineral completa à vontade, além de manejo sanitário, conforme recomendado pela Embrapa Gado de Corte.

Mensalmente, os animais avaliadores e reguladores foram pesados após jejum de 16 horas. O ganho de peso médio diário foi calculado pela diferença de peso dos animais avaliadores, dividida pelo número de dias entre pesagens. A taxa de lotação mensal foi calculada como o produto do peso médio dos animais avaliadores e reguladores, pelo número de dias em que permaneceram nos piquetes, segundo Petersen & Lucas Junior (1968). O ganho de peso animal por área foi obtido ao multiplicar-se o ganho médio diário dos animais avaliadores pelo número de animais por piquete por mês.

Duas vezes por semana, a altura do pasto foi determinada em 80 pontos por unidade experimental, distribuídos ao longo de quatro linhas, com vinte pontos aleatórios em cada uma. A altura de cada ponto correspondeu à altura média do dossel em torno da régua.

A cada 28 dias, cortaram-se, rente ao solo, 15 amostras de forragem de 1 m2 por piquete, que foram divididas em duas subamostras: uma foi secada e pesada, e a outra foi separada em lâmina foliar, colmo (colmo + bainha) e material morto, depois, secada e pesada. A proporção de cada componente foi utilizada para estimar as relações lâmina foliar:colmo (RFC) e lâmina foliar:não lâmina foliar (colmo + material morto, RFNF), e para as estimativas de massa de lâmina foliar. As densidades volumétricas de matéria seca e de matéria seca de lâmina foliar foram calculadas ao se dividir as massas de matéria seca e de lâmina foliar pela altura real do dossel.

Para a estimativa do crescimento da planta, foram utilizadas, por piquete, três gaiolas de exclusão de 1 m2. A cada 28 dias, as gaiolas foram alocadas em pontos representativos da altura média do dossel, com massa e composição morfológica semelhantes às áreas sob pastejo. A massa de forragem, dentro e fora da gaiola, foi obtida por corte rente ao solo. Após cada corte, as gaiolas foram realocadas em outros pontos do piquete, e seguiu-se a mesma metodologia. A taxa de crescimento da planta (kg ha-1 por dia de matéria seca) foi obtida por meio da diferença entre as massas de forragem observadas dentro (corte atual) e fora (corte anterior) da gaiola, dividida pelo número de dias entre as amostragens. O mesmo procedimento foi utilizado para a taxa de acúmulo de lâmina foliar, e a proporção deste componente foi considerada dentro e fora da gaiola.

A oferta de massa de matéria seca (kg de massa de matéria seca por 100 kg de peso vivo - PV) foi calculada pela soma da massa de matéria seca presente no piquete e o crescimento da planta no período, dividida pelo total do peso vivo dos animais mantidos no piquete no mesmo período. A oferta de lâmina foliar (kg de matéria seca de lâmina foliar por 100 kg de PV) foi calculada da mesma forma, mas apenas esse componente da planta foi levado em consideração.

Duas amostras de simulação de pastejo animal também foram coletadas, mensalmente, em cada piquete, por dois amostradores. Essas amostras foram secas e moídas a 1 mm, e analisadas para estimar os teores de proteína bruta, fibra em detergente neutro, digestibilidade in vitro da matéria orgânica e lignina em detergente ácido, com uso do sistema de espectrofotometria de reflectância no infravermelho proximal (NIRS), de acordo com os procedimentos de Marten et al. (1985).

O consumo de matéria seca foi estimado no início e no final do período experimental, em 13/12/2007 e 1/5/2008. O óxido crômico foi utilizado como indicador externo (10 g de Cr2O3 por animal por dia), e a digestibilidade in vitro da matéria orgânica como indicador interno, para determinação da produção fecal dos animais avaliadores em pastejo. O fornecimento do indicador e a coleta de fezes seguiram a metodologia descrita por Valadares Filho et al. (2005). As fezes foram secas em estufa de ar forçado a 50ºC e analisadas para estimativa do teor de cromo, conforme Willians et al. (1962).

Foi permitida uma amplitude de variação da altura dos pastos em torno de ± 10%. O monitoramento da altura dos pastos começou a ser feito em outubro, após as primeiras chuvas. Os animais foram adicionados aos piquetes à medida em que a altura dos pastos se aproximava às metas dos tratamentos. Em meados de dezembro, os piquetes já se encontravam sob pastejo, com todos os animais avaliadores. Assim, foram necessários em torno de 45 dias (1/11/2007 a 13/12/2007) para o equilíbrio entre o estabelecimento das condições de pastos planejadas e o início das avaliações (Tabela 1). Em razão da redução da taxa de acúmulo de lâmina foliar no período de maio (20 kg ha-1 por dia de MS) a junho (7 kg ha-1 por dia de MS) e da pequena dimensão dos piquetes (0,67 ha), não foi possível manter os três animais avaliadores na área experimental e, ao mesmo tempo, manter as metas de altura do dossel. Dessa forma, optou-se pelo encerramento do período experimental em 10/6/2008, para que as alturas permanecessem relativamente estáveis e dentro das amplitudes planejadas.

 

 

Os dados foram agrupados por estações do ano da seguinte maneira: verão, resultados obtidos entre 13/12/2007 e 18/3/2008; e outono, resultados obtidos de 18/3/2008 a 10/6/2008. Os dados foram analisados por um modelo matemático com efeito aleatório de bloco, e pelos efeitos fixos de altura do dossel e estações do ano, e de suas respectivas interações. Todas as análises foram feitas com o uso do procedimento Proc Mixed (SAS Institute ,1996). A comparação de médias foi realizada pelo teste de Tukey, a 5% de probabilidade.

 

Resultados e Discussão

Não foi observada interação entre os efeitos de altura do dossel e estação do ano para produção de matéria seca (MST) e de lâmina foliar (MSLF), percentagens de lâmina foliar (PF) e de colmo (PC), relações lâmina foliar:colmo (RFC) e lâmina foliar:não lâmina foliar (RFNF), densidades volumétricas de matéria seca (DVMS) e de lâmina foliar (DVLF), ofertas de matéria seca (OMS) e de lâminas foliares (OLF), e taxa de lotação (TL). Houve, entretanto, efeito da altura de dossel para essas variáveis (Tabela 2).

A MST decresceu à medida em que a altura dos pastos diminuiu. O pasto manejado a 15 cm de altura apresentou menor MSLF em comparação aos manejados a 30 e 45 cm de altura. Embora o pasto manejado a 45 cm tenha apresentado maior MST, ele teve a mesma MSLF do que o manejado a 30 cm, possivelmente em razão da menor PF observada no pasto com 45 cm. Uma maior MSLF era esperada nos pastos manejados com menores intensidades de pastejo (30 e 45 cm), já que os animais não precisaram explorar os estratos inferiores nesses tratamentos, o que possibilitou a permanência de maior quantidade de folhas nesses estratos.

O pasto manejado com 15 cm apresentou a maior PF e a menor PC, em comparação aos manejados a 30 e 45 cm, o que resultou em menor RFC (Tabela 2). Isso pode ser explicado pelo maior controle do alongamento do colmo com o aumento da intensidade de pastejo. Acréscimos na PF e decréscimos na PC, à medida em que a altura do dossel decresceu, também foram observados em pastos de capim-marandu e capim-xaraés, manejados com alturas entre 15 e 40 cm (Flores et al., 2008). A percentagem de material morto (PM) foi semelhante entre os pastos manejados com diferentes intensidades de pastejo e foi, em média, 38±3,4%. Houve decréscimos na RFNF à medida em que a altura do pasto aumentou. O alto acúmulo de material morto, e a consequente baixa RFNF, normalmente é observado em pastos de braquiárias sob lotação contínua. Resultados semelhantes foram obtidos por Euclides et al. (2008) para os capins marandu, xaraés e piatã, e por Flores et al. (2008), para os capins marandu e xaraés.

O pasto manejado a 15 cm apresentou maiores DVMS e DVLF do que o manejado a 45 cm, e o manejado a 30 cm não diferiu dos outros (Tabela 2). Um padrão de variação semelhante para a DVMS foi encontrado por Carnevalli et al. (2001a, 2001b), para pastos manejados entre 5 e 20 cm, em que as DVMS variaram, respectivamente, de 256 e 339 kg ha-1 por cm, no capim-coastcross [(Cynodon dactylon (L.) Pers.], e de 369 a 607 kg ha-1 por cm, no capim-tifton 85 [(Cynodon dactylon (L.) Pers.].

Houve decréscimos nas OMS e OLF à medida em que a altura do dossel aumentou (Tabela 2). Como não houve diferenças nas taxas de crescimento da planta (87,2±15,1 kg ha-1 de MS por dia) e de acúmulo de lâmina foliar (39,6± 8,9 kg ha-1 de MS por dia) entre os pastos manejados nas diferentes alturas, a redução nas ofertas de forragem foi, provavelmente, consequência dos acréscimos na taxas de lotação (Tabela 2) utilizadas para manter as alturas pré-estabelecidas.

Não houve interação entre a altura do dossel e a estação do ano para os teores de proteína bruta (PB), de fibra em detergente neutro (FDN), de lignina em detergente ácido (LDA) e de digestibilidade in vitro da matéria orgânica (DIVMO), e consumo de matéria seca (CMS) pelos animais. Também não houve efeito da altura de manejo para os teores de FDN (73,6±1,2%) e de LDA (2,9±0,2%). Os teores de PB e DIVMO foram maiores para o pasto manejado a 15 cm em comparação ao manejado a 45 cm; já o manejado a 30 cm apresentou valores semelhantes aos das outras alturas (Tabela 2). É provável que o menor valor nutritivo do pasto mantido mais alto tenha sido consequência da maior quantidade de folhas velhas presentes no dossel, uma vez que as folhas rejeitadas pelos animais continuam a envelhecer. Decréscimos no valor nutritivo, à medida que aumenta a altura do dossel de pastos de gramíneas tropicais, também foram encontrados por Carnevalli et al. (2001a, 2001b), Cano et al. (2004), Palhano et al. (2007) e Flores et al. (2008).

O CMS pelos animais no pasto manejado a 15 cm foi menor em comparação ao observado nos pastos manejados a 30 e 45 cm (Tabela 2). Como os pastos manejados a 15 e 30 cm apresentaram teores de PB, DIVMO, FDN e LDA semelhantes, o controle do consumo de forragem pelos animais, provavelmente, não foi determinado pelo valor nutritivo do pasto. Flores et al. (2008) encontraram menor ingestão de matéria seca pelos animais em pastos de capim-xaraés manejado a 15 cm (1,8 kg 100kg-1 de PV), do que em pastos manejados a 25 e 40 cm (2,2 kg 100kg-1 de PV).

Segundo Poppi et al. (1987), a ingestão de forragem é determinada por dois tipos de fatores: os nutricionais e os não nutricionais. Os nutricionais estão relacionados ao valor nutritivo da forragem e a fatores metabólicos; já os não nutricionais associam-se ao comportamento ingestivo dos animais. A oferta de forragem e a estrutura do dossel podem tornar-se fatores limitantes ao consumo de forragem pelos animais, em pastejo (Brâncio et al., 2003a; Palhano et al., 2007).

A dieta do animal é composta, principalmente, de lâminas foliares (Brâncio et al., 2003b; Trindade et al., 2007). Assim, a presença de colmos, bainha e material morto no horizonte de pastejo são limitantes da profundidade do bocado (Carvalho et al., 2008); é comum observar aumento no tempo por bocado e redução na taxa de bocados (Palhano et al, 2007; Trindade et al., 2007), além do aumento no tempo diário de pastejo (Difante et al., 2009), com o aumento na presença desses materiais. Os pastos manejados mais altos apresentaram menores PF, RFC e RFNF (Tabela 2), mas maior CMS, o que sugere que essas características também não limitaram a ingestão de forragem.

Em relação às outras variáveis associadas à estrutura do dossel, não houve correlações entre ingestão de matéria seca e DVMS ou DVLV; Carvalho et al. (2001) afirmam que a altura do pasto, ao favorecer a profundidade e, consequentemente, a massa do bocado, é mais importante do que a densidade volumétrica da forragem.

Além da altura, a oferta de forragem provavelmente limitou o consumo de forragem pelos animais, uma vez que o CMS foi positivamente correlacionado com a OMS (R2 = 0,91*) e com a OLF (R2 = 0,96**). Segundo Carvalho et al. (2001), o consumo máximo é obtido quando a oferta é de pelo menos três vezes o potencial de ingestão do animal. A OLF, para os animais no pasto manejado a 15 cm (Tabela 2), foi cerca de duas vezes o potencial de consumo destes animais.

Não houve interação entre os efeitos de altura e estação do ano, para o ganho médio diário (GMD). Houve, no entanto, uma tendência de decréscimos no GMD dos animais à medida que aumentou a altura dos pastos (Tabela 2). A média dos ganhos de peso diários foi semelhante à de 675 g por novilho observada por Euclides et al. (2009) em pastos de capim-xaraés, sob lotação contínua, durante três períodos das águas.

O pasto manejado a 30 cm apresentou padrão de GMD relativamente mais estável do que os observados nas demais alturas, durante o período das águas (Figura 2). Essa altura de manejo apresenta menor influência das condições ambientais adversas, e a necessidade de ajuste na taxa de lotação foi menos frequente do que para os pastos mantidos a 15 e 45 cm.

 

 

Apesar de menor CMS pelos animais no pasto manejado a 15 cm (Tabela 2), o GMD foi semelhante aos dos pastos manejados nas outras alturas. Uma vez que o consumo de nutrientes digestíveis é o produto da quantidade de forragem consumida pela digestibilidade dos nutrientes na forragem, provavelmente, a maior DIVMO compensou o menor CMS pelos animais no pasto com 15 cm. É possível que o menor valor nutritivo do pasto com 45 cm tenha limitado o GMD dos animais neste pasto.

O ganho de peso por área (GPA) foi maior para o pasto manejado com 15 cm, em comparação ao com 45 cm; já o manejado com 30 cm foi semelhante às outras alturas (Tabela 2). Flores et al. (2008) observaram o inverso para pastos de capim-xaraés manejados com 15, 25 e 40 cm de altura, por causa dos decréscimos no GMD à medida que diminuía a altura do dossel. O resultado desses autores provavelmente se deveu à competição por alimento entre os animais e, consequentemente, menor oportunidade de selecionar uma dieta de melhor qualidade, já que a massa de lâmina foliar registrada por eles foi cerca da metade da observada neste trabalho. O GPA do pasto mantido a 30 cm foi semelhante ao observado por Euclides et al. (2009) em pastos de capim-xaraés, durante três estações das águas, e o GPA no pasto manejado a 15 cm foi de 46% maior do que o observado por esses autores.

Como os pastos manejados a 30 e 45 cm apresentaram a mesma produção por área, a decisão por uma dessas alturas depende das metas para determinado sistema de produção. Se o objetivo for manter um maior número de animais no processo produtivo, por exemplo, na fase de recria ou quando o preço da arroba estiver baixo, seria interessante utilizar a altura de 15 cm. A menor influência das condições ambientais adversas, o que resulta em maior estabilidade no GMD dos animais no pasto manejado a 30 cm, sugere maior facilidade de manejo nessa altura, ou seja, menor risco na tomada de decisão.

Quanto às estações do ano, não foram observadas diferenças em MST, PC, DVLF, PC, RFC, PB, FDN, LDA, CMS, GMD, TL e OMS. No entanto, foi observado efeito da estação do ano para as outras variáveis (Tabela 3).

 

 

As maiores taxas de crescimento da planta e de acúmulo de lâmina foliar, maior PF e menor PM e, consequentemente, maiores MSLF e RFNF, DVLF, OLF e DIVMO foram observadas no verão, em comparação ao outono (Tabela 3). Maior TL foi necessária durante o verão para manter as alturas de manejo planejadas, o que resultou em maior GPA. Essas alterações nas características do pasto provavelmente foram consequência das variações nas condições climáticas (Figura 1) e nas épocas das adubações nitrogenadas.

 

Conclusões

1. A intensidade de pastejo modifica de forma significativa a estrutura do dossel, o valor nutritivo da forragem e o consumo de matéria seca.

2. Os pastos de capim-xaraés manejados entre 15 e 45 cm apresentam ganhos médios diários semelhantes; no entanto, a taxa de lotação é maior para o pasto manejado com 15 cm de altura.

3. O ganho de peso vivo por unidade de área é igual para os pastos de capim-xaraés, manejados com 15 e 30 cm de altura.

4. O pasto de capim-xaraés manejado a 30 cm apresenta menor influência de condições ambientais adversas.

5. O capim-xaraés sob lotação contínua deve ser utilizado entre 15 e 30 cm de altura, durante o período das águas.

 

Agradecimentos

À Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul, à Embrapa Gado de Corte e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, pelo financiamento da pesquisa e pela concessão de bolsas de estudos para a primeira, segunda e sexta autoras.

 

Referências

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Recebido em 7 de julho de 2010 e aprovado em 14 de dezembro de 2010

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