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Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões

Print version ISSN 0100-6991

Rev. Col. Bras. Cir. vol.39 no.4 Rio de Janeiro July/Aug. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0100-69912012000400015 

COMUNICAÇÃO CIENTÍFICA

 

Análise de vídeos do YouTube sobre suporte básico de vida e reanimação cardiopulmonar

 

 

Francis Solange Vieira TourinhoI; Kleyton Santos de MedeirosII; Pétala Tuani Candido De Oliveira SalvadorIII; Grayce Loyse Tinoco CastroIV; Viviane Euzébia Pereira SantosV

IProfessora do Departamento de Enfermagem e Líder do grupo laboratório de investigação do cuidado, segurança e tecnologias em saúde e enfermagem da UFRN
IIAcadêmico do Curso de Graduação em Enfermagem da UFRN, Natal, (RN). Bolsista e Iniciação Científica CNPq (PIBIc - CNPq)
IIIMestranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFRN. Bolsista da CAPES
IVMestranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFRN
VProfessora do Departamento de Enfermagem. Vice-Líder do grupo de pesquisa-  laboratório de investigação do cuidado, segurança e tecnologias em saúde e enfermagem da UFRN

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar os vídeos no sítio de compartilhamento YouTube, observando quais os pontos tratados nos vídeos relacionados à reanimação cardiopulmonar  e ao Suporte Básico de Vida.
MÉTODOS: A análise foi baseada no Guidelines de 2010 da American Heart Association.Trata-se de uma pesquisa do tipo exploratória, quantitativa e qualitativa, realizada no sítio de compartilhamento do YouTube, utilizando-se os Descritores em Ciências da Saúde  "reanimação cardiopulmonar" e "suporte básico de vida" para vídeos que tinham como foco o suporte básico de vida.
RESULTADOS: Durante a investigação inicial encontrou-se 260 vídeos, foram escolhidos para análise,61.  Estes,em sua maioria, foram postados por pessoa física e pertencem à categoria Education. Grande parte dos vídeos, apesar de serem adicionados ao sítio depois da publicação do Guidelines de 2010 da AHA, estava de acordo com as antigas diretrizes de 2005.
CONCLUSÃO: Embora o sítio de compartilhamento de vídeos YouTube seja amplamente usado atualmente, nele há uma carência de vídeos a respeito de reanimação cardiopulmonar e Suporte Básico de Vida adequados às diretrizes da American Heart Association, podendo influenciar negativamente a população que o utiliza.

Descritores: Recursos audiovisuais. Filmes e vídeos educativos. Ressuscitação cardiopulmonar. Técnicas e procedimentos diagnósticos. Emergências.


 

 

INTRODUÇÃO

A parada cardiorrespiratória (PCR) compreende uma  situação dramática caracterizada pela interrupção das atividades respiratória e circulatória efetivas, responsáveis por morbimortalidade elevada, mesmo em situações de atendimento ideal1.

A ocorrência de PCR é mais comum no ambiente pré-hospitalar em relação ao hospitalar, sendo que cerca de 50% dos pacientes com infarto agudo do miocárdio não chegam vivos ao hospital1.

A taxa de sobrevida após uma PCR varia de dois a 49%, e depende do ritmo cardíaco inicial e do início da reanimação precoce. Sabe-se que esta taxa de sobrevida pode dobrar, e até mesmo triplicar, quando a reanimação cardiopulmonar (RCP) é realizada com alta qualidade2. O tempo é uma variável importante na PCR, estimando-se que, a cada minuto que o indivíduo permaneça em PCR, 10% de probabilidade de sobrevida sejam perdidos1.

Considerando essa situação, o Ministério da Saúde, desde 2008, oferece treinamento em Suporte Básico de Vida (SBV) para os profissionais da rede do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU 192), os quais, por meio dessa capacitação, desenvolvem subsídios para promover uma RCP eficaz.

Além disso, faz-se necessário que o leigo receba treinamento em SBV para o atendimento precoce em situações de emergência à vítima de PCR, colaborando com a redução significativa dos óbitos no ambiente extra-hospitalar, com o aumento da sobrevida e com a diminuição das sequelas das vítimas de PCR3.

Destaca-se que, uma RCP de qualidade exige conhecimento teórico e habilidade, o que é essencial para a sobrevida do paciente com risco iminente de morte súbita. Destarte, o uso apropriado do conhecimento e a capacidade de realizar RCP por parte dos profissionais de saúde ou leigos estão relacionados à redução da mortalidade e da morbidade das vítimas de PCR súbita4.

Nessa perspectiva, o uso de recursos como aulas teóricas e vídeos de RCP, não aprimora a capacidade psicomotora em realizar RCP de alta qualidade, porém aumentam a capacidade cognitiva, ou seja, o conhecimento. Desse modo, aulas e vídeos podem produzir RCP de boa qualidade, proporcionando uma possível melhoria na sobrevida do paciente vítima de PCR dentro e fora do hospital4.

É sabido que muitas pessoas utilizam o sitio do YouTube para buscar conhecimento acerca de agravos à saúde. Nesse contexto, interroga-se:  o que retratam os vídeos sobre RCP e SBV no sítio de compartilhamento YouTube? Eles estão de acordo com os destaques das Diretrizes da American Heart Association (AHA) 2010 para RCP e atendimento cardiovascular de emergência (ACE)?

Assim, o objetivo desta pesquisa, considerando a relevância do assunto e, principalmente, a necessidade de constante atualização na área, é analisar os vídeos no sítio de compartilhamento YouTube, observando cuidadosamente os pontos tratados nos vídeos relacionados à RCP e SBV com base no Guidelines de 2010 da AHA.

 

MÉTODOS

O trabalho em questão é uma pesquisa do tipo exploratória, com abordagem quantitativa, realizada no sítio de compartilhamento de vídeos YouTube, cujo endereço virtual é: www.youtube.com. Apesar da existência de outros sítios de compartilhamento de vídeos, a escolha do YouTube se deu por este ser, atualmente, o mais difundido entre os usuários de internet.

Inicialmente, foi realizada uma busca no YouTube, utilizando-se os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) "reanimação cardiopulmonar" e "suporte básico de vida" para vídeos que tinham como foco o suporte básico de vida.

Destaca-se que, segundo a Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), por meio dos DECS, reanimação cardiopulmonar e suporte básico de vida denotam a substituição artificial da ação do coração e pulmão conforme indicação para parada cardíaca resultante de choque elétrico, afogamento, parada respiratória ou outras causas. Esses descritores, portanto, indicam a ação humana na manutenção da circulação sanguínea e ventilação em uma pessoa vítima de parada cardíaca, aspecto que foi buscado na análise dos vídeos.

Foram definidos como critério de inclusão: duração do vídeo, menor que 4 minutos, como o próprio sítio classifica; vídeos de língua portuguesa (sem restrições no que diz respeito ao sujeito da produção ou ao tipo de linguagem utilizada verbal ou não verbal,  referência direta à RCP; e data limite de postagem de 01 de novembro de 2010 até 10 de novembro de 2011 (até um ano após o lançamento das novas diretrizes de RCP da AHA), considerando-se o montante de vídeos armazenados no sítio e a contínua adição de vídeos.

Os critérios de exclusão adotados foram: não corresponder à temática estudada e/ou não responder à questão norteadora; além dos vídeos duplicados.

A pesquisa foi realizada através de visitas ao sítio, as quais aconteceram sem local definido, uma vez que não existe restrição de acesso aos vídeos se acessados de locais diferentes, como acontece com alguns portais de pesquisa. Assim, foi possível realizar várias visitas que se fizeram necessárias, em diferentes momentos, para a observação e análise dos vídeos de forma organizada e tranquila.

Após esta fase, os vídeos sofreram uma triagem, a partir dos títulos e das descrições que cada um passa a ter ao ser postado no sítio, de acordo com os critérios de inclusão.

Uma vez realizada a seleção dos vídeos, foi iniciada a coleta de dados. Para isto, foram assistidos um a um e foram extraídas informações como: tempo de duração, autor (pessoas física, órgão ou empresa) e conteúdo do vídeo com a observação cuidadosa, focalizando quais pontos relacionados à RCP relacionados ao Guidelines de 2010 da AHA eram abordados.

Como variáveis de controle do estudo, destacam-se as sequências C, A, B, D de atendimento às vítimas de agravos cardiológicos, iniciando-se pelo SBV com as sequências: C (mínimo de 100 compressões por minuto rápidas e eficazes), A (abertura de via aérea), B (ventilações) e por último D (desfibrilação precoce), com relação de 30 compressões para duas ventilações5.

Os dados obtidos foram tabulados, agrupados e analisados para elaborar o perfil de qualidade dos vídeos sobre RCP e SBV armazenados no sítio YouTube.

Não se fez necessária a aprovação em comitê de ética, uma vez que a pesquisa não está envolvida diretamente com seres humanos, utilizando material de domínio público.

 

RESULTADOS

A sinopse dos dados referentes aos achados através da busca dos vídeos no sítio do youtube.com, está descrita na tabela 1.

A busca no sítio do YouTube.com totalizou 260 vídeos. Foram escolhidos para análise  61 vídeos (Tabela 1) que foram analisados atendendo ao objetivo da pesquisa. 

Percebeu-se que todos os vídeos são atuais. Estes, em sua maioria, são postados por pessoa física, tendo em vista que qualquer pessoa que tenha uma conta no sítio do YouTube pode postar seus vídeos. Porém, encontram-se também vídeos postados por empresas e organizações não governamentais (ONG) (Tabela 2).

Analisou-se, também, a categoria em que os vídeos estavam dispostos no sítio do YouTube (Figuras 1 e 2). Assim, observa-se que 90% dos vídeos pertencem à categoria Educação.

 

 

 

 

A tabela 3 retrata os principais erros encontrados nos vídeos analisados, considerando os dois descritores.

tabela 4 retrata um resumo das principais condutas adequadas enfatizadas nos vídeos analisados, de acordo com os descritores escolhidos.

 

DISCUSSÃO

Ao se analisar cuidadosamente alguns pontos relacionados à RCP com base no Guidelines de 2010 da AHA tratados nos vídeos, observou-se que grande parte dos vídeos, apesar de serem adicionados ao sítio depois da publicação deste documento norteador, estava de acordo com as antigas diretrizes de 2005.

Logo, a sequência C, A, B, D de atendimento às vítimas de agravos cardiológicos não era observada. Nesses vídeos, as manobras de RCP eram iniciadas por duas ventilações de resgate e ainda um determinado vídeo fazia referência ao início da RCP com quatro ventilações de resgate.

Outro ponto observado é que alguns vídeos retratam as manobras de RCP sendo realizadas com aproximadamente 100 compressões torácicas por minuto. Porém, de acordo com o novo Guidelines, as compressões torácicas deveriam ter uma frequência de no mínimo 100 por minuto5.

Outros vídeos apontam a importância do reconhecimento adequado da PCR e revelam a melhoria nas taxas de sobrevida do paciente. Desse modo, as recomendações para o reconhecimento de PCR envolvem os sinais de responsividade: não apresentar respiração ou apresentar respiração anormal e ausência de pulso carotídeo ou femoral5. Fato nem sempre observado nos vídeos analisados, dos quais alguns exibem um reconhecimento inapropriado do pulso da artéria radial e da veia subclávia; e a não verificação de resposta da vítima a estímulos realizados pelo socorrista. Destaca-se que em um vídeo o socorrista refere-se à ausência de movimentos peristálticos como forma de reconhecimento de PCR.

Além disso, o procedimento "Ver, ouvir e sentir se há respiração" presente no Guidelines de 2005, foi bastante elucidado nos vídeos. Porém, sabe-se que na nova diretriz esse procedimento foi removido da sequência da RCP5. Dessa forma, após a aplicação de 30 compressões, o socorrista que atuar sozinho deverá abrir a via aérea do paciente e realizar duas ventilações.

As diretrizes da AHA 2010 enfatizam a necessidade de uma RCP de alta qualidade, ou seja, que observe os seguintes aspectos: frequência de compressão mínima de 100/min; profundidade de compressão mínima de duas polegadas (cinco centímetros) em adultos, e de, no mínimo, um terço do diâmetro anteroposterior do tórax, em bebês (quatro centímetros) e crianças (cinco centímetros); retorno total do tórax após cada compressão; minimização das interrupções nas compressões; e prudência no excesso de ventilações5.

Segundo estudos do Conselho Europeu de Ressuscitação, o correto posicionamento das mãos é fundamental para a eficácia da realização da RCP6. Entretanto, essas características fundamentais são banalizadas em alguns vídeos, nos quais, por exemplo, a interrupção dos ciclos de reanimação é explicitada constantemente.

Além disso, não houve alteração na recomendação referente à relação compressão-ventilação de 30:2 para um único socorrista de adultos, crianças e bebês (excluindo-se recém-nascidos). Assim, todos os vídeos selecionados que se referem a essa relação, citam-na corretamente; exceto um deles que remete a uma relação de 10:2.

Observou-se que a cadeia de sobrevivência de ACE adulto da AHA, ou seja: reconhecimento imediato da PCR e acionamento do serviço de emergência/urgência, RCP precoce, com ênfase nas compressões torácicas, e rápida desfibrilação5,7, estava presente em alguns vídeos; enquanto que o suporte avançado de vida eficaz e cuidados pós-PCR integrados foi abordado apenas por um único vídeo.

Existe uma escassez no sítio do www.youtube.com de vídeos relacionados à RCP em crianças, observado em apenas um curto vídeo, em que as manobras ainda estavam de acordo com as diretrizes de 2005.

Esta escassez se estende aos vídeos que enfatizam a desfibrilação precoce nos casos de PCR7, encontrando-se na pesquisa apenas dois vídeos que abordam a desfibrilação precoce do ritmo fibrilação ventricular, o que não é visto com o ritmo taquicardia ventricular sem pulso, mesmo sendo um ritmo em que o choque é recomendado.

Apesar de terem sido usados os descritores reanimação cardiopulmonar e suporte básico de vida, alguns vídeos tratam de comédia ilustrativa, reportagens a respeito de uma ação educativa, criança realizando compressões torácicas em brinquedo de pelúcia, propaganda de um aparelho desenvolvido para desempenhar RCP e de artigos médicos hospitalares, manutenção do desfibrilador externo automático (DEA) e flashes esporádicos de aulas sobre RCP.

Portanto, conclui-se, após a análise dos vídeos, que é notória a existência de uma carência de vídeos adequados abordando a RCP e SBV no sítio de compartilhamento de vídeos YouTube.

Tendo em vista que este sítio é o mais difundido entre os usuários de internet e que muitas pessoas usam-no como fonte de pesquisa, seria necessária a criação de vídeos de caráter educativo para serem difundidos pela internet a propósito de disseminar o conhecimento de RCP de forma adequada para a população leiga, bem como, científica, além de oportunizar de forma apropriada a sua utilização em espaços de treinamentos e aulas didáticas, favorecendo a fixação do conteúdo exposto.

Sabe-se que RCP de alta qualidade aumenta as chances de sobrevida, então uma mensagem importante, nesse contexto, é que todas as vítimas de parada cardíaca devem receber a RCP de alta qualidade, sendo fundamental a população se tornar ciente das manobras de reanimação cardiopulmonar, para, dessa forma, salvar vidas.

 

REFERÊNCIAS

1. Pazin-Filho A, Santos JC, Castro RBP, Bueno CDFB, Schmidt A. Parada cardiorrespiratória (PCR).  Medicina. 2003;36(2/4):163-78.         [ Links ]

2. Dalri MCB, Araújo IEM, Silveira RCCP, Canini SRMS, Cyrillo RMZ. Novas diretrizes da ressuscitação cardiopulmonar. Rev Latino-am Enfermagem. 2008;16(6):1060-2.         [ Links ]

3. Pergola AM, Araujo IEM. O leigo e o suporte básico de vida. Rev esc enferm USP. 2009;43(2):335-42.         [ Links ]

4. Miotto HC, Camargos FRS, Ribeiro CV, Goulart EMA, Moreira MCV. Efeito na ressuscitação cardiopulmonar utilizando treinamento teórico versus treinamento teórico-prático. Arq Bras Cardiol. 2010;95(3):328-31.         [ Links ]

5. American Heart Association. Destaques das diretrizes da American Heart Association 2010 para RCP e ACE: Guidelines CPR ECC. Dallas: American Heart Association; 2010.         [ Links ]

6. Owen A, Harvey P, Kocierz L, Lewis A, Walters J, Hulme J. A randomised control trial comparing two techniques for locating chest compression hand position in adult Basic Life Support. Resuscitation. 2011;82(7):944-6.         [ Links ]

7. Fischer H, Gruber J, Neuhold S, Frantal S, Hochbrugger E, Herkner H, et al. Effects and limitations of an AED with audiovisual feedback for cardiopulmonary resuscitation: a randomized manikin study. Resuscitation. 2011;82(7):902-7.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Francis Solange Vieira Tourinho
E-mail: francistourinho@gmail.com

Conflito de interesse: nenhum
Fonte de financiamento: nenhuma

Recebido em 10/02/2012
Aceito para publicação em 10/04/2012

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