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Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul

Print version ISSN 0101-8108

Rev. psiquiatr. Rio Gd. Sul vol.29 no.1 Porto Alegre Jan./Apr. 2007

https://doi.org/10.1590/S0101-81082007000100014 

ARTIGO DE REVISÃO

 

O exercício físico no tratamento da depressão em idosos: revisão sistemática

 

 

Helena MoraesI; Andréa DeslandesII; Camila FerreiraIII; Fernando A. M. S. PompeuIV; Pedro RibeiroV; Jerson LaksVI

ILaboratório de Mapeamento Cerebral e Integração Sensório–Motora, Instituto de Psiquiatria – Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPUB–UFRJ), Rio de Janeiro, RJ. Centro de Alzheimer e Outros Transtornos Mentais na Velhice, IPUB–UFRJ, Rio de Janeiro, RJ
IILaboratório de Mapeamento Cerebral e Integração Sensório–Motora, IPUB–UFRJ, Rio de Janeiro, RJ. Centro de Alzheimer e Outros Transtornos Mentais na Velhice, IPUB–UFRJ, Rio de Janeiro, RJ. Doutoranda, Programa de Pós–Graduação em Psiquiatria e Saúde Mental, IPUB–UFRJ, Rio de Janeiro, RJ. Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES)
IIILaboratório de Mapeamento Cerebral e Integração Sensório–Motora, IPUB–UFRJ, Rio de Janeiro, RJ. Mestranda, Programa de Pós–Graduação em Psiquiatria e Saúde Mental, IPUB–UFRJ, Rio de Janeiro, RJ. Bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)
IVDepartamento de Biociências e Atividade Física, UFRJ, Rio de Janeiro, RJ
VLaboratório de Mapeamento Cerebral e Integração Sensório–Motora, IPUB–UFRJ, Rio de Janeiro, RJ. Departamento de Biociências e Atividade Física, UFRJ, Rio de Janeiro, RJ
VICentro de Alzheimer e Outros Transtornos Mentais na Velhice, IPUB–UFRJ, Rio de Janeiro, RJ. Doutoranda, Programa de Pós–Graduação em Psiquiatria e Saúde Mental, IPUB–UFRJ, Rio de Janeiro, RJ. Bolsista da CAPES. Mestranda, Programa de Pós–Graduação em Psiquiatria e Saúde Mental, IPUB–UFRJ, Rio de Janeiro, RJ. Bolsista do CNPq

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVOS: Revisar a literatura quanto (I) ao possível efeito protetor do exercício físico sobre a incidência de depressão e (II) à eficácia do exercício físico como intervenção no tratamento da depressão.
MÉTODO: Revisão sistemática de artigos em inglês e português nas bases ISI, PubMed, SciELO e LILACS de janeiro de 1993 a maio de 2006, utilizando conjuntamente os termos "depressão", "idosos" e "exercício". Artigos que avaliaram o efeito do exercício em idosos com doenças clínicas ou que utilizaram escalas para depressão somente para um diagnóstico inicial foram excluídos.
RESULTADOS: Do total de 155 artigos, 22 atenderam aos critérios de inclusão, e oito foram acrescentados com busca manual. Os artigos de corte transversal (n = 8) utilizaram somente questionários de auto–avaliação para medir os níveis de atividade física. Os artigos longitudinais (n = 22) utilizaram também pedômetro digital, consumo direto de oxigênio e o exercício físico como intervenção metodológica. Os estudos que atenderam ao objetivo I apontaram para uma relação inversamente proporcional entre atividade física e alterações nos níveis de depressão. Os trabalhos que utilizaram o exercício como intervenção terapêutica na depressão encontraram resultados divergentes e apontaram para a interferência de fatores fisiológicos e psicológicos nessa relação.
CONCLUSÃO: O papel do exercício e da atividade física no tratamento da depressão direciona–se para duas vertentes: a depressão promove redução da prática de atividades físicas; a atividade física pode ser um coadjuvante na prevenção e no tratamento da depressão no idoso.

Descritores: Depressão, idosos, atividade física, exercício, revisão sistemática.


 

 

Introdução

A depressão é um dos maiores problemas de saúde pública do mundo, devido à sua alta morbidade e mortalidade1. Nos EUA, atinge cerca de 9,5% dos adultos por ano. Sua incidência é estimada em aproximadamente 17% da população mundial2. Algumas de suas principais características são perda de peso, sentimento de culpa, ideação suicida, hipocondria, queixa de dores e, eventualmente, psicose. Esses sintomas são mais acentuados em deprimidos idosos do que em deprimidos jovens e contribuem para declínio cognitivo3 e do condicionamento cardiorrespiratório4 nessa faixa etária.

Apesar de haver disponibilidade de mais de oito classes de antidepressivos, com aproximadamente 22 substâncias ativas no mercado mundial para o tratamento farmacológico da depressão, somente 30 a 35% dos pacientes depressivos respondem ao tratamento com psicofármacos5. Em trabalhos bem controlados e com delineamento duplo–cego, a resposta é definida como uma redução de 50% dos sintomas observados através de escalas de avaliação de depressão, enquanto a remissão é definida como uma melhora total6. Para a eventual remissão, faz–se necessário, portanto, a utilização de outros métodos de tratamento associados ao medicamentoso.

Em um artigo de revisão recente, Frazer et al.7 sugerem que, dentre outros métodos, a atividade física pode ser considerada eficaz no tratamento da depressão. Atividade física é qualquer movimento corporal produzido pelos músculos esqueléticos que resulta em gasto energético maior do que o dos níveis de repouso. Já o exercício é uma atividade física planejada, estruturada e repetitiva, que tem como objetivo final ou intermediário aumentar ou manter a saúde/aptidão física8. Tanto a atividade quanto o exercício podem propiciar benefícios agudos e crônicos. São eles: melhora no condicionamento físico; diminuição da perda de massa óssea e muscular; aumento da força, coordenação e equilíbrio; redução da incapacidade funcional, da intensidade dos pensamentos negativos e das doenças físicas; e promoção da melhoria do bem–estar e do humor9. Entretanto, os efeitos da prática de atividades físicas sobre a depressão ainda são contraditórios. Alguns estudos associam modificações nos quadros de depressão como resultantes da prática de atividades10–12, enquanto outros trabalhos1,13 relacionam a prática mais freqüente de atividades à própria melhora na gravidade do transtorno depressivo. Nesse contexto, o presente estudo tem como objetivo: (I) revisar, na literatura com indivíduos idosos, o possível efeito protetor do exercício físico sobre a incidência de depressão; e (II) a eficácia do exercício físico como intervenção no tratamento da depressão.

 

Método

Realizamos uma busca de artigos nas bases Science Citation Index (Institute for Scientific Information – ISI), PubMed, SciELO e LILACS de janeiro de 1993 a maio de 2006, utilizando conjuntamente os termos "depressão", "idosos" e "exercício" com os seguintes limites: humans, english, clinical trial + randomized controlled trial, middle aged: 45 + years, NOT review, NOT animals NOT heart NOT failure. Foram selecionados ensaios longitudinais e transversais, além de referências adicionais encontradas na bibliografia desses artigos, com a mesma metodologia especificada acima, que foram capturadas e que preenchiam os critérios de seleção para este estudo. Os artigos que avaliaram o efeito do exercício em idosos com doenças clínicas em comorbidade (tais como diabetes melito, hipertensão e doença coronariana) e utilizaram escalas para depressão somente para um diagnóstico inicial, sem o objetivo de avaliar as alterações observadas após a intervenção de exercícios físicos, foram excluídos. Inicialmente, todos os resumos foram avaliados independentemente por dois avaliadores. Aqueles aprovados pelos dois eram incluídos no estudo. Os que apresentassem discordância eram submetidos a um terceiro avaliador.

 

Resultados

Foram encontrados 88 artigos na base ISI, 62 na PubMed, quatro na LILACS e um no SciELO. Retiradas as referências cruzadas redundantes, constantes em mais de uma base, foram selecionados 22 artigos e adicionados oito. Os artigos não aceitos para esta revisão (n = 130; 74 da base ISI, 53 do PubMed, dois do LILACS e um do SciELO) tiveram como razões para sua exclusão os seguintes fatores: não foi possível obter a versão completa (n = 14; nove ISI, cinco PubMed); tinham como objetivo utilizar a atividade física para reabilitação motora ou cardíaca e aplicavam escalas de depressão somente para diagnóstico inicial (n = 37; 14 ISI, 23 PubMed); analisaram outros distúrbios psicológicos (n = 2; um ISI, um PubMed); analisavam os benefícios da atividade física, mas não diretamente relacionados com depressão (n = 58; 44 ISI , 11 PubMed , dois LILACS, um SciELO); analisaram a relação de outros fatores com depressão (n = 19; seis ISI, 13 PubMed).

Os estudos que atenderam ao objetivo I apontaram para uma relação inversamente proporcional entre atividade física e alterações nos níveis de depressão. Os trabalhos que utilizaram o exercício como intervenção terapêutica na depressão encontraram resultados divergentes e apontaram para a interferência de fatores fisiológicos e psicológicos nessa relação. As Tabela 1 e 2 apresentam os estudos, separando–os pelos dois objetivos do presente estudo, ordenados em estudos longitudinal e de corte transversal.

 

Discussão

Atividade física e depressão: a relação de causa e efeito

De um modo geral, os estudos com o objetivo de observar a relação de causa e efeito entre a prática de atividade física e alterações nos níveis de depressão apontam para uma relação inversamente proporcional. Achados recentes dão suporte a duas vertentes diferenciadas na tentativa de elucidar a relação entre atividade física e depressão. A primeira vertente indica a prática da atividade física como um fator influenciador na diminuição da intensidade dos sintomas depressivos. Lampinem et al.11 verificaram que idosos que reduziram as atividades praticadas após 8 anos apresentaram aumento nos sintomas de depressão, enquanto que os indivíduos que aumentaram ou mantiveram a intensidade das atividades não apresentaram esse efeito. Resultados similares foram encontrados por estudos que avaliaram o treinamento através de outras ferramentas quantitativas, como consumo de oxigênio4 e pedômetro digital12. A segunda vertente aponta para a influência da depressão na atividade física. Ao analisar 1.920 idosos ao longo de 6 anos, van Gool et al.13 verificaram que idosos que se tornaram depressivos tendem mais ao sedentarismo do que aqueles sem depressão. Portanto, a depressão seria a causa da diminuição do estado geral de aptidão física. Apesar de envolver um grande número de sujeitos, o desenho dos estudos permite que se afirme que há associação entre diminuição de exercício físico e depressão, mas não precisa causa e efeito, já que não houve acompanhamento cronológico do evento13.

Estudos de corte transversal apresentaram resultados divergentes. Anton & Miller15 e Bailey & McLaren19 não encontraram relação positiva significativa para proteção de depressão pela prática de atividade física e apresentam como limitações do estudo a utilização de uma amostra pequena (n = 23)15 e o uso de questionários auto–avaliativos para quantificar a atividade física praticada19. Já outros estudos17,20, utilizando os mesmos métodos e com uma amostra maior, verificaram que o sedentarismo e a idade são fatores relacionados positivamente com a depressão, principalmente quando controlando o fator idade. Além do sedentarismo, a desistência da prática de atividades e a insatisfação com a atividade física praticada também podem estar relacionadas com níveis altos de depressão10. Por ser um estudo de corte transversal, não é possível determinar se a substituição da atividade exercida é uma causa ou uma conseqüência da redução da depressão.

Dois estudos híbridos avaliaram o efeito protetor da atividade física na depressão, através de análise transversal e longitudinal, e apresentaram resultados contraditórios1,16. Nas análises transversais, os idosos menos ativos possuíam maiores riscos de depressão do que os mais ativos. Nas análises longitudinais, Strawbridge et al.1 encontraram relação direta entre a incidência de depressão e a redução da prática de atividades físicas, enquanto Kritz–Silverstein et al.16 não obtiveram tais resultados. A discrepância para esses resultados pode ser explicada pela diferença de algumas variáveis das amostras. O primeiro estudo usou a incapacidade funcional dos idosos como fator de exclusão, e o segundo não usou essa limitação. Penninx et al.14 acompanharam 6.247 idosos ao longo de 6 anos e verificaram que aqueles que apresentavam maiores sintomas depressivos reduziram significativamente o desempenho em tarefas diárias. Esses resultados poderiam ser parcialmente explicados por redução da prática de atividade física e da interação social. Vários estudos comprovaram que a depressão pode prejudicar a capacidade funcional nas atividades de rotina (tomar banho, comer, vestir–se) e na mobilidade (caminhar metade de uma milha ou subir e descer degraus sem ajuda)37–39. A falta de independência no desempenho dessas atividades pode estar associada com dores físicas crônicas38, inatividade física18,27,37 e medo de quedas40. Rotinas de exercício que incluíram alongamento, equilíbrio, caminhada, força e coordenação mostraram ser eficientes na redução dos níveis de depressão para idosos com recente histórico de quedas18.

Exercício físico como intervenção terapêutica na depressão

Alguns estudos utilizaram o exercício como intervenção terapêutica na depressão e propõem que seus resultados podem ser devidos a fatores psicológicos e/ou fisiológicos29,35. Para testar os fatores fisiológicos, dois estudos5,36 compararam as alterações nos níveis de depressão de idosos randomizados em três grupos: exercício, medicamento e combinados (medicamento e exercício). O grupo exercício foi monitorado quanto à intensidade e freqüência do treinamento. A redução da depressão ocorreu nos três grupos, sem diferença significativa entre eles. Após 6 meses, foi realizada uma nova análise5,21 da mesma amostra, sem randomização, concluindo que, quanto maior for o tempo gasto com exercícios, menores serão os níveis de depressão. Além disso, o grupo exercício apresentou maior recuperação e menor recaída do que os outros observados. Segundo os autores, combinar medicamento com exercício pode gerar resultados diferentes dos encontrados apenas com o treinamento, por não garantir o sentimento de autoconfiança nos indivíduos, que atribuem as melhoras ao efeito do medicamento.

Kohut et al.28 relacionaram a diminuição da depressão, após 10 meses de exercício físico, com alterações no sistema imunológico. Uma possível explicação para esses resultados seria a liberação de hormônios como epinefrina, norepinefrina, somatotrofina, ?–endorfina e cortisol, que atingem receptores específicos situados nos linfócitos e macrófagos, promovendo um aumento na concentração dessas células.

Para observar os efeitos psicológicos, muitos estudos compararam intervenções psicológicas e sociais, como visita de terapeutas, trabalhos em grupos ou palestras com o exercício. Lai et al.32 encontraram redução significativa nos sintomas de depressão imediatamente após 3 meses de exercício em idosos reabilitados de infarto agudo de miocárdio. O mesmo resultado não foi encontrado naqueles que receberam intervenções psicológicas com visitas de terapeutas. Os grupos foram reavaliados 6 meses após e, mesmo sem nenhum tipo de intervenção nesse período, reduziram significativamente os níveis de depressão. Entretanto, nessa fase, não houve controle quanto ao uso de medicamentos.

Seguindo a mesma linha de pesquisa, Mather et al.22 encontraram redução significativa de 55 e 30% dos níveis de depressão, quando submeteram 86 idosos a aulas de ginástica coletiva ou reuniões e palestras com psicólogos durante 12 semanas, respectivamente. Já McNeil et al.23 analisaram dois tipos de sintomatologias (sintomas psicológicos: sentimentos de inutilidade, perda de interesse em atividades usuais e distúrbios de humor; e sintomas somáticos: perda do apetite, fadiga e distúrbio do sono) em idosos que fizeram exercício ou receberam visitas de psicólogos. Ambos reduziram os dois tipos de sintomas, mas somente o grupo exercício reduziu significativamente os sintomas somáticos.

Resultados divergentes foram encontrados por Castro et al.34 quando randomizaram idosos em intervenção com exercícios e acompanhamento de um nutricionista. Apesar de encontrar a redução dos níveis de depressão nos dois grupos, o acompanhamento foi realizado apenas através de telefonemas, reduzindo a fidedignidade dos resultados. Rybarczyk et al.25 compararam exercícios supervisionados e não–supervisionados em idosos depressivos e não–depressivos. Redução significativa nos sintomas depressivos foi encontrada apenas no grupo depressivo que praticou exercício físico supervisionado.

Diferentes modalidades de exercício foram utilizadas em alguns estudos para comparar a eficácia dos resultados. Motl et al.33 compararam exercícios de resistência e flexibilidade com aeróbios, realizados com a mesma duração e freqüência em idosos sem quadro clínico de depressão. Embora ambos tenham reduzido os sintomas depressivos logo após a intervenção, os exercícios aeróbios promoveram maiores resultados. Já Paw et al.26 não encontraram diferença entre o treinamento de força e atividades lúdicas. No entanto, limitações metodológicas prejudicaram a mensuração da intensidade do treino, e, ainda, os participantes não conseguiam aumentar a intensidade do programa de exercícios. Singh et al.30 compararam níveis diferentes de intensidade de treinamento de força e observaram redução dos sintomas de depressão nos dois grupos, porém maior resultado no grupo de alta intensidade. King et al.24 não encontraram diferença nos resultados quando compararam diferentes intensidades de exercícios aeróbios. Entretanto, a freqüência da prática das atividades foi um fator determinante na redução dos sintomas de depressão. Haboush et al.31 promoveram aulas de dança de salão em idosos depressivos durante 8 semanas, com a freqüência de apenas uma vez por semana, e não obtiveram resultados nos sintomas de depressão.

Redução da depressão com exercício e atividade física: possíveis explicações neuroquímicas

Embora apresentem resultados significativos no tratamento da depressão, os mecanismos pelos quais a atividade física proporciona efeitos antidepressivos são especulativos. Para tentar elucidá–los, faz–se necessário um entendimento da neurobiologia e neuropsicologia da depressão. São verificadas alterações no fluxo sangüíneo e no metabolismo do córtex pré–frontal (área relacionada com atenção, psicomotricidade, capacidade executiva e tomada de decisão); hiperatividade da região subgenual pré–frontal cortical (que gera pensamentos tristes); e aumento do metabolismo de glicose em várias regiões límbicas, com ênfase na amígdala (aprendizado emocional)41. Além disso, alterações na regulação do eixo hipotálamo–hipófise–adrenal (hipersecreção de cortisol) estão relacionadas com o transtorno depressivo42.

Alterações neurocognitivas são observadas em idosos depressivos, como comprometimento na atenção, memória, velocidade de processamento, função executiva, emoção e tomada de decisão41. Um dos fatores que podem explicar o déficit de memória na depressão é a alteração hipocampal devido a uma hipercortisolemia, redução do fator neurotrófico derivado do cérebro (FDNC) e redução da neurogênese2. O exercício físico contribui para o desenvolvimento da neurogênese no hipocampo através da potencialização de longa duração e do FDNC, do mesmo modo que os antidepressivos e a terapia eletroconvulsiva43,44.

A hipótese mais encontrada na literatura é a de um aumento na liberação de monoaminas, como serotonina, dopamina e noradrenalina7. O processo da biossíntese de serotonina pode ocorrer pelo aumento de seu precursor triptofano no cérebro, influenciado pelo exercício45. Kiive et al.46 verificaram níveis sangüíneos elevados de prolactina durante o exercício aeróbio, refletindo um aumento central de serotonina. A serotonina pode atenuar a formação de memórias relacionadas ao medo e diminuir as respostas a eventos ameaçadores através de projeções serotoninérgicas que partem do núcleo da rafe para o hipocampo47.

O exercício também pode estar relacionado com a síntese de dopamina devido a um aumento nos níveis de cálcio no cérebro, através do estímulo de um sistema enzimático conhecido como cálcio–calmodulina48. A dopamina está relacionada com o desempenho motor, a motivação locomotora e a modulação emocional49.

Prescrição do exercício e da atividade física na depressão

Para a população acima de 65 anos, o Colégio Americano de Medicina Desportiva (ACSM)50 preconiza atividade aeróbia de intensidade de 40 a 60% da freqüência cardíaca de reserva, ou 11 a 13 na escala de Borg, com duração de 20 minutos e freqüência de três vezes por semana. Os artigos de revisão concluem que atividades como caminhada e corrida são os tratamentos mais utilizados para níveis graves de depressão7,51. Meyer & Broocks52 mostraram que, para a redução efetiva dos sintomas de depressão, é necessária a prescrição de exercícios com duração de 30 minutos e intensidade de 50 a 60% do VO2máx, ou 12 a 14 na escala de Borg, afirmando que atividades longas e menos intensas são preferíveis, por interromperem, com maior eficiência, pensamentos depressivos. Tendo em vista que a maioria dos pacientes depressivos é sedentária, preconiza–se a freqüência de duas a quatro vezes por semana. É necessária a realização de reavaliações funcionais no período entre 10 e 12 semanas de treino, para adequar a intensidade do exercício às melhoras do condicionamento físico. Entretanto, a maioria dos artigos conclui que o total de tempo gasto com exercício, relacionado diretamente com a aderência, é a variável mais importante para conferir os resultados da prática de exercícios24,26,50,52.

O treinamento de força também pode ser utilizado por aumentar a capacidade funcional, reduzindo a dependência na prática das atividades diárias pela sensação de queda, fragilidade, perda de massa óssea e ainda o risco de doenças crônicas53. Para esse tipo de treino, o ACSM50 preconiza de duas a três séries de exercícios, com freqüência de duas vezes por semana, mas preferencialmente de três. Seguin & Nelson53 periodizam o volume do treino com duas a três séries para quatro exercícios, uma a duas séries para quatro a oito exercícios e uma série para oito exercícios ou mais.

 

Conclusão

A relação entre o papel do exercício e da atividade física no tratamento da depressão se direciona para duas vertentes: a depressão promove redução da prática de atividades físicas; a atividade física pode ser um coadjuvante na prevenção e no tratamento da depressão. No entanto, são necessários mais estudos que utilizem grupo–controle, população homogênea, escalas e testes fidedignos, monitorização do exercício físico e novas ferramentas de mapeamento cerebral para confirmação desses achados. Tendo em vista os benefícios físicos e psicológicos provenientes da atividade física em geral e do exercício em especial, pode–se concluir que a sua prática por indivíduos idosos depressivos sem comorbidades é capaz de promover a prevenção e a redução dos sintomas depressivos.

 

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Correspondência
Helena Sales de Moraes
Av. Brasil, 11961/402, Bloco 07, Penha
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E–mail: helenasmoraes@gmail.com.br

Recebido em 20/06/2006. Aceito em 14/11/2006.

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