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Revista Brasileira de História

Print version ISSN 0102-0188On-line version ISSN 1806-9347

Rev. bras. Hist. vol. 17 n. 34 São Paulo  1997

https://doi.org/10.1590/S0102-01881997000200002 

Pacto Social e Luta Operária em Schio

 

Antonio Folquito Verona 1
Universidade Estadual Paulista - Assis

 

A construção do contrato social pelos operários do Lanifício Rossi, de Schio (Itália), numa leitura crítica dos fatos ocorridos entre 1873 e 1891

 

 

RESUMO:
O presente estudo é parte de um trabalho mais amplo, o qual estuda o processo de formação e conscientização do operariado da cidade vêneta de Schio e da greve traumática que levou centenas de seus participantes a imigrar para a região de Caxias (RS), onde guardaram a lembrança de suas lutas e aplicaram sua experiência profissional.
Palavras-chave: imigração, operários, greve.

 

ABSTRACT:
The present study is part of a more extensive work that analyses the process of formation and consciousness of the working class in the venetian city of Schio and the traumatic strike that led hundreds of its parcipants to migrate to the region of Caxias (RS-Brazil), where they kept the memory of their struggles and appled their professional experience.
Keywords: imigration, workers, strike.

 

 

Durante a visita a Caxias do Sul, no início de 1996, verifiquei que está ainda viva na memória coletiva da serra gaúcha a lembrança da chegada e dos feitos dos operários de Schio naquela região. O vale do El Profondo, como chamavam a primitiva Galópolis2, parece ter permanecido como um inarredável e tácito testemunho das lutas, sofrimentos e esperanças das pessoas que o povoaram. Parece também escolhido a dedo, pois não se chega a Caxias, indo de Porto Alegre, sem atravessá-lo. É como se os operários de Schio o tivessem definido para ser a porta de entrada da colonização italiana no Rio Grande. Entretanto, a memória da greve, registrada nos relatos dos descendentes e nos textos, intriga o visitante. Aparece sempre como a causa principal dessa imigração que trouxe também para outras regiões do Brasil, como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo, trabalhadores urbanizados, com alto grau de qualificação profissional. Sua experiência redundou, entre outras possíveis iniciativas, na fundação de uma cooperativa têxtil, que no início deste século transformou-se no Lanifício São Pedro de Galópolis, hoje Sehbe.

Se a greve de fevereiro de 1891 é tão propalada, por outro lado, suas causas são certamente pouco conhecidas. Qual teria sido então sua origem?

 

UM CONFLITO INUSITADO

Pequena e bela cidade industrial ao norte da província italiana de Vicenza, região do Vêneto, Schio amanheceu, em 17 de fevereiro de 1891, completamente às avessas. Seria, para sempre, uma data a ser relembrada. Seus 15 mil habitantes depararam-se, já nas primeiras horas matinais, ao soar das sirenes para a entrada das fábricas, com o tumulto de transeuntes, às centenas, subindo a Via Palestro3. Descobriram assim, atônitos, que algo insólito estava em curso. A produção de tecidos no maior complexo fabril da cidade, mola mestra da economia industrial local, fora totalmente paralisada. Desde 1973, jamais se vira uma movimentação de operários dessa natureza. Centenas de trabalhadores do setor de tecelagem haviam cruzado os braços, unânimes, em protesto contra o anúncio feito pela direção da empresa de um iminente rebaixamento do preço das horas trabalhadas. A alcunha, que viria a ser aplicada a Schio, de ser uma "cidade vermelha numa província branca"4, começara aí a tomar consistência.

Os ânimos estavam acirrados. Rebelados, os trabalhadores desceram compactos, naquela manhã, qual uma verdadeira procissão, em busca de lugar onde se reunir, fora do espaço e do controle da fábrica. O cortejo, tomando a Via Palestro, alcançou o Corso Garibaldi, e seguindo-o chegou à Piazza del Duomo, igreja cujo orago é São Pedro. Daí marchou em frente, ocupando inteiramente a Via San Filippo5. Nenhuma desordem, notara um repórter. A multidão, a passos firmes e rumorosos, acordando e levando moradores às antigas sacadas, chegou à Strada di Santa Maria6 e, achando finalmente um lugar ermo, permaneceu aglomerada na Valletta dei Frati, próxima à igreja de São Francisco, largo onde passou, daí por diante, a se reunir diariamente.

As assembléias eram calorosas, mesmo com as baixas temperaturas da época. Manifestações emocionadas inflamavam os discursos dos insurretos, elevados num palanque improvisado às pressas. Tudo se desenrolava sob o olhar impassível e vigilante do aparato policial, deslocado especialmente de Vicenza para dar cobertura à integridade do patrimônio fabril.

Da capital provincial comparecera também a imprensa. Um jornalista, destacado especialmente para acompanhar o evento, pernoitava em Schio, enviando diariamente à redação, via telégrafo, informações recentes sobre o movimento. A greve, malgrado os desarranjos internos, a intransigência patronal e a ameaça permanente de repressão, chegaria ao seu quinto longo dia. Conseguira vencer, por todo esse tempo, a inércia e a submissão. Contudo, do inicial entusiasmo, acabaria por decepcionar profundamente seus protagonistas.

Nos dias que se seguiram, uma grande quantidade de operários se demitiu da fábrica central do Lanificio Rossi SpA, epicentro da agitação. Os que não abandonaram o trabalho, mas que, do ponto de vista patronal, tornaram-se como que sobillatori7 dos demais, foram um a um progressivamente demitidos. A maioria, entretanto, permaneceria calada por mais algum tempo, até rebelar-se novamente nos meses e nos anos subseqüentes.

O que estava se rompendo? Discussão apropriada para um momento de alterações globais das normas que regem as relações de trabalho, como hoje, a questão da constituição ou reconstituição do contrato social teve de ser equacionada, então, pelos protagonistas da industrialização italiana. De um lado estavam os detentores do resultado do processo de acumulação, que desejavam inserir-se cada vez mais no mercado internacional, e de outro, como se viu, os produtores diretos das mercadorias - os tecidos - que buscavam garantir o mínimo de ganho para poderem sobreviver com suas famílias. O resultado desse processo, às vezes de aproximação, mas muitas outras de distanciamento, levaria à uma ruptura definitiva.

 

OS ANOS DOURADOS E A MODERNIZAÇÃO DO CAMPO

Por dezoito anos ininterruptos, entre 1873 e 1891, a aparente paz social perdurou sobre as relações capital-trabalho no interior da maior empresa têxtil de Schio. Os empresários e os trabalhadores do Lanificio Rossi, uma sociedade anônima desde 1873, conviveram como se as necessidades de todos, indiferentemente às diferenças, estivessem sendo atendidas de modo satisfatório. Há absoluta ausência de greves e motins que merecessem registro na época. Em contrapartida, não havia também nenhum governo reformista ou socialista administrando a municipalidade, nem mesmo se conhece a existência, no início daquele período, de alguma experiência que permitisse aos trabalhadores a participação na direção e na distribuição dos lucros da empresa. Como, então, a paz foi possível? O que se vê na Europa, durante a segunda metade do século XIX, é um recrudescimento da luta social. A Comuna de Paris, de 1871, o ludismo, na Inglaterra, estremeceram as relações entre os agentes do capital e os do trabalho.

Como poderia ter sido criado, justamente em Schio, um pacto social que pudesse atender aos desejos de todos?

Ver a possibilidade de acordos entre os membros de um mesmo grupo, de uma parcela da população, ou ainda de toda a sociedade em torno de princípios que permitissem um nível de sobrevivência foi a preocupação, na França, dos filósofos das luzes, e na Inglaterra, do pensador oficial dos Stuarts. Abolida a concepção medieval dos estamentos e das corporações, restava a sociedade com suas particularidades. A questão central para eles era saber como numa coletividade tão complexa, com interesses difusos e conflitantes, poderia ser garantida a preservação de todos. Em síntese, queriam salvar a espécie. As revoluções do direito fizeram aflorar - no plano pessoal - as garantias individuais, o respeito à privacidade e à liberdade de expressão. As revoluções políticas do séc. XIX produziram - no domínio público - a vulgarização e a difusão do caráter universal do poder político, apesar de que temas relativos à governabilidade dos Estados eram já preocupação dos pensadores e homens públicos dos séculos XVII e XVIII, testemunhas das grandes transformações por que passavam, então, as sociedades européias.

Como esses pensadores entenderam o pacto? Por caminhos sinuosos e partindo de pressupostos às vezes contrapostos, eles formularam as primeiras teorias do grande acordo. Um dos primeiros a pensar sobre ele foi Thomas Hobbes (1588-1679), pensador absolutista favorável à restauração dos Stuarts. Hobbes acreditava serem os humanos, por sua natureza e, portanto, desde sua origem, inimigos viscerais uns dos outros. Com a frase: Homo hominis lupus, sintetizava sua compreensão do permanente estado de guerra que entendia reinante na convivência primitiva. Em suas palavras,

enquanto dura esse direito natural de cada um sobre tudo e todos, não pode existir para nenhum homem (por mais forte ou astucioso que seja) a menor segurança (...)8.

Definia o instinto de sobrevivência como a fonte de todos os valores e, portanto, a ele somente caberia sustentar qualquer acordo - de natureza volitiva - que possibilitasse a superação do impasse ontológico e o estabelecimento de um mínimo de regras que garantisse a convivência civil. Isso aconteceria, segundo Hobbes, quando os homens - entendidos em suas singularidades individuais - resolvessem, voluntariamente," estabelecer a paz e a segurança e, portanto, renunciassem ao direito absoluto que têm sobre todas as coisas",9 alienando-o a um terceiro. Este, depositário do poder coletivo, senhor absoluto da vida e da morte de todos, seria capaz de garantir a manutenção do pacto.

Além do acentuado pessimismo antropológico, Hobbes chegou a essas conclusões calcado no pressuposto de que os humanos - a princípio - têm necessidades e direitos que lhes são comuns, abstraindo-os da estratificação social a que estão relegados historicamente, e por isso mesmo poderiam e deveriam pactuar-se com vistas a alcançar condições melhores de convivência, superando a ameaça fundamental: a destruição de suas próprias vidas.

Mas seria Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), representante da corrente espiritualista em reação à filosofia iluminista, quem formularia a teoria do contrato social. Contrapunha-se radicalmente a Hobbes, quando pensava serem os humanos, na sua origem, de índole boa e pacífica. O estado natural correspondia, assim, ao estado de plena liberdade. Foi com o surgimento da sociedade que a convivência corrompeu-se. Ela criou os senhores e os escravos, os proprietários e os despossuídos. Demarcou territórios e constituiu a propriedade privada. Enfim, inaugurou o caos. Para Rousseau, com o advento da ordem social chegara-se à supressão da liberdade e, portanto, ao limiar da existência. Seria imperativo, segundo ele, encontrar alternativas para restabelecer os princípios de convivência vigentes na ordem primitiva, onde todos os direitos eram preservados. Em suas palavras, a "ordem social (...) é um direito sagrado que serve de base a todos os outros"10. E como resgatá-los?

Visto que homem algum tem autoridade natural sobre seus semelhantes e que a força não produz qualquer direito, só restam as convenções como base de toda a autoridade legítima existente entre os homens11.

Falando sobre as cláusulas que comporiam esse contrato social, Rousseau, repetindo o que já havia dito Hobbes em outros tempos, diz que elas

reduzem-se todas a uma só: a alienação total de cada associado, com todos seus direitos, à comunidade toda, porque, em primeiro lugar, cada um dando-se completamente, a condição é igual para todos, e, sendo a condição igual para todos, ninguém se interessa por torná-la onerosa para os demais12.

Apesar de partirem de pressupostos antropológicos antagônicos, tanto Hobbes quanto Rousseau acabam chegando a conclusões semelhantes: o pacto é necessário à convivência social e só se realiza através da renúncia à própria onipotência.

Uma contribuição nova seria dada pela Psicanálise, que retomaria esse tema sob um novo enfoque. Daria ao conceito de pacto social uma dimensão própria, a partir dos conhecimentos que adquiriu com o estudo do psiquismo humano e do universo simbólico que constitui seu imaginário. Psicanalista brasileiro contemporâneo, Hélio Pellegrino vê o pacto social como a resultante da ampliação do compromisso assumido com a autoridade paterna, ou seu correspondente, no momento de superação do chamado complexo de Édipo. A superação do complexo, entretanto, não é algo fácil para o jovem humano. Deve renunciar à auto-suficiência, à onisciência e à posse da própria mãe. E aceitar o papel desempenhado pela autoridade no grupo familiar. Deve abandonar o mundo natural para assumir o social. O conflito que se interpõe entre filho e pai, leia-se a autoridade, tem potencial suficiente para se estender ao conjunto da sociedade. A agressão não-trabalhada pode se dirigir ao conjunto, indistintamente. Portanto, "a solução do complexo de Édipo implica um pacto - uma aliança - com o pai e com a função paterna"13. O acordo deveria garantir à criança a sobrevivência e a segurança dentro do próprio grupo social. A conseqüente renúncia, entretanto, teria um preço para o insurgente frustrado que, por sua vez, deveria também receber, em troca, um prêmio pela abdicação.

Num pacto, sob a égide da concórdia, ganham os dois lados. No Édipo, com o acordo, ganha a sociedade, representada pelo pai e pela família, e tem que ganhar a criança (...) A criança perde, mas ganha. Em troca da renúncia que lhe é exigida, tem o direito de receber nome, filiação, lugar na estrutura de parentesco, acesso à ordem do simbólico, além de tudo o mais que lhe permita desenvolver-se e sobreviver - vivendo. A criança tem que receber, do Édipo, as ferramentas essenciais que lhe permitam construir-se como sujeito humano14.

Somente com tal reciprocidade o sujeito, no caso a criança, poderia garantir a manutenção do pacto. Recompensada pela renúncia "ela ama e respeita o pacto que fez e, nesta medida, fica preparada para identificar-se com as idéias e valores da cultura à qual pertence"15. É a partir do pacto edipiano que o sujeito social estabelece também o pacto com o grupo mais amplo, que lhe deve garantir a sobrevivência e a segurança na vida adulta. Pellegrino diz ainda que

ao pacto com a Lei da Cultura (...) vai acrescentar-se um pacto social, estruturado em torno da questão do trabalho. O trabalho é o elemento mediador fundamental, por cujo intermédio, como adultos, nos inserimos no circuito e intercâmbio social, e nos tornamos - de fato e de direito - sócios plenos da sociedade humana.

Portanto, o pacto social sucede - e se articula - ao pacto sexual. Ele confirma - e amplia - a aliança com a Lei primordial16.

No caso de Schio, a renúncia coletiva dos operários à busca de mecanismos que recuperassem a antiga auto-suficiência17 - marcada pelas duras condições de vida e trabalho que caracterizavam a zona rural vêneta - poderia ter resultado na fixação de um pacto com os representantes da empresa, semelhante ao contrato social que se buscou conceituar. Acordo capaz de garantir-lhes, a um só tempo, sobrevivência e segurança.

Se esse pacto de fato existiu, qual poderia ter sido sua natureza e em que bases sustentou-se? A origem desses operários - constituidores do proletariado industrial de Schio no último quartel do séc. XIX - se remete ao mundo rural. Mais propriamente: o surgimento dessa nova classe esteve diretamente associado à instabilidade e à total incapacidade da zona rural em proporcionar as condições de vida necessárias à sua subsistência e reprodução. Numa primeira etapa, esses agricultores-operários eram provenientes da zona rural circunstante a Schio. Uma das características da estrutura fundiária da região de Schio era justamente seu fracionamento em pequenas propriedades18, associado a uma agricultura cujas atividades básicas giravam em torno de dois eixos fundamentais: a viticultura e a produção de cereais. Essas pequenas e médias propriedades tendiam à auto-suficiência. Em seu interior se desenvolvera, ao longo dos séculos, um artesanato doméstico, estimulado pela farta produção lanária da região. Com isso, as famílias camponesas produziam tecidos para satisfazer suas necessidades imediatas.

Com a integração do Vêneto ao mercado nacional recém-unificado (1870), as bases de sustentação dessa economia camponesa começaram a ruir. Entre as possíveis causas da proletarização desses pequenos proprietários, que foram obrigados a se ocupar ocasionalmente de outros afazeres para completar o orçamento doméstico, pode-se incluir: a tradição de dividir a terra quando os filhos se casavam; a ausência de melhorias técnicas na agricultura; a pesada carga tributária que sobre eles caía; a alteração ecológica com a devastação das florestas e com a conseqüente diminuição das chuvas19. Há que se ter em conta também a explosão demográfica na zona rural. Posteriormente, também de outros municípios vicentini situados na planície, da vizinha província de Pádua e de outras áreas agrícolas do Vêneto, afluíram a Schio trabalhadores que deixavam o campo em busca de uma nova profissão. Eram ex-braccianti20. Abandonavam as propriedades de outrem. A reestruturação das relações de produção no campo e a repressão aos movimentos reivindicatórios dos trabalhadores agrícolas constituíram-se, entre outras, em duas grandes molas propulsoras dessa imensa transferência de força de trabalho para as cidades.

Resumindo, Schio, já possuindo desde a primeira metade daquele século um suporte industrial, foi capaz de absorver parte da força de trabalho disponível na região. Situada num enclave propício, atraiu, por um lado, os trabalhadores (pequenos proprietários) quer quando desciam das montanhas circunvizinhas em direção à planície, quer quando deixavam suas terras nas imediações para temporariamente tornar-se operários21. Num segundo momento, Schio passou a receber também os trabalhadores agrícolas provenientes das grandes propriedades da vasta planície vêneta, que compreende, além da própria província de Vicenza, na qual se insere, também as províncias de Pádua, Verona e Treviso.

Para se ter uma idéia da dimensão do êxodo, 40,8% das 218 pessoas imigradas para São Paulo em 1891, provenientes de Schio, já se haviam mudado, precedentemente, de outras regiões italianas para aquela cidade. Eram oriundas de vilarejos do interior vêneto, obedecendo, em importância numérica, em ordem decrescente, a seqüência das províncias que foram há pouco citadas. Tal movimento populacional confirma a existência de um grande fluxo de trabalhadores do campo para uma área em franca industrialização, dos meados para o final do século XIX.

 

A PASSAGEM DIFÍCIL

A formação desse proletariado local é analisada por Simini quando, delineando a figura de Alessandro Rossi - mitificada por setores da historiografia de Schio - escreve que:

Ele fez de um conjunto orgânico de camponeses-operários, de pequenos agricultores, artesãos e comerciantes, uma população operária22.

Mais adiante, traça considerações de como se deu o crescimento demográfico registrado entre 1845 e 1884. Segundo ele, pode-se dividir esse período em três segmentos. O primeiro se insere na época da retomada do crescimento, a partir de 1845, seja com

...a absorção de parte desses pequenos artesãos tecelões que foram literalmente varridos durante a crise (...), seja enfim com jovens de extração camponesa em sua primeira experiência. Uma reabsorção e uma absorção de mão-de-obra autóctone, portanto, ligada mais ou menos mediatamente à tradição manufatureira escledense23 e à prática do part-time24.

Um novo impulso se abre a partir de 1871, com a população local já se encontrando no patamar de 8.400 habitantes, expressivo aumento se comparado com o anterior, em 1845, com menos de 6.000 habitantes, para o qual concorreu, essencialmente, a chegada de trabalhadores vindos dos municípios circunvizinhos. A terceira fase se inaugura nos meados da década de 70. Esse crescimento, segundo Simini, se deu em função de

se fazer consistente a vinda às fábricas de Schio e vizinhança de pessoas (e até mesmo de inteiros, numerosos núcleos familiares) de lugarejos localizados fora da Circunscrição. Deslocavam-se, por exemplo, desde a região de Thiene e do Planalto de Asiago os que encontravam trabalho nas fábricas de Piovene, desde os municípios da região médio-inferior da província de Vicenza e de fora dela os que se dirigiam para empregarem-se junto aos lanifícios de Schio, Pieve e Torrebelvicino25.

Em 1884, a população local chegara aos 12.142 habitantes. Uma corrente migratória camponesa rumou em direção a Schio originando-se

na região inferior da província de Vicenza, de Verona, de Pádua (...) depois de ter vivido as jornadas de la boje, depois de ter perdido o trabalho, depois de ter conhecido a dura repressão dos latifundiários e das forças da ordem. Chegavam com as mãos nuas, com a única esperança de encontrar nos lanifícios uma possibilidade de vida, qualquer que fosse26.

 

EM CASA SE APRENDE A TECER

A formação do proletariado local contou com um elemento cultural sem precedentes. Além das difíceis condições a que estavam também submetidos os camponeses de Schio e região27, a estes se impôs, historicamente, um outro pré-requisito: o secular aprendizado da arte de tecer. A tecelagem era desenvolvida tradicionalmente na região, desde a dominação romana. O manuseio do fuso, para fiar a lã tosquiada, e do tear, construído de madeira e manual, constituiu-se num trabalho obrigatório para as horas de folga invernais da família camponesa, principalmente como tarefa adicional atribuída à mulher28. Todos esses elementos criaram as premissas para que esses trabalhadores procurassem, sobretudo no período de entressafra, serviços ocasionais nas diversas unidades fabris existentes no Vale. Um cordão humano se estendia em torno das fábricas de Torrebelvicino, Piovene-Rocchete, Pievebelvicino e Schio, à espera de empregos que os mantivessem de dezembro a março, tempo em que os trabalhos agrícolas estão definitivamente paralisados pela presença do inverno muito rigoroso naquelas zonas. A insistente referência de Alessandro Rossi à idéia da superação da fiação e tecelagem manuais e domésticas, e sua definitiva substituição pelo maquinário da indústria moderna se consubstanciaram na onipresente frase, que se tornaria tão polivalente, passando de título de canção - interpretada pelas alunas da escola primária do Lanificio Rossi SpA, no encerramento do ano letivo 1883-84 - a marca de embalagem de conserva alimentar produzida pela fábrica da família Rossi, em Santorso. A frase alusiva ao trabalho de fiação e tecelagem da mulher no campo, non è più il tempo che Berta filava, queria forjar a vinculação entre o trabalho empregado na indústria têxtil e o que era desenvolvido de forma artesanal na zona rural. Mas chamava a atenção também para o pressuposto anacronismo deste último, destituído dos atributos da propalada modernidade29.

 

O MEDO DO RETORNO

Um intenso processo de fixação da força de trabalho nos quadros da produção industrial, durante os períodos de safras agrícolas, fora desencadeado usando-se de vários expedientes como: o incentivo à produção; a conseqüente melhoria nos salários dos mais assíduos; a organização de jogos e festas, acompanhados de refeições gratuitas aos operários; a criação de um horário de trabalho, semelhante à zona rural, mais adequado às variações sazonais do clima local; e até mesmo o derradeiro, mas onipresente recurso: a repressão pura e simples: a ameaça de demissão aos faltosos. A venda de ações aos operários do Lanificio Francesco Rossi, em 1872, semanas antes da constituição da S.A., parece ter sido movida, além das motivações de ordem financeira, como a captação de uma parte da poupança operária, por outras que estavam mais na linha da integração força de trabalho/espaço de produção industrial30. Aos operários recém-destacados da economia agrícola estava, portanto, constantemente presente a possibilidade do retorno às condições anteriores, o que parecia nada estimulante, ou então a aceitação tout court da condição fabril. Aparece com freqüência nos documentos da empresa e nas falas de seus representantes a lembrança, como uma ameaça, da volta definitiva ao campo que, por sua vez, deveria provocar no âmago dos trabalhadores uma profunda angústia. Utilizada sem escrúpulos e de modo disciplinador, buscava-se com isso justificar as más condições de trabalho e os baixos salários no interior das fábricas.

Também nas palavras do antropólogo Massimiliano Marangon, para esses operários

ex-camponeses pobres a sedimentação na cidade não constituía necessariamente o objetivo final ideal, mas sobretudo um meio de autopromoção, baseada na profissionalização industrial, em vista às sucessivas melhorias e portanto capaz de preconstituir a possibilidade de uma não-volta à penosa condição rural anterior31.

Num discurso publicado no manifesto escrito logo após a greve de julho de 1890, e dirigido especialmente aos operários empregados na seção de Pievebelvicino, o senador Rossi exortava-os a pensar, sugerindo-lhes subliminarmente a evocação do passado, que" os trabalhadores rurais, como acontecia também à maioria deles, pouco tempo atrás, sequer recebem 20 moedas em média".

Logo a seguir, animava-os, dessa vez para que entendessem

como esta greve prejudicou vocês, que não têm nenhuma culpa, podendo-se até dizer que (a greve), de uma certa maneira, foi provocada contra a Providência Divina.

E, mais adiante, em tom ameaçador, reforçava a idéia do triste retorno dizendo que

(...) por toda a zona rural, os agricultores, devido ao mau tempo, estão tristes e em todo o Reino perdura uma obstinada crise comercial e econômica32.

A ameaça de retorno às condições precárias no campo, além de provocar um temor diante do eventual desemprego (angústia de origem econômica), também acarretava uma frustração pelo insucesso no desempenho no novo modo de vida (não-afirmação social), considerado pelas populações rurais como uma forma de ascensão social. Do ponto de vista psicológico, o retorno a condições anteriores, até bem mais primitivas em relação às que estavam sendo vividas, poderia representar uma volta ao domínio da mãe, identificada aí com a natureza, da qual a sociedade industrial parece ter proposto se libertar. Para Gérard Mendel, a natureza é representada, na vida do indivíduo, pela figura materna, numa ligação atávica e primária. A ruptura com seu domínio foi produzido, ao longo da história, pela constituição da cultura. Esta, por sua vez, como subproduto da condição humana, iria pertencer aos domínios do pai (social), que se contraporia à mãe (natureza). A figura paterna, se a um tempo deu origem à cultura, dela ter-se-ia originado, e se consolidou, na medida em que, como símbolo projetado de autonomia, foi sendo interiorizada por seus descendentes masculinos33.

A relação com a terra apresentava-se repleta de contradições, manifestadas nas práticas cotidianas e nas representações do universo simbólico. Nela havia um duplo sentimento: de amor, resultando numa atitude de aproximação e identificação, e de medo, produto de um ódio mal elaborado, exteriorizando-se em manifestações de repúdio e escárnio. Os autores de Civiltà rurale afirmam, reforçando a visão positiva do retorno e aquisição de terra por parte do operário, que

o apelo à terra, que conservava sempre o fascínio de grande mãe, era portanto constante, e quando se conseguia colocar algum dinheiro à parte, fruto do próprio trabalho, qualquer que fosse, era quase sempre aplicado na aquisição de terra34.

Mas identificam também na milenar tradição rural a figura da mãe perversa. A figura da bruxa, a stria, em Vêneto, provocava uma reação negativa à sua passagem. As bruxas, surgidas no universo rural, acabaram por penetrar também no contexto urbanizado, e passaram a simbolizar o mundo primitivo, desconhecido e assustador. Eram personificadas

quase sempre velhas feias e pobres, abandonadas pela sociedade e obrigadas a viver sozinhas em algum casebre. Cabelos longos sempre despenteados, roupas sujas, magreza excessiva, olhar duro eram as características da stria.

À chegada de uma stria, os meninos corriam apavorados. O sentimento geral em relação a ela era, porém, dúbio, pois se num primeiro momento

todos a olhavam com suspeita, mas num segundo, estavam prontos também a conceder-lhe hospitalidade e a dar-lhe algum pedaço de pão, temendo que senão ela poderia, de alguma maneira, vingar-se35.

Portanto, no contexto capitalista industrial em gênese no município de Schio, mas também na região circunstante, foram criadas as condições materiais para que a força de trabalho, destacada de seu universo primitivo, se encontrasse, para sobreviver, diante da necessidade de vender-se à indústria local. Ainda que os trabalhadores se constituíssem numa imensa maioria, com milhares de indivíduos nessas condições, apresentavam-se vulneráveis às exigências do capital.

 

A NATUREZA DO PACTO SOCIAL

As bases, como se viu, para a constituição do pacto na história da empresa36 deram-se num tempo anterior ao da constituição da S.A. Preparado na gestão de Francesco Rossi, toma corpo e forma no período de administração de Alessandro Rossi, como diretor-presidente do Lanifício Rossi SpA. No corte que demos, o ano de 1873 surge como marco inicial para a entrada em vigor do pacto, e o de 1891, com o seu termo final. O nascimento do pacto não exigiu nenhuma formalização além do trivial contrato de trabalho. Entre os documentos que definem a relação de trabalho no interior do lanifício encontra-se um exemplar da carteira profissional do operário Antonio Dalle Fusine. Jovem, de apenas 15 anos, que se candidatava à função de filiere37. O pai, já morto, chamava-se Giuseppe, e a mãe, tutora, Costantina Danieli. Passou pelo exame de seleção médica que o considerou apto ao trabalho. Foi registrado na empresa como attaccafili38, em 2 de março de 1898. Na capa do documento aparece impresso, em destaque, que o contrato de admissão ao trabalho para menores foi regulamentado pela lei no 3.657, de 11 de fevereiro de 188639.

É justamente nesse período que na Itália começaram a aparecer timidamente as primeiras leis visando proteger a exploração do trabalho da criança e dos trabalhadores em geral. Somente no início deste século (1905-1906), durante a chamada Era Giolittiana, com o crescimento do sindicalismo40 e da representação socialista41 no parlamento, é que as reformas sociais foram implementadas. Criaram-se a previdência social e o seguro-doença. Limitou-se o horário de trabalho e estabeleceu-se o repouso para os dias festivos.

A admissão ao trabalho acontecia na entrada da fábrica chamada alta. Construção imponente, como sugere o nome, erguida pelo Lanificio Francesco Rossi, no final da então Via Palestro, na Contrà Sareo, na região noroeste da cidade. Seu conjunto arquitetônico foi inspirado nas construções industriais belgas. Suas obras iniciaram-se em 1862. Seis anos após, já estavam em funcionamento alguns setores da produção têxtil42. A escolha era, então, realizada pelos encarregados de seção que, diante da falta de trabalhadores para uma determinada tarefa, encarregavam-se de selecionar outros à porta da fábrica. Daí a importância adquirida por esse lugar específico, de entrada e saída, sempre sob a custódia do guardião, cuja figura aparece com insistência nos escritos operários, investida, muitas vezes, da função especial de expressar os ditames do capital ao trabalhador individual. O portão significava para os que estavam além dele, sobretudo os desempregados, o lugar de expectativas e angústias43. Permanecendo horas a fio à espera de uma resposta, os trabalhadores formavam para a indústria de Schio o exército industrial de reserva, de que tanto necessitava.

Portanto, o pacto, menos que um acordo assinado, foi fruto de necessidades circunstanciais. Não se pode deixar de acentuar o peso exercido pela visão empresarial, liderada por Rossi, que via e divulgava aos quatro cantos a urgência de conciliação entre o capital e o trabalho nacionais para enfrentar a obstinada concorrência internacional no setor têxtil, capaz de reduzir o preço dos produtos no mercado. Segundo o próprio senador, tal concorrência prejudicava, com um só golpe, os dois segmentos sociais da produção. O discurso caracterizando a ameaça externa como fator de unidade dos componentes sociais no interior de uma determinada formação social foi sempre um artifício muito utilizado. Revela o reconhecimento, por parte dos representantes do capital, da existência de uma certa fragilidade no interior do próprio sistema produtivo, capaz de mantê-lo sob ameaça, real ou imaginária. Não parece, porém, ter sido a ameaça externa a causa mais relevante de tanto temor. Pelo contrário, na medida em que a empresa se expandiu e se modernizou, acabou por se integrar perfeitamente no circuito das transações internacionais. Em 1875, a empresa rossiana entrou com seus produtos no mercado externo. No balanço final daquele ano, que resultou num volume de vendas equivalente a Lit. 18.908.950,23; 4,48% (Lit. 847.850) foram conseguidas com as vendas externas. Nos anos seguintes, mesmo quando houve significativa queda no volume global de vendas realizadas pela empresa, seus negócios no estrangeiro não pararam de subir e atrair mais dividendos para seus cofres. Exemplificando, em 1882 a empresa vendeu o equivalente a Lit. 17.367.131, das quais Lit. 1.514.712,65 no exterior, quer dizer, 8,72% daquele total. Em sete anos a empresa duplicou suas vendas externas. É ilustrativo também que no ano de maior crise da indústria lanária de Schio, o de 1881, a empresa vendeu apenas o equivalente a Lit. 11.420.989,65, mas, em compensação, conseguiu elevar proporcionalmente suas vendas externas para 11,95% do total de vendas (Lit. 1.365.809,11)44. O argumento da ameaça estrangeira, portanto, deve ter sido usado mais para efeito retórico e por ser de fácil assimilação, uma vez que atingia um universo social bastante amplo, chegando aos próprios trabalhadores graças a seu elevado poder apelativo e à sua remissão a um conteúdo fortemente emocional, patriótico e xenófobo, num período afirmativo da nacionalidade, logo após a unificação da Itália, em contraposição ao espectro deixado pela recente dominação estrangeira. Teriam os austríacos deixado aos empresários de sua ex-província algumas reminiscências funestas, capazes de suscitar facilmente tantos impulsos nacionalistas?45 Mas o medo efetivo parece ter estado localizado noutro âmbito. A grande ameaça se daria muito mais na intensificação da postura reivindicatória do proletariado. Não se trata aqui do operariado radicado em Schio, ou ainda daquele disperso pelas poucas áreas industriais italianas, mas sim do proletariado visto em sua totalidade, no contexto europeu, em especial onde a industrialização já havia avançado e o capitalismo ultrapassava o limiar da fase concorrencial. O que estava se engendrando e, pari passu, se explicitando em países como a Inglaterra e em outros do continente, dentro dos marcos da relação capital-trabalho, tornara-se um referencial para os capitalistas mais lúcidos do mundo todo.

Assim, os elementos que propiciaram a existência do pacto e o regeram foram múltiplos. Há um aspecto formal relatado nos balanços anuais do Lanificio Rossi SpA, nas listas de empregados, na correspondência, nos avisos disciplinatórios, etc. Essa farta documentação ajuda somente a dar-lhe um perfil objetivo, não substancialmente diferente dos contratos de trabalho realizados em outras empresas da mesma época. Há um aspecto filosófico, perceptível nos escritos do senador Rossi. E há um aspecto também simbólico que se extrai das cartas dos operários do lanifício a seus patrões. É certo, porém, que a dimensão subjetiva desse acordo lhe conferiu uma identidade própria, caracterizando-o de modo peculiar46. É necessário esclarecer, entretanto, que as duas dimensões se complementam e são inseparáveis. Sua dimensão objetiva obedece aos parâmetros da organização material da vida individual e coletiva, sujeita às relações sociais de produção e ao estágio de desenvolvimento das forças produtivas vigentes, assim como está também sujeita às transformações sociais e políticas por que passam as diferentes sociedades humanas. Por sua vez, sua dimensão subjetiva situa-se, inicialmente, no aparelho psíquico individual de cada sujeito social. Em função da natureza dessa experiência psíquica, envolvendo em seu desenrolar vários indivíduos pertencentes a um mesmo grupo, e acabando por se tornar fundamentalmente relacional, seus pressupostos e suas conseqüências se tornam também comuns e extrapolam o universo tópico para se estenderem ao inteiro corpo social. Resulta daí a produção da representação simbólica coletiva de desejos, conflitos e de uma eventual busca de soluções. Esse imaginário, com o qual a coletividade humana irá se referenciar, é fruto das relações interpessoais e, contemporaneamente, seu influenciador.

Dois corpos sociais distintos estabeleceram o pacto a partir de um acordo recíproco. Utilizo o termo corpo, em vez de classe, porque identifica uma relação social de produção que, apesar de apresentar as características gerais da relação capital-trabalho, carrega uma identidade própria, com componentes específicos desenvolvidos historicamente no espaço do Lanifício Rossi. O termo corpo, usado inúmeras vezes em documentos, como no ato de constituição da S.A., em discursos e em instituições, designava o conjunto dos operários, ou parte deles engajada numa tarefa específica. Essa pluralidade, dois corpos, já define uma certa heterogeneidade das partes envolvidas nesse acordo. De um lado estavam os operários da Lanerossi, formando assim o primeiro corpo, e de outro seus dirigentes-proprietários, como o segundo corpo e, representando-os fielmente por dezoitos anos ininterruptos, o senador Rossi. O primeiro constitui-se em força de trabalho a serviço da empresa, e o segundo em detentor do capital, assumindo portanto papéis próprios dentro do processo produtivo47. Tais corpos ocupavam espaços sociais e físicos separados, pois lotavam lugares predeterminados dentro da unidade fabril48 e residiam em espaços urbanos definidos. No final do século passado, os bairros operários ocupavam boa parte do perímetro urbano da velha Schio. A característica fundamental desses bairros era a superpopulação. Várias famílias, dos avós aos netos e até mesmo os agregados moravam numa única residência. A cidade praticamente mantivera-se ainda dentro do perímetro medieval e continuava a receber, num fluxo regular, novos contingentes de força de trabalho, sobretudo a partir da década de 70. As construções eram feitas de pedra e argamassa com cômodos pequenos. As paredes eram largas e as janelas estreitas para evitar a penetração do vento e do frio. A umidade e o cheiro característico, muito fortes, e a temperatura invernal em seu interior permanecia bastante baixa. Era necessário manter o fogão aceso ou lançar mão do fogareiro a brasa. A água para consumo devia ser buscada nas bicas e bebedouros públicos. Não havia qualquer instalação sanitária interna. Até a era rossiana não houve nenhum investimento por parte do Estado ou das empresas na construção de moradias operárias. Isso significa que os trabalhadores vindos de fora tiveram de se submeter às condições insalubres de moradia que lhes eram oferecidas pelo senhorio local.

A disposição das moradias se assemelhava muito aos atuais cortiços das metrópoles brasileiras. Não se conhecia a moradia singular, apartada das demais, em terreno próprio, com pomar e jardim. Esse recanto de intimidade e harmonia havia sido deixado para trás e se tornara irrecuperável. As moradias formavam verdadeiros conjuntos habitacionais. Uma seqüência de residências contíguas, muitas vezes distribuídas em vários andares, se dispunha perpendicularmente à rua. No interior dessa vasta aglomeração abriam-se um ou vários pátios internos, interligados por um comprido e largo corredor que se iniciava no portão de entrada. As residências, insalubres e com pouca luminosidade, tinham suas portas voltadas para um desses pátios. Os bairros rurais próximos à cidade também possuíam uma presença significativa de população operária aí residente. Entre eles destacavam-se os de Poleo, Giavenale e Resecco.

O senador Rossi, entretanto, morava nesse período em Santorso, num palacete de estilo neoclássico adquirido em 1865, rodeado por um amplo parque, por e para ele propositadamente reconstruído49.

Os dois corpos relacionavam-se a partir de um imperativo econômico, de uma necessidade advinda das condições materiais de existência, historicamente dadas. O lugar social que ocupavam diferenciava-os radicalmente. Apesar de terem objetivos específicos que basicamente os distanciavam50, os dois corpos passaram a apresentar, pelo menos até a vigência do pacto, um interesse estratégico comum, isto é, a preservação e a reprodução do capital. Salvaguardavam, ao mesmo tempo, lucros e salários. Marx afirmava que o interesse do capitalista é o mesmo do operário, quando se trata de fazer prosperar o capital51. Mas ele afirmou também que" ...na luta puramente econômica, o capital é o mais forte"52.

 

O CORPO OPERÁRIO E SUA COSMOVISÃO

A força de trabalho empregada, em absoluta e ameaçadora vantagem numérica, era composta por um corpo extensivamente superior ao de seu contratuante. Sua fragilidade estava, porém, na contingência de ter de vender-se individualmente53 aos donos dos meios de produção. Sem experiência organizacional anterior e sem o conhecimento, em princípio, do processo industrial de produção, a força de trabalho se tornava mais vulnerável aos interesses do capital. Esse novo proletariado, em sua maioria, conhecia apenas a experiência de trabalho rural e, no campo, encontrou ainda, por um período de tempo, os recursos para sobreviver. Trazia consigo uma cosmovisão e uma mentalidade impregnada de religiosidade. Com efeito, havia uma vinculação anterior e estreita do novo proletariado com a religião constituída, devido à intensa presença das estruturas eclesiásticas - capelas, paróquias e conventos - em todo o vale. Com ela faziam-se presentes, por um lado, o discurso de conteúdo religioso-apologético elaborado na tentativa de recuperar o terreno perdido para as idéias anticlericais dos liberais mazzinianos - que propugnavam a separação Igreja-Estado - ou para o ideário anarco-socialista - impregnado de conceitos considerados como ateus - e, por outro, a estrutura eclesiástica garantia a preservação das práticas litúrgicas e sacramentais tradicionais. A Igreja desempenhava, portanto, um papel importante na formação das consciências operárias da região de Schio.

Supondo-se verdadeira a hipótese aventada por Giovanni Mantese de que a religião cristã tenha sido aí introduzida durante os séculos IV-V54, pode-se deduzir quanto essa cosmovisão tenha influenciado o universo simbólico de seus habitantes. É verdade também que o cristianismo nessas áreas rurais teve de fazer muitas concessões ao paganismo, propagado com a dominação romana, assim como este, por sua vez, também o fizera em dimensões provavelmente iguais ou maiores às crenças animistas conservadas pelas sociedades tribais preexistentes. Os santos substituíram os deuses antropomorfizados e, em conseqüência, também os espíritos da natureza. O panteão regia o cosmos, e com este todas as atividades humanas e o tempo (meteorológico e cronológico). Com a cristianização no pagus de Schio, a nova religião trouxe para si a sacralidade do cosmo e do tempo. O ciclo da vida passou a confundir-se com o ciclo litúrgico, e as etapas do processo produtivo no campo passaram a ser delimitadas pelas festas religiosas cristãs. Duas festas, revestidas de grande importância e até hoje ainda muito comemoradas, marcavam o início e o fim do período de trabalhos na agricultura: a de São Valentim, em 14 de fevereiro, e a de São Martinho, em 11 de novembro.

A maioria dos operários fora, portanto, refratária, nesse determinado período, a qualquer pregação que se originasse no campo anarquista ou socialista, justamente por seu forte conteúdo anti-religioso55. A militância, a aristocracia operária definida por Simini desempenhou, ao que tudo indica, um papel secundário no quadro das relações subjetivas que acompanharam o pacto capital-trabalho no interior da fábrica central, pelo menos até as greves de 189156. Esse grupo engajado, sensível às novas relações que se estabeleciam e suscetíveis à pregação revolucionária, não representava, portanto, o pensamento do conjunto e por isso, ao longo do tempo em que o pacto regera-se, ficou à sua margem ou, propositadamente, dele esquivou-se de participar. Muitos simpatizantes das posições e da militância desse grupo de vanguarda também defendiam a impecabilidade no procedimento do senador Rossi57.

É necessário, porém, considerar o operariado visto em seu conjunto, já que é a partir de sua ação e representação simbólica que se conseguirá entender o significado que ele mesmo dera a essa aliança. A consciência operária encontrava-se sustentada em sua experiência anterior, a partir das informações acumuladas historicamente.

A vanguarda parece não ter exercido, pelo menos naquele momento, nenhum papel significativo de liderança para a grande maioria. Esta vive a consciência possível. Foi o próprio Marx que afirmara, anos antes, estar

a produção de idéias, de representações e da consciência (...) direta e intimamente ligada à atividade material e ao comércio material dos homens; é a linguagem da vida real.

E mais adiante, ainda no mesmo texto, escreveu que

a consciência nunca pode ser mais do que o Ser consciente; e o Ser dos homens é seu processo da vida real58.

 

O CORPO DO CAPITAL E O PROGRESSO DISCIPLINADOR

Os donos do capital formavam um corpo mais compacto e, por todo o tempo de vigência do acordo, apresentaram uma maior unidade de interesses e objetivos. Ao que tudo indica, mantiveram-se unânimes nas decisões. Valiam-se de uma alegoria: apresentavam-se como um fascio59, todos estreitamente interligados em torno de uma única e grande haste central, a carismática figura do diretor presidente. Numericamente, porém, esse corpo era irrelevante. Em 9 de janeiro de 1873, era formado por 66 acionistas, entre pessoas físicas e jurídicas60. Estes delegaram contratualmente ao senador Rossi - confirmando o que já fizera seu primeiro proprietário, Francisco Rossi, pai e predecessor daquele - o controle efetivo e pessoal61 da administração da empresa. Estavam em suas mãos todas as diretrizes, desde as administrativas propriamente ditas, envolvendo a regulamentação da disciplina interna da fábrica de Schio, até as políticas mais gerais.

As normas disciplinares que, ao longo dos anos, foram sendo aplicadas pela tradição rossiana, seguiram duas orientações bem precisas. A primeira delas estabelecia os parâmetros para um procedimento-padrão por parte dos trabalhadores, visando ao aprimoramento da produção. Tinha como finalidade educar-lhes o corpo, tornando-o mais dócil e habituando-o ao espaço, ao ritmo e ao horário da fábrica. É interessante notar como essas normas surgiram, foram formalizadas e se concentraram no início dos anos 70, período em que ocorreram as mudanças que preconizaram a modernização da empresa, implementada pelo senador, e que prepararam a realização do pacto. Para exemplificar, eis algumas dessas normas que foram sendo aplicadas no período entre 1858 e 1890 (o ano de entrada em vigor aparece entre parênteses):

que distribuía prêmios aos operários mais hábeis e de boa conduta (1858); que regulamentava o descanso nos dias festivos (1868); que determinava multas aos trabalhadores que quebrassem os vitrôs da fábrica alta (1870); que ameaçava de demissão os trabalhadores responsáveis por estragos em tecidos para uso militar (1871); que proibia os trabalhadores de tomarem banho na vasca interna da fábrica (1872); que fixava o horário de trabalho a ser observado, adequado às diversas estações do ano (1873); que regulamentava a contratação de novos operários e a disciplina interna (1873); que regulamentava o trabalho dos filatori (1873); anunciando a substituição de teares de madeira pelos mecânicos (1873); que reduzia o salário dos trabalhadores que parassem de produzir antes do término autorizado (1873); ameaçava os operários que deixavam a fábrica nos períodos de colheita (1874); e ainda, que atribuía aos chefes de seção, sob pena, a tarefa da conservação do patrimônio fabril (1890)62.

Há, nesse processo disciplinador, elementos significativos que se remetem à ciência administrativa proposta por Frederick Winslow Taylor. Em 1911, escreveria63 que essa ciência teria se iniciado trinta anos atrás, o que equivale a dizer que o senador Rossi conheceu-a em seu nascedouro. Não se encontram, porém, registros de que ele tenha tido algum contato epistolar com aquele autor, nem que tenha lido alguma de suas publicações. Todavia, são notórias as similaridades entre alguns aspectos e modelos de administração propostos por ambos. O pressuposto que os norteou foi o mesmo: a coincidência de interesses entre o capital e o trabalho. Daí a conseqüente necessidade de, por um lado, finalizar definitivamente com a disputa entre ambos e, por outro, envidar todos os esforços para se alcançar um acordo conjunto. Encontraram-se também no que se poderia chamar de razão prática do processo produtivo. Ambos pensaram e investiram em sua modernização. Taylor chegou a estabelecer referenciais para a aplicação de uma sistemática de movimentos físicos controlados, previamente estudados - daí seu caráter científico - aos operários de diferentes setores, com o objetivo de conseguir-lhes o máximo de eficiência produtiva. A influência do pensamento e da prática administrativa no interior da fábrica propostos por Taylor ganhou um arco bastante largo de forças políticas e sociais italianas das gerações seguintes.

As várias tendências do movimento político italiano subseqüente acabaram, direta ou indiretamente, por se referirem a ele. O fascismo retomará o conceito de harmonia social para redefinir o papel sindical, com a Carta del Lavoro de 1927, e para criar o sindicalismo de Estado. O socialismo revolucionário que lhe será contemporâneo também se entusiasmará pelas teorias tayloristas no que tange às inovações por ele propostas para a racionalização do processo produtivo. Apesar de rejeitar por princípio o conceito de harmonia social, Gramsci referiu-se em tom afirmativo, por mais de vinte vezes em seus Quaderni64, às vantagens do processo de mecanização do trabalho proposto por Taylor.

A outra orientação disciplinar destinava-se a educar o espírito do operário. Os Rossi concebiam de vital importância o trabalho paralelo de modelagem do caráter de seus trabalhadores65, que eram considerados portadores de índole pacífica e de compreensão estreita e ingênua da realidade e, por isso mesmo, tão suscetíveis de influências danosas, sempre vindas do exterior.

 

A DESIGUALDADE CONGÊNITA E AS INSTIUIÇÕES OPERÁRIAS

Como se observa, os dois corpos têm origens culturais e necessidades que, em princípio, não se ajustam. Portanto, quando se falou em pacto, não se pensava tratar-se de um acordo entre parceiros iguais. Houve, porém, um imperativo circunstancial que os obrigou a buscar formas de sobrevivência comuns, e por isso os sujeitos em questão tiveram de encontrar um meio de garantir a integridade recíproca. Melhor dizendo, pelo princípio de sobrevivência e nas condições históricas construídas pelo desenvolvimento do capitalismo, esses corpos renunciaram a priorizar os interesses específicos (antagônicos). Por um período que se prolongou de 1873 até a greve de 17 de fevereiro de 1891, perdurou um acordo de não-destruição entre as partes, manifestado pela ausência de greve, da parte dos operários e, do lado empresarial, pelos investimentos sociais nas chamadas instituições operárias.

Os dois corpos, durante dezoito anos contínuos, honraram seus compromissos (deveres). Mas essa renúncia à destruição recíproca possibilitou uma relativa realização da complementaridade entre capital-força de trabalho. Todo acordo, em princípio, visa justamente superar uma situação de crise e de confronto para outra que permita o intercâmbio. Nele deve haver sempre ganhos efetivos e recíprocos66.

Se aos acionistas-proprietários do Lanificio Rossi SpA de então era interessante, por um lado, reforçar a imagem do pai-patrão como a de um corregedor incansável, o qual, por meio de normas severas impostas aos próprios filhos, lhes exigia assiduidade e desempenho, por outro, entendiam que esse mesmo pai não poderia deixar de provê-los com palpáveis benefícios. Essa compreensão do papel polivalente da figura do pai dos operários foi sempre unânime nas avaliações feitas pelo Conselho Administrativo e pelo conjunto de acionistas daquela empresa67. Antecipando-se às eventuais futuras reivindicações da força de trabalho e colocando-se à frente delas, o senador Alessandro Rossi desenvolveu um conjunto de investimentos garantindo-lhes, entre outros, sua reprodução. Criou uma rede de instituições, controladas e mantidas pela empresa, indo da creche para as crianças até a escola profissional para os jovens. E foi mais além. Estabeleceu, com apoio dos associados, no Estatuto da Sociedade Anônima, com o artigo no. 41, que, do lucro líquido restante após o pagamento dos juros aos acionistas, destinar-se-ia 5% em benefício das instituições operárias68. A seguir, no mesmo documento, encontra-se um título inteiro, o de no. VI, com os artigos de 42 a 46, onde se lê textualmente que:

O sistema adotado até aqui pelo Senador Alessandro Rossi em relação a seus operários, tendente a harmonizar o capital com o trabalho, em vistas do promissor desenvolvimento da sociedade civil, é adotado e tomado como modelo pela Sociedade69.

Esse princípio de harmonização capital-trabalho aqui claramente definido norteou toda a ação patronal. Portanto, mais que paliativos usados para amenizar a extração de mais-valia sobre o trabalho operário, as instituições foram, na visão rossiana,

compensações materiais e morais às quais os operários têm direito - o que, sem dúvida, seriam o nec plus ultra da aliança entre o capital e o trabalho70.

As instituições operárias foram consideradas por alguns, sobretudo entre os socialistas, como verdadeiras migalhas caídas da mesa farta do patrão, visando suavizar a violência do cotidiano fabril71. Poderiam ser interpretadas também, reafirmando, como puro investimento para a reprodução da força de trabalho. Uma terceira posição, que se afirma sem invalidar as razões mais profundas que sustentam as duas percepções anteriores, deve unir as exigências da relação capital-trabalho, por um lado e, por outro, argumentar sobre o papel que as instituições tiveram na consolidação e manutenção do pacto em discussão72. Para constituí-las, a dinastia rossiana usou sua sensibilidade empresarial, suficiente para perceber, fora da Itália - em especial nos contatos mantidos na Bélgica73, onde o nível de associativismo dos operários era então de grande expressão - que o acirramento da luta de classes levaria, inevitavelmente, a uma confrontação indesejável entre os interesses do capital e do trabalho. Enxergando os interesses do capital acima dos próprios, como proprietário singular, sentiu ser necessário antecipar-se à avalanche de reivindicações que se abateria sobre a indústria de Schio, num futuro ainda não desenhado, mas previsível, e que traria conseqüências desastrosas para a própria reprodução do capital.

Nas instituições operárias, como eram chamadas - e através delas -,o pensamento empresarial dominante se contraporia a uma eventual, e com o passar do tempo certeira, propaganda socialista e libertária74. Em vários documentos subscritos pela direção da Lanerossi, aparecem explicitadas as orientações no sentido de que o processo educacional devesse formar operários que estivessem aptos à absorção da disciplina fabril e capacitados a aprender as novas técnicas de produção. Entre os pré-requisitos estava o da sua alfabetização.

Nesse sentido, entre 1866 e 1872, o Lanificio Rossi manteve uma escola noturna que, segundo dados fornecidos pela própria empresa, teria contribuído para reduzir os analfabetos de 65% para 22% entre os operários homens, e 85% para 35% entre as mulheres. A adesão ao curso era obrigatória para os analfabetos. Lê-se no aviso de instrução que a preocupação da direção do lanifício não era tão-somente a erradicação do analfabetismo, mas também a moldagem do caráter. Com a frase: "Comum a todos será a instrução moral e religiosa que será ministrada duas vezes por semana", a dinastia rossiana demonstrava saber introduzir no processo de instrução um padrão mínimo de comportamento necessário, a ser conhecido e absorvido pelos alunos-operários, através da instrução moral, e provava ainda ter sabido usar adequadamente também a instrução religiosa para transmitir-lhes obediência e temor à autoridade75.

As instituições denominadas eufemisticamente pelos Rossi como operárias foram sendo implantadas progressivamente, pari passu ao aprimoramento da relação capital-trabalho, na forma desenvolvida pelo pacto que se busca delinear.

Em 1867, o senador criou e construiu, no centro da cidade de Schio, o Asilo Infantile. Aí eram matriculadas as crianças com mais de três anos completos. Comportava, em 1881, 450 crianças inscritas. Em 1878, foi construído o Asilo di Maternità, também em Schio e com recursos pessoais do próprio senador, que até 1881 ainda o mantinha. Recebia cerca de 100 crianças, filhas de operários, dos 15 primeiros dias de vida aos três anos de idade. Todas, evidentemente, filhas de operários empregados no lanifício. Fundou as escolas primárias que tinham a função, segundo seu próprio mentor, de orientar "as moças aos trabalhos domésticos e os moços aos trabalhos de fábrica"76.

Não se pense, porém, que tais instituições não tenham penetrado no universo existencial operário. Embora tivessem sido constituídas a partir de iniciativas patronais, essas obras serviam de alguma forma para atender a demanda social. Prova disso é o documento assinado por 154 operários do Lanificio Rossi SpA, em 30 de setembro de 1878, e endereçado ao Conselho de Administração daquela empresa, em Milão, onde se lê a afirmação dos operários de que estavam profundamente agradecidos a seus respectivos patrões pelos benefícios advindos com a criação das Instituições Operárias77.

Em Piovene-Rocchette (1876) e em Torrebelvicino (1878) duas outras escolas foram fundadas pela empresa. Na primeira, afastada do centro urbano, os filhos dos operários da unidade local entravam com a idade de sete anos e saíam com nove. Tinha como objetivo disciplinar as crianças, a maioria de origem rural, ao convívio escolar. No ano de 1881 estavam aí inscritos 61 alunos, que depois dessa fase eram enviados à escola municipal. Em Torrebelvicino, a instituição operária era um Asilo-Scuola que acolhia as crianças com cinco anos e os mantinha até os nove. Inspirava-se no programa das escolas similares de Schio78.

O elenco das iniciativas patronais do lanifício se estendeu com a criação das escolas noturnas, e sobretudo com a construção e funcionamento da Scuola Industriale de Vicenza, fundada em 1877, através de um consórcio entre a empresa, o governo nacional e o governo provincial. Ainda como projeto, a escola industrial era imaginada dentro dos parâmetros da educação integral do corpo e do caráter. São as palavras do próprio senador Rossi que esclarecem os objetivos da escola industrial, quando ele diz que:

Para os alunos das escolas do Lanifício que revelam grande vocação, disposições e estágios mais avançados se está providenciando a Escola industrial de Vicenza (...) A finalidade desta escola é a de conceder a seus alunos uma instrução teórico-prática da mecânica, como nas escolas de artes e ofícios na França79.

Nota-se, claramente, que no pensamento rossiano havia duas virtudes - essenciais e inseparáveis - a serem cultivadas no proceder operário: a habilidade e a moralidade. O senador Rossi explicitou-as sem reservas quando, pensando na organização do internato que se propunha construir em local contíguo àquela escola, escreveu que:

Quanto ao Colégio Interno, eu o avalio necessário não só pela sua aplicação prática mas mais ainda pela educação mental e moral, porque "o ambiente da operosidade nacional não se cria hoje, mais do que nunca, sem os fatores de ordem moral" (minha carta do 3 de julho p.p. ao Congresso dos Institutos técnicos) (...) Por isso aviso desde já que o Internato terá um diretor espiritual que manterá unido nos alunos o pensamento da pátria e do Rei, àquele de Deus80.

Para tornar factível esse projeto, ostensivamente disciplinador, era necessária a aplicação de uma metodologia pedagógica adequada.

Vivia-se um período de grandes mudanças na economia e na sociedade da recém-formada Itália. Uma forte corrente migratória levou para as cidades, sobretudo no norte desse país, onde os conflitos agrários foram mais fortes, grandes levas de trabalhadores rurais. As famílias camponesas instaladas na cidade viviam em condições de miséria. Estendia-se a marginalidade infantil e a juvenil. Sua existência, não integrada à produção e ameaçadora da manutenção e reprodução da propriedade, passou a representar a grande preocupação de setores das classes dominantes, que acabou por sensibilizar os eclesiásticos. Foram várias as ordens religiosas católicas que se dedicaram, nesse período, ao trabalho de recuperação desses grupos considerados marginais. Entre elas, destacava-se a dos salesianos, fundada pelo padre piemontês Giovanni Bosco. Seu método preventivo adequava-se perfeitamente aos anseios dos empresários em ver reeducados crianças e jovens desafeitos ao trabalho. Os oratórios de Dom Bosco, lugares de divertimento e doutrinação para os menores, progressivamente deram lugar às escolas profissionais. Daí se explica a grande afinidade havida entre os Rossi e os padres salesianos, a tal ponto que os ajudaram a construir uma casa-escola em Schio. O próprio Don Rua, sucessor de Don Bosco, foi a Schio para conhecê-la, em 190381. O método preventivo, empregado na escola industrial, tinha como pré-requisito a repressão às emoções, a fuga dos prazeres do corpo, tornando-o objeto da mais refinada censura. Por outro lado, buscava moldar esse mesmo corpo aos desígnios econômicos de outrem. Alessandro Rossi expressou perfeitamente sua sintonia com esse método quando, avaliando o desempenho da escola no ano de 1882, escreveu que

(...) a disciplina (...) alcançou um grau satisfatório. A assídua vigilância previne as faltas; com admoestações se evitam muitas punições82.

Em 1884, diante do sucesso inicial da escola, a empresa retirou a contribuição que lhe cabia e delegou ao Estado a tarefa de mantê-la em funcionamento. Daí em diante, outras instituições e obras foram sendo implementadas ao longo dos dezoito anos de vigência do pacto social, visando sedimentá-lo.

Ressalte-se a criação do Corpo Filarmonico - banda composta por operários recrutados na Fabbrica Alta de Schio - que agregava, por volta de 1880, 55 instrumentistas. É do mesmo período e local o funcionamento também do conjunto de tocadores de ocarina. Ainda outras bandas se formaram nas fábricas de Piovene, Pieve e Torrebelvicino83. A empresa construiu o Teatro Jacquard ao lado da mesma fábrica, projetado pelo arquiteto Negrin, em 1869. A preocupação com a higiene dos operários fez com que a empresa, em 1877, autorizasse a construção, no limiar do Nuovo Quartiere, de banhos e lavatórios públicos84, servidos com água quente obtida com a descarga da caldeira a vapor da fábrica alta. Ao lado construiu-se também uma lavanderia pública, disponível às mulheres operárias. No mesmo bairro, sob os auspícios do senador Rossi, o lanifício fez funcionar, desde 1874, uma fábrica de gelo para servir a seus moradores. A construção do Nuovo Quartiere, porém, se constituiu talvez no projeto de maior envergadura da empresa rossiana. No espaço compreendido entre a rua Pietro Maraschin e o curso do riacho Léogra, região totalmente plana, de relevo baixo e contendo grande umidade, foram construídas, a partir do mês de julho de 1872, as casas para os técnicos e operários do Lanificio Rossi SpA. Aos primeiros foram destinadas casas construídas como verdadeiros palacetes, rodeadas por pátios e jardins, segundo o bom gosto da época. Aos operários, porém, foram construídas casas em série, paredes-meias umas às outras, em terrenos bem menores em comparação aos primeiros, e com dimensões bem mais modestas, obedecendo, como só ia acontecer, a um modelo econômico de moradia.

O arquiteto do grande projeto foi o já citado Negrin. Este, contratado pelos Rossi, desempenhou um papel importantíssimo ao transformar paisagisticamente a área, segundo a concepção da totalidade integradora capital-trabalho, então vislumbrada. Negrin, além de criar os projetos de remodelação do espaço fabril, realizou também inúmeros outros de obras de embelezamento urbanístico da cidade. São muitas as cidades da Itália, sobretudo no Norte, que, nesse período imediatamente posterior à unificação, completada em 1870, passaram por uma remodelação de seu espaço urbano. Foram, principalmente, as capitais regionais e provinciais. Esse movimento reurbanizador seguiu de perto os parâmetros do similar francês85.

Não se têm dados para dimensionar os interesses, eventualmente especulativos, além dos já mencionados, que tivessem movido Alessandro Rossi a empreender a construção desse bairro. É certo, porém, que a realização da obra, e sobretudo sua divulgação, tornaram-se um forte instrumento de propaganda para sua pregação conciliatória. Havia, sem dúvida, uma tendência entre os Rossi de vincular a poupança amealhada pelos operários a uma possível melhoria em suas condições de vida. A idéia da poupança associava-se à da casa própria. Portanto, a preocupação dos Rossi com a prática da poupança, insistentemente recomendada aos operários, acabou fazendo com que os primeiros fundassem uma instituição bancária, designada de Mutua Popolare, destinada a captar-lhes os parcos recursos através da compra de ações ao portador86.

Nesse contexto e com o espírito de disciplinamento do corpo e de educação da moral individual e coletiva dos operários, estava também embutida a concepção do controle globalizante, imaginado como mecanismo que ultrapassava as fronteiras do espaço fabril. Neste sentido, o senador tinha uma preocupação toda especial para com as moças e as mães-solteiras. Construiu-lhes um internato, estimulou-as ao casamento, e providenciou-lhes com as creches a guarda e educação de sua prole. No projeto rossiano a reprodução da força de trabalho integrava-se adequadamente no conjunto da reprodução do próprio capital. Na sua compreensão, era como se os dois componentes da produção não fossem senão uma só coisa, perfeitamente harmonizados. Nas palavras dele, o operário adulto, e não somente a criança,

...não é abandonado a si mesmo, mas se encontra de fato como um membro da numerosa família operária do Lanificio...87

A dinastia rossiana foi arrojada a ponto de pensar na organização do mundo, estabelecendo um projeto para ele e procurando realizá-lo, a partir de Schio. Assim, investiu na restruturação paisagística e arquitetônica da cidade, planejou a construção do bairro operário e tencionou também poder continuar disciplinando o corpo operário aí residente. Ousou, para isso, estender ao espaço contíguo e exterior à fábrica as normas e regulamentos que lhe eram próprios. Com isso, o capital expandiu-se para além do contexto fabril, administrado diretamente por ele, e projetou-se sobre o conjunto da vida social. "O olhar está alerta em toda a parte"88, assim Foucault caracteriza a ação de controle exercida pelos micropoderes sobre os corpos singulares e coletivos que pretendem subjugar. É o panoptismo. Em Schio, essa extrapolação também aconteceu. O comportamento - privado e público - dos operários passou a ser definido pelo projeto rossiano. Para tanto, estabeleceu-se uma série de parâmetros comportamentais com vistas a caracterizar o perfil ideal a ser seguido pelos indivíduos. Corporificaram-nos em verdadeiras regras explícitas de conduta. Entre as de maior relevância estão: 1) as que orientavam os operários a adquirir produtos de um determinado armazém (1868); 2) as que estabeleciam normas de higiene e de conservação, aos operários moradores, dos imóveis residenciais construídos e pertencentes à empresa (1871); 3) e as que os incitavam a prevenirem-se contra o cólera (1872).

O controle ousava invadir até as relações senhorio-inquilinato. Uma carta, escrita pelo senador, de próprio punho e endereçada à srta. Elisa Conte, datada de 28 de março de 1897, dá uma justa medida do que significou essa extensão do controle sobre a vida e hábitos operários, para além dos limites físicos da empresa. Nela, o pai-patrão diz textualmente que nas fábricas Rossi

chamamos com severa repreensão e vigilância os operários que manifestamente ajudaram e fizeram propaganda socialista nas recentes eleições.

A seguir, identifica o operário que foi considerado um dos cabeças da agitação, e que residia na região do monte Tretto, sob as dependências daquela mulher. O senador concluiu a carta dizendo que o identificava porque

... a nós não basta a teoria de que os operários não se fazendo notar dentro da fábrica, possam estar livres para, fora dela, tornar-se anarquistas89.

As palavras de Rossi revelam a natureza totalizadora e onipresente das relações dominantes no universo da Lanerossi. A vida particular e a cultura dos operários deveriam estar submetidas e subservientes ao projeto hegemônico. Entretanto, o que parecia um colosso sólido, à maneira dos edifícios antigos, construído para a eternidade, de fato havia sido erguido sobre bases argilosas. O pacto apresentaria sinais de senilidade sem que seus proponentes tomassem dele prévio conhecimento. Assim, como o inesperado, a irreverência não marcaria dia nem hora. Em 17 de fevereiro de 1891, o pacto, tão meticulosamente articulado, ruiu. Era o fim de uma era que se prolongou por dezoito anos ininterruptos. Com isso, Schio voltava a se inserir na vala comum dos centros industriais do século XIX, após o breve interregno de paz social.

 

DESFECHO ABRUPTO

Comecei o artigo falando sobre a greve, entendida como propulsora imediata da imigração dos operários de Schio. Não se tem notícia de casos semelhantes na história da Grande Imigração, malgrado saber-se que muitos trabalhadores rurais, oriundos da Planície do Pó, que haviam participado, na década de 80, das grandes lutas ocorridas naquelas áreas, vieram para o Brasil. O texto que ora findamos, longe de exaurir todas as possibilidades de discussão que o tema suscita, tentou delinear os contornos do contrato, solidificado por relações peculiares próprias daquele microcosmo que, no final do período, acabariam por se romper definitivamente.

A ruptura, entretanto, é assunto para outra conversa.

 

NOTAS

1 Mestre em História, professor de Língua e Literatura Italiana na Faculdade de Ciências e Letras de Assis (UNESP) e pesquisador da imigração de operários de Schio para o Brasil, em 1891.

2 A região de Galópolis (RS) assemelha-se fisicamente à região dos vales do Pasubio, antigos valli dei Signori nas cercanias de Schio.

3 Hoje: Via Pasubio.

4 Dito popular que remete ao passado combativo dos operários de Schio, num contexto provincial bastante conservador.

5 Hoje: Via Capitano G. Sella.

6 Hoje: Viale Grumi dei Frati.

7 Sobillatori (it) = instigadores, agitadores, subversivos.

8 VERGEZ, André & HUISMAN, Denis. História dos Filósofos. 6. ed. Trad. Lélia de Almeida Gonzales. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1984, p. 221.         [ Links ]

9 Idem. Op. cit, p. 217.

10 ROUSSEAU, Jean Jacques. Do contrato social; trad. Lourdes Santos Machado; introduções e notas Paul Arbousse-Bastide e Lourival Gomes Machado. São Paulo: Abril Cultural, 1978, p. 22.         [ Links ]

11 Idem, p. 26.

12 Ibidem, p. 32.

13 PELLEGRINO, Hélio In PY, Luiz Alberto (org.). Grupo sobre grupo. Rio de Janeiro: Rocco, 1987, p. 200.         [ Links ]

14 Idem, p. 200.

15 Ibidem, p. 201.

16 Ibidem, p. 201.

17 Viveram até os anos 80, num regime part-time, integrando vida camponesa e fábrica.

18 O historiador Simini escreve que:" (...) proprio l'uso del telaio a domicilio, integrato dal lavoro nel campo, aveva segnato un lungo tratto della storia economica della città al punto che proprio Schio e dintorni registravano, in confronto a tutto il Veneto, uno dei casi limite di frazionamento delle proprietà fondiarie". SIMINI, Ezio M. Le Origini a Schio. In FRANZINA, E. (a cura di) La classe, gli uomini e i partiti. Storia del movimento operaio e socialista in una provincia bianca: il Veneto (1873-1948). Vicenza: s.e.,1982, vol. 1, p. 150.         [ Links ]

19 Cf. ALVIM, Z. M. F. Brava Gente!: Os italianos em São Paulo 1870-1920. 2.ed.. São Paulo: Brasiliense, 1986, p. 29, 30 e 33.         [ Links ]

20 Braccianti: designação dada na Itália aos trabalhadores rurais volantes, que trabalhavam como diaristas nas terras de outrem.

21 Jacques Rancière afirma que a" (...) classe operária `em formação', ainda marcada pelo ritmo cíclico que rege os trabalhos, as festas e as 'emoções' do povo dos campos". RANCIÈRE, J. A noite dos proletários: arquivos do sonho operário. Trad. Marilda Pedreira. São Paulo: Cia. das Letras, 1988, p. 37.         [ Links ]

22 Apud FRANZINA, Emilio La classe ... op. cit., p. 148.

23 Escledense = (do lat. Ascledum) relativo a Schio e região que lhe está em torno.

24. Apud FRANZINA, Emilio La classe ... op. cit., p. 150. Cf. também BARDIN, M. et alii (a cura di) Civiltà rurale di una valle veneta: la Val Leogra. Vicenza: Accademia Olimpica, 1986, p. 395.         [ Links ]

25 Apud FRANZINA, Emilio La classe ... op. cit., pp. 152-153.

26 Idem. O movimento denominado La Boje (ela está fervendo, em língua vêneta) articulava, no Polesine vêneto, as lutas dos trabalhadores rurais contra o processo de modernização das relações de trabalho na agricultura, no último quartel do século passado, na Itália.

27 Domenico Marchioro, nascido aos 10 de outubro de 1888, operário e futuro deputado pelo Partido Comunista Italiano (PCI) na Constituinte de 1948, emigrou de Schio para o Brasil, em 1896, com apenas sete anos, juntamente com a respectiva família, testemunhou as condições de miséria dos camponeses daquela região. Cf. MARCHIORO, Domenico. Autobiografia giovanile di un vecchio militante delle lotte operaie: Storia vissuta, patita e descritta, dalla fine dell'Ottocento ai primi del Novecento nell'Alto Vicentino. sc, sd, mimeo, p. 1.         [ Links ]UFFICIO ANAGRAFE DEL COMUNE DI TORREBELVICINO Documento: Situazione di Famiglia di Marchioro Domenico. Torrebelvicino, 16.12.1955.         [ Links ]

28 Cf. BARDIN, M. et alii. Op. cit., p. 252. ALVIM, falando sobre a indumentária usada pelos camponeses vênetos, diz que:" Toda a roupa era praticamente tecida em casa, desde suas grosseiras meias de lã ou de algodão cru, até os véus usados pelas mulheres na igreja aos domingos". ALVIM, Z. M. Op. cit., p. 32.

29 Cfr. ARCHIVIO STORICO LANEROSSI SpA. Programma della Festa Scolastica a chiusura dell'anno 1883-84 delle scuole elementari del Lanificio Rossi; Schio, 1884; no. 12.         [ Links ]Cfr. FONTANA, Giovanni L. (a cura di) Schio e Alessandro Rossi: imprenditorialità, politica, cultura e paesaggi sociali del secondo Ottocento. Roma: Ed. di Storia e Letteratura, 1986, vol. II, Illustrazione no 446 . Bozzetto per La Berta. A. Benvenuti, 1883; Illustrazione no. 530. Podere Rossi. Etichetta delle scatole di fagiolini.         [ Links ]

30 Cfr.: ARCHIVIO STORICO LANEROSSI SpA. Avviso elenco dei premi che sarebbero distribuiti agli operai durante l'anno 1859 - Francesco Rossi; Schio, 1.8.1858; no. 57.         [ Links ]Avviso Interno - cambiamento di trattenimento - l'Opificio Francesco Rossi; Schio 11.5.1869. Orario Normale - per le stagioni annuali - la direzione del Lanificio Rossi; Schio, 15.3.1873; no. 101 . Avviso sull'abbandono del lavoro fabbrile da parte degli operai per lavorare in campagna durante la primavera. Manoscritto; Piovene, 19.6.1874. Avviso di cessione di azioni del Lanificio Rossi agli operai; Schio, 12.12.1872; no49.

31 Apud FRANZINA, E. (a cura di) Un altro Veneto: saggi e studi di storia dell'emigrazione nei secoli XIX e XX. Padova: Francisci Editore, 1983, p. 886.         [ Links ]

32 Apud FONTANA, Giovanni L. Op. cit., il. 462.

33 Cf. MENDEL, Gérard La révolte contre le père: une introduction à la sociopsychanalyse. 2. ed. Paris: Payot, 1969, pp. 22, 116-117.         [ Links ]

34 BARDIN, M. Op. cit., p. 395.

35 Idem, p. 419.

36 A empresa que antecedeu a fundação da S.A. denominava-se Lanificio Francesco Rossi.

37 Filiere: profissional cuja atividade consistia em desfiar a lã em fios para a posterior tecelagem.

38 Attaccafili: profissionais que se dedicavam à cola dos fios. Literalmente significa liga-fios.

39 Essa lei foi promulgada durante o período de governo denominado Ministérios Depretis (1876-87), em homenagem ao político Agostino Depretis (1813-83), dirigente do grupo parlamentar à esquerda que, durante o movimento autodenominado Revolução Parlamentar, de 18 de março de 1876, derrubou a direita histórica e iniciou timidamente algumas reformas em nível social e político.

40 As primeiras Camere del Lavoro, as unidades sindicais locais, foram fundadas em 1894.

41 Os socialistas de várias tendências se juntaram no Partito dei Lavoratori, fundado no Congresso de Gênova, em 1892, com a definitiva separação entre os marxistas e os anarquistas. O operário de Schio Giuseppe Bertizzolo participou desse congresso como delegado da Cooperativa Operária Têxtil de Schio e aderiu ao novo partido.

42 Cf. FONTANA, Giovanni L. Op. cit., il. 102 a 106.

43 Cf. VERONA, A. F. "A carta de Attilio Noale a Giovanni Rossi: incursão no imaginário dos operários de Schio através da leitura crítica de uma fonte epistolar". In INSIEME - Revista da APIESP. São Paulo: Arte & Cultura, n. 6, 1995, p. 78-86.

44 Apud FONTANA, Giovanni L. Op. cit., il. 127.

45 Ver SIMINI, Ezio M. "Espulsione di operai e dinamiche sociodemografiche in un distretto industriale: l'emigrazione da Schio a fine Ottocento". In FRANZINA, Emílio Un altro Veneto (...) Op. cit., p. 50.

46 Para Simini, o desenvolvimento do movimento operário escledense só pode ser entendido dentro de uma óptica dialética. Nisso ele se difere bastante dos demais estudiosos do tema. As relações capital-trabalho são por ele analisadas sob o enfoque da luta de classes. Sem desmerecer essa concepção, acredito, porém, que o autor deixa de aprofundar alguns temas, e nem parece ter-se proposto a tal, mesmo que considerando-os de grande importância, como a regulamentação da disciplina no interior do lanifício e a dimensão assumida pela figura do empresário Alessandro Rossi na constituição do imaginário operário de Schio e região. Essa imagem não se sustentava simplesmente como uma figura patronal, no sentido etimológico do termo, isto é, como representante do capital material e de interesses econômicos e sociais. Esse empresário passou a representar também um conteúdo inconsciente, de difícil acesso, que, de certo modo, esteve inerente à relação capital-trabalho. Não acredito que tais questões estivessem distantes da análise efetuada por Simini. Entretanto, os objetivos que se propôs atingir e os pressupostos metodológicos por ele utilizados obrigaram-no a privilegiar outras grandes e importantes questões. Procurando completar essa abordagem, o presente trabalho se dedica a perscrutar a outra dimensão desse pacto social, que é a subjetiva.

47 Cf. MARX, K. Trabalho Assalariado e Capital. 4. ed. Trad. de Olinto Beckerman. São Paulo: Global, 1987, p. 31.         [ Links ]

48 Ver. COMUNE DI SCHIO. Schio: il Centro Storico - azioni per il ricupero di valori culturali, sociali e economici. Schio: Ed. del Comune, 1981, p. 121.         [ Links ]Cfr. FONTANA, Giovanni L.G. Op. cit., vol. II, Illustrazioni 130 e 131.

49 Cf. FONTANA, Giovanni L. Op. cit., il. 531 a 538.

50 Ver. ENGELS, F. O Capital de Marx. In MARX, K. & ENGELS, F. Obras escolhidas. São Paulo: Alfa-Omega, s.d, vol. 2, p. 28,29 e 30.         [ Links ]Cf. também MARX, K. Trabalho..., Op. cit., p. 41.

51 MARX, K. Trabalho..., Op. cit., p. 34.

52 MARX, K. Salário, preço e lucro. 5. ed. Trad. de Olinto Beckeman. São Paulo: Global, 1987, p. 81.         [ Links ]Noutro texto afirma claramente que "(...) o contrato entre o capital e o trabalho nunca pode se estabelecer sobre as bases eqüitativas, ainda que se dê à palavra `eqüitativa' o sentido alterado que tem em uma sociedade onde as condições materiais estão de um lado e a energia produtiva vital do outro". MARX, K. & ENGELS, F. Sindicalismo. Trad. de José Roberto Marinho. São Paulo: Ched, 1980, p. 13.         [ Links ]

53 "O capital, ainda segundo Marx, é (...) uma força social concentrada, enquanto o operário não dispõe senão de sua força produtiva individual (...) A única potência social que os operários possuem é o seu número. Mas a quantidade é anulada pela desunião. Esta desunião dos operários se engendra e perpetua por uma concorrência inevitável". MARX, K. & ENGELS, F. Sindicalismo (...) Op. cit, p. 13.

54 MANTESE, Giovanni Storia di Schio. 2. ed. Vicenza: Ed. Del Comune di Schio, 1969, p. 72-73.         [ Links ]

55 Para Domenico Marchioro, Alessandro Rossi conhecia profundamente a mentalidade religiosa predominante nos meios operários. Em vista disso, conservava estreitas relações com a Igreja Católica. Segundo ele, o senador "(...) si teneva costantemente informato delle direttive della Chiesa in merito alla questione sociale, della quale molto si parlava fin d'allora negli ambienti politici e fu fra gli industriali consultati da Leone XIIIo. durante l'elaborazione dell'Enciclica Rerum Novarum (...)". Nessa importante aliança, Rossi buscava manter o conjunto dos operários longe da pregação social laica. MARCHIORO, Domenico. Op. cit., p. 25-26.

56 Cf. SIMINI, Ezio M. Espulsione (...) op. cit., p. 52.

57 Ver. SIMINI, Ezio M. Le Origini (...) op. cit., p. 200.

58 MARX & ENGELS, Sindicalismo. op. cit., p. 25.

59 Apesar de ter sido amplamente utilizado pelo Fascismo, para simbolizar a coesão social em torno ao seu comando, o termo" fascio" já havia sido muito empregado, precedentemente, pelo movimento operário italiano de tradição socialista com o símbolo correspondente.

60 Cf. ARCHIVIO STORICO LANEROSSI SpA. Atto Costitutivo, R. Decreto d'approvazione e Statuto del Lanificio Rossi Società Anonima per Azioni al Portatore. Milano, 1873; doc. no 22, p. 7-10.         [ Links ]

61 Lê-se no relatório do balanço de 1891, que: "Nel prendere atto delle dimissioni del senatore Alessandro Rossi da membro del Consiglio di Amministrazione, da Lui presieduto per lo spazio non interrotto di diciotto anni, voi gli renderete un ben meritato omaggio affermando con un voto di benemerenza che l'organizzazione del Lanificio Rossi è salita, specialmente per effetto delle illuminate iniziative e cure costanti di Lui, a tale perfezione da assicurargli il primato fra gli stabilimenti congeneri." ARCHIVIO STORICO LANEROSSI SpA, Bilancio..., p. 11.

62 ARCHIVIO STORICO LANEROSSI SpA., documentos nos. 50, 57, 64, 69, 75, 77, 82, 101, 104 (105), 108, 116 e mais dois outros documentos sem identificada numeração.

63 Cf. TAYLOR, Frederik Winslow. Princípios de Administração Científica. 6. ed. Trad. Arlindo Vieira Ramos. São Paulo: Atlas, 1966, p. 43.         [ Links ]

64 GRAMSCI, A. "Americanismo e Fordismo (1934)". In: Quaderni del Carcere. Torino: Einaudi, 1975, Q. 22 (V), vol. III, p. 2169- 2171.         [ Links ]

65 Ver. DE ZETTIRY, Arrigo. "I coloni italiani dello Stato di San Paolo" . In La Rassegna Nazionale. Firenze: Ufficio del Periodico, vol. LXX, ano XV, marzo-aprile, 1893, p. 59-96.         [ Links ]

66 Sobre a reciprocidade do pacto, escreveu Helio Pellegrino que "(...) o pacto social implica direitos e deveres e tem, necessariamente, mão dupla, sem o que não conseguirá sustentar-se". PELLEGRINO, H. Op. cit., p. 201.

67 FONTANA, Giovanni L. (a cura di) Op. cit., vol. II, Illustrazione no 467, Le dimissioni del senatore Rossi da Presidente e Consigliere del Lanificio. Ritaglio de Il Corriere della Sera, 16-17/3/1891.

68 ARCHIVIO STORICO LANEROSSI SpA. Atto Costitutivo (...), p. 40.

69 Ibidem, p. 41.

70 Apud FONTANA, Giovanni L. Op. cit., il. 300.

71 Com a frase: "(...) mascherando gli aspetti più brutali di sfruttamento mediante l'elargizione clamorosamente ampliata e gonfiata delle briciole che cadevano dal desco riccamente imbandito dei suoi profitt". Marchioro, aqui, reproduz a idéia de que as instituições, conhecidas pelo jovem Alessandro nos países já industrializados, eram como que migalhas oferecidas aos operários, submetidos a uma brutal exploração por parte do capital. O autor, é bom lembrar, viveu e escreveu estas palavras numa época posterior à que se considera como o período de vigência do pacto rossiano. MARCHIORO, Domenico. Op. cit., p. 25.

72 Cf. SIMINI, Ezio M. Le Origini... Op. cit., p. 158.

73 Ver. ARCHIVIO STORICO LANEROSSI SpA. Liste dei Prodotti che gli Agricoltori e gl'Industriali intendono inviare all'Esposizione Internazionale di Londra del 1862, Ditta Francesco Rossi, 1862, doc. s. n. O testemunho de Domenico Marchioro chama a atenção para esse detalhe da vida de Alessandro Rossi, quando diz que: "lui (...) da giovane aveva visitato l'Inghilterra, la Francia e il Belgio, per conoscere i sistemi industriali di quei paesi e applicarli a suo modo nei propri stabilimenti (...)" MARCHIORO, Domenico. Op. cit., p. 25.

74 Cf. ARCHIVIO STORICO LANEROSSI SpA. Regolamento Interno del Lanificio Rossi. Schio: Pasqua, 1873; documentos nos. 104 e 105, p. 6 e 7.         [ Links ]

75 "Comune a tutti sarà l'istruzione morale e religiosa che verrà impartita due volte per settimana." FONTANA, Giovanni L. Op. cit., vol. II, Illustrazione no. 515. Corsi obbligatori per tessitori analfabeti.

76 ARCHIVIO STORICO LANEROSSI SpA. Memoria sulle Istituzioni Operaie del Lanificio Rossi Esposizione Nazionale di Milano de 1881, manoscritto. Schio, 1881; no 36, p. 3-7.         [ Links ]

77 Cf. ARCHIVIO STORICO LANEROSSI, Lettera degli operai del Lanificio Rossi all'Onorevole Consiglio d'Amministrazione del Lanificio Rossi a Milano. Schio, 30.9.1878, buste: Zavorra.         [ Links ]

78 Ver. ARCHIVIO STORICO LANEROSSI SpA. Memoria sulle Istituzioni Operaie... Op. cit., p. 8.

79 Idem, p. 9.

80 ARCHIVIO STORICO LANEROSSI SpA. Proposta per la istituzione di una scuola industriale a Vicenza - lettera del senatore Alessandro Rossi ai suoi colleghi del Consiglio Provinciale. 2. ed. Schio, 15.9.1877; doc. no 41.001, p. 8.         [ Links ]

81 Cf. FONTANA, Giovanni L. Op. cit., ill. 716-719.

82 ARCHIVIO STORICO LANEROSSI SpA. Resoconto del senatore Alessandro Rossi sulla Scuola Industriale. Vicenza, 28.8.1883, documento, s. no., p. 8.         [ Links ]

83 Ver. FONTANA, Giovanni L., Op. cit., vol. II, Illustrazioni: 482, Unione corale, 1889; 484, Banda artiera del Lanificio Rossi, Schio, 1880; 485, Banda artiera del Lanificio Rossi, Pieve, 1880; 486, Complesso dei suonatori d'ocarina dello stabilimento di Schio, 1880; e 487, Compagnia filarmonica corista, c. 1880.

84 Projeto do engenheiro Edgard Larsimont Pergameni (1845-1931). Cf. FONTANA, Giovanni L. Op. cit., vol. II, Illustrazione 588, Stabilimento bagni del lanificio Rossi, 1877.

85 Cf. GAMBI, L. Il Reticolo Urbano in Italia nei primi vent'anni dopo l'unificazione. In QUADERNI STORICI. Ancona, Angalia Editore Urbino, settembre-dicembre, 1974, n. 27, p. 741.         [ Links ]Cfr. FONTANA, Giovanni L. op. cit., vol. II, Illustrazioni 572-73, Casa per una famiglia operaia. Progetto di A. Caregaro Negrin. Piante e alzati.

86 Ver. ARCHIVIO STORICO LANEROSSI SpA. Avviso di cessione di azioni del Lanificio Rossi agli operai. Schio, 12.12.1872; n. 49.         [ Links ]Cf. também TAYLOR, F. W. Op. cit., p. 105.

87 ARCHIVIO STORICO LANEROSSI SpA. Memoria ... op. cit., p. 9.

88 FOUCAULT, Michel Vigiar e punir: história da violência nas prisões. 4. ed, trad. Lígia M. Pondé Vassalo. Petrópolis: Vozes, 1986, p. 173.         [ Links ]

89 "Nelle fabbriche Rossi chiamammo a severa redarguizione e sorveglianza quegli operai che manifestamente aiutarono e fecero propaganda socialista nelle recenti elezioni". E continua, "Ed io lo segnalo a Voi perché a noi non basta la teoria che gli operai nulla dieno a rimarcarsi in fabbrica, padroni di fare gli anarchici fuori". ARCHIVIO STORICO LANEROSSI SpA. Lettera di Alessandro Rossi alla Signorina Elisa Conte. Schio, 28.3.1897, doc. s. n. identificado.

 

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