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Revista Brasileira de História

Print version ISSN 0102-0188On-line version ISSN 1806-9347

Rev. bras. Hist. vol. 17 n. 34 São Paulo  1997

https://doi.org/10.1590/S0102-01881997000200007 

Uma História Sonhada

 

Cléria Botêlho da Costa
Universidade de Brasília

 

 

RESUMO
O texto discute a relação entre história oral, literatura e imaginário. Mostra que a história oral e a literatura se constituem numa narrativa, ou seja, são reconstruções da realidade em que o fato e a criação se entrelaçam na construção do conhecimento histórico.
Palavras-chave
História oral, literatura, imaginário.

 

ABSTRACT
The article discusses the relation between oral history, literature and the imaginary. It shows that literature and oral history are both narrative, or in other words, they are recreations of reality where fact and creation interweave to form historical knowledge.
Keywords
Oral history, literature, imaginary.

 

 

No decorrer do trabalho de campo da pesquisa, Pelos caminhos da memória: a luta pela terra no Combinado Agro-Urbano de Brasília (CAUB) - 1980 a 19951, colhemos muitas informações ricas para aqueles que se interessam pelo tema da tradição oral. Uma das narrativas obtidas pareceu-me diferente das demais, a de Dona Raimunda2. Apesar de a entrevistada não ter ocupado posição de destaque na luta pela terra, no Combinado Agro-Urbano de Brasília3, sua larga imaginação e sua rica trajetória de vida, aliadas à sua condição de moradora que vive no local sob a condição de agregada4, foram os motivos que me fizeram perceber seu relato como diferente dos outros.

Raimunda, natural da Paraíba, participou, de um ou de outro modo, da luta empreendida por aqueles lavradores para se manterem em cima da terra, seja estabelecendo relações com muitos dos envolvidos e/ou freqüentando as reuniões da associação de moradores do local.

Dividida em duas sessões, a entrevista com Raimunda, sem roteiro prévio, durou 10 (dez) horas. O relato abordou temas, atuais e do passado, de sua vida e do cotidiano dos lavradores no Combinado. Todas as suas histórias foram entremeadas por comentários pessoais. Nascida na década de 1940, na área rural, seu passado foi marcado pela vida nômade que levara, inicialmente no próprio Nordeste - Rio Grande do Norte e Paraíba - e, já nos anos 90, em Brasília. Ela nunca estudou, pois a vida nômade que tivera, acrescida da extrema pobreza em que vivera, não lhe permitiu aprender a ler e a escrever, o que a fez revelar com pesar: "meu pai nunca teve condição de me botá na escola". Este relato evidenciou o talento de Raimunda como narradora, pois demonstrou conhecimento sobre o tema, além da vontade de colaborar com o trabalho. Mostrou ter uma memória prodigiosa, recordando-se de minúcias de sua vida passada, e seus relatos sempre eram entremeados de senso de humor, cantava melodias de sua terra natal, fazia vozes diferenciadas e gozava da própria miséria.

Raimunda herdou de seu pai, Seu Joaquim, o gosto pelas narrativas. Falou, falou muito, e iniciou sua narrativa reconstituindo as imagens de sua infância. Paulatinamente, foi compondo um relato repleto de emoções, descrevendo a paisagem do Nordeste abatida pela seca e a vida errante e sofrida dos retirantes nordestinos. Ao ouvir sua reconstituição, tive a impressão de que as imagens descritas por Raimunda eram-me familiares. Finalmente identifiquei, no relato dela, inúmeras semelhanças com a vida de Sinhá Vitória, personagem forte da obra Vidas Secas, de Graciliano Ramos. O longo e detalhado relato não me deixou dúvidas, era Raimunda uma outra Sinhá Vitória, embora não deixe de admitir as singularidades do domínio humano.

 

RAIMUNDO: UMA SINHÁ VITÓRIA NO PRESENTE

Comentarei, a seguir, algumas semelhanças entre Raimunda e Sinhá Vitória.

De seu outrora, Raimunda apreendeu e selecionou, em sua memória, alguma recordações:

...quando eu me casei, em 1958, José, meu marido, levô nóis prá Pixana por causa da seca. Nóis era doze pessoa, seis filho, dois home e quatro muié, mais eu e José. O filho mais véio tinha seis ano. E saímo todos de pé, todos nóis e descalço com as trouxa na cabeça, mais o papagaio no meu ombro e ainda carregava o menino menor escanchado na cintura. Eu carregava o menor e meu fio mais véio carregava outro menino. E Zé dizia: "é só quinze légua, gente, daqui a Pixana". Uma hora ele falô: "Raimunda, o que nóis vai fazê, só tem um quilo de farinha!". E eu respondi: "vamo comê o que achá pela frente". Passamo muita fome, nóis comia só xiquexique, resina de angico. Um dia, eu e minha fia achamo uma cocheira véia com bagaço de cana que o gado tinha deixado, aí comemo muito, foi uma alegria...

Por este relato, observa-se que, vagarosamente, Raimunda foi reconstruindo as imagens de sua vida. E, nesta reconstrução, notei que sua vida, como a de Sinhá Vitória, em sua maior parte, desenrolou-se também no sertão nordestino e que, para ambas, a seca foi o móvel da vida nômade que levaram. Ambas tinham prole numerosa, palmilharam pelas caatingas afora, a fome e a miséria acompanharam suas trilhas. Se Sinhá Vitória e sua família passaram dias comendo raiz de imbu e semente de mucumã, Raimunda e sua prole comeram xiquexique, resina de angico e bagaço de cana.

Ambas levaram trouxas e tralhas na cabeça e crianças escanchadas no quadril. E se a família de Sinhá Vitória tornou-se maior pela presença da cadela Baleia e do papagaio - que morreu de inanição durante o trajeto -, a de Raimunda, além do marido e filhos, contara também com um papagaio. Enfim, ambas, empurradas pela seca, correram mundo, andaram para cima e para baixo, como judeus errantes.

Não tenho dúvidas de que a vida nômade de Raimunda e de Sinhá Vitória foi motivada, em grande parte, pela seca nordestina. Esse entendimento faz surgir uma questão: a importância do mundo imaginário - sonhos, imagens, mitos e fantasias - na experiência de vida dessas mulheres. Sem observar esse mundo, suas histórias de vida dificilmente serão compreendidas.

Entendo por imaginário uma inter-relação de imagens e idéias, diferenciadas para cada indivíduo5, mas que se caracteriza, no caso em pauta, por fazer aquelas pessoas continuarem na mesma vida nômade a despeito de ficar, cada vez mais claro, que as mudanças contínuas de espaço físico não as conduziam ao Eldorado sonhado. O que lhes permitia continuar na busca do novo se o trajeto era tão sofrido?

Não pretendo responder à questão, mas apontar pistas para sua reflexão. Em primeiro lugar, apreendo que o acontecimento construído pela narrativa, no caso a história oral, constrói-se a partir dos fazeres cotidianos dos homens e do simbólico, do entendimento analítico destes, da compreensão dos mitos, ritos, utopias, ou seja, do imaginário e dos fazeres, da inter-relação destes com a teoria existente. Não que eu entenda teoria e representação e/ou fazeres como pólos separados, pois se trata de uma divisão meramente didática.

Em meu entendimento, todo homem dispõe de uma forma de pensar que orienta a sua ação. Ao mesmo tempo, existem nas sociedades as instituições sociais - redes simbólicas que contam com um componente funcional e um componente imaginário,6e que também apontam normas para o comportamento humano. Enquanto componente funcional, elas buscam assegurar a provisão e gestão de alimentos, a solução de conflitos da sociedade, dentre outras, e enquanto componente imaginário, elas repassam aos homens os símbolos, mitos, ritos e devaneios, que asseguram a sobrevivência da sociedade. Com isso, quero mostrar que o imaginário não se esgota em si mesmo, não é resultante somente da pura psique, mas sim, como aponta Castoriadis7, que os produtos materiais, sem os quais nenhuma sociedade poderia viver um só momento, não são símbolos, mas com estes se entrelaça, não vive sem eles. Para lembrar Bachelard8, o imaginário é também uma faceta materialista da vontade humana.

Nesse sentido, compreendo que se a vida árdua de Raimunda e/ou Sinhá Vitória - perpassadas pela fome, pela falta d'água, pela indisponibilidade de um pedaço de terra para cultivar, por humilhações e agonias, mas de muita coragem em deixar para trás suas memórias e identidades de mulheres da roça - foi uma motivação para suas vidas errantes, o imaginário fez com que elas continuassem na mesma trilha, mesmo depois de muitas mudanças geográficas: "nasci na Paraíba, rodemo vários lugar do Rio Grande do Norte e, hoje, estamo em Brasília", como nos relatou Raimunda.

Penso que, paradoxalmente, o imaginário passou a desempenhar um papel cada vez maior na vida delas, na medida em que Raimunda, Sinhá Vitória e/ou muitos outros trabalhadores rurais mudavam incessantemente de um lugar para outro, tornando seu sonho cada vez menos real. Diante disso, fui levada a crer que Raimunda - bem como muitos outros trabalhadores rurais - persistia no nomadismo porque compartilhava um imaginário. Se continuava a peregrinação, é porque queria ser feliz um dia. Se nas lidas cotidianas, Sinhá Vitória e Fabiano, Raimunda e seus familiares mostravam-se desanimados quanto à possibilidade de fazerem história - posto que, se para José, marido de Raimunda, ele nunca ia ser "homem, no mundo" e, para Fabiano, ele seria aquilo a vida inteira," cabra, governado pelos brancos..."9 -, nota-se que esses homens buscaram um mundo imaginário comum para sustentar suas ações, ainda que vivessem em profundo conflito entre a racionalidade do mundo concreto e o sonho de um outro mundo possível.

Dessa maneira, percebe-se que este imaginário comum, imaginário social, tem sua referência nos fazeres daqueles homens, no quadro social onde eles realizam suas ações, o que qualifica tal imaginário como social-histórico, rio aberto do coletivo anônimo e não apenas da psique10. Nesta perspectiva, o imaginário é uma percepção do real que exige uma prática, uma ação em relação a este real11. Neste sentido, pode-se reter que o imaginário social é o móvel que conduz aqueles homens às suas práticas errantes. Este imaginário, no que se refere às representações coletivas, reconstitui e perpetua neles as crenças de uma sociedade imaginária, correspondente à Idade do Ouro, necessária ao consenso social.

A aceitação da existência de um imaginário social ou coletivo, que estimula o consenso nas sociedades, conta com uma discussão anterior. Durkheim e seu discípulo Mauss, por exemplo, lembram que, para uma sociedade existir e se manter, é necessário que se acredite na superioridade do fato social sobre o fato individual, e que os sujeitos sociais se dotem de crenças comuns que exprimam a existência da coletividade. Já Freud e outros estudiosos tomam o indivíduo como ponto de partida do conhecimento, acreditam na singularidade do homem a partir da capacidade cognitiva própria da espécie. Para estes, o indivíduo foi, e ainda é, a única possibilidade de referência para noções como atitude, atribuição, esquemas, e assim por diante; enfim, para a compreensão da sociedade12.

Sobre esta questão, penso que a redução do indivíduo à sociedade é tão prejudicial quanto o seu inverso. O primeiro reducionismo fundamenta-se numa compreensão do sujeito como abstração, que tudo pode e tudo realiza, daí talvez tenha emergido a idéia do homem como super-homem da história, que pudesse nos trazer a glória, como canta Gilberto Gil (Super-homem). O segundo reducionismo sustenta a ilusão de que, pelo estudo da sociedade, chega-se ao conhecimento do indivíduo. Assim, a sociedade se reduziria a um conjunto de homens.

Diante desse quadro, creio que hoje, na História, bem como nas demais ciências sociais, já existe, por parte de muitos profissionais, a compreensão de que as vidas individuais não são realidades desvinculadas de um mundo social; pelo contrário, elas só tomam forma e se constroem em relação a uma realidade social. Portanto, defendo a compreensão de que a História deve se ater tanto ao entendimento dos sujeitos sociais, seus fazeres e representações, quanto à sociedade, espaço que muito contribui para dar forma e sentido às ações individuais. É, nesta perspectiva, que os estudos de histórias de vida e de biografias em geral deixam de ser entendidos como individualistas e têm obtido nova significação. Desse modo, reforço meu entendimento de que os fatos psíquicos e as falas individuais se forjam também em um quadro que é social13.

Os relatos de Raimunda eram sempre entremeados pela referência à seca nordestina. Referindo-se a seu pai, afirmou que ele sempre dizia:

Será que prá todo canto que nóis vai, não vai chovê mais não? Lá no Rio Grande do Norte tavam fazendo uma barragem nova.

Relatou ainda as dificuldades de acesso à água potável:

Nóis nos levantava para ir buscá o primeiro caminho d'água às cinco horas da manhã, trazia na cabeça e quando era nove horas era que nóis tava chegando em casa com o primeiro caminho d'água.

Nesse sentido, mais uma vez as lembranças, reconstruídas por Raimunda do seu outrora, aproximam-se da vivência cotidiana de Sinhá Vitória. Ambas, com suas andanças, tiveram suas vidas atravessadas pelos espectros da seca - rios vazios, na caatinga as folhas secas caíam, os currais estavam abandonados pelo gado e o céu sempre azul, anunciando a continuidade da seca.

 

UM MUNDO COBERTO DE SONHOS

O mundo de Raimunda e de Sinhá Vitória, embora perpassado pela dor, humilhação e revolta incontida, cedia lugar também ao sonho, à utopia. Sonhar também fazia parte do cotidiano dessas criaturas. Assim, em sua narrativa, Raimunda reportou-se à sua vida de miséria, perpassada pela fome e pela seca, mas também apontou seus desejos:

...quando eu casei com José, nóis não tinha nada de casa. Nóis tinha uma mesa véia e dormia numa cama feita de vara, feita de gravetos e manhecia o dia toda dolorida... Mas eu nunca me acostumei com aquela cama dura, eu sempre queria uma cama de gente, de madeira...

Este depoimento de Raimunda mostra que ela também tivera, como Sinhá Vitória, uma cama de vara, construída de gravetos. Mais uma demonstração de que o sonho também fazia parte do cotidiano de suas vidas. Elas sonharam com uma cama bonita, onde o repouso de seus corpos frágeis fosse uma possibilidade. Raimunda sonhara com uma cama de madeira e Sinhá Vitória com uma cama de hastes de couro, igual à de Seu Tomás da bolandeira14.

Estes sonhos de Raimunda e Sinhá Vitória reportam-me à questão da fantasia. A literatura predominante sobre o tema ainda reforça a oposição entre sonho/realidade, verdade/mentira, história/ficção. Para os adeptos desta compreensão, certamente herdeiros da crença de que o mundo, a partir do século das Luzes, deveria passar por um processo de desencantamento, os mitos, os ritos e os sentimentos individuais deveriam ser afastados do processo de conhecimento deste mundo. A realidade, apreendida como existência exterior ao homem, portanto como coisa, apresentava-se diferente e contraditória ao mundo subjetivo - objeto de estudo dos psicólogos e psicanalistas. E muitos historiadores continuam vítimas da ilusão de que é possível uma descrição de valor neutro dos fatos antes da sua interpretação ou análise. Sendo assim deter-me na compreensão dos sonhos de Raimunda e/ou Sinhá Vitória seria um mero equívoco, posto que a história deveria então ater-se aos fatos objetivos.

E é esta questão que me leva a refletir a respeito da construção do conhecimento. Na perspectiva racionalista, o conhecimento se constrói independentemente do seu objeto, o pesquisador é, assim, o sujeito absoluto da produção do conhecimento, desconhece os relatos do narrador. Esta racionalidade abstrata esmaga de tal forma o objeto estudado que a razão torna-se sufocante para a vida. Por outro lado, a crítica a essa racionalidade calculadora, para Benjamin, por exemplo, nega o conflito platônico entre a inteligência e o corpo, entre o arcaico e o revolucionário, e preconiza que há uma inter-relação entre sujeito/objeto. E esta interação se faz mediatizada pela noção de imagem dialética - meio caminho entre o possível e o inteligível -, que é apreendida na reminiscência.

Ainda sobre esta relação entre o sensível e o não-sensível, Benjamin nos ensina que o conceito não deve se ater apenas à realidade do sensível, não para negá-la, mas para salvá-la. Com isto, mostra que o conceito deve extrapolar o imediato, ater-se também às idéias, porque estas são o ponto de partida para o quimérico, o visionário.

Dessa maneira, o real deixa de ser apenas as evidências e alia-se tanto ao passado quanto aos sonhos do despertar. Nessa compreensão, o conhecimento, construção do pesquisador, realiza-se a partir do diálogo com as fontes e, no caso, das fontes orais, na relação dialógica entre pesquisador e narrador.

Literatura recente aponta para a superação da dicotomia realidade/sonho. Bachelard, por exemplo, mostra outro caminho, fala sobre a relação entre o saber científico e o imaginário, em que o sonho se mistura com o real, assim como acontece na narrativa de Raimunda: a descrição dos seus fazeres se confunde com o significado que atribui a esses fazeres e com seus desejos construídos a partir do seu cotidiano. É, nesse sentido, que Raimunda e Sinhá Vitória sonham com uma cama de madeira e de couro. Com essa compreensão, a narração realista - que quer se apresentar como um instantâneo fotográfico, despojado de qualquer afetividade, de qualquer desejo, de quaisquer emoções - não existe.

Por exemplo, se perguntarmos a um pintor ou a um professor universitário quais as suas representações sobre o pôr-do-sol, com certeza elas serão bastante diferentes. Com isso, resumidamente, desejo mostrar que o real é, ao mesmo tempo, construção e criação. Enquanto construção, é uma realização dos fazeres do homem15, sujeito social de sua história, do seu mundo e, enquanto criação, é uma expressão dos sonhos, das utopias desses sujeitos sociais. Dimensões estas separadas apenas para compreensão didática, pois a relação homem/natureza faz-se mediatizada por sua imaginação. Raimunda, ao narrar sua história, não somente cria, como também, através de seus sonhos, de suas aspirações, (re)cria sua realidade.

Retomando a compreensão da narrativa de Raimunda, e sua semelhança com a de Sinhá Vitória, notei que, sobretudo após os dissabores, o pensamento delas era povoado pelo desejo de possuírem uma cama de madeira ou de couro, de um mundo onde todos fossem felizes - onde Raimunda e Sinhá Vitória pudessem usar uma saia larga, de estampa colorida; onde as cores de saúde voltassem ao rosto das crianças; onde os açudes transbordassem de água e a roça lhes oferecesse alimentos continuamente.

Mas, como tais sonhos, depois de muita perambulação pelo mundo afora, não se concretizaram, ambas começaram a sonhar com um novo lugar. Deixaram a caatinga, os rios secos, os currais sem as reses, pois sonharam com uma vida de citadinas, com um lugar onde pudessem ficar com os seus para sempre. Foi, portanto, movidas por essa representação imaginária, que Raimunda e sua família partiram para Brasília, nos idos de 1990.

Contudo, estas quimeras de Raimunda - o sonho da cidade grande, que também fora o de Sinhá Vitória - não a conduziam ao delírio, ou seja, a situações de desconhecimento pleno do mundo que a cercava16. Tais quimeras forjavam-se a partir do cotidiano de sua vida, vale dizer, por dormir em cama de vara com pontas de graveto, por não contar com um pedaço de terra que asseguraria sua existência e preservaria suas memórias e, por fim, por ter sua história de vida num espaço físico dominado pela seca e pela miséria. É numa convergência entre o individual e o social que se realiza a quimera, a criação.

Sob o ângulo daquele que cria, o sonho encontra sua fonte na experiência cotidiana, nos acontecimentos vividos. Pelo fato de estes sonhos serem construídos levando em conta a vivência cotidiana dos sujeitos, os modos de vida, as estruturas sociais coletivas, eles tornam-se reais e, portanto, fica cada vez mais difícil a demarcação entre ficção e realidade, entre verdade e mentira, real e imaginário. Se dou existência ao que existe somente no meu espírito e não é apreendido pelos outros, falo no deserto. Contudo, quando minha fala dá existência aos modos de vida, aos clamores da sociedade, aos fazeres dos homens e, conseqüentemente, tem significado para os demais sujeitos da sociedade, sonho e realidade misturam-se, o que me faz lembrar Brecht, quando observa com propriedade: "um sonho sonhado sozinho não passa de um sonho, mas um sonho sonhado em conjunto torna-se realidade".

Desse modo, penso que, quanto aos sonhos de Raimunda e de Sinhá Vitória, trata-se muito menos de imagens do que de capacidade de criar, de produzir, de dar-se, de fazer ser o que não é nem nunca foi17. Assim, falar do imaginário é falar da capacidade de criação que se faz presente em todo o gênero humano, individual ou coletivamente considerado.

 

HISTÓRIA E LITERATURA

É comum ouvir-se a indagação: tem validade científica o trabalho historiográfico que utiliza como fonte a literatura (romance, poesia, cordel, dentre outros)? Esta indagação emerge porque, na compreensão de muitos historiadores, ainda perdura a oposição radical da história à ficção ou do fato à fantasia. Estes historiadores certamente questionarão a validade científica deste texto, uma vez que ele busca fazer uma relação entre vidas e sonhos de uma personagem que vive num espaço rural, nos arredores de Brasília, e outra personagem, obra da imaginação criativa de Graciliano Ramos.

Sobre esta indagação, inicio minhas observações mostrando que a história e a literatura movem-se num espaço comum que é a narrativa. Narrativa aqui entendida não apenas como expressão oral das dimensões agradáveis do mundo, o conto impregnado do fantástico, em sua dimensão mítica, e nem somente como investigação, busca, como se pensava nos tempos de Tucídides, mas a narrativa sob o aspecto de uma (re)construção dos fatos. Etimologicamente, (re)construir significa construir de novo, conferir novas significações aos fatos e, nesta nova construção, o sensível e o factual entrelaçam-se com as idéias, num casamento perfeito, oferecendo espaço para a imaginação criadora.

Portanto, os acontecimentos registrados, por si sós não oferecem os elementos da história nem da literatura. É o narrador que, ao formular novas significações aos fatos criados, oferece aqueles elementos. Os acontecimentos são convertidos em fatos históricos e/ou literários pela ação do narrador que, na (re)elaboração da narrativa, suprime alguns aspectos, faz realçar outros, tendo como critério o interesse que tem no momento em que desenvolve a pesquisa e o seu referencial teórico. Por esta razão, pode-se afirmar que a narrativa (re)constrói-se em cima dos fatos selecionados pelo narrador, que (re)constitui suas lembranças e cria o porvir.

Desta forma, narrar é (re)construir verbalmente o presente, as lembranças e os desejos, é (re)elaborar a experiência individual no passado comum18. Contudo, como lembra Hayden White19, é tanto invenção quanto descoberta. Neste sentido, tanto a história quanto a literatura constituem-se numa narrativa. Nessa (re)constituição, elas sempre harmonizam o enredo da narrativa com o conjunto de acontecimentos mais amplos da sociedade. Ou seja, a narrativa só tem receptividade se é aceita pelos outros, se ela os toca, se ela os referencia20. Assim, a história não se constitui apenas de um conjunto de acontecimentos históricos já descobertos, mas através da (re)constituição desses acontecimentos e da criação de novos pelo historiador; descoberta e invenção entrelaçam-se a cada instante. A literatura, por sua vez, apresenta-se também como uma (re)construção de fatos da sociedade e como uma incursão nos domínios do sonho, do fantástico, do imaginário.

Portanto, tanto na história quanto na literatura os símbolos, o contexto das informações, a ciência e o imaginário são constantemente confrontados e confundidos. Foi dentro desse entendimento que ousei fazer a comparação entre Raimunda e Sinhá Vitória, pois se esta fora um lampejo criativo de Graciliano Ramos, Raimunda também fora uma ficção, na medida em que, a cada instante, (re)inventava sua vida.

 

NOTAS

1 Esta pesquisa foi desenvolvida, sob minha coordenação, com os alunos de graduação do curso de História: Simone Gianotti, Rivânia Amaro (bolsistas do CNPq) e Cosmo José Balbino (voluntário).

2 É um pseudônimo, haja vista a narradora não querer ser identificada. A entrevista foi realizada em outubro de 1995.

3 Trata-se de uma proposta de Reforma Agrária para o Distrito Federal, implementada em 1986 pelo então Governador José Aparecido. Assentou, em pequenos lotes rurais, 160 famílias procedentes de diferentes regiões do país, com experiência em trabalho com a terra.

4 Quase a totalidade dos moradores do CAUB I - 160 famílias - tem contrato de Concessão de Uso, válido por 15 anos renováveis. Agregado, aqui, é entendido como aquele que, não contando com o contrato de Concessão de Uso, vive em lote cedido por outro, cuidando da terra sob a forma de agregado.

5 PASSERINI, Luísa. "Mitobiografia em História Oral". In: Revista Projeto História. n. 10, dez. 1993, p. 32.         [ Links ]

6 CASTORIADIS, Cornélius. A Instituição Imaginária da Sociedade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982, p. 52.         [ Links ]

7 Idem, ibidem, p. 172.

8 BACHELARD, Gaston. O Direito de Sonhar. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil S.A., 1994, p. 38.         [ Links ]

9 RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. São Paulo: Record, 1990.         [ Links ]

10 CASTORIADIS. Op. cit., p. 174.

11 BARBIER, René, Sobre o imaginário. In: Em Aberto. Brasília, n. 61, ano 14, jan./mar. 1994, p. 27.         [ Links ]

12 GUARESHI, Pedrinho (Org.). Representações Sociais. São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 22.         [ Links ]

13 HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva. São Paulo: Vértice, 1990, p. 32.         [ Links ]

14 RAMOS. Op. cit., p. 26.

15 HELD, Jacqueline. O Imaginário no Poder. São Paulo: Sumus, 1980, p.26.         [ Links ]

16 JUNG, Carl G. O Homem e seus Símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990, p. 216.         [ Links ]

17 CASTORIADIS. Op. cit., p. 154.

18 THOMPSON, E. P. A Formação da Classe Operária Inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981, p. 36.         [ Links ]

19 WHITE, Hayden. Trópicos do Discurso. São Paulo: EDUSP, 1995, p. 98.         [ Links ]

20 BENJAMIN, Walter. "O Narrador". In: Obras Escolhidas. São Paulo: Brasiliense, v. 1 , 1987, p. 62.         [ Links ]

 

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