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Revista Brasileira de História

Print version ISSN 0102-0188On-line version ISSN 1806-9347

Rev. bras. Hist. vol. 17 n. 34 São Paulo  1997

https://doi.org/10.1590/S0102-01881997000200013 

Pólvora y Tintas. Andanças de Bandoleros Anarquistas1

 

Adhemar Lourenço da Silva Jr.2

Universidade Federal de Pelotas

 

 

Pouco conhecida por profissionais brasileiros, a historiografia uruguaia vem produzindo interessantes trabalhos. Diferentemente do Brasil, onde a pós-graduação é locus privilegiado da produção científica, as exigências da graduação no Uruguay levam a investigações comparáveis a dissertações de mestrado. Tal é o caso da monografia de Neves e Pérez, cuja história inicia-se em outubro de 1927, quando o Comité Pro Presos y Deportados argentino, sem dinheiro, soluciona o problema assaltando o Hospital Rawson, em Buenos Aires. O butim compensa o risco, mas a morte de um guarda em meio ao tiroteio leva a polícia à caça dos assaltantes, predominantemente catalães. Enquanto a polícia mobiliza infrutiferamente agentes e informantes, o grupo atravessa clandestinamente o Prata rumo a Montevideo, local seguro para fugitivos políticos latino-americanos e europeus. A polícia argentina pressiona as autoridades uruguaias para encontrar os assaltantes, mas estas, ciosas da soberania nacional, não cedem facilmente aos apelos portenhos.

A partir daí se desenvolve o livro, estruturado como uma novela policial. A narração percorre, em idas e vindas que deixam o leitor sem fôlego, redes de solidariedade e normas de segurança que permitem aos fugitivos políticos anarquistas abrigarem-se clandestinamente no Uruguay, envolvendo militantes e criminosos comuns (inclusive uma rede capaz de falsificar dinheiro dentro da prisão). Mas o momento não era propício: a aproximação das eleições legislativas apontava para o asedio conservador que vinha ocorrendo desde 1925, e o governo uruguaio via-se pressionado também pelos jornais católicos que exigiam a deportação dos anarquistas, ateus e assassinos.

O panorama, desenhado por meio de fontes jornalísticas, poderia assemelhar-se a outros em que argentinos atravessavam o Prata e buscavam abrigo na Banda Oriental. Mas os assaltantes do Hospital Rawson violaram a regra de ouro prescrita pelos militantes uruguaios: a de não praticar ilegalidades no país. O alvo escolhido foi a casa de câmbio Messina, situada na Plaza Independencia. O assalto, financiado com parte do auferido no Hospital Rawson, foi longamente planejado e executado em outubro de 1928, mas, aos erros cometidos, somou-se o azar dos assaltantes: não só a casa de câmbio tinha pouco dinheiro em caixa, como houve reação. O assalto rendeu, no máximo, conforme estimativas, 2.000 pesos - o valor de um automóvel, ou de 33 novilhos -, mas o custo fora alto: três mortos, vários feridos e um problema para os anarquistas uruguaios. Com o assalto em Montevideo, a polícia uruguaia investigou as redes de solidariedade - o que produziu as fontes utilizadas pelos autores - e conseguiu prender parte dos anarquistas.

Se a narrativa é um dos méritos do livro, também lhe traz problemas. Um deles refere-se à necessidade de produzir análises sobre o contexto histórico, imprescindíveis em trabalhos acadêmicos. As análises feitas quebram o ritmo da narração, apresentando-se como colagens pouco articuladas com o caso tratado, fazendo a obra oscilar entre a perspectiva que toma casos como elucidativos exemplos de um fenômeno mais geral (criminalidade, relações políticas transplatinas, solidariedade internacional, etc.) e a que toma o contexto como explicativo do caso, não sendo, portanto, necessário tanto detalhamento nessa análise. As análises do contexto no livro remetem antes a um pano de fundo da ação do que a um universo de relações sociais mediado e reatualizado pela conduta dos agentes. Um segundo problema restringe-se aos leitores lusófonos: o abuso da gíria policial (a de hoje ou a da época?), que facilita o clima narrativo mas dificulta a leitura.

Trabalhos como o de Neves e Pérez não se limitam a abordar aspectos localizados da história operária uruguaia e argentina: fornecem, no mínimo, subsídios para pesquisadores do Brasil compararem formas de organização, quando não sugerem possibilidades de pesquisa. Com efeito, militantes anarquistas como Manuel Moscoso, Nino Martins e Antônio Nalepinski circularam por vários países e Estados, cabendo-nos interrogações sobre a influência dessa circulação de trabalhadores na conformação de sua experiência de organização. Por outro lado, traz-nos uma questão mais geral que abre possibilidades a investigações biográficas e prosopográficas: o que são esses ideais políticos, capazes de fazer alguém sacrificar sua vida pessoal? O que se ganha em troca desse sacrifício?

Sem querer adiantar respostas, tampouco o epílogo do livro, basta dizer que, dentre os condenados pelo assalto no Uruguay, houve os que cumpriram sua pena na prisão de Punta Carretas e os que, por meio de um estratagema que mereceria outro estudo monográfico das redes de solidariedade, conseguiram fugir poucos anos depois.

 

NOTAS

1 NEVES, Salvador; COUTURE, Pérez. Montevideo: Banda Orientas, 1993, 141 p. (ilust.).

2 Mestre pela UFRGS, Professor da UFPel.

 

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