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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

versão impressa ISSN 0102-0935versão On-line ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. v.53 n.1 Belo Horizonte fev. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352001000100013 

Efeito do nível de fibra e da fonte de proteína sobre o comportamento alimentar de novilhas mestiças Holandês-Zebu

[Effect of fiber levels and protein sources on the eating behavior of crossbred Holstein-Zebu heifers]

 

A.C. Queiroz1, J.S. Neves2, L.F. Miranda3, J.C. Pereira1, E.S. Pereira4, A.R. Dutra5

1Departamento de Zootecnia da UFV
R. P.H. Rolfs, s/n
36571-000 – Viçosa, MG
2Zootecnista
3
Doutoranda em Ciência Animal – UFMG
4UNIOESTE
5Doutor em Zootecnia - UFV

 

Recebido para publicação, após modificações, em 7 de julho de 2000.
E-mail: aqueiroz@mail.ufv.br

 

 

RESUMO

Este trabalho foi realizado para avaliar a influência do nível de fibra, da fonte de proteína e do horário de fornecimento da ração sobre aspectos do comportamento alimentar de novilhas mestiças Holandês ´ Zebu. As dietas com baixa ou alta fibra, em base de cana-de-açúcar mais silagem de capim-elefante como volumoso, continham 38,7 ou 57,2% de fibra em detergente neutro (FDN), respectivamente. As fontes de proteína foram o farelo de soja com alta (65,0%) ou farinha de sangue mais farelo de glúten de milho com baixa (32,2%) degradação ruminal. Dezesseis novilhas mestiças, com idade média de 14 meses e 220kgPV foram distribuídas em um delineamento experimental inteiramente ao acaso em esquema fatorial 2´2´2 (nível de fibra, fonte de proteína, horário de fornecimento), com duas repetições. O comportamento alimentar das novilhas foi determinado pela observação visual, em intervalos de 5 minutos, durante 24 horas, uma vez por mês durante o período experimental para determinar o tempo despendido com ingestão, ruminação e descanso. Novilhas alimentadas com dietas com alto nível de FDN despenderam mais tempo com ingestão e ruminação. Em relação às fontes de proteína não foi observada diferença quanto ao tempo despendido com ingestão, ruminação e descanso. O tempo despendido com ingestão foi maior quando a dieta foi fornecida pela manhã. O comportamento alimentar das novilhas foi influenciado pelo teor de FDN da dieta.

Palavras-chave: Novilha, comportamento alimentar, fibra, proteína,

 

ABSTRACT

The objective of this experiment was to evaluate the effects of fiber levels, protein sources and feeding time on the eating behavior of crossbred Holstein-Zebu heifers. The diets with low (38.7% NDF) or high (57.2% NDF) fiber were based on sugar-cane plus elephant grass silage. The protein sources were soybean meal for high (65%) and blood meal plus corn gluten meal for low (32.2%) ruminal degradability. Sixteen Holstein-Zebu crossbred heifers, averaging 14 months of age and 220kg of LW were allotted to a completely randomized experimental design in a 2´2´2 factorial arrangement (fiber level, protein sources and feeding time), with two replicates. The eating behavior of the heifers was determined by visual observation at 5 minutes interval during 24 hours once a month during the experimental period to determine the time expend with eating, rumination and idling activity. The heifers on high NDF diets expend more time (min/day) eating, ruminating and idling than heifers on low NDF diets. The protein sources did not influence the time spent with eating, rumination and idling. The feeding time showed difference only for the time expend eating and the heifers fed in the morning expended more time eating. The NDF levels of the diets affected the eating behavior of the heifers.

Keywords: Heifer, eating behavior, fiber, protein

 

 

INTRODUÇÃO

O consumo de matéria seca é a variável mais importante que influencia a performance animal (Mertens, 1987), e é inversamente relacionada ao conteúdo de fibra dietético (Van Soest, 1965). Portanto, um dos fatores limitantes do consumo de forragem é o tempo gasto com alimentação, que varia em função do teor de fibra das dietas, por causa do número de movimentos mastigatórios (Albright, 1993).

O tempo de ruminação, expresso como proporção do consumo, independe do peso vivo e está negativamente relacionado ao consumo voluntário (Deswysen et al., 1993). Dessa forma, trabalhando com novilhas, esses autores observaram que o maior consumo de nutrientes está associado, primeiramente, ao menor tempo gasto com a ingestão e com a ruminação.

Segundo Van Soest (1994), animais estabulados gastam mais de seis horas para consumir alimentos com baixo teor de energia. O tempo despendido na ruminação é influenciado pela natureza da dieta, e provavelmente está associado ao teor da parede celular dos volumosos. Assim, alimentos concentrados reduzem o tempo de ruminação, enquanto forragens com alto teor de parede celular tendem a aumentá-lo. O aumento no consumo tende a reduzir o tempo de ruminação por grama de alimento, fator provavelmente responsável pelo aumento de tamanho das partículas fecais em consumo elevado.

Deswysen et al. (1993) observaram que o maior consumo de nutrientes está associado, primeiramente, com o menor tempo gasto na ingestão e na ruminação.

O objetivo deste trabalho foi o de avaliar a influência de dietas com alta e baixa fibra e fontes de proteína de alta e baixa degradação ruminal e diferentes horários de fornecimento do alimento sobre o comportamento alimentar de novilhas leiteiras.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O trabalho foi realizado nas instalações de confinamento do laboratório animal do Departamento de Zootecnia da Universidade Federal de Viçosa, Viçosa - MG

Dezesseis novilhas ½ Holandês-Zebu, com média de idade de 14 meses e 220kg de PV inicial, foram mantidas em baias individuais providas de cochos de alimentação e bebedouros. O período de adaptação dos animais às dietas, às instalações e ao manejo experimental foi de 17 dias e o período experimental de 101 dias.

As rações foram fornecidas à vontade, individualmente, uma vez ao dia, seguindo o horário de fornecimento pré-estabelecido, isto é, pela manhã às 8 horas ou à tarde às 16 horas. A quantidade de ração fornecida diariamente foi ajustada de acordo com o consumo do dia anterior, de modo que houvesse sobra de 10% do total fornecido, a fim de se garantir ingestão voluntária e grau de seleção uniforme de cada animal. As dietas experimentais fornecidas e as sobras dos cochos de cada novilha foram pesadas e amostradas diariamente.

As dietas experimentais foram à base de capim-elefante (Pennisetum purpureum, Schum) e cana-de-açucar (Saccharum officinarum, L) como volumosos, que variaram em relação ao concentrado para caracterizar o maior e o menor nível de fibra, e farelo de soja ou farinha de sangue mais glúten de milho como fontes de proteína, com maior e menor degradação no rúmen, respectivamente.

A relação volumoso:concentrado das dietas experimentais foi de 46,20:53,80; 44,20:55,80; 77,77:22,23 e 83,39:16,61, para as dietas com baixa fibra e farelo de soja (BF-FS), baixa fibra e farinha de sangue mais glúten de milho (BF-FSA/GM), alta fibra e farelo de soja (AF-FS) e alta fibra e farinha de sangue mais glúten de milho (AF-FSA/GM), respectivamente.

O capim-elefante em estado avançado de maturação foi ensilado em silo tipo cisterna com 3% de melaço com o objetivo de melhorar o teor de carboidratos solúveis, e a cana-de-açúcar foi colhida a cada três dias, mas a porção utilizada no dia foi picada pouco antes da distribuição.

As rações de alta e baixa fibra continham 1,75 e 2,60 Mcal/kg de energia líquida na matéria seca. Esses níveis de energia foram calculados para uma taxa de ganho de peso provável de 0,70 e 1,00kg/dia, respectivamente (NRC, 1989).

A proporção de proteína não degradável no rúmen foi de 47,95; 53,29; 35,03 e 67,81% do total da proteína fornecida para as dietas BF-FS, BF-FSA/GM, AF-FS e AF-FSA/GM, respectivamente.

A proporção dos ingredientes utilizados nas rações e os teores de matéria seca (MS), matéria orgânica (MO), proteína bruta (PB), proteína degradável no rúmen (PDR), proteína não degradável no rúmen (PNDR), fibra em detergente neutro (FDN), carboidrato total (CT), nutrientes digestíveis totais (NDT) e cinzas das dietas experimentais encontram-se na Tab. 1.

 

 

Os teores de MS, MO, PB, de FDN e NDT dos concentrados e dos volumosos utilizados nas dietas são apresentados na Tab. 2.

 

 

O comportamento alimentar das novilhas foi determinado pela observação visual em intervalos de cinco minutos, durante 24 horas, uma vez por mês para determinar o tempo despendido em ingestão, ruminação e descanso.

O delineamento experimental utilizado foi o inteiramente ao acaso em esquema fatorial 2 ´ 2 ´ 2 (nível de fibra ´ fonte de proteína x horário de fornecimento da ração) com duas repetições.

Os dados foram submetidos à análise de variância e as médias foram comparadas pelo teste de Tukey, a 5% de probabilidade, utilizando-se o pacote computacional SAEG (Sistema de Análise Estatística e Genética) (UFV, 1984), segundo o modelo estatístico:

Yijkr = m + Fi + Pj + Mk + FPij + FMik + PMjk + FPMijk + eijkr, em que

Yijkr = observação referente ao animal r no nível de fibra i na fonte de proteína j e do tipo de manejo alimentar k;
m = média geral;
Fi = efeito do nível de fibra i (i = 1, 2);
Pj = efeito da fonte de proteína j (j = 1, 2);
Mk= efeito do horário de fornecimento da ração k (k= 1, 2)
FPij = efeito da interação nível de fibra x fonte de proteína;
FMik = efeito da interação nível de fibra x horário de fornecimento da ração;
PMjk = efeito da interação fonte de proteína x horário de fornecimento da ração;
FPMijk = efeito da interação nível de fibra x fonte de proteína x horário de fornecimento da ração;
eijkr = erro aleatório associado a cada observação

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados relativos ao tempo gasto em minutos pelos animais no consumo, na ruminação e em descanso são apresentados na Tab. 3.

 

 

As interações entre níveis de fibra, fontes de proteína e manejo alimentar não foram significativas para todas as características estudadas.

Os animais alimentados com dietas constituídas por alto nível de fibra despenderam mais tempo com consumo e ruminação, em min/dia, em função do maior teor de FDN dessas dietas. Da mesma forma, observou-se maior tempo gasto com ingestão expresso em min/kg MS, min/kg FDN, min/gMS/PV0,75 e min/gFDN/PV0,75. Beauchemin & Buchanan-Smith (1989) relataram que os tempos gastos com ingestão e com ruminação foram influenciados pelo conteúdo de FDN dietética.

O tempo médio de ruminação em min/kg MS e min/gMS/PV0,75 foi maior para as dietas com alto teor de fibra. Entretanto, o tempo médio de ruminação expresso em min/kg FDN e min/gFDN/PV0,75 foi menor para essas dietas. Segundo Deswysen et al. (1993), isso pode ser justificado pelo fato de o maior consumo diário de MS estar associado, primeiramente, com o menor tempo gasto na ingestão e na ruminação diárias, portanto, o menor consumo de MS das dietas com alto teor de fibra pode ser atribuído ao maior tempo despendido em ruminação. O elevado tempo despendido na ingestão e na ruminação foi devido ao alto teor de FDN da dieta (Van Soest, 1994).

Em relação às fontes de proteína não foi observada diferença quanto ao tempo gasto em ingestão, ruminação e descanso das novilhas, provavelmente porque o tempo despendido em ingestão e ruminação é proporcional ao teor de FDN dos volumosos (Dado & Allen, 1995).

O horário de fornecimento da ração apresentou diferença (P<0,05) apenas para as características de ingestão. O tempo despendido em ingestão expresso em min/dia, min/kg MS, min/kg FDN, min/gMS/PV0,75 e min/gFDN/PV0,75 foi maior quando o alimento foi fornecido pela manhã. Miranda et al. (1999), estudando o comportamento alimentar de novilhas, observaram que a maior porção de consumo ocorreu durante o dia, provavelmente em função do consumo de MS ter sido maior após o fornecimento de alimentação fresca e da ruminação ocorrer preferencialmente à noite, quando a temperatura estava mais amena.

 

CONCLUSÕES

O comportamento alimentar de novilhas é influenciado pelo teor de FDN das dietas, registrando-se mais tempo despendido em ingestão e em ruminação para dietas com alto teor de fibra. O tempo despendido com alimentação é maior quando o alimento é fornecido pela manhã.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFIA

ALBRIGHT, J.L. Feeding behavior of dairy cattle. J. Dairy Sci., v.76, p.485-498, 1993.        [ Links ]

BEAUCHEMIN, K. A., BUCHANAN-SMITH, J.G. Effects of neutral detergent fiber concentration and supplementary long hay on chewing activities and milk production of dairy cows. J. Dairy Sci., v.72, p.2288-2300, 1989.        [ Links ]

DADO, R.G., ALLEN, M.S. Intake limitation, feeding behavior, and rumen function of cows challenged with rumen fill from dietary fiber or inert bulk. J. Dairy Sci., v.78, p.118-133, 1995.        [ Links ]

DESWYSEN, A.G., DUTILLEUL, P., GODFRIN, J.P. et al. Nycterohemeral eating and ruminating pattern in heiffers fed grass or corn silagem: analysis by finite fourier transform. J. Anim. Sci., v.71, p.2739-2747, 1993.        [ Links ]

MERTENS, D.R. Predicting intake and digestibility using mathematical models of ruminal function. J. Anim. Sci., v.64, p.1548-1558, 1987.        [ Links ]

MIRANDA, L.F., QUEIROZ, A.C., VALADARES FILHO, S.C. et al. Comportamento ingestivo de novilhas leiteiras alimentadas com dietas à base de cana-de-açúcar Rev. Soc. Bras. Zootec., v.28, p.614-620, 1999.        [ Links ]

NRC. National Research Council. Nutrient requirements of dairy cattle. 6.ed. rev. Washington: National Academy of Sciences, 1989.        [ Links ]

UFV. Universidade Federal de Viçosa.. Sistema de análises estatísticas e genéticas. Viçosa, MG, 1995. (Versão 5.0)        [ Links ]

VAN SOET, P.J. Nutritional ecology of the ruminant. 2 ed. Ithaca: Univ. Cornell, 1994. 476p.        [ Links ]

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