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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

versão impressa ISSN 0102-0935versão On-line ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. v.57 n.3 Belo Horizonte jun. 2005

https://doi.org/10.1590/S0102-09352005000300021 

COMUNICAÇÃO

 

Susceptibilidade a antimicrobianos de bactérias isoladas de otite externa em cães

 

Antimicrobial sensitivity of bacteria from otitis externa in dogs

 

 

L.C. OliveiraI, *; C.M.O. MedeirosII; I.N.G. SilvaII; A.J. MonteiroI; C.A.L. LeiteIII; C.B.M. CarvalhoI

IUniversidade Federal do Ceará – Fortaleza, CE
IILaboratório de Análises Clínicas Veterinárias – Fortaleza, CE
IIIUniversidade Federal de Lavras – Lavras, MG

 

 


Palavras-chave: cão, otite externa, susceptibilidade, antimicrobianos


ABSTRACT

The occurrence of canine externa otitis in Fortaleza-Ceará is reported. About 91.5% of the animals with clinical signs were positive to bacterial culture. Among all infections, 49.5% were mixed infections and the most common pathogens were Staphylococcus spp coagulase negative or positive and Pseudomonas aeruginosa. The most effective antimicrobials for Staphylococcus coagulase negative were: the quinolones, the aminoglicoside netilmycin and the b-lactams, excepted ampicillin, penicillin and oxacilin; for Staphylococcus coagulase positive were: cefotoxin, amoxicillin + clavulanic acid, imipenem, netilmycin and cephatoxin; for Pseudomonas aeruginosa were: ciprofloxacin, tobramycin and imipenem.

Keywords: dog, otitis externa, susceptibility, antimicrobials


 

 

Otites representam de 8 a 15% dos casos atendidos na prática clínica veterinária no Brasil (Leite, 2000), e a otite externa crônica (OEC) corresponde a até 76,7% dos casos de otopatias em cães (Farias, 2002).

Em cerca de 30% dos casos de otite, isolou-se mais de um microrganismo (Muller et al., 1985). Vários estudos enfocaram o isolamento de microrganismos a partir de meato acústico de cães sadios (Junco e Barrasa, 2002) e otopatas (Nobre et al., 2001). Sabe-se que a microbiota normal do conduto auditivo externo canino, constituída por Staphylococcus sp, Bacillus sp e Malassezia pachydermatis, altera-se em otopatas (August, 1993). No cão otopata, o Staphylococcus intermedius é uma das principais bactérias isoladas (Cole et al., 1998; Lilenbaum et al., 2000).

Várias espécies de enterobactérias foram isoladas a partir de amostras de exsudato ótico de animais otopatas, com variados padrões de resistência a antimicrobianos (Nobre et al., 2001). Dentre os bacilos Gram-negativos não fermentadores, as diferentes espécies de Pseudomonas são as mais freqüentemente isoladas na OEC (Nobre et al., 2001; Ginel et al., 2002), destacando-se a espécie Pseudomonas aeruginosa. Os perfis de isolamento e sensibilidade a antimicrobianos dos agentes bacterianos associados com OE canina mostram modificações sazonais e regionais. No Brasil, os dados disponíveis são oriundos da região Sudeste (Silva, 2001) e Sul (Nobre et al., 2001).

Considerando a escassez de dados referentes à OE canina na região Nordeste do País, realizou-se este estudo sobre as espécies e sua susceptibilidade a antimicrobianos de bactérias isoladas de exsudato ótico de animais otopatas na cidade de Fortaleza, Ceará.

Entre janeiro de 2000 a julho de 2003, foram recebidas, em um laboratório privado de referência na cidade, amostras de exsudato ótico1 de 305 cães, de diversas raças e idades, com sintomatologia de otite externa. As amostras foram colhidas do meato acústico afetado com auxílio de duas zaragatoas estéreis, uma para cultura e antibiograma e outra para confecção de esfregaços. Os esfregaços foram corados pelos métodos de Gram e Giemsa. As culturas foram feitas em caldo cérebro-coração, ágar sangue, ágar MacConkey e ágar manitol e incubadas por 24-48h a 37°C. As bactérias foram identificadas (Tab. 1) segundo Murray et al. (2000). A identificação de bacilos Gram-negativo foi feita com auxílio do sistema Bactray®.2

 

 

Para realização dos testes de sensibilidade, utilizou-se o método de referência de difusão em ágar (Performance..., 1997). e os antibióticos testados são apresentados na Tab. 2. Do total de 305 amostras, 279 (91,5%) foram positivas para cultura bacteriana.

 

 

Entre as 35 raças de cães estudadas, as mais freqüentes foram: Poodle (33,3%), Cocker Spaniel Inglês (14,7%) e Pastor Alemão (12,9%). Leite (2000) e Nobre et al. (2001) já haviam citado resultados semelhantes. A faixa etária mais acometida foi a de até quatro anos (48,4%), e não houve influência do sexo sobre a incidência de OE, semelhante ao estudo de Leite (2000).

A ocorrência de infecção polimicrobiana foi observada em 49,5% dos casos, semelhante aos resultados descritos por Breitweiser (1997). Staphylococcus coagulase-positiva (SCP) foi o agente isolado com maior freqüência (P<0,001), e não houve diferença quanto à freqüência entre infecções mono e polimicrobiana (P=0,55). O segundo agente mais isolado foi Pseudomonas aeruginosa, mais freqüente em infecções poli que monomicrobianas (P<0,001). Staphylococcus coagulase-negativa (SCN) foi o agente isolado com menor freqüência (P<0,001), sendo observado predominantemente em infecções polimicrobianas (P=0,08). Estes resultados assemelham-se aos descritos por Nobre et al. (2001) e Silva (2001) no Brasil ou em outros países (Kiss et al., 1997).

No antibiograma, os melhores resultados para SCN foram os que utilizaram quinolonas, netilmicina (dentre os aminoglicosídeos) e beta-lactâmicos (com exceção de ampicilina, penicilina e oxacilina), contudo não houve diferença quanto à susceptibilidade entre eles (P>0,29). Para SCP, os melhores resultados foram obtidos com cefoxitina, amoxicilina-ácido clavulânico, imipenem, netilmicina e cefotaxima. Os resultados de susceptibilidade foram semelhantes a outros citados na literatura para penicilina G (Silva, 2001), ampicilina (Lilenbaum et al., 2000), amoxicilina-ácido clavulânico/ imipenem/ quinolonas (Junco e Barrasa, 2002) e cefalosporinas (Guedeja-Marrom et al., 1998). Neste trabalho observaram-se, ainda, 33,3% de Staphylococcus (SCP e SCN) resistentes à oxacilina.

A transmissão zoonótica de cepas de Staphylococcus de animais de estimação para o homem já foi descrita na literatura (Tanner et al., 2000; Kikuchi et al., 2004). Considerando-se a ocorrência de cepas de Staphylococcus resistentes à oxacilina na medicina veterinária, e sabendo-se que ela é a droga de escolha no tratamento de infecções estafilocócicas graves no homem, a possibilidade de transmissão zoonótica de cepas de Staphylococcus resistente à oxacilina indica a necessidade de monitorar os perfis de isolamento e susceptibilidade aos antimicrobianos na prática veterinária. Pseudomonas aeruginosa foi resistente à maioria dos antibióticos testados. O melhor resultado foi obtido com ciprofloxacina (P<0,10), seguido de tobramicina e imipenem. Não houve diferença entre eles (P=0,36), mas os resultados foram melhores em relação aos demais antibióticos (P<0,05).

Em medicina veterinária, os aminoglicosídeos e as quinolonas têm mostrado boa efetividade contra cepas de Pseudomonas aeruginosa isoladas de OE canina, sendo apontadas como fármacos de eleição (Farias, 2002). Dados semelhantes foram obtidos por Barrasa et al. (2000). Quanto às quinolonas, os resultados diferiram dos observados em relação à ciprofloxacina e à enrofloxacina por Barrasa et al. (2000). Esses autores mostraram susceptibilidade às quinolonas de 78,9%.

A OE canina é uma enfermidade relevante na prática veterinária; desse modo, reveste-se de grande importância o conhecimento do(s) agente(s) associado(s) e seus perfis de susceptibilidade, no intuito de se estabelecer um tratamento direcionado e eficaz e prevenir a disseminação de bactérias multirresistentes.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em 11 de dezembro de 2003
Recebido para publicação, após modificações, em 8 de julho de 2004

 

 

* Endereço para correspondência (mailing address)
Rua Joaquim Torres, 941 - Joaquim Távora
60135-130 – Fortaleza, CE
E-mail: lisveterinaria@yahoo.com.br
1 Laboratório de Análises Clínicas Veterinárias – Fortaleza/Ceará – cmyrta@baydenet.com.br
2 Bactray®, DIFCO Ltda.

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