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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

versão impressa ISSN 0102-0935versão On-line ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. v.59 n.5 Belo Horizonte out. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-09352007000500017 

MEDICINA VETERINÁRIA

 

Comparação entre a colopexia laparoscópica com pericárdio bovino conservado em glicerina em cães com a técnica incisional por celiotomia

 

Comparative study between laparoscopic colopexy with bovine pericardium preserved in glycerol and incisional approach by celiotomy in dogs

 

 

M.V. BrunI; L.D. GuimarãesI; H.H.A. BarcellosI; R.A. PereiraI; N. Guizzo JúniorII

IFaculdade de Agronomia e Medicina Veterinária - UPF – Passo Fundo, RS
IIHospital Veterinário - FAMV-UPF – Passo Fundo, RS

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Procurou-se verificar a viabilidade da colopexia laparoscópica com o emprego de pericárdio bovino conservado em glicerina e testar seus resultados em relação ao procedimento incisional por celiotomia em 20 cães, separados em dois grupos com igual número de animais. A técnica laparoscópica envolveu a realização de duas incisões paralelas no músculo transverso abdominal, sob o qual foi posicionado um retalho da membrana conservada, que envolveu completamente o cólon descendente. Com a aplicação de dois clipes que uniram as bordas do pericárdio e com a sua fixação às camadas serosa e muscular do cólon, promoveu-se a aproximação do órgão à parede abdominal. Vinte e oito dias após, por ocasião do exame laparoscópico, verificou-se que todos os pacientes do grupo da celiotomia mantiveram a aderência do cólon, situação que não foi observada nos animais submetidos à cirurgia laparoscópica. Conclui-se que a técnica proposta não possibilita colopexia permanente, sendo contra-indicada para cães.

Palavras-chave: cão, colopexia, colopexia por laparoscopia, colopexia convencional


ABSTRACT

The laparoscopic colopexy with bovine pericardium preserved in glycerol was compared to incisional approach by celiotomy. Twenty mongrel dogs were used after being separated in two groups. In the laparoscopic surgery, two incisions were made on the transverse abdominal muscles, and the implant was positioned through the muscle flap, involving the bowel. Finally, the extremities of the mesh were clipped. Twenty-eight days after this surgery, the experimental animals were submitted to a new laparoscopic surgery, now aiming at observing the results of both techniques. All patients of the celiotomy group maintained the colopexy. However, none of the animals submitted to the laparoscopic surgery maintained the bowel fixation. The proposed technique is not indicated to promote colopexy in dogs.

Keywords: dog, colopexy, laparoscopic colopexy, open colopexy


 

 

INTRODUÇÃO

A colopexia é procedimento rotineiramente realizado em caninos no tratamento de prolapsos retais recidivantes, não responsivos à redução manual da massa protusa associada à aplicação de sutura em bolsa de tabaco (Matthiesen e Maretta, 1993). Também demonstra importância como cirurgia auxiliar em animais com hérnia perineal (Popovitch et al., 1994). A viabilidade desse procedimento pelo acesso laparoscópico ou convencional auxiliado por laparoscopia tem sido demonstrada em diferentes estudos (Freeman, 1998; Brun et al., 2004b,d; Brun et al., 2007).

Dentre as técnicas de acesso mínimo, destaca-se a incisional laparoscópica devida à formação de aderências permanentes entre o cólon e a parede muscular, de resistências e características histológicas semelhantes às obtidas com o procedimento incisional por celiotomia (Brun et al., 2004e,f), amplamente testado e rotineiramente utilizado na medicina de pequenos animais (Popovitch et al., 1994; Fossum et al., 2002a).

Cabe ressaltar que a colopexia incisional laparoscópica tem sido efetiva em casos clínicos, sem a ocorrência de recidivas dos prolapsos (Brun et al., 2004b). Contudo, tal operação é tecnicamente difícil pela necessidade de aplicação de suturas intracorpóreas, demandando tempo superior à cirurgia similar por celiotomia (Brun et al., 2004e).

Outro método laparoscópico foi testado com o intuito de minimizar as dificuldades técnicas e o tempo operatório, baseando-se na aplicação de suturas transparietais com diferentes materiais apoiados sobre a derme (Brun et al., 2004d). Apesar da obtenção de aderência rápida e efetiva, as lesões cutâneas e as nos planos teciduais mais profundos, que ocorreram em todos os casos, acabaram por inviabilizar sua indicação. O presente trabalho teve os objetivos de testar uma nova técnica para colopexia laparoscópica em cães a partir do uso de retalho de pericárdio bovino conservado em glicerina e comparar seus resultados com os obtidos a partir da cirurgia incisional por celiotomia.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram utilizadas 20 cadelas sem raça definida, adultas e hígidas, separadas aleatoriamente em dois grupos (GI e GII) com igual número de animais. Os pacientes pesaram, em média, 12,77±3,56kg e 9,51±3,27kg, respectivamente. Nos animais do GI foi realizada a colopexia laparoscópica com retalho de pericárdio bovino conservado em glicerina, enquanto que nos do GII, promoveu-se a fixação do cólon a partir da técnica incisional por celiotomia. Foram utilizados dois pericárdios de diferentes bovinos adultos hígidos, obtidos em abatedouro e coletados sem os cuidados assépticos, sendo submetidos à lavagem em água corrente. Após a remoção dos tecidos adjacentes, as membranas foram imersas em glicerina PA1, meio no qual permaneceram pelo período mínimo de 30 dias antes de serem implantadas.

Previamente aos procedimentos cirúrgicos, os pacientes foram submetidos a jejum sólido de 12 horas e hídrico de duas horas. Receberam como medicação pré-anestésica maleato de acetilpromazina2 (0,1mg.kg-1, IM) associado, na mesma seringa hipodérmica, com sulfato de morfina3 (0,5mg.kg-1, IM). Após a remoção do pelo do abdome com máquina de tosquia4, realizou-se a venopunção com a indução anestésica a partir da aplicação de tiopental sódico3 (10mg.kg-1, IV). Manteve-se a anestesia com a vaporização ao efeito de halotano3 em O2, em circuito semifechado. Nos animais do GI foi realizada incisão pré-umbilical na linha média ventral, de aproximadamente 1,2cm. O tecido subcutâneo foi apreendido bilateralmente em relação à linha alba com duas pinças Halsted, manobra que permitiu a incisão dessa última estrutura. Uma vez obtido o acesso à cavidade peritoneal, promoveu-se a introdução, sob visibilização direta, de uma cânula de 10mm5 acoplada ao trocarte de tamanho compatível e com extremidade retrátil6. A cavidade foi insuflada com CO2 até alcançar a pressão de 12mmHg. A partir desse portal de acesso, introduziu-se endoscópio rígido de 00 e 10mm7, associado à fonte de luz halógena8 e microcâmera9. Outra cânula, de mesma dimensão, foi posicionada na parede abdominal direita com acompanhamento endoscópico, localizada caudalmente à primeira, e em ângulo aproximado de 600 em relação a essa. O terceiro portal, de 5mm10, foi introduzido em posição contralateral em relação ao segundo. Na seqüência, o cólon descendente foi apreendido com pinça Babcock11, e tracionado cranialmente para a escolha do sítio de fixação. Promoveu-se pequena dissecação do mesocólon com pinça Maryland12, entre a superfície mesentérica do intestino e os ramos da artéria cólica esquerda. O músculo transverso abdominal esquerdo foi incisado no sentido transversal às suas fibras com tesoura de Metzenbaum13, na extensão de dois centímetros. Outra incisão semelhante foi realizada paralelamente à primeira, porém em porção mais ventral em relação ao paciente. Por dissecação romba, promoveu-se a comunicação entre as feridas musculares. Na seqüência, um retalho de pericárdio bovino de aproximadamente 12x1,5cm foi colocado no abdome por meio de redutor14, e passado através da ferida do mesocólon e sob o flap bipediculado do músculo transverso. As extremidades do implante foram mantidas aproximadas com pinça de apreensão15, posicionada no terceiro portal, manobra que permitiu o contato entre a serosa do cólon e o peritônio. O intestino foi mantido no local desejado com a aplicação de dois clipes de titânio16 (Brun et al., 2007) unindo as extremidades da membrana, associada à realização de uma sutura interrompida simples intracorpórea com poliglactina 910 3-017, abrangendo o pericárdio e as camadas serosa e muscular do cólon. A cavidade foi parcialmente desinsuflada até alcançar a pressão de 5mmHg. Na ausência de hemorragia, as cânulas foram removidas e o CO2 residual drenado. As feridas de acesso maiores foram ocluídas em dois planos com náilon monofilamentar 3-017, o primeiro em padrão de Sultan incluindo as fáscias musculares e o tecido subcutâneo, e o segundo em ponto interrompido simples, abrangendo a pele.

Nos animais do GII foi realizada incisão de pele e tecido subcutâneo na linha média ventral, na região pré-púbica, de aproximadamente 10cm. Realizou-se punção da linha alba com bisturi e extensão do acesso muscular com tesoura de Metzenbaum reta. Avaliou-se a presença de aderências intra-abdominais a partir da introdução do endoscópio através da ferida operatória, mantendo-se a parede muscular tracionada com o auxílio de dois afastadores de Farabeuf. Na seqüência, o colón descendente foi tracionado e recebeu a aplicação de duas suturas de arrimo em sua superfície antimesentérica. Procedeu-se então a uma incisão no ponto médio entre os pontos de fixação, de dois centímetros de comprimento, abrangendo as camadas serosa e muscular. Incisão semelhante foi promovida no músculo transverso abdominal esquerdo. As bordas mediais e laterais da ferida muscular foram aposicionadas, em padrão interrompido simples, com as margens correspondentes da lesão promovida no cólon. A parede abdominal foi ocluída com náilon monofilamentar 2-0 em padrão contínuo simples, aplicado no folheto externo do músculo reto abdominal. O tecido subcutâneo foi aproximado de forma semelhante e com fio de mesma natureza, tamanho 3-0, enquanto a pele foi suturada em padrão interrompido simples. No pós-operatório foi administrado ketoprofeno18 (2mg.kg-1, SC, SID, por três dias) e realizada a higiene diária das feridas com solução de NaCl 0,9% (TID, por sete dias) até a remoção da sutura.

Ao final de 28 dias, todos os pacientes foram novamente anestesiados e submetidos à laparoscopia para a avaliação da cavidade e verificação da manutenção da colopexia. Para tanto, foram empregados três portais dispostos conforme descrito para o GI. Coletou-se amostra tecidual da região de interface entre o intestino e a parede muscular naqueles pacientes que mantiveram a fixação. Nos demais, coletou-se apenas o remanescente do implante conservado e os tecidos a este aderidos. Os materiais foram avaliados quanto à presença de tecido conjuntivo frouxo, denso, neovascularização, e células mononucleares e polimorfonucleares. Os resultados foram quantificados de zero a 3+ cruzes, de tal forma que zero correspondeu à ausência, enquanto 1+, 2+ e 3+ corresponderam à pequena, moderada ou grande quantidade do parâmetro avaliado. As técnicas foram comparadas entre si quanto à ocorrência de complicações trans e pós-operatórias, dificuldade de execução, manutenção da colopexia, formação de aderências intracavitárias e tempo cirúrgico. Esse último parâmetro foi avaliado pelo teste t, considerando-se as diferenças significativas quando P<0,05.

 

RESULTADOS

As cirurgias foram realizadas em 37,00±3,25min e 34,11±7,87min em GI e GII, respectivamente, não havendo diferença significativa entre as técnicas (P=0,36). Ocorreu um caso de hemorragia discreta no trans-operatório em cada grupo, sendo no GI oriunda de vaso do mesocólon, e no GII originária da ferida produzida no músculo transverso abdominal. No primeiro caso, a hemostasia foi espontânea e, no segundo, foi manejada a partir de compressão direta com gaze. No período pós-operatório de 28 dias a única alteração observada foi a deiscência de sutura no portal lateral de 10mm em um dos animais do GI, sendo essa ferida responsiva à higiene diária com solução anti-séptica a base de PVP-I aquoso. As laparoscopias pós-operatórias foram realizadas em 25,13±4,52min e 28,20±7,38min no GI e GII, respectivamente. Durante esses procedimentos, foram constatadas duas complicações leves, uma em cada grupo. No GII ocorreu lesão esplênica ocasionada pela introdução do primeiro trocarte, que respondeu apropriadamente à compressão com turunda de gaze, tornando necessária uma modificação na forma de introdução do portal, conforme posterior discussão (Fig. 1). No GII, verificou-se a formação de enfisema subcutâneo, com posterior regressão espontânea.

 

 

Em nenhum dos pacientes do GI foi mantido o cólon aderido à parede muscular, enquanto no GII em todos os cães havia tal condição. Em oito cães do GI foi possível localizar o implante de pericárdio; em dois animais o implante encontrava-se aderido à superfície antimesentérica do cólon e ao ligamento largo, e em outros dois, às superfícies mesentérica e antimesentérica. Noutros quatro cães a membrana estava fixada a diferentes estruturas, a citar: no omento e parede mesentérica; na parede muscular e superfície antimesentérica; na bexiga e superfície lateral do cólon; e no corpo do útero. Outro achado importante em um animal do GI foi a manutenção da lacuna produzida no mesocólon. Observaram-se também aderências do omento, ligamento largo e mediano da bexiga na região da colopexia ou em outros locais do abdome em 17 dos 20 pacientes (85%). No GII, em nove cães observaram-se aderências do omento na linha média ventral, e apenas em três do GI houve essa condição. Nesse último grupo, tal tecido esteve fixado à região de introdução do primeiro trocarte, às paredes musculares direita e esquerda, à bexiga e ao baço, enquanto no GII o omento também esteve aderido ao sítio de colopexia, ao corno uterino esquerdo e ao mesométrio. Verificou-se, ainda, fixação do mesométrio ao cólon e à parede muscular esquerda (GI), bem como ao sítio de colopexia (GII). O ligamento mediano da bexiga esteve fixo à colopexia em um único animal (GII). Nenhuma das condições supracitadas esteve associada a alterações clínicas durante o período de avaliação. A Tab. 1 demonstra a distribuição das aderências de acordo com os grupos.

 

 

Nos animais do GI, todas as observações histológicas foram firmadas a partir dos oito representantes nos quais foi possível localizar e coletar a membrana. Todos demonstravam alguma presença de material conservado com características de pericárdio, e a ocorrência de tecido conjuntivo denso (três cães) ou frouxo (cinco pacientes). Em três cadelas verificou-se pequena a acentuada neovascularização, e na maioria das situações foi constatada a ocorrência de células mononucleares (seis cães). Em três animais constatou-se a permanência de células polimorfonucleares, em dois deles notou-se também a presença de células mononucleares. Quanto às avaliações histológicas no GII, em dois pacientes não foi constatada a presença de tecido conjuntivo ou de qualquer uma das características estudadas, sendo apenas observado tecido muscular sem alterações. Dessa forma, esses animais foram excluídos das análises microscópicas. Em cinco dos oito cães restantes foi verificada a ocorrência de tecido conjuntivo denso. A neovascularização já havia regredido em seis desses pacientes, e em seis deu-se a ocorrência de células mononucleares. Em dois animais verificou-se a ocorrência de polimorfonucleares. As características histológicas constatadas em ambos os grupos encontram-se na Tab. 1.

 

DISCUSSÃO

A proposta do desenvolvimento de uma nova técnica para a realização de colopexia laparoscópica se baseou na importância que essa doença apresenta em cães (Matthiesen e Maretta, 1993; Popovitch et al., 1994) e no fato de que os poucos procedimentos de invasão mínima disponíveis para esse fim são relatados quase que exclusivamente em animais experimentais (Brun et al., 2004d,f; Brune t al., 2007). A descrição desse acesso em animais doentes tem envolvido o emprego da técnica incisional (Brun et al., 2004b), baseada nos princípios da operação similar por celiotomia (Matthiesen e Maretta, 1993; Popovitch et al., 1994), que está associada a dificuldades técnicas e a tempo operatório mais elevado que a técnica aberta de mesma natureza, sendo ambas as condições atribuídas à necessidade de sutura intracorpórea (Brun et al., 2004e). Dessa forma, idealizou-se a possibilidade de testar a membrana conservada em glicerina que, ao envolver o colón e a parede muscular, poderia formar uma aderência permanente entre esses tecidos, uma vez que esse material ao ser implantado em diferentes estruturas em cães acabou sendo substituído por tecido conjuntivo fibroso sem a ocorrência de rejeição ou eliminação (Razzani et al., 1990; Lavalle et al., 1998). A escolha do pericárdio bovino baseou-se nos excelentes resultados obtidos após a implantação nessa espécie, conforme as duas últimas citações. Proposta semelhante havia sido previamente testada pelos autores deste estudo em três cães, mas que envolvia a implantação de pericárdio homólogo conservado em solução hipersaturada de sal a 75% (Brun et al., 2004a). Naquela ocasião, nenhum dos pacientes manteve a fixação do cólon, condição que poderia estar associada ao meio conservante, que atualmente encontra-se em fase de experimentação quanto à sua viabilidade (Brun et al., 2004c).

Conforme o esperado, a técnica laparoscópica proposta possibilitou o posicionamento do cólon junto à parede muscular esquerda sem maiores dificuldades técnicas, e em tempo cirúrgico semelhante ao obtido pelo acesso abdominal ventral. Em nenhum dos pacientes do GI, contudo, a fixação foi mantida no pós-operatório, condição inversa à observada no GII. A permanência da fixação intestinal nesse último grupo advoga quanto à efetividade do procedimento incisional em caninos, situação relatada em diferentes livros técnicos e demonstrada em experimentos que envolvem os acessos aberto e laparoscópico (Matthiesen e Maretta, 1993; Brun et al., 2004e,f). A ineficácia da cirurgia proposta no GI não foi atribuída à escolha da membrana ou do meio de conservação, uma vez que foi possível localizar diretamente os implantes em oito dos 10 animais do GI, e que nos exames clínicos e nas análises histológicas deles não foram constatadas as ocorrências de reações do tipo rejeição ou eliminação, o que poderia justificar a incapacidade de manutenção da aderência. Também se acredita que tal falha não seja atribuída aos métodos de fixação da membrana, quer seja pela aplicação dos dois clipes unindo as extremidades do implante na superfície antimesentérica do cólon, quer seja pela sutura intracorpórea junto a parede do órgão, uma vez que o implante esteve aderido em uma ou mais regiões do intestino grosso em seis dos 10 animais. A hipótese paira quanto à degradação da membrana conservada na região que compreendia a ferida no músculo transverso, já que o pericárdio manteve-se nesse local em apenas um dos 10 pacientes. Acredita-se que os movimentos peristálticos pós-operatórios possam ter influenciado no processo de degradação do implante a partir da manutenção de um contato mais direto entre a borda da membrana e a parede muscular.

Nas avaliações laparoscópicas também se verificou a ocorrência de enfisema subcutâneo transoperatório em um animal, complicação leve que tem sido relatada em caninos (Hardie et al., 1996), e que não demonstra importância clínica, já que a regressão espontânea dessa condição tende a ocorrer durante os primeiros dias pós-operatórios (Gomella et al., 1994). Pode-se atribuir essa condição à delgada espessura da parede muscular dos cães, principalmente os de menor porte. Talvez a utilização de cânulas rosqueadas tivesse podido minimizar tal complicação.

Em todos os animais do GI a insuflação do abdome foi obtida a partir da técnica aberta, com visibilização direta da cavidade peritoneal. Sabe-se que essa técnica está associada a menores riscos de complicações quando comparada à introdução às cegas da agulha de Veress (Cohen et al., 1997). Conforme observado, contudo, em um dos 30 procedimentos laparoscópicos executados nesse experimento (3,3%), mesmo na realização desse acesso podem ocorrer complicações hemorrágicas, ainda que menores como a punção de baço observada. Cabe salientar que o trocarte utilizado neste trabalho possui extremidade retrátil, condição que não impossibilita a ocorrência de laceração esplênica, haja vista a pequena resistência da cápsula do órgão que é constituída de fibras musculares e elásticas (Fossum, 2002b). Essa complicação tem sido citada em diferentes relatos em cães (Hardie et al., 1996; Pope e Jones, 1999), e, como no presente caso, sem importância clínica. Após a verificação da hemorragia supracitada, a fim de minimizar esse risco, os autores têm realizado rotineiramente uma manobra específica. Trata-se da compressão da parede abdominal ventral sob a extremidade retrátil desarmada do trocarte, após esta ter alcançado a cavidade. Dessa forma, o conjunto trocarte-cânula é introduzido sob a linha média ventral e sobre parte das paredes abdominais laterais direita e esquerda (que são mantidas em contato pela compressão externa, a partir do dedo polegar posicionado de um lado do abdome e os demais dedos do outro), mantendo-se o baço e as alças intestinais afastadas sob a mão do cirurgião (Fig. 1).

Verificou-se grande ocorrência de fixação do omento em diferentes estruturas em ambos os grupos. Nos cães do GII, as fixações observadas junto à ferida de acesso podem ser atribuídas à exposição do tecido lesado e ao ressecamento das superfícies mesoteliais (Henderson, 1982; Crowe e Bjorling, 1993). Quanto à permanência do omento junto à colopexia, essa condição tem sido evidenciada em animais submetidos a procedimentos laparoscópicos e convencionais, e deve ser encarada como vantajosa, haja vista as vantagens da presença de uma estrutura dessa natureza quanto à proteção da ferida e a cicatrização (Thornton e Barbul, 1997). Diferentes autores têm demonstrado que a cirurgia laparoscópica pode estar associada à menor ocorrência de aderências quando comparada ao acesso convencional por celiotomia (Sekiba et al., 1992). No presente estudo, contudo, verificou-se freqüente ocorrência de fixação do omento em diferentes estruturas e regiões da parede abdominal nos representantes do GI. Tal condição provavelmente esteve associada à presença do implante que, apesar de não ocasionar reação de rejeição, é considerado como um corpo estranho. Por fim, o mesométrio esteve aderido em cinco dos 20 pacientes (25%), condição atribuída à proximidade dessa estrutura do cólon descendente.

Uma constatação pós-operatória interessante, ocorrida em um animal do GI, correspondeu à manutenção da ferida produzida no mesocólon. Apesar de tal lesão apresentar diminutas dimensões, e de não estar associada a quaisquer outras alterações clínicas ou estruturais, deve ser considerada como aspecto negativo relacionado ao procedimento proposto, pelo potencial risco de herniações de estruturas intra-abdominais. Para evitar essa situação, dever-se-ia promover a dissecação do mesocólon em dimensão suficiente para transpassar o implante de tal forma que este permanecesse completamente ajustado ao orifício produzido.

Constatou-se a presença de implante em todos os pacientes submetidos as biópsias devido ao tempo de avaliação, uma vez que esse tipo de membrana pode permanecer por períodos tão longos quanto 60 dias (Razani et al., 1990). A deposição de tecido conjuntivo nos oito animais é similar às constatações de outros estudos, nos quais se verificou que os materiais biológicos conservados nesse tipo de meio acabam sendo gradativamente substituídos por tecido conjuntivo (Razzani et al., 1990; Lavalle et al., 1998; Brun et al., 2004g). A regressão da vascularização local já era esperada aos 28 dias, pois essa condição foi semelhantemente verificada em estudo prévio com centro frênico conservado em glicerina (Brun et al., 2004g), e que naturalmente ocorre nas fases mais adiantadas do processo de reparação (Fossum, 2002c). A permanência de células-defesa em todos os pacientes é explicada pela manutenção da membrana. Naqueles dois cães do GII em que não se constatou a presença de tecido conjuntivo, acredita-se que a profundidade do material coletado foi insuficiente, uma vez que espaço mantido entre o cólon e a parede muscular é preenchido por tecido conjuntivo, conforme verificado em cirurgias dessa natureza no estômago ou no intestino grosso (Hardie et al., 1996; Brun et al., 2004e,f). Nos outros oito caninos desse grupo, a presença de tecido denso dessa natureza advoga quanto à apropriada formação de aderência permanente, previamente verificada em diferentes estudos (Brun et al., 2004d,e,f). Assim como no GI, a ausência da neovascularização na maioria dos cães já era esperada devido ao tempo de avaliação, que num processo normal de reparo tecidual, corresponde à fase de maturação (Fossum, 2002c). Já a presença de células mononucleares pode ser atribuída à manutenção do fio de sutura (Brun et al., 2004f), que nesse período ainda se encontraria em processo de absorção (Fossum, 2002a).

 

CONCLUSÕES

Conclui-se que a técnica proposta de colopexia com pericárdio bovino conservado em glicerina é inadequada para cães, por não permitir a manutenção da aderência do intestino grosso no pós-operatório. O emprego, contudo, dos princípios desse procedimento associado à utilização de outros materiais prostéticos poderá demonstrar condições favoráveis no que se refere à manutenção da fixação do cólon.

 

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem a Henrique Rolla Gonçalves, Guilherme Thomazzi, Michele Westephal de Ataíde, Bruno Maciel, Wagner Rugeri, Júlio David Spagnolo, Janiele Cansi, Bruna Sgorla e Pietro Paolo Zílio pela colaboração com este trabalho.

 

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Endereço para correspondência (corresponding address)
Rua Uruguai, 154, ap. 22
99010-110 – Passo Fundo, RS
E-mail: mbrun@upf.br

Recebido em 21 de dezembro de 2005
Aceito em 3 de setembro de 2007
Projeto financiado pela FAPERGS (ARD – 04/0044.1)

 

 

1 Vetec Química Fina - Duque de Caxias, Brasil.
2 Univet – São Paulo, Brasil.
3 Cristália - Itapira, Brasil.
4 Oster Golden A5 - Mc Minnville, EUA.
5 Trocarte 10mm 141201, Edlo - Canoas, Brasil.
6 Trocarte com ponta piramidal, 141202 Edlo - Canoas, Brasil.
7 Hoopkins 10mm 00, H. Strattner - Rio de Janeiro, Brasil.
8 Fonte de luz fria halógena, H. Strattner - Rio de Janeiro, Brasil.
9 Toshiba CCD - China.
10 Trocarte 5mm 141208, Edlo - Canoas, Brasil.
11 Pinça Babcock, Ethicon - São José dos Campos – Brasil.
12 Pinça Maryland 141476, Edlo - Canoas, Brasil.
13 Tesoura de Metzenbaum 141439, Edlo - Canoas, Brasil.
14 Redutor tipo diafragma 141060 Edlo - Canoas, Brasil.
15 Pinça de apreensão 140976, Edlo - Canoas, Brasil
16 Atrauclip, Weck Closure Systems - Inglaterra.
17 Ethicon - São José dos Campos - Brasil.
18 Ketofen 10%, Merial Saúde Animal – Paulínia, Brasil.

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