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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.59 no.6 Belo Horizonte Dec. 2007

https://doi.org/10.1590/S0102-09352007000600040 

COMUNICAÇÃO COMMUNICATION

 

Perfil sanitário e zootécnico de rebanhos caprinos nas microrregiões do Cariri paraibano

 

Sanitary profile of goat flocks in Cariri micro regions, Paraiba State, Brazil

 

 

D.A. BandeiraI, ; R.S. CastroII; E.O. AzevedoIII; L.S.S. MeloIV; C.B. MeloIV, *

IEmpresa de Pesquisa Agropecuária da Paraíba João Pessoa, PB
IIDepartamento de Veterinária - UFRPE Recife, PE
IIIDepartamento de Veterinária - UFCG Patos, PB
IVFaculdade de Agronomia e Medicina Veterinária - UnB Campus Darcy Ribeiro, Asa Norte - ICC Sul 70910-970 – Brasília, DF

 

 


Palavras-chave: caprino, perfil sanitário, doença


ABSTRACT

This work was performed in 60 goat farms located in 15 counties of the micro regions of Western and Eastern Cariri, in Paraiba, to describe and analyze the sanitary profile of the flocks. Visits were done and the answers, obtained from questionnaires that were applied to the farmers, were used. It was observed a mortality of 20% in young animals in 80% of the farms. The presence of technical assistance in 93.3% in the studied farms, adoption of prophylactic calendar in 85% and parasitic control in 83.3% of the flocks were also observed.

Keywords: goat, sanitary profile, disease


 

 

A caprinocultura leiteira sempre se apresentou, para a Paraíba e em especial para as microrregiões do Cariri, como uma atividade promissora. Contudo, a ocorrência de enfermidades, o baixo preço de venda e a má qualidade dos produtos oferecidos, além de grande exigência do mercado comprador, têm contribuído para o estrangulamento da atividade (Rodrigues e Quintans, 2003).

Considerando-se a queda na produção de leite, a perda de credibilidade do estabelecimento, as mortes de animais de alto valor zootécnico e os custos com assistência técnica, pode-se avaliar o impacto sobre a economia local, sobretudo nas situações em que a venda do leite representa a única fonte de renda familiar. Mais ainda, a agricultura familiar é a mais prejudicada (Azevedo et al., 2006).

Enfermidades como verminose, mamite, ectima contagioso, linfadenite caseosa, entre outras, têm sido observadas nessas regiões. O presente trabalho foi realizado com o objetivo de estudar o perfil sanitário e as características zootécnicas de rebanhos caprinos em fazendas nas microrregiões do Cariri, na Paraíba.

O estudo foi desenvolvido em 60 fazendas de caprinos, localizadas nas microrregiões do Cariri Ocidental e Oriental, na Mesorregião da Borborema da Paraíba, que está localizada na porção oriental da Região Nordeste. As fazendas amostradas estão localizadas nos municípios de São Sebastião do Umbuzeiro, São João do Tigre, Zabelê, Prata, Amparo, Monteiro, Prata, Sumé, Serra Branca, Cabaceiras, Boqueirão, Caturité, Taperoá, Santo André e Gurjão. Os rebanhos estudados são compostos, basicamente, por animais sem padrão racial definido para uma determinada exploração.

O tamanho da amostra foi determinado de acordo com Thrusfield (2004), com o total de 529 amostras, que resultou em 60 rebanhos usados neste estudo.

Para descrever o perfil sanitário nos rebanhos foi aplicado um questionário adaptado de Tinoco (1985). As principais características abordadas foram: relato e presença de enfermidades, infra-estrutura no que se refere à divisão de piquetes, presença de maternidade, freqüência de assistência técnica, taxa de mortalidade e práticas de ordenha.

Para a análise estatística dos resultados foi utilizado o teste de dispersão de freqüências c2 (Sampaio 1998).

As taxas de mortalidade são apresentadas na Tab. 1, sendo evidenciada uma associação significativa (P<0,01) entre faixa etária e mortalidade.

 

 

Nas fazendas, 93,3% (56/60) dos produtores recebem alguma assistência técnica, sendo 51,8% delas realizadas por médicos veterinários e 28,5% por agentes de desenvolvimento rural (ADR), que são pessoas com formação primária, mas instruídas para o trabalho com os animais, com periodicidade semanal ou quinzenal em 76,8% dos casos. Nas propriedades, predominou a assistência pública em 85,7%.

Quanto ao piso da área coberta do aprisco, predominou o não ripado em 90% (54/60) das fazendas; fora do aprisco predominou o piso de chão batido em 55% (33/60).

Em 71,7% (43/60) dos rebanhos é administrado pelo menos um tipo de vacina e, mais ainda, 17 usam-na para prevenir uma doença, 13 para duas e 13 para três doenças. A vacina contra clostridioses era utilizada em 95,3% (41/43) fazendas, a contra raiva em 65,1% (28/43) e a contra linfadenite caseosa em 30,2% (13/43).

As práticas sanitárias adotadas são apresentadas na Tab. 2. Os problemas sanitários são apresentados na Tab. 3.

Entre os entrevistados 73,3% (44/60) ordenham os animais e destes, apenas 2,3% (1/44) utilizam ordenhadeira mecânica. Quanto ao tipo de plataforma de ordenha, 54,5% possuem plataforma de madeira, e 46,5% de alvenaria; apenas 36,4% adotam linha de ordenha. Com relação à higienização de utensílios, mãos e úberes, 73,3% a realizam.

A alta mortalidade encontrada em propriedades do Nordeste, relatada por Pinheiro et al. (2001) e por Boer et al. (1986), foi a principal causa da baixa taxa de desfrute. Além disso, baixos índices produtivos observados em rebanhos nordestinos por Souza Neto et al. (1996) e Caldas (1989) resultaram de falhas de manejo, principalmente o sanitário, e foram conseqüência da falta de higiene nas instalações e falhas na aplicação de vermífugos e vacinas. Isto não foi observado neste estudo, pois os criadores informaram não ser importante os sinais relacionados à verminose, como diarréia e pneumonia. Acrescente-se que nas fazendas estudadas a maioria dos produtores adotava práticas de controle e combate à verminose, como limpeza periódica de cochos e bebedouros, realização de exames laboratoriais e vermifugação preventiva, mineralização do rebanho, uso de esterqueiras e manutenção de animais presos após a vermifugação. Isso provavelmente é reflexo do atendimento por algum tipo de assistência técnica, destacando-se a prestada pelo médico veterinário de forma quase contínua, com visitas semanais ou quinzenais. Apesar de declararem que a assistência técnica é pública, os produtores remuneram indiretamente os técnicos por meio das associações de caprinocultores locais, com um percentual pré-estabelecido da cota de leite.

As informações fornecidas por Avelino (2005) já indicavam redução nas taxas de mortalidade entre 2001 e 2004. Segundo o autor, cerca de 50,0% dos cabritos não sobreviviam aos 15 primeiros dias de vida na maioria dos criatórios e em algumas propriedades esse índice chegava a 100%. Após a implantação de programas de ações mistas (governamentais e privadas), como o programa Pacto Novo Cariri e do projeto Leite da Paraíba, houve redução na taxa de mortalidade animal, em torno de 80% nas duas primeiras semanas após o parto e de 15% em relação ao rebanho em geral.

Diferentemente do que foi relatado por Tinoco (1985), Pinheiro et al. (2001) e Silva et al. (2005) na Bahia, Ceará e Rio Grande do Norte, respectivamente, a verminose não foi apontada como doença de grande importância e, ao contrário, aborto, mamite e artrite foram consideradas como as de maior relevância, destacando-se as duas primeiras por estarem relacionadas diretamente com a produção.

Dentre as práticas sanitárias adotadas observou-se que a separação de doentes, a limpeza periódica de cochos e bebedouros, a adoção de calendário profilático e a desinfecção de currais após a vermifugação foram incorporadas como rotina na maioria dos criatórios. Entretanto, a rotação de piquetes para separação dos animais após vermifugação e o uso de maternidade não foram adotadas, muito provavelmente pela falta de organização gerencial das propriedades.

Igualmente ao descrito por Pinheiro et al. (2001), preocupante é o fato de que apenas 55,0% dos criadores estudados realizam o corte e desinfecção do umbigo. No trabalho Boer et al. (1986) essa prática foi bastante utilizada.

As campanhas de vacinação e vermifugação promovidas pelo Governo do Estado permitiram maior acesso dessas práticas, ou seja, 71,7% das propriedades passaram a adotá-las, sendo a vacinação contra clostridioses a mais freqüente, seguida das vacinações contra a raiva e linfadenite caseosa.

 

AGRADECIMENTOS

Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelo apoio financeiro. Os autores prestam homenagem póstuma ao Dr. Dimas Assis Bandeira, falecido recentemente de forma precoce.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido em 14 de agosto de 2006
Aceito em 5 de outubro de 2007

 

 

* Autor para correspondência (corresponding author)
E-mail: cristianomelo@unb.br
In memoriam

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