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Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia

Print version ISSN 0102-0935On-line version ISSN 1678-4162

Arq. Bras. Med. Vet. Zootec. vol.72 no.1 Belo Horizonte Jan./Feb. 2020  Epub Apr 03, 2020

https://doi.org/10.1590/1678-4162-10869 

Medicina Veterinária

Efeito da somatotropina bovina recombinante (rbST) na produção in vivo e na maturação in vitro de oócitos bovinos da raça Sindi

[Effect of recombinant bovine somatotropin (rbST) on the in vivo production and in vitro maturation of bovine oocytes of the Sindi breed]

1Universidade Federal do Vale do São Francisco ˗ Petrolina, PE

2Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, Embrapa Semiárido ˗ Petrolina, PE


RESUMO

A fim de avaliar o efeito de diferentes doses da rbST sobre a dinâmica folicular, a produção e a maturação in vitro de oócitos, 20 vacas Sindi, divididas em três grupos, receberam um dispositivo de progesterona intravaginal, estradiol e PGF, além de 2mL de solução salina (grupo controle), 250 (grupo rbST 250) ou 500mg de rbST (grupo rbST 500). Cinco dias depois, realizou-se a ovum pick up, e os complexos cumulus-oócitos (CCOs) recuperados foram selecionados, classificados e maturados in vitro. Os dados de contagem foram comparados pelo procedimento glht (General Linear Hypothesis Test), e os dados em porcentagem foram submetidos ao qui-quadrado, no programa estatístico R, onde as diferenças foram consideradas significativas quando P<0,05. Não houve diferença (P>0,05) entre os grupos quanto à quantidade de folículos e à taxa de maturação. Os grupos rbST 250 e rbST 500 foram significativamente superiores (P<0,05) ao grupo controle em relação ao número de folículos grandes (0,42±0,20 vs. 0). O grupo rbST 500 apresentou maior (P<0,05) porcentagem de oócitos viáveis (91,52%) do que os grupos controle (67,85%) e rbST 250 (53,33%). A rbST aumenta o número de folículos grandes, e 500mg de rbST aumentam a porcentagem de oócitos viáveis em vacas Sindi.

Palavras-chave: CCO; vaca; OPU; ovário; superestimulação

ABSTRACT

In order to evaluate the effect of different doses of rbST on the follicular dynamics, production, and in vitro maturation of oocytes, 20 Sindhi cows were divided into three groups, receiving an intravaginal progesterone device, estradiol and PGF2α, and 2mL of solution saline (Control Group), 250 (rbST 250 Group) or 500mg rbST (rbST 500 Group). Five days later, the ovum pick up was performed, and the cumulus-oocyte (CCO) complexes recovered were selected, classified, and matured in vitro. The counting data were compared by the glht (General Linear Hypothesis Test) procedure, and the percentage data were submitted to Qui- square, in the statistical program R, where differences were considered significant when P< 0.05. There was no difference (P> 0.05) between the groups regarding follicle quantity and maturation rate. The rbST 250 and rbST 500 groups were significantly higher (P< 0.05) than the Control group in relation to the number of large follicles (0.42±0.20 versus 0). The rbST 500 group presented higher (P< 0.05) percentage of viable oocytes (91.52%) than the Control (67.85%) and rbST 250 (53.33%) groups. rbST increases the number of large follicles and 500mg rbST increases the percentage of viable oocytes in Sindhi cows.

Keywords: COC; cow; OPU; ovary; superestimulation

INTRODUÇÃO

Em vacas, para iniciar a produção in vitro de embriões (PIV), faz-se necessária a coleta de oócitos, por ultrassonografia transvaginal, método denominado de ovum pick up (OPU). Porém, a significativa quantidade e a excelente qualidade de oócitos coletados são essenciais para o sucesso dessa biotécnica, o que depende também da quantidade e da qualidade de folículos ovarianos antrais produzidos. A fim de obter maior quantidade de folículos ovarianos, tem-se realizado a superestimulação ovariana por meio da aplicação de hormônios, como a somatotropina bovina recombinante (rbST), que atua aumentando os receptores para o fator de crescimento semelhante à insulina (IGF-1), acarretando o recrutamento folicular ovariano (Kozicki et al., 2005). Os tratamentos de superestimulação com rbST têm sido utilizados, frequentemente, em raças bovinas consideradas possuidoras de material genético especializado no tocante ao aumento da produtividade (Kirby et al., 1997; Buratini-Júnior et al., 2000; Ramos et al., 2007). Observa-se que o uso indiscriminado de raças especializadas em programas de PIV poderá gerar a perda de características importantes de adaptabilidade encontradas nas raças nativas, como a rusticidade e a tolerância térmica, as quais são necessárias para a obtenção de animais produtivos não só em condições ideais, mas também em regiões adversas, como o semiárido brasileiro.

A raça Sindi, apesar de ser originária do Paquistão, partilha da mesma característica das raças nativas do Brasil, ou seja, a rusticidade, apresentando grande tolerância ao calor e adaptação a ambientes adversos (Santiago, 2009). Entretanto, não há relatos sobre os efeitos da administração da rbST em doadoras de oócitos destinados à PIV da raça Sindi. Assim, o objetivo do presente trabalho foi avaliar o efeito de diferentes doses de rbST sobre a dinâmica folicular, a produção e a maturação in vitro de oócitos de bovinos da raça Sindi.

MATERIAL E MÉTODOS

O presente trabalho foi aprovado pela Comissão de Ética no Uso de Animais - Ceua/Embrapa Semiárido, sob o protocolo de número 03/2016. O tratamento hormonal, a OPU e a seleção dos oócitos foram realizados entre março e abril de 2018, na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Embrapa Semiárido, na zona rural de Petrolina, Pernambuco, localizada a 9° 23’ S de latitude e 40° 30’ O de longitude, a uma altitude de 376m e com uma temperatura anual média de 26,4ºC. A pluviosidade média anual é de 216,3mm, distribuídos no período de fevereiro a abril (Médias..., 2014). Já a maturação in vitro de oócitos foi executada no Laboratório de Fisiologia e Biotecnologia da Reprodução Animal (Lafibra), no Campus de Ciências Agrárias (CCA), na Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), localizada também em Petrolina, Pernambuco.

Foram utilizadas 20 vacas da raça Sindi, pertencentes ao Núcleo de Conservação da Raça Sindi da Embrapa Semiárido, não lactantes, com média de peso de 246,86±12,75kg, escore de condição corporal de 3,20±0,17 (numa escala de 1 a 5), idade de 4,68±0,34 anos, selecionadas após avaliação do aparelho reprodutor por ultrassonografia transretal. Os animais foram submetidos a um regime intensivo de produção, recebendo no cocho, duas vezes por dia, silagem de sorgo (Sorghum bicolor), bem como ração à base de milho (Zea mays), farelo de soja (Glycine max), feijão guandu (Cajanus cajan), sal mineral e calcário. Os animais tiveram, ainda, livre acesso à água e ao sal mineral.

Os estros das vacas foram sincronizados com a inserção intravaginal de um dispositivo liberador de progesterona (Cronipress monodose®, Biogénesis Bagó, Brasil), impregnado com 0,558g desse fármaco, o qual permaneceu na porção cranial da vagina por cinco dias. Concomitantemente à colocação do dispositivo (dia 0; D0), foi realizada a administração intramuscular da dose de 2mg de benzoato de estradiol (Ric-BE®, Tecnopec-Agener, Brasil) e de 500µg de cloprostenol (Sincrocio®, Ouro Fino, Brasil), um análogo sintético da PGF. As 20 vacas foram distribuídas aleatória e homogeneamente, em três grupos: grupo controle (n=6), no qual as fêmeas, também no D0, receberam, por via intramuscular e na fossa isquiorretal, 2 mLde solução fisiológica a 0,9% NaCl (Fisiológico 0,9%®, Equiplex, Brasil); e os grupos rbST250 (n=7) e rbST500 (n=7), os quais receberam, pela mesma via, respectivamente, uma dose de 250 e de 500mg de rbST (BST- Boostin®, MSD Saúde Animal, Brasil).

Para a avaliação da resposta folicular ovariana, no dia da retirada do dispositivo intravaginal de progesterona (dia 5; D5), os animais foram contidos, um por vez, em brete de contenção. Foi feita a higienização da vulva e do períneo, o dispositivo intravaginal foi retirado e administraram-se 3mL de lidocaína a 2%, sem vasoconstrictor (Anestésico Bravet®, Bravet, Brasil), por via epidural baixa. Para a avalição da resposta folicular, foi utilizado um aparelho de ultrassonografia (Aquila Vet®, Piemedical, Holanda), equipado com um transdutor setorial intravaginal de 5MHz, o qual foi introduzido na vagina do animal, permitindo a visualização dos ovários e dos folículos, que foram classificados, de acordo com o diâmetro, como pequenos (2 a 5mm), médios (6 a 10mm) e grandes (>10mm), segundo Chaubal et al. (2007).

Logo após a avaliação folicular, realizou-se a colheita de complexos cumulus-oócitos (CCOs) pelo método de ovum pick up, utilizando-se, para tanto, uma agulha 20G para a punção folicular (WTA, Brasil) e uma bomba de vácuo (BV-003®, WTA, Brasil), regulada com pressão de 15mL/min (De Roover et al., 2004). O líquido folicular foi recuperado em um tubo Falcon (Falcon®, Corning, Brasil) de 50mL, contendo tampão fosfato salino (PBS®, Nutricell, Brasil) e 25UI de heparina sódica (Hemofol®, Cristália, Brasil). Os oócitos foram lavados com o mesmo meio utilizado para a recuperação em filtro coletor para FIV (WTA, Brasil) e vertidos em placas de Petri de 100m (Nutricell, Brasil), analisados sob estereomicroscópio de luz fria (SMZ 645®, Nikon, Japão) e classificados em diferentes graus de qualidade (I, II, III e IV), de acordo com a presença das células do cumulus e características do ooplasma, seguindo a classificação de Gonçalves, et al. (2002). Foram destinados à maturação in vitro apenas os CCOs de graus I, II e III.

Para a maturação in vitro, os CCOs foram colocados em gotas de 90µL do meio MIV, composto por TCM-199 com sais de Earle, suplementado com 10% de soro fetal bovino, 1,0µg/mL de hormônio folículo-estimulante (Pluset®, Hertape Calier Saúde Animal S/A, Brasil), 50µg/mL de gonadotrofina coriônica humana (Vetecor®, Hertape Calier Saúde Animal S/A, Brasil), 1,0µg/mL de estradiol, 0,2mM de piruvato de sódio e 83,4µg/mL de amicacina. As gotas foram recobertas por óleo mineral, e as placas levadas à estufa de cultivo (TE-399, Tecnal, Brasil), por 24 horas, a 38,5ºC, com 5% de CO2 e 95% de umidade. Ao final do processo, os CCOs maduros foram avaliados, sob estereomicroscópio de luz fria (SMZ 645®, Nikon, Japão), quanto à ocorrência e à qualidade da maturação, sendo, para tanto, avaliadas a expansão das células do cumulus e a ocorrência de retração nuclear.

Utilizou-se delineamento em blocos ao acaso (DBC), com dois blocos referentes aos dias de coleta (as coletas foram realizadas em dois dias), três tratamentos, totalizando 20 unidades experimentais (sendo seis animais pertencentes ao grupo controle e sete animais aos grupos rbST250 e rbST500). No primeiro dia, foram submetidos à coleta quatro animais do grupo rbST250 e três animais dos demais grupos, e, no segundo dia, foram submetidos à coleta, quatro animais do grupo rbST 500 e três animais dos demais. As variáveis taxa de maturação, taxa de recuperação, porcentagem de oócitos viáveis, porcentagem de oócitos não viáveis, graus de expansão das células do cumulus e porcentagem de retração foram analisadas pela ANOVA, sendo a homogeneidade de variância avaliada pelo teste de Barlett e a normalidade avaliada pelo teste de Shapiro-Wilk. As variáveis de contagem foram avaliadas via modelos lineares generalizados (GLM), considerando a distribuição de Poisson, e estas, quando significativas, tiveram suas médias comparadas em pares, com o auxílio do procedimento glht do software estatístico R (Hothorn et al., 2008). As diferenças foram consideradas significativas quando P<0,05.

RESULTADOS

Houve uma diferença entre o primeiro e o segundo bloco, sendo o segundo superior (P<0,05) ao primeiro, quanto aos parâmetros: número de folículos visualizados (P=0,02), número de folículos aspirados (P=0,03), oócitos levados à maturação (P=0,02) e oócitos maduros (P=0,03). Não houve diferença significativa entre os grupos experimentais (P>0,05) quanto à quantidade de folículos ovarianos, bem como quanto à quantidade de oócitos recuperados. No entanto, os grupos tratados com a rbST foram superiores (P<0,05) ao grupo controle com relação ao número de folículos grandes visualizados e aspirados (Tab. 1).

Tabela 1 Efeito de diferentes doses da somatotropina bovina recombinante (rbST) sobre a produção e o tamanho (pequenos: 2 a 5mm; médios: 6 a 9mm; grandes: >9mm) de folículos ovarianos em vacas Sindi 

Parâmetros Controle (média±e.p.) rbST 250 (média±e.p.) rbST 500 (média±e.p.)
Nº total de folículos visualizados 11,33±2,09 14,28±2,20 13,14±2,52
Pequenos 9,50±2,40 11,00±1,75 10,57±2,02
Médios 1,83±0,83 2,85±0,82 2,14±0,93
Grandes 0b 0,42±0,20a 0,42±0,20a
Nº total de folículos aspirados 7,50±1,76 10,57±1,42 10,42±2,43
Pequenos 6,33±1,96 7,85±1,38 8,00±1,92
Médios 1,16±0,65 2,28±0,60 2,00±0,87
Grandes 0b 0,42±0,20a 0,42±0,20a
Nº de oócitos recuperados 4,66±1,52 6,42±1,17 8,42±2,38

a,b Valores com letras sobrescritas na mesma linha são significativamente diferentes (P<0,05).

Não houve recuperação de CCOs grau I nos animais utilizados no presente trabalho. O grupo rbST 500 foi significativamente superior (P<0,05) em relação ao número de CCOs de grau II, quando comparado aos grupos controle e rbST250. As vacas não tratadas com somatotrofina bovina recombinante (rbST) (controle) e aquelas tratadas com 250mg de rbST (rbST250) apresentaram um número significativamente maior de oócitos de grau IV (P<0,05; Fig. 1).

O grupo rbST 500 apresentou maior taxa de recuperação oocitária (P<0,05) e maior porcentagem de oócitos viáveis (P<0,05) em relação aos grupos rbST 250 e controle. A taxa de maturação oocitária foi similar (P>0,05) entre os três grupos experimentais (Tab. 2).

a,b Letras diferentes indicam diferença entre os tratamentos (P<0,05).

Figura 1 Qualidade dos complexos cumulus oócitos (CCOs) obtidos de vacas Sindi, submetidas a diferentes doses de somatotropina bovina recombinante (rbST). 

Tabela 2 Taxas de recuperação e maturação oocitária (%), bem como porcentagem de oócitos viáveis e não viáveis em vacas Sindi submetidas a diferentes doses de somatotropina bovina recombinante (rbST) 

Variáveis Controle rbST 250 rbST 500
Taxa de recuperação oocitária 62,22 (28/45) b 60,81 (45/74) b 80,82 (59/73) a
Oócitos viáveis 67,85 (19/28) b 53,33 (24/45) b 91,52 (54/59) a
Oócitos não viáveis 32,14 (9/28) ab 46,66 (21/45) a 8,47 (5/59) b
Taxa de maturação 68,75 (11/16) a 63,63 (14/22) a 62 (31/50) a

a,b Valores com letras sobrescritas na mesma linha são significativamente diferentes (P<0,05).

Os grupos experimentais apresentaram resultados semelhantes (P>0,05) com relação aos graus de expansão das células do cumulus (Fig. 2). A ocorrência de retração nuclear foi de 12,50%, 9,09% e 6% para os grupos controle, rbST 250 e rbST 500, respectivamente, não havendo, porém, diferença estatística entre eles (P>0,05).

Figura 2 Graus de expansão das células do cumulus (grau I: total; grau II: moderado; grau III: leve) de oócitos obtidos de vacas Sindi submetidas a diferentes doses de somatotropina bovina recombinante (rbST).  

DISCUSSÃO

A superioridade do segundo bloco em relação ao primeiro pode ser justificada pela variabilidade individual dos animais, mesmo que estes tenham sido distribuídos de forma homogênea entre os grupos. A administração das duas doses da rbST, 250 e 500mg, não influenciou a quantidade dos folículos ovarianos, não havendo diferença entre os grupos experimentais. Pavlock et al. (1996) também não observaram diferenças significativas entre o grupo controle (solução salina) e o grupo que recebeu 500mg de rbST no número de folículos produzidos, ao tratarem vacas Holandesas mestiças. Sá-Filho (2006) obteve um aumento na quantidade de folículos ovarianos em búfalas que receberam 500mg de rbST (12,2±0,86 folículos), ao compará-las com fêmeas que não receberam o hormônio (8,7±0,86 folículos).

Segundo Gong (2002), o aumento da população folicular ocorre em torno de três dias após a administração da rbST, como consequência do aumento dos níveis circulantes do hormônio do crescimento (GH), fator semelhante à insulina tipo I (IGF-I) e insulina. O IGF-I, juntamente com as proteínas carreadoras de IGF (IGFBP), os receptores de IGF, o GH e o receptor de GH constituem o eixo somatotrópico, que atua no desenvolvimento e na diferenciação de várias células e tecidos, possuindo, no eixo hipotalâmico-hipofisário-gonadal, no trato reprodutivo, na genitália externa e na glândula mamária, um efeito estimulatório e/ou sinérgico. Dessa forma, o GH e o IGF-I podem controlar a liberação de GnRH, de gonadotrofinas, além de controlarem o número de receptores para gonadotrofina nas células da granulosa (Radclif et al., 2004; Chandrashekar et al., 2004).

Apesar de não influenciarem o número de folículos totais, tanto visualizados quanto aspirados, os animais que receberam a rbST apresentaram um maior número de folículos grandes, quando comparados aos animais do grupo controle. Dados contrários foram relatados em búfalas (Sá-Filho, 2006), em que o grupo tratado com a rbST apresentou um maior número de folículos pequenos (9,1±0,6 folículos) do que o grupo controle (6,5±0,4 folículos), não havendo, porém, diferença entre os grupos quanto ao número de folículos médios e grandes. Corroborando os dados do presente estudo, Ramos et al. (2007) relataram um aumento no número de folículos grandes em vacas Gir, mantidas a pasto, submetidas à administração de 160mg de rbST associada a 250UI de FSH (6±3,88), em comparação aos animais tratados com solução salina (0,79±0,98). Kirby et al. (1997) obtiveram maior número de folículos pequenos e médios ao tratarem vacas Holandesas em lactação com 500mg de rbST. As diferenças encontradas nessas respostas podem ser justificadas pelas diferentes respostas das raças diante do mesmo tratamento hormonal (Buratini Júnior et al., 2000), não havendo relatos da resposta da raça Sindi à rbST. O tamanho e a qualidade dos folículos influenciam diretamente a capacidade de desenvolvimento in vitro de oócitos bovinos; ademais, oócitos obtidos de folículos pequenos, além de possuírem menor diâmetro, têm uma capacidade menor de quebra da vesícula germinativa (Fair et al., 1995). No presente estudo, não houve avaliação da competência oocitária, mas os oócitos obtidos de vacas Sindi tratadas com 500mg rbST apresentaram maior viabilidade do que os oócitos dos animais dos demais grupos experimentais.

Sá-Filho (2006) acredita que a espécie e a raça dos animais submetidos ao tratamento com rbST influenciam na resposta ovariana quanto ao número de folículos ovarianos produzidos, o que poderia justificar a ausência de diferença estatística entre os animais dos grupos experimentais do presente trabalho, visto que não há relatos sobre a utilização desse hormônio na superestimulação ovariana de vacas da raça Sindi. O desempenho reprodutivo das Sindi foi pouco estudado, e, apesar de apresentar alguns resultados animadores, estes ainda são bem variáveis (Santos, 2011).

Neste trabalho, houve maior porcentagem de oócitos de grau II (88,13%) e, consequentemente, de oócitos viáveis (91,52%) no grupo rbST 500, quando comparado aos outros dois grupos. Aller et al. (2012), ao trabalharem com vacas da raça Angus, mantidas a pasto, relataram uma porcentagem menor de oócitos viáveis em vacas tratadas (48%) e não tratadas com eCG (26%). Já Serrilho et al. (2009), quando trabalharam com vacas da raça Nelore mantidas em sistema extensivo, não obtiveram diferença na porcentagem de cada grau dos oócitos recuperados, ao compararem vacas tratadas com 500mg de rbST e solução salina. No entanto, tais autores (Serrilho et al., 2009) relataram maior número total de embriões viáveis no grupo rbST do que no grupo controle, o que reforça a competência oocitária dos animais do grupo rbST. As gonadotrofinas, como a ecG, podem gerar uma esteroidogênese folicular anormal e uma precoce maturação, além de uma possível assincronia entre o folículo e o oócito, podendo atuar de forma negativa na foliculogênese final, interferindo, consequentemente, nas características morfológicas do CCOs recuperados (Foot e Ellington, 1988; Aller et al., 2010). A rbST, por sua vez, pode impedir a degeneração atrésica oocitária, justificando a superioridade dos oócitos de grau II e dos oócitos viáveis do grupo rbST 500 (Pavlok et al., 1996).

As taxas de recuperação do presente estudo (62,22%, 60,81% e 80,82% para os grupos controle rbST250 e rbST 500, respectivamente) foram superiores às relatadas por Aller et al. (2010), que utilizaram vacas Angus, submetendo-as ou não à administração de 9mg de FSH (37,3% para as que receberam e 32,8% para as que não receberam). Ramos et al. (2007) obtiveram dados contrários, ao tratarem vacas Gir com rbST, rbST + FSH e vacas não submetidas à estimulação ovariana, tendo esse último grupo apresentado maior taxa de recuperação oocitária em relação aos outros dois. Bols et al. (1998) e Tripp et al. (2000) também não observaram aumento na taxa de recuperação ao utilizarem a rbST em vacas das raças Holandesa e Hereford, respectivamente. Acredita-se que a rbST pode gerar alterações na morfologia do complexo cumulus-oócito e na parede do folículo, que podem interferir na recuperação do CCO (Tripp et al., 2000). Contudo, em virtude da maior taxa de recuperação do grupo rbST500, é possível que as alterações morfológicas no oócito e no folículo, citadas anteriormente, tenham influenciado de modo positivo na taxa de recuperação oocitária no grupo que recebeu 500mg desse hormônio.

Segundo Iga et al. (1998), após avaliarem várias concentrações de rbST (0,1, 1, 10, 100 e 1000ng/mL) no meio de MIV, as maiores concentrações desse hormônio resultaram em melhores taxas de maturação in vitro e de desenvolvimento embrionário até o estádio de blastocisto. Pawshe et al. (1998) afirmam que a presença do IGF-I no meio de maturação in vitro, em oócitos de bubalinos, estimula a maturação oocitária, uma vez que ele atua no controle parácrino e autócrino das células da granulosa, bem como possui ação sinérgica ao FSH, aumentando a atividade mitogênica, da esteroidogênese e da síntese de proteínas. In vivo, a maturação oocitária e o desenvolvimento embrionário são potencializados pelo GH (Modina et al., 2007). Pavlok et al. (1996) trataram vacas (1000mg) e novilhas (500mg) Holandesas com rbST e solução fisiológica, abatendo-as após três dias, recuperando os folículos por dissecção, e observaram que os CCOs recuperados das vacas e novilhas tratadas com rbST alcançaram maior taxa de maturação (45,1% e 44,4%, respectivamente) quando comparados aos CCOS obtidos de vacas e novilhas tratadas com solução fisiológica (39,7% e 35,5%, respectivamente). No entanto, no presente trabalho, a rbST, administrada nos animais experimentais nas doses de 250 e 500mg, não foi suficiente para aumentar a taxa de maturação oocitária, o que reforça que animais de raças diferentes respondem de forma diferente aos tratamentos hormonais.

No presente trabalho, a rbST não influenciou os graus de expansão das células do cumulus nem a retração nuclear. A expansão das células do cumulus é mediada pelo ácido hialurônico, ocorrendo, in vivo, após a onda de LH, e, in vitro, pela presença do FSH e de fatores de crescimento no meio de maturação (Gilchrist e Thompson, 2007). Kolle et al. (2003) avaliaram o efeito da adição de GH no meio de maturação oocitária e observaram aumento na expansão das células do cumulus. Segundo Greve et al. (1984), a capacidade de desenvolvimento embrionário pode ser indicada pela morfologia e pelo grau de expansão das células do cumulus. Não há relatos na literatura da morfologia e grau de expansão das células do cumulus em animais tratados com rbST. Segundo Kerr et al. (1972), a retração nuclear é um dos sinais típicos de apoptose celular e pode ser observada em oócitos de qualidade inferior. No presente trabalho, a rbST não teve influência sobre esses parâmetros, mostrando, mais uma vez, que os animais de cada raça respondem de maneira diferente aos tratamentos hormonais.

Em conclusão, a somatotropina bovina recombinante aumenta o número de folículos grandes e, na dose de 500mg, melhora a viabilidade dos oócitos recuperados, não influenciando, porém, a maturação in vitro deles. É necessária a realização de mais trabalhos para verificar a competência dos oócitos e a produção in vitro de embriões de vacas Sindi tratadas com a rbST.

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem à Embrapa Semiárido, pela disponibilização dos animais experimentais; à instituição de fomento Capes, pela bolsa de pós-graduação concedida à autora L.G.M. Ribeiro.

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Recebido: 11 de Junho de 2018; Aceito: 21 de Março de 2019

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