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Psicologia: Teoria e Pesquisa

Print version ISSN 0102-3772

Psic.: Teor. e Pesq. vol.29 no.1 Brasília Jan./Mar. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-37722013000100013 

Regressão e crescimento do primogênito no processo de tornar-se irmão

 

Firstborn's regression and growth in the process of becoming a sibling

 

 

Débora Silva OliveiraI; Rita de Cássia Sobreira LopesII

IComplexo de Ensino Superior de Cachoeirinha
IIUniversidade Federal do Rio Grande do Sul

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Investigaram-se indicadores de regressão e crescimento do primogênito no processo de tornar-se irmão. Participaram três primogênitos pré-escolares no terceiro trimestre de gestação, aos 12 e 24 meses do irmão. Foi aplicado o Teste das Fábulas e realizada análise qualitativa de conteúdo. Os resultados revelaram regressão do primogênito na gestação materna e crescimento, aos 12 e aos 24 meses de idade do irmão. A regressão foi uma forma de enfrentar a chegada do irmão, enquanto que o crescimento revelou capacidade para conquistas ou custos de ser mais velho. Tanto a regressão quanto o crescimento oportunizaram um ir e vir saudável, fundamental para o desenvolvimento rumo à independência. Esses achados têm implicações para a pesquisa e para a clínica.

Palavras-chave: indicadores de regressão, indicadores de crescimento, teste das fábulas, primogênito, chegada de um irmão


ABSTRACT

Regression and growth indicators in the process of becoming a sibling were investigated. Three firstborns took part in the study during the first sibling's third trimester of pregnancy, and when the sibling was 12 and 24 months old, respectively. The Fables Test was used and a qualitative content analysis was carried out. Results revealed regression indicators during pregnancy. At 12 and 24 months there were growth indicators together with regression indicators. Regression was used by the firstborn for coping with the sibling's arrival while growth revealed the capacity for acquisitions or the costs of being an older sibling. Both regressive and growth manifestations enabled a healthy to and fro, which is fundamental for development towards independence. These findings have both research and clinical implications.

Keywords: regression indicators, growth indicators, fables test, firstborn, sibling's arrival


 

 

No contexto de chegada de um novo membro à família, como é o nascimento de um segundo filho, a tensão familiar tende a aumentar, exigindo reformulações de papéis e regras de funcionamento (Minuchin, 1985), acarretando implicações emocionais tanto para o primogênito quanto para seus pais (Baydar, Hylé, & Brooks-Gunn, 1997; Dunn & Kendrick, 1980; Stewart, Mobley, Tuyl, & Salvador, 1987). Por ser um período considerado um evento de transição no ciclo de vida da família (Cerveny & Berthoud, 1997; Minuchin, 1985) contemplando ajustamento e adaptações, é possível que o filho mais velho apresente uma variedade de reações como forma de demonstrar os custos de se adaptar a esse novo contexto (Kramer & Ramsburg, 2002; Oliveira, 2010).

Dentre essas reações, os comportamentos regressivos e de crescimento parecem ser uma das importantes manifestações do primogênito nesse período, uma vez que são movimentos constitutivos do desenvolvimento rumo à independência (Oliveira, 2010). As oscilações entre regressão e crescimento são possíveis e constitutivas do processo de amadurecimento sendo, portanto, inteiramente saudáveis (Dias, 2003). A capacidade de ir e vir e de regredir a qualquer momento em que o processo de amadurecimento exigir faz parte das conquistas, as quais só podem ser alcançadas uma após a outra (Dias, 2003; Lopes, Caron, Thormann, & Ribas, 2009; Winnicott, 1960/1986, 1965/1977).

A regressão consiste em toda e qualquer possibilidade de retornar a algum ponto do desenvolvimento que já foi conquistado (Winnicott, 1979/1983) e é inteiramente saudável, transitória e reversível, constituindo resposta útil à tensão de um determinado momento (Spitz, 1979/2000). Especificamente no processo de tornar-se irmão, pode constituir-se em uma necessidade ou a própria busca por um desenvolvimento emocional rumo à independência, sugerindo sensibilidade às mudanças no contexto familiar, sobretudo na relação com seus cuidadores (Oliveira, 2006, 2010; Oliveira & Lopes, 2010).

Já o crescimento pode indicar soluções que implicam em um melhor nível de amadurecimento (Cunha & Nunes, 1993), revelando conquista do processo de desenvolvimento rumo à independência (Dias, 2003). O contexto de chegada de um irmão pode revelar um processo de ir e vir saudável, indicando a capacidade de administrar e de se adaptar às novas demandas e às alterações em suas relações afetivas (Oliveira, 2010). Pode ainda revelar uma pseudomaturidade, uma defesa frente às situações estressantes (Oliveira, 2006, 2010; Oliveira & Lopes, 2010), já que o filho mais velho pode não estar preparado para mudanças, tampouco para atender às expectativas parentais de uma maior independência (Dessen & Mettel, 1984).

Considerando que o primogênito é a primeira criança dentro do núcleo familiar, muitas vezes a única também do contexto mais amplo até a chegada de um irmão, compete-lhe vivências singulares (Perez, 2002). Enquanto algumas crianças conseguem administrar o estresse (Kramer, 1996), outras se mostram severamente estressadas desde a gestação até o período após o nascimento do irmão, apresentando problemas de comportamento (Baydar, Greek, & Brooks-Gunn 1997; Dessen & Mettel, 1984; Gottlieb & Baillies, 1995; Kendrick & Dunn, 1980; Kowaleski-Jones & Dunifon, 2004; Teti, Sakin, Kucera, Corns, & Eiden, 1996).

As implicações da chegada de um irmão para o primogênito podem ser visualizadas por uma variedade de reações e de mudanças de comportamento. De modo geral, as mais frequentes encontradas nos estudos que investigaram o primogênito durante a gestação e após o nascimento de um primeiro irmão foram: aumento nos comportamentos de confrontação e de agressão com a mãe e com o bebê, especialmente em momentos de alimentação e de cuidado deste (Baydar, Hylé, & Brooks-Gunn, 1997; Dunn & Kendrick, 1980; Kendrick & Dunn, 1980; Legg, Sherick, & Wadland, 1974; Teti et al., 1996), problemas no sono, nos hábitos de alimentação e de higiene, aumento nos comportamentos de dependência, demanda e de regressão (Baydar et al., 1997; Dunn, Kendrick & MacNamee, 1981; Gottlieb & Baillies, 1995; Stewart et al., 1987), maior ambivalência, aumento no afastamento, nos comportamentos de independência e de crescimento, apresentando domínio na realização de uma tarefa do cotidiano, entre outros (Gottlieb & Baillies, 1995; Kendrick & Dunn, 1980; Kramer & Gottman, 1992). Além dessas reações, comportamentos de ciúmes no momento da alimentação do bebê, bem como criação de amigo imaginário podem aparecer (Legg et al., 1974).

As reações do primogênito e o estresse vivenciados variam conforme a harmonia conjugal, o bem-estar emocional materno, a qualidade da relação genitores-primogênito (Gottlieb & Mendelson, 1995; Teti et al., 1996), o apoio parental fornecido ao filho mais velho (Gottlieb & Mendelson, 1990; Legg et al., 1974) e o nível socioeconômico da família (Dessen & Mettel, 1984). A idade e o sexo do primogênito e do segundo filho também influenciam em suas reações (Dunn et al., 1981; Gottlieb & Baillies, 1995). O primogênito, de modo especial os pré-escolares, parece sofrer grande impacto quando da chegada de um irmão, o que se deve, em parte, às mudanças ocorridas na relação progenitores-criança, particularmente na relação com a mãe (Dunn & Kendrick, 1981). A experiência de tornar-se um irmão é muito comum nessa fase do desenvolvimento (Legg et al., 1974). As crianças, nessa idade, já possuem maiores habilidades cognitivas e emocionais para identificar as necessárias mudanças no ambiente familiar (Kramer & Gottman, 1992; Murphy, 1993; Teti et al., 1996), e maiores capacidades verbais para expressar suas curiosidades e sentimentos (Legg et al., 1974). Percebem facilmente que as mudanças sofridas em seu contexto, em grande parte, ocorrem na relação mãe-primogênito, possivelmente, abalando a confiabilidade do ambiente familiar (Dunn & Kendrick, 1980; Field & Reite, 1984; Kowaleski-Jones & Dunifon, 2004; Stewart et al., 1987; Walz & Rich, 1983). No entanto, a capacidade para administrar o estresse ainda é parcialmente falha (Gottlieb & Baillies, 1995) e sua autoestima é muito vulnerável (Baydar, Hylé, et al., 1997), em função de estar em processo de desenvolvimento emocional (Kramer & Gottman, 1992).

Nessa fase, o primogênito pode apresentar reações variadas e, até mesmo, contraditórias, oscilando entre uma maior independência e crescimento (assumindo o papel de "irmão mais velho") e o desejo de receber a mesma atenção e cuidados que o recém-nascido (Dessen, 1997; Dunn et al., 1981; Kreppner, Paulsen, & Schuetze, 1982; Legg et al., 1974; Stewart et al., 1987). Há manifestações de habilidades motoras e cognitivas em direção a outras experiências no mundo externo, uma vez que está vivenciando um processo evolutivo de separação e de individuação (Balaban, 1988; Mahler, 1979/1982; Mahler, Pine, & Bergman, 1975/2002) e elaborando sua independência (Dunn & Kendrick, 1980), a partir dos cuidados fornecidos pela mãe (Winnicott, 1965/2001). Por ser ainda muito dependente das figuras parentais e vulnerável aos conflitos, a regressão pode revelar intensa mobilização afetiva. Em decorrência da confiança e da segurança do ambiente familiar, provavelmente, abaladas pelo processo de tornar-se irmão, as fantasias de abandono e de ameaça da confiabilidade do ambiente familiar podem se tornar visíveis (Oliveira, 2010). Para Trause e Irvin (1992), a segurança de qualquer criança pode vacilar frente a algum evento estressor, como o nascimento de um irmão, tornando fundamental o apoio parental. No mesmo sentido, Kramer e Ramsburg (2002) apontam que é esperado algum comportamento regressivo ou dependente do primogênito quando da chegada de um irmão. Ao realizarem uma revisão de artigos científicos publicados no período de 1975 a 2000, os autores assinalam que esses comportamentos podem ocorrer dado que são vistos pela criança como lembrança de cuidados fornecidos pelos genitores, sendo uma estratégia para resgatar suas atenções.

A chegada de uma segunda criança na família pode ser acompanhada de uma longa cadeia de alterações nas relações familiares e para cada um de seus membros (Kreppner et al., 1982). Para o primogênito, a capacidade de regredir a qualquer momento que a vida exigir é um dos movimentos naturais e até mesmo necessários nesse contexto para que ocorra um desenvolvimento saudável (Brazelton & Sparrow, 2003; Dias, 2003). A possibilidade de ir e vir faz parte do processo de amadurecimento e é possível em momentos de transição (Oliveira, 2010). No entanto, percebe-se que a literatura tende a atribuir um valor negativo aos comportamentos regressivos e de dependência (Baydar, Hylé, et al., 1997; Dunn & Kendrick, 1980; Field & Reite, 1984; Gottlieb & Baillies, 1995; Legg et al., 1974), enquanto positivo aos de independência e de crescimento (Dunn et al., 1981; Gottlieb & Baillies, 1995; Kendrick & Dunn, 1980; Kramer & Gottman, 1992; Legg et al., 1974; Stewart et al., 1987). Destaca-se que em uma extensa pesquisa realizada nos bancos de dados (PsycInfo, Social Sciences Full Text, Bireme, LILACS, Scielo, Index Psi, Medline), a partir do termos second born, second child, two children, second pregnancy, firstborn, foram encontrados poucos artigos recentes publicados que abordaram o nascimento de um segundo filho, o primogênito e as mudanças nas relações familiares (Dessen & Braz, 2000; Kowaleski-Jones & Dunifon, 2004; Kramer & Ramsburg, 2002, Pereira & Piccinini, 2007; Volling, 2005). Nesse sentido, torna-se relevante a continuidade de estudos que investiguem esse importante momento de transição do ciclo de vida da família e suas implicações emocionais, em termos de regressão e de crescimento, para o primogênito. Dessa forma, o presente estudo teve por objetivo examinar os indicadores de regressão e de crescimento do primogênito, longitudinalmente, desde o terceiro trimestre de gestação até os dois anos de vida do irmão.

 

Método

Participantes

Participaram três primogênitos, de idade pré-escolar, entre 4 e 7 anos, que se encontravam no contexto de chegada do primeiro irmão. Os participantes fazem parte do Estudo longitudinal sobre o impacto do nascimento do segundo filho na dinâmica familiar e no desenvolvimento emocional do primogênito – ELSEFI (Lopes, Piccinini, Rossato, & Oliveira, 2005), que tem por objetivo investigar os aspectos subjetivos e comportamentais da relação mãe-pai-primogênito, bem como o impacto do nascimento do segundo filho no relacionamento familiar e no desenvolvimento emocional do primogênito. Esse estudo iniciou acompanhando 55 famílias ao longo de dois anos, sendo que em 30 delas a mãe estava grávida do segundo filho, enquanto nas outras 25 havia um filho único. A coleta de dados com as famílias de dois filhos envolveu quatro fases que aconteceram no terceiro trimestre de gestação; 6º; 12º e 24º meses do segundo filho. Para fins do presente artigo, foram incluídos apenas dados revelados no terceiro trimestre de gestação, aos 12 e aos 24 meses do irmão. Os participantes provêm de famílias de dois filhos, de níveis socioeconômicos variados e residentes na região de Porto Alegre.

Procedimentos e Instrumentos

A coleta de dados foi realizada ou na escola de educação infantil na qual o primogênito frequentava, ou nas dependências do Curso de Pós-Graduação em Psicologia da UFRGS ou na casa dos participantes, conforme disponibilidade e preferência destes. Quanto aos procedimentos de coleta de dados, as famílias assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e preencheram a Ficha de Contato Inicial, usada para selecionar os participantes. Após esse momento, as crianças responderam a um teste projetivo, aplicado de forma individual, sem a presença dos genitores. Para fins do presente estudo, foram selecionados os primeiros três primogênitos que responderam ao instrumento projetivo nos momentos investigados. Outros instrumentos também foram respondidos pelos genitores, mas não foram considerados para o presente artigo. O projeto longitudinal, do qual este trabalho faz parte, foi aprovado pela Comissão de Pesquisa e Ética da UFRGS, pela Resolução nº/2004373, sendo considerado ético e metodologicamente adequado, de acordo com as Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisa envolvendo Seres Humanos (Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde).

Os indicadores de regressão e de crescimento do primogênito foram investigados a partir do Teste das Fábulas. Esse instrumento é plenamente adequado para amostras de crianças pré-escolares e caracteriza-se por ser um método projetivo, capaz de detectar conflitos relacionados ao desenvolvimento emocional infantil, investigando temas como dependência-independência, separação-individuação, rivalidade fraterna, simbiose materna, dentre outros (Cunha & Nunes, 1993). É composto por 10 fábulas que apresentam situações-problemas que mobilizam questões passíveis de projeção (Cunha & Werlang, 1995). O teste é constituído de 12 lâminas com ilustrações adequadas a cada uma das 10 fábulas (Fábula do passarinho; aniversário de casamento; cordeirinho; medo; elefante; notícia; e sonho mau), sendo que em duas há duas versões disponíveis (do enterro ou viagem; e objeto fabricado - versão aplicada para menino e outra para menina). O examinador conta as histórias, anota as respostas e faz um inquérito cuidadoso para aprofundar as respostas fornecidas pela criança, quando necessário. As respostas e o inquérito realizado também foram gravados e transcritos para fins de pesquisa. Foram considerados indicadores de regressão aquelas respostas dos primogênitos que remetiam a um retorno a algum ponto do desenvolvimento que já havia sido conquistado. Os indicadores de crescimento, por sua vez, foram aquelas respostas em que o primogênito projetava um personagem que indicava melhor nível de amadurecimento, remetendo à capacidade de administrar e de se adaptar às situações conflitivas mobilizadas pelo instrumento.

 

Resultados e Discussão

Foi realizada análise qualitativa de conteúdo (Laville & Dione, 1999) das verbalizações do primogênito elaboradas em cada uma das 10 fábulas nos três momentos estudados (terceiro trimestre de gestação, 12 e 24 meses do segundo filho). Através dessa análise, buscou-se examinar, longitudinalmente, os indicadores de regressão e de crescimento do primogênito no processo de tornar-se um irmão. Para fins de análise, foram criadas duas grandes categorias (Indicadores de regressão do primogênito e Indicadores de crescimento do primogênito) surgidas tanto por meio das respostas projetadas no personagem herói da história quanto com base na literatura (Cunha & Nunes, 1993; Serafini 2004), as quais foram divididas em subcategorias, conforme apresentadas a seguir. Após leituras exaustivas das transcrições dos dados, as autoras classificaram separadamente os relatos dos participantes em cada categoria e subcategoria. Para fins de apresentação dos dados, serão expostos, em um primeiro momento, por meio de uma análise longitudinal, os indicadores de regressão e de crescimento destacados nos três momentos estudados, conforme Tabela 1. Em seguida, serão apresentadas e discutidas as categorias e subcategorias temáticas, buscando exemplificá-las por meio de algumas das verbalizações dos primogênitos.

De modo geral, a análise longitudinal dos dados, como mostra a Tabela 1, permitiu observar destaque para os indicadores de regressão do primogênito na gestação, enquanto que aos 12 e aos 24 meses houve incremento dos de crescimento, mesmo a regressão tendo se mantido. Na gestação, os indicadores de regressão foram: distorção; vulnerabilidade, desamparo e desproteção; e busca de um genitor, dentre outros que não foram tão evidenciados, mas também foram observados. Da mesma forma que na gestação, aos 12 meses houve destaque para a vulnerabilidade, desamparo e desproteção; para a distorção e busca de um genitor. Nesse mesmo período, também foi observada busca de uma figura de cuidado substituta e sentimentos e fantasias de exclusão e de rejeição. Aos 24 meses, também houve ênfase para a vulnerabilidade, desamparo e desproteção; sentimentos e fantasias de exclusão e de rejeição; busca de um genitor e distorção.

Observou-se também padrão semelhante de indicadores de regressão e de crescimento ao longo dos três momentos. Os primogênitos mostraram-se vulneráveis e passivos no enfrentamento da situação ansiogênica, necessitando do auxílio de figuras de cuidado e, por vezes, distorcendo o conteúdo ansiogênico proposto pela fábula para outro de menor impacto. Embora os sentimentos e as fantasias de exclusão e de rejeição também tenham sido observados na gestação, não foram tão destacados como aos 12 e aos 24 meses.

Já os indicadores de crescimento, quando comparados aos de regressão, não foram tão evidenciados ao longo das três fases investigadas. Os primogênitos, de modo geral, após o nascimento do irmão tenderam a mostrar melhor nível de amadurecimento emocional, por meio de sinais de tolerância à frustração e de conquistas e de exploração. Na gestação, embora os indicadores de crescimento tenham sido observados, não foram tão expressivos quanto os de regressão. Em contraposição, aos 12 e aos 24 meses se percebeu um incremento do crescimento, especialmente aos 24 meses, mesmo tendo se mantido a regressão, por meio de indicadores como vulnerabilidade, desamparo e desproteção, busca de um genitor, sentimentos e fantasias de exclusão e de rejeição. Outro aspecto que se destacou na gestação, conforme mostra Tabela 1, foi a aceitação de regras e de responsabilidades; o crescimento e a fantasia de castigo. Aos 12 e aos 24 meses, o destaque foi para a superação; aceitação de regras e/ou de responsabilidades e para o crescimento.

Indicadores de Regressão do Primogênito no Processo de Tornar-se um Irmão

Esta categoria refere-se aos indicadores de regressão destacados pelos primogênitos desde a gestação até os 2 anos de vida do primeiro irmão. De modo geral, a regressão apareceu quando o conteúdo da fábula foi afetivamente mobilizador e ameaçador para o primogênito, o qual desprezou dados reais da fábula, ao se identificar com um herói que se encontrava em um nível de desenvolvimento mais precoce do que o subentendido pela mesma. As subcategorias de análise foram: Autorreferência; Ansiedade de separação; Busca de um genitor; Busca de uma figura de cuidado substituta; Distorção; Fantasia de morte; Possessividade; Sentimentos e fantasias de exclusão e de rejeição; e Vulnerabilidade, desamparo e desproteção.

Observaram-se referências altamente personalizadas indicando autorreferência: "Achou legal, que nem eu." (C01, F9, gestação); "Que nem na minha escola (...) Daí eu já vou pra primeira" (C01, F9, 12m). A autorreferência significa um autoenvolvimento e indica perturbação intensa a ponto de não existir distância entre o eu e a tarefa a ser respondida. A autorreferência é mais frequente em crianças menores, já em pré-escolares pode constituir-se em um dado significativo, uma vez que ou se identificaram completamente com o herói da fábula ou se defenderam, negando a identificação com este (Cunha & Nunes, 1993).

Outro indicador de regressão foi a ansiedade de separação. O primogênito projetou um herói com medo da perda do objeto de amor: "se assusta daí corre, daí vai pra escola, o pai dele vai pro trabalho e a mãe também. Ele vai pra rua" (C01, F5, gestação); "aí o menininho gritou e viu que não tinha ninguém em casa, porque a mãe, o pai foi trabalhar e a mãe foi trabalhar e ele ia sozinho" (C01, F5, 24m). Essa sensação provocou ansiedade, a qual apareceu, especialmente, quando existiu uma experiência real ou quando a instabilidade tornou a disponibilidade materna e/ou paterna um objeto não confiável. A preocupação em relação à separação de seus cuidadores, sobretudo em relação à mãe, é algo bastante presente para o primogênito, principalmente nas semanas finais da gestação (Brazelton, 2002/1994; Field & Reite, 1984; Gottlieb & Baillies, 1995; Oliveira, 2006).

A busca de um genitor caracterizou-se pela busca do herói da figura do pai e/ou da mãe para auxiliá-lo no enfrentamento da situação-problema: "a criança chamou a mãe e aí a mãe chegou e viu ela muito assustada (...) daí a criança ficou bem e brincou" (C03, F10, gestação); "Foi lá na cama dos pais e falou que tem um monstro lá na sala" (C02, F5, 12m); "podia tentar pegar a mãe ou o pai ou escalar a árvore. Não sei qual o melhor jeito. Pegar na mamãe, que está mais baixo" (C03, F1, 12m); "Eles voltaram pro lugar deles e o pai ajudou o menino a fazer os temas" (C01, F5, 24m). As demandas de separação e a necessidade de lidar com a ansiedade podem ter levado o primogênito a buscar o vínculo com um ou ambos os genitores, demonstrando incapacidade de enfrentar situações ansiogênicas sem a ajuda, a disponibilidade e/ou o encorajamento das figuras parentais. A situação de separação provavelmente foi associada à fantasia de perda do objeto de amor, mobilizando sentimentos de abandono, de desproteção e, por vezes, de rejeição. Porém, não imobilizou o herói, visto que houve alguma capacidade de usar seus recursos para explorar o ambiente, mesmo que com a ajuda dos genitores. Diante de um evento estressor, como o nascimento de um irmão, os sentimentos de segurança de qualquer criança podem ficar abalados, tornando fundamentais o apoio e o cuidado parental (Trause & Irvin, 1992).

A busca de uma figura de cuidado substituta também foi um indicador de regressão: "foi encontrar a vovó também" (C02, F1, gestação); "Daí foi lá achou uma outra mamãe, tomou um pouco do leite, não tava mais com fome" (C01, F3, 12m); "vai pegar ajuda. De um outro animal, que voa" (C02, F1, 12m). O personagem, ao perceber a situação ansiogênica, procurou uma figura de cuidado substituta para auxiliá-lo no enfrentamento, especialmente, quando percebeu a ausência da mãe e/ou do pai. Ao perceber essa falta, buscou superá-la por meio do preenchimento do objeto faltante, no caso uma família substituta, outro animal, dentre outros. Nesses momentos, as crianças tendem a buscar outros vínculos que substituem as figuras parentais, a fim de readquirir o domínio sobre si mesmas (Brazelton & Sparrow, 2003). As crianças muito sensíveis tendem a exigir ainda mais de seus cuidadores (Dias, 2003). A capacidade de ficar só na presença de alguém se constitui em um dos importantes sinais de amadurecimento do desenvolvimento emocional (Winnicott, 1979/1983). Assim, ficar só, sem sentir-se ameaçado, dependeria da habilidade em lidar com os sentimentos de desamparo e de abandono decorrentes dos desafios impostos pelo mundo externo.

Outro indicador de regressão destacado foi a distorção, também característico de intensa mobilização afetiva, a qual ocorreu quando os dados reais da situação-problema apresentados pela fábula foram desconsiderados ou transformados em outros menos ameaçadores: "aí a mãe foi no shopping com a Graziela que nasceu naquele dia e ele foi pra outro hospital" (C03, F5, gestação); "Primeiro tomou leite de outra ovelha, depois comeu capim, achou a mãe dele, só que não era essa mãe, e podia ainda tomar leite quente, aí tomou" (C01, F3, 12m); "fez o tema de casa e depois voltou para a festa e todos se divertiram muito, principalmente papai e mamãe" (C03, F2, 24m). Houve modificação extrema da historieta ou ainda adição ou omissão de personagens em algumas das fábulas. Ao ignorar a informação fornecida, o herói não precisou se defrontar com a situação ansiogênica. A distorção ocorreu a serviço das necessidades internas do primogênito, que não conseguiu lidar com a realidade, evitando o conflito e instaurando, por vezes, uma confusão lógica no conteúdo da fábula. Dessa forma, a distorção indicou dificuldades de enfrentamento da ansiedade, não encontrando recursos próprios para esse fim (Cunha & Nunes, 1993). O herói também foi projetado em situação de vulnerabilidade e risco de morte, remetendo à fantasia de morte associada à hostilidade e à agressividade dirigida ao herói ou a outrem: "sonhou com o monstro que comeu ele" (C02, F10, gestação); "Com um vampiro que mordeu ele e chupou todo o sangue, daí morreu" (C01, F10, 12m); "A irmã mais nova [morreu], tinha um aninho. (...) a nenê engoliu uma coisa e morreu" (C03, F4, 24m).

A possessividade também foi entendida como regressão. Quando o herói apresentou preocupação em reter o objeto, conservando-o para si, houve o alívio da ansiedade, mas a permanência em uma posição simbolicamente imatura: "vai esconder [o objeto] porque a mãe não deixava ele pegar porque é de vidro" (C03, F7, gestação); "A criança disse que não ai dar o presente pra mãe. Ficar triste. Porque era dia das mães e não deu presente" (C01, F7, 24m). A possessividade revelou o modo como o primogênito organizava seus vínculos objetais, indicando personalidade possessiva e obstinada. Houve a fixação em suas próprias necessidades, sugerindo não ter tido, ainda, a capacidade de aprender que existe um mundo contrário aos seus desejos.

Quanto aos sentimentos e fantasias de exclusão e de rejeição, o primogênito apresentou um herói com sentimentos de abandono, em que os pais não o amavam mais, encontrando-se sozinho: "triste por que a mamãe não queria brincar com o filhinho" (C02, F9, gestação); "Sozinho. O passarinho fica triste, quer a mamãe e o papai dele" (C02, F1, 24m); "Porque eles não davam atenção pra ela" (C02, F2, 24m); "Depois ficavam com aquele bebê e nem davam bola pro antigo" (C03, F4, 24m). De modo geral, foram verbalizações que aparentemente não se associaram à experiência ou à fantasia edípica ou cena primária, e sim à rejeição parental e ao desejo de ser inserido nas relações interpessoais. Os sentimentos de exclusão e de substituição podem estar relacionados às alterações na rotina diária do filho mais velho, bem como a sentimentos de competição no sentido de resgatar a atenção da mãe (Legg et al., 1974).

Por fim, a vulnerabilidade, o desamparo e a desproteção referiram-se à projeção de um herói incapaz de se proteger: "caiu no chão e machucou a pata, a asa, daí não conseguiu voar" (C01, F1, gestação); "Se machucou, por isso não conseguiu voar. E o ninho quebrou" (C01, F1, 24m); "vai comer capim, se perde e a família vai procurar ele" (C01, F3, 24m); "vai atrás da mamãe e perde a mamãe" (C03, F1, 24m). O enfrentamento de uma situação potencialmente traumática mobilizou fantasias de impotência e de abandono, colocando o herói em um nível de desenvolvimento mais indefeso e vulnerável. Houve a necessidade de ser protegido, encontrando-se em uma situação de inteira passividade e em um nível de desenvolvimento mais precoce do que o subentendido no conteúdo da fábula. Por vezes, houve transferência desses sentimentos de desamparo e de desproteção, não aceitos, para partes do corpo através de manifestações físicas que denotaram suas preocupações emocionais.

Nas respostas dadas pelos primogênitos perceberam-se sinais de ansiedade, fragilidade e incapacidade de reação do herói, enfatizando o caráter traumático da situação. Os indicadores de regressão revelaram primogênitos se identificando, de modo geral, a um herói em situação de abandono e de desamparo, mostrando-se passivos e vulneráveis ao ambiente familiar. Nesse contexto, a busca para restabelecer o vínculo com um ou ambos os genitores para auxiliá-lo e a modificação de situações difíceis para outras menos ansiogênicas foram, dentre outros, recursos utilizados. Tal dado corrobora pesquisas anteriores que apontaram manifestações regressivas do primogênito nesse contexto de chegada de um irmão, mostrando-se mais dependente, agarrado e demandando mais atenção e cuidados, especialmente maternos (Dunn & Kendrick, 1980; Gottlieb & Baillies, 1995; Kramer, 1996; Legg et al., 1974).

Algumas crianças podem mostrar-se de maneira mais regressiva, especialmente na gestação, em situações de medo e de abalo do ambiente familiar, como se quisessem se certificar de que não estão sozinhas e não perderam o afeto e o amor dos genitores (Holditch, 1992). As histórias produzidas podem ter oportunizado ao primogênito manifestar sentimentos e vivências relacionadas ao evento situacional, possibilitando-o identificar-se com aspectos mais regressivos do que com os de crescimento. O modo como o herói foi projetado indicou sentimentos e reações do primogênito frente às condições que lhe causavam ansiedade (Cunha & Nunes, 1993). Os indicadores de regressão revelaram os custos de assumir o papel de irmão mais velho e as implicações da chegada de um irmão para as relações familiares e para a rotina de cuidados que recebia dos genitores (Brazelton & Sparrow, 2003; Dessen, 1997; Feiring & Lewis, 1978; Kowaleski-Jones & Dunifon, 2004; Minuchin, 1985; Oliveira & Lopes, 2008).

Indicadores de Crescimento do Primogênito no Processo de Tornar-se um Irmão

Esta categoria refere-se aos indicadores de crescimento destacados pelos primogênitos desde a gestação até os 2 anos de vida do primeiro irmão. De modo geral, o crescimento apareceu quando houve mobilização afetiva intensa em que o herói encontrou possibilidades para lidar com situações ansiogênicas por meio de condições próprias, que permitiram a elaboração de uma resposta indicadora de melhor nível de amadurecimento emocional. Os indicadores de crescimento foram analisados a partir de subcategorias: Aceitação da autoimagem; Aceitação de regras e de responsabilidades; Culpabilidade e autopunição; Crescimento; Fantasia de castigo; Socialização e interação com pares; bem como Superação.

A aceitação da autoimagem pode ser observada quando a criança indicou um herói que aceitou as mudanças interiores: "não conseguia tirar do quarto porque ele [o elefante] cresceu e não conseguia sair. Aí [o menino] teve que chamar o bombeiro pra abrir o telhado da casa". (C03, F6, 12m); "achou legal pro elefante, porque ficou maior, não ia querer ficar menor, do tamanho de uma Polly ou de uma borracha" (C03, F6, 24m). Essa aceitação permitiu ao herói mudar a autoimagem e assumir outra identidade, funcionando como organizadora da identidade. Essas mudanças, especialmente físicas, representaram ou a ansiedade frente ao crescimento ou ainda o desejo deste. Essas alterações envolvem significação simbólica que remete a aquisições de desenvolvimento e aceitação de uma autoimagem diferente. Tal dado corrobora estudos que indicaram que o primogênito, quando da chegada de um irmão, possui, muitas vezes, o desejo de ocupar lugar de filho mais velho e crescido, abandonando o papel de bebê (Brazelton & Sparrow, 2003). Esse indicador esteve relacionado às respostas fornecidas à Fábula 6, que investiga modificações ocorridas no elefante, enquanto o personagem da história esteve ausente (Cunha & Nunes, 1993).

A criança também se identificou com um personagem com capacidades de aceitar regras e limites e/ou responsabilidades impostas em situações do cotidiano, indicando outro indicador de crescimento: "O pai disse pra não fazer mais arte daí não fez e ficou feliz para sempre" (C01, F8, gestação); "foi ficar sozinho. Porque a mamãe disse que a festa era só de adultos" (C02, F2, gestação); "Não gostou mais de brincar, só de trabalhar e fazer atividades" (C01, F9, 12m); "Porque queria ganhar dinheiro. Porque a família dele era muito pobre, pobre" (C01, F7, 24m). O senso de responsabilidade em aceitar regras está relacionado à capacidade de se preocupar e de se importar, revelando maior integração do indivíduo (Winnicott, 1979/1983). Essa capacidade também está relacionada ao sentimento de culpa e à oportunidade de reparação e de crescimento (Winnicott, 1979/1983). A aceitação de regras e/ou de responsabilidades, bem como da autoimagem também estão relacionadas à própria aceitação de estímulos para mudanças internas e externas.

A culpabilidade e a autopunição também foram observadas nas respostas, sobretudo quando o herói sofreu alguma consequência do ambiente e sentiu-se culpado por ter feito algo de errado, tendo um caráter de castigo e de punição: "é muito mal educado e chorou, e colocou o dedo na tomada e chorou" (C03, F5, gestação); "Porque ela [a mãe] acha que a menina aprontou alguma coisa que chegou com um bichinho, um coelhinho. Se sentiu muito braba, porque ela [a mãe] não gostava de bichinho. A criança não devia" (C03, F8, gestação). Outro indicador de crescimento foi a fantasia de castigo, a qual apareceu como resposta do primogênito por não corresponder à expectativa parental: "o papai disse que nunca mais era pra fazer isso, ser do mau" (C02, F8, gestação); "mentiu para a mãe que tinha se comportado, mas não tinha" (C02, F9, 12m); "viu a agenda do menino, dizendo que foi pra diretoria porque machucou um colega. E a mãe dele botou ele de castigo" (C01, F9, 24m). A culpabilidade e a autopunição, bem como a fantasia de castigo revelaram capacidades de percepção de que existe um mundo contrário aos seus anseios e de que, ao não corresponder à expectativa parental, pode sofrer consequências (Cunha & Nunes, 1993). A preocupação em reparar algo errado cometido e o receio em ser castigado podem estar relacionados à aceitação de regras e de responsabilidades, bem como ao receio de perder o amor das figuras parentais, o que indica, segundo Winnicott (1979/1983) crescimento e superação. Ainda que o herói não tenha sido capaz de enfrentar o conflito, projetou sua hostilidade, constituindo um modo mais maduro de enfrentar a situação.

Outro indicador bastante destacado foi o crescimento do herói. Os primogênitos, de modo geral, fizeram alusão ao tamanho e ao crescimento do herói: "Cresceu do tamanho do pai e da mãe, daí ficou feliz pra sempre" (C01, F2, gestação); "Daí cresceu, tava com fome e viu que podia comer capim" (C01, F3, 12m); "abriu a porta do quarto e viu que tava enorme porque já tava com 16 anos" (C03, F6, 12m); "Porque cresceu e casou" (C01, F6, 24m); "A tromba cresceu muito" (C02, F6, 24m); "Porque ficou enorme. Tá muito grande" (C03, F6, 24m). A necessidade de assegurar-se do crescimento pode estar relacionada ao desejo de ocupar o lugar de filho mais velho, além de provavelmente, se sentir excluído e rejeitado na relação com os genitores ou ainda atender às expectativas parentais de que deveria se comportar bem. Esse dado também foi encontrado na literatura, a qual apontou o crescimento do primogênito quando da chegada de um irmão (Gottlieb & Baillies, 1995; Kendrick & Dunn, 1980; Murphy, 1993; Stewart et al., 1987). O crescimento, assim, estaria representando conquista da maturidade e capacidade para as experiências ou ainda defesa para lidar com a ausência dos genitores, funcionando como uma pseudomaturidade (Dias, 2003).

Outro indicador foi a socialização e a interação com pares e com o irmão: "o outro tava crescendo mais ainda. Daí foi brincar com o outro irmão mais velho" (C02, F3, gestação); "foi brincar com seus amigos" (C03, F3, 12m); "Depois foi brincar com seu amiguinho, o outro carneirinho" (C03, F3, 24m). Ao se identificarem com um herói com capacidade de socialização e de interação com pares, os primogênitos demonstram sinais de conquista e de maturidade na exploração do ambiente não familiar. Esses sinais, provavelmente, são decorrentes da habilidade de conter sentimentos ansiogênicos provenientes dos momentos de separação em relação aos genitores (Elkind, 2004/1981; Winnicott, 1979/1983) e também do benefício da existência de um irmão, em função de terem que compartilhar e se adaptar às mudanças na família (Vivian, 2006; Winnicott, 1965/1977). Assim, pode estar relacionado não apenas ao crescimento pessoal do primogênito, mas também à capacidade de socializar, de se identificar e de interagir com os pares (Winnicott, 1979/1983).

Por fim, foi também observada a superação. Os primogênitos mostraram um herói que "deu a volta por cima" e demonstrou capacidades de reagir e de superar ou uma fase mais regressiva ou uma situação ansiogênica: "Não precisava mais pedir leite pros outros" (C01, F3, 12m); "Vai tentar voar mais para conseguir alcançar o papai e a mamãe. Consegue (...) foi para aquele ninho onde a mamãe e o papai passarinho estavam e cantaram" (C03, F1, 24m); "Quando acordou disse: 'Acho que não existe nenhum vampiro. Era minha imaginação'" (C03, F5, 24m).

De modo geral, os indicadores de crescimento revelaram sinais de tolerância à frustração e de condições de superar as dificuldades apresentadas nos conteúdos das fábulas, tornando a experiência tolerável para os primogênitos. O herói revelou suas próprias forças para lidar com os aspectos estressantes, ainda que com alguma ajuda fornecida ou procurada de outrem. O crescimento pareceu ter oportunizado aos primogênitos experimentar sua própria condição autônoma em relação às figuras parentais (Brazelton & Sparrow, 2003; Gottlieb & Baillies, 1995), bem como comunicar ideias e sentimentos, garantindo um poder sobre si mesmos e sobre o mundo a sua volta (Baydar, Greek, et al., 1997). Podem ainda representar melhor nível de amadurecimento emocional, revelando ou uma conquista do processo de amadurecimento (Dias, 2003), ou ainda uma pseudomaturidade, funcionando como defesa para lidar com as situações ansiogênicas (Oliveira & Lopes, 2008).

 

Considerações Finais

A partir dos dados encontrados, destaca-se que o Teste das Fábulas foi essencial para identificar os indicadores de regressão e de crescimento do primogênito desde a gestação até os 2 anos de vida do primeiro irmão. O instrumento projetivo não foi aplicado com o intuito de realizar um diagnóstico clínico, mas como estímulo para que crianças em idade pré-escolar pudessem expressar seus sentimentos e vivências. Ainda que crianças nessa idade apresentem um incremento significativo na linguagem, que as possibilita formular e utilizar frases complexas e mais desenvolvidas (Brazelton & Sparrow, 2003), torna-se difícil investigar, no âmbito de pesquisa, o ponto de vista da criança sem que haja algum estímulo para que expresse suas vivências emocionais. A criança, na fase pré-escolar, tem um senso crescente, porém tênue, de si própria e de seu lugar no mundo, não possuindo uma discriminação da realidade totalmente formada (Holditch, 1992). Assim, o conteúdo projetado ofereceu subsídios para conhecer a forma como enfrentava sua realidade. Por ser um instrumento sensível para investigar aspectos relacionados ao desenvolvimento emocional infantil e a crises situacionais, espera-se que este estudo tenha contribuído para examinar o impacto do nascimento de um irmão no desenvolvimento do primogênito.

Os resultados do presente estudo mostraram que as reações do primogênito foram muito variadas e complexas. Tanto as manifestações regressivas quanto as de crescimento oportunizaram um ir e vir saudável que possibilitou o amadurecimento (Dias, 2003; Lopes et al., 2009; Ribas et al., 2008; Winnicott, 1960/1986; Winnicott, 1965/1977). A capacidade de regredir também foi uma conquista. À medida que o amadurecimento avança, as tarefas se complexificam (Dias, 2003). Se o indivíduo está saudável emocionalmente pode envolver-se e lidar, naturalmente, com as questões que são específicas para sua faixa etária (Dias, 2003).

Houve destaque dos indicadores de regressão do primogênito no período gestacional, enquanto que aos 12 e aos 24 meses houve incremento de crescimento, ainda que a regressão tivesse se mantido. A regressão revelou uma necessidade do seu processo de amadurecimento ou desenvolvimento emocional rumo à independência. Pode ainda sugerir sensibilidade às mudanças no ambiente familiar e às alterações na relação com seus cuidadores, uma vez que a confiança e a segurança foram abaladas com a chegada de um irmão. Já os indicadores de crescimento podem ter revelado uma conquista no processo de amadurecimento, ou ainda uma pseudomaturidade da criança, como defesa para lidar com as demandas emocionais em função da chegada de um irmão. Não houve uma diminuição das aquisições e do crescimento, mas um ir e vir constante, em que o primogênito seguiu suas conquistas de desenvolvimento, a partir do reasseguramento que a regressão propiciou. Assim, pode-se pensar que a chegada em si de um irmão talvez não estivesse sido tão impactante, mas sim os possíveis sentimentos de vulnerabilidade e de desamparo e das fantasias de abandono em relação aos genitores surgidos no decorrer desse contexto.

Ainda que estudos tenham apontado que o nascimento do segundo filho possa acarretar alterações no ambiente familiar, nos comportamentos do primogênito e em sua interação com os genitores, chamam atenção as poucas pesquisas atuais sobre o assunto (Volling, 2005) e, especialmente, sobre as implicações emocionais para o filho mais velho.

Com base neste estudo, pode-se apontar que a pesquisa de levantamento e de avaliação do conhecimento sobre este tema constituiu um meio de vislumbrar com maior abrangência a literatura científica, promovendo divulgação e facilitação de acesso às pesquisas na área. Identificar os pontos de transição familiar que podem acarretar mudanças são tarefas básicas da psicologia do desenvolvimento, que por sua vez, necessita da contribuição de áreas afins. Espera-se, com a presente discussão, estimular novas pesquisas que contribuam para o entendimento das repercussões do nascimento do segundo filho no desenvolvimento emocional do primogênito e, sobretudo, nas questões de separação psicológica ou emocional em relação aos seus cuidadores.

 

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Recebido em 11.02.2011
Primeira decisão editorial em 21.07.2011
Versão final em 21.10.2011
Aceito em 29.11.2011

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