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ABCD. Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva (São Paulo)

Print version ISSN 0102-6720

ABCD, arq. bras. cir. dig. vol.25 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2012

https://doi.org/10.1590/S0102-67202012000100007 

ARTIGO ORIGINAL

 

Dor musculoesquelética em membros inferiores de pacientes obesos antes e depois da cirurgia bariàtrica

 

 

Ivana Teles de Melo; Márcia São-Pedro

Curso de Fisioterapia da Faculdade Social, Salvador, BA, Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

RACIONAL: A Organização Mundial da Saúde calcula que em 2015 haverá aproximadamente 2,3 bilhões de adultos com sobrepeso e mais de 700 milhões com obesidade no mundo. O excesso de peso pode levar a inúmeras complicações, dentre elas as doenças articulares degenerativas.
OBJETIVO: Estimar a frequência e local da dor músculoesquelética em membros inferiores antes e depois da cirurgia bariátrica.
MÉTODO: Estudo descritivo de corte transversal, composto por 22 indivíduos obesos que preencheram questionários antes e seis meses depois de submetidos à cirurgia bariátrica. Os dados foram expressos através de uma análise descritiva e avaliados estatiscamente com nível de significância de 5%.
RESULTADOS: A dor foi referida pelos pacientes no pré-operatório em 87,5% no tornozelo e pé, 80% em joelho e 91,7% no quadril. No pós-operatório ela diminuiu para 12,5% no tornozelo e pé, 20% no joelho e 8,3% no quadril atingindo significância estatística (p<0,001).
CONCLUSÃO: Indivíduos obesos submetidos à cirurgia bariátrica apresentaram acentuada redução tanto na frequência quanto na intensidade das dores músculoesqueléticas localizadas em ordem no quadril, tornozelo e pé e joelho.

Descritores: Dor musculoesquelética. Extremidade Inferior. Cirurgia bariátrica.


 

 

INTRODUÇÃO

A Organização Mundial da Saúde9 calcula que em 2015 haverá aproximadamente 2,3 bilhões de adultos com sobrepeso e mais de 700 milhões com obesidade no mundo. Considerada doença crônica com maior prevalência nos países desenvolvidos atinge homens e mulheres de todas as etnias e de todas as idades, reduz a qualidade de vida e tem elevadas taxas de morbidade e mortalidade.

O excesso de peso afeta praticamente todo o organismo, podendo levar a inúmeras complicações, dentre elas as doenças articulares degenerativas4. A obesidade e o envelhecimento da cartilagem ocasionam desgaste, perda da agilidade e elasticidade tecidual, e tem como consequência diminuição da função da articulação11,14, maior frequência de dor e de lesões secundárias ao envelhecimento prematuro da cartilagem.

A dor é definida como "experiência sensorial e emocional desagradável associada a dano real (International Association for the Study of Pain - IASP) e representa uma das principais causas de incapacidade e afastamento do trabalho, perda de funcionalidade e da qualidade de vida17. Entretanto, no Brasil ainda não existem dados oficiais sobre os custos sociais da dor. E, apesar do constante aumento de casos de obesidade e de lesões articulares, pouco se encontra na literatura que comprove o nível de dor e de comprometimento funcional associado à obesidade.

Portanto, explorar esta temática é aumentar as probabilidades de acerto e sucesso na atuação da equipe multidisciplinar, incluindo o fisioterapeuta, para trabalhar de forma mais eficiente, tanto no pré como no pós-operatório da cirurgia bariátrica para minimizar a dor e as limitações funcionais. A relevância do estudo se justifica, também, pela pequena quantidade de trabalhos com enfoque na atuação fisioterapêutica e sua importância.

O presente estudo tem por objetivo estimar a frequência e local da dor musculoesquelética em membros inferiores antes e depois da cirurgia bariátrica e verificar se ocorre diminuição nessa frequência pela redução na sobrecarga

 

MÉTODO

Trata-se de um estudo descritivo de corte transversal realizado em Salvador, BA, Brasil e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Salvador - Unifacs sob o protocolo nº 04.10.88. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, de acordo com os dispositivos da Resolução 196/96 do Comitê Nacional de Ética em pesquisas envolvendo seres humanos.

Foram selecionados indivíduos de ambos os sexos, candidatos à cirurgia bariátrica com bom nível de entendimento e cooperação. Foram excluídos os indivíduos com fratura nos membros inferiores, portadores de doenças imunológicas (reumatológicas), portadores de doenças neurológicas e cadeirantes.

Os dados primários foram coletados no período de outubro de 2009 até outubro de 2010, constando de entrevista inicial com aplicação do Questionário Estruturado Nórdico de Sintomas Osteomusculares Modificado, Questionário Algofuncional de Lequesne e do Mapa Corporal associado à Escala Visual Analógica (EVA). Esta última permite a localização exata da dor associada à sua intensidade, permitindo colorir o mapa corporal situando a dor de acordo com a EVA.

Após seis meses de operados - quando ocorre a maior perda de peso -, os pacientes foram convidados a retornar ao consultório e preencherem os questionários na seguinte ordem: Nórdico Modificado e Algofuncional de Lequesne. Quando este último tivesse qualquer pontuação diferente de zero, o entrevistado era solicitado a dar continuidade com o preenchimento do Mapa Corporal associado à Escala Visual Analógica (EVA) para verificar a intensidade e se a dor era pregressa ou recente. Do Questionário Nórdico foi considerada somente a questão que avaliava se houve dor nos últimos sete dias, da data do preenchimento. Outras duas perguntas que avaliaram a ocorrência de dor ou desconforto em membros inferiores e se a dor interferiu na atividade profissional, foram descartadas do estudo para evitar que a diferença de tempo entre as questões influenciasse no resultado (seis e 12 meses).

As variáveis sócio-demográficas avaliadas foram gênero, escolaridade, idade e raça. O nível de escolaridade foi categorizado em primeiro, segundo e terceiro graus. As variáveis clínicas foram peso (kg), idade e Índice de Massa Corpórea (IMC). A variável sintomatologia ou afecção musculosquelética foi localizada em quadril, joelho, tornozelo e pé.

O banco de dados foi criado no programa Excel 2003 e analisado no software R (versão 2.11.1), que realizou a correção dos dados digitados com o objetivo de eliminar possíveis erros ou inconsistência. Foi feita análise descritiva (frequência absoluta/relativa, mediana, 1º e 3º quartis) objetivando identificar as características gerais e específicas da população estudada. Na verificação da existência de diferenças significativas, antes e após a intervenção, foi utilizado o teste não-paramétrico de Wilcoxon para amostras emparelhadas e variáveis quantitativas, e o teste de Mcnemar para as variáveis nominais dicotômicas. O nível de significância estabelecido foi de 5%.

 

RESULTADOS

A coleta de dados incluiu 23 pacientes que atenderam aos critérios de inclusão. Um dos pacientes foi afastado da pesquisa por não ter sido submetido à operação dentro do período possível para realização das duas entrevistas. Os outros 22 realizaram a avaliação pré e pós-operatória sendo 18 mulheres e quatro homens, IMC com mediana de 40,50Kg/m2 (q1= 35,75 e q3= 43) (Tabela 1).

 

 

Em 100% dos pacientes o tipo de operação realizada foi de Fobi- Capella15.

Os pacientes foram avaliados antes e seis meses após o procedimento cirúrgico, e verificou-se acentuada redução na intensidade da dor, considerando p<0,05 tanto no Questionário Algofuncional de Lequesne, com valor de mediana antes=13 (q1=10,38 e q3=14,50) e depois=0 (q1=0 e q3=2), quanto no Mapa Corporal associado à Escala Visual Analógica (EVA), que apresentou no pós-operatório valor de mediana=0 para quadril (q1=0 e q3=1,25), joelho e tornozelo (q1 e q3=0).

A questão referente a dor nos últimos sete dias, do questionário Nórdico Modificado, demonstrou que no pré-operatório, a frequência de dor musculosquelética chegou a 63,6% no tornozelo e pé, 45,5% em joelho e 54,5% em quadril. No pós-operatório ela manteve-se presente em 9,1% no tornozelo e pé, 9,1% no joelho e 4,5% no quadril (Figura 1). Tomando como base os pacientes que apresentavam dor musculoesquelética em membros inferiores, pode-se afirmar que a melhora do sintoma foi de 87,5% no tornozelo e pé, 80% em joelho e 91,7% em quadril. No pós-operatório a dor manteve-se presente nos pacientes em 12,5% do tornozelo e pé, 20% no joelho e 8,3% no quadril. A diminuição do número de pacientes que apresentaram dor no pós-operatório foi significante com p<0,001 na avaliação do quadril, p<0,008 do joelho e de p<0,002 no tornozelo e pé (Figura 2). Dos pacientes que mantiveram dor ou desconforto em membros inferiores seis meses após a realização da cirurgia bariátrica, somente um foi enquadrado como muito grave, segundo a soma de pontuação do Questionário Lequesne, situando o local de dor ou desconforto no pé esquerdo.

 

 

 

 

DISCUSSÃO

A frequência de dor músculoesquelética em membros inferiores diminui em obesos submetidos à cirurgia bariátrica, conforme identificado no presente estudo. A operação realizada em todos os pacientes foi a de Fobi-Capella, técnica caracterizada pela associação de restrição à ingestão do bolo alimentar, com um pouco de disabsorção, por isso é classificada como mista, melhor suportada, além de ser a mais realizada atualmente15.

Quanto à relação da cirurgia bariátrica com a dor músculoesquelética em membros inferiores, estudos corroboram com os dados que vinculam a perda de peso, identificada no presente estudo, com a redução de dor em membros inferiores6,11,13,14, por diminuição na sobrecarga articular. Porém, discordam, ao situar a dor lombar como mais prevalente13,14. Um dos fatores observados que podem ter interferido no resultado da pesquisa de Sá et al.13, foi a avaliação somente da ocorrência de dor crônica associada à obesidade sem atribuir ao local de maior incidência de dor aspectos relacionados a sobrecarga articular. Soccol et al.14, avaliaram a prevalência de artralgia em indivíduos obesos antes e no pós-operatório tardio da cirurgia bariátrica, utilizando o teste de caminhada de seis minutos como parâmetro. Era avaliação dinâmica e sujeita à maior continuidade do sintoma doloroso em quadril por ser esta articulação a responsável pela estabilidade na tomada de peso da marcha. O presente estudo utilizou avaliações estáticas, em que a percepção subjetiva do entrevistado não sofreu nenhum tipo de interferência e identificou na articulação do quadril o maior índice de redução de dor no pós-operatório provavelmente porque com a diminuição do peso e da consequente sobrecarga, esta articulação sofre menos compensações biomecânicas para manter a postura e a marcha. Quanto ao menor redução da artralgia do joelho, pode ser atribuído à algumas variáveis como o tipo de atividade exercida, a idade, raça e até fatores topográficos que podem interferir nos resultados comparativos entre as pesquisas. Apesar desse diferencial, fica claro a necessidade de continuarem pesquisas que utilizem os mesmos parâmetros para inferir qual articulação é mais acometida por dor musculoesquelética nos membros inferiores.

Assim, estima-se que a diminuição de peso no pós-operatório está associada à menor incidência de dor musculoesquelética em membros inferiores e a melhora da capacidade funcional11,16.

Foi identificada neste estudo uma população com elevado índice de dor musculoesquelética em membros inferiores, porém pouco assistida dentro do modelo de atendimento interdisciplinar e multiprofissional de saúde. Portanto, faz-se necessário que profissionais de saúde, incluindo o fisioterapeuta, busquem conhecer mais as alterações intrínsecas da doença obesidade. Pode-se-á dessa forma discutir a elaboração de abordagem adequada, tornando mais eficazes o acompanhamento e o tratamento da dor e suas limitações funcionais.

Sugere-se que estudos com amostra maior devem ser realizados objetivando avaliar a prevalência e a intensidade de artralgia em membros inferiores e em outras articulações. Há pouca literatura específica nestes aspectos.

 

CONCLUSÃO

Indivíduos obesos submetidos à cirurgia bariátrica apresentaram acentuada redução tanto na frequência quanto na intensidade das dores musculoesqueléticas localizadas em ordem no quadril, tornozelo e pé e joelho.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência:
Ivana Teles de Melo
e-mail: ivanateles@uol.com.br

Fonte de financiamento: não há
Conflito de interesses: não há

 

 

Trabalho realizado no Curso de Fisioterapia da Faculdade Social, Salvador, BA, Brasil.

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