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Revista Paulista de Pediatria

Print version ISSN 0103-0582On-line version ISSN 1984-0462

Rev. paul. pediatr. vol.37 no.2 São Paulo Apr./June 2019  Epub Jan 21, 2019

https://doi.org/10.1590/1984-0462/;2019;37;2;00011 

Artigo Original

IMPACTO DOS CORRELATOS DA ATIVIDADE FÍSICA NA PRESENÇA ISOLADA E COMBINADA DE NÍVEL INSUFICIENTE DE ATIVIDADE FÍSICA E ELEVADO TEMPO DE TELA EM ADOLESCENTES

Thiago Silva Piolaa  * 
http://orcid.org/0000-0002-6081-0510

Eliane Denise Araújo Bacila 
http://orcid.org/0000-0002-8672-395X

Michael Pereira Silvaa 
http://orcid.org/0000-0002-7628-3997

Ana Beatriz Pacíficoa 
http://orcid.org/0000-0001-9719-0792

Edina Maria de Camargoa 
http://orcid.org/0000-0003-2127-2606

Wagner de Camposa 
http://orcid.org/0000-0003-3979-1017

aUniversidade Federal do Paraná, Curitiba, PR, Brasil.


RESUMO

Objetivo:

Identificar o impacto dos correlatos da atividade física (AF) com a presença isolada e a combinada da prática insuficiente de AFs e do elevado tempo de tela em adolescentes.

Métodos:

Estudo transversal, representativo, com amostra de 786 adolescentes (16,2±1,1 anos; 53,9% de meninas) selecionados aleatoriamente nas escolas de São José dos Pinhais, PR. Foram analisados: sexo, estado nutricional, classe econômica e maturação sexual. Foram mensurados o nível de AF e o tempo de tela. As associações foram testadas com a regressão de Poisson e a fração atribuível populacional (FAP) verificou o impacto dos correlatos na presença combinada do nível insuficiente de AF e do elevado tempo de tela pela razão de prevalência (RP).

Resultados:

Foram considerados insuficientemente ativos 84,7% (n=666), com elevado tempo de tela, 96,4% (n=758), e 82,1% (n=645) dos adolescentes apresentaram a presença combinada desses comportamentos. O sexo feminino e a classificação econômica elevada estiveram positivamente associados aos níveis insuficientes de AF (RP=1,19; intervalo de confiança de 95% [IC95%] 1,12-1,27; FAP=15,97 - feminino/ajustado; RP=1,1; IC95% 1,01-1,19; FAP=9,09 - classe elevada/ajustado). O primeiro também se apresentou positivamente associado ao elevado tempo de tela após os ajustes (RP=1,18; IC95% 1,10-1,27; FAP=15,25) e mostrou-se associado positivamente à presença combinada desses comportamentos (RP=1,18; IC95% 1,10-1,27), com um impacto de 15,25% sobre essas condutas.

Conclusões:

Correlatos da AF podem ter impacto sobre o nível insuficiente de AFs e elevado tempo de tela, quando investigados de formas isolada e combinada, principalmente em relação às meninas.

Palavras-chave: Atividade motora; Estilo de vida sedentário; Inatividade física

ABSTRACT

Objective:

To identify the impact of physical activity correlates with the isolated and combined presence of insufficient physical activity and high screen time among adolescents.

Methods:

A cross-sectional representative study was carried out with a sample of 786 adolescents (16.0±1.0 years; 53.9% girls) randomly selected in the schools of São José dos Pinhais, Paraná, Southern Brazil. The physical activity correlates analyzed were sex, nutritional status, economic class and sexual maturation. Physical activity level and screen time were measured and classified according to reference criteria. The associations were tested with Poisson regression and the population attributable fraction (PAF) verified the impact of correlates on the combined presence of insufficient level of physical activity and high screen time by the prevalence ratio (PR).

Results:

Among the studied adolescents, 84.7% (n=666) were considered insufficiently active, 96.4% (n=758) reported high screen time and 82.1% (n=645) presented the combined presence of these behaviors. The female sex and the high economic status were positively associated with the insufficient level of physical activity (PR=1.19; 95% confidence interval - 95%CI 1.12-1.27; PAF=15.97 - female/adjusted; PR=1,1; 95%CI 1,01-1,19; PAF=9,09 - high/adjusted class). The female sex also was positively associated to high screen time after adjustments (PR=1.18; 95%CI 1.10-1.27; PAF=15.25). The female sex was positively associated with the combined presence of these behaviors (PR=1.18; 95%CI 1.10-1.27) with a 15.25% impact on these behaviors.

Conclusions:

Physical activity correlates can have an impact on the insufficient level of physical activity and high screen time, especially among girls.

Keywords: Motor activity; Sedentary lifestyle; Physical inactivity

INTRODUÇÃO

A atividade física (AF) é um comportamento complexo e influenciado por diversos aspectos.1,2 Na última década, cresceu o interesse em identificar variáveis que possam explicar a aderência e manutenção da prática de AF a fim de promover intervenções mais específicas e efetivas que contemplem múltiplos níveis de influência.1,2 Nesse contexto, os correlatos da AF, tais como sexo, estado nutricional, classe econômica e maturação biológica, têm sido amplamente analisados e são aqueles que mais bem têm explicado as variações nos níveis de AF em adolescentes.1,3

Diversos fatores afetam as práticas de AF, especialmente ao ar livre, entre eles o crescente processo de urbanização, a redução de espaços públicos para esse tipo de atividade, o aumento da violência, a dependência tecnológica e as diversas facilidades obtidas com a modernização.4 Em face a essas mudanças, observa-se a transição das AF realizadas predominantemente ao ar livre para as desenvolvidas dentro de casa, as quais aparentam ser mais seguras. Por outro lado, atividades dentro de casa podem levar a estilos de vida mais sedentários e ao tempo excessivo de tela.5 Comportamentos sedentários e/ou com tempo excessivo de tela têm sido relatados em pesquisas com adolescentes - por exemplo, a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PENSE) indicou que mais da metade dos adolescentes do 9º ano permanecem três horas ou mais em atividades sedentárias, por exemplo, assistindo televisão, usando computador, jogando videogame ou fazendo outras atividades sentados.6

Compreender os correlatos com a prática insuficiente de AF e o elevado tempo de tela, de maneira isolada (prática insuficiente de AF ou elevado tempo de tela) e combinada (prática insuficiente de AF e elevado tempo de tela), é um passo importante, uma vez que os estudos têm investigado essas variáveis apenas de maneira isolada.7,8 Sabe-se que os dois comportamentos possuem correlatos em comum e, de forma isolada, apresentam impacto para a saúde, como o aumento dos riscos de desenvolvimento de doenças crônicas e de morte.9 É possível que a combinação de ambos os hábitos apresente um malefício maior em relação ao impacto na saúde, quando comparado com análises isoladas. Mas, até o momento, as investigações da literatura têm sido apresentadas de maneira isolada. Com base nisso, o objetivo deste estudo foi identificar o impacto dos correlatos da AF, com a presença isolada e a combinada, da prática insuficiente de AF e do elevado tempo de tela em adolescentes de São José dos Pinhais, PR. Os resultados desta pesquisa podem contribuir para a compreensão do impacto que os correlatos da AF possuem sobre a presença combinada de níveis insuficientes de AF e elevado tempo de tela, além de fornecer subsídios para o planejamento e a avaliação de intervenções com enfoque na promoção de AF10 para essa faixa etária.

MÉTODO

Estudo transversal, com uma amostra representativa de adolescentes matriculados na rede pública de ensino de São José dos Pinhais, PR. O município, de porte médio, faz parte da região metropolitana de Curitiba e é o sexto maior do estado, com uma população estimada em 302.759 habitantes. O estudo seguiu as normas de pesquisa envolvendo seres humanos do Conselho Nacional de Saúde (Resolução nº 466/2012) e foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Paraná (CAAE: 36759414.0.0000.0102).

O cálculo amostral a priori considerou uma associação de 1,411 entre baixos níveis de AF e alto tempo de tela, uma prevalência de insuficientemente ativos de 50%,3 um nível de confiança de 95% (IC95%) (α=0,05), com um poder de 80% (β=0,20), resultando em uma amostra mínima de 486 sujeitos, com uma chance de rejeitar corretamente a hipótese nula em 95%. Entretanto, com um acréscimo de 30% para possíveis perdas e recusas, a amostra mínima necessária para o estudo foi estimada em 632 sujeitos.

De posse do n necessário para o estudo, foram estabelecidos três estágios para a coleta dos dados, sendo:

  1. Seleção de todas as escolas que ofertavam o ensino médio matutino.

  2. Escolha, de forma aleatória simples, por sorteio, de uma turma de cada série do ensino médio.

  3. Convite a todos os alunos da classe para participarem voluntariamente do estudo (n=850).

A coleta dos dados foi realizada de maneira coordenada em sala de aula por avaliadores previamente treinados.

No total, foram avaliados 850 adolescentes, porém foram excluídos aqueles que apresentaram limitações físicas e/ou cognitivas que limitassem a prática de AF (informados pelo escolar) (n=2) ou que reportaram estágio maturacional pré-púbere (n=26). Foram considerados como perda amostral aqueles adolescentes que não entregaram o termo de consentimento livre e esclarecido assinado pelos pais ou responsáveis, se negaram a participar do estudo ou ainda faltaram no dia da coleta de dados (n=36). Sendo assim, a amostra final da pesquisa foi de 786 sujeitos, o que possibilita identificar razões de prevalências (RPs) acima de 1,24 como risco e abaixo de 0,78 como proteção, em prevalências acima de 50% para os suficientemente ativos, com um poder de 80% de chances de rejeitar corretamente a hipótese nula.

As variáveis sexo e idade foram autorreportadas pelos adolescentes e categorizadas em masculino e feminino ou, para a idade, tratadas de forma contínua. O nível de AF foi estimado pelo preenchimento de um questionário para a medida de AF em adolescentes, em sua versão adaptada e validada para a população brasileira.12 Esse questionário apresenta coeficiente de correlação intraclasse (CCI) de 0,88, correlação de Spearman de 0,62 (p<0,001) e índice Kappa de 0,59. Os adolescentes reportaram a frequência semanal e a duração na participação em 22 tipos de AF, com intensidades moderadas a vigorosas na última semana. O escore da atividade foi calculado como a soma do produto da frequência semanal pelo volume, em minutos, despendido em cada atividade. Para a análise, foram considerados insuficientemente ativos os adolescentes com um volume semanal de AFs menor do que 420 minutos.13

O tempo de tela foi estimado por meio do Questionário de Atividades Sedentárias para Adolescentes (QASA),14 em sua versão validada para a população brasileira.15 Entretanto, para este estudo, foram abordadas apenas as alternativas referentes ao tempo de tela em horas e/ou minutos durante cada dia de típica semana e fim de semana (CCI=0,90; IC95% 0,86-0,93), sendo considerado como dotados de elevado tempo de tela os adolescentes que relataram um tempo ≥2 horas por dia nessas atividades.16

Para avaliar o estado nutricional, primeiramente foi realizada a mensuração da massa corporal total, com uma balança digital portátil da marca PLENNA (modelo Acqua, São Paulo, Brasil), com resolução de 100 g. Posteriormente, a estatura foi mensurada com fita métrica fixada à parede com precisão de 0,1 cm.17 De posse desses dados, foi possível calcular o índice de massa corpórea (IMC), a partir da razão entre a massa corporal e a estatura ao quadrado [massa corpórea (kg)/estatura (m)2], e posterior classificação dos adolescentes de acordo com os pontos de corte propostos por Conde e Monteiro.18 Para fins de análise, os adolescentes foram divididos em “eutróficos” e “excesso de peso” (sobrepeso e obesidade).

A classe econômica dos adolescentes foi avaliada com base em número de utensílios domésticos na residência, presença de empregada mensalista e escolaridade do responsável financeiro pelo domicílio.19 Para as análises, essa variável foi classificada em três categorias: “baixa” (classes C e D), “intermediária” (classes B1 e B2) e “elevada” (classes A1 e A2).

O estágio de maturação sexual foi determinado por meio do método proposto por Tanner,20 no qual as etapas maturacionais se dividem entre 1 (pré-púbere), 2, 3, 4 (púbere) e 5 (pós-púbere). A classificação nos estágios foi autoavaliada pelos adolescentes, por intermédio da análise da pilosidade pubiana por meio de imagens.21,22 Entretanto, no presente estudo, foram considerados apenas os adolescentes pertencentes aos estágios púbere e pós-púbere.

A descrição da amostra foi feita por distribuição de frequências absolutas e relativas e suas possíveis diferenças foram verificadas pelo teste do qui-quadrado. Para responder aos objetivos propostos, regressões de Poisson distintas, com variância robusta, foram utilizadas, visando identificar possíveis associações de sexo, estado nutricional, classe econômica e maturação sexual com a presença isolada e a combinada do nível insuficiente de AF e do excessivo tempo de tela, sendo que, para a análise da presença combinada, uma nova variável foi criada, contemplando a presença de ambas as condições (nível de AF abaixo do recomendado13 e elevado tempo de tela).16 As variáveis entraram no modelo pelo método de entrada forçada. Para os fatores associados às presenças isolada e combinada do nível insuficientemente ativo e do elevado tempo de tela, foi calculada a fração atribuída populacional (FAP), a partir da RP, por meio da equação FAP=RP-1/RP.23 Todas as análises foram realizadas no software Statistical Package for the Social Sciences for Windows (SPSS®), versão 24.0, com um nível de significância estabelecido em 5%.

RESULTADOS

A amostra final foi composta de 786 adolescentes (53,9% de meninas), com idade média de 16,2±1,1 anos. A maior proporção de adolescentes apresentou peso normal (82,7%), era pertencente à classe econômica intermediária (57,6%), com estágio maturacional púbere (68,4%), insuficientemente ativos (84,7%), com elevado tempo de tela (96,4%) e com presença combinada de nível insuficiente de AF e elevado tempo de tela (82,1%) (Tabela 1). A Figura 1 apresenta as prevalências isoladas e combinadas dos comportamentos de risco nos adolescentes.

Tabela 1 Correlatos e presenças isolada e combinada do nível insuficiente de atividades físicas e elevado tempo de tela. São José dos Pinhais, PR, Brasil (n=786). 

Categoria Todos Meninos Meninas p-valor
n % n % n %
Aspectos sociodemográficos
Sexo Masculino - - 362 46,1 - -
Feminino - - - - 424 53,9
Classe econômica Elevado 238 30,3 123 34 115 27,2 0,003**
Intermediário 452 57,6 200 55,2 252 59,6
Baixo 95 12,1 39 10,8 56 13,2
Aspectos biológicos
Estado nutricional Eutrófico 650 82,7 293 80,9 357 84,2 0,260
Excesso de peso 136 17,3 69 19,1 67 15,8
Maturação sexual Púbere 538 68,4 214 59,1 324 74,4 0,001*
Pós-púbere 248 31,6 148 40,9 100 23,6
Presença isolada Insuficientemente ativo 666 84,7 278 76,8 388 91,5 0,001*
Elevado tempo de tela 758 96,4 349 96,4 409 96,5 1,002
Presença combinada Insuficientemente ativo+elevado tempo de tela 645 82,1 271 74,9 374 88,2 0,001*

*p-valores obtidos usando o teste do qui-quadrado para correção de continuidade; **p-valores obtidos usando o teste do qui-quadrado para tendência linear.

Figura 1 Prevalências isolada e combinada do nível insuficiente de atividades físicas e do elevado tempo de tela em adolescentes. São José dos Pinhais, PR, Brasil (n=786). 

Na Tabela 1, são apresentadas as características descritivas dos correlatos e das presenças isolada e combinada de nível insuficiente de AF e elevado tempo de tela. Foram observadas diferenças significantes entre os sexos para a classe econômica (p=0,003), para a maturação sexual (p=0,001), para a prática de AFs (p=0,01) e para a presença combinada de comportamentos de risco (p=0,001).

Na Tabela 2, são apresentados os correlatos associados ao nível insuficiente de AFs em adolescentes. Tanto na análise bruta quanto na ajustada, o sexo feminino e a elevada classificação econômica estiveram positivamente associados aos níveis insuficientes de AF (RP=1,19; IC95% 1,12-1,27; FAP=15,97 - feminino/ajustado; RP=1,1; IC95% 1,01-1,19; FAP=9,09 - classe elevada/ajustado). O sexo feminino também se apresentou positivamente associado ao elevado tempo de tela (RP=1,18; IC95% 1,10-1,27; FAP=15,25), sendo essa associação verificada apenas após os ajustes pelas demais variáveis presentes no modelo (Tabela 3).

Tabela 2 Correlatos da atividade física associados ao nível insuficiente de atividades físicas em adolescentes. São José dos Pinhais, PR, Brasil (n=786).  

Categoria Insuficientemente ativo
Análise bruta Análise ajustada
n % RP IC95% FAP (%) p-valor RP IC95% FAP (%) p-valor
Aspectos sociodemográficos
Sexo Masculino 423 53,9 1 - - - 1 - - -
Feminino 362 46,1 1,15 1,10-1,21 13,04 0,001 1,19 1,12-1,27 15,97 0,001
Classe econômica Baixo 95 12,1 1 - - - - - - -
Intermediário 452 57,6 1,02 0,96-1,08 1,96 0,519 1,01 0,94-1,08 0,99 0,742
Elevado 238 30,3 1,10 1,03-1,19 9,09 0,005 1,10 1,01-1,19 9,09 0,016
Aspectos biológicos
Estado nutricional Eutrófico 136 17,3 1 - - - 1 - - -
Excesso de peso 649 82,7 1,04 0,98-1,10 3,85 0,172 1,06 0,99-1,13 5,66 0,094
Maturação sexual Púbere 538 65,8 1 - - - - - - -
Pós-púbere 247 31,5 0,99 0,94-1,05 0,959 1,03 0,97-1,10 2,91 0,299

RP: razão de prevalência obtida a partir da regressão de Poisson com variância robusta; IC95%: intervalo de confiança de 95%; FAP: fração atribuível populacional. † FAP não calculada para RP inferiores a 1,00.

Tabela 3 Correlatos da atividade física associados ao elevado tempo de tela em adolescentes. São José dos Pinhais, PR, Brasil (n=786). 

Categoria Tempo de tela
Análise bruta Análise ajustada
n % RP IC95% FAP (%) p-valor RP IC95% FAP (%) p-valor
Aspectos sociodemográficos
Sexo Masculino 423 53,9 1 - - - 1 - - -
Feminino 362 46,1 1,00 0,97-1,02 0,00 0,973 1,18 1,10-1,27 15,25 0,001
Classe econômica Baixa 95 12,1 1 - - - 1 - - -
Intermediária 452 57,6 1,01 0,98-1,04 0,99 0,472 1,01 0,94-1,09 0,99 0,472
Elevada 238 30,3 1,00 0,9-1,04 0,00 0,997 1,08 0,98-1,19 7,41 0,983
Aspectos biológicos
Estado nutricional Eutrófico 136 17,3 1 - - - 1 - - -
Excesso de peso 649 82,7 0,98 0,94-1,02 0,344 1,04 0,96-1,13 3,85 0,357
Maturação sexual Púbere 538 65,8 1 - - - 1 - - -
Pós-púbere 247 31,5 1,01 0,99-1,04 0,99 0,201 1,04 0,97-1,12 3,85 0,224

RP: razão de prevalência obtida a partir da regressão de Poisson com variância robusta; IC95%: intervalo de confiança de 95%; FAP: fração atribuível populacional; † FAP não calculada para RP inferiores a 1,00.

Na Tabela 4, são apresentados os correlatos associados à presença combinada de nível insuficiente de AF e elevado tempo de tela em adolescentes. Em relação às análises sobre os fatores associados com a presença combinada dos comportamentos de risco, as brutas indicaram associações com sexo feminino e classe econômica elevada. Quando ajustado, apenas o sexo feminino apresentou associação positiva com a presença combinada de comportamentos de risco (RP=1,18; IC95% 1,10-1,27).

Tabela 4 Correlatos da atividade física associados à presença combinada do nível insuficiente de atividades físicas e do elevado tempo de tela em adolescentes. São José dos Pinhais, PR, Brasil (n=786). 

Categoria Presença combinada
Análise bruta Análise ajustada
n % RP IC95% FAP (%) p-valor RP IC95% FAP (%) p-valor
Aspectos sociodemográficos
Sexo Masculino 423 53,9 1 - - - 1 - - -
Feminino 362 46,1 1,17 1,09-1,26 14,53 0,001 1,18 1,10-1,27 15,25 0,001
Classe econômica Baixo 95 12,1 1 - - - 1 - - -
Intermediário 452 57,6 1,02 0,94-1,10 1,96 0,525 1,01 0,94-1,09 0,99 0,714
Elevado 238 30,3 1,10 1,00-1,22 9,09 0,039 1,08 0,98-1,19 7,41 0,086
Aspectos biológicos
Estado nutricional Eutrófico 136 17,3 1 - - - 1 - - -
Excesso de peso 649 82,7 1,03 0,95-1,12 2,91 0,372 1,04 0,96-1,13 3,85 0,257
Maturação sexual Púbere 538 65,8 1 - - - 1 - - -
Pós-púbere 247 31,5 1,01 0,94-1,08 0,99 0,783 1,04 0,97-1,12 3,85 0,227

RP: razão de prevalência obtida a partir da regressão de Poisson com variância robusta; IC95%: intervalo de confiança de 95%; FAP: fração atribuível populacional.

A partir das análises ajustadas sobre as associações entre os correlatos e a prática insuficiente de AFs, observou-se, para o sexo feminino, FAP=15,97 e, para a classe econômica elevada, FAP=9,09. Em relação ao tempo de tela, o sexo feminino apresentou FAP=15,25. Nas análises com a presença combinada do comportamento de risco, o sexo feminino apresentou uma FAP=15,25.

DISCUSSÃO

Este estudo apresenta uma medida de impacto de correlatos da AF para o nível insuficiente dela e o elevado tempo de tela. A medida de impacto utilizada foi a FAP, a qual possibilita ir além das medidas de associação, podendo estimar as consequências e a repercussão de uma exposição em relação a um desfecho, assim como a proporção de novos casos que não ocorreriam sem a exposição.24 Neste estudo, a FAP foi estimada para a proporção de novos casos de adolescentes com a presença isolada do nível insuficiente de AF ou de um elevado tempo de tela, além da presença combinada desses dois comportamentos, fatos ainda não abordados pela literatura, a qual se limita a analisar, de forma isolada, correlatos da AF com o nível de AF3 e o tempo tela,5,25 também se limitando a medidas de associação.

Os resultados da presente pesquisa indicaram associações positivas do sexo feminino para a prática insuficiente de AF (RP=1,19; IC95% 1,12-1,27), para o elevado tempo de tela (RP=1,18; IC95% 1,10-1,27) e para a presença combinada desses comportamentos (RP=1,18; IC95% 1,10-1,27). As análises da FAP indicam que, em relação aos meninos, o sexo feminino apresenta uma probabilidade 15,97% maior de não cumprir as recomendações para a prática de AF, 15,25% de apresentar um elevado tempo de tela, além da presença combinada desses comportamentos. Está claro que, durante a adolescência, há um declínio do nível de AF26 e um aumento do tempo em atividades sedentárias,27 sendo tais mudanças de comportamento mais associadas ao sexo feminino.26 Outros estudos, inclusive, também apontam que as meninas apresentam mais frequentemente a combinação entre nível insuficiente de AF e elevado tempo de tela,25 o que evidencia que esses hábitos são mais alarmantes em relação às meninas.28 Uma outra explicação é que meninas relatam receber menos apoio social de suas famílias,25 além do fato de culturalmente serem mais incentivadas a atividades familiares dentro de casa.29

Tais fatores poderiam explicar a associação positiva observada entre as meninas e a presença combinada do nível insuficiente de AFs e do elevado tempo de tela, evidenciando a hipótese de que estas, além de apresentarem menores níveis de AF em comparação aos meninos,26,28 também se mostram mais adeptas a atividades sedentárias,30 o que torna os achados mais preocupantes, considerando-se o fato de que comportamentos de risco adotados na adolescência podem se estender à vida adulta,31 fase na qual baixos níveis de AF aumentam em 10,1% a probabilidade de mulheres terem câncer de mama e em 9,4% a probabilidade de homens e mulheres morrerem por diferentes causas de morte, de acordo com as análises da FAP dos achados de Lee et al.32

No presente estudo, pertencer à classe econômica elevada mostrou-se positivamente associado com o nível insuficiente de AF (RP=1,10; IC95% 1,01-1,19), resultados diferentes dos observados por Barbosa Filho,3 que encontraram associações da classe econômica com o excessivo tempo de tela, mas não com o nível insuficiente de AF. As análises da FAP explicam 9,09% deste ocorrido, o que parece já estar claro para a literatura,33 pois análises semelhantes em países desenvolvidos também observaram que o baixo nível de AF aumentariam em 11,4% as probabilidades de crianças se tornarem obesas.34 O fato é que, embora uma maior condição socioeconômica pareça estar associada positivamente a menores níveis de AF, esse comportamento difere entre países de alta e baixa-média renda,33 o que implica diretamente nas escolhas dos adolescentes e, consequentemente, exige abordagens diferentes na tentativa de melhorar esse quadro.35

Outro ponto é que, no presente estudo, a maioria das meninas é púbere (74,4%), e essa fase está associada com estirão de crescimento e mudanças na composição corporal (aumento do depósito de gordura) e nas proporções (desenvolvimento mamário, ampliação dos quadris), com desconforto associado ao ciclo menstrual regular e à redução dos níveis de hemoglobina no sangue, o que pode dificultar o desempenho motor e fisiológico e favorecer a adoção de atividades de lazer mais sedentárias,36 embora a maturação sexual não tenha se mostrado associada com a presença isolada ou combinada do nível insuficiente de AF e elevado tempo de tela.

O estudo apresentou algumas limitações. Uma delas seria a utilização de medidas autorrelatadas para avaliar os comportamentos de saúde. Embora amplamente utilizados por estudos epidemiológicos,3,11 os métodos autorreportados apresentam limitações quanto à sua acurácia e tendem a superestimar as respostas. Na presente pesquisa, também não foi possível contar com adolescentes de escolas particulares, o que restringe, em partes, a extrapolação dos dados, indicando cautela na interpretação dos resultados. Outra limitação seria o fato de o estudo ser de delineamento transversal, não sendo possível estabelecer uma relação de causa e efeito, o que pode levar à causalidade reversa.

Esta investigação apresenta pontos fortes que merecem ser destacados. A pesquisa estimou o impacto de correlatos da AF nas presenças isolada e combinada de baixos níveis de AF e elevado tempo de tela em amostra representativa de adolescentes escolares de São José dos Pinhais, PR. Outro ponto forte do estudo seria o tamanho amostral adequado para as análises de associação entre as variáveis. Além disso, foram utilizados instrumentos previamente testados e que apresentam qualidades psicométricas adequadas para aplicação em escolares na faixa etária de interesse. Futuras investigações poderiam avaliar, de forma combinada, o impacto que baixos níveis de AF e elevado tempo de tela causam na saúde da população, assim como em relação ao aparecimento de doenças. Análises que incluam variáveis psicossociais nos comportamentos de risco ainda podem mostrar resultados interessantes, bem como a inclusão de outros comportamentos também prejudiciais à saúde.

Em suma, os achados indicam que os correlatos da AF podem ter impacto sobre o nível insuficiente de AFs e elevado tempo de tela, principalmente em relação às meninas. De posse destes achados, as intervenções e ações visando à promoção da AF devem considerar estratégias para diminuir o tempo de tela das meninas e aumentar sua participação em AFs. Outro fato a ser considerado em ações para promover a AF são os adolescentes de elevada classe econômica.

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Financiamento O estudo não recebeu financiamento.

Recebido: 25 de Setembro de 2017; Aceito: 11 de Janeiro de 2018; Publicado: 18 de Janeiro de 2019

*Autor correspondente. E-mail: tspthiago@hotmail.com (T.S. Piola).

Conflito de interesses Os autores declaram não haver conflito de interesses.

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