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Paidéia (Ribeirão Preto)

Print version ISSN 0103-863XOn-line version ISSN 1982-4327

Paidéia (Ribeirão Preto) vol.16 no.35 Ribeirão Preto Sept./Dec. 2006

https://doi.org/10.1590/S0103-863X2006000300007 

PESQUISAS EMPÍRICAS

 

A equação simbólica como recurso terapêutico: contribuições para análise do questionário desiderativo

 

The symbolic equation as a therapeutical resource: contributions for the analysis of the desiderative questionnaire

 

 

Nicole Medeiros Guimarães; Sonia Regina Pasian1; Valéria Barbieri

Universidade de São Paulo - FFCLRP

 

 


RESUMO

O Questionário Desiderativo é um instrumento projetivo de avaliação psicológica que mobiliza, entre outros aspectos, a capacidade de simbolização do examinando. A ocorrência de equação simbólica nas respostas a esta técnica constitui, tradicionalmente, uma "falha" na utilização instrumental da Identificação Projetiva, sendo convencionalmente interpretada como indicador psicopatológico. No presente trabalho, são apresentadas respostas fornecidas por adolescentes ao Desiderativo, sendo que em algumas foi possível detectar um adequado processo de simbolização dos examinandos, enquanto noutras encontrou-se falhas por equação simbólica. A partir de contribuições psicanalíticas de Milner e Winnicott, foi possível rever a forma tradicional de interpretação destes fenômenos, lançando-lhes um olhar menos patologizante, e relativizando seu caráter sinalizador de empobrecimento das funções egóicas de simbolização. Ponderou-se ainda sobre as possibilidades terapêuticas do surgimento destes momentos de não-diferenciação diante de técnicas projetivas, nomeadamente no Questionário Desiderativo, podendo-se ampliar a compreensão psicodinâmica dos indivíduos submetidos a esse instrumento projetivo

Palavras-chave: Equação Simbólica, Questionário Desiderativo, Psicodiagnóstico, Winnicott, Psicanálise.


ABSTRACT

The Desiderative Questionnaire is a projective instrument of psychological evaluation that mobilizes, among others aspects, the examined simbolization capacity. The occurrence of symbolic equation in this technique answers constitutes, traditionally, a "flaw" in the Projective Identification instrumental use, being conventionally interpreted as a psychopathological indication. Answers given by adolescents to the Desiderative are presented, and in part of them it was possible to detect an appropriate simbolization process among examined ones, while in others faults by symbolic equation were found. Throught the psychoanalytical contributions of Milner and Winnicott, it was possible to re-examine the tradicional interpretation of these phenomena, considering them less pathological, and relativizing its feature of the ego's simbolization functions impoverishment. It was also examined the therapeutical possibilities of the appearance of these moments of not-differentiation towards projective techniques, specifically the Desiderative Questionnaire. These contributions may offer a wider psychodinamical understanding over the individuals investigated by this projective technique.

Keywords: Symbolic Equation, Desiderative Questionnaire, Psycho-diagnosis, Winnicott, Psychoanalysis.


 

 

Introdução

O Questionário Desiderativo é um instrumento de avaliação psicológica que tem se revelado, na prática clínica, como meio importante de acesso a informações referentes ao funcionamento psicodinâmico dos indivíduos a ela submetidos (Ocampo, Arzeno & Piccolo, 1985; Brêga, Frazatto & Loureiro, 2001). Informa sobre características de personalidade, como defesas, conflitos básicos, força do ego, qualidade dos afetos, tipo de relações objetais, entre outras (Nijamkin & Braude, 2000). A riqueza das informações fornecidas, aliada a fatores como economia de tempo, possibilidade de aplicação a um amplo espectro da população e a não requisição de habilidades específicas (motoras, sensoriais) para respondê-lo, tornam-no um instrumento bastante valioso e promissor para o campo da avaliação psicológica.

Apesar destas características incentivadoras à sua utilização, o Questionário Desiderativo encontra-se atualmente com parecer desfavorável emitido pelo Conselho Federal de Psicologia, devido à falta de estudos normativos e de validade voltados para o contexto sócio-cultural brasileiro. Com o objetivo de reverter esta situação, diversos pesquisadores têm empreendido esforços na direção de estudar o instrumento, em busca de fundamentos científicos que possam subsidiar adequadamente a utilização deste instrumento pelos psicólogos brasileiros.

Dentre os estudos nacionais com o Questionário Desiderativo, em período mais recente, pode-se destacar alguns para mapear a riqueza das possibilidades informativas do instrumento. Tardivo (1999) avaliou profissionais da área da saúde que lidam diretamente com a morte e o sofrimento, estudando suas condições emocionais. Por sua vez, Gil, Tardivo e Fráguas (2002) avaliaram a vivência de depressão em idosos, recorrendo a entrevistas clínicas e ao Questionário Desiderativo. Souza e Tardivo (2002) procuraram conhecer o funcionamento psicodinâmico de pacientes do sexo masculino com esquizofrenia paranóide, apontando significativas contribuições para a prática clínica, alcançadas por meio do Desiderativo. No mesmo ano, Freitas e Tardivo (2002) publicaram um estudo voltado ao exame da dinâmica psíquica de mulheres portadoras de cegueira congênita, recorrendo ao Questionário Desiderativo e à entrevista psicológica, buscando indicadores de validade para esta técnica projetiva.

Alguns anos depois, Jardim-Maran (2004) avaliou adolescentes em momento de escolha profissional, em busca de seus interesses e de suas características de personalidade, recorrendo à contraposição dos dados do BBT-Br e do Questionário Desiderativo. No ano seguinte, Amaro (2005), em sua tese de doutorado, avaliou prospectivamente as repercussões emocionais em pessoas portadoras de Melanoma uveal e indicação cirúrgica. Dentre os instrumentos utilizados pela autora, constava o Questionário Desiderativo.

Em evento científico ocorrido mais recentemente, Gil e Tardivo (2006) apresentaram um trabalho no qual foram ressaltadas possibilidades de utilização do Desiderativo para além de objetivos diagnósticos, adentrando a temática do Psicodiagnóstico Interventivo. Paulo (2006), no mesmo evento, apresentou indicadores em direção semelhante, aplicando o Desiderativo na abordagem do Psicodiagnóstico Interventivo com pacientes com diagnóstico de depressão.

A partir destas breves passagens, pode-se perceber que diversos pesquisadores brasileiros têm empreendido esforços na direção de desenvolver estudos com o Questionário Desiderativo, em busca de sua adequada fundamentação científica. Desta forma, ele tem tido sua importância reconhecida como relevante instrumento de avaliação psicológica, sendo bastante utilizado na prática clínica cotidiana.

Dentre as informações relacionadas aos psicodinamismos da personalidade, a interpretação do Desiderativo, segundo Nijamkin e Braude (2000), permite a verificação da qualidade da utilização das chamadas defesas instrumentais. Estas defesas são aquelas necessárias para o indivíduo responder adequadamente às solicitações e às instruções da técnica, consideradas independentes do repertório de defesas próprias da personalidade de cada pessoa. Essas defesas instrumentais são, na concepção destas autoras, a Dissociação, Identificação Projetiva e Racionalização. Elas indicam o nível de força do ego, o grau de flexibilidade e a capacidade de adaptação do indivíduo.

Tomando-se em consideração, especificamente, a Identificação Projetiva como estratégia defensiva,  seu conceito foi inserido no meio psicanalítico inicialmente por Melanie Klein, em 1946, em seu artigo "Notas sobre alguns mecanismos esquizóides", sendo revisado posteriormente por outros autores, como Bion (1967/1988). Desde então esse conceito vem sendo amplamente estudado, comentado e utilizado nos meios acadêmicos, assim como na prática clínica de psicólogos e psicanalistas. Nas palavras de Melanie Klein:

"Muito do ódio contra partes do "Self" é agora dirigido contra a mãe. Isto leva a uma forma particular de identificação que estabelece o protótipo de uma relação de objeto agressiva. Sugiro o termo "Identificação Projetiva" para estes processos. Quando a projeção é derivada principalmente do impulso do bebê de danificar ou controlar a mãe, ele a sente como um perseguidor." (Klein, 1946/1991, p. 27).

Assim, a Identificação Projetiva consistiria em um mecanismo arcaico, relacionado com esforços que o indivíduo empreende inconscientemente na tentativa de exercer controle sobre seus objetos internos. Segundo Segal (1983), através da Identificação Projetiva, os objetos internos do indivíduo são projetados para fora e identificados com partes do mundo externo que passam a representá-los. Estas primeiras projeções e identificações seriam o início do processo de formação dos símbolos. Para a autora, o simbolismo seria um elo entre a fantasia inconsciente e o funcionamento mental superior, alcançado pela elaboração dos desejos frente ao teste de realidade, diferenciando gradualmente mundo interno e externo.

Nesta direção, no contexto específico da avaliação psicológica de base psicodinâmica, a Identificação Projetiva é concebida como estratégia defensiva inconsciente, relacionada, entre outros aspectos, aos processos de simbolização empreendidos pelo examinando. Assim, conhecer as formas pelas quais se dão os processos de simbolização e suas relações com o manejo da ansiedade é fundamental para a adequada compreensão dos indivíduos.

Em processos avaliativos efetuados com o Questionário Desiderativo, a Identificação Projetiva é compreendida como expressão da capacidade do indivíduo representar, por meio da palavra, idéias ou sentimentos, escolhendo um símbolo verbal e se identificando com ele, mediatizando ação e pensamento. Analisando o conteúdo simbólico dos elementos escolhidos nas catexes, percebe-se que, neste movimento, o examinando precisa discriminar o que mais desejaria manter em seu mundo interno (catexes positivas) e aquilo que considera mais desagradável (catexes negativas), e depois escolher algo do mundo externo que condense e expresse esses elementos (Nijamkin & Braude, 2000).

Pode-se, então, por meio do Questionário Desiderativo, analisar se esta defesa foi mobilizada e utilizada com sucesso, na medida em que o indivíduo responde adequadamente às instruções da técnica, recorrendo a representações verbais para simbolizar idéias e sentimentos. Isto caracterizaria fluidez e boa integração dos processos primário e secundário de pensamento (Nijamkin & Braude, 2000).  Neste raciocínio, ocorreria o fracasso na identificação projetiva nos seguintes casos:

a)Equação simbólica: o símbolo é igualado ao objeto primordial que despertou a carga afetiva, e o símbolo se confunde com o objeto originário.

b)Seleção de mais de um símbolo por resposta: indicativo de escolhas fragmentadas.

c)Símbolos desagregados: sugestivo de dificuldades na delimitação eu e não-eu.

d)Perseveração de reino: denota rigidez nos processos de pensamento e na utilização da identificação projetiva.

As consignas do Questionário Desiderativo provocam um ataque imaginário à identidade da pessoa examinada. Pede-se que ela se aniquile imaginariamente como pessoa, e encontre um outro objeto do mundo exterior para com ele se identificar (Cabrera, 1999). Estas instruções provocam graus diferentes de ansiedade em cada indivíduo, que precisa organizar suas forças defensivas para lidar com esta ameaça provocada pelas consignas.

Através da identificação projetiva, torna-se possível livrar-se desta ansiedade, escolhendo um elemento do mundo externo para projetar dentro dele elementos de seu mundo interno. Assim, seria estabelecida uma relação de identificação entre aspectos da personalidade da pessoa examinada e o elemento escolhido ou rejeitado nas respostas ao Desiderativo, "solucionando" o impasse colocado pelas consignas deste instrumento, e, assim, diminuindo a ansiedade. Porém, quando há falha na Identificação Projetiva por equação simbólica, e o símbolo escolhido (objeto secundário) confunde-se com o objeto simbolizado (objeto primário), o indivíduo não consegue se desvencilhar da ansiedade, pois não consegue projetá-la dentro do elemento escolhido ou rejeitado, já que este é sentido como sendo parte de seu próprio self.

Esta proposta avaliativa da Identificação Projetiva por meio do Questionário Desiderativo encontra embasamento em Segal (1983). Para esta autora, as "falhas" nos processos de Identificação Projetiva caracterizariam perdas na capacidade de simbolização do indivíduo, sugerindo empobrecimento do ego,  assumindo, desta maneira, caráter negativo.

"A equação simbólica entre o objeto original e o símbolo no mundo interno e externo é, segundo penso, a base do pensamento concreto do esquizofrênico; substitutos para os objetos originais, ou partes do eu (self), podem ser utilizados bem livremente, mas (...) praticamente não são diferentes do objeto original. Estes substitutos são sentidos e tratados como se fossem idênticos a ele. Esta não-diferenciação entre a coisa simbolizada e o símbolo é parte da perturbação da relação entre o ego e o objeto. Partes do ego e dos objetos internos são projetados no objeto e identificados com ele. A diferenciação entre o eu (self) e o objeto fica obscurecida. Então, já que uma parte do ego é confundida com o objeto, o símbolo - que é uma criação e função do ego - torna-se, por sua vez, confundido com o objeto que é simbolizado." (Segal, 1983, p. 83).

O desenvolvimento do ego e as mudanças em sua relação com os objetos são gradativas, assim como a mudança dos símbolos primitivos (denominados de equações simbólicas), para os símbolos completamente formados durante a posição depressiva. Neste ínterim, Segal (1983) comenta que a característica principal das relações objetais, quando a posição depressiva é alcançada, é que o objeto passa a ser sentido como objeto total, havendo, em conexão com isto, maior grau da percepção da diferenciação e da separação entre o ego e o objeto.

Assim, a capacidade de simbolizar adequadamente, fundamentada na identificação projetiva bem-sucedida, implica em melhores prognósticos para o examinando. Falhas nestes mecanismos são encaradas como "perturbações da relação entre o ego e o objeto", caracterizando empobrecimento das funções egóicas, associadas a um funcionamento mais característico da posição esquizo-paranóide do que da posição depressiva. Tradicionalmente, é a partir deste vértice compreensivo que se examina estes mecanismos psíquicos em avaliação psicodiagnóstica por meio do Questionário Desiderativo (Nijamkin & Braude, 2000).

No entanto, há outros caminhos a serem percorridos na forma pela qual se pode compreender os processos psíquicos subjacentes à simbolização, que por sua vez repercutem também sobre a forma pela qual se estabelecem diagnósticos e prognósticos a partir das avaliações psicodinâmicas com testes projetivos. Conforme afirma Araos (2005),  faz-se necessário compreender a partir de qual vértice teórico específico se realiza a interpretação de determinada produção decorrente de um processo de avaliação psicológica. Ainda que se trate de adotar a proposição psicanalítica para se compreender as respostas a determinado instrumento, é necessário discriminar qual linha psicanalítica está a ser utilizada, tendo-se em vista que, desde Freud, muito já se produziu, estudou e desenvolveu, originando correntes de pensamento diversas.

A possibilidade de conhecer e de aplicar diferentes olhares psicanalíticos sobre os fenômenos estudados por meio da avaliação psicológica é apontada por Araos (2005) como bastante promissora. Em seu artigo, a partir de uma resposta fornecida numa avaliação psicodiagnóstica realizada por meio do teste de Rorschach, o autor tece considerações sobre a possibilidade de relativização da interpretação dada a esta resposta, quando se lança mão de diferentes contribuições dos autores psicanalíticos referentes aos processos do pensamento e de simbolização.

Nesse trabalho, Araos (2005) utilizou contribuições de autores de uma vertente psicanalítica que enfatiza a importância da primeira infância e as vicissitudes da relação do bebê com a mãe, atribuindo grande importância ao período pre-edípico, e sua influência no desenvolvimento mental adulto (Grupo Independente). Marion Milner e Winnicott foram os principais psicanalistas citados neste trabalho referido. Na análise de Araos (2005), Milner e Winnicott teorizaram mais sobre uma psicologia do desenvolvimento e seus elementos constitutivos, superando a abordagem clássica freudiana baseada numa psicologia do conflito. Nessa mesma vertente, Safra (1999) argumenta sobre a relevância dos processos de simbolização na compreensão dos indivíduos. A seguinte passagem retrata sua forma de pensar esse tema:

"Trata-se de uma concepção do campo simbólico que vai considerar importante não tanto o significado de um determinado símbolo, mas fundamentalmente a sua possibilidade de veicular uma experiência, uma vivência. É a função simbolizante que permitirá ao indivíduo seu atravessamento nas diferentes modalidades de estar no mundo: do estado subjetivo à realidade compartilhada." Safra, 1999, p. 23).

Considerando estes suportes teóricos, e visando contribuir para o estudo das  possibilidades compreensivas dos processos de simbolização em instrumentos projetivos, buscar-se-á, no presente trabalho, articular a elas proposições conceituais psicanalíticas desenvolvidas por Marion Milner (1952/1991) e por Donald W. Winnicott (1949/1993; 1951/1993; 1954/1993). Nessa perspectiva, focalizar-se-á, sobretudo, o funcionamento da Identificação Projetiva como estratégia defensiva representativa dos processos de elaboração simbólica, conforme avaliados pelo Questionário Desiderativo, visando compreender, nesse contexto, os processos psíquicos subjacentes a eles. Em outras palavras, pretende-se contribuir para a construção futura de novas possibilidades interpretativas dos fenômenos simbólicos expressos no Desiderativo, focalizando o estudo da equação simbólica como ponto central.

Para tanto, serão examinadas respostas fornecidas por adolescentes com desenvolvimento típico (não pacientes) ao Questionário Desiderativo, que tradicionalmente compreende o mecanismo de Identificação Projetiva como recurso defensivo.

 

Método

Amostra e materiais: Foram tomadas para análise respostas ao Questionário Desiderativo fornecidas por adolescentes de ambos os sexos, de 15 a 19 anos de idade, estudantes do segundo ou terceiro anos do ensino médio de escolas públicas e particulares da cidade de Ribeirão Preto (SP) e que não apresentaram, em sua história pessoal, transtorno psiquiátrico ou psicológico, nem deficiências cognitivas e/ou sensoriais, ou seja, funcionalmente adaptados a seu contexto sócio-cultural.

Algumas respostas deste conjunto de estudantes foram selecionadas por meio de um recorte realizado a partir de um banco de dados dos pesquisadores, onde constam informações resultantes da avaliação de 120 adolescentes (material que servirá de base para futuro estudo de caráter normativo sobre o Desiderativo). Dentre o elevado número de casos, selecionou-se para o presente trabalho os protocolos de respostas produzidos por quatro adolescentes, dois do sexo masculino e dois do sexo feminino, apenas como ilustração relativa à interpretação dos processos simbólicos neste instrumento. Tratam-se, portanto, de exemplos ilustrativos, selecionados por sua clareza, a respeito das possibilidades informativas do Desiderativo sobre a questão da equação simbólica.

Procedimento: A coleta dos dados foi realizada individualmente, em local apropriado, nas escolas dos participantes, precedida da autorização por escrito dos diretores da escola e dos pais, e do preenchimento do respectivo "Termo de Consentimento Livre e Esclarecido" por parte dos envolvidos no estudo. Primeiramente foi realizada uma entrevista clínica com cada voluntário, seguida pelo Questionário Desiderativo, sendo a duração média das avaliações psicológicas de 60 minutos.

Os protocolos do Questionário Desiderativo foram codificados a partir da proposta interpretativa de Nijamkin e Braude (2000). Para o presente estudo, foram selecionadas respostas ilustrativas das diferentes formas de utilização instrumental da Identificação Projetiva, caracterizadoras tanto de um processo defensivo adequado, quanto de um falho. Essas respostas foram analisadas à luz das proposições de Marion Milner (1952/1991) e de Donald W. Winnicott (1949/1993; 1951/1993; 1954/1993), que serviram como subsídios para a compreensão dos processos psíquicos subjacentes ao mecanismo de Identificação Projetiva e formações simbólicas.

 

Resultados e discussão

A partir dos objetivos presentemente abordados, optou-se por um formato de apresentação clínica dos resultados, elegendo-se duas respostas de cada um dos quatro adolescentes selecionados, uma onde foi identificada uma adequada utilização instrumental da Identificação Projetiva, e outra na qual ocorreu falha por equação simbólica2.

As respostas assinaladas com um "+" referem-se às consignas positivas e, as assinaladas com um "-", às consignas negativas.

Resposta 1 (João):

(3+) Fogo. (Por quê?) Eu acho bonito fogo. (Por quê mais?) Eu só vejo o fogo pra destruir coisas. Ele é bonito, fica se mexendo, dançando.

Esta resposta, dada à terceira consigna positiva, é um exemplo de Identificação Projetiva bem sucedida. João conseguiu escolher aspectos do seu mundo interno que gostaria de preservar, no caso, a força, a beleza, a sedução, selecionando e projetando num elemento do mundo externo (neste exemplo, o fogo) estes seus atributos. Percebe-se ainda, nesta resposta, a presença da ambivalência em seu self, projetivamente verificada a partir da beleza atribuída ao fogo, que seduz, e o poder do mesmo, carregado de destrutividade. Por meio da identificação projetiva, estes elementos passam a ser reconhecidos por João como sendo pertencentes ao fogo, e não a ele mesmo, como se pode notar pela forma como ele racionaliza na justificativa.

Resposta 2 (João):

(4-) Uma flor. (Por quê?) Porque alguém ia me apanhar, colocar num vaso, ia durar três dias e ia ser jogado fora.

Já nesta resposta, ao escolher aspectos rejeitados e/ou temidos de seu mundo interno (elementos desintegradores), João acaba tomado pela angústia de ser arrancado de sua fonte de vida, aprisionado, morto e depois desprezado, não conseguindo separar-se totalmente do símbolo escolhido. Assim, ele confunde os atributos da flor (objeto secundário) com aspectos de seu próprio self (objeto primário), ocorrendo a equação simbólica.

Resposta 3 (Felipe):

(2-) O objeto. Um caderno. Por que ele é manipulado pelas pessoas, todo mundo usa ele, mas ele não usa ninguém. O caderno é a coisa mais importante na escola, mas ninguém dá valor; senta em cima, joga fora. Depois que acabou o ano deixa no armário, esquece.

Felipe racionaliza, na segunda consigna negativa, de forma a denotar um adequado movimento de Identificação Projetiva. Os atributos relacionados à desvalorização, ao sentimento de não ser reconhecido e de acabar desprezado e esquecido, que se configuram em elementos causadores de angústia em seu self, foram adequadamente projetados dentro do símbolo escolhido - o caderno. Desta maneira, livrou-se da angústia suscitada por estes atributos inconscientes, respondendo adequadamente ao Questionário Desiderativo.

Resposta 4 (Felipe):

(2+) Uma máquina, um computador. Porque eu taria sempre sendo usado e cada vez mais usado. Eu acho que isso não vai diminuir, eu taria sempre na mídia, por exemplo.

Diante da segunda consigna positiva, Felipe coloca-se diretamente na posição do símbolo escolhido, o computador, confundindo-se com ele. Pela sua resposta, quem seria bastante útil e conhecido por todos não seria o computador, mas ele próprio, ocorrendo a projeção direta e a falha na Identificação Projetiva por equação simbólica.

Resposta 5 (Gisele):

(1+) Uma flor, orquídea. (Por quê?) Porque ela é a mais bonita... Quando você coloca uma orquídea em algum lugar ele fica chique, é a flor mais cara.

Gisele, nesta resposta, conseguiu realizar adequadamente a Identificação Projetiva, projetando dentro do símbolo escolhido (orquídea) os atributos de sua personalidade que deseja conservar: beleza, sedução, ser valorizada, ou seja, atributos narcísicos de seu self.

Resposta 6 (Gisele):

(1-) Uma pedra. (Por quê?) Porque eu não quero ficar parada no mesmo lugar, tipo uma rocha.

Já nesta resposta, Gisele confunde objeto primário e secundário, num mecanismo de projeção direta onde não consegue projetar dentro do símbolo escolhido (pedra) os elementos causadores de angústia de sua personalidade (imobilidade, desvitalização). Assim, sente-os como sendo parte de seu self e a Identificação Projetiva falha por equação simbólica, pois a adolescente não consegue se desvencilhar totalmente da ansiedade provocada pelos elementos desintegradores, no momento da avaliação desiderativa.

Resposta  7 (Patrícia):

(1-) Uma galinha. (Por quê?) Porque todo mundo mata e come.

Nesta primeira consigna negativa, Patrícia projeta seus temores de morte e de destruição, além de vulnerabilidade e de persecutoriedade, dentro do símbolo escolhido, a galinha. Assim, através de uma adequada Identificação Projetiva, livra-se momentaneamente destas angústias, respondendo adequadamente ao Desiderativo com exitoso processo de simbolização.

Resposta 8 (Patrícia):

(1+) (risos) Não, isso, não... (Tente dizer o que está pensando). Não... (pausa). Um pássaro. Gosto de viver livre e sempre todo mundo me prende.

Nesta verbalização Patrícia demonstra, inicialmente, hesitação perante a consigna inicial, sugerindo estar pensando em respostas que não desejou pronunciar. Por fim, consegue escolher um elemento do mundo externo para representar um aspecto de sua personalidade que deseja conservar: a liberdade. Porém, não consegue simbolizar adequadamente, pois não se separa do pássaro, sentindo-o como ela própria, ocorrendo falha na Identificação Projetiva por equação simbólica.

Estes exemplos foram selecionados para ilustrar, a partir da proposição de Nijamkin e Braude (2000), a avaliação da defesa instrumental Identificação Projetiva, no Questionário Desiderativo. Esta forma de compreender lapsos nesse processo defensivo encontra embasamento, como anteriormente apresentado, nas considerações teóricas de Segal (1983), segundo as quais a Identificação Projetiva ocorre adequadamente quando o símbolo é reconhecido como uma criação do indivíduo.

"Quando um substituto no mundo externo é utilizado como um símbolo, ele pode ser usado mais livremente do que o objeto original já que ele não se identifica completamente com o mesmo. Mas, na medida em que se distingue do objeto original, o símbolo também é reconhecido como um objeto em si mesmo." (Segal, 1983, p. 86).

Assim, nesta proposição avaliativa, os símbolos, criados internamente, podem então ser representados no mundo externo, dotando-o de significado simbólico. Na equação simbólica isso não ocorre. Segundo Segal (1983), nesses casos, o substituto-simbólico é sentido como sendo o objeto original, movimento psíquico que é característico das etapas mais primitivas do desenvolvimento.

Desta maneira, a ocorrência de equação simbólica num protocolo do Questionário Desiderativo pode ser, nessa perspectiva avaliativa, indicativa de dificuldades nos processos de simbolização. Denotaria, portanto, um funcionamento mais primitivo, e, desta forma, sinalizaria empobrecimento das funções egóicas. Mas seria esta a única interpretação possível aos adolescentes presentemente avaliados?

Dentro deste campo interpretativo é que as contribuições de Milner (1952/1991) sobre os processos de simbolização configuram-se como elementos enriquecedores para análise das respostas ao Desiderativo, nos termos da Identificação Projetiva.

Em seu artigo de 1952/1991, intitulado "O Papel da ilusão na formação simbólica", Marion Milner faz inicialmente uma apresentação das idéias de Klein e de Ernest Jones relativas aos processos de simbolização. Fala da transferência de interesse do objeto primário para o objeto secundário, destacada por estes autores como processo decorrente da proibição direcionada ao objeto primário. No caso das relações de objeto agressivas, por exemplo, a agressão direcionada aos nossos próprios objetos causaria terror devido ao temor de retaliação. Desta forma, a transferência do nosso interesse para objetos substitutos, menos atacados, promoveria um alívio desse temor. Contudo, para além dessas considerações, Milner enfatiza que a mudança de interesse dos objetos primários para os secundários dever-se-ia também à necessidade de "dotar o mundo externo com algo do self e assim fazê-lo mais familiar e inteligível" (Milner, 1952/1991, p. 90), argumentando a partir das considerações de Jones. Assim, o processo de identificação subjacente à formação simbólica seria efeito não somente das proibições relativas aos objetos primários, mas também da necessidade de se estabelecer uma ligação, uma comunicação com a realidade a partir do princípio de prazer.

Seguindo o pensamento de Jones, Milner (1952/1991) destaca a possibilidade de existir de uma necessidade de organização do mundo interno, por meio do estabelecimento de padrões. Estes, por sua vez, mobilizariam o impulso de reconhecer identidade na diferença, sem a qual a experiência poderia submergir no caos. Com isto, Milner parece querer dizer que a busca pela identidade entre um objeto interno (primário) e um objeto externo (secundário), no princípio das formações simbólicas, teria uma função organizadora e de reconhecimento do mundo exterior, a partir da equiparação entre mundo interno e externo.

Estas considerações de Milner e de Jones fornecem uma nova perspectiva de compreensão dos processos de simbolização em avaliação psicológica por meio de instrumentos projetivos, como o Questionário Desiderativo. Numa aproximação a este olhar de Milner (1952/1991), as escolhas e as rejeições realizadas como respostas às consignas deste instrumento, poderiam ser entendidas como tentativas de estabelecer identificações entre elementos internos e externos, ainda que por meio da sobreposição dos mesmos, com um intuito organizador. Assim, o fato de confundir o objeto primário com o símbolo escolhido ou rejeitado, ou seja, esta não discriminação entre ambos, teria a função de estabelecer certa organização. Isto se daria de forma que, ao reconhecer características de seu mundo interno na realidade exterior, seria formada uma ligação entre ambos, ou seja, uma forma de comunicação.

Neste raciocínio, Milner (1952/1991) reconhece, ainda no trabalho de Ernest Jones, aspectos positivos deste fracasso em discriminar eu e não-eu, o que seria reconhecido nas análises das respostas ao Desiderativo como equação simbólica. Nas considerações destes referidos psicanalistas, estes momentos poderiam sinalizar a ultrapassagem das resistências que, na maior parte do tempo, evitam a regressão voltada para a tendência infantil de perceber semelhanças nas diferenças. Assim, com a não-discriminação característica dos processos denominados de equação simbólica, haveria espaço inclusive para insights, como descobertas científicas, invenções e, principalmente, para  a criatividade.

Nessa linha interpretativa, a equação simbólica poderia ser percebida como um fenômeno regressivo, que, no homem civilizado, seria evidente em condições nas quais se restringe a adaptação consciente à realidade (como no êxtase religioso ou artístico, por exemplo) ou ainda quando ela é completamente suprimida (como em sonhos e doenças mentais). Poder-se-ia identificar também fenômeno semelhante durante os processos de avaliação psicológica por meio de instrumentos projetivos, quando se faz necessário um processo regressivo para que o indivíduo consiga realizar os movimentos psíquicos necessários para responder aos instrumentos (Anzieu, 1981). Não obstante sua qualidade regressiva, estes momentos de não-diferenciação entre símbolo e objeto simbolizado seriam uma fase essencial de adaptação à realidade, na medida em que eles podem "marcar o momento criativo no qual se estabelecem identificações novas e vitais" (Milner, 1952/1991, p. 91).      

As contribuições de Winnicott (1954/1993) fundamentam esta linha interpretativa. Segundo ele, a regressão pode ser favorecedora ao desenvolvimento por proporcionar a oportunidade de correção de uma "adaptação-à-realidade" ocorrida de forma inadequada na história de vida do indivíduo. Salienta ainda que quanto mais rapidamente o analista aceita a regressão e toma contato com ela, torna-se menos provável que o paciente necessite penetrar em uma doença com qualidades regressivas. Isso porque, para este autor, todo sintoma é também uma tentativa de cura, e toda regressão é uma forma de retornar a "pontos de congelamento" do self na esperança de dissolvê-los e retomar o desenvolvimento. Assim, poder "adoecer", ou seja, ter a possibilidade de regredir e recorrer aos sintomas, faz parte da normalidade e é também caracterizador de uma pessoa saudável. Nestes termos, o pensamento winnicottiano destaca a importância da regressão como um mecanismo que pode estar a serviço do ego, de forma a auxiliar na resolução de impasses ocorridos no desenvolvimento.

As argumentações teóricas de Milner e Winnicott conduzem a questionamentos sobre o caráter negativo e patológico comumente atribuído à presença da equação simbólica (considerada como fenômeno regressivo) em protocolos do Questionário Desiderativo (segundo o referencial de Nijamkin & Braude, 2000). Pode-se pensar, assim, que o mecanismo de Identificação Projetiva, quando permeado pela equação simbólica, tem sido interpretado de forma parcial pelas escolas mais tradicionais. À luz das contribuições de Milner e Winnicott, este mecanismo poderia ser compreendido como necessário e até mesmo útil no processo de adaptação criativa à realidade, especialmente quando devidamente manejados pelo profissional em seu contato com o paciente.

Milner (1952/1991) também recorre aos conceitos psicanalíticos de fusão e fantasia para compreender as condições em que os objetos primários e secundários são fundidos e sentidos como unitários. Ressalta que apenas em fantasia é possível fundir dois objetos bastante diferentes e, para tanto, faz-se necessária a ilusão que permeia a relação com um objeto externo (ainda que este objeto seja imaginário), para que a pessoa acredite que o objeto secundário configura-se como primário.

Para compreender estes processos, Milner reconhece a necessidade de considerar também o conceito de ansiedade, que mobiliza a busca de objetos substitutos aos objetos originais, ou seja, o caráter defensivo que esse processo pode eventualmente assumir. Acrescenta a necessidade de considerar também o êxtase, como experiência emocional resultante de encontrar um substituto. Assim, pode-se ponderar que ao responder a um instrumento projetivo de avaliação de personalidade (como o Desiderativo), o indivíduo encontra também um espaço propício para realizar estas identificações, e, a partir disto, alcançar certa dose de satisfação pela possibilidade de organização de seu mundo interno a partir da escolha de substitutos do mundo externo, ainda que estes sejam percebidos como sendo o mesmo e único, como ocorre na equação simbólica.

Na continuidade de sua argumentação teórica, Milner trata ainda da amnésia relacionada aos momentos iniciais da vida, nos quais "o poeta original que há dentro de cada um de nós criou o mundo exterior, para nós mesmos, encontrando então o que é familiar no que não é familiar" (Milner, 1952/1991, p. 94). Ressalta que  os processos de aprendizagem estão intimamente relacionados a estes momentos de não-diferenciação, sendo que valoriza a função dos professores como responsáveis por providenciar as condições necessárias para a ocorrência destes fenômenos. São criadas, assim, situações para o estímulo à imaginação, possibilitando que um assunto ou um talento se acendam, repletos de significado.

Estes momentos também são passíveis de ocorrer durante uma avaliação psicodiagnóstica, quando é dada a possibilidade de o sujeito criar, a partir dos estímulos oferecidos, associações significativas entre seu mundo interno e a realidade externa, recorrendo a processos identificatórios, necessários para a formação simbólica. Assim, torna-se possível um meio de comunicação que favorece reorganizações do mundo interno, a partir da percepção deste como relacionado diretamente, ainda que por vezes surja como não diferenciado, de elementos do mundo exterior.

Em uma linha de pensamento semelhante, Winnicott, em seu artigo "Objetos Transicionais e Fenômenos Transicionais", de 1951, trata com originalidade dos processos de desenvolvimento humano, nos caminhos da simbolização e do contato com a realidade, que ocorrem de forma gradativa. Propõe o conceito da área transicional, designada como "área de experimentação" ou ainda "lugar de repouso para o indivíduo empenhado na perpétua tarefa humana de manter as realidades interna e externa separadas, ainda que inter-relacionadas." (p. 391). Winnicott (1951/1993) localiza a experiência transicional entre os períodos de não-diferenciação eu-outro e o período que denomina de rumo à independência, no qual já há uma delimitação mais clara dos limites do self:

"Quando o simbolismo é empregado, o bebê já está claramente distinguido entre fantasia e fato, entre objetos internos e objetos externos, entre criatividade primária e percepção. Mas o termo transicional, segundo minha sugestão, abre campo ao processo de tornar-se capaz de aceitar diferença e similaridade." (Winnicott, 1951/1993, p. 395).

Assim, os objetos transicionais teriam a função de substituir objetos internos parciais (originais), embora exista certa superposição entre o objeto transicional e o objeto interno, já que, conforme Winnicott (1951/1993), o objeto transicional precede o teste da realidade já estabelecido. Transpondo este raciocínio para os processos ocorridos durante uma avaliação psicológica por meio do Desiderativo, poder-se-ia ponderar que, enquanto um instrumento projetivo, suas consignas solicitam que o indivíduo regrida a um estágio de indiferenciação entre o eu e o não-eu para respondê-las. Como toda regressão, ela pode acarretar prazer ou angústia, a depender das condições do ego do indivíduo. Algumas pessoas, contudo, perdem-se neste movimento regressivo e ultrapassam a fase do "como se", característica do espaço transicional, fixando-se regressivamente no narcisismo primário, onde predomina o processo de ilusão e de identidade entre o eu e o objeto, como ocorre na equação simbólica. Estas regressões dar-se-iam até um ponto de congelamento do self, ou seja, algum ponto onde existe impasse no desenvolvimento.

Nestes momentos, a regressão ao estágio da ilusão, com a ocorrência do fenômeno da equação simbólica, poderia ser entendida dentro desta concepção de regressão a serviço do ego, como trazida por Winnicott (1951/1993). Isto porque, para que exista um adequado processo de desilusão e conseqüente passagem ao estágio transicional, é necessário que tenha havido um processo de ilusão bem sucedido. Logo, a ocorrência da equação simbólica poderia ser um sinal de tentativa de regressão e retorno a momentos onde houve algum impasse ao desenvolvimento, numa tentativa de resolvê-lo para prosseguir de forma mais saudável.

Essas contribuições oferecem novos elementos que conduzem  a relativizar o olhar patologizante geralmente empreendido em direção aos fenômenos de equação simbólica, quando ocorridos em meio a uma avaliação psicodiagnóstica por meio do Questionário Desiderativo. Esta ponderação se sustenta ainda mais quando verificamos a ocorrência destes lapsos de simbolização em protocolos de Desiderativo de pessoas com desenvolvimento típico, sem história de problemas psicológicos, cognitivos ou psiquiátricos, como é o caso das respostas destacadas anteriormente neste trabalho. Winnicott (1951/1993) é bastante enfático ao apontar a relevância da possibilidade de regredir para que o desenvolvimento possa ocorrer de forma mais adequada e integrada. Afinal, "A tarefa de aceitação da realidade nunca é completada, nenhum ser humano está livre da tensão de relacionar a realidade interna e externa" (Winnicott, 1951/1993, p. 404).

Portanto, as relevantes contribuições de Milner e de Winnicott fundamentam um olhar cuidadoso e inovador sobre os fenômenos simbólicos ocorridos em processos de avaliação psicológica. Elas favorecem uma compreensão psicodinâmica global do indivíduo ao incluírem a consideração dos lapsos identificados como equações simbólicas em sua produção nas técnicas projetivas como importantes para o seu desenvolvimento psicológico saudável.

Ainda, Milner (1952/1991) ressalta que, em casos de excesso de simbolização e de sublimação, associados aos processos de racionalização como defesa psíquica contra a ansiedade, ocorreria um distanciamento psíquico dos elementos mais primitivos da vivência emocional. Assim, ocorreria uma perda de comunicação com elementos associados a processos como equação simbólica, ilusão ou mesmo regressão, devido ao fato da utilização maciça de defesas com base na repressão.  Neste sentido, ao ocorrerem estas perdas comunicativas, ocorreria excessiva "inflação" do espaço mental do ego, podendo resultar em sintomas psicossomáticos.

Nesta linha interpretativa, Winnicott (1949/1993), em seu artigo de intitulado "A mente e sua relação com o psique-soma", argumenta a favor desses pressupostos anteriores, dizendo ser possível estudar a mente de um paciente na medida em que ela se "especializa a partir da parte psíquica do psique-soma" (p. 410). Entende a psique como uma "elaboração imaginativa de partes, sentimentos e funções somáticas" (p. 411), sendo que ela não estaria, num funcionamento sadio, separada do soma.

Porém, Winnicott (1949/1993) teoriza que, no caso de fracassos ambientais no suprimento das necessidades do ego quanto a tensões pulsionais em estágios primitivos da vida, ocorreria um crescimento excessivo da função mental em reação a este cuidado insuficiente, como forma de lidar com esta falta. Esta hiperatividade do funcionamento mental contribuiria para uma oposição entre a mente e o psique-soma, sendo que o pensamento tenderia a controlar os cuidados a serem dispensados à pessoa. Em decorrência deste processo, a psique do indivíduo se deixa atrair por essa mente hiperativa e se afasta do relacionamento íntimo que originalmente mantinha com o soma, funcionamento considerado pelo autor como "empecilho para a continuidade da existência do ser humano, que constitui o self" (Winnicott, 1949/1993, p. 416). Nestes casos, uma das funções da doença psicossomática seria atrair a psique para longe da mente, de volta à ligação íntima original com o soma.

Neste sentido, faz-se possível argumentar que momentos regressivos, como por exemplo os ocorridos durante as falhas na Identificação Projetiva por equação simbólica diante do Questionário Desiderativo, podem ter efeitos positivos. Isto porque promovem um retorno (ainda que momentâneo) à comunicação saudável entre a psique e o soma, favorecendo uma continuidade de existência, ou seja, um desenvolvimento saudável.

A partir das contribuições trazidas por Milner e Winnicott, pode-se ponderar que, ao possibilitar a regressão e o contato com conteúdos primitivos do dinamismo psíquico, os processos psicodiagnósticos podem ter seus efeitos reconhecidos para além da compreensão dinâmica profunda do indivíduo, constituindo-se num importante recurso terapêutico a ser utilizado por psicólogos na atualidade. Ficam, portanto, ressaltadas as possibilidades de se obter maior proveito nestes processos de avaliação psicodiagnóstica, com a melhoria da relação psicólogo-paciente, valorizando-se assim proposições inovadoras de abordagem, como, por exemplo, a do Psicodiagnóstico Interventivo (Barbieri & Biasoli-Alves, 2006).

 

Considerações finais

A partir deste breve percurso, foi possível tecer considerações relevantes para a compreensão de alguns fenômenos surgidos em processos de avaliação psicológica, num referencial psicodinâmico. Considerando que os processos de simbolização são necessários para que as pessoas avaliadas por meio do Questionário Desiderativo consigam empreender adequadamente a tarefa proposta por este instrumento, a identificação projetiva se mostra como mecanismo  defensivo instrumental, ou seja, necessário para que o sujeito consiga realizar a atividade (Nijamkim & Braude, 2000).

Para tanto, faz-se necessário a escolha projetiva de um elemento do mundo exterior que condense e expresse os elementos do self a serem preservados ou rejeitados, por meio de um processo identificatório entre eles. Acontece que, por vezes, este processo se dá de forma que ambos os objetos (símbolo e simbolizado) acabam percebidos pelo indivíduo como sendo o mesmo, ocorrendo então o que se denomina de equação simbólica. Tradicionalmente, avalia-se a presença deste fenômeno no Desiderativo como uma falha na identificação projetiva, uma perturbação nas relações de objeto, característica de mecanismos esquizo-paranóides, sinalizando empobrecimento das funções do ego (Ocampo & cols., 1985; Nijamkin & Braude, 2000).

A partir das contribuições advindas do trabalho de Marion Milner  e de Donald W. Winnicott, no entanto, foi possível relativizar esta forma de avaliar as respostas ao Questionário Desiderativo. Segundo o pensamento desses autores, os processos de equação simbólica precedem os processos identificatórios, sendo que por meio destes mecanismos de não-diferenciação torna-se possível estabelecer um sentido de continuidade e de comunicação com a realidade.  Assim, o primeiro passo para uma formação simbólica bem-sucedida seria o êxito num processo de ilusão, que possibilitaria o reconhecimento, na realidade externa, de elementos do mundo interno, e, assim, permitir a organização do contexto interno a partir das percepções do mundo exterior.

Nesta direção, tornou-se possível um olhar para os fenômenos característicos da equação simbólica menos patologizante, não necessariamente associado a um empobrecimento das funções de simbolização do ego. Como ressaltaram Milner (1952/1991) e Winnicott (1954/1993), na verdade, estes processos possibilitariam o funcionamento regressivo necessário para as criações artísticas, as descobertas científicas, ou seja, para o exercício da criatividade.

Com isso, pôde-se ponderar, inclusive, sobre as possibilidades terapêuticas do surgimento destes momentos de não-diferenciação diante de técnicas projetivas, nomeadamente frente ao Questionário Desiderativo, evidenciando-se como recursos produtivos do indivíduo, contrapostos à forma interpretativa tradicional de meros sinais de dificuldades no processo de simbolização.  Abre-se, assim, um espaço para um uso mais proveitoso, para a relação psicólogo-paciente, destes processos psicodiagnósticos de base psicodinâmica.

 

Referências

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Recebido em 31/08/2006.
Aceito para publicação em 10/01/2007.
Apoio financeiro: CAPES

 

 

Este trabalho é derivado de trabalho de Mestrado, em andamento.
1 Endereço para correspondência:
Profa. Dra. Sonia Regina Pasian, Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Av. Bandeirantes, 3900, CEP: 14040-901, Ribeirão Preto-SP, BRASIL, E-mail: srpasian@ffclrp.usp.br
2 Os nomes dos participantes foram alterados para preservação do sigilo ético.

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