SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.25 issue1DECIDING THE ROUTE OF DELIVERY IN BRAZIL: THEMES AND TRENDS IN PUBLIC HEALTH PRODUCTIONMUSICAL INTERVENTION AS A NURSING CARE STRATEGY FOR CHILDREN WITH AUTISM SPECTRUM DISORDER AT A PSYCHOSOCIAL CARE CENTER author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Texto & Contexto - Enfermagem

Print version ISSN 0104-0707On-line version ISSN 1980-265X

Texto contexto - enferm. vol.25 no.1 Florianópolis  2016  Epub Mar 22, 2016

https://doi.org/10.1590/0104-0707201500002800014 

Reflexão

A CONSULTA DE ENFERMAGEM COMO TECNOLOGIA DO CUIDADO À LUZ DOS PENSAMENTOS DE BACON E GALIMBERTI

CONSULTA DE ENFERMERÍA COMO TECNOLOGÍA DE ATENCIÓN A LA LUZ DE LOS PENSAMIENTOS DE BACON Y GALIMBERTI

Cilene Nunes Dantas1 

Viviane Euzébia Pereira Santos2 

Francis Solange Vieira Tourinho3 

1Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (PPGEN) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Professora do Centro Universitário FACEX e Enfermeira na Secretaria Municipal de Saúde de Natal. Bolsista da CAPES. Natal, Rio Grande do Norte, Brasil. E-mail: cilenenunesdantas@gmail.com

2Doutora em Enfermagem. Professora Adjunto do Departamento de Enfermagem do PPGEN/UFRN. Natal, Rio Grande do Norte, Brasil. E-mail: vivianeepsantos@gmail.com

3Doutora em Saúde da Criança e do Adolescente. Professora Adjunto do Departamento de Enfermagem e da Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, Santa Catarina, Brasil. E-mail: francistourinho@gmail.com


RESUMO

O objetivo deste artigo foi refletir sobre o uso da consulta de enfermagem como tecnologia do cuidado na atenção primária à saúde, na perspectiva filosófica. Trata-se de um estudo teórico e reflexivo sobre a tecnologia e a consulta de enfermagem na atenção primária à saúde, baseado nos pressupostos de Bacon e Galimberti. O pensamento filosófico oportuniza a ampliação das discussões e do escopo da enfermagem, por meio de uma prática sistematizada e estruturada cientificamente. A consulta de enfermagem é vista como um elemento essencial para a melhoria da qualidade do cuidado, tornando-o mais humanizado e focalizado na pessoa, na família e na comunidade.

Palavras-Chave: Processos de enfermagem; Filosofia em enfermagem; Ciência, tecnologia e sociedade

RESUMEN

El objetivo de este artículo es reflexionar sobre el uso de La tecnología del cuidado de enfermería de Atención Primaria de Salud desde el punto de vista filosófico. Se trata de una investigación teórica y reflexiva sobre el uso de la tecnología y el proceso de enfermería/consulta de enfermería en la atención primaria de salud, basado en los presupuestos de Bacon y Galimberti. El pensamiento filosófico favorece la expansión de las discusiones y el alcance de la práctica de enfermería a través de un proceso sistemático y estructurado científicamente. La consulta de enfermería es vista como un elemento esencial para mejorar la calidad de la atención, que sea más humana y centrada en la persona, familia y comunidad.

Palabras-clave: Procesos de enfermería; Filosofía en enfermería; Ciencia, tecnología y sociedad

ABSTRACT

The aim of this study was to reflect on the use of nursing care as a primary health care technology, from a philosophical perspective. A theoretical and reflective study was conducted on nursing consultation and technology in primary health care, based on the assumptions of Bacon and Galimberti. Philosophical thinking favors broadening discussions and expanding the scope of nursing practice through a systematic and scientifically structured practice. Nursing consultation is seen as an essential element for improving the quality of care, make it more humane and focused on the person, family and community.

Key words: Nursing process; Philosophy, nursing; Science, technology and society

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

A humanidade, ao longo da sua história, desenvolveu e transformou seus conhecimentos nas diferentes sociedades. Entre as mudanças que ocorreram, cabe destacar que, entre suas causas e efeitos, estão o desenvolvimento da tecnociência.1 A Enfermagem, consequentemente, sofre a influência da tecnociência no seu corpo de conhecimentos, especialmente no que concerne à utilização do processo de enfermagem (PE) na sua prática na atenção primária à saúde (APS), que corresponde ao usualmente denominado nesses ambientes como consulta de enfermagem (CE), termo que será utilizado ao longo desta reflexão. Ressalta-se que as transformações tecnológicas produzidas não influenciam apenas o cuidado, mas os valores, o conhecimento, as habilidades, bem como as políticas de atenção em saúde.2

Diante do exposto, a enfermagem utiliza inúmeras tecnologias para o cuidado e, na sua prática, o enfermeiro da APS aplica a CE que, esta tecnologia é uma combinação entre o conhecimento humano, científico e empírico, que sistematiza o nosso fazer, com o intuito de prestar uma assistência de melhor qualidade e que se efetiva no cuidado ao indivíduo/família/comunidade, além do fato de que a CE está permeada por questões éticas e pelo processo reflexivo.3

Portanto, verifica-se que, na enfermagem, a tecnologia supera o caráter técnico- científico, visto que as relações interpessoais perpassam o fazer cotidiano do enfermeiro. Nesta perspectiva, os resultados alcançados podem ser subjetivos e abstratos, o que nos faz refletir que a CE, enquanto tecnologia, compreende, também, os processos e os métodos envolvidos nos cuidados de enfermagem.3

A partir disso, constata-se uma lacuna na apropriação e reflexão do uso das tecnologias pelo enfermeiro da APS. Evidencia-se que há a necessidade de ressaltar a utilização desses conhecimentos neste contexto frente à sua importância, já que a APS "caracteriza-se por um conjunto de ações de saúde, no âmbito individual e coletivo, que abrange a promoção e a proteção da saúde, a prevenção de agravos, o diagnóstico, o tratamento, a reabilitação, a redução de danos e a manutenção da saúde".4:19 Utilizando, para isto, tecnologias de cuidado complexas e variadas, que devem auxiliar no manejo das demandas e necessidades de saúde de maior frequência e relevância no território de saúde em que o enfermeiro esteja desenvolvendo suas ações.

Destarte, apesar da CE ser um dos instrumentos de suma relevância para a prática do enfermeiro, ela ainda não é utilizada pela enfermagem brasileira em sua totalidade, como tecnologia para o cuidado, apesar do expressivo quantitativo de pesquisa sobre o tema no país.

Neste contexto, emergiu ao longo da disciplina "Filosofia e epistemologia da ciência", do curso de Doutorado em Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a necessidade de elaborar um texto reflexivo sobre o tema em tela e encontrar um referencial teórico-filosófico para embasá-lo. Este artigo propõe refletir sobre os motivos de, na atualidade, a enfermagem brasileira não utilizar a CE na sua amplitude, enquanto tecnologia para o cuidado. Realizar-se-á, portanto, uma reflexão sobre a consulta de enfermagem como tecnologia do cuidado na APS, bem como sobre o conceito de tecnologia à luz de Francis Bacon e Umberto Galimberti.

A CONSULTA DE ENFERMAGEM COMO TECNOLOGIA DO CUIDADO

Para o reconhecimento da enfermagem como ciência, torna-se imprescindível a utilização da CE, considerada a essência da enfermagem. Ela é a dinâmica das ações sistematizadas e inter-relacionadas com o intuito de assistir o ser humano, caracterizado pela articulação e dinamismo de suas fases: histórico de enfermagem, diagnóstico de enfermagem, plano de cuidados, prescrição de enfermagem, evolução e prognóstico.5

A CE apresenta a cientificidade do trabalho dessa profissão, além de respaldar a tomada de decisão, prever e avaliar as consequências da aplicação da CE pelo enfermeiro no processo saúde-doença do indivíduo, da família e da comunidade. Pela relevância do papel do enfermeiro na saúde coletiva, em 2009, o COFEN publicou a Resolução nº 358/2009, que dispõe sobre a Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) e a implementação do PE em ambientes públicos ou privados, em que ocorre o cuidado profissional de enfermagem e dá outras providências.6

A resolução enfatiza que o PE, quando realizado em instituições prestadoras de serviços ambulatoriais de saúde, domicílios, escolas, associações comunitárias, entre outros, corresponde à CE. Esta é organizada em cinco etapas inter-relacionadas, interdependentes e recorrentes, quais sejam: coleta de dados de enfermagem ou histórico de enfermagem; diagnóstico de enfermagem; planejamento de enfermagem; implementação e avaliação de enfermagem.

Nesse sentido, percebe-se que haverá, na CE, uma tríade presente: o levantamento de dados, a análise e o plano de cuidados, os quais podem ser desenvolvidos em quatro passos: avaliação, identificação de problemas e/ou diagnóstico de enfermagem, intervenção ou implementação e evolução. Para isto, a enfermeira necessita de conhecimento teórico-prático, além de desenvolver sua criatividade e sensibilidade de forma ativa, sistemática e contínua para que possa identificar a quantidade e a qualidade do cuidado de enfermagem necessário para auxiliar o ser humano a vivenciar o seu processo saúde-doença.7

Nesta perspectiva, a aplicação do PE exige qualificação permanente do enfermeiro para o raciocínio clínico, utilização de ferramentas para o exame clínico, bem como para o diagnóstico de enfermagem. Cabe destacar que o PE focaliza a reação da pessoa frente ao problema de saúde, portanto, busca resultados a partir da necessidade do indivíduo, da família e da comunidade, de acordo com os padrões profissionais e do código de ética.8

Diante disso, contata-se que o enfermeiro precisa tanto das habilidades técnicas essenciais para a segurança do saber fazer, quanto das habilidades interpessoais para que possa realizar a consulta de enfermagem na APS. É essencial que este profissional compreenda e conheça as tecnologias utilizadas no processo de trabalho em saúde.

Destaca-se que o termo tecnologia deriva do grego téchne, arte, habilidade ou saber fazer e logos, razão, portanto significa razão do saber fazer. Na Grécia antiga, o termo téchne também significava fabricar, produzir, fazer ou construir, principalmente coisas materiais, por meio do trabalho ou da arte, como também causar fenômenos naturais, ações ou eventos. De acordo com Homero, autor grego, tecnologia pode ser compreendida também como a habilidade em geral, o método, a maneira, o modo de fazer.9

"A característica da tecnologia em enfermagem é peculiar, pois, ao cuidar do ser humano, não é possível generalizar condutas, mas, sim, adaptá-las às mais diversas situações, a fim de oferecer um cuidado individual e adequado ao indivíduo".10:120-1

Constata-se que as tecnologias são essenciais para o trabalho do enfermeiro, em especial na CE na APS, momento em que o diálogo se institui; a subjetividade do enfermeiro e do sujeito se expressam, há necessidade de criar-se e consolidar o vínculo entre ambos. Porém, o uso da tecnologia leve, relacional, para diversos profissionais torna-se um desafio, pois, nas unidades de saúde, o enfermeiro tem inúmeras atividades burocráticas e deixa, algumas vezes, em segundo plano a consulta, já que alguns não estão qualificados para interagirem com o usuário a partir da comunicação terapêutica ou estão atrelados a uma prática cartesiana.

Em suma, as tecnologias não são um fim e, sim, um meio para o enfermeiro prestar um cuidado humanizado, que garanta melhoria da qualidade de vida do sujeito. Para isto, esse profissional tem que estar comprometido com a sua prática, buscando aprimorar constantemente seus conhecimentos para atuar da promoção, proteção e manutenção da saúde até a reabilitação na APS.

TECNOLOGIA À LUZ DOS PRESSUPOSTOS DE FRANCIS BACON

Francis Bacon foi um filósofo, político e ensaísta inglês que nasceu no século XVI, viveu no reinado de Elizabeth I, testemunhou e participou dos setores econômico, social, científico, filosófico e religioso, dos combates entre as novas forças que emergiam e as antigas estruturas remanescentes. Para esse filósofo, o elemento chave na concepção do conhecimento é compreendê-lo como algo progressivo e indissociável da busca de novas ideias, marcando o nascimento da ciência e da educação moderna. O modelo baconiano afirma que o verdadeiro objeto do conhecimento não está reduzido à máquina, mas ao saber bem analisado.11

Os pensamentos de Bacon marcam a transformação da técnica como saber-fazer para técnica como conhecimento, que envolvem princípios racionais e que são tomados como verdadeiros. Pode-se perceber, também, ao longo das obras do filósofo, que o conhecimento, bem como o seu desenvolvimento está alicerçado no trabalho coletivo, já que se torna fundamental a colaboração entre os investigadores tanto na divisão do trabalho, quanto na troca de informações, no aprimoramento teórico e prático.12

Diante do exposto, a dimensão cooperativa da noção baconiana de experiência encontra-se tanto na reorganização de práticas-investigação como em um processo contínuo e fruto de diferentes atividades; da divisão de trabalho; objetivação na investigação; no discurso e na criação de instituições, bem como na redefinição ideal de conhecimento, isto é, a sua finalidade. Portanto, esse filósofo aposta tanto no trabalho em equipe, quanto na inovação individual, defende a concepção que o conhecimento é coletivo em sua produção e acreditava que o tesouro cognitivo deveria ser aquilo que chamamos hoje de domínio público, de maneira que não existissem direitos privados de invenções e descobertas.11

Porém, as descobertas e informações não seriam franqueadas a todos, mas não haveria disputas e perturbações em busca do conhecimento. O avanço do conhecimento deve ser promovido por vários caminhos. Neste ínterim, emerge a experiência instruída, que se torna fundamental para a compreensão e formulação baconiana da ciência como tecnologia. Primeiro, porque está mais direcionada à sistematização dos procedimentos que os técnicos realizavam ao acaso; segundo, porque o método indutivo é traçado como ideal, que deve ser alcançado gradualmente, a experiência instruída é pragmática.13

Bacon apresenta os procedimentos de aperfeiçoamento e invenção de novas técnicas que poderiam vir a ser melhor usados para o desenvolvimento tecnológico. De forma geral, a experiência instruída pode ser resumida como direções de observações da natureza e de comparações das artes, buscando ajudar como uma poderia desenvolver a outra. Estas direções podem ser caracterizadas em oito técnicas: variação dos materiais das causas e quantidades; produção dos experimentos, repetição e extensão; a translação, transferência de um procedimento natural para uma das artes; inversão; compulsão, estender os procedimentos; aplicação; junção de experimentos, ligação ou aplicação de diversos experimentos ao mesmo tempo; experimento da sorte ou do acaso.11

Em suma, essas direções são simples e constituem-se em um receituário de pesquisa, para que, de forma prática, o conhecimento técnico possa avançar, esse instrumento pode ser utilizado por técnicos de todas as áreas para o aprimoramento dos saberes.

Assim, Bacon procura sistematizar seu processo de invenção, articulando-o com a reforma da indução, na qual se basearia a nova ciência. O método indutivo viria para garantir esse cuidado com o estabelecimento de instâncias, que serviriam de obstáculos contra conclusões apressadas e autoridades aparentemente inquestionáveis. Este método aborda diferentes passos e procedimentos ao longo das obras de Bacon. A primeira etapa é a história natural e experimental; a segunda consiste na organização e disposição do material; essas etapas sugerem o que pode ser a forma, a formalização de operações e leis e, em seguida, virá a terceira etapa, o método de exclusão para eliminar algumas correlações acidentais dos fatos.11

O processo indutivo desenvolver-se-ia, então, numa "escada de axiomas", proposições que descrevem os sucessivos passos por meio dos quais a investigação caminha, uma crescente generalização de particulares e aprimoramento dos enunciados, simultaneamente, com um aprofundamento das observações e aperfeiçoamento das experiências. A indução baconiana significa a natureza confinada, atormentada, modificada por meio de experimentos humanos controlados, além de ser hipotética e autocorretiva, sendo um processo aberto e sem fim.13

A concepção de verdade, que é parcialmente visível, e uma certeza postulada, como eliminação da dúvida, na reforma do conhecimento proposta por Bacon, reforça o aspecto construtivo e instrumental do conhecimento, e isso se revela também na defesa do processo experimental para o avanço do conhecimento-domínio. Por fim, vemos sua formulação de diretiva para a criação e o progresso dos conhecimentos práticos paralelamente ao desenvolvimento de técnicas metodológicas, como a indução, para a invenção e a descoberta de novos conhecimentos.12

No novo ideal científico, os procedimentos experimentais, a perspectiva indutiva, a administração institucional e a organização do conhecimento são instrumentos que deverão auxiliar os homens a cuidar para que não ressurjam ilusões e erros que impeçam o avanço. Pois, não há garantia de que nossas inclinações psicológicas, a vaidade e a pressa, possam ser suplantadas, portanto, que estes ídolos sejam controlados no futuro.14

Bacon legitima a técnica como ciência, não se interessava em pensar as diferenças entre epistéme e téchne, ao contrário, buscar sua junção, para que ambas convergissem quando reformadas. Para este pensador os instrumentos são confiados para ajudar nossos sentidos, que os procedimentos metodológicos servem para assistir nossos julgamentos, discursos públicos e instituições cooperativas são como caminhos para progressão da ciência pragmática e operativa. O desenvolvimento das artes e das ferramentas, nesta época, é considerado como grandes expectativas no avanço futuro e nas novas descobertas da ciência tornada tecnologia.11

Ao longo da sua obra, o filosofo dá três sentidos às inovações técnicas: sua dimensão instrumental, na qual o progresso do conhecimento depende do progresso tecnológico. Acredita, portanto, que a arte da invenção se fortaleça com as descobertas; o segundo está articulado com a dimensão experimental da ciência, isto é, a capacidade de ser reproduzida por outros que tenham acesso à descrição objetiva podem reconstruí-la; o terceiro sentido é o da finalidade, ou seja, objetivo como recompensa.15 Esses três sentidos se interrelacionam e podem ser considerados como formas de conhecimento-domínio da natureza mecanismo de avanço do poder e do conhecimento humano. A postulação da identidade entre verdade e utilidade retém essa pluralidade, assim como a união entre a teoria e a prática seria como um casamento.13

Bacon tem um papel e um projeto de destaque na reforma do conhecimento na relação histórica entre ciência e técnica, que caracteriza um dos seus estilos de conhecimento científico. Um dos principais traços desse estilo é a sua interação com o conhecimento técnico. Apesar de outros filósofos modernos abordarem essa forma de conhecimento científico, a dimensão tecnológica é o eixo central do projeto baconiano.11

O conhecimento que se refere às capacidades mentais do homem, para Bacon, compreenderia dois tipos, quais sejam: o entendimento e a razão, a vontade, o apetite e a afeição. A filosofia humana se refere às capacidades mentais do homem e constitui-se de duas partes, a racional e a moral. As artes intelectuais compreendem a invenção, o julgamento, a retenção e a produção. A invenção inclui as artes e as ciências, o discurso e os argumentos.12

Na obra de Francis Bacon, há um posicionamento favorável tanto à reflexão sobre o fazer científico quanto à experimentação sistematizada que o filósofo defendia quando associada à reflexão, procurando responder a questões úteis para a vida do ser humano. Pode-se afirmar que ele valorizava os experimentos mentais e exploratórios.11

A investigação e a descoberta da verdade poderiam acontecer de duas formas: partir das sensações e das coisas particulares aos axiomas mais gerais e, a seguir, descobrirem-se os axiomas intermediários, a partir desses princípios e de sua inamovível verdade; recolher os axiomas dos dados dos sentidos e particulares, ascendendo contínua e gradualmente até alcançar, em último lugar, os princípios de máxima generalidade. Bacon considerava a segunda opção de investigação como sendo a via da experiência ordenada, o verdadeiro caminho da descoberta, porém não instaurado à sua época.13

Assim, preconizava a experiência elaborada para se fazer ciência, ou seja, procurava transformar as simples experiências em algo sistemático e organizado, direcionando-as de forma a servir como experimento de construção de evidências e controle de efeitos. Além disso, ele ressalta a importância de se recortar a realidade para estudá-la, uma vez que, na pesquisa científica, não se lida com a própria realidade, nem com sua totalidade, defendendo a observação contínua, sem a submissão a categorias restritas.11

Os frutos e inventos seriam como garantias e fianças da verdade das filosofias, desde que destinados à melhoria da condição humana. A verdadeira meta das ciências seria dotar a vida humana de novos inventos e recursos e sua finalidade seria a produção e não a reprodução de conhecimento e ideias. O objetivo de Bacon consistia no direcionamento do intelecto para a busca orientada e acertada do saber.13

A filosofia, de acordo com esse pensamento, passa a ser mediadora entre os especialistas em ciência, tecnologia e o mundo da vida cotidiana. Com isso, o objetivo do conhecimento seria o alívio das dores e aflições e a longevidade prolongada a ponto que quase se confunde, portanto, a tarefa da ciência é a progressiva resolução das necessidades, já que a busca pelo avanço do conhecimento deve libertar o homem do jugo da necessidade. Para tanto, o tempo liberado com o desenvolvimento dos instrumentos deve ser reinvestido no progresso das técnicas e das teorias, pois a teorização passa a ser permeada pela mesma lógica que permeia o avanço tecnológico.13

Cabe destacar que o "conhecimento de quem faz" é importante na fundamentação da técnica como ciência para Bacon, que expressa uma crítica ao conhecimento teórico que desconhece a prática e não resulta em obras quanto defende a prática, visto que compreende seus propósitos e a função dos mecanismos, relaciona-se a identidade, e da convertibilidade do conhecer com o fazer, entre verdade e utilidade, entre ciência e poder, teoria e prática.11

Diante do exposto, o modelo baconiano aplica-se às ciências de forma geral. Na medicina, os avanços foram inúmeros na revolução do conhecimento; porém, na enfermagem, muito do conhecimento requerido foi adquirido na realidade empírica, assim, um caminho para construir uma teoria seria observar o que os enfermeiros fazem, convidá-los a refletir sobre sua prática e, então, definir a natureza da enfermagem, partindo da base empírica de informações.14

Nessa perspectiva, a evolução do conhecimento em enfermagem caracteriza-se pelas fases que evoluíram dos procedimentos técnicos, bem como pela busca de princípios científicos que os embasassem; da utilização do método científico como estrutura para a assistência de enfermagem, até a tentativa de formulação de teorias que oferecessem um referencial a essa assistência. Merece destaque, a partir da década de 1960, o trabalho de Horta que utiliza o método científico como estrutura de organização para a assistência de enfermagem, denominado de processo de enfermagem.14

Desta forma, evidencia-se a relevância das contribuições de Bacon para a enfermagem, apesar das lacunas do seu método. Pode-se fazer uma relação entre as etapas do processo de enfermagem e o método científico, as quais correspondem a avaliação inicial do paciente e de diagnóstico de enfermagem. Portanto, essa relação permite realizar uma comparação entre as características e peculiaridades de cada fase entre elas.

Essa tecnologia de cuidado deve ser utilizada no fazer da enfermagem, em especial na APS, pois o enfermeiro precisa utilizar um corpo de conhecimento para desenvolver suas práticas nas diferentes linhas de cuidados na saúde pública, sendo fundamental que este profissional pense criticamente ao longo do seu processo de trabalho, já que suas ações são de natureza intelectual, interpessoal e técnica.

Destarte, para que o conhecimento se torne capaz de fundamentar o cuidado de enfermagem, ele deve ser construído na intersecção entre a filosofia, que responde à grande questão existencial do homem, a ciência e a tecnologia, tendo a lógica formal como responsável pela correção normativa, e a ética, ou seja, numa abordagem epistemológica efetivamente comprometida com a emancipação humana.16

TECNOLOGIA À LUZ DOS PENSAMENTOS DE GALIMBERTI

Umberto Galimberti é um filósofo fenomenólogo italiano, do século XX, que investiga a relação existente entre o homem e a sociedade da técnica. Sustenta que nas condições atuais o homem não é mais o centro do universo como na era humanista e que os conceitos fundamentais da filosofia sejam reconsiderados à luz da sociedade tecnológica atual. Esse filosófico centraliza seu discurso na técnica considerada finalidade primeira, pois nos dirigimos a ela antes de qualquer ação. Além disso, ela permeia a existência humana, nosso modo de trabalhar, de cuidar e ser cuidado. Neste contexto, percebe-se que a técnica é inerente às relações, e, consequentemente, às ações, permeando, também, o ambiente que nos rodeia e nos constitui, segundo as regras da racionalidade (burocracia, eficiência, organização) que não hesitam em subordinar o ser humano às necessidades específicas do aparato técnico.17

Diante do exposto, constata-se que houve uma inversão na relação entre o homem e a técnica, por isso, ainda nos comportamos como o homem pré-tecnológico, que agia com objetivos incluídos em um horizonte de sentido, com uma riqueza de ideias e de um conjunto de sentimentos que reconhecia a natureza a ser subjugada.18 A técnica estabelece, ao longo da história, a nossa maneira de agir, fazer, inserindo normas, rotinas, metas em nossos atos. Nesta ótica ela representa a verdade empírica ou, mais especificamente, a concretização de determinado ato, pois nada mais é do que a dominação do homem sobre a natureza, por meio da modificação do seu modo de agir.

A técnica seria a essência do homem, já que ela está tanto no universo dos meios, das tecnologias, quanto no conjunto que compõem o aparato técnico, na racionalidade que orienta o seu emprego em termos de funcionalidade e eficiência. De acordo com estas características, a técnica nasceu não como expressão do espírito humano, mas como remédio para sua insuficiência biológica.18

Em suma, pode ser entendida como um universo de meios, as tecnologias, quanto à racionalidade que preside seu emprego; a ciência como um modo singular de perscrutar o mundo por meio da organização de procedimentos e métodos, que, com algum rigor, procuraria, neste, verdades inscritas pelo uso da razão. A técnica, cujo sentido nasce da antecipação, torna-se a ação do homem no mundo, um meio para se atingir fins e, por fim, aquilo que gera a transformação do homem em senhor de si e de seu mundo.19

Galimberti tem um valor essencial em seu pensamento que consiste na tentativa de estabelecer uma nova filosofia de ação que nos permita, se não dominar a técnica, pelo menos evitar ser dominado por ela.19

Nesta perspectiva, a CE, enquanto tecnologia, permite que as ações do enfermeiro, tidas como um trabalho vivo em ato, sistematizadas e pautadas em conhecimento científico, bem como em experiências prévias, conceitos próprios e intuitivos, formas específicas de ver e descrever a prática, voltem-se para o cuidado dos indivíduos, proporcionando segurança, conforto e bem-estar.20

Nesta linha de pensamento, o trabalho de enfermagem contribui para a promoção, proteção, manutenção e recuperação da saúde ou até para uma morte digna e tranquila do indivíduo em seu domicílio. Isto dependerá do tipo de tecnologia utilizada pelo enfermeiro na APS, que pode ter o predomínio da tecnologia leve ou leve-dura.10 Diante do exposto, evidencia-se que as tecnologias preservam a vida, mas, ao mesmo tempo, libertam o homem de determinadas funções que podem subjugá-lo.

Dessas reflexões, depreende-se a necessidade de preparar enfermeiros que sejam capazes não só de executar técnicas de trabalho, mas que sejam críticos de sua prática, dotados de competência e conhecimentos que possibilitem a compreensão e a reflexão do seu trabalho em saúde, com autonomia e capacidade de resolver problemas, principalmente, comprometidos com a ética e a transformação da realidade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Estas reflexões, a respeito da CE, oportunizaram perceber a relevância da sua interface coma filosofia natural baconiana e a filosofia fenomenológica de Galimberti, visto que a consulta torna-se uma tecnologia do cuidado fundamental para a prática desta profissão.

O modelo baconiano propõe uma dimensão tecnológica do conhecimento, a ciência é vista como tecnologia, uma sistematização do saber, bem como a manipulação e domínio da natureza pelo homem. Cabe destacar que Bacon apostava no trabalho em equipe e na inovação individual; expressa uma crítica ao conhecimento teórico que desconhece a prática, constata-se a relevância da integração entre pensamento e ação, teoria e prática; influenciou o conhecimento da enfermagem e a CE, que se caracteriza pela semelhança com as etapas do método científico.

A filosofia fenomenológica de Galimberti revela a relação existente entre o homem e a sociedade da técnica como um meio para atingir fins e, ao mesmo tempo em que permeia a existência humana, gera a transformação do homem em senhor de si e de seu mundo. No fazer da enfermagem, evidencia-se que apesar da necessidade de um aparato tecnológico para o enfermeiro desenvolver sua prática na APS, este profissional precisa compreender que, muitas vezes, os equipamentos se constituem na extensão do próprio ser humano. Consequentemente, a CE torna-se uma tecnologia do cuidado fundamental para a prática desta profissão.

Diante do exposto, percebe-se que a articulação entre a filosofia e o fazer da enfermagem torna-se necessária para o avanço da utilização da consulta na APS brasileira, como tecnologia para a consolidação da enfermagem como ciência, além de estimular o indivíduo a ser protagonista, corresponsável no cuidado de si, e no seu processo saúde-doença.

Dessa forma, os enfermeiros precisam depreender que o cuidado e a tecnologia estão interligados, pois a enfermagem está comprometida com princípios, leis e teorias. Portanto, a tecnologia consiste na expressão desse conhecimento científico e em sua própria transformação enquanto ciência, de modo que a filosofia tem um papel de suma relevância, que é possibilitar ao profissional refletir de forma crítica e participava sobre o seu fazer. A CE deve ser uma prática sistematizada, estruturada cientificamente e que utilize uma linguagem unificada de enfermagem, oportunizando a comunicação e a documentação da sua prática, favorecendo a promoção, proteção e manutenção da vida, bem como a melhoria na qualidade da atenção prestada à pessoa, família e comunidade.

REFERÊNCIAS

1. Morin E. O método 6: ética. Porto Alegre (RS): Sulina; 2011. [ Links ]

2. Nilson LG, Campos DA, Dallegrave DJ, Moretti-Pires RO. A Investigação Apreciativa como Tecnologia para a Pesquisa em Saúde Coletiva. Saude Transf Soc [online]. 2014 [acesso 2006 Jul 06]; 4(3):1-9. Disponível em: http://incubadora.periodicos.ufsc.br/index.php/saudeetransformacao/article/view/2905/3989Links ]

3. Meier MJ, Crozeta K, Danski MTR, Betiolli SE, Truppel TC. O processo de enfermagem como uma tecnologia para o cuidado: um instrumento para a prática. In: Anais do 2º Seminário Internacional de Trabalho em Enfermagem, 2008 Abr 17-19; Curitiba, Brasil [online]. Curitiba (PR): ABEn; 2008 [acesso 2013 Set 21]. Disponível em:http://www.abennacional.org.br/2SITEn/Arquivos/N.070.pdfLinks ]

4. Ministério da Saúde (BR). Portaria 2.488, de 21 de outubro de 2011. Aprova a Política Nacional de Atenção Básica, estabelecendo a revisão de diretrizes e normas para a organização da Atenção Básica, para a Estratégia Saúde da Família (ESF) e o Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS). Brasília (DF): MS; 2011. [ Links ]

5. Horta WA. Processo de Enfermagem. São Paulo (SP): EPU; 1979. [ Links ]

6. Conselho Federal de Enfermagem (BR). Resolução n. 358, de 15 de outubro de 2009. Dispõe sobre a Sistematização da Assistência de Enfermagem e a implementação do Processo de Enfermagem em ambientes, públicos ou privados, em que ocorre o cuidado profissional de Enfermagem, e dá outras providências. Brasília (DF): COFEN; 2009. [ Links ]

7. Amante LN, Anders JC, Meirelles BHS, Padilha MI, Kletemberg DF. A interface entre o ensino do processo de enfermagem e sua aplicação na prática assistencial. Rev Eletr Enferm [online]. 2010 [acesso 2012 Ago 05]; 12(1):201-7. Disponível em: http://www.fen.ufg.br/revista/v12/n1/v12n1a24.htmLinks ]

8. Alfaro-Lefevre R. Aplicação do processo de enfermagem: uma ferramenta para o pensamento crítico. Porto Alegre (RS): ArtMed; 2010. [ Links ]

9. Santos KM, Backes DS, de Moura SH, Loewen WM, Veronese AM, Terezinha ZM, et al. Tecnologias de cuidado em saúde e enfermagem e suas perspectivas filosóficas. Texto Contexto Enfermagem. 2006; 15(Esp):178-85. [ Links ]

10. Merhy EE. Saúde: a cartografia do trabalho vivo. São Paulo (SP): Hucitec; 2002. [ Links ]

11. Oliveira BJ. Francis Bacon e a fundamentação da ciência como tecnologia. Belo Horizonte (MG): UFMG; 2010. [ Links ]

12. Zaterka L. A longevidade segundo a concepção de vida de Francis Bacon. Filosofia e História da Biologia [online]. 2010 [acesso 2013 Set 21]; 5(1):127-40. Disponível em: http://www.abfhib.org/FHB/FHB-05-1/FHB-05-1-08-Luciana-Zaterka.pdfLinks ]

13. Bacon F. Novum Organum ou Verdadeiras Indicações Acerca da Interpretação da Natureza. São Paulo (SP): Abril Cultural; 1979. [ Links ]

14. Galvão RCS. Francis Bacon: teoria, método e contribuições para a educação. INTERthesis [online]. 2008 [acesso 2015 Jul 06]; 4(2):32-41. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/interthesis/article/view/620/10859Links ]

15. Bacon F. A sabedoria dos antigos [1609]. São Paulo (SP): UNESP; 2002. [ Links ]

16. Rocha SMM, Almeida MCP. O processo de trabalho da enfermagem em saúde coletiva e a interdisciplinaridade. Rev Latino-Am Enfermagem [online]. 2000 [acesso 2014 Jul 20]: 8(6):96-101. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-11692000000600014Links ]

17. Galimberti U. Psiche e techne: l'uomoNell'etádella técnica. Roma (IT): Feltrinnelli; 2003. [ Links ]

18. Galimberti U. Técnica e natureza: a inversão de uma relação. Socitec e-prints [online]. 2005 [acesso 2008 Jul 16]; 1(1):3-13. Disponível em: http://www.socitec.pro.br/e-prints_vol.1_n.1_tecnica_e_naturezaLinks ]

19. Galimberti U. Psiche e Techne: o homem na idade da técnica. São Paulo (SP): Paulus; 2006. [ Links ]

20. Enders BC, Ferreira PBP, Monteiro AI. A ciência-ação: fundamentos filosóficos e relevância para a enfermagem. Texto Contexto Enferm. 2010 Jan-Mar; 19(1):161-7. [ Links ]

Recebido: 02 de Março de 2014; Aceito: 17 de Agosto de 2015

Correspondência: Cilene Nunes Dantas Rua Cerejeira, 122, 59152-230 - Nova Parnamirim, Parnamirim, Rio Grande do Norte, Brasil. E-mail:cilenenunesdantas@gmail.com

Creative Commons License Todo o conteúdo do artigo, exceto onde está identificado, está licenciado sob uma Licença Creative Commons