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Texto & Contexto - Enfermagem

versão impressa ISSN 0104-0707versão On-line ISSN 1980-265X

Texto contexto - enferm. vol.25 no.3 Florianópolis  2016  Epub 03-Out-2016

https://doi.org/10.1590/0104-07072016004070015 

ARTIGO ORIGINAL

EDUCAÇÃO EM SAÚDE NA PREVENÇÃO DO HIV/AIDS COM HOMENS JOVENS USUÁRIOS DE CRACK1

Agnes Caroline Souza Pinto2 

Maria Veraci Oliveira Queiroz3 

Fabiane do Amaral Gubert4 

Violante Augusta Batista Braga5 

Patrícia Neyva da Costa Pinheiro6 

2Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFC. Enfermeira do Instituto Federal do Ceará. Fortaleza, Ceará, Brasil. E-mail: agnespinto@hotmail.com

3Doutora em Enfermagem. Professora do Departamento de Enfermagem, Universidade Estadual do Ceará. Fortaleza, Ceará, Brasil. E-mail: veracioq@hotmail.com

4Doutora em Enfermagem. Professora do Departamento de Enfermagem, UFC. Fortaleza, Ceará, Brasil. E-mail: fabianegubert@hotmail.com

5Doutora em Enfermagem. Professora do Departamento de Enfermagem, UFC. Fortaleza, Ceará, Brasil. E-mail: violantebraga@superig.com.br

6Doutora em Enfermagem. Professora do Departamento de Enfermagem, UFC. Fortaleza, Ceará, Brasil. E-mail: neyva.pinheiro@yahoo.com.br


RESUMO

Objetivou-se promover, por meio dos Círculos de Cultura, espaço crítico-reflexivo acerca da prevenção do HIV/aids junto com jovens usuários de crack. Desenvolveu-se pesquisa-ação, realizada em 2012, através do Círculo de Cultura, com dez jovens usuários de crack. A análise e interpretação dos resultados privilegiaram a discussão conforme a experiência vivida pelo grupo. Os jovens demonstraram conhecimento incipiente e desarticulado sobre a aids, com predominância de mitos, e se consideravam vulneráveis ao HIV/aids, visto que o compartilhamento de canudos e cachimbos, para o uso da cocaína/crack, e a perda da consciência favoreciam o não uso do preservativo durante as relações sexuais e a multiplicidade de parceiros. Os resultados contribuem para que o enfermeiro trabalhe com metodologias dialógicas e participativas, como a de Paulo Freire, a fim de favorecer a reflexão crítica do educador e educando em prol da prevenção de DST/aids em usuários de crack.

DESCRITORES: Enfermagem; Educação em saúde; Síndrome da imunodeficiência adquirida; Adolescente; Cocaína crack

ABSTRACT

The aim of this study was to promote, through Cultural Circles, a critical and reflective space on the prevention of HIV/AIDS among young crack users. An action research was carried out in 2012 through the Cultural Circle, with ten young crack users. The analysis and interpretation of results focused on the discussion according to the group experience. Youngsters showed incipient and inarticulate knowledge about AIDS, mainly myths, and considered themselves vulnerable to HIV/AIDS, given the exchange of straws and pipes for cocaine/crack use and loss of consciousness favoring non-use of condoms during intercourse and having multiple partners. Results contribute towards the nursing work with dialogical and participatory methodologies, such as Paulo Freire, in order to encourage critical reflection of both educator and learner towards the prevention of STD/AIDS among cocaine/crack users.

DESCRIPTORS: Nursing; Health Education; Acquired Immune Deficiency Syndrome; Young; Cocaine crack

RESUMEN

El objetivo fue promover, a través de los Círculos de Cultura, un espacio crítico y reflexivo sobre la prevención del VIH/SIDA entre jóvenes consumidores de cocaína/crack. Fue desarrollada una investigación-acción, en 2012 por medio del Círculo de Cultura, con diez jóvenes usuarios de cocaína/crack. El análisis e interpretación de los resultados favorecieron la discusión de la experiencia del grupo. Los jóvenes demostraron conocimiento sobre la SIDA de forma incipiente y desarticulado, con un predominio de los mitos, y se consideraban vulnerables a VIH/SIDA pues compartían los pitillos y pipas para usar el crack/cocaína y también por la pérdida de conciencia. Dichos factores favorecieron no utilización condón durante las relaciones sexuales con sus múltiples parejas. Los resultados contribuyen para que la enfermera trabaje con metodologías dialógicas y participativas como las de Paulo Freire, a fin de fomentar la reflexión crítica del profesor y del alumno hacia la prevención de ITS/SIDA en usuarios de crack/cocaína.

ESCRITORES: Enfermería; Educación en salud; Síndrome de Inmunodeficiencia Adquirida; Adolescente; Cocaína crack

INTRODUÇÃO

O consumo de crack se transformou, nos últimos 25 anos, em um dos principais problemas de saúde pública em diversos países do mundo, inclusive no Brasil. Essa droga surgiu entre 1984 e 1985, em bairros pobres e marginalizados de Los Angeles, Nova York e Miami e ao final da década de 1980, surgiam as primeiras evidências do maior risco de infecção pelo Vírus da Imunodeficiência Adquirida (HIV) em usuários de crack.1

No Brasil, o consumo de crack iniciou-se por volta da década de 1990 e esteve circunscrito à cidade de São Paulo. Em 1994, o Sistema Único de Saúde (SUS) inseriu oficialmente, no Brasil, a Redução de Danos (RD) enquanto política estratégica no âmbito da saúde pública. Adotou, como eixo inicial, um conjunto de práticas voltadas para a prevenção da aids e hepatites virais em grupos estigmatizados vulneráveis à transmissão dos vírus pelo compartilhamento das agulhas e seringas contaminadas durante a prática do uso injetável de drogas.2 Assim, muitos usuários de droga endovenosa mudaram de via, aderindo ao crack por considerarem-no mais "seguro" em relação ao HIV/aids.3-4

Estudo brasileiro, realizado com usuários de crack em 2013, revelou uma prevalência da infecção pelo HIV entre usuários de crack e/ou similares de 4,97%, aproximadamente oito vezes a prevalência de HIV estimada para a população geral brasileira, além do que cerca de 1/3 desses usuários está concentrado na faixa etária de 18 a 24 anos e são predominantemente do sexo masculino.5

Nesse cenário, é importante que as estratégias de prevenção entre os usuários de drogas não se restrinjam à modificação do comportamento de risco relacionado ao uso da droga, mas também às modificações no comportamento sexual de risco, visto que o consumo de crack está associado diretamente com a infecção pelo HIV e aos comportamentos de risco, como o elevado número de parceiros, as relações sexuais desprotegidas e o sexo comercial por crack ou por dinheiro para comprar a droga.6

Nesse sentido, a mudança de comportamento em relação às drogas e ao HIV/aids pode ser subsidiada pela conscientização advinda do processo de educação em saúde, que requer do profissional de saúde, e principalmente do enfermeiro, por sua afinidade com esta prática, uma aproximação da realidade desses jovens, reflexão acerca do seu papel como educador e o desenvolvimento de ambiente voltado à aprendizagem e à autonomia dos sujeitos.7

Diante do exposto, surgiu o seguinte questionamento: como a enfermagem pode desenvolver ações preventivas com jovens usuários de crack sobre o HIV/aids? Neste contexto, o enfermeiro deve orientar os jovens às possíveis alternativas para que estes tomem atitudes que lhes proporcionem saúde em seu sentido mais amplo.

Assim, este estudo teve como objetivo promover, por meio de Círculos de Cultura, espaço crítico-reflexivo acerca da prevenção do HIV/aids junto com os jovens usuários de crack.

MÉTODO

Estudo exploratório e descritivo com abordagem qualitativa, utilizando-se a pesquisa-ação.8 Participaram dez jovens usuários de crack atendidos em comunidade terapêutica de referência, em uma capital do Nordeste brasileiro. Para a seleção dos sujeitos, utilizou-se os critérios de inclusão: sexo masculino, usuários da unidade de tratamento para dependentes químicos e que referiram ter feito uso de crack. Adotou-se, como faixa etária de jovens a indicação da Organização Internacional do Trabalho, que aponta tratar-se de indivíduo entre 15 e 24 anos de idade, visto que o núcleo de internamento é exclusivo para homens maiores de 16 anos.9

As informações foram produzidas de janeiro a setembro de 2012, por meio da observação participante, diário de campo, filmagens de imagem por vídeo e as etapas do Círculo de Cultura.

A abordagem de ensino do Círculo de Cultura, de Paulo Freire, constitui ideia que substitui a de ´turma de alunos´ ou de ´sala de aula´ por vivência, que visa ensejar uma educação com ênfase no diálogo. Essa denominação de círculo significa que todos estavam em volta de uma equipe que não tinha professor, mas um animador que coordena os debates, buscando a participação ativa de todos no processo educativo.10

Os seis Círculos de Cultura aplicados seguiram as etapas do método teórico de Paulo Freire, adaptando-os ao alcance dos objetivos propostos: descoberta do conhecimento prévio, seleção das palavras dentro do contexto dos jovens, criação de situações existenciais típicas do grupo e elaboração de casos para auxiliar no diálogo e possibilitar a (des)construção e (re)construção do novo conhecimento.

Cada Círculo ocorreu mediante três momentos: no acolhimento, realizou-se a descoberta do universo vocabular dos usuários de crack, com técnicas grupais do tipo modelagem, pintura, desenhos, jogo das DST/aids, vídeos, visando possibilitar aos participantes falarem sobre as expectativas, conhecimentos e dos círculos anteriores. Para a problematização, foram utilizadas técnicas grupais, como a dramatização, o uso de paródias, textos e vídeos, com questões que favoreceram a reflexão crítica da realidade. Na avaliação, realizou-se a síntese do que foi vivenciado em cada círculo, através da autoavaliação, na qual foram apreciados participação, interesse, motivação e apreensão do conteúdo pelo grupo, assim como a atuação da facilitadora.

Para a descrição e análise dos dados, procedeu-se à transcrição do material contido nas filmagens, registrando as falas na íntegra, observando as informações no diário de campo e a sequência dos Círculos de Cultura. A interpretação dos resultados foi avaliada pelo grupo, pela experiência do pesquisador e pelo diálogo com as fundamentações teóricas do método de Paulo Freire, consideradas relevantes e enriquecedoras ao estudo crítico do discurso popular.10

O estudo obedeceu aos aspectos éticos e legais de pesquisa envolvendo seres humanos,11 sendo aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Ceará, protocolo nº 303/11. O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido foi assinado pelos jovens e seus respectivos responsáveis. Nesse sentido, os jovens foram identificados pelo termo usuário (U), seguido de número de ordem das falas.

RESULTADOS

Foram realizados seis Círculos de Cultura, com o intuito de efetivar o diálogo sobre HIV/aids, os quais foram intitulados: Conhecendo o viver dos jovens com as drogas; Vulnerabilidade dos jovens ao HIV/aids enquanto usuários de drogas; A relação da aids com as drogas; Conversando sério sobre a prevenção do HIV/aids; O que aprendemos sobre aids?; Síntese do que foi vivenciado.

O primeiro círculo teve o objetivo de conhecer o universo vocabular dos participantes. Para isso, foram utilizadas as palavras geradoras relacionadas às drogas e à vulnerabilidade. Neste primeiro encontro, ficou evidente a necessidade de trabalho educativo continuado com esses jovens a fim de favorecer uma reflexão sobre a temática das drogas e sua relação complexa com os vários fatores que cercam essa questão, inclusive o HIV/aids.

O segundo círculo aconteceu mediante as reflexões que se iniciaram no momento anterior, no qual se identificou, ainda, que alguns deles não reconheciam ou não saiam se eram vulneráveis ao HIV/aids por serem usuários de crack, embora a maioria afirmasse existir esta relação. Em seguida, o terceiro círculo possibilitou uma vivência que teve por finalidade mostrar aos participantes que todas as pessoas sexualmente ativas estão vulneráveis ao contágio do HIV/aids e, portanto, têm que se prevenir, além de ilustrar os efeitos da pressão dos amigos.

Ao longo dos círculos, ficou evidenciado o pouco conhecimento do grupo com relação ao tema, o que motivou o planejamento do quarto círculo a partir do aprofundamento da doença. Já o quinto círculo foi planejado no sentido de consolidar o conhecimento acerca do HIV/aids, por meio de atividades lúdicas que permitissem aos participantes socializar o conhecimento apreendido nos círculos anteriores. E o sexto e último círculo foi uma retrospectiva de todos os círculos feita pelos jovens através de uma pintura.

O quadro 1 apresenta a descrição das dinâmicas e atividades realizadas nos seis Círculos de Cultura e sua relação com os momentos de acolhimento, problematização e avaliação.

Quadro 1 Associação dos Círculos de Cultura com os momentos de acolhimento, problematização e avaliação, Fortaleza-CE, 2013 

O quadro 2 apresenta os depoimentos dos usuários de crack para cada Círculo de Cultura vivenciado.

Quadro 2 Descrição dos depoimentos dos usuários de crack e sua relação com os momentos de acolhimento, problematização e avaliação dos Círculos de Cultura, Fortaleza-CE, 2013 

DISCUSSÃO

Quando questionados sobre os motivos que os levaram a experimentar as drogas, a maioria dos jovens disse que tal consumo ocorreu por influência dos amigos. A curiosidade, pais e outros familiares que usam drogas também foram relatados. Do mesmo modo, estudos revelam que ter amigos que consomem algum tipo de droga aumentou a possibilidade de o adolescente usá-la, como também constatou que o jovem experimenta droga em decorrência da desinformação, curiosidade, insatisfação com a vida, quando algum dos pais consome drogas ou se o jovem discute demasiadamente com os pais.12-13

Estudo brasileiro com usuários de crack apontou os motivos que os levaram a consumi-lo pela primeira vez e mais da metade dos usuários do Brasil disse que tal consumo ocorreu por conta da curiosidade que tiveram de experimentar/sentir o efeito da droga (58,28% [IC95%: 55,21-61,28)]. Problemas familiares ou perdas afetivas foi o motivo principal para início do uso do crack relatado por 29,19% dos usuários (IC95%: 26,67-31,84), e a pressão/influência de amigos foi relatada por 26,73% (IC95%: 23,94-29,72) dos usuários.5

Com relação às sensações ou efeitos que eles sentiam quando usavam drogas, em especial o crack, os relatos dos jovens deste estudo corroboram com a literatura especializada. Assim, observou-se que a fase inicial de euforia, a mais desejada pelos usuários, apresenta as seguintes características: aumento do estado de vigília, sensação de bem-estar e autoconfiança, euforia, aumento da libido, que nos jovens desta pesquisa foram convertidas em atitudes diante das meninas. Os quadros psiquiátricos mais relatados, como os delírios e alucinações,14 foram bastante proferidos pelos adolescentes.

Nenhum dos jovens relatou saber da intoxicação por alumínio como consequência do uso do crack, visto que o usuário, ao utilizar latas de refrigerante ou de cerveja para fumar a pedra, o alumínio pode se desprender da lata e ser inalado junto com a fumaça, caindo na corrente sanguínea e distribuído pelo corpo, causando lesões no cérebro, nos ossos e nos rins.15

Quanto à aids, estudos semelhantes trabalharam a prevenção do HIV/aids com adolescentes pertencentes a grupos religiosos e com adolescentes em situação de rua e discutiram estas mesmas questões tratadas com os jovens deste estudo: a diferença entre o HIV e a aids, as doenças oportunistas, as formas de transmissão e prevenção, os mitos e tabus, os testes para diagnóstico, a origem desta doença, enfim, assuntos pertinentes à temática do HIV/aids que depois se afunilavam para cada população específica estudada.16-17

No que se refere aos conselhos que dariam para um amigo usuário de drogas se prevenir do HIV, estes giraram em torno do uso do preservativo em todas as relações sexuais e apenas um participante referiu que o amigo deveria parar de usar droga. Mesmo com o conteúdo já discutido, mas não aprofundado, percebeu-se que para eles a transmissão do vírus somente estava relacionada à via sexual.

Durante os círculos, percebeu-se que apenas um participante citou a relação entre as doenças sexualmente transmissíveis/aids e as drogas. Porém, a maioria falou de forma desarticulada, ora somente da droga, ora das DSTs, esta sempre enfocando o uso do preservativo, demonstrando não conhecerem como as drogas influenciam na infecção pelo HIV. Já o estudo com meninos de rua evidenciou que estes, quando estavam sob o efeito de drogas, relataram ser incapazes de assumir comportamento sexual responsável, assim como os jovens do nosso estudo.17

Estudo brasileiro com usuários de crack corrobora com o estudo anterior e sinaliza que grande parte dos usuários estava em situação de rua nos 30 dias anteriores à pesquisa (39,04% [IC95% 34,18-44,14]), o que constitui um fator agravante, por vezes, determinante, no que diz respeito ao risco de contrair doenças infecciosas transmissíveis. A maior parte dos usuários que fizeram sexo vaginal nos 30 dias anteriores à entrevista não utilizou preservativo em pelo menos uma dessas relações (64,15% [IC95% 60,71-67,45]). O uso inconsistente de preservativo, na prática do sexo oral e anal, também foi bastante elevado com proporções de 79,05% (IC95% 75,63-82,10) e 62,00% (IC95% 57,38-66,41), respectivamente, de não uso do preservativo em alguma dessas relações sexuais.5

Quanto às estratégias educativas utilizadas neste estudo, a dramatização, na avaliação dos usuários, foi a melhor e mais divertida forma de aprender. O desafio de planejar e apresentar uma dramatização de pouca duração foi bastante motivador e, ao mesmo tempo, marcado por várias dificuldades, no que diz respeito à desenvoltura de encenar, mesmo com os fantoches. Os vídeos educativos foram solicitados pelos jovens, visto que a imagem causa maior impacto nas suas mentes do que somente as palavras e os ajuda na questão da memorização, que estava um pouco prejudicada devido ao consumo de crack. Em estudo desenvolvido com meninos em situação de rua, estes também realizaram a dramatização como forma de aprendizado para falarem sobre comportamento de risco e comportamento seguro diante das DST/HIV/aids.17

Os jogos educativos também foram utilizados neste estudo, a exemplo do jogo estilo dominó, do Projeto aids: educação e prevenção, também utilizado por outro autor, em seu estudo com adolescentes, que corrobora este como estratégia de educação em saúde para prevenção de DST/HIV/aids por haver favorecido o fenômeno educativo, mediante o consórcio entre informação, debate, reflexão, influência recíproca e participação grupal.18

Evidenciou-se que abordar a temática HIV/aids para os jovens é muito complexo, principalmente porque é um assunto que envolve a intimidade deles. No entanto, procurou-se utilizar artifícios dinâmicos e lúdicos, aproximando assim, da realidade deles, para que se sentissem à vontade e participassem de forma espontânea, sem medos e vergonhas dos companheiros, a fim de que, ao final, todos construíssem conhecimentos de forma coletiva.

Diante dessas ações criativas e reflexivas, deve-se pensar na realização de pesquisas com participação ativa dos sujeitos, utilizando estratégias pedagógicas de enfermagem, que potencializem a investigação, bem como a implementação de orientações para o bem-estar humano por meio de técnicas e métodos diferentes.

Ação educativa que teve a dança e/ou música como mediadora na abordagem de assuntos de interesses dos jovens, como sexualidade, puberdade, prevenção de DST/HIV/aids, permitiu, que adolescentes redescobrissem a percepção do risco e da vulnerabilidade que se encontravam.19

Assim, ensinar e aprender não podem ocorrer fora da procura, fora da boniteza e da alegria. A prática educativa é tudo isso: afetividade, alegria, capacidade científica, domínio técnico a serviço da mudança ou, lamentavelmente, da permanência do hoje.20 A educação que potencializa o cuidar deve estar incorporada à prática da enfermagem, pautada em prol da melhor qualidade de vida.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os jovens do estudo demonstraram conhecimento incipiente e desarticulado com predominância de mitos acerca da prevenção das DST/aids. Eles relataram também nunca ter feito uso de drogas injetáveis, porém reconheceram que, mesmo assim, se consideram vulneráveis às DST/aids, visto que o compartilhamento de canudos e cachimbos para o uso da cocaína e crack, respectivamente, e a perda da consciência ou do julgamento podem ter favorecido o não uso do preservativo durante as relações sexuais e à multiplicidade de parceiros. Os amigos desses jovens foram os principais influenciadores para que estes viessem a experimentar as drogas.

Na realização de cada Círculo, evidenciou-se que o uso de diversas atividades lúdicas, como a pintura, a dramatização, a modelagem, os próprios jogos e dominó utilizados, bem como os vídeos exibidos, facilitaram o processo de "tomada de decisão" proporcionado pelo desenvolvimento do pensamento crítico, favorecendo uma visão ampliada da realidade na qual estão inseridos. O enfermeiro, ao utilizar dinâmicas criativas e ativas ao longo do processo de ensino-aprendizagem, possibilita aos sujeitos reflexões sobre a busca por soluções para as situações-problema vivenciadas de forma interativa.

O estudo traz contribuições para o conhecimento científico e da prática da enfermagem, uma vez que não foi encontrado nas bases de dados disponíveis nenhum trabalho que abordasse a intervenção com usuários de drogas de forma inclusiva utilizando estratégias que integrassem várias atividades, dentre elas, as lúdicas. Com a abordagem do tema drogas, observou-se que a maioria das pesquisas é realizada por médicos psiquiatras e possui cunho quantitativo; quando se refere aos enfermeiros, grande parte dos estudos aborda o conhecimento dos acadêmicos de enfermagem sobre drogas e o modo como a graduação prepara os alunos em relação a este tema.

Nesta pesquisa, identificaram as reais situações de risco e de vulnerabilidade que se encontram esses jovens, como também foram mostradas diversas atividades de educação em saúde desenvolvidas com eles, e para eles que facilitaram o processo de tomada de consciência acerca das DST/aids nesta população específica. Com a ajuda dos participantes, traçou-se uma proposta educativa para ser utilizada com outros adolescentes ou crianças que estão em escolas e que ainda não tiveram contato com as drogas, ou seja, um trabalho preventivo, criado junto com pessoas que já estão do outro lado do processo, na fase de tratamento, mas reconhecem a gravidade do problema.

É importante destacar as limitações deste estudo, a saber: os jovens não possuíam em seu processo contínuo de tratamento, práticas reflexivas, muitas vezes, querendo permanecer de forma passiva; e a falta de continuidade das atividades educativas com a finalidade de acompanhar o processo de transformação do sujeito.

É preciso que enfermeiros, como promotores da saúde de jovens, aproximem-se da realidade deles, possibilitando discursos de assuntos que, frequentemente, não são reconhecidos pelos jovens como importantes, no sentido de construir a autonomia adequada para a promoção da saúde.

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1 Extraído da dissertação - Círculo de Cultura com jovens usuários de cocaína/crack visando a prevenção do HIV/aids, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Ceará (UFC), em 2013.

Recebido: 17 de Agosto de 2015; Aceito: 08 de Dezembro de 2015

Correspondência: Agnes Caroline Souza Pinto Rua Alexandre Baraúna, 1115, 60.430-160 - Rodolfo Teófilo, Fortaleza, CE, Brasil E-mail: agnespinto@hotmail.com

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