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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970On-line version ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.5 no.1 Rio de Janeiro Mar./June 1998

https://doi.org/10.1590/S0104-59701998000100001 

 

 

 

Ética e Ideologia
na Ciência de Nollet
e Franklin

Ethics and Ideology
in the Science of Nollet
and Franklin

 

 

 

 

 

Lewis Pyenson

* Reitor e professor da Escola de Pós-Graduação de
História da University of Southwestern Louisiana
Lafayette, Louisiana.
The University of Southwestern Loisiana. P. O. Box
44610 Lafayette, LA 70504-4610 USA.
E-mail: lrp6914@usl.edu

 

 

PYENSON, L.: ‘Ética e ideologia na ciência de Nollet e Franklin’. História, Ciências, Saúde — Manguinhos,V(1): 7-33, mar.-jun. 1998.

A controvérsia sobre a natureza da eletricidade, surgida em meados do século XVIII entre Jean Antoine Nollet e os seguidores de Benjamin Franklin, é utilizada para investigar até que ponto a fé católica e a protestante desempenharam um papel, quanto ao discurso, no âmbito da filosofia natural. O católico Nollet e o protestante Franklin compartilharam vários atributos em comum, porém o prazer do debate intelectual não era um deles.

PALAVRAS-CHAVE: Benjamin Franklin, Jean Antoine Nollet, Max Weber, ética protestante, religião e ciência, Iluminismo.

 

PYENSON, L.: ‘Ethics and ideology in the science of Nollet and Franklin’. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, V(1): 7-33, Mar.-Jun. 1998.

The controversy over the nature of electricity, conducted in the middle of the eighteenth century by Jean Antoine Nollet and supporters of Benjamin Franklin, is used to investigate the extent to which Catholic and Protestant faith played a role in discourse in the realm of natural philosophy. Catholic Nollet and Protestant Franklin shared a number of attributes, but the delight in controversy was not one of them.

KEYWORDS: Benjamin Franklin, Jean Antoine Nollet, Max Weber, Protestant ethic, religion and science, Enlightenment.

 

 

 

     Por obra do descontentamento generalizado com o gasto de recursos públicos em questões superficiais, sob o espectro de fraude sistemática em projetos de pesquisa, e alimentados por uma infra-estrutura que procura direcionamento moral, padrões éticos tornaram-se o lema da ciência no final do século XX.1 É como se o tempo tivesse confirmado a penetrante reflexão de Max Weber sobre a ciência e a erudição, publicada logo após a Primeira Guerra Mundial. Ali, Weber destacou que, embora os valores pessoais pudessem ser filtrados do discurso nas ciências naturais, continuavam associados às ciências humanas. A tarefa do acadêmico humanista consistia em esclarecer o papel desempenhado pelos valores em trabalhos que tratam da condição humana. Nessa perspectiva, a erudição, tanto quanto a ciência, pode fornecer os fundamentos para a ação no mundo. Weber criticou os eruditos que convertem a sala de aula em púlpito. Proferir sermões sobre valores específicos era privilégio do sacerdote tradicional e não do cientista ou estudioso em um foro público. Para quem aspirava a ser profeta, "melhor seria voltar em silêncio, com simplicidade e recolhimento, aos braços abertos e misericordiosos das velhas Igrejas, sem dar a seu gesto a publicidade habitual dos renegados". Weber (1989, p. 30) afirmava taxativamente: "Na sala de aula a única virtude que conta é a simples probidade intelectual."
     Weber sabia que a vocação secular da ciência (Wissenchaft, em alemão, e science, em francês, carregam uma conotação de erudição tanto nas ciências naturais quanto nas ciências humanas) só havia despontado claramente no século XIX. Antes disso, a ciência era uma maneira de se compreender as pegadas escondidas de Deus: "Lembremos do aforismo de (Jan) Swammerdam — ‘Apresento-lhes aqui, na anatomia de um piolho, a prova da providência divina’ — e compreenderemos qual foi, naquela época, a tarefa própria do trabalho científico, sob influência (indireta) do protestantismo e do puritanismo: encontrar o caminho que conduz a Deus" (ibidem, p. 16).
     A ciência moderna, nos primórdios, posicionava a ética como a sua peça central. Quando fragmentou-se em disciplinas altamente especializadas — o que Weber considerava sinal característico do mundo industrial —, a ciência expurgou as amarras morais.
     O Iluminismo francês é, com freqüência, visto como um divisor de águas secularizante, que libertou a razão das garras do preconceito e do dogma. Não obstante a inclinação racionalista de René Descartes e Pierre Gassendi, a filosofia natural — encarnação universal da razão — chegou tarde na França, bem depois de se ter disseminado pela Europa Central, Países Baixos e Grã-Bretanha. No início do século XVIII, ninguém menos que Voltaire buscou instruir-se em física na Inglaterra. Os que vieram depois desfrutaram de uma clara vantagem quando adotaram novos modos de pensar, pois podiam dispensar os vestígios da tradição e se concentrar nas últimas novidades. Os pensadores iluministas franceses eventualmente secularizaram Descartes e Gassendi, retendo sua fé nos números e na observação, ao mesmo tempo que repudiavam as outras normas que esses savants do século XVII haviam estabelecido para o mundo (Guerlac, 1977, p. 131). Das normas irrelevantes a principal era o interesse pela teologia. Para muitos homens e mulheres ilustrados, a virtude da religião ortodoxa derivava do controle social sobre o campesinato analfabeto e crédulo: as igrejas bem organizadas ampliavam a oportunidade de uma vida confortável, dedicada a refinados prazeres.
     Na medida em que as injunções da religião ortodoxa referiam-se cada vez menos aos pensadores progressistas, podemos imaginar como as diretrizes para a conduta ética na filosofia natural desmoronaram. Seguindo esse raciocínio, era perfeitamente possível a expectativa de se ver uma representação deliberadamente adulterada das evidências. E se todas as premissas estão abertas a exame minucioso, o que constitui um fato deve gerar discussões e controvérsias na comunidade competente para julgar tais assuntos — a dos próprios escritores que haviam contribuído para o discurso em questão. De acordo com esse ponto de vista, a ciência deveria ter se transformado em algo como um vale-tudo.
     Mas não foi isso que aconteceu. A Europa do Iluminismo presenciou pouca manipulação de dados e muito menos reivindicações fantásticas do que a dos séculos precedentes. A especulação filosófica sobre o mundo, à maneira de Descartes, e a edição de textos literários antigos, à maneira de Gassendi, deram lugar à observação e à experimentação em tempo integral. Filósofos naturais de todo tipo eram escrupulosos em suas observações (Guerlac, 1977b, p. 77). Os astrônomos praticavam uma precisão cada vez maior nos quadrantes e sextantes, que também foram utilizados na agrimensura (Heilbron, 1992, pp. 35-55). A pesagem com balanças extremamente exatas tornou-se a máxima central da química de Antoine Laurent Lavoisier (Levere, 1990, pp. 207-23). Os pesquisadores não se enganavam por falta de esforço; as observações descuidadas eram atribuídas à ausência de equipamentos técnicos. Havia um esforço comum para estabelecer os fatos, os quais, depois de testados por meio de experimentos repetidos, tornavam-se os blocos construtores das teorias. Os desentendimentos diziam respeito ao ordenamento dos fatos, pois eram percebidos como recorrentes e, ocasionalmente, contraditórios. Uma teoria persuasiva — a eletricidade de Benjamin Franklin — podia varrer, e o fez, uma grande quantidade de fatos anômalos para debaixo do tapete. No século XVII, a experimentação e observações precisas geraram, sem dúvida, provas concretas, mas no Iluminismo a precisão tornou-se uma virtude em si mesma.
     É bom lembrar que o século XVIII estava longe de constituir-se em um todo indiferenciado. Havia, é claro, no decorrer do século, uma preocupação em medir as coisas de uma forma correta, mas nas últimas décadas do Antigo Regime a medição precisa tornou-se uma verdadeira obsessão, quando Lavoisier, Pierre Simon de Laplace e Charles Augustin Coulomb relataram as propriedades do mundo em uma série de dígitos muito maior do que aquela que os erros experimentais permitiriam mais tarde. Expressões de fé e invocação da divindade, alusões comuns no pico da revolução científica do século XVII, caíram progressivamente em desuso. Entre os especialistas, a nova ciência da medição oferecia um lugar precário para conteúdos éticos e controversos.2
     Se observarmos a ciência iluminista de meados do século XVIII, devemos esperar encontrar um tipo de racionalismo ético no qual o imperativo moral impulsiona a busca de fatos inquestionáveis. Mais adiante, veremos como que precisamente essa sensibilidade se apresenta em dois antagonistas bem conhecidos: o diácono francês Jean Antoine Nollet e o deísta americano Benjamin Franklin. O deísta, que autoconscientemente impôs a razão aos dogmas religiosos que ainda forneciam as diretrizes para uma vida correta, associou intimamente valores espirituais à sua pesquisa experimental; o diácono, vivendo confortavelmente dentro de instituições protegidas por dogmas religiosos, quase nunca aludiu à divindade.
     Uma reflexão conjunta sobre Nollet e Franklin pode colocar na perspectiva correta a condenação generalizada dos filósofos naturais do século XVIII que o filósofo Gaston Bachelard promoveu no início do século XX. Bachelard acreditava, de acordo com Henry Guerlac, que aqueles homens "generalizavam muito facilmente; seus conceitos explanatórios eram precipitados e vagos; seus objetivos eram muitas vezes entreter, maravilhar ou edificar". Bachelard, ainda segundo Guerlac, depreciava as observações dos iluministas acerca da natureza: "Quando eles faziam suas observações da natureza — como o abade Nollet nas suas famosas expériences de gala — o espetáculo prevalecia." Por fim, o pior: na opinião de Bachelard, os escritos dos pesquisadores do século XVIII "estão recheados de erudição irrelevante ou são bate-papos entre o ‘savant’ e o ‘curieux’". Em apoio à sua contestação quanto à natureza fantástica da pesquisa no século XVIII, Bachelard cita a descrição de Franklin de um banquete elétrico na Filadélfia, comemorativo de sua pesquisa, no qual a eletricidade mata e assa um peru, eletrifica taças e detona espoletas. Era um espetáculo indigno de homens de ciência, pensava Bachelard.3
     Os comentários de Bachelard foram aceitos sem críticas por Barbara Maria Stafford em uma avaliação da representação visual da ciência iluminista. Stafford identifica como "um dos legados do Iluminismo ... a dicotomia entre profissionais altamente respeitados, dedicados a trabalhos intelectuais originais, e trabalhadores embrutecidos, labutando em tarefas enfadonhas". Na segunda metade do século XVIII, de acordo com Stafford, o prestígio científico derivava não da destreza manual e sim da agilidade mental. Demonstrações e evidências, "não importa quão óbvia a técnica", tornaram-se sinônimo de atos invocatórios. A autora busca "iluminar a indistinção entre a tênue linha que separa os estratagemas de invocação dos êxtases paroxísmicos da ciência natural, nos quais o ego também tornou-se arte". Destaca em particular que "os ‘eletricistas’ dissidentes de Nollet eram artistas que exploravam indecorosamente a elasticidade de seus (corpos) físicos", sujeitando-os a descargas elétricas. A física experimental, prossegue Stafford, caracterizava-se por demonstrações desvinculadas de aulas reais e pela "ausência de recursos visuais exemplares, de modelos sofisticados e ilustrações esclarecedoras". O sucessor escolhido por Nollet, Joseph-Aigan Sigaud de Lafond, era "um escultor do ego" e não um elucidador da lei natural (Stafford, 1994, pp. 134, 144, 173-4, 190).
     Quando se fala em razão, a clareza de expressão é tudo. Veremos que o lúcido Bachelard estava errado pelas razões certas, ao passo que mesmo um leitor condescendente não atribuirá tanta clareza ao ensaio de Stafford, ilustrado de modo rebuscado e confuso. Independentemente do que tenha sido, a filosofia natural iluminista serviu para demarcar as fronteiras entre a razão e o preconceito, a evidência e a superstição. O Iluminismo representou justamente o momento no qual a destreza manual na ciência tornou-se um atributo muito valorizado, que conduziu diretamente às ciências experimentais do século XIX. As demonstrações em ciência natural buscavam exatamente exibir todas as partes de um aparelho, quase sempre construído de vidro. A representação da forma humana nas publicações de Nollet buscava familiarizar sua audiência de aristocratas com as noções em discussão. Com efeito, a forma humana para Nollet não assume proporções heróicas e, apenas ocasionalmente, a referência clássica. Longe de serem desprovidos de recursos visuais, os textos de física de Nollet — escritos para acompanhar suas palestras-demonstrações — estavam repletos de ilustrações e diagramas de todo tipo, que revelavam a aprendizagem tácita exigida para se ter êxito na física experimental. Sigaud, o sucessor de Nollet, em vez de continuar recorrendo a esse tipo de ilustração, eliminou as representações integrais do corpo humano, prefigurando as austeras e sombrias formas dadas aos aparelhos de laboratório no século XIX.
     Comecemos com Nollet, o homem que levou a ciência experimental aos franceses — o primeiro a fazer demonstrações, mas sem nenhum valor, na opinião de Bachelard, um exibicionista, na opinião de Stafford.
     Quando Jean Antoine Nollet iniciou sua carreira como um jovem fabricante de globos, as congregações religiosas mal haviam começado a se recuperar do desastroso confronto com a filosofia natural (para o Vaticano, Copérnico tinha tão pouca serventia quanto para Martinho Lutero). Ainda não havia espaço para se lecionar ciência, exceto nas instituições de ensino superior, do tipo universidade, collège ou academia. No início do século XVIII, ainda era difícil ganhar a vida fabricando instrumentos científicos. Mas quando Nollet morreu, os membros das congregações religiosas já se situavam entre os mais ativos investigadores do mundo natural. Os professores jesuítas em seus collèges e os pastores protestantes em seus púlpitos refletiam com entusiasmo sobre os princípios newtonianos, escreviam crônicas sobre a história natural em seus países e no exterior e realizavam experimentos com máquinas elétricas e lentes de aumento. No último terço do século XVIII, professores residentes e visitantes já faziam parte da paisagem na Europa e no Novo Mundo, divulgando novas doutrinas científicas na cidade e no campo. O impressionante aumento da demanda de máquinas de precisão possibilitou a pessoas como James Watt, Jesse Ramsden e Charles Borda explorar o mundo dos mecanismos e das medições.
     Nollet que, egresso de um meio modesto, alcançou uma aceitação apoteótica nos círculos letrados, explorou com maestria as oportunidades de seu tempo. Escolheu fazer parte da classe que era recrutada a partir do mérito — o clero católico romano —, ordenando-se diácono e apropriando-se do título de abade (abbé), o que lhe conferia respeito sem exigir responsabilidades. Como membro do Primeiro Estado no Antigo Regime, podia submeter as verdades recebidas, tais como curas milagrosas atribuídas à eletricidade, a uma severa investigação sem ser alvo das difamações de que eram vítimas os livre-pensadores não-religiosos que compartilhavam dos mesmos objetivos. Detentor de um título católico, Nollet podia aparentar ficar de fora dos hábitos materialistas dos escritores do Antigo Regime, podia se projetar como exemplo da razão desinteressada.
     O imparcial abade tornou-se tutor da aristocracia ao capitalizar o interesse então em voga pela filosofia natural newtoniana, uma ‘onda’ iluminista que aos poucos invadiu a paisagem cartesiana. O século XVII presenciou a evolução de René Descartes da condição de exilado aviltado a ícone nacional. Defender a verdade da filosofia mecânica cartesiana tornou-se uma questão de orgulho nacional. Por volta de 1720, Isaac Newton triunfara sobre os seus competidores no mundo da mecânica. As expedições francesas do início do século XVIII, com a missão de verificar a forma do globo — extraordinariamente custosas e inconclusivas — constituem um exemplo pioneiro de como os pesquisadores financiaram uma enorme infra-estrutura baseados na interessada premissa da defesa da glória nacional: nenhuma autoridade francesa negaria o valor de o universo funcionar de acordo com princípios franceses em vez de ingleses. Nollet absorveu de seus colegas mais idosos na Academia de Ciências o ideal setecentista de experimentum crucis para decidir disputas teóricas, mas, como fenomenalista eclético que era, também promoveu a filosofia natural newtoniana. Desafiou os preconceitos cartesianos promovendo experiências mecânicas sobre a força centrífuga, mas sua teoria fluvial da eletrostática — na qual a separação de cargas derivava de correntes cósmicas, universais, fluindo para dentro e para fora de um corpo material — repetia o plenum cartesiano.4
     O lema de Nollet poderia ser perfeitamente o seguinte: "Mostre os fenômenos." A serviço da exibição, defendia os interesses dos fabricantes de instrumentos implementando projetos padronizados para aparelhos de demonstração, de roldanas a miras, de máquinas elétricas a bússolas. Nollet era um comerciante bem-sucedido na manufatura de seus equipamentos de diversão. Seus manuais, amplamente difundidos, forneciam ilustrações detalhadas que permitiam ao leitor fazer o mesmo. Nollet produzia de tudo, desde globos e planetários,5 a microscópios bombas a vácuo e geradores elétricos. Possuir seus equipamentos era sinal de modernidade e otimismo. A associação com a pessoa do abade conferia a esse espírito de modernidade conotações de fé, filosofia e moralidade.
     Esses três papéis — o de pensador objetivo, o de demonstrador experiente e o de artesão habilidoso — são considerados diplomas comprobatórios dos mestres do direito natural. Na Europa moderna, os papéis transformaram-se em profissão somente após a invenção da imprensa, as viagens de descobrimento e o colapso da Igreja unitária. Vale indicar aqui as linhas que convergiam na obra de Nollet, começando pelo papel de pensador.


Demonstração de salão da eletricidade estática. O demonstrador (uma representação do abade Jean Antoine Nollet, a julgar pelo colarinho) ajusta a carga eletrostática aplicada a uma mulher suspensa à meia altura por cabos de seda. (Frontispício de Essai sur l’électricité des corps, de Nollet, Paris, 1746; gravura de R. Brunet. Cortesia da Biblioteca do David M. Stewart Museum, Île Ste.-Hélène, Montreal).

     Nas academias dos império Romano e Bizantino, nas madrasahs e nos observatórios do mundo islâmico, nos ‘colégios’ budistas do Sul e do Sudeste asiático, no mandarinato da China, nas guildas da Europa medieval, em todos esses lugares o raciocínio imparcial era a meta suprema almejada. À parte sua função de filtro ideológico que disciplinava as mentes imaturaspara os empregos remunerados no direito civil, no direito canônico e na medicina, a razão referia-se a proposições verificáveis com exatidão: cálculo da posição futura dos planetas, solução de problemas algébricos e geométricos. No interior da comunidade de críticas competentes, não havia lugar para o dogma religioso — não importa se cristão, islâmico, hindu ou confucionista — no debate quantitativo sobre os fenômenos naturais. Raciocinar significava calcular, e isso continuou valendo no século XVII.
     O telescópio, o microscópio, o barômetro e a bomba de ar possibilitaram um novo tipo de raciocínio sobre o mundo natural. Satélites de Júpiter, montanhas da Lua, fases de Vênus, capilares e amebas, o oceano da atmosfera reduzindo-se a um vazio interplanetário (cujo vazio podia ser replicado como vácuo na Terra), todos esses fenômenos geraram um discurso sobre o ‘raciocínio físico’ que podia desenvolver a nova filosofia mecânica. Desde a Antigüidade, a argumentação lógica, expressa em palavras, buscava prescrever a forma do mundo natural. Galileu juntava palavras comuns com números, utilizava argumentos qualitativos para elaborar modelos matemáticos. As palavras, desde os tempos medievais a moeda das universidades, quando empregadas pelas novas corporações de savants, os acadêmicos elitistas, voltavam-se contra seus mestres, os professores. Durante o século XVIII, a palavra racional estendeu-se a um público que não podia aspirar nem à academia nem à universidade. Nollet tornou-se um ícone da razão popular e imparcial.
     Para serem efetivas, as palavras precisam de suportes. Se desde os tempos medievais, os pensadores utilizavam representações estilizadas do cosmos e do corpo humano para transmitir seus significados, com o Renascimento, os novos mundos de além-mar geraram uma forte demanda de inventário e descrição. Mapas(e globos e tudo que era necessário para fabricá-los eram procurados por comerciantes, investidores e seguradores financeiros e aventureiros militares. O mercado altamente especializado de instrumentos de navegação e cálculo — o astrolábio, o torquetum, o relógio de sol, a esfera armilar6 e o quadrans vetus — ampliou-se para atender à demanda crescente. Novos instrumentos — como o teodolito,7 o sextante, a régua paralela e o podômetro8 — inundaram o mercado. A esses, somou-se, no século XVII, um conjunto de instrumentos de cálculo: a régua de cálculo, a régua de escala reduzida, o compasso de proporção e as máquinas de calcular. Contudo, a despeito de todo esse interesse, a fabricação de instrumentos científicos continuou artesanal; um fabricante não podia passar a vida toda procurando prever o ritmo de crescimento da ‘tribo’ dos medidores (Turner, 1987, pp. 171-230).
     O legado das palestras de Nollet foi ter elevado a arte de fazer medições e de construir máquinas ao nível do refinamento alcançado na execução musical, no floreio retórico e na interpretação celestial que dominavam a cultura cortesã na Europa desde a baixa Idade Média.9 Seguindo as ilustrações dos livros de Nollet, tanto os aristocratas quanto os burgueses eram encorajados a testar a verdade da filosofia natural com suas próprias mãos. O fato de que Nollet reuniu um grande número de mulheres ilustradas como discípulas demonstra que, pela primeira vez, o manejo de aparelhos havia se tornado algo simples e edificante (Goodman, 1992, pp. 14-20). Na verdade, muitos dos campos que se tornariam parte da física clássica eram vistos como especialmente adequados para as mulheres até o início do século XX, quando o ensino de física elementar ainda utilizava os instrumentos que Nollet padronizara.
     As artes mecânicas, depois de garantirem um lugar apenas marginal na educação superior durante a revolução científica do século XVII, ancoraram-se firmemente nos currículos universitários em meados do século XVIII, graças, em grande parte, ao seu alcance pedagógico. Os estudantes vinham em bandos aprender a filosofia mecânica e testemunhar a demonstração de suas verdades. Foi então que professores empreendedores transformaram a necessidade pedagógica em virtude científica, incluindo equipamentos de pesquisa ‘de carona’ no orçamento de aparelhos de demonstração — e esse ‘jeitinho’ continua até hoje.10 A pesquisa científica nas universidades nasceu nos espetáculos públicos do tipo daqueles promovidos por Jean Antoine Nollet. Era a reputação dele em eletricidade, tanto como teórico quanto como experimentador, que conferia brilho a suas palestras. Que graduando hoje (ou, para ser mais preciso, que pais de alunos?) não se deslumbraria com um professor reconhecido por descobrir novas verdades sobre o mundo?
     A cátedra de física experimental de Nollet no Collège de Navarre em 1753, é claro, era uma das estrelas da constelação do ensino superior da época. Naquele tempo, a Universidade de Paris era constituída pela soma de quatro faculdades — medicina, direito, teologia, artes e ciências — que datavam dos tempos medievais. A universidade também tinha um componente ‘colegial’ que lembrava a estrutura colegiada das universidades de Oxford, Cambridge e Pavia, entre outras. Um collège, fundado por Robert de Sorbon e extinto no século XVIII, deu nome à universidade (Sorbonne). Outro collège, St. Côme, funcionava na prática como a escola cirúrgica da faculdade de medicina. Um pequeno número de collèges, aqueles de pleno direito, preparava os alunos para os estudos da faculdade (e, eventualmente, para os diplomas de faculdade), ensinando-lhes, de modo diverso, os rudimentos de filosofia, humanidades e teologia. Esses collèges afiliados funcionavam geralmente como internatos, cobrando até 450 libras por ano por pensão completa. quantia idêntica era paga pelo aluno para poder dispor de um preceptor ou criado. O Collège de Navarre, fundado no século XIII por Joana de Navarra e Filipe o Belo, aceitava estudantes de gramática, filosofia e teologia e era o único entre os collèges universitários a ter permissão para o ensino de ciências.11 A cátedra de Nollet, em um programa universitário propedêutico, adaptava-se perfeitamente a seu estilo de ensino.
     A eletricidade permitiu a Nollet — um arrivista com credenciais sofríveis — tornar-se uma autoridade no mundo da ciência. Tratar da eletricidade não exigia nenhum arsenal matemático (os sutis pensadores da eletricidade fizeram escasso uso dessa disciplina até o começo do século XX): as experiências eram qualitativas e descritivas. O assunto podia ser investigado sem equipamentos extremamente refinados (embora enormes, frágeis e caros). Mesmo os grandes acumuladores estáticos e as garrafas de Leiden não exigiam nada que se comparasse à precisão dos polidores de lentes, dos divisores do círculo em minutos e segundos ou dos micrômetros. Por fim, as experiências apelavam à participação de homens e, especialmente, mulheres que pagavam para ouvir Nollet falar sobre fluidos e atrações. Experimentar choques elétricos dependurados em um trapézio ou dando-se as mãos em roda era estimulante sem ser ímpio ou escandaloso. Constituía-se raro exemplo de prazer sensual sancionado pela ortodoxia religiosa.
     Até sua meia-idade, o divertido abade era um empírico que não se preocupava em elaborar teorias. Acreditava que os princípios gerais podiam ser alcançados por meio da realização de experimentos detalhados sobre o efeito físico em questão. Em 1745, Nollet permitiu-se teorizar. Defendeu a existência de auras elétricas ao redor de corpos eletricamente carregados que surgiam quando a matéria elétrica era expulsa dos corpos. Concluiu que o fogo, a luz e a eletricidade constituíam uma única substância. Um corpo eletrificado podia contar tanto com uma corrente efluente, divergente, de eletricidade (detectável em algumas experiências) como com uma corrente afluente, heterogênea. Caso isso não ocorresse, sustentava Nollet, um corpo eletrificado perderia seu teor de eletricidade, algo jamais antes observado. Interpretar os experimentos tornou-se então uma questão de argumentar como a corrente se propagava através de diversas substâncias. No esquema de Nollet, havia um tipo de matéria elétrica fluindo continuamente através do plenum do laboratório. O sistema emperrava na grande quantidade de qualitativos ambíguos necessários para explicar os experimentos padrões do dia, e ruía quando confrontado com novos fenômenos, notadamente as garrafas de Leiden, porque era incapaz de explicar as propriedades do elemento central dos experimentos elétricos — o vidro, cuja fragilidade fez com que nenhuma das máquinas elétricas criadas por Nollet sobrevivesse até os nossos dias (Heilbron, 1978, pp. 278-89, 352-62; Home, 1984, pp. 120-2).
     O principal rival de Nollet em assuntos de eletricidade, Benjamin Franklin, responsável pela teoria débito-crédito da eletricidade aceita ainda hoje, também era um homem religioso. Na verdade, a moral de Franklin é arquetípica da visão de mundo protestante. Ou, pelo menos, era essa a opinião de Max Weber, o pioneiro da sociologia, que começou seu estudo da ética protestante enfocando as obras de Franklin, Advice to a young tradesman e Necessary hints to those that would be rich. Weber analisou o surgimento do capitalismo nos centros europeus onde o calvinismo tomou impulso. A chave, enfatizou Weber, reside em três atitudes associadas à teologia calvinista: diligência na prática religiosa, renúncia à satisfação material e uso construtivo do tempo. A sociedade guiada por essas normas éticas, acreditava, estaria predisposta a engendrar um sistema econômico baseado no capitalismo. Em tal sociedade, o ganho pecuniário funcionaria mais como um símbolo cultivado em outras virtudes do que um fim em si mesmo.
     Weber percebeu que as normas calvinistas foram importantes para o advento da ciência moderna. O capitalismo encorajava tanto a matemática quanto a experimentação, os dois fundamentos da ciência, sobretudo porque a ciência ampliava a possibilidade de lucro através de aplicações tecnólogicas. Quando a vida das pessoas comuns começou a mudar graças a essas aplicações, a ciência moderna tornou-se inextrincavelmente ligada aos investimentos capitalistas e, por extensão, aos valores religiosos. A ciência era, no século XVII, um caminho para a verdade última, para a iluminação no sentido religioso da palavra; por intermédio da matemática e da experimentação, os filósofos naturais sondavam os desígnios de Deus em relação ao mundo.12 Uma vez concebida, essa visão de ciência produziu uma ideologia transcendente. Weber escreveu por volta de 1909:13

Embora a ciência tenha criado este cosmos de causalidade natural e tenha parecido ser incapaz de responder com exatidão às suas próprias pressuposições últimas, ela reivindicou, em nome da ‘probidade intelectual’, constituir a única forma de visão racional do mundo. Conseqüentemente, o intelecto, assim como todos os valores culturais, também criou uma aristocracia não-fraterna de possessão racional da cultura, que independe de todas as qualidades éticas pessoais da humanidade

     Anos mais tarde, quando reeditou seu ensaio sobre a ética protestante e o espírito do capitalismo, Weber principiou exatamente com esses pensamentos:

No estudo de qualquer problema da história universal, um filho da moderna civilização européia estará sempre sujeito a ter de indagar sobre a combinação de fatores que explica o fato de na civilização ocidental, e nela apenas, terem surgido os fenômenos culturais dotados (como queremos crer) de um desenvolvimento universal em seu valor e significado. Somente no Ocidente existe a ciência em um estágio de desenvolvimento que atualmente reconhecemos como válido (Weber, 1958, p. 13).

     Na visão de Weber, foi essa transcendência ideológica que permitiu aos cientistas (e por extensão aos estudiosos) assumir uma postura de neutralidade ética. chegou a essa conclusão com extrema relutância.14
     Ele descobriu o primeiro grande cientista americano durante uma visita aos Estados Unidos no início do século XX — notadamente após sua estada no Haverford College, instituição masculina quacre localizada nas proximidades de Filadélfia. Benjamin Franklin pareceu-lhe econômico, relativamente casto, empreendedor, assíduo, independente e cético em relação à autoridade temporal e ao dogma. Eram exatamente esses os valores divergentes que se propagaram entre os colonos livres que cultivavam as escarpas aluviais do leste da Pensilvânia, e também dos comerciantes quacres com quem Franklin convivia e trabalhava. Para vender livros — o primeiro sucesso comercial de Franklin foi como impressor — convinha escrever o que as pessoas desejavam ler. Para Weber (1958, pp. 52-3, 71 e 151), Franklin considerava o ganho pecuniário como o summum bonum (supremo bem); o derradeiro árbitro da ética era a utilidade prática e o ganho pessoal. A essa avareza associavam-se um ascetismo e uma modéstia anterior ao sucesso material — a riqueza estava dissociada de seu gozo. E uma honestidade inflexível governava a avareza.
     Em que aspectos Weber acertara em suas avaliações? Em nenhum, sustenta o historiador Gabriel Kolko (1965, pp. 192-4): o homem Franklin era extravagante, um fauno libidinoso, tolerante à tirania e propenso a preconceitos sociais infundados. Para Weber, a ciência apoiava-se na matemática e na experimentação. Franklin era um grande defensor de procedimentos elementares de contabilidade (as explicações franklinianas para os fenômenos elétricos nascem no escritório e não no laboratório), mas a precisão numérica e a experimental não ocupavam lugar algum em seu pensamento científico (Heilbron, 1992, p. 210). Observations concerning the increase of mankind, de 1755, para citar apenas uma de suas mais longas especulações, baseia-se em aritmética elementar aplicada a hipóteses especulativas.
     Franklin aprendeu matemática elementar quando adolescente e nunca foi muito além disso. Considerava a precisão inimiga do discurso educado, e aqueles que dominavam a precisão em assuntos científicos "estavam sempre negando ou defendendo ninharias e perturbando qualquer conversação" (Cohen, 1982, p. 144). Adepto inflexível da doutrina newtoniana, lançava mão de hipóteses especulativas para explicar os padrões de chuva e vento nos Estados Unidos. Inclinado à promoção da utilidade, suas noções práticas — um aquecedor/lareira melhorado e o pára-raios — deixavam bastante a desejar, em singular contraste com as notáveis invenções da nova geração de funileiros mecânicos, tais como o fabricante de instrumentos da Universidade de Glasgow, James Watt, e o empresário londrino Jesse Ramsden. Assim como Nollet, Franklin interessou-se pela eletricidade na maturidade, quando sua posição permitiu-lhe aproveitar o tempo livre de forma criativa, dedicando-o à investigação sistemática sobre a natureza da matéria. Não havia sentido prático em seu interesse — freqüentemente deixava de lado a ciência para se dedicar aos negócios — e sua esposa, que cultivava um gosto por coisas refinadas, deve ter se orgulhado dos instrumentos inúteis, caros e frágeis que adornavam as prateleiras de sua casa.15
     É conveniente lidar com as especificidades, como Franklin e Nollet teriam aconselhado. A exemplo de Nollet, Franklin fez demonstrações diante de uma multidão de pares; porém, diferentemente do diácono católico, o deísta Franklin fazia questão de não cobrar entrada. Para analisar o principal fenômeno elétrico do momento, a garrafa de Leiden, principiou com os conceitos de conservação de carga (que não inventara), eletricidade positiva e negativa e bombeamento de um gerador elétrico, propondo a noção de que o vidro era impermeável ao fluxo elétrico. Concluiu que as cargas se localizavam nas superfícies internas e externas da garrafa de vidro. Franklin teorizou que a matéria elétrica fluía através da matéria comum como a água através de uma esponja; carregar um objeto significava impor uma "atmosfera" elétrica em sua superfície. Esta era a "carga elétrica". A eletricidade frankliniana não conseguia explicar fenômenos ‘desajeitados’, tais como a repulsão de duas esferas carregadas negativamente, mas era capaz de prever as suas conseqüências. Uma delas foi a invenção da "bateria", garrafas de Leiden dispostas em série. Outra conseqüência foi a explicação (um tanto capenga, para os padrões do século XX) do motivo pelo qual os objetos pontiagudos perdiam carga mais rapidamente do que os objetos obtusos. Seus truques manuais conduziram a uma revelação assombrosa: o raio era um fluido elétrico e podia ser atraído para o solo com uma vareta metálica (Heilbron, 1978, pp. 324-43).
     A inspirada suposição de Franklin foi verificada pelos detratores franceses do trabalho de Nollet e a idéia de atrair raios das nuvens — e, de quebra, proteger as cidades da ira divina — eletrificou a Europa iluminista. Cidadãos aterrorizados não precisavam mais repicar os sinos ou acertar as nuvens com tiros de mosquetes e canhões para afastar os relâmpagos: necessitavam apenas instalar pára-raios. Os experimentadores persistiram nisso até que um raio fulminou Georg Wilhelm Richmann em São Petersburgo. Referências à eletricidade inspiraram vários prelados da Europa Central, que a considerava um caminho para o êxtase religioso (Benz, 1989, pp. 31-4). Elas prenunciaram o desvio de Franz Anton Mesmer, cujas revelações sensacionais foram desmistificadas por uma comissão constituída em Paris da qual Franklin e Lavoisier faziam parte, do mesmo modo que Nollet desmistificara anteriormente a terapia elétrica (Heilbron, 1978, pp. 353-4; Gillispie, 1980, pp. 261-89; Darnton, 1968, pp. 62-4; Lopez, 1966, pp. 168-75; Smith, 1954, pp. 484-93).
     A abordagem frankliniana da eletricidade encontrou seu primeiro e mais significativo apoio na obra de Giambattista Beccaria, membro de uma ordem religiosa italiana e professor de física na Universidade de Turim. Franklin produzira sua obra sobre a eletricidade em quatro cartas pessoais enviadas a seu correspondente em Londres; seu estilo ali era divagador, que se auto-anulava, experimentalmente especulativo e ingênuo, para não dizer ignorante da tradição científica. Beccaria, um sacerdote hierarquicamente superior a Nollet, era organizado, estridente, dedutivo e conhecedor da literatura disponível. Em seus escritos, Franklin não reivindicava pretender explicar todos os fenômenos elétricos; ao dar prosseguimento à obra de Franklin (que se baseava na aceitação das tradicionais noções da efluência na eletricidade), modificando-a, Beccaria simplesmente desprezou as indicações conflituosas, considerando-as anomalias irrelevantes.
     Temos à nossa disposição a edição do tratado de Beccaria (1753) com as anotações de Nollet, que demonstrou seu desacordo sem paixão. O empiricista Nollet escreveu: "Já tenho observado que esses fatos geralmente constituem exceções, o que nos leva a considerar como infundadas as reflexões que o autor faz aqui." Beccaria estabelecia uma distinção entre a eletricidade do gerador e a existente num circuito: "esses princípios me parecem dos mais equivocados porque se baseiam em um fato mal observado."
     A eletricidade afluente e a efluente explicavam muito melhor as coisas — "fort aisé".16
     Como o antagonismo entre Beccaria e Nollet sugere, na abundante literatura sobre a eletricidade surgida durante o século XVIII, homens de diversas filiações católicas não reivindicavam pertencer a uma ou a outra doutrina elétrica. Eram, sob formas diversas, cuidadosos ou infelizes condutores de experimentos. Eles não se apoderaram de novidades mais lentamente do que os seus colegas protestantes. Nem a doutrina elétrica se dividiu em função da religião. Os filósofos naturais russos ortodoxos, morávios, católicos, calvinistas, luteranos, anglicanos e quacres aparentemente liam e avaliavam os trabalhos uns dos outros sem considerar (e freqüentemente desconhecendo) os escrúpulos religiosos do autor. Nollet, na verdade, imaginou de início que Franklin fosse quacre, para desgosto deste. Franklin (1986, p. 185) escreveu que todos viviam na "Era das Experiências" e a experimentação estava aberta a todos. Existiria, então, algum fundamento na classificação de Weber do estilo de vida com base na doutrina religiosa? A tese de Weber poderia ser estendida à filosofia natural?
     De certo modo, Benjamin Franklin se parecia com Jean Antoine Nollet. Como ele, era autodidata em assuntos científicos e também possuía um conhecimento extremamente reduzido de matemática. No início, Franklin, da mesma forma que Nollet, foi um artesão, tendo se destacado graças à sua boa estrela e ao patrocínio da alta burocracia. Franklin, assim como Nollet, integrou associações científicas. Ambos eram inovadores no campo da educação e ambos dominavam apenas suas línguas maternas. Franklin e Nollet rejeitavam a teoria aristotélica das qualidades físicas, mas o apelo de Franklin à divindade era tão aristotélico em seus compromissos terrenos quanto o de Nollet — pelo menos, conhecemos as preferências religiosas de Franklin de seu próprio punho e os pontos de vista de Nollet sobre dogma podem ser inferidos de sua aversão a milagres. Ambos concordavam que a ciência era útil e edificante (Heilbron, 1992, p. 214). Até onde podemos julgar, vestiam-se com simplicidade por convicção. Adoravam a companhia feminina. Franklin viveu para saborear elogios como um virtuoso original; Nollet viveu para sofrer a inimizade de detratores enciumados.
     Todavia, no que concerne às circunstâncias que cercavam o fazer ciência, os dois homens seguiram caminhos distintos. Para Nollet, a ciência era aberta, pública e impressa.17 Mesmo sem saber se iria contar com apoio material, a ciência para ele era uma vocação. Rodeado por dezenas de competidores, Nollet perseguiu sem sucesso um acomodamento cartesiano-newtoniano. Franklin praticava sua ciência in camera, em um pequeno círculo de adeptos que pensavam como ele. Era uma distração, praticada no tempo livre e podia ser posta de lado, na dependência da solução de assuntos comerciais ou de questões políticas. Franklin, na verdade, escreveu sua contribuição à ciência principalmente sob a forma de cartas pessoais, que foram impressas por seu correspondente, um colega da Royal Society de Londres. Na visão de Franklin, não podia existir meio-termo em assuntos científicos. Respondendo a seu irmão sobre um método dietético para dissolver cálculos renais, afirmou: "O que posso dizer? Ele [Robert Whytt] relata fatos e experimentos que, se não houverem sido contraditos por outros fatos e experimentos,devem ser ser considerados como válidos" (Franklin para John Franklin, 1952 em Franklin 1959, vol. 4, p. 386).
     Com relação ao que acontecia na bancada de laboratório, Nollet e Franklin concordavam. Fatos, escreveu I. Bernard Cohen (1956, pp. 297, 311), determinaram o cosmos de Franklin: "A filosofia da ciência de Franklin deriva de Newton e seus discípulos — Desagulieres, ‘sGravesande, Hales — e, portanto, é baseada na convicção de que hipóteses fantasiosas não produzem explicações científicas." A ciência dependia de experiências diretas e sem ambigüidades. O sentido de experimentação de Franklin, assim como o de Nollet, era uma demonstração decisiva da conseqüência lógica de certos postulados que não podiam ser comprovados pela experiência direta dos sentidos. Seus experimentos eram quantificados por meio de comparações. Efeitos elétricos de certos materiais eram mais ou menos violentos; uma medida que ele usou foi o poder letal de uma descarga elétrica — se e com que rapidez mataria uma ave:

Realizamos várias experiências com aves neste inverno … . Utilizamos duas grandes jarras de vidro fino, com a borda dourada, com capacidade de seis galões [cerca de 22,7 litros] e demos dois mil giros em um globo de nove polegadas de diâmetro [cerca de 22,9 centímetros] para carregá-las totalmente; quando o globo funciona bem, carrega uma redoma de meio pint [pouco menos de 1/4 de litro] com 50 giros, o suficiente para matar galinhas comuns imediatamente; mas os perus, embora acometidos de violentas convulsões e permanecessem prostrados por alguns minutos como se mortos estivessem, recuperavam-se em menos de 15 minutos. Entretanto, colocando juntas as garrafas do Sr. (Ebenezer) Kinnersley e as minhas, cinco ao todo, embora não totalmente carregadas, assim matamos um peru pesando cerca de dez libras [aproximadamente 3,7 quilos] e suponho que mataríamos um ainda maior. Imagino que as aves mortas desse modo são muito tenras (Cohen, 1941, pp. 93-4).

     Temos aqui informações suficientes para permitir a um colega além-mar repetir a experiência — conquanto que tivesse à sua disposição um peru de dez libras. A matemática e a medição exata do tempo, distância e massa eram pouco evidenciadas, mas a noção de quantidade — conservação de carga, positiva e negativa consideradas em conjunto — nunca estava ausente das pesquisas elétricas de Franklin. Nollet não era contrário ao sacrifício de pequenos animais nos experimentos científicos e, como Franklin, acreditava na importância de demonstrações qualitativas e livres de qualquer controvérsia (Home, 1984, pp. 122-6, 121).
     Tanto Nollet quanto Franklin experimentaram a frustração de não conseguir fornecer explicações teóricas em grande escala para suas experiências qualitativas. Franklin, na verdade, era a causa do mal-estar de Nollet. Atenuou-se, em Franklin, a busca das causas últimas, embora (pelo menos na maturidade) talvez nunca tenha se extinguido por completo. Como objetivo imediato, ele procurou isolar fenômenos naturais no laboratório e reduzi-los à mecânica da matéria em movimento. Matéria era aquilo que ele podia tocar ou sentir diretamente, como os frascos de vidro e as bolas de cortiça, ou o que podia inferir de modo razoável, como a matéria elétrica, em oposição àquilo que permanecia totalmente no imaginário, como o éter elétrico. Franklin, o filósofo maduro, não temia invocar substâncias hipotéticas — outros éteres ou fluidos sutis — quando buscava a causa de elementos como a luz e o calor ou da origem da Terra. O jovem investigador formulava hipóteses de trabalho que podiam guiar sua busca ordenada da natureza; hipóteses universais e cosmologias não eram guias confiáveis para um experimentador (Cohen, 1956, pp. 341, 351-2).
     A ciência, para Franklin, em 1750, era uma atividade de elite, pois a maioria das pessoas não tinha talento para tanto: "Como descobri por experiência (própria) … muito poucos observam a obra da natureza com precisão ou relatam exatamente a verdade, não posso agora me satisfazer sem ver com meus próprios olhos sempre que me é possível" (Franklin, 1959+, vol.4, p. 43). descompromissado com a "literatura", acabou atingindo secretamente a essência da eletrostática. O mais seguro apologista de Franklin, Joseph Priestley, insistia em 1767 que Franklin realizara pela primeira vez sua famosa experiência da "pipa", quando atraiu um raio à terra, na companhia apenas de seu filho, porque temia "o ridículo que muito comumente acometem as tentativas fracassadas da ciência" (Priestley, em Franklin, 1959+, vol. 4, p. 368).
     Mais uma vez, nas circustâncias mais amplas do fazer ciência, os dois sábios divergem. Nollet era um mestre da grande tradição do ensino mediterrâneo — o debate. Ele se sobressaía na controvérsia, sujeitando seu rival a centenas de páginas de críticas desconexas. Já Franklin (1986, p. 19) fazia de tudo para evitar contendas. Tanto é que, em sua autobiografia, escreveu que, embora quando jovem apreciasse discussões, arrancando vitórias mesmo de "pessoas de conhecimento superior", como pensador maduro adotou uma postura de "modesto acanhamento, não usando nunca, como argumento, algo que possivelmente pudesse ser contestado". Esse procedimento era a própria marca da civilização:

E como o fim maior da conversação é informar ou ser informado, agradar ou persuadir, espero que os homens bem-intencionados não diminuam seu poder de fazer o bem, assumindo uma atitude francamente arrogante que quase sempre causa repúdio e tende a criar oposição e a provocar a derrota de todos aqueles propósitos para os quais o discurso nos foi dado, isto é, para dar ou receber informação ou prazer.

     Proceder de outro modo privaria o orador do conselho de "homens modestos e sensíveis, que não amam a competição dos debates". Franklin (que, ao contrário de Nollet, parece nunca ter ganho um centavo com suas pesquisas científicas) deixava que seus seguidores lhe entoassem os louvores.
     Em suas instruções para a construção de aparelhos, Nollet sublinhava a simplicidade e a praticidade. Mas não havia lugar no seu estilo para a economia e a contenção em assuntos científicos. Era um mestre da ironia retórica, e aquilo que admiramos hoje em seus equipamentos era o que empolgava as pessoas do século XVIII — o magnífico design em verniz de ouro e folheado a ouro. Franklin podia ser extremamente irônico, mas sua economia de palavras combinava com seu temperamento moral. Palavras, empregadas adequadamente, deveriam poder se sustentar por mérito próprio; não necessitavam dos alicerces da aclamação ou da glosa. "Se queres colher louvor, é preciso semear palavras gentis e feitos úteis", aconselha o Poor Richard de Franklin a seus leitores (Franklin, 1959, vol. 4, p. 405). Na verdade, a ciência de Franklin, assim como sua maneira de se vestir, surpreende por sua simplicidade física.18 Não encontramos em suas publicações os elaborados frontispícios de Nollet, nenhuma gravura de cavalheiros ou damas segurando termômetros em um jato de vapor ou proseando em ‘correntes elétricas’. Franklin não respondeu publicamente aos ácidos ataques de Nollet sobre a teoria de um fluido elétrico único e sobre a natureza do raio, apesar dos esforços do francês em chamar a sua atenção.
     E Nollet desejou muito arrastar Franklin para uma contenda pública. Solicitou ao seu aluno canadense Michel-Alain Chartier de Lotbinière, que trabalhava em 1755 na construção do Forte Carillon em Ticonderoga, para que se correspondesse com Franklin sobre assuntos de eletricidade. Nollet, relatou Lotbinière a Franklin, "não duvida de que suas descobertas nessa área tenham se multiplicado infinitamente" desde o surgimento da tradução francesa dos escritos de Franklin. Rogou que Franklin lhe escrevesse; depois de traduzir a carta, Lotbinière a enviaria a Nollet em Paris (Lotbinière, em Franklin, 1959+, vol. 5, p. 505). Quando Franklin visitou Paris em 1767, Nollet ficou sabendo. O abade escreveu o seguinte a seu protegido Etienne François Dutour:19

O sr. Franklin encontra-se na França há vários dias. Desejava visitá-lo antes de partir para o interior, mas dizem que ele está em Versalhes e parto hoje à noite. Se eu retornar a Paris ..., verei o célebre homem, mas se ele não falar francês melhor do que o sr. Wilson, nossa conversa será muda ou muito lacônica. Se ele concordar, debateremos nossas pesquisas experimentais (disputerons contradictoirement l’éxperience à la main).

     Os dois acabaram nunca se correspondendo nem se encontrando. Franklin (1986, p. 174), que anos antes contentou-se em não responder a Nollet diretamente e a "deixar que meus artigos falem por si mesmos", não via necessidade disso.
     Vale a pena enfatizar o lado moral da atividade científica de Franklin. A filosofia natural servia, acima de tudo, para dar humildade ao homem de ciência. Em 1747, Franklin escreveu a seu principal correspondente erudito na Inglaterra, Peter Collinson, sobre a eletricidade:

Ultimamente lhe escrevi duas longas cartas sobre o assunto eletricidade, uma enviada pelo correio naval do governador, a outra através de (Stephen) Mesnard. Em algumas experiências ulteriores, tenho observado um ou dois fenômenos que não posso atualmente explicar por meio dos princípios expostos naquelas cartas, e por causa disso fiquei um tanto desconfiado da minha hipótese, e envergonhado de ter me expressado de modo tão afirmativo. Ao conduzir essas experiências, quantos sistemas lindos construímos, que logo constatamos sermos obrigados a destruir! Se não se descobrir nenhum outro uso para a eletricidade, que ela ao menos — e isso, porém, já é algo considerável — possa ajudar a tornar humilde o homem vaidoso (Franklin, 1959+, vol. 3, p. 171).

     Em seguida, em outra carta em 1750, Franklin escreveu:

Escrevo e envio este artigo adicional. Se acontecer que ele não lhe traga nada de novo (o que não será estranho, considerando os muitos engenhosos europeus continuamente engajados nas mesmas pesquisas), pelo menos mostrará que os instrumentos postos em nossas mãos não foram negligenciados e se nenhuma descoberta valiosa foi feita por nós, não importa o motivo, não é por falta de esforço e dedicação (idem, 1959+, vol. 4, p. 9).

     A cuidadosa comunicação de Franklin com seu correspondente científico inglês parece fornecer evidências à tese de Weber. Mas Nollet demonstrava a mesma atenção aos detalhes e interesse pela aptidão. Em carta a seu colega italiano, o padre cientista Lazzaro Spallanzani comentou os experimentos desse último, inspirados nos trabalhos sobre geração animal do sacerdote inglês John Turbeville Needham e de Georges-Louis-Leclerc, conde de Buffon:

Os experimentos com as salamandras não me parecem difíceis de realizar e não exigem tanta atenção nem muitas precauções. Não conheço, porém, ninguém que os tenha repetido aqui… . Trabalhe sempre para a descoberta de verdades físicas. Se teus contemporâneos são homens ingratos ou preguiçosos ou ciumentos que temem descobrir que estás correto, a posteridade mais justa corrigirá o curso das coisas e serás gentilmente lembrado (Pietro, 1977, p. 168).

     No universo de Franklin, assim como no de Nollet, a ciência — a persistente investigadora das leis da natureza — era moralmente edificante. Em carta a Collinson em 1750, Franklin escreveu que as hipóteses deveriam ser discutidas livremente, na expectativa de que qualquer leitor pudesse aperfeiçoá-las, mas o bem maior da ciência residia em suas generalizações descritivas: "Nem é de tal importância para nós conhecer a maneira pela qual a natureza executa suas leis; basta conhecermos as próprias leis." Uma lei, uma vez conhecida, "pode talvez ser útil à humanidade, embora nunca possamos explicá-la" (Franklin, 1959+, vol. 4, p. 9). O mesmo vale para Nollet, que absorveu completamente a ideologia de um empreendimento científico progressivo, compartilhado por um conjunto de pessoas. A filosofia natural, escreveu Nollet no prefácio de suas Leçons, "aperfeiçoava-se a cada dia; descobertas proliferam, erros são corrigidos, dúvidas esclarecidas" (Maluf, 1985, p. 87).
     Franklin baseava sua ciência no espírito da racionalidade deísta que mais tarde informou a Declaração de Independência americana: o mundo natural tinha medida e propósito em tudo, e todas as estruturas, não importa se na filosofia natural experimental ou no governo, tinham que seguir os dados da harmonia natural. Em sua pesquisa inicial sobre eletrostática, em 1750, Franklin questionava por que os filósofos naturais tardaram tanto a estudar os corpos eletrificados. As dificuldades experimentais eram atribuídas à providência divina:

Se este globo em que vivemos tivesse tanto (fluido elétrico) proporcionalmente quanto podemos carregar em um globo de ferro, madeira ou outro, as partículas de poeira e outras matérias leves que dele se desprendem, em virtude de suas atmosferas elétricas separadas, não apenas se repeliriam umas às outras, mas seriam repelidas pela terra, e dificilmente a ela novamente se uniriam. Por conseguinte, nosso ar continuamente se entupiria com matérias estranhas e se tornaria impróprio para a respiração. Isto representa uma outra ocasião para adorarmos aquela sabedoria que criou todas as coisas por peso e medida! (Franklin, 1959+, vol. 4, pp. 11-2).

     A afirmativa poderia vir de Nollet, que prefaciou suas Leçons com uma invocação do "Ser Supremo que criou este vasto universo e que constantemente preside o seu funcionamento", cujo "infinito e assombroso poder" se evidenciava em tudo (Nollet, em Heilbron, 1992, p. 205).
     Em matéria de dogma, porém, Franklin e Nollet divergiam. O Deus de Franklin era providente e Ele espalhava suas bênçãos sobre a humanidade indiferente a suas súplicas ou a seus artefatos. Na visão de Franklin, em 1753, as boas ações não conduziam ao Paraíso. Ninguém podia fazer o que quer que fosse para merecer a felicidade eterna, e "mesmo os imperfeitos prazeres mistos que desfrutamos nesse mundo derivam da bondade de Deus e não de nosso mérito". Fazemos o bem no mundo para retribuir o bem dos outros. A religiosidade em pouco contribuía para "as reais boas obras, obras de bondade, caridade, compaixão e espírito público" (Franklin para Joseph Huey, em Franklin, 1959+, vol. 4, p. 505). A fé baseava-se no conhecimento prático da condição humana. Franklin consolou assim Peter Collinson quando da perda de sua esposa: "Porém, não me proponho a vos confortar com argumentos da filosofia ou religião; isso facilmente ocorrerá a uma pessoa com o vosso entendimento. Os males naturais devem seguir seu curso. O melhor remédio para o luto é o tempo" (Franklin, 1959+, vol. 4, p. 511).
     O método científico de Franklin era obviamente baseado na mecânica de partícula de Newton e no conseqüente apelo a mecanismos por analogia com ferramentas e processos simples. O newtonianismo era a manifestação da harmonia divina. Não existia chuva salgada, escreveu a John Perkins, em 1753,

pois agrada a bondade de Deus assim ordenar, que as partículas de ar não atraiam as partículas de sal; embora elas atraiam fortemente a água. Se não fosse assim, nossas chuvas seriam salgadas, e cada árvore e planta na face da Terra seria destruída, com todos os animais que dependem dela para sobreviver. Ele, que assim proporcionou e deu as devidas qualidades a todas as coisas, não descuidou disso. Adoremos-lhe com louvor e ação de graças! (Franklin, 1959, vol. 4, pp. 440-1).

     Para compreender a criação da natureza por Deus não era preciso nem estudo nem matemática — apenas a relação honestae direta. Na mesma carta a Perkins, Franklin afirmava: "Aqui tendes meu método de explicação dos principais fenômenos, que submeto a vosso cândido exame. Se minha hipótese não é a própria verdade, está tão nua quanto, pois não tenho, como alguns dos nossos letrados modernos, disfarçado meu nonsense com grego, o paramentado com álgebra nem o adornado com cálculos. Você o tem em seu estado natural puro." Embora Franklin tenha transformado a ignorância em sabedoria, lamentava suas limitações matemáticas. "Vossas habilidades e domínio em cálculos matemáticos", escreveu a Perkins, "lhe garantirão vantagens nessas dissertações das quais eu lamento a falta, pois sou como um homem procurando algo em uma sala escura, onde posso apenas tatear e supor, ao passo que você avança com o lume na mão!" (Ibidem, p. 448).
     De fato, Franklin prosseguiu graças a sua imaginação e fé. O que lhe faltava em números, supria com retórica. Depois de examinar a lista das críticas que Nollet elaborara em 1753 contra sua teoria elétrica monofluida, Franklin confidenciou a um amigo que o sucesso do francês se devia ao apelo "aos preconceitos supersticiosos do populacho". Nollet escrevia como se a humanidade não devesse ousar se defender do raio divino. Todavia, observou Franklin (idem, p. 463), "o raio celeste não é mais sobrenatural do que a chuva, o granizo ou o sol celeste". Aqui vemos Franklin equiparando-se a Nollet, exibindo insinuações a favor do seu ponto de vista. Franklin sabia, do mesmo modo que Nollet, como explorar os modismos e as paixões contemporâneas. O sucesso de Franklin na América colonial provinha da invenção de seu personagem Poor Richard, um filósofo doméstico que verbalizava as máximas e os provérbios da ética protestante que circulavam há anos — ditos que capturavam de modo imperfeito a visão de Franklin do mundo ao seu redor.
     No tempo de Max Weber, nas primeiras décadas do século XX, invocava-se a ética protestante para explicar a predisposição à indústria. A religião era a explicação preferida, por exemplo, para o senso comercial dos empreendedores ingleses que dominavam o comércio na sociedade bilíngüe, protestante e católica de Montreal. Cento e cinqüenta anos antes, deparamo-nos com uma situação mais complexa em filosofia natural. Os escritos científicos de não-conformistas religiosos como Franklin sobressaem-se dos escritos dos pastores pelas invocações explícitas à divindade. Franklin buscou delinear Deus através da realização de experiências de laboratório. Adeptos das antigas igrejas, firmes em suas fés tradicionais, geralmente apelavam para explicações aproximadas das leis e efeitos físicos. Dado que Deus não constituía problema, raramente Ele aparecia nas obras de filosofia natural. Desse ponto de vista, a notável erosão das referências religiosas em trabalhos de filosofia natural no fim do Ancien Régime na França teve pouco a ver com os escritos aparentemente subversivos dos philosophes ímpios. Aqui, também, podemos começar a perceber os motivos pelos quais a divindade era tão importante nos escritos altamente especializados dos não-conformistas ingleses do mesmo período — homens que eram livres para se expressar e se dirigir a Deus sem restrições.
     O que o deísta protestante Franklin compartilhava com o diácono católico era a falta de interesse pela oração pelo dogma, invocações religiosas que se revitalizaram no século XIX como reação à industrialização. Seguros na crença em um Deus todo-poderoso, ambos não hesitaram em julgar, muitas vezes através do ridículo ou ironia, os pronunciamentos de autoridades humanas. A ciência, para esses dois pensadores, era um corolário da vida correta. No Iluminismo, a ciência surgia quando a razão se separava da fé; na essência, os dois domínios — o secular e o espiritual — coexistiam harmoniosamente.
     De volta à caricatura de Gaston Bachelard sobre Nollet e Franklin, criticada anteriormente por Henry Guerlac, observamos que, em um aspecto, o filósofo francês viu mais claramente que o historiador da química americano. Em suas observações sobre a natureza e em seus construtos de laboratório, nem Nollet nem Franklin eram cientistas — como Guerlac desejou que fossem (Heilbron, 1992, p. 217). Suas concepções sobre o conhecimento da natureza eram desprovidas dos filtros complicados que, algumas gerações mais tarde, transformariam a busca da ciência em uma profissão regular, o que Max Weber chamava de Beruf. Ao expor todas as partes de seu trabalho à audiência interessada, Nollet e Franklin eram mais ‘ilustrados’ que seus colegas do século XX, para quem os assuntos do dia e as demandas da multidão tornaram-se critérios cínicos para o privilégio de gastar uma hora em uma sala repleta de harmonias celestiais. O efeito desse hermetismo pós-moderno traduz-se no desencanto público com a disciplina vital, a física, que Nollet e Franklin propagavam.

 

NOTAS

1 Atualmente, a maioria das instituições americanas de ensino superior possui tribunais para julgar o caráter moral dos projetos de pesquisa conduzidos por seus pesquisadores. Os megaprojetos incluem uma reserva técnica para o item ética. Por exemplo, o projeto de mapeamento do genoma humano destina cerca de 5% do orçamento global para a discussão de questões éticas. Associações científicas como a History of Science Society realizam sessões confidenciais para julgar as acusações de falta de ética.

2 É bastante revelador que, na extensa e exaustiva literatura sobre Lavoisier e Laplace, a palavra Deus quase nunca seja citada.

3 Guerlac (1977b, pp. 132-3) resume o argumento de Bachelard em La formation de l’esprit scientifique.

4 O ensaio de Home, que encerra argumentos precisos, constitui uma esplêndida introdução ao assunto e fornece muitas informações sobre Nollet e seus predecessores. Ver Maluf (1985, p. 11) e Home (1984, pp. 107-31).

5 No original orrery, aparelho destinado a representar o movimento e as fases dos planetas e satélites no sistema solar. Esta denominação foi uma homenagem a seu inventor, Charles Boule, conde de Orrery (N. do T.).

6 No original, armillary sphere, instrumento astronômico composto de anéis representando as posições de círculos importantes da esfera celeste (N. do T) .

7 Instrumento ótico, destinado a medir com precisão ângulos horizontais e ângulos verticais (N. do T.).

8 Instrumento de bolso para medir a distância percorrida a pé (N. do T.).

9 O envolvimento anterior de Nollet com a Société des Arts assume um significado especial neste contexto.

10 O estudo de Heilbron (1978, pp. 98-166) constitui a fonte secundária essencial para uma apreciação institucional da física européia nesse período.

11 Adoto aqui o Tableau universel et raisonné de la Ville de Paris (Paris, 1760, pp. 143-454), no qual o ensino de ciências é mencionado apenas no Collège de Navarre. Os collèges residenciais de pleno direito eram os seguintes: d’Harcourt, Navarre, Cardinal-le-Moine, du Plessis, Lisieux e Corbeil, Montaigu, Beauvais, de la Marche, des Grassins. Mazarin (ou Quatre-Nations) não aceitava internos. O collège jesuíta Louis-le-Grand não era ligado à universidade. Vale a pena lembrar que Pierre Polinière fazia demonstrações de filosofia natural no Collège d’Harcourt. Ver Home (1984, pp. 120-2).

12 Essa questão reaparece em outros trabalhos anteriores à Segunda Guerra Mundial, notadamente na reavaliação de Robert K. Merton sobre o puritanismo na Inglaterra do século XVII e o surgimento da ciência moderna, publicada pela primeira vez em 1938. Ver Cohen (1994, pp. 224-6) e Lichtheim (1965, pp. 148-79, 168-9). Comentários relevantes anteriores a 1940 feitos por Ernst Robert Curtius, Erich von Kahler, Weinrich Rickert, Arthur Salz, Max Scheler, Ernest Troeltsch, Erich Wittenbert e Erik Wolf aparecem em Lassman, Velody e Martins (orgs.), 1989.

13 Ver Craig (13.2.1992, p. 41), citando a tradução de Lawrence A. Scaff de Zwischenbetrachtung de Weber.

14 Paul Forman (1992, p. 83; 1991, pp. 71-86) retomou o debate sobre a neutralidade ética. Ver também Pyenson (1992, pp. 353-89).

15 O artigo ‘Franklin as an enlightened natural philosopher’, de Heilbron (1992), é um sensível e revelador estudo comparativo de Franklin e Nollet. Em sua autobiografia, Franklin (1986, pp. 169 e 88) descreve seus aparelhos elétricos caindo da prateleira no momento em que seus milicianos bateram continência para ele. Mas apesar da mesa "simples e rústica" de sua esposa Deborah e das mobílias "baratas", Franklin acumulou "faianças e porcelanas" no valor de várias centenas de libras.

16 As anotações de Nollet encontram-se em uma cópia em MSS 1060B, Smithsonian Institution Libraries, Washington; as anotações aqui apresentadas foram extraídas de Heilbron (1978).

17 As palestras de Nollet, dirigidas à aristocracia e à sociedade dos salões, podem ser definidas como exemplares da "esfera pública autêntica" recém-emergente, identificada pela primeira vez por Jürgen Habermas. Referindo-se em especial às salonnières, Goodman (1992, p. 20) afirma enfaticamente: "Enquanto a esfera pública da monarquia permaneceu desconexa, exibindo simplesmente seu poder a si mesma e ao público, a esfera pública autêntica permaneceu circunscrita ao âmbito da esfera privada e, assim, pôde exercer uma forma de abertura desconhecida e antitética à monarquia. Foi a ambigüidade dessa nova esfera de atividade que lhe conferiu o tipo de liberdade discursiva que possuía e que se tornou uma ameaça à monarquia, desafiando o monopólio desta sobre os assuntos públicos."

18 Ver Franklin (1986, p. 73), para comprovar todo o cuidado que mantinha com sua aparência simples: "Para assegurar meu crédito e caráter como comerciante, procurei não apenas ser realmente laborioso e frugal , bem como evitei toda aparência do contrário."

19 Nollet para Dutour, Smithsonian Institution Libraries, Washington, D.C., 7 de setembro de 1767.

 

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Recebido para publicação em novembro de 1997

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