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História, Ciências, Saúde-Manguinhos

Print version ISSN 0104-5970On-line version ISSN 1678-4758

Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.5 no.1 Rio de Janeiro Mar./June 1998

https://doi.org/10.1590/S0104-59701998000100002 

 

 

 

Viagem(ns) a
Santos

Journey(s)
to Santos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Henrique Luiz Cukierman

Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Doutorando da Coordenação dos Programas de
Pós-Graduação em Engenharia (Coppe)
Rua Capistrano de Abreu, 28/103
22271-000 Rio de Janeiro — RJ Brasil
E-mail: hcukier@uninet.com.br

 

 

CUKIERMAN, H. L.: ‘Viagem(ns) a Santos’. História, Ciências, Saúde — Manguinhos,
V(1): 35-56, mar.-jun. 1998.

O artigo busca lançar algumas luzes sobre a construção do laboratório de Manguinhos, recontando um de seus episódios precursores: a viagem a Santos empreendida em 1899 por Oswaldo Cruz, um jovem médico às vésperas de tornar-se herói nacional enquanto símbolo brasileiro da ciência. Destinada a confirmar a chegada pela primeira vez da famigerada peste bubônica em terras brasileiras, a viagem constituiria um marco na justificação da construção de uma fábrica de soro antipestoso no Rio de Janeiro, o futuro Instituto Soroterápico Federal, inaugurado em 1900 e no qual viria a ser instalado o embrião do laboratório de Manguinhos. A partir de quatro narrativas distintas, é possível verificar o processo de ‘criação do mundo’ através do qual cada uma delas realiza sua própria expansão do que seria aparentemente uma ‘mesma’ viagem, permitindo assim configurar a historicidade desses relatos.

PALAVRAS-CHAVE: Estudos de Ciência e Tecnologia e o Terceiro Mundo, saúde e tecnologia, estudos tecnológicos, história da ciência, sociologia da ciência.

 

CUKIERMAN, H. L.: ‘Journey(s) to Santos’. História, Ciências, Saúde — Manguinhos,
V(1): 35-56, Mar.-Jun. 1998.

The article intends to shed some light on the creation of the Manguinhos laboratory by recounting an episode which predates it: the journey to Santos taken in 1899 by Oswaldo Cruz, a young physician about to become a national hero and the Brazilian symbol of science. Destined to confirm the arrival of the infamous bubonic plague in Brazil for the first time, this journey was a milestone in justifying construction of a factory to produce anti-plague serum in Rio de Janeiro — the future Instituto Soroterápico Federal, inaugurated in 1900 and later embryo of the Manguinhos laboratory. Four different narratives of this journey reveal different processes of ‘creating the world’, each arriving at its own interpretation of the same journey.

Keywords: Sciences and Technology Studies (STS) and the Third World, health and technology, technology studies, history of science, sociology of science.

 

 

 

Homem trabalhando

O inventor das máquinas que mudam a vida da terra
trabalha na bruta sala de cimento armado.
Tantos dínamos, êmbolos, cilindros mexem naquela cabeça
que ele não escuta o barulho macio
das almas penadas esbarrando nos móveis.

Murilo Mendes

 

Introdução

    Quem conta um conto aumenta um ponto, diz o dito popular, indicando que o contar de uma história produz diferenças. Toda experiência, ao ser refeita em narração, restabelece o mundo e constrói uma outra e nova ‘realidade’. Aumentar um ponto é constituir o universo em permanente gestação, é um ‘ir-fazendo’ entretecido de histórias, desde mitos ancestrais e relatos heróicos até mesmo uma multitude de histórias pessoais. Aumentar um ponto, portanto, implica instituir relatividades e, de fato, é assim que reconhece-o a sabedoria popular quando propõe que a ‘realidade’, longe de ser um absoluto, vigora igualmente através dos narradores e suas narrativas. Por sua vez, o ponto aumentado perfaz a historicidade da narrativa na medida em que cada ponto tem seu tempo, e cada tempo suas próprias fronteiras entre o mundo já feito e o mundo por fazer. Portanto, a nova ‘realidade aumentada’ configura-se no interior do tempo, ainda que seja para superá-lo.
     Uma idéia tentadora seria fazer desaparecer o tempo e seu séquito de histórias. Assim, se estaria próximo da noção do absoluto, da coisa-em-si, de algo plena e perfeitamente estabelecido. Como se fora possível definir um tipo de espaço onde desaparecesse toda e qualquer historicidade, a exemplo dos buracos negros que absorvem toda luz que atravessa-lhes o caminho. Um espaço fechado, impenetrável, indiscutível, à prova de contos que lhe aumente os pontos. Este é o status usualmente reivindicado para os fatos da ciência, cujo destino seria pairar acima dos homens, abrigados em um espaço à parte da sua sociedade e da sua cultura. Nas suas mais diversas formas, esta é ainda a noção prevalecente em amplos setores da produção científica, além de deitar raízes profundas no chamado senso comum. Uma das formulações exemplares desta idéia apareceu nos idos da década de 1930, conforme a proposição engenhosa de Reichenbach (1938), para quem o fato científico determinaria um ‘antes’ e um ‘depois’, conforme se segue: "Vou introduzir as expressões contexto de descoberta e contexto de justificação para essa distinção ... entre o modo de o pensador chegar à sua teoria e seu modo de apresentá-la diante de um público ..." (Brannigan, 1984, p. 67). O contexto da descoberta envolveria o mapeamento dos diversos caminhos percorridos por um determinado conjunto de hipóteses, o que em nada estaria relacionado com seu conteúdo cognitivo, cuja validação como fato científico seria privilégio de regras lógicas inerentes ao contexto da justificação. Segundo Popper, "o estágio inicial, o ato de conceber ou inventar uma teoria, parece-me não reclamar análise lógica, nem ser dela suscetível. A questão de saber como uma idéia nova ocorre ao homem — trate-se de um tema musical, de um conflito dramático ou de uma teoria científica — pode revestir-se de grande interesse para a psicologia empírica; mas não interessa para a análise lógica do conhecimento científico" (Maia, 1996, p. 568).
     Surpreendentemente, a década de 1930 conheceria, mas não reconheceria, uma idéia exatamente na contramão, anunciada ao mundo já a partir do próprio título de um livro publicado em 1935 na Polônia: Gênese e desenvolvimento de um fato científico. Seu autor, o pesquisador polonês Ludwik Fleck, provocava o Círculo de Viena afirmando que o fato científico só poderia ser elaborado e compreendido à luz de sua gênese e desenvolvimento, retirando-lhe o espaço privilegiado de construto formal para reinseri-lo no campo ‘demasiadamente’ humano de uma construção levada a cabo por comunidades de pesquisadores. Na década seguinte, aquele título exerceria irresistível fascínio sobre Thomas Kuhn, que o encontrou em uma nota de pé de página justamente em um livro de Reichenbach, Experiência e tradição, valendo a pena citar o registro do insólito encontro entre Fleck e Kuhn, narrado por este último: "Evidentemente que Reichenbach não era um filósofo que pensasse nos fatos como possuidores de um ciclo de vida." Citando a estampa na qual Fleck exibe as representações cambiantes do esqueleto humano, escreveu: "As operações intelectuais mostraram-nos o caminho para superar as limitações de nossas capacidades intuitivas subjetivas ... Apesar de conter traços falsos, toda figura pode introduzir na composição alguns formatos verdadeiros." Fleck nunca teria escrito estas frases assim como Reichenbach nunca teria falado sobre "a gênese e o desenvolvimento de um fato científico". Mas estas palavras eram do título de Fleck, e Reichenbach teve de incluí-las ao citar a estampa. "Lendo a citação, reconheci de imediato que um livro com esse título provavelmente falaria sobre as minhas próprias questões." Dedicado a uma "campanha nunca muito sistemática" para resgatar o livro de Fleck das brumas do esquecimento, Kuhn relata a reação emblemática e anônima de um pesquisador: "Que raio de livro é esse? Um fato é um fato. Ele nem tem gênese nem desenvolvimento" (Fleck, 1979, p. viii).
     Uma outra leitura para o "antes" e o "depois" de Reichenbach é proporcionada por Latour (1989a, p. 430), ao definir uma forma específica de história da ciência, a história-descoberta, como praticamente privada de qualquer historicidade "porque não há outro efeito a não ser avançar ou retardar a data na qual um fenômeno que sempre esteve por ali foi levado por um sábio ao conhecimento dos homens". Obviamente que esta história depende de um protagonista, um vencedor, um campeão do saber capaz de romper com os risíveis equívocos do passado para estabelecer a serenidade inconteste da certeza científica. Se esse tipo de história serve perfeitamente para estabelecer mitologias, traz pouca ou nenhuma clareza sobre o fazer da ciência, pois é, ainda conforme Latour (idem, ibidem), "uma fieira de pérolas nos necrológios sem que haja história para contar". Para se contar alguma história, tem de se levar em conta os ‘pontos que se aumentam’, as ‘impurezas’,1 a mistura de pessoas e coisas, as ligações entre ciência e sociedade, pois como afirma Latour (1989b, p. 503), "não existe história das ciências sem que o historiador encontre a multiplicidade de atores, de recursos e de apostas aos quais ela se misturou ... a história social das ciências dá-se antes por fios, nós e percursos".
     Este artigo busca lançar algumas luzes sobre a construção do laboratório de Manguinhos, recontando um de seus episódios precursores, a saber, a viagem a Santos empreendida por Oswaldo Cruz durante a última semana de outubro de 1899. Destinada a confirmar a chegada da famigerada peste bubônica em terras brasileiras, a viagem constituiria um marco na justificação da construção de uma fábrica de soro antipestoso no Rio de Janeiro, o futuro Instituto Soroterápico Federal, no qual viria a ser instalado o laboratório de Manguinhos. A partir de quatro relatos distintos, é possível verificar o ‘aumentar de pontos’ através dos quais se expandem as narrativas de uma ‘mesma’ viagem e, assim, historicizar o próprio contar dessas histórias. Primeiramente, a viagem a Santos de Sales Guerra, amigo pessoal e biógrafo de Oswaldo Cruz, narrada como quem elabora uma hagiografia. A viagem ‘científica’ fica por conta de um documento oficial, o ‘Relatório acerca da moléstia reinante em Santos’, apresentado por Oswaldo Cruz ao ministro da Justiça e Negócios Interiores, no qual invoca certezas da microbiologia pasteuriana para habilmente convencer sobre a eficácia do soro antipestoso na luta contra a peste e, assim, mobilizar recursos para a fundação de institutos soroterápicos nacionais. O mesmo Oswaldo Cruz, em carta pessoal a sua esposa, descreve uma ‘outra’ viagem, uma viagem de angústias e horrores a partir do momento em que, por acidente, contaminou-se ele mesmo com a peste, desnudando na intimidade doméstica as certezas e infalibilidades ostentadas no relatório oficial. Finalmente, a quarta e última viagem é empreendida por este próprio artigo ao ‘aumentar pontos’ em favor dos estudos de ciência e tecnologia, especialmente inspirados em Fleck e Latour, procurando reintroduzir no caminho da ciência e do cientista o mundo originalmente banido, o impuro, o contaminado, o imundo. Procurando reintroduzir a historicidade da(s) viagem(ns) a Santos, pois "da mesma forma que não há um ‘todo’, tampouco há um ‘último’, isto é, um fundamento desde o qual se possa construir logicamente o conhecimento. O caminho que proporciona as idéias e verdades somente se mantém mediante o movimento contínuo e a interação" (Fleck, 1986, p. 98).

A viagem do mito: Sales Guerra aumenta um ponto

     Àquele final de século XIX, o rastro de mortes deixado pela peste bubônica em território asiático não deixava dúvidas quanto ao seu vigor letal. Bastava consultar os números da peste para certificá-lo: cem mil mortos em Hong Kong, em 1894, espalhando-se a seguir para a Índia, onde matou 1.300.000 pessoas nos primeiros dois anos da epidemia.2 Até que, em outubro de 1899, resolveu dar o ar de sua (des)graça em terras brasileiras, desembarcando pioneiramente no porto de Santos. Oswaldo Cruz foi convocado às pressas pelo governo federal a viajar àquela cidade para informar seu diagnóstico a respeito daquela ‘estranha’ moléstia, uma vez que jamais havia sido observada em qualquer outro tempo e lugar no país, ainda que as autoridades sanitárias do estado de São Paulo já a houvessem diagnosticado como sendo a famigerada peste bubônica.3
     A viagem aventurosa de Oswaldo Cruz teve início com a partida do Rio de Janeiro na noite de domingo, aos 22 daquele mês de outubro. "Só, na estação, ia tomar o noturno de São Paulo, quando lhe apareci, levando comigo, para debicar com ele, um pacote de piretro que lhe entreguei, repetindo como quem ensinava o padre-nosso ao vigário, deitasse boa porção por dentro das meias para afugentar as pulgas pestíferas. Sorrindo, exprobou-me por ter ido à estação àquela hora, eu um homem ocupado, dizia. ‘Não era razoável!’" (Guerra, 1940, p. 50). Nesta cena da partida, descrita por Sales Guerra, seu grande amigo e principal biógrafo, relevam-se a solidão daquele homem e seu bálsamo, o padre-nosso do novo catecismo: o Deus da Ciência estava com aquele predestinado. Entretanto, se tentou esboçar a figura lendária do herói marchando rumo ao desconhecido, nosso biógrafo aumentou um ponto ao esvaziar os perigos da jornada, tratando a ameaça das temíveis pulgas pestíferas em tom de chacota, e dando como favas contadas a vitória do semideus. Lamentavelmente, ao desprezar o tenebroso currículo da moléstia, roubou-nos as cenas de aventura, o confronto, o embate, os riscos e alguns previsíveis sintomas de humanidade como o medo, a angústia e o pavor da morte.
     Prossegue o biógrafo: "De Santos expediu conciso telegrama, categoricamente confirmativo (da peste) ... . Para nosso mal, a previsão se confirmou exuberantemente" (idem, ibidem). Assim, desprovida de ação, a viagem resumiu-se à exuberância de uma certeza, a certeza categórica da peste, a tranqüila certeza da ciência. Esta viagem, cujo final é absolutamente previsível, cujo desfecho já se conhece antes mesmo de partir, serve para fazer mitos mas não serve para entender o conteúdo de uma ciência e seu contexto. Para sorte nossa, a cena da estação também é uma cena de despedida. O biógrafo permanece no Rio de Janeiro e assim, livres da idolatria, embarcaremos com Oswaldo Cruz, e com ele empreenderemos a viagem a Santos, uma outra viagem, mais temerária, mais incerta, mais audaz. "Teremos de desistir de todo discurso ou opinião acerca da ciência enquanto é feita para, ao contrário, seguir cientistas em ação" (Latour, 1987, p. 103). Como de costume, seguir cientistas ... em seu trabalho fornece resposta mais mundana porém mais interessante" (Latour, 1987, p. 247).

A viagem do cientista: o relatório aumenta um ponto

     Enquanto sacoleja o comboio rumo a Santos, consultamos um precioso companheiro de viagem, o vade-mécum de Oswaldo Cruz: um caderno manuscrito intitulado ‘Diário de Laboratório’ (Arquivo Oswaldo Cruz, Fundo I, pasta 7). Inicialmente preenchido com um calendário e um programa geral de trabalho, torna claro, logo de saída, tanto pelo título como pelas primeiras páginas, que a investigação será regida por uma nova ordem espacial, o laboratório, e uma nova ordem temporal, a cronologia acelerada da microbiologia. Como a rever a vertigem temporal da nova ciência, há apenas poucas décadas na cena internacional da saúde pública, uma única semana4 deverá ser suficiente para confirmar ‘categoricamente’ que "a moléstia reinante em Santos é a peste bubônica" (Cruz, 1899, p. 332). Por sua vez, o programa de trabalho revela o aluno aplicado recém-egresso do Instituto Pasteur, e pactua o novo espaço-tempo em um cotidiano de experimentações debruçado sobre lâminas, culturas, cobaias e microscópios, conforme se lê: "Análise bacterioscópica dos bubões. Preparações microscópicas. Semeações em ágar (isolamento do micróbio em cultura pura). Inoculação de animais: 1) diretamente com material colhido nos bubões; 2) com as culturas puras. Isolamento do micróbio no organismo do animal doente, idem no cadáver. Inoculação de animais com o micróbio assim isolado. Exame bacteriológico por meio de cortes nas vísceras dos animais. Aglutinação pelo soro Yersin." Assim definido o que se vai fazer ao longo da semana, restará registrá-lo pormenorizadamente no corpo do diário. O doente é apenas mais um em meio ao universo de elementos, quem sabe até o mais importante por ser o fornecedor privilegiado de bubões, mas com certeza o menos atraente em suas "contraturas do músculo da face, fazendo caretas" que imprimem à sua fisionomia "a expressão do terror" (idem, ibidem, p. 345). Para exorcizar o terror, nada mais sublime que a possibilidade de eliminá-lo, que a oportunidade de vencê-lo, subjugando-o sob o manto implacável dos rigores do método científico. O programa de trabalho do diário é explícito em tais rigores, seguindo piamente três postulados da técnica bacteriológica, os postulados de Koch, segundo os quais: o micróbio específico tem de ser demonstrado em todos os casos da doença; o micróbio tem de ser isolado e cultivado em estado puro num meio artificial; e a cultura do micróbio isolada, quando inoculada em animais saudáveis e suscetíveis, tem de produzir a doença. Curioso é que ainda nem chegamos ao nosso destino e a solidão do embarque já desapareceu sob as brumas noturnas do leito da via férrea. A cabina agora está povoada de muitos outros, entre eles Pasteur, Koch, Yersin e este narrador, a quem cabe concluir que, no caminho da ciência, não existe viagem solitária. Como propõe Latour (1987, p. 104), "você pode ter escrito o artigo definitivo provando que a Terra é oca e que a Lua é feita de queijo verde, mas este artigo não se tornará definitivo se outros não o tomarem para si para utilizá-lo mais tarde como uma questão de fato", ou ainda, segundo Fleck (1986, p. 141), "o saber vive no coletivo e se reelabora incessantemente".
     Finalmente, chegamos ao Hospital de Isolamento na noite de 23 de outubro de 1899. Aqui mais alguns se juntam a nós: "Emílio Ribas, Adolpho Lutz, Vital Brazil, Vitor Godinho, Eduardo Lopes e Luiz Faria, que nos acolheram com a mais fidalga gentileza" (Cruz, 1899, p. 333). São alguns homens tentando mostrar ao país que, apesar de poucos, são os únicos talhados para a missão; apenas eles podem dar conta do diagnóstico bacteriológico da moléstia.5 Por isso, sem perda de tempo, "aí instalamos um laboratório, utilizando-nos do material que foi gentilmente posto à nossa disposição pelos srs. drs. Lutz e Vital Brazil (aos quais manifestamos aqui nossa profunda gratidão), enquanto esperávamos o nosso que chegou alguns dias mais tarde" (idem, ibidem, p. 325). Em meio a estas pouquíssimas palavras de rotina, aparentemente banais, já se pode avistar sinais de um novo mundo, às vésperas do século XX, anunciado pela instalação do laboratório, primeiríssima providência oficiada como cerimônia de abertura dos trabalhos. Sem o laboratório, ainda que preparado de última hora e com materiais emprestados, não haverá como desvelar as aparentemente imperscrutáveis motivações da natureza, nada se poderá afirmar com aura de certeza inequívoca, de fato consumado contra os quais não há argumento, nada haverá que valha a pena ser registrado na biografia escrita pelo Sales Guerra. Forjado em laboratório, quem poderá duvidar do diagnóstico? Porém, uma vez instalado o laboratório, tem-se de habitá-lo com materiais apropriados e pessoas aptas a utilizá-los, gente que entenda e saiba operar estas novas mediações entre o observador científico, de um lado, e a natureza, de outro. Neste instante, a história reúne a todos em Santos, uma confraria de homens de ciência afeitos à microbiologia pasteuriana, à admiração do "panorama encantador que se divisa quando se coloca os olhos na ocular de um microscópio, sobre cuja platina está uma preparação" (Cruz, 1892, p. 23) povoada por seres minúsculos da fronteira entre o orgânico e o inorgânico. Pertencem todos à mesma linhagem, possuem todos os paramentos rituais necessários à liturgia da pesquisa, tanto é que emprestam-nos uns aos outros. Junto deste prosaico laboratório de última hora, um coletivo de significados constrói um mundo novo de certezas. Nesta noite embebida nos horrores da peste, o Brasil testemunha, ainda sem sabê-lo, a fantástica sinergia entre alguns homens, alguns moribundos, alguns bacilos e uma nova ciência.
     Este laboratório de campanha montado no front da guerra ao bacilo faz parte da herança de Yersin, se é que a palavra herança pode caber ao ocorrido apenas um lustro antes. Latour (1988, p. 94) escolhe uma palavra mais adequada: "... havia um estilo que podia ser reconhecido ao primeiro olhar como sendo pasteuriano". Ao nosso ver, embora não o seja explicitamente reivindicado por Latour,6 a palavra remete diretamente ao conceito de estilo de pensamento, central na obra de Fleck (1986, p. 145), que o define "... como um perceber dirigido com a correspondente elaboração intelectiva e objetiva do percebido". "O estilo de pensamento não é o tom particular dos conceitos nem a forma peculiar de reuni-los. É uma coerção determinada de pensamento e, mais ainda, a totalidade da preparação e disponibilidade intelectual orientada a ver e atuar de uma forma e não de outra. A dependência de qualquer fato científico ao estilo de pensamento é evidente" (idem, ibidem, p. 111). Este estilo pasteuriano manifesta-o perfeitamente Oswaldo Cruz e sua confraria nesta noite, conforme se pode depreender da caracterização que Latour faz do trabalho de Yersin em Hong Kong, no auge da epidemia de peste: "Embora fosse médico de segunda classe da colônia, Yersin não tratava diretamente os doentes. ... Este era o primeiro deslocamento. O segundo deslocamento constituía-se no fato de que, apesar de estar dentro do hospital, estava em seu laboratório. O terceiro deslocamento é que trouxe consigo seu laboratório que havia construído após muitas dificuldades. Aqui reconhecemos os pasteurianos. No meio dos maiores horrores, era o laboratório que se priorizava em primeiro lugar."7 Parece que estamos diante de diversas manifestações de um mesmo espaço, como se o mundo estivesse a ser pasteurizado a partir dos centros europeus de pesquisa. De fato, ao se acampar o laboratório em Santos, ainda que absolutamente precário, vão se fortalecendo duas alianças fundamentais: uma local, entre homens de ciência radicados no Brasil, e outra internacional, entre estes homens e seus semelhantes em outros cantos do planeta, aliciados todos em torno dos mesmos procedimentos e rigores na decifração de enigmas no território dos infinitamente pequenos. O que aqui se registrará no ‘Relatório acerca da moléstia reinante em Santos’ chegará perfeitamente às mãos de qualquer outro homem formado nos preceitos da vida em laboratório, esteja na Índia ou na Inglaterra, em Hong Kong ou Paris. Vale retomar outro conceito central para Fleck (1986, p. 149), o de coletivo de pensamento, que vem a ser o "...portador comunitário do estilo de pensamento ... . Este conceito, enquanto meio de investigação da condicionalidade social do pensamento, não deve ser entendido como um grupo fixo ou uma classe social. É, por assim dizer, um conceito mais funcional que substancial, comparável, por exemplo, ao conceito de campo de força da física. Um coletivo de pensamento existe sempre que duas ou mais pessoas intercambiam idéias". Portanto, são essas alianças entre caçadores de micróbios ‘fiéis’ ao estilo pasteuriano que constroem e estabilizam o coletivo de pensamento pasteuriano, agora reforçado pelos combatentes brasileiros reunidos no front santista.8
     Sem perda de tempo, iniciaram-se os trabalhos no laboratório acampado. Primeiramente, aspirou-se "um pouco do suco do gânglio ingurgitado" do garoto João Fonseca, de 14 anos, a partir do qual "foram feitas preparações microscópicas e sementeiras em placas de ágar..." (Cruz, 1899, pp. 325-6). Tempo perdido, trabalho em vão. "O exame microscópico desses preparados revelou a presença de alguns raros coccobacilos, dentre os quais alguns vacuolisados,9 apresentando o aspecto microscópico, análogo ao atribuído ao bacilo da peste. Estas nossas preparações, contudo, nada tinham de nítidas e não eram de natureza a servir-nos de base para um diagnóstico seguro; serviriam, quando muito, para desafiar uma simples presunção." O material humano que se apresentou empestado não era de boa qualidade, pois se tratava de enfermos já com algum tempo de internação, só permitindo que se presumissem fatos, quando estes não se presumem, se afirmam. Pensando melhor, não foram esforços em vão, tanto que estão aqui registrados. Confessam ao mundo que viram o bacilo, mas não a ponto de garantir um diagnóstico confiável. Ora, por que perder tempo para relatar o que não deu certo? Porque a ciência local quer ser representante autorizada dos centros europeus de vanguarda e seu método científico, perante o qual todo sacrifício é válido, toda perda é justificada, todo rigor é desejado. O relatório tem de ser digno de um Instituto Pasteur, tem de ser uma peça construída com base em provas, tem de mostrar os fatos, tem de legitimamente representar a natureza. Implica, portanto, correr o risco de confessar que não foi possível provar nada, que a missão foi um fracasso, mas quando tudo parecia perdido, quando o que se tinha em mãos eram apenas presunções, eis que um garoto de apenas 12 anos, Joaquim Castorino de Guimarães Pires, acaba de baixar ao hospital em 24 de outubro, às 20:30h de uma noite histórica. Ele constitui, sem dúvida, "a pedra angular de nossos estudos" (idem, ibidem, pp. 327, 340, 346). Uma vez colhido o material, o plano de trabalho prossegue sendo cumprido à risca nos dias seguintes, mais uma vez observando estrita obediência aos postulados de Koch: "Tendo retirado do organismo do homem doente o micróbio que estudamos, tendo-o feito passar pela cultura artificial nos meios orgânicos e vivos, tendo obtido nestes uma moléstia experimental análoga à do homem, voltamos de novo ao estudo do doente", mas este acabou falecendo em 29 de outubro. Por que faleceu o rapaz se aplicaram-lhe diariamente doses de soro antipestoso? A resposta de Oswaldo Cruz é fundamental para entender o que irá sobrevir na guerra brasileira ao bacilo da peste: "As injeções de soro foram sempre feitas em quantidade insuficiente, porque havia grande falta desse meio terapêutico." Entretanto, por que não aventou a hipótese da ineficácia do soro? Somos obrigados a abandonar Santos temporariamente para saltar no tempo até alcançar o relatório da Diretoria Geral de Saúde Pública de 1903 (pp. 20-31), assinado pelo próprio Oswaldo Cruz, onde apareciam claramente os limites do soro antipestoso a partir mesmo dos números obtidos pelas experiências de Yersin, realizadas entre 1896 e 1898 em Amoy, Cantão, Bombaim, Kutch Manvir e Nha Trang, nas quais os coeficientes de mortalidade com a aplicação de soro não conseguiam ficar abaixo de 30%. A estes números, já evidentemente conhecidos em 1899, ajuntaram-se os próprios números da epidemia santista, reproduzido no referido relatório em meio à longa discussão sobre a eficácia da soroterapia, tendo por base o quadro elaborado por Vitor Godinho, inicialmente publicado em 1900:10
     Em seguida, Vitor Godinho, após constatar que em sete enfermos nos quais o soro não foi aplicado o coeficiente de mortalidade foi de 71,42%, concluiu que "por esses dados vemos que o soro diminuiu a mortalidade em cerca de 50%", e, desta forma, estaria demonstrado o "resultado muito vantajoso a favor da soroterapia" embora reconhecendo que, "infelizmente, os números não são suficientemente grandes e em estatística é perigoso jogar com números pequenos".

Qualidade
do soro

Pessoas
tratadas

Pessoas
curadas

Pessoas
mortas

Consumo
total cc

Média de
cc por
cada
Curado

Média de
cc por
cada morto

Mortalidade
média por
100


Soro Terni

8

5

3

805

88

121

37,5%

Soro Yersin

19

12

7

1802

116

57

36,84%


     Ainda que enfrentassem incertezas quanto às vantagens da soroterapia, a opção foi evitar uma abordagem que tratasse de seus limites para enfatizar exclusivamente os ‘poderes milagrosos’ daquele meio terapêutico. De olho no futuro da peste mas também no futuro do laboratório para fabricar seu antídoto, Oswaldo Cruz aumentou um ponto e procurou deixar claro, ainda que quase en passant, apenas o aspecto que dizia respeito à falta do precioso recurso antipestoso. Nenhuma palavra sobre sua eficácia. Entretanto, é bom que fique claro que não se tratava de farsa ou de manipulação barata, pois de fato faltava soro, conforme alertava a imprensa: "O nosso correspondente em Santos nos telegrafou ontem pedindo que reclamássemos imediata remessa de soro para aquela cidade, pois o que ali existe está se acabando e os médicos mostram-se aterrados com esse fato."11 Assim, o que se quer ressaltar é que faltasse ou não o soro, sua eficácia não estava colocada como problema, uma vez que o perceber dirigido do estilo de pensamento impunha o soro antipestoso como solução exclusiva no combate à peste. Portanto, somente sua falta constituía um problema. Ainda outro bom motivo para que não se tratasse da eficácia do soro estava na própria localização dos cientistas brasileiros e seu laboratório acampado nos confins equatoriais do planeta — talvez, aos olhos dos europeus, o lugar onde Judas perdeu as botas —, o que claramente impedia uma discussão sobre aspectos já ‘resolvidos’ nos centros ‘civilizados’ da Europa. Era muito mais ‘natural’ consagrar o soro e reclamar sua falta.
     Voltando ao centro dos acontecimentos em Santos: se a moléstia reinante for a peste, terá o Brasil de se confrontar com a falta do soro prodigioso, conforme insinuado no relatório, e ‘se virar’ com um similar nacional. Não há tempo a perder porque com a peste não se brinca, muito menos com a oportunidade de fundar um instituto soroterápico. Cabe, então, com a maior urgência, travestir o texto científico formal em documento oficial. O diário, passado a limpo e fartamente ilustrado com as figuras de bacilos, terá de ser rapidamente entregue até 12 de novembro ao ministro da Justiça e Negócios Interiores. Este nada entende de septicemia coccobacilar, muito menos da perfeita identidade entre este quadro típico do sujeito pestoso com aquele verificado na cobaia infectada pela peste, mas, mesmo assim, é a ele que primeiramente se destina o relatório. Portanto, em algum momento da narrativa científica, terá de haver uma tradução para a língua de S. Exª., o sr. ministro, de algo que possa fazer equivaler as experiências dos nossos cientistas, habitadas por micróbios e microscópios, às preocupações do ministro, povoadas por verbas não previstas em orçamento e autorizações do Congresso. Os interesses distintos parecem se encontrar, de tal forma que os destinos da peste e os destinos dos nossos cientistas tornam-se imediatamente vinculados aos da própria nação. Se há peste, estará plenamente justificada a construção de fábricas locais de soro antipestoso. E se houver tais fábricas, sabemos que serão os cientistas quem se ocuparão delas. Fecha-se, assim, um circuito de tradução; para Latour (1988, p. 253), "tradução significa deslocamento, traição, ambigüidade. Significa, portanto, que partimos da não equivalência entre interesses ou jogos de linguagem e que o objetivo da tradução é tornar equivalentes duas proposições". Mais uma vez, vale a pena apontar o parentesco com as idéias de Fleck, que, mesmo sem lançar mão explicitamente do conceito de tradução, enuncia-o de forma cristalina ao propor que

...pode-se dizer, resumidamente, que toda circulação intercoletiva de idéias tem por conseqüência um deslocamento ou transformação dos valores dos pensamentos. Da mesma forma que a atitude comum dentro do coletivo de pensamento leva ao reforço dos valores dos pensamentos, a variação da atitude no giro intercoletivo das idéias causa uma variação destes valores numa escala repleta de possibilidades: desde pequenas mudanças de tom, passando pela mudança quase completa de sentido, até a sua destruição total (cf. o destino do termo filosófico ‘absoluto’ no coletivo de pensamento dos cientistas).12

     A tradução soroterápica, estabelecendo equivalências de significados entre os interesses do ministro e os interesses dos cientistas, se consagrará no relatório através de um enunciado composto por uma única sentença, sóbria, direta, peremptória: "A moléstia reinante em Santos é a peste bubônica."
     A viagem do cientista está terminando. Às mãos do sr. ministro segue um documento que, além de afirmar a colaboração entre homens de ciência e homens de governo, trata sub-repticiamente de comprometer-lhe com a questão do soro. Aos biógrafos de Oswaldo Cruz lega-se um episódio vitorioso, mais um daqueles triunfos da ciência sobre a ignorância, que, através de sua metodologia, foi capaz de provar que "na taxonomia bacteriana, o coccobacilo isolado dos doentes de Santos corresponde à espécie descrita por Kitasato e Yersin como produtora da peste bubônica" (Cruz, 1899, p. 332). Afinal, quem poderá colocar em questão uma classificação construída por gente tão ‘civilizada’? Nossos cientistas, esta diminuta confraria, fizeram sua parte, trabalhando duro no encalço do micróbio até finalmente cercá-lo, capturá-lo e colocá-lo no seu devido lugar na taxonomia bacteriana. Aos poucos, não somente se construía o lugar exato de micróbios, mas, igualmente, tratava-se de fazê-lo para os cientistas. Aumentar pontos em favor do soro era aumentar a materialidade da ciência brasileira e assim, junto com o relatório, seguiam codificadas as fundações do suntuoso palácio que se ergueria alguns anos depois em Manguinhos, cuja arquitetura teria de contemplar não apenas as necessidades técnicas requeridas para a instalação de laboratórios de pesquisa, mas, fundamentalmente, aquilo que o documento científico já esboçava: a demarcação de um território do saber, símbolo de um espaço de competência técnica cuja mediação seria indispensável ao Estado na tarefa de promover o tão sonhado saneamento da capital federal.

A viagem do marido: Oswaldo Cruz aumenta um ponto

     Hora de arrumar as malas do cientista e voltar quando surpreende-nos mais uma passagem daquela semana em Santos, um segredo que por um triz nos escapava. Tivemos que acompanhar Oswaldo Cruz até São Paulo para flagrá-lo no hotel mais chique da capital, às vésperas de seu retorno ao Rio de Janeiro, redigindo a seguinte carta a sua esposa, d. Emilia (Arquivo Oswaldo Cruz, Fundo II, pasta H):

São Paulo, 1° de novembro de 1899

Minha querida Miloca

Após uma semana e tanto de angústias, trabalhando até meia-noite, receando a cada instante pela minha saúde e vida, que te pertence e a nossos filhos, vendo cair vitimados pela peste os companheiros de trabalho e esperando a cada instante minha vez, eis-me felizmente livre dessas preocupações, são e salvo, à espera do momento feliz em que estarei junto de ti no seio de nossa querida família.

Daqui há dois dias mais ou menos aí chegarei e de viva voz poderei referir-te os transes aflitivos por que passei, tendo-me inoculado acidentalmente a peste por duas vezes, e da qual me livrei graças ao soro, que vou aí preparar a fim de preservar e curar nossos patrícios, caso a terrível moléstia aí chegue. Não te posso descrever as torturas e horrores por que passei quando na noite em que preparávamos as malas para deixar o hospital de isolamento comecei a sentir sintomas que caracterizam o início da moléstia; não podes imaginar as tristes idéias que povoaram meu espírito doente e só nesses transes pude avaliar quão grande é o amor que te tenho e a nossos filhos. Deixemos porém de coisas lúgubres que, felizmente, já estão passadas e que penso nunca mais experimentar; estou vacinado contra a moléstia e posso encará-la face a face desassombradamente.

     De fato, foi uma semana de assombros, durante a qual os cientistas, fica agora claro, foram fragorosamente derrotados nas primeiras escaramuças das quais nem mesmo os rigores da técnica escaparam ilesos, humilhados que foram não uma, mas duas vezes! A imagem caricata do cientista de avental branco, meticuloso, tranqüilo e senhor de si é brutalmente desmentida em meio a um verdadeiro circo de horrores, a um remoinho de transes aflitivos onde cada um aguardava sua vez jogando xadrez com o anjo da Morte, baixado à Terra sob o disfarce de Pasteurella pestis. A carta aumenta um ponto em favor do bacilo, resgatando-o, em primeiro lugar, do papel risível que lhe havia reservado Sales Guerra e, em seguida, do envoltório de certezas registradas na iconografia microbiana publicada no relatório, através da qual tudo se reduzia à mera comprovação ‘objetiva’ e ‘serena’ da posição de um ser microscópio subjugado pela taxonomia do ultramar.
     Se, por um lado, a referência a angústias, torturas e horrores carrega nas tintas do drama humano vivido por Oswaldo Cruz e seus companheiros, por outro, trai a promiscuidade no trabalho científico entre certeza e erro, sucesso e fracasso, onipotência e impotência. Inadvertidamente, Oswaldo Cruz aumenta o ponto em favor dessa promiscuidade, fazendo lembrar a afirmação de Fleck (1986, p. 144), segundo a qual "as muitas tentativas fracassadas e os erros cometidos são também parte do material de construção do fato científico". A esse respeito, Law (1989) afirma, com muita propriedade, que "a lista de erros, fracassos e catástrofes possíveis é incomensurável ... não se trata de pôr em dúvida a competência ... mas de ressaltar a precariedade do processo de construção de uma ordem, a partir de elementos heterogêneos — compostos químicos, textos, aparelhos e técnicas". Talvez precariedade seja a palavra-chave para melhor compreender a tormentosa semana: precariedade do laboratório e de seus homens, precariedade do cerco ao micróbio e, enfim, da própria vida humana. Entretanto, não se pode transparecê-la, não se deve revelar ao grande público que o processo científico de confirmação do que ocorria em Santos resultou de um equilíbrio penoso, de um processo falível. É preciso manter as aparências de certeza e infalibilidade, pois ambas as virtudes estão prometidas pela ciência. Por isso, já no dia seguinte, Oswaldo Cruz escreve nova carta a Miloca, desta feita aborrecidíssimo:

São Paulo, 2 de novembro de 1899 (à tarde)

Minha querida Miloquinha

Muito triste fiquei ao receber telegrama do Andrade que dizia estarem todos assustados, em virtude da notícia que por aí espalhou um jornal indiscreto e bisbilhoteiro.

Já tive ocasião de dizer-te e repito, que estou inteiramente livre, que o acidente, ou, por outra, os acidentes tenham alguma conseqüência desastrosa. Felizmente, graças a tua insistência, sujeitei-me preventivamente e tomei todas as precauções durante o trabalho...

     Desta feita, Oswaldo Cruz aumenta um ponto em favor da esposa zelosa, insistente nas devidas precauções sem as quais, supostamente, o marido-cientista não teria retornado são e salvo, mas, ainda assim, cabe à esposa apenas um papel coadjuvante, pois, mais uma vez, é o soro antipestoso que emerge daqueles dias tormentosos como o grande herói salvador de vidas, o curativo certeiro que faz Oswaldo Cruz afirmar a intenção de prepará-lo "... a fim de preservar e curar nossos patrícios". Quanto ao jornal bisbilhoteiro, é bem possível que tenha sido O Paiz, que publicou, em 2 de novembro de 1899, o telegrama enviado por Jayme Silvado, médico auxiliar da Saúde Pública, a Nuno de Andrade, seu chefe (o Andrade citado por Oswaldo Cruz na carta): "Estive com o dr. Oswaldo Cruz, que de fato havia se ferido há quatro dias com pipeta esterilizada. Julgo o caso não ter importância. Todavia, tomou injeção de dez gramas de soro antipestoso, logo após o acidente. À vista das informações, aguardo instruções vossas a respeito de permanecer aqui ou não o dr. Cruz." Ainda segundo aquele jornal, "em resposta a este telegrama o dr. Nuno de Andrade telegrafou pedindo ao dr. Cruz que se demorasse em São Paulo dois dias".13 A cobertura jornalística, mesmo que Oswaldo Cruz a tenha denegrido, revela a dureza da batalha científica contra a Pasteurella, havendo mesmo noticiado, dias antes, o adoecimento de outra vítima ilustre — e bem mais grave — da peste, o próprio Vital Brazil, conforme publicado em O Paiz de 24 de outubro de 1899: "O dr. Vital Brasil apresentou ontem à noite sintomas da peste bubônica, os quais desapareceram com inoculação em alta dose do soro Yersin. O dr. Brasil, que se conserva fraco e abatido, voltou hoje ao serviço de isolamento." Para preservar impoluta a reputação da ciência e seus cientistas, realizou-se um esforço para abafar o caso, encampado pelo Estado de S. Paulo e pelo Jornal do Commercio quando este último reproduziu, na sua edição de 26 de outubro de 1899, uma notícia veiculada pelo jornal paulista no dia anterior, segundo a qual "... o sr. dr. Vital Brasil está em boas condições de saúde, não tendo, pois, fundamento a notícia que correu ao se achar atacado de peste bubônica". O Paiz (31.10, 5.11.1899) não se fez de rogado e prosseguiu acompanhando a trajetória de Vital Brasil até seu total restabelecimento: "O dr. Vital Brasil entrou em franca convalescença; "O dr. Vital Brasil seguiu hoje (ontem) para São Paulo no trem da tarde. É o primeiro enfermo que sai do isolamento." Portanto, quando Oswaldo Cruz chegou a Santos, já encontrou Vital Brasil acometido de peste e quando foi-se embora, deixou seu colega ainda internado. Para epílogo, O Paiz noticiou, o anticlímax da chegada de Oswaldo Cruz no Rio, bem diferente daquela partida solitária e gloriosa descrita pelo biógrafo: "Conforme dissemos, o dr. Oswaldo Cruz regressou ontem de São Paulo no trem SP 2. O dr. Cruz veio em carro isolado, sendo recebido na estação Central pela comissão médica, composta dos drs. Venancio Lisboa, Duarte Flores e Campello, e imediatamente transportado para o Desinfetório Central, onde sofreu uma lavagem anti-séptica, sendo rigorosamente desinfetadas as suas roupa e bagagem." Gente morrendo, gente doente, cientistas internados, acidentes: a viagem do marido não deixa dúvidas de que aquela semana em Santos foi, de fato, um inferno.
     Apesar das indiscrições jornalísticas e dos incidentes quase trágicos para os soldados da ciência, os resultados favoráveis da viagem já se antecipam. Novos lugares se reservam aos cientistas, que já dão por certo a ocupação de cargos públicos nos institutos soroterápicos a serem criados porque, conforme testemunhamos, com a peste não se brinca. A imprensa dá conta das novidades: "Os drs. Oswaldo Cruz e Ismael da Rocha vão ser encarregados da direção técnica do laboratório destinado ao preparo do soro antipestoso. ... O barão de Pedro Affonso teve ontem demorada conferência com o dr. Cesário Alvim, a propósito do seu contrato para a montagem do laboratório de soro antipestoso." (O Paiz, 4.11.1899). E, prosseguindo na leitura daquelas cartas de Oswaldo Cruz a Miloca, encontramos indicações preciosas a respeito da movimentação dos cientistas para aumentar pontos em favor da soroterapia. Na primeira, ele escreve: "Hoje encontrei-me com o ministro do interior que veio pedir-me para examinar um local para a fundação de um instituto soroterápico e dar a minha opinião a respeito"; e na carta do dia seguinte, confirma a incursão pela capital paulista: "Fui hoje de manhã visitar uma outra chácara fora da cidade para instalação do instituto." Moral da história: Oswaldo Cruz está em Santos não só para realizar meticuloso trabalho bacteriológico no laboratório acampado, como também para sentar-se à mesa de negociações visando assegurar a criação das fábricas de soro.14 Aliás, dois dias antes de partir para Santos, em 20 de outubro de 1899, ele já tinha sido convidado e aceitara trabalhar em um instituto soroterápico a ser criado no Rio de Janeiro.15 Portanto, Oswaldo Cruz viajou com a negociação carioca praticamente concluída junto à prefeitura da capital federal, faltando apenas escolher um local para sede do empreendimento.
     Se a viagem parecia funcionar como um ponto de partida, percebemos agora que, em verdade, estamos diante da conclusão de um processo de persuasão no qual se estabeleceu, por tradução, que o destino do país está inapelavelmente vinculado à luta contra a peste, que lutar contra a peste equivale a armar-se com soro, o que, por sua vez, equivale a entregar sua fabricação aos cientistas. Estes, por sua vez, têm de demonstrar firmeza, segurança, convicção e talvez daí se origine a irritação de Oswaldo Cruz com a bisbilhotice alheia. Essa fuxicaria atrapalha as perspectivas promissoras abertas pela peste, em cujo encalço, lentamente, as traduções vão dando conta de configurar novos espaços, vão tratando de estabelecer as alianças entre os novos protagonistas: a Pasteurella pestis, o soro, os homens de laboratório e os homens de governo que têm de levar em conta as novíssimas estratégias de políticas de saúde pública inspiradas na luta contra os micróbios. Além da eminente presença in loco do ministro da Justiça Campos Salles, é absolutamente digno de nota que os parceiros de Oswaldo Cruz em Santos eram todos funcionários do governo de São Paulo, que viria brevemente a ser presidido por Rodrigues Alves, o próximo presidente da República. Portanto, não há espaço para falhas e perigos, somente para as asserções irreversíveis de cientistas e sua ciência infalível: dê-nos os meios para fabricar o soro e a peste não vingará em solo pátrio.

A viagem deste artigo: seu autor aumenta um ponto

     Afinal, terminamos as viagens sob o fogo cruzado dos seus diversos textos. Um deles, o relatório ‘científico’, é uma elaboração final das anotações do diário, apresentando, portanto, o conteúdo da investigação. Os outros textos, as cartas e a biografia, são textos ‘humanos’, ‘apaixonados’, ‘subjetivos’, que falam do contexto no qual se produziu a investigação, contexto cheio de riscos e incertezas. Apesar da má vontade de Oswaldo Cruz, ambos se misturam, forjando um insólito amálgama de conteúdo e contexto que produz compreensão mais acurada dos acontecimentos. Latour (1988, p. 12) consagra metodologicamente a mistura em sua análise da pasteurização da França: "Uso a história como um cientista pesquisador de cérebros usa um rato, dissecando de tal forma a poder perseguir o mecanismo que me faça entender de uma só vez o conteúdo de uma ciência e seu contexto." Para compreender uma semana tão movimentada, é impossível determinar onde termina um texto e começa. São diferentes, mas quais suas diferenças? Estabelecê-lo é traçar a distinção entre a prosa comum e a prosa da ciência. Trata-se de tarefa difícil, da qual nos ocuparemos brevemente, mais uma vez com a ajuda de Latour (1987, p. 62): "A distinção entre a literatura técnica e a restante não obedece a uma fronteira natural; é uma fronteira criada pela quantidade desproporcional de ligações, recursos e aliados localmente disponíveis. Esta literatura (técnica e científica) é tão difícil de ser lida e analisada não porque escape a todos os vínculos sociais normais, mas porque é mais social que os chamados laços sociais normais." Não é difícil perceber tal hipersociabilidade no caso do relatório. Já mostramos o que ele pretende no cumpliciamento do sr. ministro. S. Exª. é um dos ‘atingidos’ pelas conclusões, mas existem muitos outros a quem se quer alcançar. O prefeito do Rio de Janeiro, Cesário Alvim, também estará a par da grave ameaça a sua cidade. Com certeza, a comunidade médica brasileira deverá conhecer o documento. De outra feita, não é difícil imaginar que Oswaldo Cruz cuidará de mobilizar seus bons amigos no Instituto Pasteur para fazer o documento chegar às mãos de toda comunidade científica internacional interessada no combate ao mal levantino. Dessa forma, o soro de Yersin será tornado mais sólido e mais consumado assim que circularem as figuras do relatório nas quais se vê a morfologia do bacilo, quando "o organismo reage com intensidade auxiliado pela ação do soro ... pois que ela (a morfologia) representa a forma de resistência do organismo microbiano, que concentra em certos pontos o seu protoplasma, para melhor resistir à ação nociva do meio ambiente" (Cruz, 1899, p. 332). As imagens do micróbio agonizante lutando pela sua sobrevivência não deixam outra alternativa aos leitores do relatório: submissão pura e simples à eficácia terapêutica do profilático antipestoso, não somente pelo que haveria de acertado nos procedimentos dos cientistas brasileiros, mas principalmente pelo múltiplo engajamento de pessoas e recursos presentes no texto. Nesta falta de opções oferecidas ao leitor é que reside, ao contrário do que se poderia esperar, a marca mais contundente de um texto científico (Latour, 1987, pp. 33, 61, 48): "é o leitor quem se torna isolado... o texto científico, seja bem-sucedido ou não, expulsa seus leitores. Feito para ataque e defesa, é tão apropriado para uma estada agradável quanto um bastião ou um bunker. Isto torna-o bastante diferente da leitura da Bíblia, de Stendhal ou dos poemas de T.S.Elliot". As cartas a Miloca, ao contrário, aproximam, comungam, apelam a familiariedades, convidam à permanência. Não há nas cartas nenhuma cautela para evitar que se desguarneçam os flancos, mesmo porque nem sequer existem flancos ou linhas de defesa; a penetração é livre, desembaraçada e procura ligar autor e leitor pelo coração, não pela mente. No texto científico, o terreno das paixões tem de ser segregado de forma que, para fazer valer a racionalidade científica, utiliza-se o artifício da estratificação em camadas:

Cada afirmação é interrompida por referências externas ou internas aos textos a outras partes, números, colunas, tabelas, legendas, gráficos. Por sua vez, cada uma destas referências pode enviar de volta a outras partes dos mesmos textos ou para referências ainda mais externas. Em um texto tão estratificado, o leitor, uma vez interessado na sua leitura, está tão livre quanto um rato em um labirinto. A transformação da prosa linear em, por assim dizer, uma ordenação entrelaçada de linhas sucessivas de defesa é o sinal mais certo de que um texto tornou-se científico.

     O leitor pode bem compreender agora que esta nossa viagem foi, de fato, uma outra viagem a Santos.16
     Partimos com Oswaldo Cruz sozinho e retornamos com Oswaldo Cruz cercado de pessoas, textos, fatos e artefatos. Afinal, "a construção de um fato é um processo tão coletivo que uma pessoa isolada constrói somente sonhos, asserções e sentimentos, não fatos". Relatamos apenas alguns dos episódios da jornada a Santos, alguns tão surpreendentes que quase nem se reconhecem como sendo parte sua. Mas é por causa deles que estas histórias puderam ser novamente contadas, e por não proibir a mescla entre conteúdo e contexto, entre objetivo e subjetivo, pudemos, não sem algum espanto, aumentar vários pontos e verificar com quantas precariedades se constrói uma certeza científica, com quanto medo blasona o herói sua coragem, com quantas paixões subterrâneas se faz a ciência.

 

NOTAS

1 A questão do ‘conhecimento puro’ é resgatada pela via esclarecedora da etimologia da palavra mundo, conforme empreendida por Maia (1996, p. 115), a partir de sugestão do filólogo Antônio Houaiss em comunicação pessoal de 1985 ao retomar "uma antiga tradição compreensiva presente desde a Antiguidade que encontrava a perfeição no nível celeste das estrelas fixas e a degradação, a impureza, na região humana sublunar. As idéias platônicas habitavam o absoluto kosmos constituído pela ... quintessência clara, limpa e perfeita de transparências ideais ... . Do outro lado, embaixo, ... a região humana e da história, da temporalidade que a tudo degrada em seu contínuo devir linear. ... Originariamente termo de raiz grega, kosmos latinizou-se no seu equivalente semântico, mundus, que fornece o nosso ‘mundo’ ibérico, permanecendo com o sentido primitivo de ‘limpo’, lugar da pureza e perfeição. Restou-nos como habitação terrena, para a temporalidade humana, a degradação do devir, a impureza do não-mundo, o imundo. A arqueologia etimológica aponta a região humana, do social, oposta à idéia de mundus como adjetivo latino significando ‘asseado’, do verbo mundo como ‘limpar’, ‘purificar’, do substantivo munditia, como ‘limpeza’, ‘elegância’. Do outro lado encontramos imundície, imundo, o não-mundo, o in-mundus. ... A solicitação de permanência da divisão da astronomia antiga em duas esferas — a pura e a corrupta, o mundus e o in-mundus — é mais do que uma simples metáfora na separação entre os objetos filosóficos e históricos. Tornou-se um componente endógeno na tradição ocidental. Promoveu rupturas e partilhas, embaralha-se com questões de limites (mental-material, indivíduos-sociedades) entre atos mentais versus ações materiais. Apesar da síntese galilaico-newtoniana amalgamar os céus na terra, e por isso mesmo ser uma síntese, sobrevive na separação entre as hard sciences e as soft, entre ciências naturais e sociais, foi e é um estímulo para o recorte interno/externo traduzir as qualidades do puro/impuro".

2 Naquele período, as primeiras escaramuças com o micróbio tiveram lugar em Hong Kong, aonde Kitasato e Yersin, independentemente, identificaram o bacilo da peste (Pasteurella pestis) em 1894. Em 1896, Haffkine criou uma vacina e, em 1898, os primeiros soros foram usados por Yersin (ver Stepan, 1976, pp. 67-8).

3 A peste em Santos foi oficialmente diagnosticada pelas autoridades sanitárias paulistas em 18 de outubro de 1899.

4 Oswaldo Cruz chegou ao Hospital de Isolamento em Santos às 22h de 23 de outubro e partiu para São Paulo às 15h de 30 de outubro.

5 Segundo artigo de Artur Neiva, publicado no jornal argentino La Nación, de 28 de novembro de 1915, só havia no Brasil cinco homens em condições de atuar neste tipo de investigação: Chapot Prevost, Fajardo, Lutz, Vital Brasile Oswaldo Cruz. Chapot Prevost foi convidado pela Câmara Municipal de Santos a fazer seu diagnóstico a respeito da moléstia, tendo chegado àquela cidade em 22 de outubro de 1899, ou seja, praticamente junto com Oswaldo Cruz. Embora tenham trabalhado em separado, Chapot Prevost igualmente diagnosticou a presença da peste bubônica. A viagem de Chapot Prevost é mais uma das viagens a Santos.

6 O livro de Fleck consta das referências bibliográficas utilizadas em Latour (1988).

7 Latour (1988, p. 95). A filiação ao estilo pasteuriano é explicitada em telegrama enviado por Oswaldo Cruz a Nuno de Andrade, diretor da Saúde Pública, em 27.10.1899, ou seja, já ao final dos trabalhos em Santos: "Fechei o ciclo pasteuriano para a diagnose da espécie microbiana patogênica. Os critérios clínico, epidemiológico e bacteriológico permitem afirmar categoricamente ser a peste bubônica a moléstia reinante" (O Paiz, 28.10.1899).

8 A questão da estabilidade do coletivo de pensamento aparece em Fleck (1986, pp. 149-50) quando propõe que "além desses coletivos de pensamento casuais e momentâneos, situam-se os estáveis ou relativamente estáveis, que se formam especialmente em grupos sociais organizados. Se um grupo existe durante um tempo suficiente, o estilo de pensamento fica fixado e adquire uma estrutura formal. Então, a execução realizadora predomina sobre o ânimo criativo o qual diminui até um certo nível discreto, disciplinado e conveniente. A ciência atual, como estrutura específica e coletivo-intelectual, se encontra nesta situação".

9 A forma vacuolisada representaria a forma de resistência do bacilo ao meio hostil, ou seja, ao organismo no qual se injetou o soro antipestoso.

10 Publicado originalmente no artigo ‘Contribuição para o estudo clínico da peste’, Revista Médica de São Paulo, n° 7, 15.6.1900

11 O Paiz, 25.10.1899. No dia seguinte, o jornal publicava: "Nuno enviará hoje cinqüenta vidros do soro antipestoso."

12 Fleck (1986, p. 156). Outra passagem de Fleck (idem, p. 158) que antecipa o conceito de tradução: "A comunicação nunca ocorre sem transformação e sem que se produza uma remodelação de acordo com o estilo, o que intracoletivamente se traduz em um reforço e intercoletivamente em uma mudança fundamental do pensamento comunicado. Quem não o compreende nunca conseguirá uma teoria positiva do conhecimento."

13 Na edição do dia seguinte (3.11.1899), O Paiz publicava outro telegrama enviado de São Paulo por Jayme Silvado a seu chefe: "... O dr. Oswaldo Cruz demora-se ainda aqui. Está de perfeita saúde."

14 Cabe esclarecer que as fábricas de soro deveriam também ser, e o foram, fábricas de vacina antipestosa. Entretanto, a soroterapia antipestosa, entre tantos outros motivos, era mais empregada nas quadras epidêmicas da moléstia, visto que a imunidade pela vacina só se estabelecia dez a 12 dias após a vacinação. Aliás, uma das controvérsias da época dizia respeito à oportunidade da aplicação da vacina em períodos epidêmicos, visto que naqueles dez a 12 dias antes de alcançar a imunização, as pessoas vacinadas se tornariam mais sensíveis à peste que as não vacinadas. O próprio Oswaldo Cruz (1901, pp. 405, 409, 406), em artigo intitulado ‘A vacinação antipestosa’, publicado na revista Brazil-Médico, dedica algumas páginas à polêmica, para concluir inicialmente que "nas épocas epidêmicas, tratando-se de indivíduos que tenham estado em contato com focos pestosos, convém desde logo proceder a sua imunização passiva, por meio do soro, como aconselha Simond, ou praticar a vacinação mista pela soro-vacina, segundo o conselho da comissão do Instituto Pasteur que estudou a peste no Porto (Calmette e Salimbeni, de acordo com Camara Pestana e Moraes Sarmento), conselho que foi subscrito por Pfeiffer. Na carência de soro, convém isolar-se os indivíduos durante o tempo máximo de incubação da peste, vaciná-los pelo processo de Haffkine e conservá-los longe do foco durante todo o período de pré-imunização, isto é, de dez a 12 dias. Só assim a vacina antipestosa poderá ser usada sem receio. Mas o que é verdadeiramente prático e científico é a inoculação simultânea da vacina e do soro". Entretanto, na conclusão do artigo, expressa mais enfaticamente os perigos e inconvenientes da vacina: "A vacinação antipestosa só deve ser feita após cuidadoso exame médico do paciente. As doses de vacina devem ser estipuladas de acordo com o estado de integridade fisiológica dos aparelhos orgânicos do vacinando. ... Não é impossível que a vacinação antipestosa possa ser seguida de acidentes, mais ou menos graves, em indivíduos que apresentem lesões dos órgãos destinados à eliminação das toxinas ... . Uma imunização segura só pode ser obtida após inoculações repetidas de doses progressivamente crescentes da vacina." Portanto, fica evidente a complexidade existente à época para a aplicação em massa de vacina antipestosa, quando a soroterapia já era distinguida por alguma unanimidade quanto aos seus resultados menos ‘temerários’ e mais ‘confiáveis’. Ainda haveria mais o que investigar nesta controvérsia como, por exemplo, os argumentos de alguns cientistas, combatidos por Oswaldo Cruz no artigo, segundo o qual a soro-vacinação seria inócua devido ao fato de que, uma vez misturados, se neutralizariam "como os álcalis neutralizam os ácidos". Entretanto, não é aqui o caso de levar essa investigação adiante, mas apenas ressaltar alguns motivos acerca da predominância da soroterapia sobre a vacinação que faziam com que a tendência fosse de se produzir mais soro que vacina, conforme o quadro a seguir referente à produção de Manguinhos (em vidros):

1903

1904

1905

1906

1907

1908

1909

1910

1911

1912

-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Soro

11.250

14.700

6.750

3.750

7.284

7.311

3.210

2.381

3.360

5.979

Vacina

7.000

54.900

7.870

5.050

1.002

3.625

950

800

600

1.761

Fonte: Oscar Meira, 'O Instituto Oswaldo Cruz'. Em Jaime Benchimol, 1990, p. 87.

Em suma, quando nos referimos às fábricas de soro, deve ficar subentendido que estamos nos referindo ao menos controvertido e mais célebre produto das fábricas de soro e vacina.

15 Fernandes (1989, pp. 33-4). O Paiz publicava, em sua edição de 22 de outubro de 1899, que o prefeito mandara um ofício ao barão de Pedro Affonso incumbindo-o da "direção e organização do serviço de preparação do soro antibubônico". O barão respondeu informando que havia convidado Oswaldo Cruz e Ismael da Rocha, chefe do Laboratório Bacteriológico Militar, e que Oswaldo Cruz, "de volta da viagem que vai fazer a São Paulo, deverá trazer as culturas do micróbio da peste para a imunização dos cavalos. Ao mesmo tempo, o dr. Pedro Affonso já organizou a encomenda para a Europa do material necessário ao serviço projetado e que não pode ser obtido por outra forma".

16 Vale lembrar que ainda restam algumas viagens por serem feitas e refeitas. Entre estas, por exemplo, a já citada viagem de Chapot Prevost e a viagem a Santos empreendida pelos próprios santistas, se não vejamos: por que depois de ter sido a peste oficialmente declarada pelas autoridades sanitárias estaduais, "reluta o povo em aceitá-la, rejeita-a a Câmara e combatem-na muitos médicos (em Santos)?" (Jornal do Commercio, 26.10.1899, reproduzindo noticiário de A Notícia).

 

FONTES

Manuscritas

Arquivo Oswaldo Cruz, Fundo I, Rio de Janeiro, COC/Fiocruz.         [ Links ]
Arquivo Oswaldo Cruz, Fundo II, Rio de Janeiro, COC/Fiocruz.        [ Links ]

Impressas

Jornal do Commercio.
Rio de Janeiro, out.-nov., 1899.

O Paiz.
Rio de Janeiro, out.-nov.,1899.

La Nación.
Buenos Aires, 28.11.1915.

Cruz, Oswaldo
Relatórios apresentados ao ministro da Justiça e Negócios Interiores, pelo dr. Oswaldo Cruz, diretor da Diretoria geral de Saúde Pública.
Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1902-08.

Cruz, Oswaldo
Relatório acerca da moléstia reinante em Santos apresentado ao ministro da Justiça e Negócios Interiores, pelo dr. Oswaldo Cruz, diretor da Diretoria Geral de saúde Pública.
Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1900.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em fevereiro de 1998.

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