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Psicologia em Estudo

Print version ISSN 1413-7372On-line version ISSN 1807-0329

Psicol. Estud. vol.25  Maringá  2020  Epub May 18, 2020

https://doi.org/10.4025/psicolestud.v25i0.44147 

ARTIGO

SUICÍDIO E MASCULINIDADES: UMA ANÁLISE POR MEIO DO GÊNERO E DAS SEXUALIDADES1

SUICIDIO Y MASCULINIDADES: UN ANÁLISIS A TRAVÉS DEL GÉNERO Y DE LAS SEXUALIDADES

2Universidade de Brasília (UnB), Brasília-DF, Brasil.


RESUMO.

A epidemiologia brasileira do comportamento suicida, no que tange ao gênero, é análoga à maioria dos países no cenário internacional, de acordo com a pesquisa da Organização Mundial de Saúde, envolvendo 172 nações. No Brasil, o número de óbitos por suicídio é de três a quatro vezes maior entre os homens e, além disso, pesquisas revelam que a prevalência de tentativas de autoextermínio pode ser maior na população sexo-diversa masculina. A partir dos dados estatísticos que inferem questões de gênero e de sexualidade relacionadas ao sofrimento psíquico de homens, a presente pesquisa teve como escopo analisar qualitativamente, por meio das teorias das masculinidades, relatos biográficos de homens gays, bissexuais e heterossexuais que já manifestaram o comportamento suicida. O intuito foi dar enfoque nos contextos de sofrimento que levaram os sujeitos às ideações e tentativas de autoextermínio. Ao final, as categorias identificadas apontam para similaridades e distinções nas narrativas de cada grupo de orientação sexual e evidenciam a forma como a não correspondência à masculinidade hegemônica se expressa nas sexualidades estudadas.

Palavras-chave: Suicídio; masculinidade; sexualidade

RESUMEN

La epidemiología brasileña del comportamiento suicida, con respecto al género, es análoga a la mayoría de los países en el escenario internacional, de acuerdo con la investigación de la Organización Mundial de la Salud, con 172 naciones. En Brasil, el número de muertes por suicidio es de tres a cuatro veces mayor entre los hombres y, además, investigaciones revelan que la prevalencia de intentos de suicídio puede ser mayor en la población sexodiversa masculina. Con base en los datos estadísticos que infieren las cuestiones de género y sexualidad relacionadas con el sufrimiento psicológico de los hombres, la presente investigación tuvo como objetivo analizar cualitativamente, a través de las teorías de la masculinidad, los relatos biográficos de hombres homosexuales, bisexuales y heterosexuales que ya manifestaron conductas suicidas. La intención fue centrarse en los contextos de sufrimiento que llevaron a los participantes a ideas e intentos de autodestrucción. Al final, las categorías identificadas señalan similitudes y distinciones en las narrativas de cada grupo de orientación sexual y muestran cómo la falta de correspondencia con la masculinidad hegemónica se expresa en las sexualidades estudiadas.

Palabras clave: Suicidio; masculinidad; sexualidad

ABSTRACT.

The Brazilian suicidal behavior epidemiology, in what concerns to gender, is analogous to most countries in the international scenario, according to the World Health Organization survey, with 172 nations. In Brazil, the number of suicide deaths is three to four times higher among men and, in addition, research shows that the prevalence of self-extermination attempts may be higher in the male sex-diverse population. Based on the statistical data that infer gender and sexuality issues related to the psychological suffering of men, the present research aimed to qualitatively analyze, through the theories of masculinities, the biographical reports of gay, bisexual and heterosexual men who have already manifested suicidal behavior. The intention was to focus on the contexts of suffering that led the participants to ideations and attempts at self-extermination. In the end, the categories identified point to similarities and distinctions in the narratives of each sexual orientation group and show how the non-correspondence to hegemonic masculinity is expressed in the studied sexualities.

Keywords: Suicide; masculinity; sexuality

Introdução

Os estudos sobre as masculinidades se intensificaram nas décadas de 1970/1980, na esteira do movimento feminista. Neste campo teórico, são observadas duas correntes: uma que trabalha os signos da masculinidade como essência dos homens, em termos arquetípicos; outra que se fundamenta por meio do pensamento feminista, que compreende o gênero como categoria analítica de observação das relações de poder, tanto na comparação de homens e mulheres quanto entre os próprios homens (Zanello, 2018). A segunda perspectiva aponta para a existência de uma hierarquia das masculinidades, na qual a que se encontra no topo é conhecida por ‘masculinidade hegemônica’ (Connell & Messerschmidt, 2013). O representante atual dessa categoria masculina é o homem branco, cisgênero, heterossexual, sexualmente ativo, produtivo e próspero.

Uma vez que a masculinidade se constitui a partir da permanente comprovação social, a sua validade é atravessada por frequentes testes, cuja regra principal e unificadora, conforme aponta Kimmel (2016, p. 106, grifo do autor), também é a mais árdua: “[...] quaisquer que sejam as variações de raça, classe, idade, etnia ou orientação sexual, ser um homem significa ‘não ser como as mulheres’”. Desse modo, a antifeminilidade encontra-se no fulcro dos conceitos históricos e atuais de masculinidade (Kimmel, 2016).

O sociólogo Daniel Welzer-Lang (2001) aponta que a legitimidade de um homem em seu grupo não se restringe à negação da feminilidade, mas também em sua contundente depreciação. Para tanto, é preciso que o homem, em busca de seu espaço de pertencimento, performe misoginia como passaporte para o que ele denomina de ‘Casa dos Homens’, o conjunto de ambientes monossexuados, nos quais se estruturam, desde cedo, a educação de gênero dos rapazes.

Ao considerar os aportes teóricos que os estudos das masculinidades trazem para a clínica, Zanello (2018) propõe o ‘dispositivo da eficácia’ como categoria analítica para a compreensão do sofrimento na vivência masculina. Segundo a autora, na sociedade brasileira, os homens se subjetivam a partir desse dispositivo, que se fundamenta na virilidade sexual e laborativa.

A virilidade sexual compulsória é constituída em dois pontos opostos: o positivo, relacionado à produção e exibição de performances de sexualidade ativa; e o negativo, que abrange as interdições aos signos que coloquem em xeque essa virilidade (Zanello, 2018). No campo positivo, encontram-se as imposições identitárias que afirmam ser o verdadeiro homem aquele cuja potência é comprovada pela demonstração constante de um desempenho sexual. A valorização do papel de penetrador como símbolo da virilidade sexual ativa se opõe a qualquer prazer e experiência anal. Portanto, a penetrabilidade é o negativo da virilidade sexual e destitui o homem de seu lugar social de macho (Saez & Carrascosa, 2016).

Como a atividade sexual do homem é representada pela força, poder e dominação, existe o enaltecimento da figura do penetrador (papel ativo) e a desqualificação do penetrado (papel passivo). Nesse sentido, por serem vistos os corpos das mulheres como o lugar de usufruto e de penetração dos homens, é associado aos homossexuais a representação de passividade e de feminilidade, como se esses, ao se relacionarem afetiva e eroticamente com outros homens, estivessem renunciando à masculinidade. Logo, ainda que todos os homens gozem de privilégios sociais em comparação às mulheres, a não heterossexualidade outorga um lugar de inferioridade a determinadas masculinidades (Borrillo, 2010).

A virilidade laborativa, por sua vez, é construída pela exaltação da produtividade e do acúmulo de riqueza como signos da masculinidade. Desde as transformações nos meios de produção baseadas no capital, o papel do trabalho tem sido redimensionado, tornando-se relevante não apenas como via de sustento, mas também como um valor moral para o trabalhador, um critério de avaliação da dignidade de um homem. Ao determinarem para si a fruição do espaço público, os homens passaram a exercer o papel de provedor do espaço privado, sendo que o seu status na Casa dos Homens se eleva à medida que acumula riqueza e evidencia a sua prosperidade (Zanello, 2018).

Portanto, é considerado um homem ‘de verdade’ aquele que demonstra ser um trabalhador/provedor e que desempenha ativamente a sua vida sexual. E ainda que o trabalho e a sexualidade sejam dimensões identitárias em suas vidas, há sujeitos que não corresponderão aos padrões hegemônicos desses campos, tanto pelo desemprego, da pouca produtividade ou de atividades de baixa remuneração, quanto apresentando uma orientação sexual dissidente (Zanello, 2018).

No que concerne às dissidências sexuais, Zanello (2018) assinala que a subversão do dispositivo da sexualidade não necessariamente subverte os dispositivos de gênero. No entanto, dá a eles configurações específicas (Baére, 2018). Em outras palavras, de um lado, mesmo que muitos sujeitos se autodeclarem gays e lésbicas, existe um rol de performances normativas que os aproxima dos heterossexuais (Baére, Zanello, & Romero, 2015). Por outro lado, a dinâmica do funcionamento do dispositivo da eficácia se vê interpelada por questões diferentes daquelas dos heterossexuais. No caso dos homens, uma vez que as virilidades (sexual e laborativa) lhes garantem a preservação identitária, existe um permanente esforço para assegurá-las, o que costuma acarretar no adoecimento psíquico de muitos sujeitos quando isso não é possível (Windmöller, 2016).

Segundo Santos e Castejon (2016), as agressões sofridas nos espaços de socialização; o distanciamento dos pais como símbolo de uma emancipação identitária; o silêncio e o isolamento que denotam a autossuficiência são posturas que levam os homens ao sofrimento psíquico, o que pode culminar na manifestação do comportamento suicida. No caso de homens cuja sexualidade é dissidente, esses fatores se tornam ainda mais intensificados, seja pelo silenciamento de seus desejos, seja pelas agressões como forma de punição contra quaisquer traços considerados socialmente como femininos.

No Brasil, o número de óbitos por suicídio entre os homens é quase quatro vezes superior ao das mulheres. De acordo com o boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, divulgado em 2017, entre 2011 e 2016, houve 62.804 mortes por autoextermínio no país. Desse total, 21% eram mulheres e 79% homens. Esses valores não se referem estritamente a fenômeno brasileiro, mas a uma tendência mundial, na qual a taxa de óbitos por suicídio entre os homens é 3,5 vezes maior do que a de mulheres em países de alta renda, e 1,6 superior nos de baixa e mediana renda (Organización Mundial de la Salud [OMS], 2014)4. Como a virilidade sexual é um componente identitário para os homens majoritariamente, as sexualidades dissidentes também apresentam altos índices epidemiológicos de tentativas e óbitos por suicídio.

Publicações internacionais apontam para a maior vulnerabilidade ao suicídio entre pessoas autodeclaradas homossexuais e bissexuais, com a presença de certos sintomas, dentre eles os estados depressivos, a ansiedade e a homofobia internalizada entre os participantes (Plöderl et al., 2014; Wang et al., 2014). Se os estudos sobre o suicídio contemplam a diferença sexual, é escasso o número de pesquisas no cenário brasileiro que se propõe a investigar a associação entre a sexualidade dissidente e o comportamento suicida (Da Silva & Barbosa, 2014; Teixeira-Filho & Rondini, 2012).

No Brasil, o próprio levantamento oficial do número de óbitos por suicídio entre a população LGBT é realizado pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), pela ausência de mecanismos de registros dessas ocorrências no Sistema de Informação de Mortalidade (SIM), do Datasus. Os relatórios produzidos pelo GGB evidenciam o crescimento de mortes violentas entre essa população, sendo que na última publicação, relacionada ao ano de 2017, foi registrado o maior valor desde o início dessa sondagem, com 445 óbitos (Grupo Gay da Bahia [GGB], 2017). Entre as causas dessas mortes, o suicídio aparece em terceira posição (58 casos), atrás das armas de fogo e das armas brancas, com 136 e 111 casos, respectivamente.

Das causas de mortes violentas, o autoextermínio, enquanto expressão limite do sofrimento psíquico, quando investigado sob o prisma do gênero, pode propiciar um outro olhar para o campo da suicidologia (Jaworski, 2010). É relevante, assim, a compreensão dos complexos mecanismos que direcionam um grande número de homens ao suicídio. Embora pesquisas expressem valores estatísticos que denotam maior suscetibilidade de pessoas não heterossexuais ao comportamento suicida, faz-se mister investigar, sob a perspectiva das teorias das masculinidades (Badinter, 1993; Welzer-Lang, 2001), como a não correspondência aos ideais hegemônicos intensificam esse comportamento entre homens gays e bissexuais.

Ao considerar as reflexões apresentadas, o presente estudo teve como objetivo analisar as histórias de vida e vivências pessoais de homens gays, bissexuais e heterossexuais que manifestaram o comportamento suicida, com o propósito de averiguar como funciona o dispositivo da eficácia (Zanello, 2018) nesses sujeitos e a sua relação com o autoextermínio. O foco não esteve na multiplicidade de fatores que levou os indivíduos à tentativa de suicídio, mas na descrição dos contextos de sofrimento decorrentes da imposição social de certas performances gendradas.

Método

Após aprovação no Comitê de Ética em Pesquisa em Ciências Humanas e Sociais da Universidade de Brasília (IH/UnB), com parecer número 2.047.212, foi realizado um chamado público virtual a fim de convidar participantes para as entrevistas. O convite público foi realizado nas redes sociais, com o intuito de evitar indicações que pudessem constranger a pessoa sugerida, em decorrência das temáticas do trabalho (comportamento suicida e orientação sexual). As entrevistas foram agendadas à medida que houve a sinalização de interesse na participação. Inicialmente, a expectativa do número de participantes era dois sujeitos para cada orientação sexual. Contudo, até o encerramento do último grupo de entrevistados (heterossexuais), foi possível a realização de mais entrevistas nos outros dois. Ao final, foram realizadas nove entrevistas com homens cisgêneros: quatro sujeitos autodeclarados gays (G), três autodeclarados bissexuais (B) e dois autodeclarados heterossexuais (Ht).

A idade dos entrevistados variou entre 19 e 28 anos, com média de 24 anos. Quatro são originários do DF, dois são do Piauí, um de Minas Gerais, um do Ceará e um de São Paulo. Os nove entrevistados não fizeram menção a uma renda familiar específica, mas todos alegaram ser oriundos de famílias de classe média. Sete entrevistados são graduandos e dois já são formados em universidades federais, sendo um deles com o mestrado recém-concluído em uma universidade pública. Apenas um entrevistado se autodeclarou negro ao longo da entrevista, enquanto os demais não fizeram menção à raça, provavelmente por apresentarem tez parda e branca. O estado civil dos nove entrevistados é solteiro e, em termos de relacionamento, apenas dois afirmaram estar comprometidos (01 gay e 01 heterossexual).

A pesquisa se deu por meio de entrevistas abertas, através de perguntas disparadoras ‘Conte-me sua história’ ou ‘Fale-me da sua vida’, de forma que os demais questionamentos fossem suscitados a partir dos conteúdos trazidos pelo entrevistado. Contudo, quando não apareceram informações específicas relacionadas ao tema da pesquisa e/ou não houve aprofundamento nos âmbitos do comportamento suicida e das vivências de orientação sexual, foram utilizadas perguntas direcionadoras, tais como ‘Fale-me mais sobre isso’ e ’Como assim?’. Apesar de ser mobilizador falar sobre essa temática, não houve nenhuma intercorrência (tal como choro convulsivo, crises etc.) durante as entrevistas.

As entrevistas ocorreram entre outubro e dezembro de 2017, em uma sala do Laboratório Integrado de Pós-graduação e Pesquisa Experimental emPsicologiacom Humanos (LIPSI), no campus Darcy Ribeiro, da Universidade de Brasília.A duração média das entrevistas foi de 01 hora. Os áudios foram gravados integralmente para posterior transcrição e análise. As transcrições ocorreram entre dezembro de 2017 e janeiro de 2018 e, ao final desta etapa, foram realizadas as análises de conteúdo, utilizando, para isso, a análise de conteúdo de Bardin (2011). Dois pesquisadores realizaram, separadamente, a leitura integral e análise das entrevistas para prévio levantamento dos temas. A partir desses temas listados, reuniram-se para deliberar acerca das categorias encontradas.

A apreciação do conteúdo foi efetuada em cada um dos três grupos de orientação sexual (heterossexual, bissexual e homossexual) e, posteriormente, comparadas entre si. O intuito consistiu em observar se haviam especificidades nas informações, bem como semelhanças e diferenças nas vivências de cada participante. Os resultados foram analisados à luz das teorias das masculinidades (Badinter, 1993; Welzer-Lang, 2001; Zanello, 2018).

Resultados e discussão

Por meio da análise do conteúdo das entrevistas, nas três orientações sexuais, foram elencadas quatro categorias, a saber: (1) espaço de socialização; (2) sou diferente: e agora?; (3) virilidade laborativa; (4) perda dos ganhos do dispositivo amoroso de uma mulher. Embora determinadas categorias tenham sido encontradas em mais de uma orientação sexual, a expressividade delas foi distinta em cada uma. A distribuição encontra-se na Tabela 1.

Tabela 1 Distribuição das quatro categorias encontradas nas entrevistas 

Gays Bissexuais Heterossexuais
Espaços de socialização Perda dos ganhos do dispositivo amoroso de uma mulher
Sou diferente: e agora?
Virilidade laborativa

Fonte: O autor.

A seguir, será apresentada a descrição das quatro categorias encontradas e os trechos das entrevistas que as exemplificam. Os fragmentos das narrativas foram identificados com as seguintes siglas (G) gay, (B) bissexual e (Ht) heterossexual.

1) Espaços de socialização

Essa categoria está relacionada aos aspectos culturais e sociais que determinam os caminhos de subjetivação, por meio dos mandamentos sobre o que é considerado ser homem na sociedade. Portanto, o ‘espaço de socialização’ remete ao que vem de fora e restringe, modela e se impõe. Em outras palavras, trata-se dos contextos que envolvem experiências de violência e exclusão. Identificada no grupo dos gays e dos bissexuais, aqui se destaca a forma como os ambientes de interação reproduzem o funcionamento da Casa dos Homens. Neles, são punidas quaisquer performances tidas ou construídas como femininas, posto que a masculinidade se fundamenta na misoginia (Welzer-Lang, 2001).

São nos espaços de socialização em que os trejeitos, as posturas, as características lidas como desviantes da masculinidade viril tornam-se alvo dos mecanismos de correção. “Eu tinha uma dificuldade de socialização com outras crianças por ser trejeitado, por ter a voz muito fina, muito nasalada. Então, nos mais variados espaços eu vivi situações de homofobia” (G4). A punição na Casa dos Homens esteve bastante presente no discurso dos entrevistados, principalmente na escola, que se mostrou o local de maior agenciamento da violência homofóbica, tal como já foi referido por outros estudos (Albuquerque & Williams, 2015). “Estava brincando com elas (meninas) e um dos grandes jogou uma pedra na minha testa. E ele começou a gritar um bando de coisas, como ‘bichinha’, ‘viadinho’, ‘sai daqui’, ‘vira homem’” (G4, grifo nosso).

Para grupos que comumente são alvos de violência nas instituições escolares, o retorno ao lar é um alento, pois é possível encontrar apoio e abertura para compartilhar as agressões sofridas com a família. Contudo, no que tange a experiência de sujeitos não heterossexuais e/ou afeminados, esse ambiente consolador nem sempre é possível, pois a discriminação encontra-se presente dentro da própria casa da vítima (Schulman, 2012). “Eu sabia que eu não podia falar pra ninguém da minha família, que nessas horas seriam nosso maior apoio. Que isso tudo (depressão) era por causa dessa insegurança minha em relação a quem eu sou” (G1). Nesse relato, vislumbra-se como a homofobia converte uma questão social discriminatória em uma vivência individual, ou seja, em uma homofobia internalizada que não permite a enunciação de quem se é para a família.

De acordo com os relatos, a figura parental masculina foi quem se manifestou de forma mais explícita na enunciação daquilo que os entrevistados poderiam ou não performar. “Eu sempre ouvi dele (do pai) que se ele visse dois homens se beijando na rua ele iria bater, que ele achava que era pecado, que tinha que morrer mesmo” (G4). A concepção de pai como o responsável pelos ensinamentos viris do filho remonta ao período romano (Thuillier, 2013). Ainda hoje, é a figura paterna o arauto da Casa dos Homens, “[...] o primeiro homem que avalia a performance masculina do menino, o primeiro par de olhos masculinos perante os quais ele tenta se provar. Aqueles olhos o seguirão pelo resto de sua vida” (Kimmel, 2016, p. 111).

A virilidade imposta e a ausência de locais de acolhimento na infância e na adolescência costumam predispor à manifestação do comportamento suicida entre os jovens homossexuais assumidos e/ou afeminados (Plöderl et al., 2014). De acordo com as narrativas, somente após o ingresso no ensino superior foi possível amainar o sofrimento psíquico, pois nos ambientes universitários houve contato com discursos progressistas, que possuem boa recepção entre a comunidade sexo-diversa. São espaços transicionais, nos quais os sujeitos LGBTs passam a aceitar as diferenças e vislumbram o direito a existirem em sua alteridade. Além disso, ao encontrarem coletivos e locais de debates políticos, muitos optam por entrar na composição desses grupos, o que viabiliza ampla ressignificação da homoeroticidade e o desenvolvimento de recursos pessoais de autopreservação. “Às vezes eu ficava muito deprimido, com vontade de morrer. Mas ao mesmo tempo eu me vinculei a projetos coletivos. Eu me sinto muito vinculado aos projetos coletivos que eu me envolvo e eles são extremamente terapêuticos pra mim” (G2).

No que tange à categoria ‘espaço de socialização’ e o comportamento suicida, de acordo com os relatos, foi na pré-adolescência que iniciaram as primeiras tentativas.

Esse dia eu nunca esqueci. Eu me lembro que eu era criança e estava muito triste, cheguei a ter febre. Provavelmente me xingaram, fizeram brincadeirinhas comigo na escola. Eu falei que ia morrer. Foi uma das primeiras vezes que eu falei em suicídio. Eu tinha 12 anos. E aí eu tomei Dipirona. Tava realmente certo. Eu era criança, então não tinha noção de dosagem. Eu me lembro que eu deitei na cama e falei que ia morrer, mas acabou que dormi (G2).

Para todos os entrevistados, tanto os gays quanto os bissexuais, a ideação suicida sempre esteve presente também em decorrência do desconforto cotidiano nos espaços de socialização. “Eu tinha mais medo de viver do que de morrer” (G3). Contudo, em relação aos homossexuais, foram após eventos de agressões físicas ou verbais que ocorreram as primeiras tentativas, como o jovem que, ao receber uma pedrada na cabeça, aos dez anos de idade, tentou se matar no mesmo dia. Residindo em um apartamento protegido por telas de proteção de quedas, sua mãe o encontrou durante a noite cortando a rede com uma faca, para que pudesse saltar da janela (G4).

As ideações e tentativas de precipitação de alturas elevadas (G1, G3, G4) e de enforcamento (G3) são meios que costumam ter menor chances de salvamento. A literatura aponta que os homens costumam se valer de métodos mais letais, uma vez que o suicídio não fatal seria um atestado de fracasso, mais uma contestação da ausência de virilidade (Canetto & Sakinofsky, 1998; Jaworski, 2010). Logo, a tentativa precisa se infalível. “Eu sempre soube que, se eu fosse me matar, seria em uma única tentativa. E seria bem sucedida. Eu sempre tive esse pensamento” (G3). Ademais, por ser a violência um signo de virilidade, que cumpre um papel na certificação das masculinidades (Cecchetto, 2004), a escolha pelos métodos de autoextermínio mais agressivos também corrobora para a eleição de meios com maior letalidade entre os homens.

Em suma, esta categoria expressa a influência que os espaços de socialização exercem sobre a saúde mental dos jovens que apresentam sexualidades dissidentes e/ou apresentam trejeitos afeminados. Assim, o apoio social mediado pelo respeito à diversidade, o que inclui a supressão da socialização machista dentro da Casa dos Homens, é uma forma de preservar vidas. Conforme aponta um estudo da Universidade de Columbia, a propensão para tentativas de suicídio é de 21% para o grupo das sexualidades destoantes e de 4% para jovens heterossexuais. Contudo, constatou-se que o risco de tentativas de suicídio aumenta em 20% nos ambientes onde não há apoio à orientação sexual desses jovens, em comparação aos lugares onde se encontra suporte (Hatzenbuehler, 2011).

2) Não pertenço: e agora?

Enquanto a primeira categoria está relacionada às constrições advindas de fora e ao sofrimento decorrente dos contextos sociais atravessados por violência, discriminação e preconceito, esta envolve os aspectos internos e a tomada de consciência da diferença, do não pertencimento. Em determinado momento, ao se perceber como o ‘outro’, quais são os caminhos possíveis para lidar com o que não se é? Essa categoria, assim como ‘Espaços de socialização’, também foi encontrada nos grupos de gays e de homens bissexuais. Contudo, foram observadas distinções entre ambos, tanto nas vivências em torno da identificação da alteridade, quanto nas direções tomadas a partir dessa percepção.

Em relação aos homossexuais, as narrativas sobre a descoberta da diferença aludem ao período da infância e da pré-adolescência. “Eu acho que desde criança eu já me percebia com referências femininas, do que era lido como feminino, das brincadeiras, das coisinhas. E eu já entendia desde ali que era motivo de rejeição também” (G2). “Quando eu tinha uns onze anos por aí, eu já sabia. Mas aí eu acreditava que eu conseguiria fingir ser hetero pra sempre e que eu ia conseguir ser feliz com isso” (G1).

Como forma de evitar o isolamento ou de se proteger das possíveis ameaças de agressão já anunciadas, muitos meninos optam por performar a masculinidade mais aceitável. “Eu sempre me senti pressionado e proibido, digamos assim, de ser quem eu era” (G1). A permanência na Casa dos Homens, portanto, também pode envolver a demonstração de interesse por meninas, representando uma fictícia heterossexualidade.

Eu lembro uma vez que eu achei vídeos pornôs do meu irmão. E eu tinha que chamar todo mundo da escola pra ver. E eu lembro que eu nem via muita graça no pornô. E tinha aquela coisa de forçar comentários como: ‘Olha lá a gostosa’, ‘Olha lá o bundão’, pra exaltar a masculinidade, mesmo forçadamente (B1, grifo nosso).

Ademais, como a virilidade também se fundamenta na homofobia, na misoginia e na feminofobia (Welzer-Lang, 2001; Zanello, 2018), os próprios sujeitos recorrem às agressões homofóbicas, em uma espécie de camuflagem protetiva. “Teve alguns momentos que hoje eu me arrependo muito. Em casos que eu expressei a homofobia de uma forma bem clara” (B1). Nesse sentido, é possível apontar aqui um significativo fator de coesão entre as masculinidades, que é a rejeição ao feminino. “Os afeminados eram os que mais sofriam. E eu me utilizava deles como escudo” (G2).

As trincheiras existenciais para se proteger das agressões costumam cobrar um preço muito alto para a saúde mental dos jovens e obstaculizam ainda mais o árduo processo de saída do armário.

O primeiro sentimento que eu tive de pensar em morrer, acho que desde uns 10 anos. Eu me lembro que eu ficava no chuveiro. Eu ficava naquela posição (genuflexão), esperando que o chuveiro lavasse mesmo aquele meu desejo. Porque eu sabia que ou eu ia ser lavado ou eu teria que morrer (G2).

Assumir-se diferente perante a sociedade costuma ser uma atitude dilemática (Sedgwick, 2007). A depender do cenário no qual estão inseridos, com o permanente compartilhamento da homofobia intrafamiliar, o comportamento suicida começa a se materializar como uma forma de interrupção de um desamparo intolerável advindo de uma provável rejeição parental. “Se eu for expulso de casa, eu saio pela janela, não pela porta” (G3).

Em relação aos possíveis caminhos a serem tomados a partir do vislumbre da diferença, mesmo que gays e homens bissexuais sintam a dor do não pertencimento, as narrativas dos entrevistados apontam para distinções no que tange às soluções encontradas por ambos para suprimirem o sofrimento. Entre os homossexuais, a saída do armário e a descoberta de lugares sociais de pertencimento tornam-se verdadeiros anteparos identitários para eles. “Acho que eu consegui me entender, me conhecer, me trabalhar melhor. Minha relação com homofobia está melhor. Acho que eu tenho sorte porque os espaços que eu tenho frequentado são mais abertos, mas inclusivos” (G4). “Eu comecei a sair com as pessoas que me faziam bem” (G1).

Por outro lado, o discurso entre os homens bissexuais foi distinto. Enquanto os gays disseram ter encontrado locais de pertencimento, por meio de novas amizades e da participação em coletivos, os bissexuais se queixaram da ausência de espaços de identificação. Em uma sociedade tão acostumada com a monossexualidade, é esperado que a orientação do desejo seja exclusiva. A bissexualidade, portanto, costuma ser pouco debatida ou até desconsiderada em termos de expressão da sexualidade. “Eu nem sabia direito que isso existia. Eu só ficava naquela confusão. ‘Poxa, se eu gostei dele eu sou gay’, mas, espera. ‘Eu gosto dela agora’. E aí até hoje eu sinto uma necessidade perante os outros de comprovação, sabe?” (B1, grifo nosso).

De acordo com os relatos, diante da enunciação da bissexualidade, existe a tentativa de encaixe do sujeito bissexual na categoria binária-oposicional homo/heterossexual.

Eu cheguei a me dizer como bi algumas vezes, mas isso nunca teve muito apelo, muito nada. Os meus amigos gays achavam que eu não conseguia me aceitar. Muitos até hoje acham que eu sou gay. Puro sangue como já disseram por aí. Enfim, e as mulheres dão um certo crédito quando têm algum interesse, quando alguma delas quer me pegar. Aí a história muda. É um hetero que [...] Enfim, é sempre uma história mal resolvida (B2).

Diante da falta de compreensão, é comum optar pelo não compartilhamento da bissexualidade. “São poucos os meus amigos que sabem que eu sou bi. Porque eu fico muito cansado de ter que explicar. E sempre tem uma chacota. Não tenho muito problema em dizer que eu sou gay. Eu tenho até preferido” (B2). Essa omissão da bissexualidade que visa a evitação de uma fadiga social tem como desdobramento o reforço da crença de que há poucos bissexuais, de que a bissexualidade se trata de uma vivência intermediária que precede algo definitivo (Seffner, 2016).

A instabilidade emocional decorrente da sensação de não pertencimento faz parte das auguras da bissexualidade. “Acho que essa permanente sensação de desajuste, ela está intimamente relacionada à forma como eu me identifico” (B2). Na impossibilidade de encontrar locais de acolhimento e de expressão afetiva livre de julgamentos morais, o sujeito torna-se ilhado. “Não tenho amigos bissexuais, não tenho muitas pessoas com quem conversar sobre isso. Acaba que eu fico isolado” (B3). Nos ambientes LGBTs, reconhecidos pela sua abertura para a diversidade, também são encontradas restrições. “Dentro dessa sigla (LGBT), eu não me sinto contemplado. Nem conheço também muitos ativistas bissexuais” (B2).

Aqui, ‘o que vem de dentro’ aponta para a maneira como esses jovens se constituem subjetivamente, sem a oferta de amparos simbólicos para se sustentarem identitariamente. Embora exista a crença social de que a bissexualidade é a orientação sexual mais liberta e desimpedida, há controvérsias. “Eu não conheço quem vive a bissexualidade livremente. É sempre você ter que escolher um lugar, assumir aquilo. Não acho que os bissexuais sejam os grupos mais livres como dizem por aí que eles são. Acho que muito ao contrário” (B2).

Uma vez que a carência de redes de apoio está entre os fatores de risco para o comportamento suicida (Barrero, Nicolato & Corrêa, 2006; Botega, 2015), a dificuldade em obter acolhimento e compreensão social é fonte de maior fragilização para esses sujeitos. “Dia desses li sobre umas estatísticas de suicídio. Taxa de suicídios entre gays, hetero e bissexuais. E vi que a taxa entre os bissexuais é a maior” (B3). No Brasil, uma pesquisa sobre ideação e tentativas de suicídio entre adolescentes, realizada em escolas públicas no interior de São Paulo, apontou que, dos grupos não heterossexuais, os autodenominados bissexuais e os que responderam ‘outros’ (não definidos) nos questionários foram os que apresentaram maior risco de autoextermínio (Teixeira-Filho & Rondini, 2012).

3) Virilidade laborativa

A relação com o trabalho é um aspecto constitutivo para os homens. Por se tratar de um dos dois pilares do dispositivo da eficácia (Zanello, 2018), junto com a virilidade sexual, o maior investimento na virilidade laborativa pode garantir que um homem ainda seja valorizado socialmente, caso não cumpra com a virilidade sexual. Nesse sentido, não foi surpresa que essa categoria tenha sido a única identificada nas três orientações sexuais analisadas. No entanto, a sua representatividade foi distinta na tríade, bem como a sua relevância identitária para gays, bissexuais e heterossexuais.

Em relação ao grupo dos gays, a comprovação identitária baseada na virilidade laborativa se inicia paralelamente à descoberta da diferença. O conflito com a sexualidade, portanto, mescla-se com a incerteza no campo profissional. “Tinha essa imprevisão de quem eu vou ser: tanto profissionalmente como em termos da minha orientação sexual” (G1). Entre os homossexuais, o investimento na virilidade laborativa visa compensar o não comparecimento na virilidade sexual. “Se eu já não posso dar orgulho pra ele (pai) por eu não ser hetero, eu vou ter ao menos um bom sucesso acadêmico” (G1).

A pressão familiar no campo laborativo também se fez presente entre os gays. A imposição dos pais, aliada ao anseio por uma reparação pessoal em decorrência da culpa pela homossexualidade, gera maior ansiedade e sofrimentos. Como as pressões são constantes, há sujeitos que negociam o prazo de saída do armário para a família apenas quando houver ascensão profissional, para que o impacto da notícia seja amortecido pela comprovação da virilidade laborativa. “Quantos títulos eu precisarei ter?” (G2).

Com pouca expressividade no grupo dos bissexuais (apenas em B1), a virilidade laborativa apareceu como ansiedade em decorrência de um período de incerteza em relação ao curso escolhido. “Eu também estava numa crise com o meu curso, em relação a se eu queria mesmo. Poxa, eu me dediquei a vida toda para fazer Medicina e agora eu não queria isso? Como assim? Não era apenas a questão da sexualidade” (B1). No caso desse entrevistado, o único participante negro desta pesquisa, a raça também incidiu no campo laborativo. “Ser negro numa faculdade de medicina não é algo fácil. Outra questão foi começar a identificar as opressões e a fazer uma análise maior. ‘Eu não preciso me sentir assim por causa disso’. E a trabalhar melhor com isso” (B1, grifo nosso). Uma hipótese para explicar a escassez desse conteúdo no grupo dos bissexuais é que, em termos de sofrimento psíquico, o não encaixe em uma categoria socialmente aceita seja tão mobilizador, que se sobrepõe às outras adversidades enfrentadas.

Foi entre os heterossexuais que a imposição da virilidade laborativa se mostrou mais acentuada. Dimensão fundamental na constituição identitária dos homens, a relação com o trabalho, sobretudo na contemporaneidade, esteve predominantemente presente na biografia desses entrevistados (Zanello, 2018). “Eu acho que isso tem uma importância muito grande na minha história, porque o fato de eu passar tanto tempo pra descobrir o que eu queria influenciou muito. E influencia até hoje” (Ht1).

A depender do contexto familiar, a expectativa parental pode recair sobre o jovem de maneira opressora. “Meu pai me cobrava pra estudar pra concurso, mas eu realmente não estava conseguindo” (Ht2). Se a sociedade já se encontra organizada para exigir uma performance incessantemente produtivista dos homens, quando essa imposição é somada aos anseios dos pais, o peso da responsabilidade pode ser insustentável, de forma que a cobrança interna pela não correspondência se torna um fardo. “Eu vim de uma família um pouco pobre. Meu pai é vigilante. Nunca tivemos tanta condição. Então eles botam pressão do tipo ‘Você precisa ser o que a gente não foi’. É meio ruim ouvir, mas ao mesmo tempo eu entendo” (Ht1, grifo nosso).

Há uma exigência no compromisso do ‘vir a ser alguém na vida’, marcante neste grupo. Embora entre os homossexuais a virilidade laborativa tenha aparecido como uma forma de compensação de uma sexualidade dissidente, nos homens heterossexuais não se trata de uma reparação, mas de uma conquista identitária que também se perfaz no desejo parental. “Eu não fui esse estereótipo de pessoa que ele (pai) queria que eu fosse” (Ht1).

Nota-se que o valor da masculinidade, por também estar associado à virilidade laborativa, é capaz de fazer com que o sujeito que não esteja adequado aos padrões sociais e às idealizações parentais tenha sua autoestima abalada de maneira intensa, podendo propiciar o surgimento de ideações autodestrutivas.

Acho que o pensamento principal desses episódios, principalmente do último, é que eu não ia fazer falta. Eu tinha me convencido completamente de que o mundo iria ficar melhor sem mim. Por mais que as pessoas me falassem que isso era algo completamente sem noção, pra mim era muito real. Eu não sirvo para esse mundo. Preciso fazer esse favor ao mundo e ir embora dele (Ht1).

4) Perda dos ganhos do dispositivo amoroso de uma mulher

De acordo com Zanello (2018), na cultura ocidental, o caminho pelo qual as mulheres se subjetivam é o dispositivo amoroso. Isso quer dizer que elas se subjetivam, inclusive na relação consigo mesmas, pelo olhar de um homem que as escolha. Elas são ensinadas desde cedo a crer que o maior investimento que terão em suas vidas será o relacionamento amoroso. Consequentemente, em grande parte das relações, as mulheres ‘escolhidas’ encontram-se em papéis de subserviência aos homens, buscando, mesmo que isso implique no comprometimento de seu bem-estar, tornar a vida de seus companheiros a mais prazerosa e cômoda possível.

As condições para manter-se em relacionamentos heterossexuais costumam ser dispendiosas para as mulheres, mas vantajosas para os homens (Zanello, 2018). Consequentemente, em comparação às mulheres casadas, divorciadas e viúvas, são as solteiras que apresentam menor comprometimento da saúde mental, enquanto para os homens o casamento se apresenta como uma garantia de cuidado maior (Zanello, 2018). A partir daí, é possível notar o quanto os homens lucram afetivamente com o dispositivo amoroso de uma mulher.

Nesta categoria, que apareceu apenas nas narrativas dos entrevistados heterossexuais, ambos relataram términos de relacionamentos que se tornaram potencializadores do sofrimento psíquico. No caso de Ht1, o fim do relacionamento se deu pela mudança da namorada de país, que costumava lhe acolher e estar presente em seus momentos mais difíceis. “Eu era tão dependente dessa relação. E quando ela foi eu fiquei muito sem chão. Muito fragilizado mesmo”.

Em relação a Ht2, embora o primeiro término tenha lhe trazido sofrimento pelas constantes brigas que precederam o fim da relação, dois meses depois já se encontrava em um novo relacionamento. Nessa nova união, os desentendimentos com a ex-namorada ainda lhe rendiam sofrimento. Aliado ao contexto da situação laboral, foi neste momento que suas crises se intensificaram. Contudo, teve o suporte de sua nova namorada neste período crítico. “Ela sabia desde que a gente começou a ficar, que eu tinha depressão. Que eu estava pra baixo. Ela sabia que eu tava ficando cada vez mais [...] que eu estava pra baixo. Já tinha percebido. Acho que não foi bem uma surpresa pra ela” (Ht2).

Os entrevistados relataram que no período em que estavam em crise suicida, com intensa ideação de morte e tentativas de autoextermínio, suas companheiras foram importantes amparos para superar essa fase.

Teve um dia que eu tava muito convicto que eu queria me matar. Me jogar da ponte JK. Pra mim ia ser limpo. Eu não falei, mas eu acho que ela me conhecia bastante. Eu tava a caminho da ponte quando ela me ligou perguntando aonde eu estava indo. Eu tentando me esquivar, mas ela se tocou e avisou para os meus pais. Ela me segurou no telefone a ponto do meu tio, que é policial, chamar o corpo de bombeiro. No fim das contas eu não ia conseguir me matar, porque o pessoal chegou a tempo (Ht1).

Considerações finais

A partir das categorias apresentadas à luz das teorias das masculinidades, foram apresentados os contextos de violência e também esmiuçados os conteúdos referentes ao intenso sofrimento psíquico, que direcionam homens de distintas orientações sexuais ao comportamento suicida. A pesquisa qualitativa traz a possibilidade de compartilhamento de informações que não costumam aparecer nas pesquisas que se focam na apresentação de dados epidemiológicos. Nesse sentido, viabiliza maior aprofundamento nas temáticas de gênero e de sexualidade, presentes nos discursos biográficos compartilhados.

Nesse trabalho, observa-se que os participantes gays e bissexuais romperam com a virilidade sexual normativa no plano da orientação do desejo e, em alguns casos, com a performance de uma masculinidade virilista. Por outro lado, quando certos participantes afirmaram ter performado comportamentos heterossexuais como forma de esconder a dissidência sexual, nota-se que ainda há um reforço da heteronormatividade a partir do preconceito internalizado. A despeito de já haver discussões e mudanças nos códigos de saúde que despatologizam a homossexualidade, nota-se que as mudanças sociais e subjetivas não necessariamente acompanham os avanços jurídicos e institucionais.

Ademais, como o rechaço advém tanto da orientação sexual como da não representação da virilidade, é possível que sujeitos autodeclarados gays e bissexuais possam ser mais poupados de violências homofóbicas/misóginas em comparação a outros que são vistos como afeminados, pois estes são os maiores alvos das agressões sociais.

Os participantes heterossexuais desse trabalho, por seu turno, estão livres desse tipo de constrição, porque correspondem aos ditames da Casa dos Homens. Ainda assim, existem especificidades neste grupo. Mesmo que sejam usuários do dispositivo amoroso das mulheres, o que é apontado como um fator de proteção da saúde mental, a virilidade laborativa recai sobre eles de maneira mais acentuada. Logo,há intenso sofrimento quando o sujeito não alcança reconhecimento profissional ou perde a esperança de alcançá-lo.

Em termos de limitações da presente pesquisa, é apontado o fato de os nove entrevistados serem provenientes de universidades federais. Além disso, não houve grande variação na faixa etária dos participantes, tampouco nos aspectos raciais, sendo que apenas um deles era autodeclarado negro. Portanto, é oportuno o investimento em pesquisas que se foquem na interseccionalidade das masculinidades com raça, faixa etária e classe social, para que outras narrativas e perspectivas sejam compartilhadas.

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1Apoio e financiamento: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

4De acordo com a OMS (2014), existe ampla diferença na razão das taxas de óbitos por suicídio por sexo de acordo com a região. A razão regional em países de baixa e mediana renda vão desde 0,9 na região do Pacífico Ocidental até 4,1 na região da Europa.

Recebido: 15 de Agosto de 2018; Aceito: 14 de Maio de 2019

3Email: felipebaere@gmail.com

2

Felipe de Baére: doutorando no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica e Cultura, Instituto de Psicologia, Universidade de Brasília.

2

Valeska Zanello: professora Associada I do Departamento de Psicologia Clínica, Instituto de Psicologia, Universidade de Brasília.

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