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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123

Ciênc. saúde coletiva vol.20 no.1 Rio de Janeiro Jan. 2015

https://doi.org/10.1590/1413-812320141912.00412014 

Resenhas

Corsaro WA. Sociologia da infância. Porto Alegre: Artmed; 2011

Martha Cristina Nunes Moreira 1  

Waldir da Silva Souza 2  

1Departamento de Pediatria, Instituto Fernando Figueira, Fiocruz

2Universidade Estácio de Sá

WA, Corsaro. Sociologia da infância. 2011. Artmed, Porto Alegre:


O projeto da sociologia da infância vincula-se à possibilidade de reconhecer as crianças como sujeitos falantes, atuantes e que vivem experiências com pontos de vista próprios sobre o mundo no qual vivem. Esse imperativo dialoga e nos faz evocar, como bem nos lembra Alanen1, o que historicamente ocorreu nos estudos feministas: o esforço de assumir um lugar de protagonista na cena social. Claro que guardadas as devidas diferenças com o movimento feminista, não temos um "movimento das crianças". Pela própria condição dupla de serem sujeitos de fato, reconhecidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, mas terem sua condição de sujeitos de direito resguardada juridicamente pela figura de um responsável legal.Mesmo assumindo essa dupla condição, o campo acadêmico dos estudos na área das ciências sociais e humanas em saúde há que enfrentar o desafio de fazer reconhecer e para tanto sintonizar métodos e técnicas para produzir conhecimento sobre a saúde da criança, colocando no centro o protagonismo infantil. Esse deve ser estimulado, acompanhado e promovido na interface com as provocações de autores que se situam como estudiosos da infância e da juventude2 - 8. E aqui a infância e juventude são construções socio-históricas e culturais, e a criança e o adolescente são atores sociais e sujeitos de pesquisa.

É nesse cenário que destacamos esta obra de Corsaro. O autor nos apresenta uma obra que pode se tornar referência no campo da Sociologia da Infância, justamente pela possibilidade de reunir um pensamento de conjunto, que nas quatro sessões do livro destacam: o estudo sociológico da infância, com os aportes teóricos que sustentam estudos das crianças e da infância; as crianças, a infância e as famílias, no contexto histórico e cultural, ganham espaço nas visões históricas da infância e das crianças, e com as possibilidades de mudança social; as culturas infantis onde os recortes dão relevo às experiências culturais dos pares infantis e de pré-adolescentes; crianças, problemas sociais e o futuro da infância, onde a díade problemas/futuro dialoga com os projetos de família e sociedade.

Um círculo virtuoso pode ser gerado caso amplifiquemos o diálogo da Sociologia da Infância com a área da saúde da criança em contextos hospitalares. Saibamos reconhecer que a educação soube apropriar-se e dialogar com esse campo de estudos sociológicos, até porque a escola sempre foi reconhecida como o lugar por excelência da criança. Ao contrario, os ambientes hospitalares voltados para crianças se ressentem de serem organizados a partir da lógica do adulto, tecnicamente situado, imbuído do mandato social para falar sobre a doença e não sobre a saúde. Muito embora em estudos com crianças em escolas possamos identificar também a lógica adultocêntrica - revelada no privilégio da perspectiva dos professores, pais e outros atores adultos que respondem por elas - essa lógica tem maiores chances de ser relativizada como bem vemos retratada no conjunto de pesquisas e reflexões do Cadernos de Pesquisa da Fundação Carlos Chagas na virada dos anos 2000. Essa revista representa um marco histórico no qual se assume a possibilidade das crianças: 1) não serem um apoio para estudos cujos atores principais são adultos; 2) enfrentar a possível invisibilidade gerada por pesquisas ou ações cujo centro não são elas e suas mais reais demandas; 3) evitar a pseudoinclusão, quando se tornam variáveis dependentes e apenas suportes para modelos ideais de comportamento ou saúde. Há uma postura filosófica e política nessa discussão que a obra de William Corsaro reúne: enfrentar a ideia das crianças como apêndices de alguma categoria de adultos (pais, professores, profissionais de saúde), na focalização daqueles que as têm, cuidam ou trabalham com elas, ou participam de algum modo a vida diária delas. Como exemplo, citamos a preocupação com a socialização das crianças, muito mais como uma normatização das mesmas e uma pasteurização das diferenças.

Ainda com relação às contribuições de Corsaro para pesquisas no campo das ciências sociais e humanas em saúde, assumimos aqui outro foco: relacioná-las com um dos princípios políticos gerais da humanização da atenção e gestão em saúde, o protagonismo. No caso esse principio colocado de forma genérica merece ser iluminado pela experiência daqueles que trabalham e pesquisam com crianças, gerando uma crítica interna aos limites colocados à experiência de adoecer infanto-juvenil pela hegemonia adultocêntrica. E aqui afirmamos a necessidade de desconstruir seus pilares: 1) as crianças pelo ponto de vista dos adultos e de seus interesses específicos; 2) a perspectiva de "olhar para adiante" ou antecipatória: sob o interesse dos adultos naquilo que as crianças viriam a ser e não no que elas são no presente; 3) os preconceitos gerados ao não olhar as crianças como seres sociais, mas em processo de se tornarem sociais, pela perspectiva da socialização.

Em síntese, o projeto da sociologia da infância e da juventude, tal como desenvolvido por Corsaro e por outros teóricos do campo, se revela fértil para propostas de pesquisas no campo dos estudos socioantropológicos sobre o adoecimento crônico de crianças e jovens pela via de vertentes metodológicas como: a etnografia pelo valor atribuído aos ambientes naturais e a rede de significados que estruturam as culturas, inclusive numa reflexão sobre as ordens negociadas que são geradas em ambientes hospitalares; o interacionismo simbólico pelo valor atribuído aos relacionamentos sociais, às expectativas e expressões sociais geradas nos encontros no âmbito de pequenos grupos; e, a análise fenomenológica pela possibilidade de assumir a suspensão das perspectivas dos próprios pesquisadores, indo ao encontro das crianças como sujeitos, suas lógicas e expressões. Nessa direção, assumimos o valor da obra de William Corsaro para a saúde coletiva. Pela possibilidade de motivar estudos com crianças e menos sobre elas, com destaque para suas vidas cotidianas, seus relacionamentos e suas vivências no ambiente de cuidado à saúde. E aqui destacamos contextos de vida de crianças no qual a doença é de longa duração e faz com que estranhamente o hospital seja a instituição onde mais se desenvolvem suas aquisições, se estabelecem suas redes de relacionamento e conhecimento, ao invés do esperado e desejado ambiente das escolas.

Referências

1. Alanen L. Estudos feministas/estudos da infância: paralelos, ligações e perspectivas. In: Castro LR, organizador. Crianças e jovens na construção da cultura. Rio de Janeiro: Faperj, Nau; 2001. [ Links ]

2. Mayall B. Towards a Sociology of Child Health. Sociology of Health & Illness 1998; 20(3):269-288. [ Links ]

3. Mollo-Bouvier S. Transformação dos modos de socialização das crianças: uma abordagem sociológica. Educ. Soc. 2005; 26(91):351-360. [ Links ]

4. Delgado ACC, Müller F. Sociologia da infância: pesquisa com crianças. Educ. Soc. 2005; 26(91):351-360. [ Links ]

5. Sirota R. Emergência de uma sociologia da infância: evolução do objeto e do olhar. Cadernos de Pesquisa Fundação Carlos Chagas 2001; 112:7-31. [ Links ]

6. Montandon C. Sociologia da infância: balanço dos trabalhos em língua inglesa. Cadernos de Pesquisa Fundação Carlos Chagas 2001; 112:33-60. [ Links ]

7. Plaisance E. Para uma sociologia da pequena infância. Educ. Soc. 2004; 25(86):221-241. [ Links ]

8. Moreira MCN, Macedo AD. O protagonismo da criança no cenário hospitalar: um ensaio sobre estratégias de sociabilidade. Cien Saude Colet 2009; 14(2):645-652. [ Links ]

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