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Ciência & Saúde Coletiva

Print version ISSN 1413-8123On-line version ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.25 no.7 Rio de Janeiro July 2020  Epub July 08, 2020

https://doi.org/10.1590/1413-81232020257.18902018 

ARTIGO

Disponibilidade domiciliar de alimentos a partir da nova classificação de alimentos e (in)segurança alimentar

Household availability of food based on the new classification of food and nutritional (in)security

Lanay Dias Barbosa1 
http://orcid.org/0000-0002-9632-0193

Lohane Karolina Melo Sousa1 
http://orcid.org/0000-0002-7615-3260

Eloise Schott1 
http://orcid.org/0000-0002-3852-1894

Fabiane Aparecida Canaan Rezende1 
http://orcid.org/0000-0002-5617-8778

Andreia Queiroz Ribeiro2 
http://orcid.org/0000-0001-6546-1252

Silvia Eloíza Priore2 
http://orcid.org/0000-0003-0656-1485

Sylvia do Carmo Castro Franceschini2 
http://orcid.org/0000-0001-7934-4858

1Departamento de Nutrição, Universidade Federal do Tocantins. Quadra 109 Norte, Avenida NS 15, Plano Diretor Norte. 77001-090 Palmas TO Brasil. lanaydb@gmail.com

2Departamento de Nutrição e Saúde, Universidade Federal de Viçosa. Viçosa MG Brasil.


Resumo

O objetivo deste estudo foi caracterizar a disponibilidade domiciliar de alimentos a partir da classificação dos alimentos adotada no novo guia alimentar brasileiro e analisar sua relação com a (in)segurança alimentar. Trata-se de um estudo de base populacional, transversal, realizado em 95 domicílios do Estado do Tocantins. Avaliou-se a (in)segurança alimentar, por meio da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar. A disponibilidade domiciliar de alimentos nos últimos 30 dias foi registrada e, posteriormente, classificou-se os alimentos em in natura e/ou minimamente processados, processados e ultraprocessados, conforme o novo guia alimentar brasileiro. A prevalência de insegurança alimentar foi de 55,79%. Verificou-se que os alimentos dos grupos in natura e ultraprocessados foram os que mais contribuíram para a disponibilidade domiciliar de alimentos. Verificou-se relação positiva e significante do grau de segurança alimentar com a disponibilidade dos alimentos: leite, gordura animal, enlatados e pão de queijo. A prevalência de insegurança alimentar foi elevada nessa população. Nos domicílios com maior grau de segurança alimentar, a disponibilidade de leite, gordura animal, enlatados e pão de queijo foi significantemente maior.

Palavras-chave Alimentos industrializados; Epidemiologia Nutricional; Guias Alimentares; Segurança alimentar e nutricional

Abstract

The scope of this research was to characterize the household availability of food based on the classification adopted in the new Brazilian food guide and to analyze its relationship with food (in)security. It involved a population-based, cross-sectional study conducted in 95 households in the State of Tocantins. Food (in)security was evaluated by means of the Brazilian Food Insecurity Scale. The household availability of food in the last 30 days was recorded and, subsequently, food was classified as in natura and/or minimally processed, processed and ultra-processed according to the new Brazilian food guide. The prevalence of food insecurity was 55.79%. It was found that the foods of the in natura and ultra-processed groups contributed the most to the household availability of food. There was a positive and significant relationship between the food security and food availability rates: milk, animal fat, canned food and cheese bread. The prevalence of food insecurity was high in this population group. In households with a higher level of food security, the availability of milk, animal fat, canned goods and cheese bread was significantly higher.

Key words Industrialized food; Nutritional Epidemiology; Food Classifications; Food and nutritional security

Introdução

A Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional (Lei nº 11.346/20061) define Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) como: “o direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, tendo como base práticas alimentares promotoras de saúde, que respeitem a diversidade cultural e que sejam social, econômica e ambientalmente sustentáveis”.

Dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2013 indicaram que 77,4% dos domicílios particulares brasileiros encontravam-se em situação de segurança alimentar, sendo este número superior a anos anteriores (65,1%, em 2004 e 69,8, em 2009). Porém, a insegurança alimentar atingiu 22,6% da população, representando 14,7 milhões de domicílios particulares, sendo que as regiões Norte e Nordeste apresentaram situações mais preocupantes, com prevalências de 36,1% e 38,1%, respectivamente2.

A SAN engloba diferentes aspectos que podem ser agrupados em dois componentes: o componente alimentar, que é relacionado à produção, disponibilidade, comercialização e acesso a alimentos saudáveis e o componente nutricional que se refere às práticas alimentares, consumo e a utilização biológica dos alimentos em todas as fases do ciclo de vida3. Portanto, pode-se dizer que a SAN engloba o acesso a alimentos de qualidade, práticas alimentares saudáveis e direitos humanos4. Vale ressaltar ainda que um bom estado nutricional não depende apenas da segurança alimentar, mas também do acesso a outras condições como moradia, saneamento básico, acesso a serviços de saúde e educação5.

Não só fatores individuais, como por exemplo necessidades fisiológicas ou nutricionais, mas também contextuais, relacionados ao ambiente, determinam a situação de SAN. Condições ambientais como acesso, disponibilidade e preço dos alimentos interferem nas escolhas alimentares do homem e estão diretamente relacionadas ao maior poder de escolha sobre os alimentos ultraprocessados e, consequentemente, redução do consumo de alimentos in natura e minimamente processados6.

No Brasil, a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF)7 2008-2009 realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, destaca a elevação do consumo de carnes e alimentos industrializados (refrigerantes, biscoitos e refeições prontas) e a redução do consumo de leguminosas, raízes e tubérculos, frutas e hortaliças. Esses alimentos ultraprocessados quando comparados com alimentos in natura apresentam maior densidade energética, maior teor de gorduras em geral, de gordura saturadas, de gorduras trans, de sódio e de açúcar livre e menor teor de fibras e proteína8. Tal substituição está entre as principais causas de obesidade e Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT)9.

Recentemente, o debate acerca da relação entre grau de processamento dos alimentos e doenças crônicas ganhou expressividade, especialmente após o lançamento no Guia Alimentar para a População Brasileira. Segundo Monteiro et al.10, o processamento de alimentos é o uso de métodos e técnicas para modificar o alimento fresco em produto alimentício. Existem quatro tipos de categorias de alimentos conforme o processamento utilizado, os in natura que são oriundos diretamente de plantas ou animais sem sofrerem modificações; os minimamente processados que passam por alterações mínimas como cortar, moer, lavar e polir; os processados que envolvem a adição de sal, açúcar, óleos e gorduras e os ultraprocessados passam por várias fases de processamento e possuem ingredientes industriais11.

O aumento do consumo e disponibilidade de alimentos processados e ultraprocessados ocorreu, principalmente, após a adoção de novos modos de vida pela sociedade, marcada por uma forma de se alimentar, que prioriza a rapidez, economia e a praticidade12. Em razão disso, surgem situações que colocam em risco a segurança alimentar da população devido ao consumo em excesso de alimentos industrializados e baixo consumo de alimentos in natura, contribuindo para a obesidade e deficiência de micronutrientes12.

A disponibilidade domiciliar de alimentos auxilia no monitoramento da SAN, pois é um dos indicadores que permite analisar a qualidade da alimentação consumida pelas famílias. Frente ao exposto, o objetivo deste estudo foi caracterizar a disponibilidade domiciliar de alimentos de famílias residentes na zona urbana de quatros municípios do estado do Tocantins a partir da classificação dos alimentos adotada no novo guia alimentar brasileiro e analisar sua relação com a (in)segurança alimentar.

Materiais e métodos

Os dados deste estudo foram obtidos de uma pesquisa de base populacional, do tipo transversal, intitulada “Prevalência e fatores associados a (In)segurança alimentar e nutricional no estado do Tocantins”, realizada no período de setembro de 2016 a julho de 2017.

Para a referida pesquisa, empregou-se um plano de amostragem complexa por conglomerados, dividido em três estágios. Primeiramente foram sorteados aleatoriamente os municípios, em seguida os setores censitários urbanos de cada município, depois um quarteirão e neste uma esquina que foi utilizada como ponto de partida para a coleta dos dados. A coleta de dados iniciou-se sempre em sentido horário a partir do primeiro domicílio situado na esquina sorteada, e a partir dele, os domicílios subsequentes foram visitados de maneira alternada, sendo um domicílio avaliado, o outro não, e assim sucessivamente.

O cálculo do tamanho da amostra foi realizado por meio do programa OpenEpi®, utilizando a equação: n = [EDFF*Np(1-p)]/ [(d2/Z21-α/2*(N-1)+p*(1-p)], em que: N = Tamanho da população (para o fator de correção da população finita ou fcp); p = Frequência % hipotética do fator do resultado na população; EDFF = Efeito de desenho para inquéritos em grupo e d = Limites de confiança como % de 100 (absoluto +/-%).

Considerou-se para o cálculo: intervalo de confiança (d) de 95%, erro amostral de 5% (p) e efeito de desenho igual a 1,5. Foram adicionados 10% para controle de fatores de confusão. Com isso, foram selecionados 595 domicílios, de 22 municípios, pertencentes às 08 microrregiões do estado, sendo que o número de municípios foi previamente definido a partir do recurso financeiro disponível para a pesquisa, e a quantidade de domicílios avaliados em cada município e microrregião foi proporcionalmente ao tamanho populacional.

O presente estudo refere-se aos dados preliminares de quatro municípios pertencentes à microrregião de Miracema do Tocantins, sendo eles: Itaporã do Tocantins, Miranorte, Abreulândia e Fortaleza do Tabocão, totalizando 95 domicílios avaliados.

Previamente à etapa de coleta de dados, realizou-se um estudo piloto para avaliar o planejamento proposto, o qual possibilitou testar o questionário da pesquisa, treinar os entrevistadores (docentes e acadêmicos do curso de nutrição da Universidade Federal do Tocantins), verificar a logística proposta à amostragem e estimar o tempo médio de coleta por domicílio.

A coleta de dados nos domicílios foi realizada por meio de entrevista estruturada com o chefe de família para levantamento de informações demográficas, socioeconômicas, hábitos de vida, disponibilidade domiciliar de alimentos, situação de Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) e estado nutricional avaliado por meio de antropometria. Para este estudo utilizou-se as variáveis: idade, sexo, escolaridade, raça/cor, estado civil, total de pessoas residentes no domicílio, renda per capita, participação em programas assistenciais, situação de SAN e disponibilidade domiciliar de alimentos.

Para a avaliação da situação de Segurança Alimentar da família utilizou-se a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA), uma escala psicométrica, com 14 perguntas fechadas, referente aos últimos 3 meses, que avalia a percepção da segurança alimentar intrafamiliar em relação ao acesso aos alimentos, além de identificar os grupos vulneráveis à violação do direito humano à alimentação adequada13. A situação de Segurança Alimentar da família foi classificada em quatro níveis conforme pontuação a seguir14: a) para domicílios com menores de 18 anos: segurança alimentar: 0 pontos; insegurança alimentar leve: 1 a 5 pontos; insegurança alimentar moderada: 6 a 9 pontos; insegurança alimentar grave: 10 a 14 pontos; b) para domicílios sem menores de 18 anos: segurança alimentar: 0 pontos; insegurança alimentar leve: 1 a 3 pontos; insegurança alimentar moderada: 4 a 5 pontos; insegurança alimentar grave: 6 a 8 pontos.

A disponibilidade dos alimentos foi avaliada a partir de um questionário de disponibilidade de alimentos aplicado pelo pesquisador ao chefe de família, que informou de forma retrospectiva os alimentos e bebidas adquiridos por meio de compra, doação e/ou produção própria nos últimos 30 dias. Os alimentos foram agrupados de acordo com a classificação de alimentos proposta por Monteiro et al.10 segundo o tipo de processamento: in natura e/ou minimamente processados, ingredientes culinários e/ou alimentos processados e alimentos ultraprocessados. Posteriormente, os alimentos pertencentes a cada um dos referidos grupos foram agrupados por similaridade conforme composição nutricional predominante (Quadro 1).

Quadro 1 Classificação dos alimentos disponíveis nos domicílios da microrregião de Miracema do Tocantins. Tocantins, Brasil, 2016/2017. 

Alimentos in natura e/ou minimamente processados
Frutas: (24): banana, maçã, mamão, manga, abacaxi, açaí, pêra, ameixa, laranja, caju, uva, cacau, abacate, pequi, morango, cupuaçu, melancia, buriti, tamarindo, melão, bacaba, limão, acerola e mexerica;
Hortaliças (23): alface, rúcula, repolho, couve, salsinha/coentro, cebolinha, abóbora, cenoura, cebola, chuchu, tomate, beterraba, acelga, alho, pimenta-do-reino, jiló, maxixe, pepino, quiabo, espinafre, couve-flor, brócolis e berinjela;
Farináceos (7): farinha de puba, de mandioca, de trigo, de milho, polvilho, massa para tapioca, amido de milho;
Carnes (3): bovina, suína e frango;
Leite (3): caixinha (integral e desnatado) e da fazenda;
Cereais (2): arroz, milho e aveia;
Leguminosas (2): feijão e soja;
Oleaginosas (1): castanhas;
Sementes (1): linhaça;
Granola;
Macarrão;
Ovos;
Peixes;
Café em pó;
Leite em pó;
Polpa de frutas;
Ingredientes culinários e alimentos processados
Óleo de origem vegetal (5): azeite de oliva e de coco babaçu, óleo de soja, de girassol e de canola;
Enlatados (4): atum, sardinha, milho verde, feijão em lata;
Gordura de origem animal (2) banha de porco e manteiga;
Sal;
Bebidas alcoólicas (2): Cerveja e vinho;
Geleia de frutas;
Adoçante.
Geléia de frutas.
Adoçante.
Alimentos ultraprocessados
Embutidos (5): salsicha, presunto, mortadela, hambúrguer e linguiça;
Biscoitos (3): Recheados, sem recheios e salgados;
Doces (3): em calda, em pasta e em barra;
Derivados de leite (3): leite condensado, creme de leite, queijo;
Bebidas açucaradas (3): Refrigerantes, suco tetra Pack, suco artificial em pó;
Cereais matinais (3): tipo mucilon, farinha láctea e sucrilhos;
Chocolates (2) em barras e bombons;
Snacks (2): pipoca doce e floco salgado de milho;
Achocolatado (2): em pó e pronto para beber;
Molhos (2): maionese e catchup;
Temperos prontos: caldos liofilizados sabor carne, frango ou legumes;
Pão de queijo;
Pães de forma e bolos:
Pratos congelados;
Molho de tomate;
Iogurte e bebidas lácteas;
Macarrão instantâneo;
Margarina;
Massa pronta para bolo;
Sorvete;
Fórmula Infantil.

Nota: o número entre parênteses corresponde ao número de alimentos em cada grupo.

Os dados foram tabulados no programa Microsoft Excel 2010® e o tratamento estatístico dos dados foi realizado no pacote estatístico Stata® versão 13.0. Realizou-se análise descritiva dos dados através de frequência absoluta e relativa para variáveis categóricas ou médias e desvio-padrão para variáveis contínuas. Para verificar a relação entre condição de (in)segurança alimentar e disponibilidade domiciliar de alimentos foi utilizado o teste de tendência linear. Para todas as análises adotou-se alfa igual a 5% como nível de significância estatística. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Viçosa e todos os participantes foram esclarecidos sobre o objetivo e procedimentos, sendo incluídos na mesma, após assinarem um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Resultados

A análise dos dados demográficos e socioeconômicos demonstrou que entre os chefes de família 78,95% eram do sexo feminino, que os mesmos apresentavam em média 49,36 ± 18,23 anos de idade (n = 95) e 9,34 ± 5,06 anos de estudo (n = 87), sendo que 48,42% se autodeclaram de raça/cor parda e 43,16% eram casados. Quanto ao número de moradores por domicílio identificou-se que a média foi de 3,24 ± 1,68 pessoas (n = 95). Em relação à renda, cerca de 67,37% (n = 64) dos domicílios apresentavam renda familiar per capita inferior a um salário mínimo, 11,58% (n = 11) inferior a um quarto do salário mínimo e 21,05% (n = 20) recebiam algum benefício de programas assistenciais do governo federal. A prevalência de insegurança alimentar nas famílias estudadas foi de 55,79% (n = 53) (Tabela 1).

Tabela 1 Características demográficas, socioeconômicas dos chefes de famílias e situação de segurança alimentar e nutricional dos domicílios de quatro municípios pertencentes à microrregião de Miracema do Tocantins. Tocantins, Brasil, setembro de 2016 e julho de 2017. 

Variáveis n (95) %
Sexo
Masculino 20 21,05
Feminino 75 78,95
Cor/Raça
Branco 24 25,26
Preto 16 16,84
Pardo 46 48,42
Amarelo 7 7,37
Indígena 2 2,11
Estado civil
Solteiro 18 18,95
Casado 41 43,16
Separado 10 10,53
Divorciado 17 17,89
Viúvo 9 9,47
Grau de escolaridade
Analfabeto 8 8,43
Ensino fundamental incompleto 32 33,68
Fundamental completo 5 5,26
Médio incompleto 4 4,21
Médio completo 23 24,21
Superior incompleto 7 7,37
Superior completo 16 16,84
Renda per capita
Não informado 5 5,26
Até ¼ de salário mínimo 11 11,58
De ¼ a ½ salário mínimo 22 23,16
> ½ a 1 salário mínimo 31 32,63
> 1 até 2 salários mínimos 19 20,00
> 2 salários mínimos 7 7,37
Beneficiado por programas assistenciais
Sim 20 21,05
Não 75 78,95
Situação de (In)Segurança Alimentar (EBIA)*
Segurança Alimentar 42 44,21
Insegurança Alimentar Leve 27 28,42
Insegurança Alimentar Moderada 18 18,95
Insegurança Alimentar Grave 8 8,42

*EBIA: Escala Brasileira de Insegurança Alimentar.

Quanto à frequência relativa de alimentos segundo o grau de segurança alimentar, verificou-se que no grupo in natura e/ou minimamente processados os alimentos mais disponíveis foram aqueles que pertenciam aos grupos dos cereais, hortaliças, carnes, leguminosas, frutas, farináceos, ovos, café em pó, raízes e tubérculos, leite e macarrão. Já no grupo dos ingredientes culinários e alimentos processados, os alimentos mais frequentes foram sal, açúcar e óleo de origem vegetal. E no grupo dos ultraprocessados, molho de tomate, biscoitos, margarina, bebidas açucaradas, pães e bolos e derivados do leite (Tabela 2).

Tabela 2 Frequência relativa de alimentos segundo o grau de segurança alimentar nos domicílios da microrregião de Miracema do Tocantins. Tocantins, Brasil, 2016/2017. 

Grupos de alimentos N % Segurança Alimentar Insegurança Alimentar
Leve Moderada Grave
Alimentos In natura ou minimamente processados
Cereais 95 100 44,21 28,42 18,95 8,42
Hortaliças 95 100 44,21 28,42 18,95 8,42
Carnes 95 100 44,21 28,42 18,95 8,42
Leguminosas 93 98 45,16 29,03 17,20 8,60
Frutas 92 97 43,48 29,35 18,48 8,70
Farináceos; 92 97 45,65 27,17 19,57 7,61
Ovos; 89 94 44,94 29,21 17,98 7,87
Café em pó 88 93 43,18 28,41 20,45 7,95
Macarrão 80 84 46,25 30,00 16,25 16,25
Leite* 83 87 46,99 28,92 19,28 4,82
Peixes 57 60 43,86 28,07 15,79 12,28
Polpa de Fruta 40 42 47,50 30,00 17,50 5,00
Leite em pó 36 38 36,11 33,33 19,44 11,11
Aveia 21 22 42,86 28,57 19,05 9,52
Oleaginosas 5 5 60,00 20,00 20,00 0,00
Granola 4 4 25,00 25,00 25,00 25,00
Sementes 1 1 100,00 0,00 0,00 0,00
Ingredientes culinários e alimentos processados
Sal 95 100 44,21 28,42 18,95 8,42
Açúcar 93 98 44,09 29,03 19,35 7,53
Óleo de origem vegetal 89 94 42,70 29,21 29,21 8,99
Enlatados* 48 51 54,17 27,08 16,67 2,08
Gordura de origem animal* 39 41 56,41 28,21 15,38 0,00
Adoçante 20 21 35,00 40,00 10,00 15,00
Bebidas alcoólicas 21 22 57,14 23,81 14,29 4,76
Geleia 9 9 66,67 11,11 22,22 0,00
Alimentos Ultraprocessados
Molho de tomate 82 86 42,68 29,27 21,95 6,10
Biscoitos 81 85 45,68 24,69 20,99 8,64
Margarina 80 84 42,50 30,00 21,25 6,25
Bebidas Açucaradas 75 79 42,67 30,67 20,00 6,67
Pães e bolos 73 77 47,95 28,77 17,81 5,48
Derivados de leite 72 76 48,61 26,39 16,67 8,33
Embutidos 68 62 44,12 27,94 19,12 8,82
Temperos prontos 58 61 44,83 27,59 18,97 8,62
Pão de queijo* 57 60 50,88 29,82 19,30 0,00
Achocolatado 53 56 45,28 26,42 22,64 5,66
Doces 43 45 48,84 30,23 16,28 4,65
Macarrão instantâneo 41 43 43,90 31,71 17,07 7,32
Molhos 37 39 48,65 29,73 18,92 2,70
Sorvete 35 37 57,14 14,29 22,86 5,71
Iogurte e bebidas lácteas 34 36 52,94 17,65 23,53 5,88
Massa pronta para bolo 30 32 56,67 20,00 16,67 6,67
Snacks 29 31 48,28 34,48 17,24 0,00
Cereais matinais 21 22 52,38 23,81 14,29 9,52
Chocolates 18 19 61,11 11,11 22,22 5,56
Fórmula Infantil 4 4 50,00 0,00 50,00 0,00
Pratos congelados 2 2 100,00 0,00 0,00 0,00

*p < 0,05: teste de tendência linear.

Verificou-se uma relação direta entre grau de insegurança alimentar e menor disponibilidade domiciliar dos seguintes alimentos: leite (teste de tendência linear: p = 0,032), gordura animal (teste de tendência linear: p = 0,012), enlatados (teste de tendência linear: p = 0,018), pão de queijo (teste de tendência linear: p = 0,016).

Discussão

No presente estudo verificaram-se altas taxas de insegurança alimentar na microrregião de Miracema do Tocantins (55,79%). Ao comparar com os dados publicados pela PNAD2, verifica-se que o percentual é consideravelmente maior que o do estado do Tocantins (37,6%), e mais que o dobro da média encontrada no Brasil (22,6%). Em geral, a Insegurança Alimentar é mais prevalente em domicílios sob vulnerabilidade sociodemográfica e com menor renda per capita15, características presentes na população deste estudo.

É relevante contextualizar que os dados desta pesquisa foram coletados no ano de 2016, período no qual análise do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) sobre mercado de trabalho e inflação dos alimentos apontou que houve queda no nível de atividade, com aumento da taxa de desemprego e elevação da inflação, sendo que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) apresentou alta de 6,4% e o produto interno bruto (PIB) caiu 3,6% no mesmo ano16. O IPCA-15, que mede a inflação da Alimentação no Domicílio, foi de 16,6%, no acumulado dos 12 meses (agosto 2016 a julho de 2017), com destaque negativo para os cereais, frutas, farinhas e massas, leites e derivados17.

Nesse contexto entende-se que as políticas públicas que assegurem trabalho, renda e educação assumem grande importância, pois refletem diretamente na Insegurança Alimentar, e consequentemente, no acesso aos alimentos e à alimentação de qualidade.

Este estudo demonstrou um elevado percentual de disponibilidade de alimentos in natura (cereais, hortaliças, carnes, leguminosas, frutas, farináceos, ovos, café em pó, raízes e tubérculos e leite) e, em contrapartida, alimentos processados e ultraprocessados os quais apresentam menor teor de nutrientes, maior densidade energética, gorduras saturadas e trans, açúcar livre e menores teores de fibras e proteínas18,19. Alguns estudos mostram a relação consumo de alimentos ultraprocessados com prejuízos à saúde, tais como, síndrome metabólica em adolescentes20, obesidade em crianças21 e em todas as idades22.

Além disso, segundo estudo de Louzada et al.8 o consumo de alimentos ultraprocessados impactou negativamente no perfil nutricional da dieta, pois contribuíram para aumento significativo da densidade energética, do teor relativo de açúcar livre, de gorduras em geral, de gorduras saturadas e de gorduras trans e redução do teor de proteínas, de fibras, de potássio e de sódio.

A relação positiva do grau de segurança alimentar com disponibilidade de alguns alimentos específicos (leite, gordura animal, enlatados e pão de queijo), observado neste estudo, evidencia que estar seguro pela EBIA não garantiu o acesso a alimentos de boa qualidade nutricional, visto que houve relação linear positiva entre a melhor condição de SAN e maior disponibilidade de alimentos processados e ultraprocessados, os quais conferem riscos à saúde, principalmente de doenças crônicas23. Cabe aqui destacar que o leite é um alimento com boa qualidade nutricional, no entanto, houve predomínio do leite do tipo integral e leite da fazenda, que contribui para maiores quantidades de gorduras saturadas na alimentação. Adicionalmente, é possível que a maior ocorrência de excesso de peso em pessoas vivendo em insegurança alimentar na população brasileira esteja relacionada ao maior consumo destes alimentos24.

Apesar dos domicílios em insegurança alimentar terem apresentado menor frequência de disponibilidade de alimentos ultraprocessados, cabe aqui ressaltar que se identificou também menor consumo de alimentos in natura e minimamente processados que também implica em menor qualidade nutricional da alimentação. Martins et al.25 avaliaram 200 famílias na zona rural do município de Maranguape, região metropolitana de Fortaleza-CE e verificaram uma tendência significante de consumo decrescente de tubérculos/raízes, o leite, os derivados do leite, as frutas/sucos naturais, as verduras/legumes, as carnes e a gordura, à medida que a Insegurança Alimentar se agravou.

A EBIA é um indicador sensível para identificar famílias em risco de insegurança alimentar, sendo um instrumento relevante para mensurar a escassez ou não do alimento, e isso está atrelado a condição socioeconômica das famílias, porém ela isoladamente não permite verificar a qualidade da dieta26. Cabe destacar que deve haver preocupação não somente com a Segurança Alimentar e Nutricional em si, mas também com a necessidade de avaliar a qualidade da dieta, uma vez que neste estudo as pessoas em segurança alimentar identificada pela EBIA tinham maior consumo de alimentos dados como não saudáveis.

Diante disso, é importante reforçar a necessidade de incluir marcadores de consumo que permitam avaliar a qualidade da alimentação, sendo necessários estudos que validem esses marcadores, de acordo com a cultura alimentar local, e os riscos à saúde que se pretende estimar por meio deles.

Além da necessidade de políticas públicas que promovam melhorais na condição socioeconômica das famílias, acredita-se que estratégias que valorizem o consumo de alimentos regionais, que incentivem o plantio e fortaleçam a produção local de alimentos e que promovam a formação/mudança de hábitos alimentares saudáveis das famílias, podem contribuir para diminuir o consumo de alimentos ultraprocessados e aumentar os de alimentos in natura. Ressalta-se por fim, que este se trata de um estudo preliminar, portanto, não é possível apontar conclusões definitivas até a sua finalização.

Agradecimentos

Os autores do artigo agradecem ao Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário pelo financiamento do projeto e ao Conselho Estadual de Segurança Alimentar do Tocantins pelo apoio à pesquisa.

Referências

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Recebido: 04 de Julho de 2018; Aceito: 15 de Novembro de 2018; Publicado: 17 de Novembro de 2018

Colaboradores

LD Barbosa e LKM Sousa participaram da coleta, análise, interpretação dos dados e redação do manuscrito. E Schott participou da concepção e delineamento do estudo, coleta de dados, revisão crítica do conteúdo e aprovação final do manuscrito. FAC Rezende participou da concepção e delineamento do estudo, análise, interpretação dos dados, redação do manuscrito, revisão crítica do conteúdo e aprovação final do manuscrito. AQ Ribeiro, SE Priore e SCC Franceschini participaram da concepção e delineamento do estudo.

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