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Ciência & Saúde Coletiva

versão impressa ISSN 1413-8123versão On-line ISSN 1678-4561

Ciênc. saúde coletiva vol.25 no.10 Rio de Janeiro out. 2020  Epub 28-Set-2020

https://doi.org/10.1590/1413-812320202510.36212018 

ARTIGO

Desvelando a cultura, o estigma e a droga enquanto estilo de vida na vivência de pessoas em situação de rua

1Escola de Enfermagem, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). R. São Manoel 963, Rio Branco. 90620-110 Porto Alegre RS Brasil. alinee_basso@hotmail.com

2Departamento de Assistência e Orientação Profissional, UFRGS. Porto Alegre RS Brasil.

3Departamento de humanas, Universidade Federal do Pampa. Jaguarão RS Brasil.


Resumo

O objetivo do estudo foi analisar como as pessoas em situação de rua vivenciam o uso de drogas e seus entrelaçamentos com suas culturas e estilos de vida. Realizou-se um estudo etnográfico, que identificou as estruturas macrossociais através do acompanhamento do Movimento Nacional da População de rua, e as microssociais, por meio das trajetórias individuais dos interlocutores. Os dados foram coletados mediante observação participante, registrada em diário de campo e entrevistas semiestruturadas. A análise foi realizada pela síntese da geração dos dados durante todo o processo de trabalho. Os resultados apontam uma cultura da rua, em que a droga surge como um estilo de vida coletivo, construindo relações e identidades de resistência aos estigmas. As histórias de vida revelaram o sofrimento social, a exclusão e a não adaptação ao sistema convencional e formal. Assim, as pessoas em situação de rua possuem uma organização social que ajuda a suportar as dificuldades de aceitação da sociedade e a inadequação dos serviços que as atendem. A droga faz parte dessa cultura, enquanto mais um modo de vida, que precisa ser compreendido e trabalhado de forma aberta e consciente pelos profissionais de saúde.

Palavras-chave Pessoas em situação de rua; Usuários de drogas; Saúde mental; Antropologia

Abstract

This research aimed to analyse how homeless people experience drug use and the intertwining between it and their cultural environment and life style. An etnographic study has been conducted which identified the macrosocial structures through the National Movement of the Homeless (Movimento Nacional da População de Rua) monitoring and the microsocial ones by means of its interlocutors’ individual trajectories. Data were collected upon participant observation, registered in a research field journal and in semi-structured interviews. The analysis was carried out by data generation synthesis over the whole working process. Results reveal a street culture in which drug builds a collective life style that sets relationships and identities which withstand stigmas. Life stories unveil social suffering and exclusion besides non-adaptation to society conventional and formal aspects. Therefore, homeless people have their own social organisation that helps them to endure the difficulties in being accepted by society as well as the inadequacy of the social services that should assist them. Drug is part of this culture as a way of living and it needs to be understood and worked with by health professionals through a conscious and open approach.

Keywords Homeless people; Drug users; Mental health; Anthropology

Introdução

Na busca por apreender a complexidade do fenômeno das drogas e suas relações com o cuidado, seu uso e as recentes Políticas Públicas referentes ao tema têm trazido para a cena de discussão a população de rua, chamando a atenção também para os territórios de uso de drogas dessa população, como as cracolândias. Esses locais da cidade são a face dos invisíveis, que desmascaram o ainda distanciamento das políticas públicas sociais e de inclusão voltados a essa população, que acaba ficando à mercê de ações pontuais de limpeza do espaço urbano.

As pessoas em situação de rua são um grupo heterogêneo que tem em comum a pobreza extrema, vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia convencional regular. No Brasil, em uma pesquisa realizada com pessoas em situação de rua em 71 cidades, identificou-se a existência de 631.922 adultos em situação de rua e, destes, 82% eram homens e 53% possuíam idade entre 25 e 44 anos1,2.

Por outro lado, essas mesmas pessoas possuem suas particularidades, modos de vida e formas de poder (relações) que as fazem resistir em contextos de repressão, estigmas e políticas públicas frágeis. Logo, a rua também é um espaço de morada e de trabalho informal para essas pessoas: guardadores de carro, descarregadores de carga, catadores de papel ou latinhas, entre outros. Além disso, é um território de afeto e proteção para a superação das dificuldades de viver com poucos recursos e dos estigmas que sofrem. A rua, na visão do povo da rua, não é um local tão ameaçador, pois nela desenvolvem suas relações, identidades e organizações sociais3.

Este artigo participa da discussão sobre a importância de entender a droga enquanto uma experiência que não é simplesmente individual, mas que faz parte das relações do indivíduo com os grupos e seus contextos de vida. Em estudo, constatou-se a utilização da droga fazendo parte das redes de relações e afetos – família e amigos – que marcaram a motivação para o início desse uso. Trata-se de uma prática comum que ocorre principalmente em eventos sociais – as festas – em conjunto com as redes de afeto4.

O cuidado faz parte dessas redes de relações na rua, podendo ser o uso da droga um elemento de comunicação, cultura e estilo de vida. Entende-se que a utilização do conceito de estilo de vida é relevante, à medida que considera a vulnerabilidade social, caracterizada por um processo dinâmico, que envolve múltiplas dimensões e a existência de um contexto social. O indivíduo não é somente a resposta de seu comportamento, mas, sim, do ambiente cultural e sociopolítico, sendo suas relações consideradas nesse processo5.

Logo, o uso de drogas não deve ser considerado apenas por seu efeito no organismo, pelo prazer e dependência. É necessário olhar para outros aspectos que percebam esse indivíduo como um sujeito envolto em seu contexto social e sua história de vida, que abranja uma perspectiva dinâmica e multifatorial, aspectos culturais e redes de relações.

Ao entrar no universo das pessoas em situação de rua e do uso de drogas se faz necessário estudos e aprofundamentos sobre o mesmo, demonstrando a necessidade de uma compreensão sobre seus modos de vida e de um novo modelo de cuidado. Dessa forma, o objetivo deste artigo é analisar como as pessoas em situação de rua vivenciam o uso de drogas e seus entrelaçamentos com suas culturas e estilos de vida. Justifica-se a discussão desse tema, para que possamos avançar na área da saúde em modelos de cuidado de acordo com a realidade, a vivência e as culturas de pessoas em situação de rua que utilizam drogas.

Metodologia

Trata-se de um estudo etnográfico, método utilizado pela Antropologia no estudo dos grupos tendo como base o contexto em que as pessoas vivem, na qual o pesquisador se insere em seu campo de estudo, interagindo com as pessoas, tanto na condição de observador quanto de participante do estudo6.

A etnografia, nesta pesquisa, mostra-se como método adequado e potente para o estudo das pessoas em situação de rua, visto que este grupo é bastante particular, com modos de vida diferenciados, itinerantes, de culturas distintas, e que somado às características da etnografia, afetos e desafetos, as facilidades, dificuldades na interação, conjuntamente com as emoções e as preocupações do pesquisador em trabalhar essa realidade com sensibilidade, possibilitaram maior aproximação e aprofundamento da questão em estudo.

A pesquisa foi realizada durante os anos de 2015 e 2016, em Porto Alegre. Um estudo censitário prévio da população em situação de rua da capital obteve 1.758 participantes, destes, 85% eram do sexo masculino, 29% entre 35 a 44 anos, 51% morando há mais de 20 anos na capital. De acordo com a coordenação de saúde mental da capital, em apresentação numa audiência pública, estima-se que a população em situação de rua em 2017 foi de quatro mil pessoas7.

É importante também pontuar o contexto durante a pesquisa, em que a prefeitura, nos meses finais de 2016 e iniciais de 2017, realizou ações de retirada das pessoas em situação de rua do centro da cidade, um dos territórios com maior concentração de indivíduos e aldeias de moradia, sem discussão prévia nas instituições de controle social e planejamento. Esse fato corroborou a emergência desta pesquisa, somado à necessidade de se discutir as violações dos direitos das pessoas em situação de rua, as ações de limpeza, higienistas, a exclusão social, entre outras.

O trabalho de campo baseou-se nas características da etnografia de estabelecer relações, selecionar informantes, transcrever textos, mapear um campo, manter um diário, e o esforço intelectual empreendido para praticar uma “descrição densa”8. No contato com os interlocutores foram utilizadas: a observação participante, um instrumento que retrata as interações com o grupo, os vínculos e os contatos realizados; e o registro em diário de campo, técnica que consiste em anotar detalhadamente cada visita de campo6. Esses instrumentos contemplaram a contextualização das estruturas macrossociais e microssociais. Além disso, as estruturas macrossociais foram identificadas através do acompanhamento do coletivo Movimento Nacional da População de Rua (MNPR), e as microssociais, por meio das histórias e trajetórias individuais dos interlocutores produzidas mediante as entrevistas semiestruturadas, que visaram aprofundar elementos do objeto: território de vida, uso de drogas, relações, culturas, modos de vida6. Neste artigo, os fragmentos utilizados referem-se aos registros dos diários de campo da pesquisa de dois participantes/interlocutores.

Ao longo da pesquisa houve diferentes “interlocutores”, oriundos dos espaços do MNPR, eventos, conferências e reuniões. Os interlocutores que colaboraram na análise macrossocial foram identificados pela letra R, quando representantes/militantes do coletivo.

Entre os participantes foram considerados interlocutores-privilegiados aqueles com quem foi realizado o acompanhamento etnográfico. Essa relação teve modos diferentes para cada pessoa, relacionado com suas histórias de vida. Para o encontro e o convite aos participantes foram considerados critérios de inclusão: (1) Estar ou ter morado/vivência na rua por pelo menos um ano; (2) Estar ou ter utilizado drogas (álcool e outras drogas) por pelo menos um ano; (3) Ser maior de idade (18 anos).

Neste artigo, trazemos duas situações de pesquisa para a discussão do tema proposto, uma relacionada às estruturas macrossociais (situação 1) e outra às microssociais (situação 2), através do acompanhamento de João (interlocutor-privilegiado), gênero masculino, 42 anos, residindo em um abrigo para moradores de rua que possuem problemas de saúde, sendo sua experiência de rua de 20 anos. Relata utilizar drogas como crack, maconha e álcool, e deseja sair das ruas e das drogas, utilizando para tal a rede de atenção em saúde e assistência [abrigo, Centro de Atenção Psicossocial álcool e outras drogas (CAPS AD)].

A análise das informações coletadas foi realizada pela síntese da geração dos dados durante todo o processo de trabalho. Conforme Victora et al.6, a sistematização inicial não é o relatório final da pesquisa. Trata-se da organização inicial dos dados brutos da pesquisa, indicando caminhos e temas principais para serem discutidos na análise e interpretação dos resultados. Essa sistematização inicial e organização dos dados direcionou o trabalho de campo, indicando os caminhos construídos com os interlocutores, apontando temas, incorporando novas perguntas, observações e novos participantes.

A pesquisa respeitou os preceitos éticos-legais em estudos com seres humanos, e especificidades em suas concepções e práticas de pesquisa em ciências humanas e sociais. Obteve parecer favorável do comitê de ética na Universidade Federal do Rio Grande do sul (UFRGS).

Resultados

Situação 1- vivência macroestrutural: a compreensão da droga enquanto estilo de vida

Junho de 2016, em um evento organizado em parceria entre MNPR e a prefeitura da cidade com um professor de uma Universidade pública brasileira, este fala sobre as drogas e os direitos humanos. O professor expõe sua experiência prática no tema dos direitos humanos, da vulnerabilidade social e do uso de drogas, para ele as questões de vida são essenciais na compreensão do uso de drogas na sociedade. Fala que para as pessoas em situação de rua há a questão do abandono, da falta de perspectiva e do não reconhecimento da sociedade. O que seria esse não reconhecimento? Não são vistos como humanos, como pessoas, então a droga, em muitos momentos, é um artifício de vida, a única perspectiva de sobrevivência em uma sociedade de abandono.

Na plateia, um diálogo chama a atenção, um ex-usuário de drogas relata que não está preocupado com pessoas que fazem uso funcional da droga, e sim com as que fazem uso disfuncional, por exemplo as pessoas da Cracolândia. O professor expõe sua experiência na cracolândia, e diz perceber que o uso abusivo e a dependência estão intimamente ligados à necessidade daquelas pessoas em sobreviver às suas vulnerabilidades, à falta de oportunidades, ao descaso no cuidado formal e à falta de políticas públicas. Refere, então, que a droga passa a ser um artifício de vida, a única possibilidade de inclusão social naquele contexto.

O conceito de disfuncional é descontruído pelo professor ao dizer que em toda a sociedade haverá pessoas que não se adaptam ao modelo, não por estarem erradas, mas por não se sentirem pertencentes a ele. Fala que o cuidado a essas pessoas deve ser pensado de forma diferente, pois a retirada da droga seria a real morte, e que o grande desafio era incluí-las com suas diferenças no sistema.

Esse debate instiga a refletir sobre as diferentes maneiras do uso de drogas na sociedade, é possível relacionar a cracolândia às pessoas em situação de rua, pois percebe-se algumas situações em comum: a falta de oportunidades, o descaso das políticas públicas e a sobrevivência a suas vulnerabilidades. Na saída da palestra, andando pelas ruas com um militante, ele relata algumas dessas situações:

R5 é um militante do movimento, não usa e nem nunca usou drogas, viveu muitos anos na rua e agora está em um abrigo por motivos de saúde. É um homem de estatura média, branco, com olhos e cabelos claros. À primeira vista, quando o conheci, acreditei que era um apoiador do movimento, não por sua aparência, mas muito mais por sua forma de se relacionar. Aparentava ser muito sério, com a linguagem bastante rebuscada, mas essa postura séria foi dando lugar a um homem delicado que gostava de conversar sobre questões da rua.

[...] Tu trabalhas com drogas, acho que tu tens que ouvir também pessoas que não as usam nas ruas. Isso porque tu vai entender melhor esse tema. Talvez tu vai entender até o que professor disse de uma forma mais prática. Tipo a gente na rua sofre tudo que é violência, desrespeito, falta as coisas, mas a gente se acostuma. Mas a grande maioria usa a droga para suportar isso, e os que não usam são considerados os inadequados... (R5)

[...] Pois é, posso te dizer que nunca usei drogas, nunca mesmo. E as pessoas nunca entenderam como eu suportava viver na rua sem a droga, cansei de ouvir do tipo tu não vai aguentar cara. Um dia tu vai cair, não tem como suportar essa falta de tudo sem usar a droga... (R5)

[...] Já ouvi também de companheiros da rua: Se tu não usar droga esse lugar não é pra ti, aqui só estão quem usa droga... (R5)

[...] Posso te dizer, isso quero te relatar, que tem preconceito com as pessoas que não usam drogas na rua. Se ela não usa, tu acabas ficando de fora, como se eu fosse o errado. Aquilo que ele falou lá do disfuncional. Aí se tu não usas a droga tu és disfuncional naquele sistema... (R5)

Ouvi atentamente R5 e sua afirmação “Você tem que ouvir também quem não usa drogas, só assim tu vai entender como é as ruas”, retumbava em meus pensamentos. Assim, consegui levantar o argumento: para as populações de rua, pode haver um estilo de vida em que a droga possui um valor social, cultural e simbólico que também demarca a sobrevivência. Ou seja, como naquele debate, “a droga é um artifício de vida e não de morte”.

R5 aborda em seus relatos que sua sobrevivência nas ruas foi sempre conturbada quando associada às relações em grupo. Sempre buscou a companhia de um amigo com ideias parecidas ou a individualidade. A afirmativa à vida nas ruas foi possível a relacionando a uma frase que R5 sempre repetia: “a gente se acostuma”.

Situação 2- Vivência microestrutural: João e suas relações com o grupo de pessoas em situação de rua

Andando com João, um de meus interlocutores privilegiados, chegamos a um parque, onde havia várias pessoas em situação de rua, homens, mulheres, crianças comendo churrasco, que ganharam de uma turma de pessoas que usava o espaço público para fazer um almoço coletivo entre amigos na rua. O pessoal (pessoas em situação de rua) cumprimentou primeiro o João, bem animados em vê-lo, após, João me apresentou, e uma das pessoas do grupo disse: Eu conheço já está menina, está sempre com a gente nas atividades, nas coisas do jornal, se dá com o pessoal... (R6).

Aos poucos, os olhares desconfiados e o desconforto com a minha presença foram mudando para a descontração. Terminaram de comer e nos convidaram para dar uma volta pelo parque, a ideia era fazer uma roda para utilizar maconha, éramos seis formando uma roda. No ritual de uso de maconha, uma das pessoas fechou o baseado, enquanto conversavam sobre diferentes assuntos, inclusive como estava sendo morar naquela aldeia próxima a esse parque, a questão do banho, e a organização da alimentação.

Uma das mulheres presentes contava como estava sendo difícil trabalhar por esses dias, a fome nas ruas, os dias frios. Em relação ao banho, este costuma ser no Centro de Referência Especializado para pessoas em “situação de rua” (Centro POP), no entanto, era sempre uma “ladaia”, filas gigantes para tomar banho, então, às vezes, tomavam em uma torneira localizada no parque. “Então, imagina a dificuldade”, disse R6, com o rosto marcado por grande tristeza.

As pessoas dizem que a gente não quer trabalhar, primeiro que, o que sobra é catar lixo ou cuidar carros, quem vai dar emprego para quem não tem casa. Segundo, que quem tem casa a vida é mais fácil, pode tomar banho a hora que quer, nós precisamos do Centro POP, ele abre umas oito, oito e meia, nessa hora em um emprego normal você já deve estar trabalhando, não? (R6)

O centro POP não pode ser referência para nada, na realidade não somos nada ali, filas para o banho, poucos profissionais, eles também não nos entendem, estão cheios do saco de ter que trabalhar com nós, acho que têm nojo da gente... (R6)

Concordo com ela, não faço perguntas, apenas digo que realmente é uma vida difícil e que pouca gente conhece, e as pessoas falam do que desconhecem. Ela fica pensativa, mexendo os pés sobre a terra úmida.

Na roda me ofereceram a maconha, eu não aceito, dizendo que estava ali para conhecê-los e acompanhar o João. João ri, dizendo a eles que eu era enfermeira, que fazia pesquisa, que não poderiam me levar para o mau caminho. Dou risada em conjunto com eles, fazendo um comentário: Pois é, pessoal, pega mal eu andar ‘chapada’ em situações de trabalho... (pesquisadora). Todos riem, dizem que nunca haviam conhecido uma enfermeira que ficasse tão tranquila na presença deles: Elas são rígidas e parecem ter nojo e medo da gente, mas a gente sabe que não são todas...

No momento do ritual de uso de maconha fiquei ouvindo o que falavam, não me senti à vontade para fazer perguntas, sentia que estava sendo aceita naquele espaço, desde que não ultrapassasse determinado limite. A conversa entre eles era fluida, em nenhum momento questionaram nada sobre mim, ou me colocaram na roda como uma “conhecida”, eu simplesmente era aceita pela presença forte do meu interlocutor naquele espaço.

A roda de uso de maconha durou menos de meia hora. Logo, o grupo se encaminhou para a aldeia e João e eu voltamos para o abrigo. Durante o retorno ele disse que aquelas pessoas eram uma parcela de seus amigos da rua, pessoas com quem já teve uma história de amizade e companheirismo quando estava sem teto. Nos dias atuais, eles continuam se encontrando, mantendo o vínculo, isso a partir de encontros não marcados, em que usam drogas e conversam, relembrando histórias.

Ele me disse que nem todos os “amigos da rua” mantêm a mesma amizade de antes, alguns têm preconceito por ele estar querendo outro tipo de vida, por querer sair da rua. Ele acha que isso é “inveja deles” porque está “tentando se organizar”:

Na rua tem isso, se o cara tá tentando se organizar tem os invejosos que não querem te ver bem, te ver numa situação melhor, te ver saindo de situações que te geram dor, mas isso são algumas pessoas. Tem os amigos mesmo, que estão na rua por que querem e te entendem se quer sair dela, melhorar e tal... (João)

Já morei em muitas aldeias, aldeias de todo tipo, muitos amigos eu fiz na rua, por isso que agora também preciso me desligar da rua, porque eu quero diminuir o uso de drogas, e se tu tá numa aldeia tu vai usar... (João).

Discussão

No primeiro momento apresenta-se a vivência com R5, que, conforme seu diálogo, informa que não utiliza drogas. A conversa com R5 e o evento instigam a refletir sobre “a droga enquanto valor”. Becker9 reflete que sempre que existe um grupo de pessoas que possuem uma vida em comum, com pequeno grau de isolamento em relação a outras, problemas comuns e uma mesma posição na sociedade, há ali uma cultura.

A cultura surge essencialmente em resposta a um problema enfrentado que é comum a um grupo de pessoas, à medida que elas conseguem se unir e se comunicar entre si de forma eficaz. Pessoas que se envolvem em atividades desviantes – por exemplo, o usuário de drogas pesadas que vive também nas ruas – enfrentam a problemática de que sua concepção a respeito do que fazem não é partilhada por outros membros da sociedade, sendo que suas culturas muitas vezes são consideradas subculturas9.

A experiência de R5 revela o conflito com o grupo de pessoas em situação de rua, por não compartilharem o uso de drogas delas, e também a cultura do uso de drogas na rua. Mostra essa cultura como um estilo de vida que não é individual, mas coletivo; o uso da droga os une frente aos problemas comuns que vivem pelas ruas.

Há um tensionamento na noção de normalidade, em que o desviante não possui o propósito e a intenção exatamente do desvio. Na realidade, ignora a existência da regra – em que o “normal” não é exatamente o ligado a instituições e comportamentos convencionais –, à qual a maioria das pessoas da sociedade é submetida ao longo do tempo, no caso, para o indivíduo “desviante” não existe a reputação a zelar, pois, conforme suas noções e experiências, seu comportamento é adequado9.

R5 narra que o fato de não usar drogas o coloca em posição de desvio, ele se torna “disfuncional” naquele sistema. Essa ideia é abordada por Becker9, em que uma sociedade “normal”, legitimada pelos modelos convencionais e pelo biologicismo do uso de drogas, R5 está correto, pois consegue viver sem drogas. No entanto, o “normal” para essa sociedade de rua é a utilização da droga, fazendo com que R5 seja o outsider, o outro, o diferente naquele lugar.

Observa-se que o mundo social dos moradores de rua é considerado uma subcultura, pois a grande maioria das pessoas não escolhe esse mundo e sim é empurrada pelas circunstâncias sociais: essas pessoas vivem uma vida precária, sofrem violências e estigmas constantes, e não há políticas públicas e redes formais adequadas para suas necessidades, e estão mais vulneráveis a doenças e ao uso de drogas. Então, partilham de um mesmo destino, sobreviver a essas circunstâncias e à difícil vida nas ruas e becos das grandes cidades10.

A noção de subcultura está associada à sociedade complexa, pois se trata de diferentes classes, religiões, etnias. Pode-se exemplificar com a cultura burguesa que criou um conjunto de normas e regras dominantes: tradições, heranças – humanismo, cristianismo – e a origem pode estar vinculada à noção de classe social da burguesia. Assim, as culturas que não são dominantes – as minorias – possuem comportamentos, crenças, valores em comum, opondo-se às culturas dominantes, e são consideradas subculturas11.

As pessoas em situação de rua e o uso de drogas são percebidos como uma subcultura, pois revelam um universo de significados bastante particulares que se opõem às culturas dominantes. Porém, a partir da etnografia, observa-se uma cultura da rua, pois a definição de subcultura ainda é considerada pelo senso comum uma cultura em subdesenvolvimento. A cultura da rua revela seus aspectos negativos da vida com poucos recursos e muito sofrimento para esses sujeitos e, ao mesmo tempo, é um modo de resistência, a partir de um mundo de significados e identidades que o reforçam e os tornam sobreviventes: a organização em grupo parece ser o mais forte desses significados.

A segunda situação traz um momento com João que, a partir de sua presença, coloca em cena a possibilidade de contato com o grupo de pessoas em situação de rua. Observa-se que esses contextos são ricos de informação sobre a forma de organização das pessoas, uma organização ligada à vida em grupo, a partir das aldeias: comunidades coletivas na rua.

João diz desejar a mudança de vida, a saída das ruas e a diminuição do uso de drogas. Para tal, as instituições da rede de saúde e assistência são acionadas, tanto o abrigo que está lhe permitindo ter um teto para moradia quanto o CAPS AD, no qual faz seu tratamento em saúde baseado em medicações, as quais ele não quer usar e em redução de danos que ainda lhe permite alguns rituais de encontro com amigos da rua.

O ritual de uso de drogas na rua é entendido como parte dessa organização social. O uso do cigarro e da maconha são um modo de “estruturas de vida”. As estruturas de vida são compreendidas enquanto atividades regulares, tanto as convencionais quanto as relacionadas à droga, que estruturam os padrões da vida cotidiana. Isso inclui as relações pessoais, os compromissos, as obrigações, as responsabilidades, os objetivos e as expectativas12.

Para João, a vida nas ruas só é possível com o uso de drogas, pois elas fazem parte daquela realidade social. O fato de seu tratamento lhe permitir o uso da droga, ainda que só a maconha, a partir da redução de danos, lhe permite também o contato com alguns de seus amigos na rua, os que restaram. Suas relações com os amigos ainda são positivas, ele ainda se sente pertencente ao grupo. Os rituais de uso de maconha são comuns nesses encontros, que podem não durar muito tempo, mas demarcam a relação: eles têm a possibilidade de conversar, relembrar histórias a partir do uso da droga.

Desse modo, a utilização das drogas é um ritual de socialização e fortalecimento de relações. Também é um território de reconhecimento, marcando um local de convivência entre os usuários de drogas no espaço da rua. O grupo assume papel de acolhida e afeto, na ausência de laços familiares, promovendo sentimentos de igualdade13,14.

Esse cenário é também simbólico e cultural, pois os indivíduos organizam processos de singularização, construção de identidades, redes simbólicas de proteção, de pertencimento, de solidariedade, para criar e reforçar os laços culturais, experimentar suas vivências no mundo e estabelecer regras e normas para cuidar de sua sobrevivência15.

Percebe-se uma dualidade/contradição nessa identidade de rua que é notada pelas pessoas em situação de rua como uma resistência, em que o uso das drogas também é visto como sobrevivência e a possibilidade de organização, mesmo em meio às dificuldades. Isso é exemplificado pelo relato de R6, ao citar as diversas faces da vida nas ruas, através de sua história sobre o banho e a falta de emprego. Para a sociedade, somente a droga e o crime estão em evidência quando se trata das populações de rua, desconsiderando a complexidade de suas estruturas de vida.

É impossível descolar a cultura da rua da noção de estigma, um atributo depreciativo conferido a um indivíduo, e parte de determinada característica, tornando-a totalizadora, como, por exemplo, as pessoas em situação de rua que são o oposto do estereótipo criado, sobre como as pessoas devem ser ou agir (não têm casa, comem e aproveitam coisas do lixo, catam lixo, não possuem emprego formal, usam drogas e vivem na sujeira).

O estigma existe a partir das relações entre as pessoas, do choque entre os “normais” e os “anormais”. O estigma é atribuído a partir de determinadas características da pessoa e passa a formar uma identidade. Em oposição, os indivíduos estigmatizados vão manipulando sua identidade, tentado mostrar sua melhor face. É o processo de racionalização e relativização da identidade que também a constrói, a partir de como a pessoa se vê, a que grupos pertence e como os demais membros da sociedade concebem suas ações e condutas16.

A cultura da rua é estigmatizada pela sociedade. Ela possui marcas corporais (a sujeira), e a identidade social de desgraça que carregam em suas existências vulneráveis e tristes, pela visão de mundo dos ditos “normais”. Viver nas ruas pode ser sinal de “desonestidade” e “vagabundagem”, revelando uma marca de má conduta marcada por elementos, como a inexistência de emprego formal, a moradia sem teto, a fragilização dos laços familiares e catar lixo.

Percebe-se que nos grupos que vivem nas ruas desenvolve-se também uma relação diferente com as instituições sociais. Da mesma forma que julgam necessária a influência desses serviços, muitas vezes para questões de básicas, como banho, eles se sentem rechaçados pelos mesmos. A organização do serviço prejudica diferentes formas de vida, como relatado, arrumar um emprego formal, e os profissionais parecem estar constantemente julgando-os e estigmatizando-os, por exemplo, como o que foi dito em relação às enfermeiras: “elas parecem ter nojo e medo da gente...”.

João, nesse momento, aceita a influência das instituições, pois deseja “se organizar”, buscando o CAPS AD, o abrigo e a redução de danos. E, como consequência, sua identidade é problematizada pelos amigos da rua, sendo isolado, ou seja, João torna-se um desviante na rua.

Existe a discussão sobre a estigmatização social como questão individual, pessoas que têm um desapreço acentuado por outras, classificando-as por preconceito. No entanto, não é possível discernir, no plano individual, algo que não pode ser descolado de uma relação ao nível de grupo. Observam-se grupos estigmatizando outros, não por seus valores e qualidades individuais, mas por pertencerem a determinados grupos, coletivamente considerados diferentes e inferiores ao próprio17.

Logo, a cultura da rua significa a resistência aos estigmas e às políticas e serviços que desconhecem a realidade da vida nas ruas. O coletivo procura transformar a ideia de que são “os desviantes”, conseguem ver e relativizar seus modos de vida, sua organização, suas estruturas sociais como uma forma de sobrevivência. Dessa forma, a droga faz parte dessa cultura, enquanto mais um modo de vida, que precisa ser conhecido, compreendido e trabalhado de forma aberta e consciente pelos profissionais de saúde. Conhecer a cultura da rua ajuda a desmistificar estigmas e a trabalhar o tema das drogas na sua complexidade sociocultural.

Considerações finais

A partir das duas situações apresentadas, observa-se que existe uma cultura do uso de drogas na rua que traduz um estilo de vida não individual, mas sobretudo coletivo. Assim, o uso da droga permite unir as pessoas em situação de rua diante dos problemas comuns que vivenciam pelas ruas.

A identidade da rua é percebida pelos interlocutores como uma resistência, em que o uso das drogas é visto, principalmente, como sobrevivência e possibilidade de organização, mesmo em meio às dificuldades. Observa-se que as pessoas em situação de rua possuem uma organização social que os ajuda a suportar as dificuldades de aceitação da sociedade e a organização falha dos serviços que não compreendem seus modos de vida.

Dessa forma, as pessoas em situação de rua são estigmatizadas e vinculadas à imagem de criminosos e drogados. A possibilidade de conhecer e compreender sua cultura possibilita a reflexão da necessidade de novos modelos de cuidado em drogas e saúde, que não se vinculem somente à “droga doença” e à “droga crime”. Para tal, os profissionais e a sociedade necessitam de informação, discussão e práticas que considerem esse tema.

A pesquisa etnográfica torna-se um importante meio de diálogo, interação e compreensão da complexidade do tema das drogas, saúde e cuidado para as populações como as de rua, que possuem estilos de vida diferenciados, dinâmicas e diversidades que precisam com urgência ser entendidas e incorporadas nas reflexões e ações do campo da saúde.

Referências

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Recebido: 24 de Julho de 2018; Aceito: 06 de Fevereiro de 2019; Publicado: 08 de Fevereiro de 2019

Colaboradores

AB Silva - Realizou o projeto, a entrada em campo, a coleta, análise e discussão dos dados. A Olschowsky - Orientação e contribuição para projeto, coleta, análise e discussão dos dados. C Wetzel - Orientação relativo ao tema das drogas e saúde mental, contribuição na discussão dos dados. TJ Silva - Orientação e contribuição na discussão metodológica e de entrada em campo. FM Pavani - Contribuição na discussão dos dados e realização do artigo científico.

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