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Interface - Comunicação, Saúde, Educação

Print version ISSN 1414-3283

Interface (Botucatu) vol.16 no.43 Botucatu Oct./Dec. 2012  Epub Dec 21, 2012

https://doi.org/10.1590/S1414-32832012005000053 

Poesia concreta em prosa no asfalto: limites da deficiência no espaço urbano*

 

Concrete poetry in prose on the asphalt: handicap limits in the urban space

 

Poesía concreta en prosa en el asfalto: límites de la discapacidad en el espacio urbano

 

 

Maria do Carmo Castiglioni

Curso de Terapia Ocupacional da Universidade de São Paulo. Rua Cipotânea, 51. Butantã, São Paulo, SP, Brasil. 05.360-160. centroto@usp.br

 

 


RESUMO

Este artigo trata do segmento populacional urbano identificado como morador de rua, que é também pessoa com deficiência. É um contingente que pode ser considerado duplamente excluído: pela pobreza e pela deficiência, cujas consequências sociais marcam e comprometem profundamente a vida dessas pessoas. Esse contexto adverso acarreta questões que merecem aprofundamento, assim como ganhar visibilidade. A relevância do tema inspirou um arranjo de investigação que procurou conhecer, compreender e refletir sobre demandas por meio de histórias individuais entrelaçadas na história social.

Palavras-chave: Pessoa com deficiência. Pobreza. Institucionalização. Política pública.


ABSTRACT

This article deals with the urban population segment identified as homeless and disabled that is also. This contingent can be considered to be doubly excluded: through poverty and through disability. The social consequences of these factors deeply scar and compromise these people's lives. This adverse context gives rise to issues that deserve to be explored and gain visibility. The relevance of this subject inspired an investigative arrangement that sought to get to know, understand and reflect upon demands through individual stories that are intertwined with social history.

Keywords: People with disabilities. Poverty. Institutionalization. Public policy.


RESUMEN

El artículo trata del segmento poblacional urbano identificado como persona sin hogar que es también persona con discapacidad. Es un contingente que se puede considerar doblemente excluido: por la pobreza y por la discapacidad, cuyas consecuencias sociales marcan y comprometen profundamente la vida de estas personas. El contexto adverso acarrea cuestiones que merecen tratamiento detenido y más visibilidad. La relevancia del tema inspiró un arreglo de investigación que buscó conocer, comprender y reflexionar sobre demandas por medio de historias individuales entrelazadas en la historia social.

Palabras clave: Persona con discapacidad. Pobreza. Institucionalización. Política pública.


 

 

Introdução

O texto apresenta resultados de uma investigação mais abrangente "Pessoa com deficiência em situação de rua: trajetórias e estratégias de sobrevivência", cujo objetivo era conhecer e compreender os caminhos traçados por esse grupo social no contexto urbano, que vive uma situação de dupla exclusão: a pobreza e as limitações físicas advindas da deficiência.

Primeiramente, fez-se um estudo sobre o Albergue Z, como referência para a população-alvo do estudo e como estratégia de política social. Em seguida, aprofundou-se a problemática por meio de histórias individuais. Na coleta de dados, utilizaram-se várias fontes e instrumentos: revisão bibliográfica; observação simples e participante, como estratégia fundamental para a compreensão de práticas sociais; entrevista semiestruturada, como coleta de informações qualitativas e forma privilegiada de interação social.

Esse albergue fica na região Norte da cidade de São Paulo, com trezentos leitos - sendo cento e cinquenta para os usuários 12 horas, que se enquadram no pernoite, e cento e cinquenta para os usuários 24 horas, onde estão previstas pessoas com transtorno mental ou com deficiência. Essa população com diferentes trajetórias encontrou, como estratégia de sobrevivência, em determinadas circunstâncias da vida, a ida para o albergue. Pode-se afirmar que essa prática, como proposta de uma política pública, tem permitido o ocultamento da pobreza manifesta nas ruas, ou seja, atua no campo das necessidades da sociedade. É urgente a transição para o campo dos direitos, para dar fim à institucionalização do assistencialismo. Trata-se, portanto, de compromisso ético-político e responsabilidade do Estado.

Ainda sobre as pessoas do Albergue Z, pode-se dizer que foram rompendo seus laços afetivos, seus nexos sociais, enfim, perderam suas raízes: a moradia, o espaço familiar, o trabalho, sua comunidade. Cabe ressaltar que, nesse processo de pauperização, o corpo sofre danos, adoece e limita o cotidiano, que, por si só, é bastante precário.

Muitos não puderam participar da pesquisa e contar sua história, uma vez que estavam imersos numa dor profunda, prostrados e indefesos, no limite da não-existência.

Alguns entrevistados relataram um enredo semelhante, que incluía traumas físicos e psíquicos, num contexto de intenso sofrimento, com histórias descontínuas, desconexas, interrompidas por uma internação ou pelo desligamento do equipamento de assistência, em razão de um suposto "comportamento antissocial".

Entre os usuários, o senhor E foi uma indicação da terapeuta ocupacional (TO) do albergue Z, mas foi difícil encontrá-lo, pois ele só voltava à noite para aquele equipamento de assistência.

Certa vez, quando, em aula, eu explicava a alunos da graduação o trabalho de pesquisa e a dificuldade de localizar alguém que estivesse em condições de tomar parte das entrevistas, estagiários do Metuia1 comentaram que havia uma pessoa muito interessante e que provavelmente contribuiria na investigação. Comprometeram-se a conversar com ele e, se aceitasse, me passariam seu celular e/ou seu e-mail. Resolvidas essas questões, obtive os dados para entrar em contato com ele e constatei que se tratava do senhor E, de Campo Grande, do Albergue Z - o mesmo senhor E indicado pela terapeuta ocupacional.

Pontos de ancoragem

Na perspectiva histórico-cultural vygotskiana, o desenvolvimento humano resulta em desenvolvimento cultural do sujeito, que se constitui com uma história pessoal articulada às práticas culturais e à história humana. Assim, cabe indagar de circunstâncias que resultam em (im)possibilidades de realização humana (Smolka, 2000). Essa matriz de princípios também permite conceber o sujeito como processo inacabado, e as condições materiais de existência como determinantes, mas, de modo algum, absolutas.

Modos de ser/modos de dizer

Para Bakhtin (2006), a fala está conectada às condições da comunicação, que, por sua vez, estão ligadas às estruturas sociais. Ou seja, o meio social interfere na enunciação do sujeito. Assim, cada palavra da enunciação exige um processo para compreendê-la, constituindo uma réplica, um diálogo, sem, contudo, eliminar os conflitos e as tensões produzidas no discurso e na relação, uma vez que evidencia a polifonia e pressupõe lugares sociais distintos, pautados por valores diversos que se confrontam.

Cumpre notar que o conceito bakhtiniano de exotopia foi imprescindível na realização deste trabalho, na medida em que esclarece que eu procedo à investigação a partir de um lugar exterior e, portanto, devo contar o relato dos outros como alguém de fora. E é a palavra que tem a capacidade de produzir a interação entre quem fala e quem ouve, estabelecendo uma ponte.

Senhor E - o caso

Transcrevemos, aqui, excertos da entrevista textualizada em que o interlocutor se apresenta e narra sua vida. Os trechos selecionados estão nomeados de acordo com o que consideramos os pontos nodais de sua história.

"Meu nome é E. N., tenho 48 anos, sou natural de Campo Grande. Estou aqui há dois anos e meio, aproximadamente, em São Paulo. Vim ao albergue Z, por ter sido mantido por uma família de lá, onde fui bem recebido, onde havia a Casa de Cuidados para deficientes físicos, com todas as instalações apropriadas. Eu era gerente administrativo de uma empresa [em Goiânia], alto salário, de bem com a vida e [...]". (senhor E, 2008)

A produção da deficiência

Para o senhor E, a etiologia do diabetes inclui determinadas circunstâncias da vida e sua inserção social, além de fatores biológicos.

"Em 87, com aquele advento do [...] acidente nuclear com o césio-137. Foi a primeira vez que se manifestou a diabete. Isso daí puxou meu tapete. No Japão, em 2000, mais ou menos, com uma fagulha de metal [...] perdi a visão parcial. Fiquei, acredito, com uns 30% de visão em um olho. E isso prejudicava, porque eu operava máquinas, empilhadeira, máquinas pesadas, com grande responsabilidade. Isso tudo me afetou o psíquico-emocional [sic] e, novamente, a diabete se manifestou. E, ah, um pequeno ferimento no pé, que eu estou tratando em casa. Quando eu fui internado com alto grau de diabete - quase em coma. Aí, normalizou a diabete, e começou o tratamento desse ferimento. E os médicos fazendo exames, devido a esse, porque não encontravam a causa dessa diarreia. Dentro do hospital, permanecia com isso daí. E houve a primeira amputação. Ah, deu trombose. Ou amputava, ou eu morria. E eu também não estava me alimentando. Com o psíquico-emocional muito abalado, eu não estava querendo saber de nada. A segunda perna também feriu, levando o alimento para minha mãe, na cama, um tombo no Congresso do Sebrae que levei, terminou de [ri] resultou na amputação. Alguns erros médicos, algumas coisas que [...] e tive a segunda perna amputada". (senhor E, 2008, grifos nossos)

As rupturas

Os vínculos afetivos, de trabalho e de propriedade se afrouxam; o senhor E se vê solto, solitário, e, como forma de resistência, torna-se um nômade.

"Perdi emprego, perdi minha posição social, me afetou meu psíquico-emocional. Voltei para Campo Grande, fiquei uma época desempregado, porque minha carteira constava Goiânia - minha carteira de trabalho - , então, era discriminado, quer queira, quer não. Alterou meu modo de vida - o casamento, inclusive. Isso até 94. Falecimento do meu pai, Plano Real e uma festa que não teve o êxito esperado, devido a um forte temporal que arrasou - e, no ramo de eventos, é igual a eleição: você trabalha para um dia só. E isso alterou novamente o psíquico-emocional; o segundo casamento já estava meio abalado [...] o Japão foi a minha solução". (senhor E, 2008)

Modos de sobrevivência

Ligando-se a um modo possível para atender suas necessidades, rearticula sua capacidade para a reorganização do trabalho.

"Voltei a trabalhar numa firma como vendedor autônomo; eu cobria uma região do Mato Grosso do Sul. Viajava o mês inteiro, com as despesas todas pagas, carro da firma, hotéis, e isso aí, para você fazer um controle, já é difícil, mas, em compensação, o psíquico-emocional alto, a autoestima subiu, e desapareceu a diabete. Levei minha vida normal. Casei-me pela segunda vez. Montei uma nova firma. Voltei a ser empresário [...] no ramo de vinho. Lá [Japão], trabalhando com atividades diárias e diversas. Além de fábrica, eu transportava pessoas. Ah, fazia, escrevia para jornais locais destinados a essa colônia latino-americana. Frequentando programas de rádio. Escrevendo com esse diferencial que eu tenho, que é humor, irreverência e criatividade. Permaneci nesses sete anos. O último ano de permanência também foi afetado devido a uma fagulha de metal que entrou no meu olho". (senhor E, 2008)

A construção de sentido

Atribuir sentido, ou seja, buscar explicação para os fatos da vida, incluindo-os numa narrativa com significado é da condição humana, é uma dimensão constitutiva do sujeito.

"Sei do dinamismo, sei da potencialidade, o que representa São Paulo no contexto mundial. Isso aqui é o centro da América Latina. E Campo Grande é pouco, Mato Grosso do Sul é pequeno para mim, pelos meus objetivos. Vou querer a prótese. Vim atrás da prótese. Esse é o meu maior objetivo, né? Voltar a andar. Hoje, eu utilizo a cadeira". (senhor E, 2008)

"Segundo ele próprio, não era morador de rua ou albergado, estava albergado, pois era a única estratégia viável para esse momento da vida". (anotações do diário de campo, 2007)

Ficou clara a preocupação com o reconhecimento, com os direitos sociais, com os amigos, com o desejo de confiar em alguém, com a saúde, em fazer uma roda de samba, com uma comida bem temperada, em poder alugar um quarto. Enfim, apresentou as diferentes nuances e matizes que constituem uma identidade complexa.

O vínculo com a pesquisadora

Já no primeiro dia, houve entre mim e o senhor E uma empatia que favoreceu a naturalidade de nossos encontros.

No fim da entrevista, o senhor E se ofereceu para me apresentar a outras pessoas que também haviam sido usuárias do Albergue Z. Na verdade, me propôs uma troca, pois precisava de uma assessoria para a elaboração de um projeto cultural que pretendia inscrever a partir de um edital da Secretaria Municipal de Cultura (SMC).

Assim, estabelecemos um ritmo de trabalho, e o senhor E assumiu que estávamos fazendo uma pesquisa e ele era um colaborador, um verdadeiro auxiliar de pesquisa. Escolhia as pessoas, localizando-as na cidade, pois, desde o fechamento do albergue, houve grande dispersão dos usuários que optaram por não ficar em outros albergues. Acompanhou-me várias vezes à praça da República, à estação Armênia do metrô e ao outro albergue. Por outro lado, apresentava suas demandas de toda ordem - uma cadeira de rodas adequada para andar na rua, a gravação de um CD com suas músicas, que seria enviado à produção do programa de certa rádio, o projeto para a SMC, a ida a São Carlos para participar de um evento sobre Esporte Adaptado organizado pelo SESC2.

Tudo isso implicava muitos telefonemas, troca de mensagens eletrônicas e algumas tarefas. Nesse período, ele perdeu o celular, comprometendo suas atividades - o que o deixou muito ansioso. Como saída, dava meu telefone como contato.

Com relação às demandas do senhor E, indicamos e o acompanhamos na avaliação de adequação postural em cadeira de rodas em loja especializada, colaboramos com a gravação do CD e orientamos alguns itens do projeto.

No entanto, o senhor E é o outro sobre quem é importante pensar, e a questão que se coloca é a da alteridade, pois é sempre sobre a relação com o outro que se está a falar e, portanto, pode ser entendido como problema central. Além disso, tem-se a concepção de que a vida é vivida nas fronteiras entre a particularidade de nossa experiência individual e o social.

O "outro" era encarnado na figura do senhor E, que, dadas as determinações sociais, históricas e culturais, se materializava naquele sujeito e naquela linguagem, definidos ambos num contexto de luta pela sobrevivência.

O outro foi sujeito múltiplo inserido na história, na sociedade e na cultura pela linguagem. Diversas vezes, o senhor E contou suas histórias conscientemente, dando ênfase a determinados episódios, mudando a entonação e enfatizando seu "psíquico-emocional" abalado.

Tudo isso deu um rumo aos nossos encontros, sem, contudo, provocar tensão. Afinal, qual é o lugar da pesquisadora?

A tensão do drama

Depois de algum tempo sem contato com o senhor E, recebi a notícia de sua morte. Ele esteve internado na Santa Casa por cerca de dez dias, com gastroenterocolite difusa e broncopneumonia. No hospital, estava sem documentos, e constava apenas que vinha de determinado albergue. Frequentemente, em caso de óbito, o morador de rua é destinado para estudo em laboratórios de anatomia de cursos de medicina, e isso quase aconteceu com o senhor E. No entanto, uma amiga e agente educacional do Albergue Z, ao procurá-lo, soube do ocorrido, foi até a Santa Casa e, depois de um trâmite intrincado, conseguiu liberar o corpo. A mesma amiga chamou a filha mais velha do senhor E, que mora em Goiânia, e ligou para as pessoas que constavam da agenda dele. O enterro ocorreu depois de três dias de sua morte, no cemitério de Vila Formosa, na região Leste da cidade, na ala gratuita.

O procedimento fúnebre geralmente consiste em o corpo ser levado por um carro da funerária do necrotério do hospital até o cemitério, onde é velado por, pelo menos, dez minutos e, depois, enterrado.

No caso do funeral do senhor E, houve inúmeros intervenientes; por exemplo, não se dispunha, na ocasião, de uma viatura que o levasse ao túmulo, resultando num "velório" de três horas. Isso se deveu ao fato de que as dez pessoas que compareceram ao funeral exigiram uma solução alegando que o caso era passível de denúncia na mídia.

 

Considerações finais

Do ponto de vista da história individual, a interferência de um meio socioambiental desfavorável pode acarretar danos imprevisíveis ao sujeito, a ponto de estabelecer quadros de deficiência, como a amputação de membros em decorrência de diabete não tratada, imputando-lhe a pecha social definida numa situação de dupla exclusão: social e física. Em outras palavras, o senhor E estava sob influência de leis biológicas e, também, sob limites impostos ou necessidades estabelecidas pelo meio social.

Não é fácil traduzir em palavras o que vivi e cogitei durante a investigação. Neste texto, estão colocadas minhas escolhas e as aproximações que procurei fazer com os teóricos Bakhtin e Vygotsky, com a finalidade de organizar uma teia conceitual que tivesse um caráter abrangente; e, além disso, fosse uma possibilidade de apreensão e compreensão sociopolítica de aspectos da realidade estudada, sustentando a dimensão crítica desejada na discussão. Mas, para além da crítica, meu olhar buscou encontrar semelhanças e ressonâncias do humano naquela condição existencial limite.

Ouvindo a história contundente do senhor E - que mescla privação, escolha, ruína, bom humor, resiliência, preservação do eu, desencontros, desejos, necessidades e projetos - , foi possível contemplá-lo em suas relações, ressaltar sua participação na dinâmica da vida, o acesso aos direitos e suas possibilidades de estar no mundo. Constatamos a necessidade de E explorar um sentido para a própria existência sem negar suas utopias ou seus sonhos: conseguir um financiamento para seu projeto. Sua narrativa, predominantemente na adversidade, delineia uma sucessão de catástrofes, configurando o signo da dor. Com a ferida exposta no próprio corpo, condensa a contradição, apresentando o trágico como lugar de resistência.

O senhor E concebia o albergue como recurso e direito. Sua participação na organização material e simbólica do lugar em que vivia favorecia sua validação como ator social. Sua trajetória não linear, conflitiva, aberta ao acaso, buscava, em cada signo ou pessoa, ponte de acesso para o mundo do tamanho de seus projetos.

Encontrar modos de superação implica estabelecer uma rede social, ou, na expressão vygotskiana, ser incorporado à vida comum, pois, quando as pessoas se juntam, assemelham-se e aumentam sua potência para encarar as adversidades. As redes sociais imprimem uma nova ordem igualitária e concorrem para a sustentabilidade da vida cotidiana. Foi isso que mais ouvi nas entrevistas: romperam com a família, perderam o emprego, mas continuaram abertos a outras possibilidades de vinculação.

A ética certamente sustenta essas redes, na medida em que estão atreladas à necessidade mais urgente do momento - entrar em relação com os outros a ponto de sensibilizá-los. Além disso, se ocupam de situações de um cotidiano traduzido por um comportamento responsável, em que criam, decidem e desenvolvem ações para enfrentar a lógica excludente do sistema.

São sobreviventes que resistiram às condições desfavoráveis e tentam recuperar a vida, sair da passividade para a atividade na construção/ transformação da realidade por meio de processos miúdos e pela produção de sentido para suas experiências. A competência imaginativa do senhor E tornou-se uma estratégia de sobrevivência, na medida em que lhe possibilitava uma expansão de horizontes e de convivência.

Contudo, a sobreposição de acometimentos - doença crônica, pobreza, deficiência, isolamento, lentidão e negligência do serviço público de saúde - acarretou a irreversibilidade das condições desfavoráveis de vida do senhor E.

Embora a verdadeira estrutura da vida seja narrativa, dramática e inteiriça, essa realidade foi muito além - a provisoriedade, a descontinuidade, a precariedade, a contradição e a inconclusão se tornaram as características por excelência deste trabalho.

Na dinâmica interativa e discursiva tecida nos encontros, fui inteiramente absorvida pelo que vi. Fiquei sem palavras, também. Na busca de conhecer a realidade escondida, nas palavras de Smolka, dei visibilidade ao underground.

A morte do senhor E não é um fato isolado, é emblemática de uma prática decorrente de uma política pública. Sua história traz subsídios para a discussão e o enfrentamento da pobreza, bem como da produção da deficiência.

 

Referências

BAKTHIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico da linguagem. São Paulo: Hucitec, 2006.         [ Links ]

SESC - Serviço Social do Comércio. Disponível em: <http://www.sescsp.org.br/sesc/>. Acesso em: 21 mar. 2012.         [ Links ]

SMOLKA, A.L.B. O impróprio e o impertinente na apropriação das práticas sociais. Cad. Cedes, v.20, n.50, p 26-40, 2000.         [ Links ]

VYGOTSKY, L.S. Fundamentos de defectologia. Habana: Pueblo e Educación, 1984 (Obras Completas, Tomo V).         [ Links ]

 

 

Recebido em 04/07/11
Aprovado em 11/03/12

 

 

* Elaborado com base na pesquisa "Pessoa com deficiência em situação de rua: trajetórias e estratégias de sobrevivência", de Maria do Carmo Castiglioni, no Programa de Pós-Doutorado na área de Concentração: Psicologia da Educação, Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas (FE/Unicamp), entre 02/01/2006 e 02/12/2008 (supervisão de Ana Luiza Bustamante Smolka, Departamento de Psicologia Educacional, FE/Unicamp), que implicou intensa interlocução desde o trabalho de campo até a escritura do texto. Aprovado pela Comissão de Ética para Análise de Projetos de Pesquisa (CAPPesq) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
1 Metuia: grupo interinstitucional de estudos, formação e ações pela cidadania de crianças e adolescentes e adultos em processos de ruptura de rede sociais de suporte.
2 Ao lado do Serviço Social da Indústria (Sesi), do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e de outras instituições, o Serviço Social do Comércio (Sesc) integra o chamado Sistema S, iniciativa do empresariado brasileiro que há 60 anos se dedica à formação de mão de obra para a indústria e o comércio. Desde a década de 1980, o Sesc introduziu novos modelos de ação cultural e sublinhou a educação como pressuposto da transformação social, propósito que procura concretizar por uma intensa atuação no campo da cultura e de suas diferentes manifestações, destinadas a todos os públicos, de diversas faixas etárias. Disponível em: <http://www.sescsp.org.br/sesc/>. Acesso em: 21 mar. 2012.

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