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Escola Anna Nery

Print version ISSN 1414-8145On-line version ISSN 2177-9465

Esc. Anna Nery vol.20 no.3 Rio de Janeiro  2016  Epub June 07, 2016

https://doi.org/10.5935/1414-8145.20160071 

Relato de Experiência

A bricolage na pesquisa em educação em enfermagem: Relato de experiência

El bricolaje en investigación de educación en enfermería: Relato de experiencia

Leonara Raddai Gunther de Campos1 

Mara Regina Rosa Ribeiro2 

1Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Araguaia, Mato Grosso (MT), Brasil.

2Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Cuiabá, Mato Grosso (MT), Brasil.


RESUMO

Introdução:

Este artigo apresenta um relato de experiência sobre a utilização da bricolage em uma pesquisa educacional em enfermagem.

Objetivo:

Relatar a experiência do uso da bricolage.

Métodos:

Primeiramente, foi realizado um levantamento bibliográfico sobre o termo e sua utilização em meio científico, em seguida, as autoras apresentam a experiência da aplicação do método em uma pesquisa de Mestrado em Enfermagem. A bricolage possibilitou a combinação de estratégias para a construção dos dados, como a observação participante, entrevista semiestruturada, análise documental e gravação em áudio das sessões tutoriais. A análise dos dados foi uma etapa bem peculiar e criativa, onde as autoras, amparadas pela bricolage criaram seu próprio processo de análise.

Conclusões:

Dentre os principais resultados são ressaltados as vantagens proporcionadas pela utilização da bricolage, como a captação dos aspectos multilógicos dos fenômenos e desafios. Implicações para a prática: Este relato contribui com novas opções metodológicas para estudos em enfermagem.

Palavras-chave: Educação; Enfermagem; Metodologia

RESUMEN

Introducción:

Este artículo presenta un relato de experiencia sobre la utilización del bricolaje en una investigación educacional en enfermería.

Objetivo:

Relatar la experiencia del uso del bricolaje.

Métodos:

Primeramente se realizó una búsqueda bibliográfica sobre el término y su utilización en el medio científico; después las autoras presentan la experiencia de la aplicación del método en una investigación para el máster en Enfermería. El bricolaje posibilitó combinar estrategias para la construcción de los datos, así como la observación participativa, entrevista semiestructurada, análisis documental y la grabación en audio de las sesiones tutoriales. El análisis de los datos fue una etapa bien peculiar y creativa donde las autoras, amparadas por el bricolaje, crearon su propio proceso de análisis.

Conclusiones:

Entre los principales resultados, son resaltadas las ventajas proporcionadas por la utilización del bricolaje, como la captación de los aspectos multilógicos de los fenómenos y desafíos. Implicaciones para la práctica: este relato contribuye con nuevas opciones metodológicas para los estudios en enfermería.

Palabras clave: Educación; Enfermería; Metodología

ABSTRACT

Introduction:

This article presents an experience report on the use of bricolage (or DIY - do it yourself) in an educational nursing research.

Objective:

To report the experience of the use of bricolage.

Methods:

Firstly, a bibliographical survey on the term and its use in scientific circles was made; then the authors present the experience of the application of the method in a master's nursing research. Bricolage has made possible the combination of strategies for building data such as participant observation, semi-structured interviews, document analysis, and the recording of audio tutorial sessions. Data analysis was a peculiar and creative stage in which the authors, supported by bricolage, created their own analysis process.

Conclusions:

Among the main results, it can be highlighted the advantages offered by the use of bricolage, as the capture of multi-logical aspects of the phenomena and challenges. Implications for practice: This report contributes to the new methodological options for nursing studies.

Keywords: Education; Nursing; Methodology

INTRODUÇÃO

Neste artigo, analisamos a experiência de utilização da Bricolagem como metodologia de pesquisa na área de educação em Enfermagem e, para tanto, apresentamos o aporte teórico que deu sustentação à construção. Inovações teóricas e metodológicas têm obtido destaque no meio científico, uma vez que seu emprego em pesquisas sociais, de cunho qualitativo, contribui para a ressignificação do processo de construção do conhecimento.

Defendemos que o uso de inovações requer ruptura paradigmática, e não apenas a utilização de recursos ou tecnologias diversificadas e, nessa perspectiva, a bricolagem surge como alternativa metodológica que integra "teorias, metodologias, pesquisador e contexto da pesquisa"1:2.

A opção pela bricolagem ocorreu por percebermos que ela dialoga com estudos sob a perspectiva do referencial teórico adotado - a complexidade, oferecendo oportunidade de articulação de teorias, metodologias, atuação do pesquisador e participantes no estudo, num esquema multirreferencial de construção do conhecimento.

A bricolagem tem sido crescentemente utilizada em pesquisas sociais por adequar-se aos estudos desenvolvidos na área de educação, e apresentar-se como método promissor e inovador, no qual os traços subjetivos do pesquisador interagem com os referenciais adotados, de modo interconectado e complementar2-6.

A compreensão de metodologia adotada, neste estudo, coincide com a proposta de Minayo (2010) de forma abrangente e concomitante:

(a) como a discussão epistemológica sobre o 'caminho do pensamento' [...] (b) como a apresentação adequada e justificada dos métodos, das técnicas e dos instrumentos operativos que devem ser utilizados para as buscas relativas às indagações da investigação; (c) e como [...] 'criatividade do pesquisador', ou seja, a sua marca pessoal e específica na forma de articular teoria, métodos e achados experimentais, observacionais ou de qualquer outro tipo específico de resposta às indagações científicas7:44.

Como pesquisadoras da área de educação em enfermagem temos buscado nos apropriar de novas metodologias, que se operacionalizem em práticas não disjuntivas, antes articuladoras, que possibilitem a compreensão abrangente dos objetos de estudo, que articulem de modo inseparável a teoria e a prática, que respeitem a participação ativa do investigador no processo de pesquisa, e que considerem as nuances e sutilezas presentes na busca pela compreensão de fenômenos complexos.

Em um primeiro tópico, faremos a apresentação da base teórica de sustentação da bricolagem como metodologia de pesquisa na educação e, em seguida, relatamos a experiência de sua utilização na prática docente em enfermagem.

REFERENCIAL TEÓRICO - BRICOLAGEM

A bricolagem tem sua origem no dialeto francês e está relacionada ao aleatório e ao jogo, como resultado imprevisto, incidental e/ou ao acaso. Mais recentemente foi associada a trabalhos artesanais, que se utilizam diferentes materiais disponíveis, que recombinados e/ou aplicados com novas funções e/ou em outros formatos, dão origem a um novo objeto.

Assim, a bricolagem em português, ou bricolagem em francês, surge no contexto da pesquisa científica, sendo oriunda de procedimentos artísticos que, articulados às reflexões metodológicas científicas, inspirou inovações em pesquisas sociais8.

Em uma interpretação mais moderna, refere-se a trabalhos manuais, e utiliza-se de diferentes materiais disponíveis, que se transformam e criam assim um novo objeto. Aplicada ao método científico, pressupõe a utilização pelo pesquisador, de diferentes referenciais teóricos e metodológicos, que articulados no percurso da investigação, permitem a geração de novo conhecimento que se sedimenta nos pré-existentes, e na capacidade articuladora e intelectual do autor1.

Ao pesquisador que se utiliza da bricolagem designa-se o termo bricolador, ou no dialeto francês bricoleur, e direciona-se ao mesmo significado de um "faz tudo" que se vale de diversas ferramentas disponíveis, e incorpora diversificadas perspectivas de compreensão do objeto de estudo, considerando seu contexto e as relações de poder implicadas9.

É atribuída a Lévi-Strauss10 (1970) a autoria do termo no campo de conhecimento das ciências sociais, quando utiliza o termo em uma discussão sobre o então denominado conhecimento primitivo, ou conhecimento primeiro11.

Ao longo da Segunda Guerra Mundial, em seu período de exílio nos Estados Unidos da América (EUA), Lévi-Strauss teve a oportunidade de conviver com artistas franceses dos movimentos Surrealista e Dadaísta, com os quais compartilhava interesses por artes e filosofia. Mediante essas influências, esse autor escreve a obra O Pensamento Selvagem, que ressalta suas ideias sobre o conhecimento emerso da prática e da experimentação humana, referindo-se a ele como bricolagem1,11.

Nessa perspectiva, o conhecimento estaria vinculado à intuição, entremeado pela curiosidade cognoscente dos sujeitos, traduzindo-se em práticas assistemáticas1. Em versão mais atual do termo bricolagem desenvolvido por Strauss, essa discussão é travada como método científico em pesquisa social, utilizando-o, especialmente, em investigações educacionais. Nessa concepção, o pesquisador bricoleur busca a conexão da realidade e diferentes contextos com o objeto que investiga, ou seja, considera a complexidade9.

A realidade em sua multidimensionalidade leva-nos a compreensões de cunho histórico, social, cultural, econômico, político, dentre outros. Por isso, faz-se intensamente importante nessa nova forma de interpretação sobre a bricolagem, considerar as relações de poder estabelecidas, as quais podem influenciar a condução do estudo1,9.

O mapa conceitual apresentado na Figura 1 a seguir, auxilia na compreensão sobre a bricolagem como metodologia de pesquisa, que pressupõe sujeito - bricoleur ativo, criativo e reflexivo no processo de investigação, que se apropria e é capaz de articular diferentes referenciais teóricos para interpretação do fenômeno sob estudo. Para além disso, o pesquisador utiliza estratégias de coleta de dados diversificadas, criando em processo, seu próprio caminho ou modelo de estudo12.

Fonte: Elaborado pelas autoras com base em KICHELOE, BERRY (2007); RAMPAZO, ICHIKAWA (2009); OLIVEIRA et al, (2012); NUNES (2014).

Figura 1 Mapa Conceitual para compreender a Bricolagem enquanto opção metodológica de pesquisa, 2015. 

O bricoleur "configura-se dentro de múltiplas modalidades, todas elas podendo ser vistas de modo separado ou, entrecruzado, coexistindo entre si e potencializando ainda mais o trabalho do pesquisador"5:33. Essas modalidades constituem-se como bricoleur teórico - porque consumidor de produções, interpretador de paradigmas, e com capacidade de derivações pertinentes, entrecruzando o objeto de estudo aos conhecimentos já disponibilizados; metodológico - uma vez que se utiliza de técnicas diversificadas, todas entremeadas pela introspecção; interpretativo - em função de que imprime olhar que analisa o fenômeno em contexto, considerando os aspectos sociais, culturais e históricos nele implicados; político - pois considera as relações de poder inerentes aos fenômenos estudados e às interações estabelecidas; e narrativo - já que narra suas interpretações, oriundas das conexões em rede que se estabelecem entre suas percepções e interesses, e os referenciais que escolhe livremente adotar13.

Certamente, que o investigador transita entre essas modalidades, articulando-as no processo de pesquisa, ou seja, são complementares e se confundem no delineamento do estudo. Sua compreensão em separado, auxilia tão somente na consolidação do perfil de bricoleur almejado13.

A negociação é outra característica que auxilia a definir o pesquisador bricoleur, que também utiliza o movimento de analisar o fenômeno estudado sob diversas perspectivas, o que é realçado pela hermenêutica crítica, uma vez que o contexto social participa do processo de interpretação e a intuição do pesquisador está fortemente envolvida5,10.

A interdisciplinaridade está centralmente presente no processo de pesquisar por meio da bricolagem, e assume a característica de articulação entre a lógica tradicional de pesquisa e a lógica complexa. "Assim, é a interdisciplinaridade que propicia elevar a compreensão do fenômeno para um nível superior"1:5.

A intuição e improvisação pressupõe caminho artesanal, ou seja, flexibilidade metodológica, entretanto, não pode ser confundida com ausência de planejamento. Muito embora o pesquisador não tome como ponto de partida um planejamento fechado ou inflexível, é preciso que inicie o trabalho com alguma organização, que pode ser revisitada continuadamente, nas sucessivas tomadas de decisões que caracterizam esse processo de pesquisa12.

A principal crítica a respeito da utilização da bricolage refere-se ao fato de cientistas não a vislumbrarem como um modo rigoroso de se fazer pesquisa social. Outro aspecto relevante diz respeito às conclusões, pois de fato o pesquisador bricoleur não porta ou define verdades, uma vez que sua visão sobre os fenômenos é apenas mais uma de inúmeras perspectivas que podem vir a existir11.

A BRICOLAGEM APLICADA À PESQUISA EM EDUCAÇÃO EM ENFERMAGEM

Nesta etapa apresentaremos um relato sobre experiência da utilização da Bricolagem em uma pesquisa de Mestrado em Enfermagem, realizada em uma Universidade Pública da Região Centro-Oeste, durante o ano de 2013.

A pesquisa e seus objetivos

Foi desenvolvida uma pesquisa de natureza qualitativa, do tipo exploratória, que são comuns em temáticas educacionais, no entanto exigem prazos mais longos e maior autonomia do pesquisador para percorrer os corredores investigativos que a realidade e suas bases teóricas/bibliográficas vão proporcionando14.

A pesquisa desenvolveu-se por meio da aplicação da Metodologia Ativa Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP) durante a disciplina de Introdução ao Gerenciamento em Saúde, ministrada no 4º semestre do curso de enfermagem, e teve por objetivos analisar como a ABP promove a religação de saberes para o gerenciamento em enfermagem e, ainda como essa metodologia ativa propicia o desenvolvimento da autonomia do aluno no processo de aprender a aprender.

Na definição do desenho metodológico desta pesquisa, amparadas pelo método da bricolagem, buscamos identificar/analisar os relacionamentos que conectam o fenômeno estudado, captando sentido para cada uma das partes, articulando-as com o todo9. Dessa forma, uniram-se no tecer das interpretações da realidade, as percepções das pesquisadoras, observadores participantes, das professoras e dos alunos envolvidos na disciplina, sobre a metodologia da ABP no ensino do Gerenciamento em Enfermagem.

Além de ter cumprido as normas técnicas estabelecidas pela Resolução Nº 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, que se fez vigente por maior tempo durante a realização da pesquisa, todos os participantes após esclarecimentos pertinentes, assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e o projeto de pesquisa matricial foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, sob protocolo CEP Nº 796/CEP/HUJM.

A experiência de utilização da bricolagem como metodologia do estudo

O mestrado proporcionou oportunidades ímpares para a expansão do conhecimento, para a ressignificação de outros pré-existentes e, principalmente, para o desenvolvimento da autonomia e maturidade acadêmica/profissional. Além disso, viabilizou o despertar de inúmeras competências, dentre elas, o ensinar e aprender pela pesquisa; estimulou novas formas de pensar e agir no meio científico, instigando a busca por referenciais teóricos e metodológicos diversificados para pesquisa em enfermagem. Foi em meio a essas inquietações e buscas que tivemos nosso primeiro contato com a bricolagem.

As orientações recebidas pelos créditos obtidos nas disciplinas e pelos créditos obtidos na condução da dissertação levaram-nos a reflexões voltadas à Educação Superior em Enfermagem, tema a partir do qual, fomos delimitando nosso objeto de estudo. Entretanto, ao passo que afunilávamos nosso tema, cada vez mais encontrávamos impasses em seu formato metodológico, momentos outrora, éramos prejudicadas por influências do meio, como a proposição de greve docente na Universidade, indisponibilidade de recursos humanos suficientes para a condução da pesquisa, falta de recursos tecnológicos para coleta dos dados, dentre outros fatores.

Munidas pelo pensamento complexo, começamos a nos perguntar: como lidar com tantas questões que interferem diretamente no andamento de uma pesquisa? Se realidade complexa envolve a tudo e todos, como os pesquisadores qualitativos podem lidar com as adversidades envolvidas nos cenários de pesquisa? Podemos, nós, descartar todo esse poder de influência?

A busca por novos referenciais teóricos por meio do questionamento da cientificidade dos atuais modelos de pesquisa nos permitiu formas alternativas de compreender a pesquisa social. Esse movimento de investimento em leituras sobre diferentes metodologias de pesquisa foi o que nos proporcionou o contato com a bricolagem, entendida como uma forma de trabalho "feita no improviso" e que aproveita de diferentes ferramentas3.

A bricolagem tem sido utilizada em variados estudos nas áreas de Administração, Contabilidade, Arquitetura, Artes, Ciências Sociais e, principalmente, em pesquisas educacionais. Dentre as principais revelações sobre esse referencial metodológico está a analogia de que é a tessitura de uma colcha de retalhos, formada por diferentes estruturas de tecidos, e que ganha forma e tamanho ao passo e andamento da pesquisa, exigindo a inclusão da percepção, da subjetividade e principalmente da criatividade do pesquisador.

Outra característica sobre a bricolagem, que influenciou nossa escolha como metodologia do estudo, é que a mesma se encontra inserida em uma orientação teórica-filosófica pós-moderna, contendo seus preceitos epistemológicos baseados na complexidade, aceitando a confluência e a combinação de técnicas de pesquisa modernas e construtivistas, incitando discussões sem delimitar fronteiras ou soberania de uma sobre a outra3.

Com um esquema de pesquisa aberto, a bricolagem considera a complexidade e visa captar as diferentes nuances envolvidas na realidade multidimensional. Com o foco da pesquisa amplo, possibilita a utilização de uma variedade de métodos, técnicas, instrumentos e referenciais que o permite "tecer interpretações de diferentes origens"3.

A proposta da bricolagem não vem para negar os formatos de pesquisa que se desenvolveram até os dias atuais, pelo contrário, ela amplia as possiblidade para que os bricoleurs possam criar novas formas de fazer ciência. Oportuniza ao pesquisador 'ser' e 'estar' em sua pesquisa, pois em conjunto ao conceito de bricolagem está imbricada a subjetividade, não existindo forma do pesquisador ser neutro, uma vez que toda sua percepção é moldada pelas condições e pelas relações de poder do contexto que o circunda9.

Dessa forma, a bricolagem faz com que o pesquisador ajuste referenciais, noções e conceitos em acordo às necessidades que surgirem no contexto da pesquisa. Ele não necessita seguir um conjunto de regras pré-estabelecidas, movimento característico da pesquisa convencional, seus métodos e técnicas são pensados na medida em que vislumbra a necessidade de compreensão de determinado fato.

E justamente nessa amplitude de opções que persegue o pesquisador bricoleur, característica que repousa sua principal vantagem e inovação, também abriga sua principal crítica. O fato de não definir um caminho metodológico a priori soa como anticientífico aos olhares reducionistas, fato esse que necessita ser claro ao bricoleur que decide trabalhar com o inesperado9.

Por mais que a Bricolagem apresente-se como um caminho aberto e flexível, isso não significa dizer que ele não possua rigor metodológico. Para os bricoleurs "rigor é o grau de fidelidade aos passos não questionados no processo de pesquisa". Parte de sua crítica apoia-se no fato de que para o bricoleur não existem fronteiras ou limites que separem o empírico e o filosófico9:28.

Na bricolagem, cada elemento "representa um conjunto de relações" que estão estabelecidas na realidade concreta do fenômeno. Mesmo que, de certa forma, o pesquisador não vislumbre um caminho determinado a priori, ela faz com que haja sentido em "trabalhar com o inesperado"15:1032.

Não é fácil seguir essa perspectiva de compreensão da realidade quando ainda se tem o hábito de pensar dentro de um modelo cartesiano. Primeiramente, nos foi necessária a ruptura com diversas crenças paradigmáticas relacionadas ao método do trabalho científico. Por vezes, nos foi real a preocupação com a validação de procedimentos de pesquisa, sem que ao menos ainda tivéssemos a definição das estratégias. A falta de definição estrutural causou angústia, e para superação dessa fase, foi necessário mais investimento em leituras sobre esse referencial.

Dentre essas leituras, o que nos chamou muito a atenção foi a afinidade da bricolagem ao pensamento complexo. A poesia de Antônio Machado, que inspira o caminho metodológico da complexidade diz: 'o caminho se faz ao caminhar'.

Para o bricoleur a poesia de Antonio Machado e a epistemologia de Edgar Morin se transformam numa inspiração fundante. Para esses pensadores, respectivamente, 'o caminho se faz ao caminhar' e 'o método se faz ao final'. Institui-se, aqui, a autorização para caminhar pela originalidade com o entretecimento crítico das múltiplas referências em todas as etapas da pesquisa. É o que rege o senso de rigor do pesquisador bricoleur16:120.

Ao longo da construção metodológica de nossa pesquisa, por se tratar de intervenção educacional em uma disciplina da graduação, foram necessários arranjos burocráticos formais - aprovação em colegiado de curso. Para adequação dessa proposta à ementa e organização didática pedagógica da disciplina, todos os mínimos detalhes foram considerados para que ocorresse legitimidade legal na utilização da Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP) e suas formas de avaliação. Todos os passos foram registrados, ressaltando as formas de poder instauradas no contexto institucional, sendo mencionados pelas pesquisadoras como desafios durante o percurso de coleta dos dados.

Nessa fase, o primeiro desafio relatado foi considerar a elaboração da Situação-Problema (caso fictício) pelas pesquisadoras. Para tanto, foi realizado o investimento em leituras sobre o assunto e a elaboração de um caso prévio, que foi submetido a um processo de validação com experts em gerenciamento e na metodologia da ABP, e mediante a indicação dos mesmos, realizamos pequenas adequações e formalizamos uma versão final.

O segundo desafio constou em operacionalizar a ABP durante o período da disciplina. A realização desta pesquisa demandou dedicação especial a essa fase. Como a metodologia da ABP sugere o trabalho com pequenos grupos, a turma matriculada nesta disciplina se dividiu em dois grupos tutoriais, sendo cada grupo, alocado em um espaço exclusivo, contando com a ajuda de um professor facilitador e um observador participante.

A preocupação maior estava nas formas de registro e captação da realidade. A iniciativa em compreender todos os complexos elementos envolvidos no cenário da utilização da ABP levou-nos a adotar uma série de instrumentos e técnicas de pesquisa, na intenção de captar com maior abrangência o fenômeno investigado. "A atual preocupação com a complexidade dos fenômenos vem indicando que o uso exclusivo e excludente de apenas um tipo de dado faz com que a análise resultante apresente limitações e reducionismos"14:198.

Nessa perspectiva, na realização deste estudo, selecionamos diversos elementos, triangulando técnicas de pesquisa que foram utilizadas ao longo da investigação, a saber:

  • Análise Documental: aparato legal, definido por leis e documentos administrativos referentes à educação superior, ao ensino de enfermagem, à instituição, ao curso, e à disciplina, como a LDB, DCN; PPP; Resoluções CONSEPE; Regimentos e Plano Disciplinar;

  • Gravação em Áudio das sessões tutoriais: todas as sessões tutoriais nas quais foram empregados os sete passos da ABP, foram gravadas em áudio e transcritas na íntegra;

  • Portfólios: os registros em portfólio realizados pelos alunos - contendo descrição das atividades realizadas no dia; percepções sobre a metodologia; seu processo de aprendizagem; e estratégias de avaliações;

  • Relatórios de avaliação individual do aluno pelo facilitador: avaliação do aluno contendo seu progresso, habilidades desenvolvidas, sugestões e orientações. Nesse mesmo documento foi reservado um espaço para comentários do aluno, onde o mesmo pode fazer suas considerações sobre avaliação do tutor.

  • Observação Participante: foram utilizados os dados de observação, realizadas durante as sessões tutoriais e redigidos por dois observadores da pesquisa, um para cada grupo tutorial (1 e 2);

  • Entrevista semiestruturada: realizou-se entrevista com as facilitadoras dos dois grupos tutoriais (1 e 2). As entrevistas foram transcritas na íntegra e utilizadas também para análise.

A bricolagem além de disparar a criatividade para a combinação de diferentes técnicas para a coleta dos dados, possibilitou adequações/adaptações na condução da metodologia da ABP, uma vez que a mesma possui estrutura e passos bem definidos para sua concretude. Essas adaptações se fizeram necessárias por influências do meio, dessa forma, amparadas pela bricolagem pudemos criar cenários favoráveis a sua conclusão que garantissem a sequência de seus passos. Para tanto, foram necessários movimentos que nos respaldassem perante a legalidade de intervir em uma disciplina da graduação em enfermagem, garantindo que seriam trabalhados os temas básicos da disciplina por meio de uma situação-problema.

Foi necessária uma análise geral e minuciosa do contexto, com reflexões sobre todas as possibilidades de recriação da proposta em nossa realidade. Nesse quesito, a bricolagem foi crucial para o êxito.

Para o pesquisador bricoleur a compreensão sobre as formas de influência de "fatores sociais, culturais, políticos, ideológicos, discursivos e disciplinares" na realidade é imprescindível para realização de sua pesquisa, pois tais especificidades moldam diferentes perspectivas e auxiliam na escolha e desenvolvimento das "ferramentas metodológicas, teóricas e interpretativas"9:39.

A criatividade foi bem expressa em nossa fase de coleta e análise dos dados, em que amparadas pela bricolagem, constituímos diversos materiais de análise, combinando técnicas diversas e construímos assim nossa própria forma de análise, que podemos dizer, foi o ápice de nosso processo criativo, pois fez-se necessário pensar minuciosamente e cuidadosamente sobre as estratégias de organização dos dados e seus formatos de interpretação.

O desafio da criatividade nos remete ao estereótipo de que, como bricoleurs, nos assemelhamos a inventores, pois ambos se mantém focados no futuro "explorando o domínio das possibilidades" no presente. Ela confere liberdade ao humano que há confinado dentro de cada cientista, permitindo que a subjetividade tenha voz no processo de pesquisa9:104.

Dessa forma, com o respaldo de formas de interpretação já descritos em outros estudos7,17, constituímos em mapas de significados os fragmentos que compuseram o fenômeno investigado no intuito de atribuir-lhe sentido interpretativo.

Na bricolagem, a interpretação inicia-se com o POETA - Texto como Porta de Entrada. "Ele é qualquer coisa que tenha ou que possa produzir sentido - uma imagem, um livro, uma fotografia, uma teoria"9:45.

Obtivemos diferentes POETAs derivados da combinação de procedimentos diversificados no processo de coleta dos dados. Essa característica reforçou o aspecto multilógico da pesquisa, sendo todo o material submetido a processo de interpretação.

Com aporte teórico na Hermenêutica, o ato de interpretar na bricolagem é regido de forma crítica e considerando as relações de poder do contexto. Essa etapa de pesquisa possibilitou oportunidade de criarmos nossa própria forma de análise, categorizando-se como atividade mais artesanal que propriamente metodológica.

Essa etapa de análise e interpretação, na bricolagem é considerada como uma aproximação temporária de explicação sobre os dados, pois nesta perspectiva de pesquisa não existem verdades objetivas sobre um fenômeno, uma vez que a realidade é instável e dinâmica.

Primeiramente, o movimento no tratamento dos dados constou na organização dos POETAs e em suas interpretações individuais, a fim de compreender melhor as diferentes nuances que poderiam ser identificadas. Em seguida, tais dados foram mapeados de forma integrada, em uma interpretação considerando o contexto e suas interpenetrações. Dessa forma, nos mapas centrais foram descritos os pontos 'fortes' emergindo as categorias empíricas e subcategorias que foram discutidas à luz do referencial da complexidade e da pedagogia libertadora.

Para essa etapa, foi realizada um processo de 'ir e vir' entre atividades que envolveram a leitura inicial dos POETAs, que proporcionou certa familiaridade com os dados; a leitura aprofundada, pela qual já fomos extraindo e demarcando alguns significados; a construção de mapas, onde foram integrados os 'pontos fortes' de cada conjunto de significado; tão logo realizamos uma reunião desses mapas com visualização ampliada, para a partir da riqueza de tais dados apresentados, elencar entre os mesmos, quais constituiriam nossas categorias de análise.

Para este estudo, afirmamos ter realizado a interpretação da interpretação17, que revela a participação da subjetividade das pesquisadoras no processo de análise, guiadas pelo referencial teórico.

A utilização da bricolagem possibilitou riqueza de dados tão significativa, que transformou em desafio neste estudo, selecionar dentre tantos resultados obtidos, que viriam descritos na versão final da dissertação. Para tanto, priorizamos os objetivos da pesquisa com o intuito de garantir o cumprimento dos prazos estipulados pelo programa de pós-graduação em nível de mestrado.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A proposta de trabalhar com metodologia ativa de ensino como a ABP em currículo ainda tradicional, aplicando-a em uma única disciplina, nos confrontou com diversos empecilhos que são naturais ao contexto no curso de um processo de mudança. Com a bricolagem, tivemos a oportunidade de criar cenários favoráveis à condução da pesquisa, e mediante tais empecilhos, pudemos operacionalizar a ABP adaptada a nossa realidade utilizando nesse processo, materiais e recursos que tivemos disponíveis.

A bricolagem possibilitou olhar ampliado sobre a condução da ABP em cenário adverso. Exigiu que as pesquisadoras exercitassem e desenvolvessem sua criatividade, bem como envolvessem sua percepção sobre o fenômeno estudado, proporcionando o transitar pela pesquisa criando, retomando e revisando os passos concluídos sempre que houve necessidade.

Dessa forma, acreditamos que foram aprimoradas as possibilidades de investigações educacionais, levando-se em conta o contexto, as relações pedagógicas estabelecidas, as reações características e não características do processo de mudança, ou seja, as relações de poder envolvidas na realidade complexa de um ambiente educacional.

A utilização da bricolagem foi uma etapa importante a ser definida na construção desta pesquisa, visto que se trata de metodologia que não elucida um caminho a priori. Para tanto, foi necessária a reforma do pensamento pelas autoras, ressaltando a necessidade de inovação metodológica no desenho da pesquisa, de forma a atender toda a multidimensionalidade envolvida.

Na condição de pesquisadoras bricoleurs, afirmamos o envolvimento de nossas percepções e o objeto de investigação. Tal referencial foi capaz de ir além não só respaldando a construção metodológica para esta pesquisa, mas também, modificando nossa forma de pensar e agir diante do mundo, preparando-nos para a chegada de um futuro incerto.

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Recebido: 22 de Dezembro de 2015; Aceito: 29 de Abril de 2016

Autor correspondente: Leonara Raddai Gunther de Campos. E-mail: leonaragunther@hotmail.com

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