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Psicologia: Ciência e Profissão

Print version ISSN 1414-9893

Psicol. cienc. prof. vol.23 no.2 Brasília June 2003

https://doi.org/10.1590/S1414-98932003000200005 

ARTIGOS

Prostituição juvenil: uma condição existencial em busca de seus sentidos1

 

Youth prostitution : an existential condition in search for its meanings

 

 

Ana Maria Ricci Molina*

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A prostituição, no Brasil, vem sendo exercida por algumas crianças e adolescentes. Estudos apresentam como seus fatores constitutivos as questões estruturais (condição sócio-econômica desfavorável) e as simbólicas (relações de poder entre gênero e dinâmica familiar). Esta é uma pesquisa piloto, com embasamento teórico-metodológico sobre o estudo de produção de sentidos através das práticas discursivas. Com os estudos de casos, fez-se a análise do discurso das entrevistas realizadas com jovens que “fazem ponto” nas ruas de Ribeirão Preto/SP. Pode-se compreender a prostituição juvenil como um dispositivo capaz de produzir sentidos à suas histórias de vida, representações de resistência e sobrevivência a uma condição de solidão e revolta.

Palavras-chave: Prostituição juvenil, Problemas sociais, Produção de sentidos.


ABSTRACT

Prostitution, in Brazil, is practiced by a lot of children and adolescents. Studies present as its constitutive factors structural (unfavorable socio-economical condition) and symbolical (relations of power between females and familiar dynamics) matters. This is a pilot research with a theorical-methodologycal basis on the study of the production of meanings through discursive practices. Through the study of cases we have analyzed the speech of the interviews made with young people who “work” in the streets of Ribeirão Preto/SP. We may understand the prostitution of young people as a device able to bring meanings to their lives, representations of resistence and survival in a condition of loneliness and revolt.

Keywords: Prostitution of young people, Social problems, Production of meanings.


 

 

No Brasil, o estudo da representação social sobre profissionais do sexo (Castro, 1993) revela que a prostituição se dá por questões estruturais (necessidades básicas e de consumo da família) e por questões simbólicas (posicionam-se com certa intensidade de poder em seu núcleo familiar). Para Sampaio (1999), a prostituição também se configura como uma prática da autonomia da mulher em relação aos homens, apresentando-se como um exercício de poder, pelo qual o homem teria acesso ao seu corpo através do pagamento pelos seus serviços sexuais.

Gomes, Minayo e Fontoura (1999) analisam as representações sociais e as relações estruturais em torno dos relatos sobre a prostituição infantojuvenil, prestados à Comissão Parlamentar de Inquérito. Concluíram que, em um cenário social, seu acontecimento é envolvido por expressões histórico-culturais, sendo fundamentada na comercialização do corpo dessas pessoas por coerção/escravidão ou para atender necessidades básicas de sobrevivência.

Segundo Dimenstein (1992), famílias desestruturadas, ausência paterna por falecimento ou abandono, história de abuso sexual, desqualificação profissional, crianças e adolescentes em situação de “ cativeiro sexual”, abortos precários e ajuda financeira à família são situações vivenciadas por crianças e adolescentes inseridos na prostituição pelos Estados do Brasil.

Assim, temos a noção de que as pessoas se inserem no campo da prostituição envolvem questões sócio-econômicas desfavoráveis e questões simbólicas, como relações de gênero e dinâmica familiar. No entanto, questiona-se se isso também acrescenta, na história da pessoa, um campo de sentidos à sua existência (SPINK, 1999, 2000).

Em Ribeirão Preto/SP, a prostituição infantojuvenil é relatada pelas próprias profissionais de sexo, que participam da ONG “Vitória Régia - núcleo de apoio feminista”. Logo, conhecer a realidade local se justifica pela necessidade de articulação de um projeto social para essas pessoas que se encontram em situação de risco, segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente.

Portanto, o objetivo desta pesquisa piloto foi o de analisar a produção de sentidos em torno dessa problemática, verificando fatores que influenciam e cristalizam seu acontecimento na história da pessoa.

 

Método

Esta pesquisa foi embasada na produção de sentidos a partir de práticas discursivas, de Spink(2000). Os sentidos e posicionamentos das pessoas agenciam construções de práticas discursivas, cuja institucionalização possibilita fluxo contínuo de produção de sentidos e explicações para os acontecimentos da vida. A análise dos sentidos, dessa forma, permite a construção de um conhecimento qualitativo baseado nas cenas e repertórios que os sujeitos apresentam sobre a prostituição em suas vidas.

Nesse sentido, foram entrevistadas duas profissionais do sexo, do gênero feminino, que começaram a praticar prostituição de rua antes dos 18 anos (entrevistas semi-dirigidas, gravadas e transcritas). Essas entrevistas foram analisadas mediante a técnica de associações de idéias (Spink, 2000) para a leitura de uma intertextualidade sobre a história de vida dos sujeitos desta pesquisa.

 

Resultados e Discussão

Sabe-se que, quando um indivíduo nasce em um tempo determinado, e num espaço localizado participa de uma história coletiva (pública e privada) a lhe imprimir marcas sociais. Toda uma condição existencial é significativamente construída através da realidade sobre si mesmo, uma verdade sujeita às tramas sóciomateriais, mas também através da criação de ética pessoal que escapa de uma sociedade disposta a disciplinar vidas em prol do exercício e da manutenção de seu sistema (FOUCAULT, 1994).

Nesse sentido, encontram-se diversidades existenciais, sujeitos que através de um processo contínuo de subjetivação singularizam sua história, tornam-se pessoas que politizam uma realidade plausível para lhes explicar a vida (SPINK, 1999). Sobre a prostituição, pode-se dizer que ninguém nasce prostituta, mas, como tal, a pessoa marca a realidade nessa condição ao negociar a relação sexual. Assim, institucioliza-se o sexo quando se faz uso do prazer, da união de dois corpos sob um ato mercantilista.

Enfim, encontram-se realidades pessoais sendo construídas sob o sufoco da solidão ou o grito da revolta (SENNET, 1998). A prostituição acontece como núcleo de resistência associado à sobrevivência diante dos infortúnios da vida (SAMPAIO, 1999). Assim, não se trata de criar tipos psicológicos que se orientam para a realização dessa situação existencial, mas de um lugar inventado como propício para se enfrentar o que a vida ainda pode oferecer. Então, se dispõe a entender o porquê de a prostituição se fazer existir através de seus significados, como escolha pessoal, como território capaz de dar consistência, força, voz e velocidade à conquistas diante de uma vida até então vista por suas perdas:

“ ...eu vou ficar aqui sozinha, você sabe que eu não tenho ninguém...”

“ ...eu queria ter uma família pra mim...eu sou revoltada por causa disso até hoje...”

Se nasce em uma família, aquela que torna familiar o mundo em que se vive. Neste espaço, há desejos, jogos de interesses, afetos que circulam, e também uma condição material capaz de dar sentido aos modos de ser e estar. Tudo o que acontece nas dimensões sócioeconômicas da sociedade revela a condição política para o sujeito viabilizar uma história real sobre si mesmo, e foi conhecendo a trajetória dessas vidas que se observou um processo: acontecimentos dando margem para que fosse criado outro lugar possível para se viver.

A perda do pai: nessas famílias, há mãe e também pai, cujos títulos estão carregados de valores e sentimentos sobre a identidade dos filhos. Psicologicamente, ao pai é atribuído o marco da Lei; é ele quem interdita a relação fusional entre mãe e filho, a figura que revela ao pequeno sujeito que há faltas, mesmo quando se deseja a completude e, por isso, deve encontrar uma forma de se posicionar no mundo para “dar conta” desse vazio simbólico (NÁSIO, 1995).

As mulheres desta pesquisa perderam essa figura real muito cedo, com três anos de idade, porém, não há registro suficiente para explorarmos o posicionamento dessas pessoas diante da marca. Tem-se apenas a referência de que essa perda produziu sentidos trágicos, como o de não haver sustentação e/ou perda de uma referência que equaciona, protege, dá parâmetro para interditar ações:

“...ele me abandonou....e foi indo até que comecei a fugir de casa...”

“...eu tinha vergonha de falar que eu não tinha um pai pra mim......”

Fracasso escolar: historicamente, a instituição escolar possui um lugar na sociedade: o de formar, disciplinar vidas através do acesso e da produção de conhecimentos; é um lugar para se educar/docilizar a alma (ARIÈS, 1981, FOUCAULT, 1997).

Essas pessoas já viviam sem a referência real de uma figura paterna - não sendo possível reconhecer como essa figura lhes foi transmitida pela mãe -; a escola, então, seria outro lugar para construir-lhes parâmetros de interdições; porém, em nenhum momento essa instituição parece ter ocupado tal espaço em suas vidas, ao contrário, dele buscaram-se formas de excluílas; o mundo, a rua, a diversão, apresentavamse mais sedutores e dispostos a lhes criarem um sentido de pertencimento.

“...porque eu via todo mundo na rua, não tinha nada pra fazer, e eu queria ficar ali no meio...a professora falava assim pra minha mãe ah, você pode mudar a sua filha de escola.....”

“...é que eu via os menino fazendo bagunça eu queria fazer também...eu era a única que escutava reclamação...”

Primeira relação sexual: saindo e/ou fugindo de casa para ir a bares, boates ou outros locais, como a rodoviária, tudo são momentos para o exercício de sua sexualidade, mesmo em uma idade moralmente precoce, aos 10/11 anos.

“... aquela coisa que eu ia falá que eu não era mais virge...”

“... eu fui mais por curiosidade, pra eu ver como é que era...”

O exercício da sexualidade manifesta uma busca de conhecimento, de saber sobre a produção e o uso do prazer (Foucault, 1994). Esse sentido se acha atrelado ao afeto sobre o próprio corpo ou ao corpo do outro, coincidentemente frustrado.

“... nossa, eu gostava dele demais ... me iludi pra nada ...”

“,...por mais que eu faço, ainda eu tenho curiosidade de saber ... porque eu não consegui chegar ao orgasmo...”

Esse exercício da sexualidade foi controlado pela mãe, transformando a relação sexual em uma forma de transgressão à sua ordem, para a qual a reação materna foi a agressão física contra o outro.

“...quando você quiser ter um homem, você fica virge...”

“... ela falava assim que eu já tinha enterrado metade dela...”

“... ela mandou chamar o moço ... Então ela pegou, bateu nele, né...’’

Gravidez: aconteceu aos 11/12 anos e, nesse processo, o exercício da paternidade foi impedido pela mãe.

“...ela só não achava certo eu ficá com o pai do meu filho...”

“... então minha mãe não aceita ele ... ele queria ver a criança e minha mãe não aceitava...”

Essa mãe se posiciona como protetora da virgindade da filha, mas de forma ineficiente, pois as fugas para “curtir à noite” continuavam, e quando a gravidez da filha aconteceu, a mãe oprimiu a sua relação com o pai da criança. Que mãe é essa que não suporta a presença de uma figura masculina na vida da filha? Além desse fato, outro acontecimento sobre a maternidade dessas meninas é a tutela da criança pela avó.

“... eu vou, mas o meu neto eu não deixo...”

“... eu sonho em ter a minha filha a voltar a morar comigo, minha mãe não deixa ela vir, né...’’

Assim, essa grávida aceita a interferência da mãe sobre sua maternidade e reproduz a ausência paterna, endeusando a imago materna. O imaginário da mãe poderosa e, conseqüentemente, glorificada, foi interiorizada e sustentada pelo modo como essas mulheres preencheram a ausência da figura masculina em suas vidas ao lutarem pela sobrevivência dos filhos. A maternidade da filha tornou visível e atualizou esse comportamento em sua vida.

“...porque minha mãe lutou... o tanto que a minha mãe sofreu... pra poder criar a gente... eu tenho o maior prazer do mundo de ter a minha mãe...”

“...pra sustentar 10 filhos, escutá o que ela escutava do meu pai...acho que ela é em primeiro lugar na minha vida...”

No entanto, observa-se que, além da ausência da figura paterna, com seus desdobramentos, e apesar de uma vivência imaginária de “mãe fortaleza”, a sua figura também é percebida como distante:

“... que um dia ... a minha mãe foi embora...”

... queria que a minha mãe estivesse perto de mim pra me explicar as coisas, sabe. Nunca tava...’’

São acontecimentos comuns nessas famílias: a ausência paterna produzindo sentimento de abandono e o exercício da sexualidade sem a presença de um impedimento real, porém investida da noção de uma virgindade que parece ser propriedade da mãe. Quando a gravidez acontece, a maternidade reaviva o sentimento de amor pela mãe: a filha enaltece o seu papel ao reavaliar os esforços para sustentála e protegê-la até aquele momento. Uma fusão se realiza novamente, mas o que interditou esse movimento foi a percepção da realidade e dos desejos de cada um. Então, a filha se posiciona, na vida, de modo a ocupar o lugar da mãe: passa a lutar para sustentar o próprio filho e tentar recompensar a mãe pelos cuidados.

Assim, esses acontecimentos, de alguma forma, precipitaram núcleos de solidão e revolta capazes de produzir uma busca, não só pela sobrevivência material - que é pertinente -, mas, principalmente, por uma ocupação através da prostituição, em uma cultura que reproduz e causa o impedimento de uma relação afetiva com uma figura masculina e que tem como efeito a transgressão e a resistência do movimento feminino em sociedade (Sampaio, 1999).

Prostituição: acompanhando o decorrer da vida dessas pessoas, suas histórias evidenciam um quadro de flagrantes reais de perdas sucessivas: a prostituição apresenta-se como forma, solução, caminho possível para enfrentarem a vida por volta dos 14 anos de idade. Nesse sentido, algumas situações favoreceram a consecução desse plano ao fortalecer essa decisão. Apresenta-se, então, uma rede de produção de sentidos produzidos e exercidos através da prostituição:

• compromisso de sustentar o filho: os sentimentos de maternidade exercitam a busca de melhora na situação sócio-econômica como forma de valorização da própria identidade:

“... não tinha outra opção, quem que teria que sustentar era eu, né, logicamente fui eu que tive filho...”

• Auxílio material à mãe e custeio de despesas pessoais:

“... porque eu tenho que ajudar a minha mãe, tenho que mandar as coisas pra minha filha, eu tenho as minhas despesas, entendeu”

Entende-se que a pessoa envolvida com a prostituição assume a ajuda financeira à mãe. Mesmo em uma família com vários filhos, é ela quem se torna seu arrimo, sentindo-se, emocionalmente, como a salvadora da casa mediante o fruto de seu trabalho.

• As relações de trabalho e produção de capital:

“... Por que a Livia tá aqui tá trabalhando, que que ela tá ganhando? tá ganhando nada...”

“... como é que nóis vai arrumar um serviço, eu não tenho curso nenhum de nada... ainda quando eu trabalhei a mulher não me pagava...”

Ninguém quer empregar um menor de idade por causa da Lei, ninguém quer empregar uma pessoa sem qualificação profissional, ninguém quer revelar sua mais-valia. Então, encontramos no campo social um exército de reserva de baixa qualificação profissional, que busca alternativas de sobrevivência (Singer, 1999).

• Condição do trabalho infanto-juvenil:

“... arrumá um serviço assim direitinho, você sabe que é difícil por causa da idade...”

“... é proibido de menor trabalhá, mas só que tem uma coisa: menor também come, menor também bebe, menor também precisa de roupa e ninguém vê isso...”

O menor de idade se encontra desassistido materialmente devido a toda uma dimensão estrutural de distribuição de renda que gera injustiças sociais. Fica, então, à deriva no campo social, sendo encaminhado para a ocupação que lhe seja possível: sub-emprego, tráfico, prostituição, trabalho informal e outras. Essas pessoas utilizam o argumento da idade para justificarem e, assim, sustentarem sua escolha pela prostituição, já que existem alternativas, mas a ocupação nesse campo representa a solução para seus problemas.

• Sedução imaginária quanto ao retorno financeiro: de onde vem essa imagem-ação, esse murmúrio anônimo que as fazem crer nessa possibilidade? A prostituição se apresenta como força imaginária em relação à possibilidade de ganhar dinheiro fácil, rápido, imediato, realizando aquilo que sabem fazer: sexo:

“... então essas muié que vai lá e faz programa ganha um monte dinheiro...”

• uso do prazer que o corpo produz, investido como produção de capital:

“... nóis dá tanto de graça, e se nóis dá de graça nóis não vai ganhar dinheiro nenhum...”

Diante de uma realidade material precária, esse significante - “dar de graça” – marca violentamente a possibilidade de deslocar seus sentimentos e agir por dinheiro. Tal fala chama a atenção pela sua veracidade: a sexualidade, antes exercida através de seu componente libidinal, agora a faz pensar que esse investimento pode ser suplantado pelo ganho financeiro.

• A estética do prazer como estratégia de controle do prazer masculino:

“ ... se nóis der por dinheiro os cara vai ficar com vergonha de falá que pagou e não vai sair falando pra todo mundo, mesmo se for conhecido da gente...”

A trajetória de vida dessas pessoas revela o exercício da sexualidade através do desejo de boicotar a cultura masculina (sua virilidade). O homem revela que transou, mas não diz a identidade da pessoa, pois esta se torna anônima pela profissão e, imaginariamente, se sente como alguém que controla e impede a virilidade masculina ao negociar a “transa”.

• A ética do sujeito sobre a produção de seu corpo: observou-se o quanto o significante sexo por dinheiro é sustentado pelas dificuldades materiais, mas o ato de continuar a ter diversidade de relações sexuais é mantida independentemente dessa situação. Tal fato revela uma ética pessoal sobre a estética do uso dos prazeres que o corpo pode produzir (Foucault, 1994).

“... eu acho que eu continuaria (a dar de graça) ... porque se a minha família fosse bem de vida ... pra que eu ia entrar pra vida...”

Diante dessa rede de sentidos sobre a condição de suas vidas, a alternativa encontrada foi a de se institucionalizarem na cultura da prostituição, mas para chegarem a essa decisão há uma intermediação de alguém já envolvido. O argumento do mediador vai ao encontro das expectativas da pessoa:

“ pelo menos não fica saindo com um e com outro e não ganhava nada...”

A decisão de se prostituir gera indecisão quanto ao aspecto afetivo, pois a idéia de passar a fazer parte desse segmento traz, inicialmente, certa inquietação sobre como suportará o acontecimento, como poderá praticar sexo sem prazer, até então experimentado:

“... aí meu Deus eu vou dar por dinheiro prum cara que eu nunca vi na minha vida, que eu não sei como ele vai me tratar... “

O encontro pessoa-prostituição gera, dessa forma, certo estranhamento. Afinal, não havia a dicotomia corpo: produção de prazer e corpo: produção de capital.

“... eu sentia nojo, não via a hora deles terminá sabe, pra mim poder tomar banho ... De ver o rosto da pessoa, e não era a pessoa que eu queria tá naquele momento...”

Uma vez decidida e apresentada para a prostituição, a profissional busca uma definição para que o ofício lhe se torne familiar:

“... você tá vendendo ou você tá dando, ou você tá fazendo uma troca pelo o que é seu, o que é seu: seu corpo...”

“... mas se você tá ali você não vai pensar em ganhar prazer, você vai só pensá em ganhar dinheiro... Porque o que acontece, ele paga e a gente vai lá e faz ele gozá...”

Mesmo com tal produção de sentidos, a utilidade do corpo para a venda de prazer ao outro se torna subjetiva através dessa representação. Assim, o corpo é um território de prazer, mas o seu uso não deve estar subordinado a esse tipo de produção de vida, e sim, ao produto que pode oferecer: o rendimento monetário. Essa condição registra disposição de potencializar a troca de prazer pelo dinheiro:

“... Eu ia pelo dinheiro, entendeu. Não era pelo prazer, por nada...”

“... você tem que tá aguentando porque ele que pagou você que quis ir com ele ...”

Para “ir com ele”, a prostituta desenvolve estratégia que lhe assegura dignidade enquanto pessoa capaz de fazer amor, evitando que seu afeto seja corrompido.

“... que a gente falava que a gente não beija na boca...”

“ah, tem dia que eu fico histérica ... porque eu tento sentir prazer e eu não consigo, mesmo com os clientes...”

No entanto, a vivência dessa cultura permite à pessoa estar submetida aos acontecimentos da rua:

“... tipo assim do cara sai com você não pagá , ou do cara saí e te machucá, te batê...’’ E ainda, psicologicamente. “... eu se senti um lixo ... parecia uns tomate podre que eles vão lá pra escolhê ... ele qué te comê só porque ele tá pagando 20 real...”

Circular nesse meio produz uma rede de sentidos capaz de sustentar e fortalecer seu estado - são sentidos que promovem efeitos de manutenção, sendo o retorno financeiro o principal deles:

“... você nem sente nada, você só pensa no dinheiro. Aí você tá lá com o cara, mas você tá lá pensando no dinheiro...”

“... eu tinha dinheiro eu comprava roupa ... sapato...as coisas pra dentro de casa... mandava dinheiro pro meu filho ... minha mãe não gastava um tostão dela...”

Esses efeitos de manutenção também agenciam efeitos de impedimento:

“... oh, acabou seu tempo, gozou acabou, vamo embora...”

“... nem posso gostar dele, porque é totalmente pelo dinheiro ... Aí, pra quê? ... uma coisa que eu sei que eu não vou poder ter nunca mais. Só se ele gostar da minha relação ... 0 que ele vai virar? meu cliente, vai ser nada mais que meu cliente...”

Nada mais que um cliente. O afeto deve ser neutralizado. Essas pessoas institucionalizaram o impedimento de amar. A prostituição não fez isso, apenas manteve tal situação, mas o modo como enfrentaram a sua história de perdas e sofrimentos lhes imprimiu essa ética. Enfim, todo corpo se insere socialmente, promovendo sentidos à sua produção:

“... ah, serve pra me dá vida, serve pra me dá saúde, serve também por enquanto pra eu poder ganhar meu dinheiro...”

“...ah, não sei (silêncio) Não sei, que eu posso oferecer mais (silêncio) minha conversa?, só se eu virar psicóloga (risos)...”

O corpo de todos nós serve para algo, pois socialmente esse algo se encontra voltado para uma produção coletiva e não pessoal, porque nosso corpo não é nosso, é do sistema. Ganhar dinheiro é o fundamento que nos circunda para fazer a máquina girar; nesse sentido, todos temos algo para vender: a conversa do psicólogo também tem um preço, assim como o corpo da prostituta. Essas linguagens, na realidade, escondem o fato de que o nosso corpo pode ser nosso: “.... Deus, eu sei que isso é errado, mas me abençoa pra esses fia da puta i embora...”

Intervenção: depois das entrevistas, foi oferecida uma vaga a Milena, de 14 anos, na oficina de dança do Programa Ribeirão Criança. Lá, além de trabalhar o movimento do corpo, iria receber vale-transporte e uma bolsa-auxílio no valor de R$ 90,00, mas ela não tem participado do projeto. A Dória, de 17 anos, foi ofertada uma vaga de emprego como vendedora em uma loja de roupas, através do Programa Ribeirão Jovem - Primeiro Emprego, mas ela não apareceu para ocupar seu lugar. Essas oportunidades foram agenciadas pela ONG “Vitória Régia”, em parceria com a Prefeitura de Ribeirão Preto/SP.

 

Considerações

Prostituição: um dos territórios onde se institucionaliza o sexo, além de servir para a promoção de uma forma de produção de capital. Mas pertencer a esse segmento imprime alguns sentidos do uso estético do corpo no exercício de uma ética da vida.

A ética dessas pessoas se acha envolvida pelo desejo “do grito”, um ato silencioso de denúncia do sofrimento que acomete suas vidas. Desse modo, escolhem uma forma de manifestar a injustiça e de lutar pela própria dignidade. Essa foi a escolha política dessas pessoas: com um plano de luta traçado, sua arma é o corpo e o inimigo é a história de toda uma vida com produção de sentidos infortunados.

A trajetória de vida das entrevistadas apresenta ausência da figura paterna, família (des)estruturada, dificuldades materiais, fracasso escolar, relação sexual e gravidez precoces, glorificação da figura materna, dificuldades de vinculação empregatícia, ser arrimo de família.

Na prostituição é criado um campo de pertencimento, uma família que lhe mostra que é possível produzir algo, porque se assim não fosse, o corpo continuaria pertencendo a uma estética do uso dos prazeres, sem o investimento mercantil. Como prostituta evidencia-se a possibilidade de transformação sócioeconômica, mas não revela que o uso do prazer está além dessa instituição.

Quem faz relação sexual por prazer ou por dinheiro? Essas são questões morais, mas o uso que se faz do corpo está vinculado a uma ética, e é essa ética que corresponde à processualidade de uma vida nova: sustentável financeiramente e com relações de gênero impedidas por sua ocupação, forma de defesa em relação às sucessivas perdas de figuras masculinas em suas vidas. Desta pesquisa piloto pode-se levantar a hipótese - para posterior averiguação e aprofundamento - de que essas pessoas se posicionam em uma estruturação histérica, inseridas socialmente em um discurso perverso.

A intervenção, na condição material, não foi suporte suficiente para resgatar essas histórias do campo da prostituição; logo, sugere-se que a intervenção deva passar por outras estratégias, porque a dimensão financeira desfavorável não é o único fator constitutivo à entrada e permanência nesta modalidade de trabalho, porém é um argumento fortemente defendido pelas profissionais quando questionadas sobre seu posicionamento.

 

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Endereço para correspondência
Ana Maria Ricci Molina
Rua Guiana Inglesa, 450. Edifício Manchester
Aptº 62, Jardim Independência
14076-080 Ribeirão Preto-SP
E-mail: aricci_molina@hotmail.com

Recebido 23/11/02
Aprovado 28/02/03

 

 

* Parceira da ONG Vitória Régia – núcleo de apoio feminista.
1 Esta é uma pesquisa piloto sob supervisão do Prof. Dr. Sérgio Kodato, da FFCLRP-USP.

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