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Revista de Nutrição

versão impressa ISSN 1415-5273versão On-line ISSN 1678-9865

Rev. Nutr. vol.27 no.5 Campinas set./out. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/1415-52732014000500001 

Artigos Originais

Evolução do excesso de peso e fatores associados em mulheres de 10 a 49 anos em Pernambuco, Nordeste, Brasil1

Overweight changes and associated factors in women aged 10 to 49 years from Pernambuco, Brazilian Northeast

Emilia Chagas Costa 2  

Pedro Israel Cabral de Lira 3  

Juliana Souza Oliveira 2  

Risia Cristina Egito de Menezes 4  

Fernanda Cristina de Lima Pinto Tavares 3  

Malaquias Batista Filho 5  

2Universidade Federal de Pernambuco, Centro Acadêmico de Vitória, Núcleo de Educação Física. R. Alta do Reservatório, s/n., Bela Vista, 55608-680, Vitória de Santo Antão, PE, Brasil. Correspondência para/Correspondence to: EC COSTA. E-mail: <eccosta@hotmail.com>

3Universidade Federal de Pernambuco, Centro de Ciências da Saúde, Departamento de Nutrição. Recife, PE, Brasil

4Universidade Federal de Alagoas, Faculdade de Nutrição. Maceió, AL, Brasil

5Universidade Federal de Pernambuco, Centro de Ciências da Saúde, Programa de Pós-Graduação em Nutrição. Recife, PE, Brasil


RESUMO

OBJETIVO:

Este estudo tem como objetivo verificar a evolução do excesso do peso e fatores a ele associados, em mulheres de 10 a 49 anos, no Estado de Pernambuco, em pesquisas realizadas em 1997 e em 2006.

MÉTODOS:

Trata-se de estudo transversal, de base populacional, com amostra probabilística representativa dos meios urbano e rural de Pernambuco, abrangendo 1

.

105 mulheres em 1997, e 1

.

464 em 2006. Para mulheres entre 10 e 19 anos, foi utilizada a relação índice de massa corporal/idade, observados os seguintes parâmetros: déficit de peso: valores abaixo de -2 escores-Z; peso adequado: entre -2 e <1 escores-Z; sobrepeso: >1 e <2 escores-Z; obesidade: >2 escore-Z. Para mulheres com idade superior a 19 anos, consideraram-se os seguintes valores: déficit de peso: índice de massa corporal <18,5; normal: índice de massa corporal >18,5 e <24,9; sobrepeso: índice de massa corporal >25,0 e <29,9; obesidade: índice de massa corporal >30 kg/m2. A análise de regressão de Poisson foi utilizada para avaliar a associação entre o excesso de peso e as variáveis explanatórias.

RESULTADOS:

Em relação ao estado nutricional no período compreendido entre 1997 e 2006, houve um aumento significativo no sobrepeso e obesidade, com estabilização na prevalência de déficit de peso. O excesso de peso aumentou de 32,8% em 1997 para 41,7% em 2006, representando um incremento de 27,1%. As mulheres da Região Metropolitana do Recife, do Interior Urbano e Rural apresentaram um aumento de excesso de peso de 40,2%, 6,8% e 45,2%, respectivamente. Na avaliação dos fatores associados a esse agravo, em 2006, permaneceram significantes, após ajuste, baixa escolaridade (quatro ou menos anos de estudo), a posse de três ou mais bens de uso doméstico, idade e maior número de gestações, em contraste com o estudo de 1997, que apontava sobrepeso associado à idade e ao maior número de gestações.

CONCLUSÃO:

O excesso de peso em mulheres em idade fértil, no Estado de Pernambuco, aumentou significativamente, observando-se menor ritmo no Interior Urbano. Evidencia-se nas categorias de condições socioeconômicas e microambientais mais favoráveis uma clara desaceleração no incremento temporal do excesso ponderal.

Palavras-Chave: Estudos transversais; Mulheres; Obesidade; Prevalência; Sobrepeso

ABSTRACT

OBJECTIVE:

To verify changes in overweight and associated factors in women aged 10 to 49 years from the state of Pernambuco in 1997 and 2006.

METHODS:

This population-based cross-sectional study used a probabilistic sample of women representative of the urban and rural areas of Pernambuco: 1,105 in 1997 and 1,464 in 2006. Body mass index-for-age was used for women aged 10 to 19 years; women with Z-score <-2 were considered underweight; women with -2 < Z-score <1 were considered normal weight; women with 1<Z-score <2 were considered overweight; and women with Z-score < 2 were considered obese. Women aged more than 19 years were considered underweight when body mass index <18.5; normal weight when 18.5 < body mass index <24.9; overweight when 25.0 < body mass index <29.9; and obese when body mass index >30 kg/m2. Poisson regression assessed the association between excess weight and the explanatory variables.

RESULTS:

In Pernambuco overweight and obesity rates increased significantly, and underweight rate remained stable between 1997 and 2006. Overweight increased from 32.8% in 1997 to 41.7% in 2006, an increase of 27.1%. Women from the metropolitan region of Recife, and urban and rural areas of the state presented an increase in overweight of 40.2%, 6.8%, and 45.2%, respectively. The overweight-related factors that remained significant in 2006 after adjustment were: having three or more home appliances, low education level (four or fewer years of formal education), more pregnancies, and higher age, in contrast to the 1997 study where overweight was associated with having had more pregnancies and having higher age.

CONCLUSION:

Excess body weight in women of childbearing age in the state of Pernambuco, increased significantly, with the lowest decreased seen in urban areas outside the state capital. In the categories of more favorable socioeconomic and microenvironment conditions, the increment of excess weight clearly slows down.

Key words: Cross-sectional studies; Women; Obesity; Prevalence; Overweight

INTRODUÇÃO

No início do século passado, quando o sobrepeso e sua representação clínica mais ca-racterística - a obesidade -, eram eventos raros e percebidos como manifestação de bem-estar econômico, social, físico e até como idealização de valores estéticos nas artes plásticas, seria impensável admitir que o excesso de peso viesse a se converter na mais importante e desafiadora epidemia dos tempos atuais. O contraste dessas duas imagens históricas pode ser assumido como a ilustração marcante de um processo de mudan-ças sem precedentes na história nosográfica da humanidade: a transição epidemiológica nu-tricional1.

Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS)2, pelo menos 2,8 milhões de pessoas morrem anualmente como resultado do excesso de peso, calculando-se que, em 2015, 2,3 bilhões de adultos serão obesos. Trata-se de um processo pandêmico que extrapola fronteiras geopolíticas, blocos econômicos, cultu-ras e estratos sociais, com a observação surpreen-dente de que hoje, ao contrário do passado, são as camadas mais pobres dos países ricos ou de nações em desenvolvimento que constituem os segmentos mais expostos a sua ocorrência3.

Tipificada pelo acúmulo excessivo de teci-do adiposo e tendo como fundamento etiopato-gênico o elevado consumo de calorias ao lado de acentuada redução da atividade física que ca-racteriza o sedentarismo, a díade sobrepeso/obesidade é a representação epidemiológica mais típica, no campo da saúde, do chamado estilo de vida ocidental, tendo como valores referenciais o consumismo e o conforto material, conhecido na antropologia política como "confortocracia". É uma situação que demarca os termos de uma "mutação antropológica"1. No processo saúde/doença, o excesso de peso corporal aparece como a condição mais comum de um grupo de comor-bidades que reúnem as dislipidemias, a doença vascular hipertensiva, o diabete melitus tipo 2, alguns tipos de neoplasias, podendo eles ser reunidos sob a denominação genérica de Doenças Crônicas Não-Transmissíveis (DCNT). As DCNT re-presentam, atualmente, o principal grupo causa-dor de morte e incapacitação em escala mun-dial2 , 3, em que o Brasil alcança uma participação de 72% no obituário4. Tais doenças representam, ademais, o principal custo com a saúde, tanto na esfera pública quanto na privada, e a principal causa de incapacitações temporárias e definitivas.

A população adulta de mulheres constitui um grupo de elevada vulnerabilidade ao sobrepe-so/obesidade, atingindo a prevalência de 49,0% no Brasil, e de 35,0% em escala mundial2 , 5. Na Europa, no Mediterrâneo Oriental e na Região das Américas (classificação territorial da OMS), mais de 50,0% das mulheres adultas encontram--se nessa condição, caracterizando, de fato, uma pandemia2. No caso do Brasil, segundo quatro inquéritos nacionais realizados desde meados da década de 1970 até a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF, 2008/2009), as prevalências de excesso de peso aumentaram progressivamente de 28,7% para 48,0%, enquanto a obesidade isoladamente elevou-se de 8,0% para 16,9%. Entre as cinco macrorregiões, do País, o Nordeste Brasileiro registrou o maior crescimento compa-rativo do problema6.

Apesar das dificuldades conceituais e me-todológicas em se avaliarem os determinantes do sobrepeso/obesidade, os estudos mais atuais con-cordam em destacar que os fatores socioam-bientais atuam de forma preponderante no de-senvolvimento do problema2 , 7 , 8. Nas mulheres, a idade e paridade, como condições biológicas, assumem uma relação direta com o ganho exces-sivo de peso corporal, enquanto uma vertente dos determinantes socioeconômicos, com destaque para a renda e escolaridade, passaram a repre-sentar uma curiosa relação estatística, na medida em que as tendências atuais começam a indicar um aumento de peso nas faixas de menor renda e escolaridade8 - 11.

O interesse e até mesmo a prioridade de conhecer e acompanhar a evolução do excesso de peso e seus determinantes em mulheres em idade reprodutiva justifica-se na medida em que esse segmento populacional vem apresentando incrementos constantes na prevalência da DCNT. Ademais, no Estado de Pernambuco foram reali-zados três inquéritos de base populacional, representando tanto a população urbana quanto a rural, o que possibilitou o desenvolvimento deste trabalho, comparando as duas últimas pesquisas. O estudo teve como objetivo verificar a evolução do excesso do peso em mulheres de 10 a 49 anos, em 1997 e em 2006, e os fatores a ela associados, como subsidio para a tomada de medidas preven-tivas e de controle do problema no âmbito da Saúde Coletiva.

MÉTODOS

Trata-se de um estudo transversal, de base populacional, realizado a partir de dois inquéritos, demarcando um período de nove anos, com enfo-que descritivo e analítico, mediante abordagem quantitativa. O artigo aqui apresentado teve como fonte primária os bancos de dados referentes à II e à III Pesquisa Estadual de Saúde e Nutrição (II e III PESN), realizadas nos anos de 1997 e 2006, com o objetivo de atualizar e ampliar o diagnós-tico da situação de saúde, nutrição, alimentação e condições socioeconômicas da população materno-infantil do Estado de Pernambuco. Um novo inquérito com o mesmo conteúdo será efe-tuado em 2015, compondo um projeto de estudo de tendência secular nesse Estado.

A amostra, do tipo probabilística, por con-glomerado, com representatividade para os es-tratos urbano e rural do Estado, foi constituída por mulheres em idade reprodutiva, na faixa etária de 10 a 49 anos. As duas amostras estudadas, com 1.105 em 1997, e 1.464 mulheres em 2006, têm um poder de 95% para detectar uma dife-rença observada de 8,9%, admitindo um nível de significância de 5,0%.

O trabalho de campo foi realizado por uma equipe de entrevistadores, antropometristas e técnicos encarregados da coleta e processamento dos exames laboratoriais. Os dados foram obtidos por meio de questionários e exames, realizados em unidades domiciliares, com registro das infor-mações em formulários compostos por perguntas pré-codificadas, referentes a variáveis socioeco-nômicas, demográficas, antropométricas e labo-ratoriais das participantes. Os questionários preen-chidos eram revisados diariamente para iden-tificação e correção oportuna de erros de preen-chimento, checando-se, mediante novas visitas, as informações incompletas, duvidosas ou inconsistentes.

A presença de anemia foi avaliada em amostra de sangue venoso obtida por punção digital e analisada pelo equipamento HemoCue (r), de leitura imediata. A anemia foi definida segundo pontos de corte dos valores da hemoglobina esta-belecidos pela Organização Mundial da Saúde12, sendo consideradas anêmicas as participantes com nível de hemoglobina inferior a 12 g/dL. A avaliação antropométrica foi realizada por antro-pometristas instruídos segundo procedimentos técnicos recomendados pela OMS13 e em obser-vância às normas do Manual de Acompanha-mento do Crescimento e Desenvolvimento do Mi-nistério da Saúde14.

Na II Pesquisa Estadual de Saúde e Nutri-ção, o peso corporal foi obtido por meio de balan-ça digital eletrônica Modelo Personal Line E-150/Filizola(r), enquanto na III PESN utilizou-se balança digital Modelo MEA-03200/Plenna(r), ambas com capacidade máxima de 150 kg e precisão de 100 g. Para aferição da estatura, nas II e III PESN, res-pectivamente, fez-se uso de estadiômetro portátil (Alturaexata(r), Ltda), com amplitude de 200 cm e precisão de 1 mm em toda a extensão. Para assegurar a acurácia das medidas, as aferições foram realizadas em duplicata para cada indi-víduo, com a condição de que a diferença entre as avaliações não excedesse 0,5 cm. Caso esse limite fosse ultrapassado, repetia-se a mensura-ção, anotando-se as duas medições com valores mais próximos e utilizando sua média para efeito de registro.

A relação peso/altura para mulheres entre 10 e 19 anos foi avaliada por meio do Índice de Massa Corporal (IMC)/Idade, a partir das reco-mendações da OMS15, considerando-se déficit: os valores abaixo de -2 escores-Z; adequado: entre -2 e <1 escores-Z; sobrepeso: >1 escore-Z e <2 escore-Z; obesidade >2 escore-Z. Para mulheres acima de 19 anos, na categorização do estado nutricional considerou-se IMC <18,5 kg/m2 como déficit de peso; como normal, IMC >18,5 e <24,9; como sobrepeso, IMC >25 kg/m2; como obesidade13, IMC >30 kg/m2.

As variáveis explanatórias foram repre-sentadas, de forma categórica, incluindo: situação geográfica do domicílio (Região Metropolitana do Recife, Interior Urbano e Interior Rural); renda familiar per capita (<0,25; 0,25-0,49 e >0,50 salários-mínimos); escolaridade (<4; 4-7 e >8 em anos de estudo); posse de bens de consumo, representada em duas categorias (possuir três ou mais; e dois, um ou nenhum dos itens); número de pessoas residentes no domicílio (<4; 4-7 e >8 pessoas); regime de ocupação da moradia (casa própria, alugada e outros); água de beber (tratada e outras formas); acesso à água (rede geral e outras formas); saneamento (rede geral, fossa com tampa e outras formas); destino do lixo (cole-tado e outras formas); idade (10-19, 20-29, >30); número de gestações (nulíparas; 1-2; 3 ou mais), presença de anemia (anêmicas e não anêmicas); e cor da pele (parda/negra e branca).

Os dados das pesquisas foram digitados em dupla entrada, validados, processados e anali-sados utilizando-se o software Epi Info, versão 6.04. A avaliação antropométrica foi interpretada mediante o software Anthroplus-2007. Para as análises estatísticas, foram utilizados os progra-mas Epi Info, versão 6.04, Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) versão 12.0 e Stata 7.0.

A evolução temporal do excesso de peso foi determinada pela comparação das preva-lências e seus intervalos de confiança para os anos de 1997 e 2006, e como razão de proporções para o ano de 1997. Para a comparação das va-riáveis categóricas intergrupos, utilizou-se o teste do Qui-quadrado (verificação de heterogeneida-de) ou o teste do Qui-quadrado com correção de Yates para as variáveis dicotômicas, considerando--se como estatisticamente significante o valor de p<0,05.

As Razões de Prevalência (RP) para excesso de peso foram calculadas para cada variável de exposição por regressão de Poisson para os anos de 1997 e 2006. As variáveis com valor de p<0,20 nas análises bivariadas foram selecionadas para compor o modelo de regressão multivariado, adotando-se o modelo hierarquizado de entrada de variáveis, com a finalidade de avaliar o impacto das variáveis explanatórias. Esse procedimento foi realizado, em relação a 1997 e 2006, obede-cendo-se a um processo de modelagem por blo-cos, de modo que inicialmente foram incluídas no bloco I as variáveis socioeconômicas, man-tendo-se no modelo as variáveis que evidenciaram associação significante com o excesso de peso (p<0,05), No segundo bloco, foram introduzidas as variáveis demográficas e biológicas como per-manência das variáveis com valor de p<0,05, sen-do ajustadas pelas demais. Os resultados foram expressos por RP ajustadas com respectivos Inter-valos de Confiança de 95% (IC95%), sendo consi-derados estatisticamente significantes valores p<0,05.

Os dois projetos de pesquisa utilizados no estudo foram aprovados pelos respectivos Co-mitês de Ética em Pesquisa em Seres Humanos do Centro Ciências da Saúde da Universidade Federal de Pernambuco (II PESN - 27/02/97) e do Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira (III PESN - 09/11/05), seguindo a Reso-lução nº 196/96 do Conselho Nacional de Saúde. Assim, as mulheres que aceitaram participar da pesquisa assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido e foram submetidas às entre-vistas, exames antropométricos e bioquímicos. Os casos com diagnóstico de distúrbio nutricional ou algum outro problema de saúde foram enca-minhados ao serviço de saúde mais acessível do município, para o devido acompanhamento.

RESULTADOS

No gráfico anexo apresentam-se as preva-lências do estado nutricional nos anos de 1997 e 2006, verificando-se que o aumento da obesidade proporcionalmente foi bem maior que a elevação do sobrepeso, enquanto o déficit de peso se man-teve no mesmo patamar de ocorrência.

Figura 1. Evolução do estado nutricional de mulheres de 10 a 49 anos, segundo o índice de massa corporal. Per-nambuco, nos anos 1997 e 2006. 

Na Tabela 1 apresentam-se os resultados referentes à estratificação intragrupo das variáveis explanatórias e as comparações intergrupos repre-sentadas pelas prevalências encontradas em 1997 e 2006. No primeiro enfoque, demonstra-se que, no inquérito de 1997, a área geográfica, os bens de consumo e o número de pessoas por domicílio atuaram como fatores de variação estatistica-mente significante, enquanto a coleta de lixo e o regime de ocupação de moradia (casa própria) apontaram valores de "p" bem próximos dos ní-veis de discriminação de diferenças significativas. Desse modo, as maiores prevalências de excesso de peso foram encontradas entre as mulheres que residiam no interior urbano, que possuíam três ou mais bens de consumo e que apresentavam de quatro a sete pessoas por domicílio.

Tabela 1. Excesso de peso em mulheres de 10 a 49 anos, segundo a localização geográfica do domicílio, condições socioeconômicas, regime de ocupação e saneamento domiciliar no Estado de Pernambuco, nos anos 1997 e 2006. 

Excesso de Peso Aumento
Variáveis PESN-1997 PESN-2006 1997/2006
N n % IC96% N n % IC96% %
Situação geográfica do domicílio
Estado 1 105 362 32,8 30,0-35,6 1 464 610 41,7 39,1-44,2 27,1c
RMR 415 125 30,1 25,8-34,8 415 175 42,2 37,4-47,0 40,2c
Interior Urbano 363 145 39,9 34,9-45,2 366 156 42,6 37,5-47,8 6,8
Interior Rural 327 92 28,1 23,4-33,4 683 279 40,8 37,1-44,6 45,2c
p=0,002 p=0,8
Renda familiar per capita, SM
<0,25 351 102 29,1 24,4-34,2 714 305 42,7 39,1-46,4 46,7c
0,25-0,49 303 100 33,0 27,8-38,6 460 190 41,3 36,8-46,0 25,1a
≥0,50 451 160 35,5 31,1-40,1 290 115 39,7 34,0-45,6 11,8
p=0,2 p=0,7
Anos de estudo
0-3 463 145 31,3 27,1-35,8 354 181 51,1 45,8-56,4 63,3c
4-7 380 128 33,7 29,0-38,7 604 241 39,9 36,0-43,9 18,4
≥8 262 89 34,0 28,3-40,1 506 188 37,2 32,9-41,5 9,4
p=0,7 p<0,001
Bens de consumo *
Possuir três ou mais 845 292 34,6 31,4-37,9 1228 533 43,4 40,6-46,2 25,4c
Possuir dois/um/nenhum 260 70 26,9 21,7-32,8 236 77 32,6 26,8-39,1 21,2
p=0,02 p=0,002
Pessoas/domicílio (n)
<4 112 36 32,1 23,8-41,7 623 258 41,4 37,5-45,4 29,0
4-7 625 223 35,7 31,9-39-6 590 256 43,4 39,4-47,5 21,6a
≥8 368 103 28,0 23,5-32,9 251 96 38,2 32,3-44,6 36,4b
p=0,04 p=0,4
Regime de ocupação da moradia
Própria 694 244 35,2 31,6-38,8 1005 415 41,3 38,2-44,1 17,3b
Alugada 205 60 29,3 23,2-36,1 168 71 42,3 34,8-50,1 44,4b
Outros 206 58 28,2 22,2-34,9 291 124 42,6 36,9-48,5 51,1b
p=0,08 p=0,4
Abastecimento de água
Rede geral 748 254 34,0 30,6-37,5 855 362 42,3 39,0-45,7 24,4c
Outras formas 357 108 30,3 25,6-35,3 609 248 40,7 36,8-44,7 34,3c
p=0,2 p=0,5
Água de beber
Tratada 640 219 34,2 30,6-38,0 774 331 42,8 39,2-46,3 25,1c
Outras formas 465 143 30,8 26,6-35,2 690 279 40,4 36,8-44,2 31,2c
p=0,2 p=0,4
Saneamento
Rede geral 295 109 36,9 31,5-42,8 513 227 44,2 39,1-48,7 19,8a
Fossa com tampa 400 131 32,8 28,2-37,6 497 204 41,0 36,7-45,5 25,0b
Outras formas 410 122 29,8 25,4-34,7 454 179 39,4 34,9-44,1 32,2b
p=0,1 p=0,3
Destino do lixo
Coletado 582 204 35,1 31,2-39,1 889 378 42,5 39,2-45,8 21,1b
Outras formas 523 158 30,2 26,3-34,4 575 232 40,3 36,3-44,5 33,4c
p=0,09 p=0,4

*Nota: televisão, geladeira, fogão e rádio; Nível de significância:

a p<0,05;

b p<0,01;

c p<0,001 (diferenças entre os anos).

PESN: Pesquisa Estadual de Saúde e Nutrição; RMR: Região Metropolitana de Recife; SM: Salário-Mínimo; IC95%: Intervalo de Confiança de 95%.

Já no III Inquérito, na maioria do agrupa-mento de variáveis analisadas, as diferenças não foram estatisticamente significativas, com exceção dos anos de estudo e dos bens de consumo. Os anos de escolaridade formal, analisados em três categorias, não apresentaram associação estatís-tica com a ocorrência de excesso de peso em 1997, enquanto em 2006 o grupo com 0 a 4 anos de estudo apresentou maior prevalência de excesso de peso (51,1%) do que o grupo com oito ou mais anos de estudo (37,2%). No segundo plano de análise, evidenciou-se que, em todas as categorias comparadas, aumentou a prevalência de excesso de peso corporal, principalmente no interior rural, na faixa de renda mais baixa (< salário-mínimo per capita), com escolaridade igual ou inferior a quatro anos (elevação de 63,2%), nas mulheres que habitavam residências alugadas ou outro tipo de ocupação de moradia, nas resi-dências não servidas por rede de água tratada e nos domicílios sem acesso à coleta de lixo (Ta-bela1).

Como se observa na Tabela 2, nos dois anos avaliados, a idade das mulheres se correla-cionou fortemente com a frequência do excesso de peso (p<0,0001), que se elevou de 15,2% para 52,2% (1997), e de 21,5% para 56,6% (2006), quando comparadas as mulheres com 19 anos ou menos, com aquelas de 30 anos ou mais. Tam-bém o histórico reprodutivo (nulíparas e paridade de um, dois e três ou mais nascimentos) se correla-cionou significativamente com a frequência do excesso de peso corporal. A ocorrência de anemia e a cor da pele não figuraram como condições de diferenças estatisticamente significativas, observando-se que a classificação racial não foi notificada no inquérito de 1997. Em todas as cate-gorias examinadas houve aumento de ocorrência de excesso de peso, destacando-se o grupo de menores de 19 anos (elevação de 41,4%) e nulí-paras (elevação de 37,3%)

Tabela 2. Excesso de peso em mulheres de 10 a 49 anos, segundo a idade, condições reprodutivas, anemia e raça. Pernambuco, 1997 e 2006. 

Excesso de Peso Aumento
Variáveis PESN-1997 PESN-2006 1997/2006
N n % IC96% N n % IC96% %
Idade (anos)
10-19 303 46 15,2 11,4-19,8 297 64 21,5 17,1-26,7 41,4
20-29 465 140 30,1 26,01-34,5 642 249 38,8 35,0-42,7 28,9 b
≥30 337 176 52,2 46,7-57,6 525 297 56,6 52,2-60,8 8,4
p<0,0001 p<0,0001
Número de gestações
Nulíparas 283 47 16,6 12,6-21,6 250 57 22,8 17,8-28,6 37,3
1-2 446 146 32,7 28,4-37,3 654 244 37,3 33,6-41,1 14,1
3 ou mais 376 169 44,9 39,8-50,2 560 309 55,2 50,9-59,3 22,9b
p<0,0001 p<0,0001
Anemia
Anêmicas 207 63 30,4 24,3-37,3 236 88 37,3 31,2-43,8 22,7
Não anêmicas 898 291 33,3 29,4-35,6 1 228 522 42,5 39,7-45,3 27,6 c
p=0,4 p=0,1
Raça
Parda/Negra - - - - 1 056 452 42,8 39,8-45,8 -
Branca - - - - 408 158 38,7 34,0-43,7 -
p=0,2

Nota: Nível de significância:

a p<0,05;

b p<0,01;

c p<0,001 (diferenças entre os anos).

PESN: Pesquisa Estadual de Saúde e Nutrição; IC95%: Intervalo de Confiança de 95%.

Na análise de regressão de Poisson, man-tiveram-se no modelo final entre as variáveis socioeconômicas: a posse de três ou mais bens de uso doméstico e a baixa escolaridade (quatro ou menos anos de estudo) no ano de 2006, ao lado das variáveis biológicas, nos anos de 1997 e 2006, com maiores razões de prevalências rela-cionadas ao aumento da idade e ao número de gestações (Tabela 3).

Tabela 3. Regressão de Poisson para excesso de peso em mulheres de 10 a 49 anos segundo condições socioeconômicas, idade e número de gestações. Pernambuco, 1997 e 2006. 

Variáveis RP não ajustada RP ajustada
RP IC95% p RP IC95% p
1997a
Bloco I
N° de pessoas/domicílio
≥8 1 1
4-8 1,27 1,00-1,61 0,04 1,25 0,99-1,58 0,06
<4 1,14 0,78-1,68 0,5 1,15 0,79-1,68 0,47
Bloco II
Idade (anos)
10-19 1 1
20-29 1,98 1,42-2,77 0,0001 1,51 1,01-2,24 0,04
≥30 3,44 2,49-4,76 0,0001 2,53 1,69-3,80 0,0001
N° de gestações
Nulíparas 1 1 0,1
1-2 1,97 1,42-2,74 0,0001 1,38 0,94-2,06 0,02
3 ou mais 2,70 1,96-3,74 0,0001 1,59 1,07-2,38 2006b
2006b
Bloco I
Anos de estudo
0-3 1,32 1,11-1,57 0,002 1,39 1,16-1,67 0,001
≥4 1 1
Bens de consumo *
Possuir três/mais 1,33 1,04-1,69 0,019 1,43 1,12-1,82 0,004
Possuir dois/um /nenhum 1 1
Bloco II
Idade (anos)
10-19 1 1
20-29 1,79 1,36-2,36 0,0001 1,40 1,03-1,90 0,031
≥30 2,62 2,00-3,43 0,0001 1,86 1,35-2,56 0,0001
N° de gestações
Nulíparas 1 1
1-2 1,63 1,22-2,18 0,001 1,37 1,00-1,87 0,049
3 ou mais 2,42 1,82-3,21 0,0001 1,70 1,22-2,38 0,002

*Nota: Televisão, geladeira, fogão e rádio;

aAjustado por: situação geográfica do domicílio, bens de consumo, esgoto e lixo.

bAjustado por: anemia e raça.

IC95%: Intervalo de Confiança; RP: Razão de Prevalência.

DISCUSSÃO

São de fato surpreendentes as mudanças produzidas no processo saúde/doença, caracte-rizando o que se convencionou chamar, a partir dos anos 1960, de transição epidemiológica. Esse processo apresentou, no campo da nutrição, sua configuração mais peculiar, tipificada na substi-tuição das carências nutricionais globais e espe-cíficas pela emergência epidêmica (ou pandêmica) do sobrepeso/obesidade. Por sua natureza, magnitude e consequências, representa um tema desafiador para os gestores públicos da saúde e para a sociedade, na medida em que altera radi-calmente o quadro de prioridades da área. Faz--se necessária a mobilização de estratégias criati-vas para responder ao cenário epidemiológico que está emergindo, o que demanda ações ainda não validadas pela rotina dos programas.

Em nível nacional, em um período de cerca de 35 anos, a tendência secular do estado nutri-cional da população brasileira apresentou aumen-to expressivo tanto do excesso de peso quanto da obesidade em ambos os sexos, enquanto tam-bém se reduziu o déficit de peso na relação peso/altura6. O ritmo de crescimento da obesidade no Brasil, se mantido nos próximos 10 anos, produzirá uma situação semelhante à dos Estados Unidos, onde o problema atinge 31,8% da população adulta2.

No caso de Pernambuco, no espaço de apenas nove anos, a prevalência do excesso de peso em mulheres em idade reprodutiva aumen-tou 27%, o que significa, como tendência linear, uma taxa anual de 3%. Inesperadamente, foi a zona rural, historicamente a mais atingida pelas carências nutricionais, o espaço geográfico mais comprometido. É pertinente observar que a ele-vação da prevalência de sobrepeso/obesidade em mulheres em idade fértil tem ocorrido num ritmo bem mais elevado - praticamente duas vezes mais -, que a redução do déficit de estatura infan-til, aqui retratado como situação de natureza oposta ao excesso de peso. Essa diferença no ritmo de mudanças dos dois problemas é o aspecto mais representativo da transição nutricional no Estado de Pernambuco. Como exercício preditivo, estima-se que o déficit estatural de menores de cinco anos deve ser corrigido, alcançando o nível de controle da Desnutrição Energético Proteica (DEP)16, enquanto a estimativa do excesso de peso em mulheres em idade fértil, se projetada a partir das tendências observadas no período 1997/2006, pode alcançar percentuais superiores a 50%, tal como ocorre nos Estados Unidos e no Canadá2. Seria, portanto, um cenário epidemiológico que praticamente reflete a situação dos países desen-volvidos.

Na avaliação temporal e geográfica dessas tendências, algumas observações fundamentais devem ser destacadas. Revela-se que a maior ele-vação (45,0%) da prevalência de excesso de peso ocorreu no meio rural, enquanto o aumento per-centual mais modesto verificou-se no interior urbano: apenas 6,8%. Entre as duas tendências, portanto, o diferencial de ritmos foi de cinco ve-zes. Por sua importância quantitativa e, sobre-tudo, pela natureza qualitativa da mudança, ocorrendo no espaço territorial mais discriminado pelas restrições da pobreza, essas características são primordiais para a compreensão da transição nutricional que está ocorrendo no Estado, no Nordeste, no Brasil e, em escala mais moderada, na maioria dos países em desenvolvimento2 , 6 , 17.

Ao lado das diferenças espaciais e, logica-mente, com um componente explicativo mais relevante do processo de mudanças, destacam--se as observações de que, em todas as categorias referenciadas na classificação das variáveis explo-ratórias utilizadas nas análises, a ocorrência do excesso de peso aumentou entre 1997 e 2006. Trata-se, portanto, de uma tendência geral, em-bora implicando evidentes diferenças em função do grupo de variáveis consideradas. Concreta-mente, fica evidente que as diferenças geográ-ficas registradas entre uma elevação mínima de 6,8% no interior urbano, com melhores condições de vida, e o interior rural, de modo geral bem mais pobre, representam o efeito combinado de tendências interativas que se manifestam, em nível preliminar, nas análises bivariadas. Ou seja, a constatação inesperada de que, dentro de cada categoria de análise (renda, escolaridade, condi-ções de saneamento, regime de ocupação das moradias, acesso a bens de consumo, por exem-plo) foram as condições mais adversas que mais resultaram em aumento na prevalência do excesso de peso. Assim, as respostas estão se dando de fato, nas situações em que antes prevaleceriam os fatores de risco para os déficits nutricionais. Esse cenário é historicamente recente, atuando de forma detectável na metade da década de 1990, quando se produz o processo mais ativo da transição nutricional no Brasil. Em outra ver-tente, a explicação se estenderia ao plano bioló-gico, assinalando as elevações de prevalência nas mulheres adolescentes e nas nulíparas, tendo co-mo semelhança biológica a idade mais baixa.

Considerando simultaneamente fatores socioeconômicos, ambientais e biológicos, identi-ficados nas análises bi e multivariados, parece bem evidente que as mudanças marcantes e até ines-peradas demonstram a importância quali e quan-titativa das rápidas transformações no cenário epidemiológico, caracterizando o processo de transição. A situação do excesso de peso em mulheres em idade reprodutiva no Estado de Pernambuco apenas acentua as mudanças que, num ritmo menos intenso, estão ocorrendo no Brasil e em grande parte dos países em desenvolvi-mento2 , 6. É uma mudança histórica e mais que conjuntural, envolvendo aspectos econômicos, políticos, culturais, éticos e ecológicos, constituin-do o que se pode chamar de desenvolvimento humano1. Isso implica reconhecer as relações de desigualdade na produção e no uso de bens e serviços, no exercício de direitos e deveres, na rede de proteção social com seus vários componentes, na transição demográfica que altera a composição familiar e populacional, na consolidação da cons-ciência coletiva sobre fatores de risco e de prote-ção, estabelecendo uma nova configuração do processo saúde/doença em nível coletivo. No caso do Brasil e da América Latina, esses aspectos já foram abordados por Batista Filho17, Monteiro & Conde18 e Kac & Velásquez-Meléndez19.

A redução do ritmo de crescimento da epi-demia do excesso de peso, notadamente em mulheres, já se faz há mais de duas décadas nos países nórdicos, há uma década nos Estados no Sul do Brasil e agora na Região Metropolitana do Recife (RMR), onde se concentram mais de 40% de toda a população do Estado. Em outras pala-vras: seria a reprodução de uma tendência iniciada há algumas décadas no Norte da Europa Oci-dental, refletindo-se no Sul do Brasil e que, na primeira década do século 21, começa a aparecer no Estado de Pernambuco.

Não sendo um comportamento peculiar ao Estado, possivelmente já caberia a interpre-tação de que, apesar das tendências de aumento na prevalência do excesso de peso, começa a se vislumbrar a perspectiva de uma nova mudança temporal, geográfica, social e biológica dos indi-cadores da situação nutricional das mulheres em idade fértil. Essa visão prospectiva parece apontar uma acentuada redução no ritmo de expansão da prevalência do excesso de peso na Região Metropolitana do Recife e, como lógica comple-mentar, na observação de que, nas categorias de condições socioeconômicas e microambientais mais favoráveis, já se evidencia uma clara desa-celeração do problema. A análise das tendências observadas neste estudo, assim como, no plano de validação externa, a literatura nacional17 - 19 e a internacional, possibilitam essa predição.

Conclusivamente, é oportuno ponderar que as grandes mudanças, como as que caracte-rizam a transição nutricional, trazem em si uma carga considerável de imprevisibilidade. Dessa forma, a própria concordância eventual com outros estudos, outros autores e, sobretudo, outros espaços geográficos e outros momentos históricos não representam painéis preditivos para garantir observações mais consistentes. É sur-preendente, convém repetir, que o excesso de peso corporal, em menos de um século, tenha se convertido em evento epidêmico de caráter grave nos tempos atuais. E que, contrariando a lógica da experiência acumulada, tenha revelado como categoria mais exposta as pessoas que até recen-temente eram mais vulneráveis à desnutrição energético-proteica, tanto na sua forma aguda quanto crônica.

Agora, o sobrepeso/obesidade passa ocor-rer como parte de um conjunto de comorbidades de longa duração (DCNT), deslocando sua foca-lização de risco para as etnias socialmente mais desfavorecidas, como negros e pardos, ou outros agrupamentos aproximados pela condição de pobreza, como famílias do meio rural, estratos de renda mais baixa ou em condições inadequa-das de saneamento da moradia e do meio am-biente.

A propósito, é oportuno considerar a perti-nência e a relevância de um novo Inquérito, pro-gramado para 2015, a IV PESN, dentro dos mes-mos objetivos e procedimentos metodológicos das pesquisas que serviram de suporte para o trabalho aqui relatado. Na mesma lógica, vale justificar a decisão dos Ministérios da Saúde e do Desen-volvimento Social, assegurando a realização, a cada cinco anos, de um inquérito representativo das condições de saúde e nutrição no país e suas macrorregiões. É uma estratégia ágil e com-petente para dispor de referenciais seguros e atualizados, diante de uma situação que está em permanente e rápida transformação.

REFERÊNCIAS

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Apoio: Fundo das Nações Unidas para a Infância, Ministério da Saúde, Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Processos No. 505540/2004-5) e edital 30/2004.

1Artigo elaborado a partir da tese de EC COSTA, intitulada "Anemia e excesso de peso: evolução e fatores associados em mulheres no período reprodutivo em Pernambuco". Universidade Federal de Pernambuco; 2013

Recebido: 26 de Novembro de 2013; Revisado: 16 de Julho de 2014; Aceito: 05 de Agosto de 2014

COLABORADORES M BATISTA FILHO e PIC LIRA participaram da elaboração dos projetos de estudo e dos instrumentos de coleta de dados, da supervisão dos trabalhos de campo, do levantamento bibliográfico, da análise esta-tística e da redação científica do trabalho. EC COSTA participou do levantamento bibliográfico, do proces-samento, da análise estatística e da redação do artigo. JS OLIVEIRA, RCM EGITO e FCLP TAVARES participaram da elaboração dos instrumentos de campo, da coleta e tabulação dos dados.

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