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Revista Brasileira de Epidemiologia

Print version ISSN 1415-790X

Rev. bras. epidemiol. vol.17  supl.1 São Paulo  2014

http://dx.doi.org/10.1590/1809-4503201400050012 

Artigos Originais

Imagem corporal e atitudes extremas em relação ao peso em escolares brasileiros (PeNSE 2012)

Rafael Moreira ClaroI 

Maria Aline Siqueira SantosII 

Maryane Oliveira-CamposII 

IDepartamento de Nutrição da Universidade Federal de Minas Gerais - Belo Horizonte (MG), Brasil

IIDepartamento de Vigilância de Doenças e Agravos Não Transmissíveis e Promoção da Saúde da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde - Brasília (DF), Brasil


RESUMO

INTRODUÇÃO:

A adolescência é um período caracterizado por mudanças, como o acelerado crescimento físico e o desenvolvimento sexual. Além de ter que lidar com as transformações, os adolescentes deparam-se com os padrões de beleza e extrema valorização da aparência física.

OBJETIVO:

O objetivo deste artigo é descrever a imagem corporal e a realização de atitudes extremas em relação ao peso entre escolares do Brasil.

MÉTODOS:

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2012 foram utilizados neste estudo. A PeNSE 2012 conta com amostra representativa de alunos do 9º ano do ensino fundamental de escolas públicas e privadas de todo o país. Utilizou-se questionário autoaplicável com questões sobre imagem corporal, realização de medidas extremas em relação ao peso e dados sociodemográficos. A imagem corporal e a realização de medidas extremas foram descritas para o conjunto total da população e segundo o sexo. Análises de regressão de Poisson foram utilizadas para identificar diferenças na realização de medidas extremas entre os diferentes tipos de imagem corporal.

RESULTADOS:

Pouco mais de 38% dos adolescentes não consideravam sua imagem corporal como normal. Mais de 15% dos escolares referia realizar práticas extremas para controle do peso, somadas às práticas para perda e ganho de peso. Adolescentes que se consideravam gordos apresentaram frequência de realização de práticas extremas para perda de peso 92% superior àquela apresentada por indivíduos que se consideravam normais. Do mesmo modo, adolescentes que se consideravam magros apresentaram frequência de realização de medida extrema para ganho de peso (9,7%) superior àquela dos que se consideravam normais (5,6%).

CONCLUSÕES:

A alta frequência de realização de práticas extremas para controle de peso entre os adolescentes brasileiros é alarmante e deve ser alvo de medidas na área tanto de saúde quanto de educação.

Palavras-Chave: Imagem corporal; Peso corporal; Adolescente; Saúde Escolar; Preparações farmacêuticas; Laxantes; Anabolizantes

ABSTRACT

INTRODUCTION:

Adolescence is a period characterized by changes such as accelerated physical growth and sexual development. Besides having to deal with these changes, adolescents are faced with beauty standards and extreme valorization of physical appearance.

OBJECTIVE:

This article aims to describe body image and the practice of extreme attitudes regarding weight in Brazilian students.

METHODS:

Data from the National Survey of School Health (PeNSE) 2012 were used in this study. PeNSE 2012 has a representative sample of students in the 9th grade of elementary school in public and private schools across the country. A self-administered questionnaire on body image, practice of extreme measures in relation to weight and sociodemographic data was used. Body image and the practice of extreme attitudes were described for the total sample and according to gender. Poisson regression analyzes were used to identify differences in the practices of extreme attitudes between the different types of body image.

RESULTS:

More than 38% of the adolescents did not consider their body image as normal. Over 15% of the students referred to carry out extreme weight control practices, combining practices to loose and gain weight. Adolescents who considered themselves fat presented frequency of extreme practices for weight loss 92% higher than that shown by individuals who considered themselves normal. Similarly, adolescents who considered themselves thin presented frequency of extreme attitudes to gain weight (9.7%) higher than that shown by students who considered themselves normal (5.6%).

CONCLUSIONS:

The high frequency of extreme weight control practices among Brazilian adolescents is alarming and should be subject of measures in health and education fields.

Key words: Body image; Body weight; Adolescent; School health; Pharmaceutical preparations; Laxatives; Anabolic agents

INTRODUÇÃO

A adolescência é um período caracterizado por acelerado crescimento físico e desenvolvimento sexual1. Além de ter que lidar com as transformações já esperadas para o período, os adolescentes deparam-se com os padrões de beleza e extrema valorização da aparência, que podem resultar em internalizações irreais e consequente aumento de insegurança, ansiedade e insatisfação com o corpo2.

A imagem corporal refere-se aos pensamentos e sentimentos de um indivíduo em relação ao seu corpo3 e é influenciada por diversos fatores, como mídia, pais e amigos em todas as fases da vida4. A não adequação entre o corpo ideal e o percebido pode levar ao aumento na predisposição da insatisfação com a imagem corporal5, sentimento esse reconhecido como um problema generalizado vivido por uma parcela expressiva dos adolescentes, como demostrado em estudos nacionais e internacionais6,7.

Esse contexto está relacionado a uma maior predisposição das adolescentes à depressão, entre outros agravos à saúde8. Além disso, a insatisfação com a imagem corporal pode levar o adolescente a adotar práticas extremas, como dietas restritivas para emagrecimento9, uso de remédios, laxantes e indução de vômitos, tornando-o, assim, mais suscetível a graves distúrbios nutricionais, como anorexia e bulimia nervosa10-12. Do mesmo modo, outros comportamentos relatados são as práticas exageradas de atividade física e o consumo de anabolizantes, práticas também relacionadas aos transtornos dismórficos corporais13.

Levando em consideração a importância de uma imagem corporal positiva e práticas saudáveis de controle do peso para a saúde dos adolescentes, o presente estudo teve como objetivo descrever a imagem corporal e a realização de atitudes extremas em relação ao peso entre os adolescentes estudados na Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 201214.

METODOLOGIA

POPULAÇÃO DO ESTUDO, AMOSTRAGEM E COLETA DOS DADOS

Este estudo utilizou dados coletados pela PeNSE, realizada entre abril e setembro de 2012. O objetivo da pesquisa de 2012 foi avaliar os fatores de risco e proteção para as doenças crônicas em uma população de estudantes do último ano (9º ano) do ensino fundamental de escolas públicas e privadas de todo o Brasil14. A amostra da PeNSE 2012 foi desenvolvida de modo a representar o Brasil, as capitais e as cinco grandes regiões geográficas. Para cada um desses estratos, utilizou-se um plano amostral. Nas capitais, realizou-se uma amostra por conglomerados em dois estágios, sendo as escolas e suas turmas as unidades primárias e secundárias de amostragem, respectivamente. Nos demais casos, a unidade primária foi o grupo de municípios; a unidade secundária, as escolas; e a terciária, as turmas. Detalhes adicionais sobre o processo de amostragem da PeNSE são descritos em detalhe na publicação original dos resultados14.

A coleta de dados foi realizada por meio de computador de mão (Personal Assistant), contendo questionário estruturado e autoaplicável, dividido em módulos por assunto: características sociodemográficas, alimentação, imagem corporal, atividade física, tabagismo, consumo de álcool e outras drogas, saúde bucal, comportamento sexual, violência, acidentes e segurança.

ORGANIZAÇÃO DOS DADOS E CONSTRUÇÃO DE INDICADORES

A imagem corporal foi investigada na PeNSE 2012 por meio da seguinte questão: "Quanto ao seu corpo, você se considera: muito magro(a), magro(a), normal, gordo e muito gordo(a)". Para efeito de análise, os escolares foram classificados em três níveis: magro (incluindo magro e muito magro), normal e gordo (incluindo gordo e muito gordo).

As práticas extremas para controle do peso investigadas pela PeNSE 2012 foram: uso de laxante ou indução de vômito (obtido pela pergunta "Nos últimos 30 dias, você vomitou ou tomou laxantes para perder peso ou evitar ganhar peso? sim/não"); uso de medicamento ou fórmula para perda de peso (obtido pela pergunta "Nos últimos 30 dias, você tomou algum remédio, fórmula ou outro produto para perder ou manter seu peso sem acompanhamento médico? sim/não"); e uso de medicamento ou fórmula para ganho de peso ou massa muscular (obtido pela pergunta "Nos últimos 30 dias, você tomou algum remédio, fórmula ou outro produto para ganhar peso ou massa muscular sem acompanhamento médico? sim/não").

Complementam o conjunto de dados da PeNSE 2012 de interesse do presente estudo um conjunto de variáveis representando características sociodemográficas dos escolares estudados: sexo (masculino e feminino); faixa etária (≤ 13, 14 e 15 anos, ≥ 16 anos); nível de escolaridade materna (ensino fundamental incompleto, ensino fundamental completo, ensino médio incompleto, ensino médio completo, ensino superior incompleto e ensino superior completo); raça/cor (preto, branco, pardo, amarelo, indígena) dependência administrativa da escola (pública e privada).

ANÁLISE DOS DADOS

A imagem corporal e a realização de práticas extremas para controle do peso foram descritas para o conjunto total da população e segundo o sexo. Em seguida, a realização de práticas extremas para controle do peso foi descrita segundo a imagem corporal dos escolares.

A associação entre a imagem corporal e a realização de atitudes extremas em relação ao peso foi estudada em modelos de regressão de Poisson. Em um primeiro momento, analisaram-se as diferenças em relação à frequência da prática de atitudes extremas entre os diferentes status de imagem corporal para o conjunto completo da população estudada. Em seguida, comparou-se a realização de práticas extremas, nos três status de imagem corporal, entre meninos e meninas. As diferenças entre sexo foram investigadas em modelos de Poisson simples (envolvendo a prática extrema de interesse como desfecho e o gênero do estudante como variável explanatória) e também em modelos ajustados (envolvendo, além das variáveis mencionadas anteriormente, região, capital de residência, escolaridade materna, dependência administrativa da escola, idade e raça/cor do estudante).

Todas as análises foram realizadas respeitando-se o desenho da amostra da PeNSE 2012 com o auxílio do aplicativo Stata 12.1 (Stata Corp. College Station).

ASPECTOS ÉTICOS

A PeNSE foi aprovada na Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP), pelo registro nº 16.805. Os dados disponibilizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística não permitem a identificação dos respondentes, respeitando seu sigilo.

RESULTADOS

Cerca de dois terços dos estudantes pesquisados residiam na região centro-sul do país (66,8%), em regiões do interior do estado (77,6%). A maioria deles possuía idade entre 14 e 15 anos (45,5%), sendo os meninos mais velhos do que as meninas. Além disso, mais da metade identificavam-se como de cor preta/parda (55,6%) e estudavam em escola pública (82,8%). Mais da metade dos estudantes (60,2%) eram filhos de mães com baixa escolaridade (fundamental incompleto, 42,2%; e médio incompleto, 18%) e pouco mais de 1 a cada 10 (11,2%) possuía mãe com nível superior de escolaridade completo (Tabela 1).

Tabela 1 Características sociodemográficas dos estudantes do 9º ano segundo sexo. PeNSE, 2012. 

Variável Total Meninos Meninas
n % n % n %
Região
Norte 22.774 8,0 10.574 7,6 12.200 8,3
Nordeste 31.301 25,3 14.355 23,4 16.946 27,0
Sudeste 19.660 44,3 9.685 46,2 9.975 42,6
Sul 14.878 14,6 7.304 14,8 7.574 14,3
Centro-Oeste 20.491 7,9 10.097 8,0 10.394 7,8
Tipo de município
Capital 61.145 22,4 29.393 23,0 31.752 21,8
Não capital 47.959 77,6 22.622 77,0 25.337 78,2
Idade (anos)
≤ 13 22.443 22,9 9.148 19,8 13.295 25,8
14 – 15 50.900 45,5 23.240 43,9 27.660 47,1
≥ 16 35.761 31,6 19.627 36,3 16.134 27,2
Raça/Cor
Branca 37.674 36,8 18.770 38,7 18.904 35,0
Preta/parda 62.750 55,6 29.269 54,0 33.481 57,1
Amarela 4.821 4,1 2.040 3,8 2.781 4,4
Indígena 3.790 3,5 1.900 3,6 1.890 3,5
Tipo de escola
Privada 22.504 17,2 11.066 17,7 11.438 16,7
Pública 86.600 82,8 40.949 82,3 45.651 83,3
Escolaridade da mãe (maior grau atingido)
Fundamental incompleto 33.322 42,2 14.768 39,9 18.554 44,3
Médio incompleto 15.975 18,0 7.615 18,3 8.360 17,7
Superior incompleto 28.244 28,7 13.745 29,6 14.499 27,8
Superior completo 13.332 11,2 6.901 12,2 6.431 10,2

Em relação à imagem corporal, a maioria (61,9%) dos estudantes considerava-se normal. A frequência de estudantes que se consideravam magros foi semelhante entre os sexos (cerca de 20%), enquanto a frequência daqueles que se consideravam gordos foi maior entre as meninas (19,1%) do que entre os meninos (13,1%) (p < 0,05). A realização de pelo menos uma prática extrema para perda de peso foi referida por 9,2% dos estudantes, sem diferença entre os sexos. Entre essas práticas, o uso de laxantes ou a indução de vômitos foram referidos por 6,1% dos estudantes e não houve diferença entre os sexos. Encontrou-se frequência semelhante à identificada para o consumo de medicamentos (ou fórmulas) para perda de peso (5,7%). Entretanto, uma maior frequência foi identificada entre os meninos (6,6%) do que entre as meninas (4,9%) (p < 0,05). Já o consumo de medicamentos (ou fórmulas) para ganho de peso (ou massa muscular) foi referido por 6,2% dos estudantes, sendo a frequência duas vezes maior entre os meninos (8,4%) do que entre as meninas (4,2%) (p < 0,05) (Tabela 2).

Tabela 2 Imagem corporal e atitude em relação ao peso corporal em estudantes do 9º ano segundo sexo. PeNSE 2012. 

Variável Total Meninos Meninas
n % n % n %
Imagem corporal
Magro ou muito magro 24.373 21,9 11.727 22,2 12.646 21,6
Normal* 66.339 61,9 33.183 64,7 33.156 59,3
Gordo ou muito gordo* 17.853 16,3 6.788 13,1 11.065 19,1
Práticas extremas para controle do peso
Uso de laxativos ou vômitos induzidos 6.416 6,1 2.773 5,7 3.643 6,4
Uso de medicamentos (ou fórmulas) para perda de peso* 6.176 5,7 3.323 6,6 2.853 4,9
Uso de pelo menos uma das práticas mencionadas para perda de peso 9.908 9,2 4.666 9,3 5.242 9,1
Uso de medicamentos (ou fórmulas) para ganho de peso (ou massa muscular)* 6.765 6,2 4.460 8,4 2.305 4,2

*Diferença estatisticamente significante (p < 0,05) entre os sexos.

Para o conjunto completo da população estudada, o uso de pelo menos uma das práticas extremas para perda de peso teve maior frequência (15%) entre os escolares que se viam como gordos (p < 0,05), sem diferença entre os que consideravam magros ou normais. Da mesma forma, a frequência do uso de laxantes e da indução de vômitos foi maior (11%) entre os escolares que se viam como gordos (p < 0,05) e igual entre os demais grupos. A frequência do uso de medicamentos (ou fórmulas) para perda de peso foi menor entre os estudantes que se consideravam normais (4,7%) e igualmente elevada entre os que se consideravam magros ou gordos (respectivamente, 6,6 e 8,1%), sem diferença estatística entre esses grupos, ambas superiores à frequência observada para os estudantes que se consideravam normais. Já a frequência de estudantes que referiam o uso de medicamentos (ou fórmulas) para ganho de peso foi maior entre os estudantes que se consideravam magros (Tabela 3).

Tabela 3 Atitudes extremas em relação ao peso segundo imagem corporal em estudantes do 9º ano, segundo sexo. PeNSE 2012. 

Variável Magro (%)* Normal (%)* Gordo (%)*
Total
Práticas extremas para controle do peso
Uso de laxativos ou vômitos induzidos 5,5** 5,0** 11,0&
Uso de medicamentos (ou fórmulas) para perda de peso 6,6# 4,7§ 8,1#
Uso de pelo menos uma das práticas mencionadas para perda de peso 8,9£ 7,8£ 15,0##
Uso de medicamentos (ou fórmulas) para ganho de peso (ou massa muscular) 9,7&& 5,6§§ 3,9££
Meninos
Práticas extremas para controle do peso
Uso de laxativos ou vômitos induzidos 7,3a,b 4,9 6,8a,b
Uso de medicamentos (ou fórmulas) para perda de peso 9,0a,b 5,7a,b 6,7a,b
Uso de pelo menos uma das práticas mencionadas para perda de peso 11,4a,b 8,4a 10,4a,b
Uso de medicamentos (ou fórmulas) para ganho de peso (ou massa muscular) 12,1a,b 7,8a,b 5,4a,b
Meninas
Práticas extremas para controle do peso
Uso de laxativos ou vômitos induzidos 3,8a,b 5,0 13,6a,b
Uso de medicamentos (ou fórmulas) para perda de peso 4,4a,b 3,8a,b 9,0a,b
Uso de pelo menos uma das práticas mencionadas para perda de peso 6,6a,b 7,2a 17,8a,b
Uso de medicamentos (ou fórmulas) para ganho de peso (ou massa muscular) 7,4a,b 3,3a,b 3,1a,b

*Frequência bruta dos indicadores em cada uma das condições

**p < 0,05 em comparação a &

&p < 0,05 em comparação a **

#p < 0,05 em comparação a §

§p < 0,05 em comparação a #

£p < 0,05 em comparação a ##

##p < 0,05 em comparação a £

&&p < 0,05 em comparação a §§ e ££

§§p < 0,05 em comparação a && e ££

££p < 0,05 em comparação a && e §§

aModelo bruto: diferença estatisticamente significante (p < 0,05) entre sexo e desfechos de interesse (frequência apresentada)

bmodelo ajustado: diferença estatisticamente significante (p < 0,05) entre os sexos para região, capital de residência, grau de escolaridade materna, dependência administrativa da escola, idade e cor/raça do aluno (frequência ajustada, não apresentada).

Entre os indivíduos que se consideravam magros e normais, verificou-se maior frequência de todas as práticas extremas analisadas - tanto para perda quanto para ganho de peso - entre os meninos quando comparados às meninas. Essa diferença foi observada tanto na comparação bruta das frequências quanto naquela ajustada para região, capital de residência, grau de escolaridade materna, dependência administrativa da escola, idade e raça/cor do estudante. Por um lado, entre os escolares que se consideravam gordos, os meninos apresentaram uma maior frequência no uso de medicamentos para ganho de peso ou massa e, por outro lado, entre as meninas, foram encontradas maiores frequências de realização de medidas extremas para perda de peso investigadas (Tabela 3).

DISCUSSÃO

A realização de inquérito representativo dos escolares do 9º ano de todo o país possibilitou, pela primeira vez, identificar importantes aspectos da imagem corporal e da realização de práticas extremas para controle do peso entre os estudantes brasileiros. Mais de um terço dos estudantes (pouco mais de 38%) não consideravam sua imagem corporal como normal. Quase um sexto dos escolares referia realizar práticas extremas para controle do peso, somadas às práticas para perda e para ganho de peso. Entre os que se consideravam gordos, uma maior frequência do uso de medidas para perda de peso foi observada entre as meninas. Os meninos apresentaram maiores frequências do uso de medidas para ganho de peso (ou massa muscular) do que as meninas, independentemente de sua imagem corporal.

Nossos resultados evidenciam a insatisfação dos escolares brasileiros com sua imagem corporal, tendo como referência o padrão corporal ideal imposto pela cultura atual e amplamente difundido nos meios de comunicação - magro, mas altamente muscular para os meninos e somente magro para as meninas15,16. A mídia impressa, por exemplo, divulga por meio de suas capas um padrão específico de beleza e costuma convidar as leitoras a modificar seu corpo, principalmente por meio de atividade física, tratamentos estéticos, dietas e até cirurgias plásticas17.

Estudo com estudantes de 10 a 18 anos, de São Paulo, sobre mídia e corpo, registrou que, em 95% dos discursos, os jovens identificavam relação entre TV, revistas e corpo. Essa relação era positiva para apenas para 9% deles, enquanto, para os demais, ela se refletia como cobrança de um ideal físico ou estímulo ao desenvolvimento de doenças e sentimento de humilhação18.

O desejo persistente de emagrecer e o medo de engordar conduzem a um quadro de preocupação extrema e à consequente mudança de comportamentos, como restrição dietética, podendo chegar ao uso de laxantes e autoindução de vômitos19. Em nosso estudo, adolescentes que se consideravam gordos(as) apresentaram frequência de realização de práticas extremas para perda quase duas vezes superior àquela apresentada por indivíduos que se consideravam normais. É possível identificar a importância da magreza, ou o receio do ganho de peso, entre os adolescentes também na alta proporção de indivíduos que, apesar de se considerarem magros ou normais, referiam consumo de medicamento ou fórmula para perda de peso.

A alta frequência de prática de atitudes extremas para controle do peso entre adolescentes já vinha sendo diagnosticada em pequenas amostras da população do País há mais de dez anos20.

Em estudo com 1.807 estudantes de escolas públicas de 7 a 19 anos do interior de Minas Gerais, dentre os entrevistados que disseram estar insatisfeitos com o corpo, 71% das meninas e 66% dos meninos faziam dieta esporádica ou frequente; 94,6% das meninas e 97,1% dos meninos fazem exercício para perder peso de forma esporádica ou frequente20. A alta frequência de práticas extremas para controle do peso identificada nesse estudo, de amplitude local, já podia ser tida como um indicativo dos resultados apresentados no presente estudo, no qual mais de 15% dos escolares referem uso de práticas extremas para o controle de seu peso.

De forma geral, nota-se que as meninas têm grande preferência por omitir refeições, assim como grande frequência de dietas e desordens21. Do mesmo modo, adolescentes e adultas que se julgam gordas tendem a adotar com frequência a prática do jejum e o uso de laxantes como forma de desintoxicar o corpo22. Nossos resultados confirmam a alta prevalência de práticas extremas para perda de peso entre as meninas (cerca de 10%) e inovam ao apresentarem dados, igualmente elevados, também entre os meninos. Dados obtidos na PeNSE 2009, realizada junto a escolares do 9º ano de escolas públicas e privadas das 26 capitais de estados brasileiros e do Distrito Federal, já indicavam a gravidade das questões aqui estudadas7. Esses dados já davam conta da alta frequência de escolares insatisfeitos com sua imagem corporal (cerca de 40% consideravam-se magros ou gordos), assim como da realização de práticas extremas para controle de peso (cerca de 7%). A análise da tendência dos resultados encontrados nas duas pesquisas é limitada pela diferença na população estudada e no questionário utilizado na PeNSE 2009 e 2012.

Verificou-se maior frequência do consumo de medicamentos ou fórmulas (tanto para ganho quanto para perda de peso) entre os meninos, sendo que cerca de 8,4% deles referiram usar medicamento para ganho de peso. Trata-se de um percentual preocupante, uma vez que o uso de medicamentos (ou fórmulas) para ganho ou perda de peso (ou massa muscular) entre adolescentes tem se tornado um problema de escala mundial23,24. A elevada frequência de uso de medicamentos com objetivo de ganho de massa muscular ou redução da gordura corpórea pode ser justificada pelo grande nível de satisfação entre os adolescentes com sua imagem corporal diante do aumento de sua massa muscular25.

Ainda que a utilização de medicamentos ou fórmulas para perda de peso entre homens seja tema pouco frequente na literatura científica, os dados aqui apresentados destacam a importância de que o tema seja abordado de forma mais efetiva.

Indicativos desse comportamento já haviam sido publicados entre os resultados da PeNSE em 20097 e também em estudos com pequenas amostras locais20. Hipóteses para esse comportamento incluem o possível maior acesso dos meninos a esses medicamentos ou uma menor percepção dos riscos envolvidos com seu uso.

Merece destaque também a alta frequência de práticas para perda de peso entre os indivíduos que se consideravam magros, mais elevada em meninos do que em meninas. Ainda que nossos resultados não permitam identificar o real estado nutricional dos escolares ou ainda o momento de início do consumo desses medicamentos, é natural acreditar que esse comportamento seja um indicativo do receio do ganho de peso mesmo entre os indivíduos que se consideram magros. Adicionalmente, não é possível identificar se os respondentes da PeNSE identificam uma autoimagem magra como uma condição negativa (que deva ser tratada) ou desejável (que deva ser mantida a qualquer custo).

Vale ressaltar que o desejo de perder ou ganhar peso muitas vezes não condiz com a real situação de índice de massa corporal desses jovens, visto que os estudos encontram a distorção da imagem corporal referida pelos adolescentes7. Na PeNSE 2009, fizeram-se presentes informações sobre o estado nutricional dos escolares (peso e altura, aferidos diretamente nas escolas); além das questões aqui analisadas sobre imagem corporal, foi possível analisar a concordância entre essas medidas7. Identificou-se baixa concordância entre o estado nutricional e a imagem corporal (kappa = 0,33). Ademais, quase metade dos alunos com excesso de peso considerava-se com peso adequado e 27% consideravam-se magros. De modo semelhante, em estudo com 1.009 adolescentes de 14 a 19 anos, estudantes de uma escola pública de São Paulo, a percepção corporal foi distorcida da condição real em ambos os sexos, ocorrendo superestimação entre as meninas (43,45%) e subestimação entre os meninos (5,65%)23.

Algumas limitações dos resultados aqui apresentados devem ser observadas. Inicialmente, não foi possível analisar a acurácia da avaliação da imagem corporal realizada pelos estudantes (comparando-a com medida objetiva de seu estado nutricional), uma vez que a aferição do peso e da altura dos estudantes não era parte do protocolo da PeNSE 2012. Ainda que medidas autorreferidas de peso e altura tenham sido obtidas, análises preliminares indicaram sua baixa validade, impossibilitando seu uso (dados não mostrados). Apesar disso, as informações registradas são úteis para o conhecimento da percepção dos escolares quanto à sua imagem corporal e da influência desta sobre a realização de práticas extremas para o controle do peso. Adicionalmente, é natural acreditar que os resultados encontrados para concordância entre o estado nutricional e a imagem corporal obtidos com dados da PeNSE 2009 (mencionados anteriormente) permaneçam válidos. Cabe dizer, por fim, que a realização das práticas extremas para controle do peso aqui examinadas não pode ser diretamente entendida como representação de transtornos alimentares, como bulimia e anorexia nervosa7. Os indicadores aqui apresentados, da maneira como foram investigados, podem ser utilizados como proxy de vulnerabilidade para esses agravos, mas não de seu diagnóstico.

CONCLUSÃO

A influência da imagem corporal na adoção de práticas extremas para controle do peso na adolescência é um fator preocupante entre os adolescentes brasileiros. Há importante diferenças de gênero na imagem corporal, sendo que as meninas se consideram mais gordas. O uso de práticas extremas é mais frequente entre aqueles que se consideraram gordos(as) e entre os meninos. Essas informações devem ser levadas em consideração quando se trabalha com os adolescentes, na área tanto de saúde quanto de educação. Os profissionais devem estar preparados para melhor abordar temas relacionados e orientar os jovens quanto à preocupação excessiva com o corpo, à imagem corporal e suas consequências.

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Fonte de financiamento: nenhuma.

Recebido: 26 de Fevereiro de 2014; Revisado: 13 de Maio de 2014; Aceito: 13 de Maio de 2014

Autor correspondente: Rafael Moreira Claro. Universidade Federal de Minas Gerais, Escola de Enfermagem, Departamento de Nutrição. Avenida Alfredo Balena, 190, CEP: 30130-100, Belo Horizonte, MG, Brasil. E-mail: rafael.claro@gmail.com

Conflito de interesses: nada a declarar

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