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Revista Brasileira de Epidemiologia

Print version ISSN 1415-790XOn-line version ISSN 1980-5497

Rev. bras. epidemiol. vol.18  supl.2 São Paulo Dec. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1980-5497201500060010 

Artigos Originais

Cuidado em saúde em adultos com hipertensão arterial autorreferida no Brasil segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde, 2013

Deborah Carvalho MaltaI  II 

Sheila Rizzato StopaI  III 

Silvânia Suely Caribé de Araújo AndradeI  III 

Celia Landmann SzwarcwaldIV 

Jarbas Barbosa Silva JúniorV 

Ademar Arthur Chioro dos ReisVI 

IDepartamento de Vigilância de Doenças e Agravos Não Transmissíveis, Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde - Brasília (DF), Brasil.

IIUniversidade Federal de Minas Gerais - Belo Horizonte (MG), Brasil.

IIIDepartamento de Epidemiologia, Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo - São Paulo (SP), Brasil.

IVInstituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde, Fundação Oswaldo Cruz - Rio de Janeiro (RJ), Brasil.

VMinistério da Saúde - Brasília (DF), Brasil.

VIUniversidadade Federal de São Paulo - São Paulo (SP), Brasil.


RESUMO:

Objetivo:

Descrever indicadores de cuidado em saúde em adultos com hipertensão arterial autorreferida no Brasil, segundo características sociodemográficas.

Métodos:

Foram utilizados dados da Pesquisa Nacional de Saúde 2013, estudo transversal de base populacional, referentes ao cuidado em saúde com a hipertensão arterial autorreferida quanto ao uso de serviços de saúde. As prevalências e seus intervalos de confiança de 95% (IC95%) foram calculados segundo sexo, idade, raça/cor e escolaridade, representativos para Brasil e grandes regiões.

Resultados:

A hipertensão arterial foi referida por 21,4% (IC95% 20,8 - 22,0) dos entrevistados, sendo maior em mulheres e em pessoas sem instrução e com ensino fundamental incompleto. Dentre estes, 45,9% (IC95% 44,0 - 47,7) referiram ter recebido assistência médica pela última vez em uma Unidade Básica de Saúde; 81,4% (IC95% 80,1 - 82,7) referiram tomar medicamentos para a hipertensão; e 92,0% (IC95% 91,2 - 92,8) referiram ter realizado todos os exames complementares que foram solicitados.

Conclusão:

É importante conhecer a cobertura e o acesso aos serviços de saúde para o cuidado aos indivíduos com hipertensão arterial, de modo a avançar na qualidade da assistência prestada e reduzir as desigualdades identificadas.

Palavras-chave: Doença crônica; Hipertensão; Inquéritos epidemiológicos; Serviços de saúde; Assistência à saúde; Epidemiologia descritiva.

ABSTRACT:

Objective:

To describe health care indicators in adults with self-reported hypertension in Brazil, according to socio-demographic characteristics.

Methods:

Data from the National Health Survey 2013, a cross-sectional population-based study, about health care of self-reported hypertension and health services were used. Prevalence and 95% confidence intervals (95%CI) were calculated for sex, age, race/color skin and schooling levels, representing Brazil and major regions.

Results:

Hypertension was reported by 21.4% (95%CI 20.8 - 22.0) of respondents, being higher in women and in people without instruction and incomplete middle school. Among these, 45.9% (95%CI 44.0 - 47.7) reported having received medical care for the last time in a basic health unit; 81.4% (95%CI 80.1 - 82.7) reported taking medication for high blood pressure; and 92.0% (95%CI 91.2 - 92.8) reported having taken all requested complementary examinations.

Conclusion:

It is important to know the coverage and access to health services for the care of patients with hypertension, in order to improve care quality and reduce identified inequalities.

Keywords: Chronic disease; Hypertension; Health surveys; Health Services; Delivery of health care; Epidemiology, descriptive.

INTRODUÇÃO

No Brasil, as doenças do aparelho circulatório (DAC) correspondem à principal causa de morte, apesar de apresentarem tendência de redução1. Estudos apontam que 7,6 milhões de mortes no mundo foram atribuídas à elevação da pressão arterial (PA), sendo 54% por acidente vascular encefálico (AVE) e 47% por doença isquêmica do coração (DIC)2 3.

A hipertensão arterial (HA) tem alta prevalência, sendo considerada um dos principais fatores de risco (FR) modificáveis para DAC e um dos mais importantes problemas de saúde pública4. Estudos clínicos demonstraram que a detecção, o tratamento e o controle da HA são fundamentais para a redução dos eventos cardiovasculares4. Portanto, diagnosticar precocemente e manter a adesão ao tratamento instituído são uma medidas custo-efetivas em saúde publica.

As mudanças no estilo de vida são recomendadas na prevenção primária da HA, notadamente nos adultos com PA limítrofe (130 a 139/85 a 89 mmHg). Mudanças de estilo de vida podem controlar a HA, bem como a mortalidade cardiovascular4 5 6 7. Estilos de vida saudáveis devem ser adotados desde a infância e a adolescência, sendo as principais recomendações não medicamentosas: alimentação saudável, prática de atividade física, redução do consumo do sódio e de álcool, e não consumo do tabaco4 6 8 9. Alguns autores argumentam que a PA ≥ 140/90 mmHg de forma isolada não caracterizaria necessariamente essa população como alvo prioritário de tratamento medicamentoso, devendo ser priorizadas as pessoas com risco cardiovascular para tratamento6 10. Enquanto outros autores apontam a eficácia e a segurança de medicamentos em pacientes com pressão levemente elevada (pré-hipertensão) na prevenção de doenças cerebrovasculares, e demonstram que medicamentos são bem indicados e previnem o desenvolvimento de desfechos graves em populações com pré-hipertensão, o que aponta a necessidade de avançar nas evidências sobre a instituição do tratamento11.

Visando dispensar o cuidado adequado aos hipertensos, os serviços de saúde, em especial a atenção básica, devem estabelecer diferentes estratégias. Dentre os fatores da organização de serviços, deve-se garantir o acesso na porta de entrada e na referência do paciente, realizar uma abordagem integral, continuada, responsável, instituindo linhas de cuidado adequadas a cada usuário. Os protocolos instituídos na atenção básica devem garantir a vinculação aos profissionais e serviços, conhecimento do paciente sobre a doença, seus fatores de risco e medidas implementadas, para a adesão à terapêutica instituída, incluindo adoção de estilos de vidas saudáveis, apoio familiar e da comunidade, enfim, o empoderamento dos usuários12 13 14.

Para a vigilância da HA e das outras doenças crônicas não transmissíveis, monitorar indicadores sobre o fluxo dos usuários, acesso e efetividade do cuidado prestado13 é muito importante para apoiar tomadas de decisões e definição de prioridades. Além de conhecer a qualidade do cuidado prestado ao usuário, visando à obtenção de melhores resultados, como o controle da HA, a redução de morbidades e desfechos mais graves3 4.

Os inquéritos domiciliares utilizando questões de hipertensão autorreferida mediante diagnóstico médico prévio têm sido largamente empregados como referência ao planejamento em saúde pública15 16 17 18. Em 2013, a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) abordou o tema da HA autorreferida e medida. A análise dessas informações constitui um grande avanço para o país e esse é o primeiro estudo a analisar esses resultados nacionais sobre a assistência em saúde prestada aos hipertensos. Futuramente, medidas físicas também aferidas pela PNS estarão disponíveis e possibilitarão análises ainda mais acuradas19.

O objetivo deste estudo foi descrever indicadores de cuidado em saúde em adultos com HA autorreferida no Brasil, segundo características sociodemográficas.

MÉTODOS

Trata-se de um estudo descritivo, com dados oriundos da PNS 2013. A PNS é um inquérito de base populacional, cujo processo de amostragem foi por conglomerado em três estágios: setores censitários ou conjunto de setores (unidades primárias), domicílios (unidades secundárias) e moradores adultos (≥ 18 anos) (unidades terciárias). A amostra sorteada foi de 81.357 domicílios, sendo 69.994 ocupados e portanto elegíveis para a pesquisa. Com uma taxa de não resposta de 8,1%, foram coletadas informações em 64.348 domicílios20, onde um morador adulto (≥ 18 anos) foi selecionado para responder ao questionário. A PNS foi o resultado de parceria entre Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Ministério da Saúde; maiores detalhes sobre a metodologia podem ser vistos em publicações específicas19 20.

Foram analisados no estudo atual os seguintes indicadores referentes ao cuidado em saúde em adultos com HA autorreferida e quanto ao acesso e uso de serviços, dentre outros proporção (%) de adultos que nunca mediram sua pressão arterial; e proporção (%) de adultos hipertensos autorreferidos. Tal informação foi construída com base em diagnóstico médico prévio de hipertensão arterial. Foram investigados os seguintes indicadores.

Dentre os adultos hipertensos autorreferidos, investigou-se, também a proporção (%) de adultos hipertensos autorreferidos e que tomaram medicamento para hipertensão nas duas últimas semanas anteriores à data da pesquisa; proporção (%) de adultos hipertensos autorreferidos e que receberam assistência médica para hipertensão nos últimos 12 meses; proporção (%) de adultos hipertensos autorreferidos que realizaram a última consulta em Unidade Básica de Saúde (UBS); proporção (%) de adultos hipertensos autorreferidos e o médico que atendeu na última consulta era o mesmo das consultas anteriores; proporção (%) de adultos hipertensos autorreferidos, aos quais foram solicitados exames complementares e que conseguiram fazer todos os exames solicitados; proporção (%) de adultos hipertensos autorreferidos, que foram encaminhados para alguma consulta com médico especialista e conseguiram todas as consultas com médico especialista; proporção (%) de adultos hipertensos autorreferidos que se internaram por causa da hipertensão ou de alguma complicação; proporção (%) de adultos hipertensos autorreferidos que possuem grau intenso ou muito intenso nas atividades habituais devido à hipertensão ou alguma complicação.

Foi realizado o cálculo das prevalências com seus respectivos intervalos de confiança de 95% (IC95%) segundo: sexo (masculino e feminino); idade (18 a 29 anos; 30 a 59 anos; 60 a 64 anos; 65 a 74 anos; 75 anos ou mais); raça/cor (branca, preta, parda), as demais categorias de raça/cor foram somadas no total, não sendo individualizadas em função de pequeno número de observações; e escolaridade (sem instrução e ensino fundamental incompleto; fundamental completo e médio incompleto; médio completo e superior incompleto; superior completo), sendo representativos para o Brasil e cinco grandes regiões. Foi realizada a comparação das prevalências e seus IC95%, sendo que a diferença foi considerada significativa quando não ocorreu sobreposição dos intervalos de confiança. Os dados foram analisados no software Stata versão 11.0, por meio do módulo survey , que considera efeitos da amostragem complexa.

A PNS foi aprovada na Comissão Nacional de Ética em Pesquisa, sob o número 328.159, em 26 de junho de 2013. Todos os indivíduos foram consultados, esclarecidos e aceitaram participar da pesquisa por meio do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

RESULTADOS

Dentre os entrevistados, 3,0% afirmaram nunca ter aferido a PA, isto é, 4,3 milhões de adultos. Os homens apresentaram maior proporção (4,3%) dentre os indivíduos que nunca aferiram a pressão. O diagnóstico de HA foi referido por 21,4% dos adultos (31,3 milhões) e a proporção foi maior entre as mulheres 24,2% (Tabela 1).

Tabela 1: Indicadores de cuidado em saúde em adultos com hipertensão arterial segundo sexo. Pesquisa Nacional de Saúde, Brasil, 2013. 

IC95%: intervalo de confiança de 95%. Fonte: Pesquisa Nacional de Saúde (IBGE, 2013).

Dentre os adultos que referiram hipertensão, 81,4% mencionaram ter tomado medicamento e 69,7% dos adultos com HA autorreferida receberam assistência médica nos últimos 12 meses, e 45,9% (12,8 milhões) realizaram a última consulta em uma UBS. Foi investigado, também, se o médico que atendeu era o mesmo das consultas anteriores e 56,4% dos entrevistados afirmaram que sim; 92,0% afirmaram ter conseguido realizar todos os exames solicitados. No que diz respeito a ser encaminhado para especialista, 87,1% referiram ter conseguido realizar todas as consultas marcadas com especialistas. Do total de adultos com HA autorreferida, 14,0% (4,3 milhões) mencionaram internação por causa da hipertensão ou de complicações em decorrência da doença. Referiram grau de limitação intenso/muito intenso 4,7% (1,4 milhão) dos adultos com HA autorreferida (Tabela 1).

A proporção de mulheres que afirmou tomar medicamento para HA foi de 84,6%. A proporção de indivíduos que receberam assistência médica para HA nos últimos 12 meses foi maior entre as mulheres (72,4%). Ainda, a proporção de indivíduos que realizou a última consulta em UBS também foi maior entre as mulheres (49,2%). Os demais indicadores apresentaram proporções semelhantes entre os sexos (Tabela 1).

Dentre os entrevistados que afirmaram nunca ter aferido a PA, a maior proporção foi na região Norte (7,0%) e a menor na Sudeste (1,9%). O diagnóstico de HA foi referido por 21,4% dos adultos, sendo maior nas regiões Sudeste (23,3%) e Sul (22,9%) (Tabela 2). Quanto a serem atendidos pelo mesmo médico nas consultas anteriores, a proporção foi maior no Sudeste (61,3%) e menor no Norte (44,3%). Com relação aos exames complementares solicitados, 92,0% afirmaram ter conseguido realizar todos os exames solicitados, sendo essa proporção maior na região Sul (94,1%). A região Nordeste apresentou a maior proporção de internação, com 16,0%. Referiram grau de limitação intenso/muito intenso 4,7% dos adultos com HA autorreferida, sendo maior na região Nordeste, com 5,4% (Tabela 2).

Tabela 2: Indicadores de cuidado em saúde em adultos com hipertensão arterial segundo Brasil e grandes regiões, Pesquisa Nacional de Saúde, Brasil, 2013. 

IC95%: intervalo de confiança de 95%. Fonte: Pesquisa Nacional de Saúde (IBGE, 2013).

A proporção de indivíduos que nunca aferiram a PA foi maior entre os de 18 a 29 anos (6,9%). Já para os adultos que referiram ter diagnóstico de HA, a proporção foi maior entre os de 75 anos ou mais (55,0%), assim como a proporção daqueles que mencionaram tomar medicamento para HA (92,2%). Dentre os adultos com HA autorreferida que citaram internação em decorrência da doença ou de alguma complicação, a proporção foi maior na faixa de 75 anos ou mais (17,7%). A proporção de adultos com HA autorreferida que mencionaram grau intenso/muito intenso de limitação foi menor entre os indivíduos de 18 a 29 anos. Os demais indicadores apresentaram proporções semelhantes entre as faixas de idade estudadas (Tabela 3).

Tabela 3: Indicadores de cuidado em saúde em adultos com hipertensão arterial segundo grupos de idade. Pesquisa Nacional de Saúde, Brasil, 2013. 

IC95%: intervalo de confiança de 95%. Fonte: Pesquisa Nacional de Saúde (IBGE, 2013).

Indivíduos com ensino fundamental completo a médio incompleto apresentaram a maior proporção dentre os que referiram nunca ter aferido a PA (4,8%). A proporção de diagnóstico médico de HA foi maior nos indivíduos sem nenhum grau de instrução (31,1%). Tomaram menos medicamentos indivíduos com ensino médio completo e superior incompleto. A proporção de adultos com HA autorreferida que realizou a última consulta em uma UBS foi maior em indivíduos sem nenhum grau de instrução (56,1%), enquanto que para os de nível superior completo a proporção foi de 17,9%. Com relação aos indivíduos que relataram na última consulta terem sido atendidos pelo mesmo médico das consultas anteriores, a maior proporção (69,2%) foi encontrada entre indivíduos com grau superior completo. A proporção de adultos com HA autorreferida que indicaram grau de limitação intenso/muito intenso foi de 4,7% e foi menor entre os indivíduos com grau superior completo (0,7%). Os demais indicadores apresentaram proporções semelhantes entre as faixas de escolaridade estudadas (Tabela 4).

Tabela 4: Indicadores de cuidado em saúde em adultos com hipertensão arterial segundo grau de escolaridade. Pesquisa Nacional de Saúde, Brasil, 2013. 

IC95%: intervalo de confiança de 95%. Fonte: Pesquisa Nacional de Saúde (IBGE, 2013).

Indivíduos de raça/cor branca apresentaram a menor proporção dentre os que referiram nunca terem aferido a PA (1,8%). Dentre os adultos com HA autorreferida que realizaram a última consulta em uma UBS, a proporção foi maior em pardos (50,8%). Com relação aos indivíduos que afirmaram que a última consulta foi feita com o mesmo médico das consultas anteriores, a proporção foi maior em brancos (62,1%). Para adultos com HA autorreferida que tiveram exames complementares solicitados e conseguiram realizar todos os exames, a proporção foi menor em pretos (86,3%). Os demais indicadores apresentaram proporções semelhantes entre as faixas de escolaridade estudadas (Tabela 5).

Tabela 5: Indicadores de cuidado em saúde em adultos com hipertensão arterial segundo raça/cor. Pesquisa Nacional de Saúde, Brasil, 2013. 

IC95%: intervalo de confiança de 95%. Fonte: Pesquisa Nacional de Saúde (IBGE, 2013).

DISCUSSÃO

Os principais resultados mostram que quase a totalidade da população de adultos já teve a sua PA aferida alguma vez na vida e que a HA acometeu mais de um quinto da população adulta brasileira (cerca de 31,3 milhões de adultos). Mais de quatro quintos dos adultos com HA autorreferida tomaram medicamentos nas 2 últimas semanas e quase 70% daqueles com HA autorreferida receberam assistência médica para essa enfermidade nos últimos 12 meses. Aproximadamente metade dos adultos com HA autorreferida foi atendida nas UBS; o médico que atendeu na última consulta era o mesmo das consultas anteriores em mais da metade dos relatos; foram solicitados exames complementares e conseguiram fazer todos os exames solicitados quase a totalidade dos adultos com HA autorreferida; também foram encaminhados para alguma consulta com médico especialista e conseguiram todas as consultas com médico especialista quase o universo dos indivíduos com HA autorreferida. Cerca de 14% foram internados por causa da HA ou de alguma complicação alguma vez na vida e 4,7% relataram limitação, devido à hipertensão.

Em geral, mulheres tiveram mais diagnóstico e receberam mais assistência médica, medicamentos e consultas, assim como a população de maior escolaridade, residentes nas regiões Sul e Sudeste e os brancos. Segundo dados da PNS, pequena parcela da população de adultos brasileiros nunca mediram sua PA, principalmente os homens. O percentual de indivíduos que receberam assistência médica no último ano foi elevado, e o comparecimento regular dos hipertensos às consultas é fundamental para a adesão ao tratamento e continuidade dos cuidados21. A PNS confirmou que as mulheres têm maior oportunidade de diagnóstico, receberam mais assistência médica para hipertensão nos últimos 12 meses, realizaram com maior frequência consulta em UBS e tomaram mais medicamentos. O que é condizente com achados de outros estudos, que têm apontado que as mulheres procuram mais cuidados assistências, o que leva à maior oportunidade de diagnóstico e tratamento16.

O Ministério da Saúde tem realizado a ampliação do acesso da população aos serviços básicos de saúde, com destaque para a expansão do Programa Saúde da Família, junto com estados e municípios22. Além disso, os protocolos dos Cadernos de Atenção Básica têm orientado as equipes de Saúde da Família no cuidado da HA, diabetes mellitus e outras doenças prevalentes22 23. A ampliação de oferta de serviços e maior acesso à rede assistencial pode explicar o percentual elevado de acesso aos serviços e diagnósticos. A procura ainda é desigual entre homens e mulheres16 21. As mulheres têm maior oportunidade de diagnóstico por maior procura pelos serviços de saúde16. Além disso, a maioria dos casos de HA não apresentam sintomas para essa condição24, fato que também pode contribuir para a não procura pelo diagnóstico.

A idade foi um fator importante tanto no diagnóstico quanto no uso de medicamentos e consultas. Após os 50 anos, mais da metade da população declara ser hipertensa. Existem evidências de que a prevalência de HA e de suas complicações e limitações aumentam com a idade25. Outros fatores como sexo feminino, percepção da saúde como ruim/muito ruim e mais de uma de consulta médica nos últimos 12 meses16 foram associados ao conhecimento da condição de hipertensos.

Ao apontar que mais da metade dos médicos foram os mesmos das consultas anteriores, os entrevistados confirmaram a importância do cuidado continuado, indicando que os melhores resultados advêm da vinculação e responsabilização entre o usuário e o seu cuidador13. Ressalta-se que os dados da PNS sugerem que um dos aspectos da resolutividade dos serviços de saúde26 foi contemplado, pois foram elevadas as frequências daqueles que conseguiram fazer os exames solicitados e foram atendidos pelo especialista.

As prevalências de HA, de internações e limitações decorrentes dessa enfermidade foram mais baixas na população com maior escolaridade, bem como foram menores as internações na vida. Foi elevado o percentual de hipertensos em uso de medicamentos para hipertensão, e não houve diferença segundo a escolaridade, mostrando a importância do SUS na promoção da equidade em saúde22. A frequência de acompanhamento pelo mesmo médico/cuidador foi mais elevada nos indivíduos mais escolarizados. A prevalência de HA e de suas complicações e limitações se distribui desigualmente entre os níveis de escolaridade, afetando mais os indivíduos com menos anos de estudo27. A região Nordeste, que possui as menores taxas de escolarização28, também foi aquela que apresentou maior percentual de adultos com HA autorreferida, internação e grau intenso ou muito intenso de limitações nas atividades habituais.

Quanto à raça/cor, pardos referem menor frequência de hipertensão, e não houve diferenças entre pretos e brancos. A PNS apontou desigualdades, como menor uso de medicamentos, menor acesso a consultas com especialistas, menor frequência na continuidade do tratamento com o mesmo médico e menor frequência de exames na população negra. Entretanto, foi maior o acesso à UBS por parte da população negra, mostrando a importância do SUS no acesso da população negra aos serviços.

Portanto, tanto a menor escolaridade quanto a raça/cor negra constituem fatores de iniquidade no acesso às práticas de cuidado ao hipertenso29, demandando cada vez mais políticas públicas afirmativas no enfrentamento às desigualdades27 28 29 30.

O Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), realizado com adultos em capitais e no Distrito Federal, apontou uma prevalência de HA de 24,1% (IC95% 23,4 - 24,8) para o ano de 2013, ligeiramente superior à PNS. Ainda de acordo com o Vigitel, as maiores prevalências de HA foram observadas entre as mulheres, os idosos e os adultos com menor nível de escolaridade, semelhantemente ao descrito na PNS. Ressalta-se que a PNS possui abrangência nacional. A morbimortalidade por doenças crônicas não transmissíveis no geral e especificamente por HA, e também a exposição aos seus fatores de risco, tendem a se concentrar em indivíduos de baixa renda; e também os desfechos mais desfavoráveis estão associados com piores condições socioeconômicas9.

A PNS demonstrou que uma parcela significativa dos adultos com HA autorreferida realizou a última consulta em uma UBS, ambiente bastante oportuno para o desenvolvimento das ações de promoção da saúde, bem como acesso gratuito a medicamentos e insumos, pois a UBS é a principal porta de entrada do sistema de saúde, ordenadora e orientadora do cuidado das pessoas com doenças crônicas não transmissíveis (DCNT)13 22. O cuidado dispensado aos indivíduos com DCNT deve ser realizado de modo integral, com integração e articulação das ações de proteção, promoção, vigilância, prevenção e assistência em todos os níveis do sistema, direcionadas para as especificidades de grupos ou necessidades individuais13.

Como limitações do presente estudo, lista-se a não avaliação da qualidade da assistência, fato que implica no acesso e uso dos serviços de saúde; e não terem sido exploradas neste momento as possíveis diferenças no acesso entre usuários do SUS e os detentores de planos de saúde31. Além disto, trata-se de diagnostico autorreferido, estando sujeito a viés de informação.

CONCLUSÃO

A PNS é o primeiro inquérito nacional que aborda em detalhes a prevalência de HA e a assistência recebida pelos adultos com HA autorreferida, possibilitando ter dados sobre o acesso aos serviços assistenciais, analisar o cuidado prestado, o uso de medicamentos, exames, dentre outros. Foram observados aspectos positivos ao identificar elevadas coberturas mencionadas pelos adultos com HA autorreferida quanto ao uso de medicamentos, exames, consultas com especialistas, dentre outros. É de suma importância esse conhecimento para avançar na qualidade da assistência prestada às pessoas com HA no país e estabelecer políticas para reduzir as desigualdades segundo raça/cor e escolaridade aqui identificadas.

A redução das DCNT e da HA constituem uma meta global, e conhecer a sua distribuição é essencial para o planejamento das ações de saúde e orientar políticas públicas de promoção à saúde de abrangência populacional, como redução de sal nos alimentos, prática de atividade física, prevenção tabaco e também cuidados assistenciais, uso de medicamentos, orientações, acesso aos especialistas, apoio diagnóstico e outros, quando necessário6 32.

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Fonte de financiamento: nenhuma.

Recebido: 08 de Abril de 2015; Aceito: 19 de Outubro de 2015

Autor correspondente: Deborah Carvalho Malta. Departamento de Vigilância de Doenças e Agravos Não Transmissíveis e Promoção da Saúde. SAF Sul, Trecho 02, Lotes 05/06, Bloco F, Torre 1, Edifício Premium, térreo, sala 16, CEP: 70070-600, Brasília, DF, Brasil. E-mail: dcmalta@uol.com.br

Corresponding author: Deborah Carvalho Malta. Departamento de Vigilância de Doenças e Agravos Não Transmissíveis e Promoção da Saúde. SAF Sul, Trecho 02, Lotes 05/06, Bloco F, Torre 1, Edifício Premium, térreo, sala 16, CEP: 70070-600, Brasília, DF, Brasil. E-mail: dcmalta@uol.com.br

Conflito de interesses: nada a declarar

Conflict of interests: nothing to declare

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