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Revista Brasileira de Epidemiologia

versão impressa ISSN 1415-790Xversão On-line ISSN 1980-5497

Rev. bras. epidemiol. vol.19 no.3 São Paulo jul./set. 2016

http://dx.doi.org/10.1590/1980-5497201600030007 

ARTIGO ORIGINAL

Desnutrição infantil em um dos municípios de maior risco nutricional do Brasil: estudo de base populacional na Amazônia Ocidental Brasileira

Thiago Santos de AraújoI  II 

Cristieli Sérgio de Menezes OliveiraI 

Pascoal Torres MunizI 

Mônica da Silva-NunesI 

Marly Augusto CardosoIII 

ICentro de Ciências da Saúde e do Desporto, Universidade Federal do Acre - Rio Branco (AC), Brasil.

IIPrograma de Pós-graduação em Saúde Pública, Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo - São Paulo (SP), Brasil.

IIIDepartamento de Nutrição, Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo - São Paulo (SP), Brasil.

RESUMO:

Objetivo:

Estimar a prevalência de desnutrição infantil e fatores associados em um município de elevado risco nutricional do Brasil.

Métodos:

Estudo transversal de base populacional com amostra de 478 crianças menores de 5 anos do município de Jordão, Acre. Foram calculados os indicadores peso para idade (P/I), altura para idade (A/I) e peso para altura (P/A) utilizando como referências as curvas de crescimento da Organização Mundial da Saúde de 2006, que adota ponto de corte -2 escores z para identificação dos desnutridos. Razões de prevalência (RP) ajustadas foram obtidas por modelos múltiplos de regressão de Poisson com estimativa de erro robusta (p < 0,05).

Resultados:

Observou-se elevada prevalência de déficit de A/I (35,8%). Crianças com ascendência indígena residentes na área rural do município apresentaram as maiores prevalências de desnutrição (59,4%). Após ajuste para sexo, idade e ascendência indígena, os fatores positivamente associados ao déficit de crescimento foram: residir na área rural (RP = 1,6; IC95% 1,2 - 2,1); menor terço do índice de riqueza domiciliar (RP = 1,6; IC95% 1,1 - 2,3); morar em casa de paxiúba (RP = 1,6; IC95% 1,1 - 2,4); altura materna inferior ou igual a 146,4 cm (RP = 3,1; IC95% 1,9 - 5,0) e introdução de leite de vaca antes de 30 dias de idade (RP = 1,4; IC95% 1,0 - 1,8). Apresentar cartão de vacina em dia foi inversamente associado ao déficit de crescimento (RP = 0,7; IC95% 0,5 - 0,9).

Conclusão:

A desnutrição infantil permanece um grave problema de saúde pública no interior da Amazônia, indicando dificuldades adicionais para o enfrentamento do problema nessa região do país.

Palavras-chave: Desnutrição; População rural; Estado nutricional; Saúde da criança; Epidemiologia nutricional; Saúde de minorias

INTRODUÇÃO

A desnutrição em crianças menores de cinco anos continua sendo um grave problema de saúde pública em países de baixa e média renda, devido a sua elevada magnitude e impacto sobre a morbimortalidade infantil1, com prevalências que variam de 43 a 59%². Afeta de maneira direta o desenvolvimento cognitivo3, o risco de infecção4, o desenvolvimento de doenças crônicas5,6 e até o crescimento econômico do país5, além de ser considerada fator subjacente em cerca de 45% das mortes em menores de um ano de idade7. Possui etiologia complexa, estando ligada às condições socioeconômicas ambientais, maternas, relacionadas às práticas alimentares infantis, morbidades e de acesso aos serviços de saúde2,5,8,9.

A redução da desnutrição constitui prioridade na agenda política internacional e integra um dos oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), tendo sua importância sido ratificada pela Declaração de Roma sobre Nutrição no ano de 201410. No Brasil, embora os indicadores tenham apontado melhorias no perfil nutricional infantil, com os déficits de altura para idade em menores de 5 anos tendo declinado de 37 para 7% (1975 - 2007), permitindo o alcance da primeira meta do milênio, antecipadamente11, a desnutrição infantil continua sendo um problema na região Norte. Sua prevalência (14,7%) é equivalente ao dobro da média nacional12, demonstrando que algumas desigualdades inter-regionais e sociais ainda permanecem, evidenciando a diversidade do país e a persistência de segmentos com elevada prevalência de desnutrição13.

No Norte, levanta-se a hipótese de que outras variáveis importantes ou a manutenção de fatores determinantes já descritos2,8,11,13 podem estar contribuindo para que essa região não tenha conseguido acompanhar a tendência de declínio observada para o Nordeste. Dentre esses fatores, destacam-se: as dificuldades de deslocamento dentro desse território, a persistência de indicadores socioeconômicos desfavoráveis e o fato dessa região concentrar a maior parcela da população indígena nacional (48,6%)14, que vem crescendo acentuadamente15. Além disso, no contexto amazônico, aspectos como a dinâmica demográfica e espacial, que interferem na circulação de pessoas e mercadorias, a carência de infraestrutura de transporte e a elevada proporção de indivíduos com baixos recursos materiais e educacionais impactam no desenvolvimento dessa região16.

Nesse cenário, destaca-se a peculiar condição de municípios situados distantes dos grandes centros urbanos, e de difícil comunicação, como é o caso de Jordão, considerado um dos menos desenvolvidos do país17. Essa localidade foi classificada no ano de 2006 como o município com a maior estimativa de risco de desnutrição do Brasil18. Tal contexto estimulou a realização deste trabalho, cujo objetivo foi investigar de maneira direta a prevalência e fatores associados à desnutrição em crianças menores de cinco anos nesse município do interior da Amazônia Ocidental Brasileira.

MÉTODOS

Trata-se de um estudo transversal de base populacional realizado com crianças de 0 a 59 meses de idade residentes no município de Jordão, Estado do Acre. Esse município apresenta população predominantemente rural e não possui acesso por via terrestre (4.634 habitantes em 2005, com 30,0% de indígenas Kaxinawás). Configurava-se, no ano 2000, como o município brasileiro com o segundo menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH-M = 0,475), mantendo-se em 2010, entre os sete municípios com índice mais baixo no ranking , com IDH-M = 0,46919. Está localizado a 640 km de distância, em linha reta de Rio Branco, capital do Estado Acre, e faz fronteira com o Peru. Ocupa uma área de 5.429 km2, banhada pelos rios Jordão e Tarauacá, com seu centro urbano localizado no ponto de encontro dos dois rios.

Foram avaliadas 478 crianças residentes na área urbana (n = 211) e rural (n = 267) do município. Na área urbana foi realizado um censo, já que segundo projeções realizadas com dados provenientes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para o ano de 2005 era esperado encontrar 196 crianças. Na área rural, em virtude da dificuldade de acesso devido ao baixo nível de água dos rios da região no período de coleta de dados, utilizou-se uma amostra não probabilística proporcional à da área urbana20. Não houve recusas e oito crianças não foram encontradas no domicílio nas duas oportunidades de visitas possíveis: uma na subida e outra na descida do rio. Foram consideradas com ascendência indígena as crianças que apresentavam pelo menos um dos pais ou avôs que se declararam indígenas ao serem inqueridos sobre sua raça no momento da entrevista.

A coleta de dados ocorreu no mês de junho de 2005. Foi aplicado um questionário estruturado aos pais ou responsáveis pelas crianças em entrevistas domiciliares. Foi construído também um índice de riqueza para avaliação das condições econômicas, em virtude da grande proporção de famílias sem renda formal, baseado na metodologia de Filmer e Pritchett21. Os entrevistadores foram capacitados para aplicação dos questionários. Peso e estatura das crianças foram medidos em duplicata, por pesquisadores treinados, seguindo procedimentos padronizados e utilizando equipamentos calibrados. Foi utilizada a média dos dois valores para avaliação antropométrica. Os índices utilizados para a avaliação do estado nutricional das crianças foram peso/idade (P/I), altura/idade (A/I) e peso/altura (P/A), expressos pelo critério escore z, tendo como referência as curvas de crescimento da Organização Mundial de Saúde (OMS) de 200622, calculados no programa Antro23. Foram consideradas desnutridas as crianças com indicadores de P/I, A/I, P/A iguais ou inferiores a -2 escore z em relação à curva padrão. Para a identificação de déficit grave de A/I foi utilizado o ponto de corte de -3 escore z do indicador A/I. Considerou-se sobrepeso crianças com valores maiores ou iguais a +2 escore Z do indicador índice de massa corporal para idade (IMC/I). As mães das crianças identificadas com desnutrição foram encaminhadas ao serviço de saúde local.

Os questionários foram duplamente digitados no programa Epi Info 6 com posterior validação. A seleção hierárquica das variáveis para compor os modelos múltiplos foi realizada por meio do teste do χ2 de Pearson, com ponto de corte de p < 0,20. Razões de prevalência (RP) ajustadas e intervalos de confiança de 95% (IC95%) para o déficit de A/I, ajustados pelas variáveis sexo, faixa etária e ascendência indígena, foram obtidos por modelos múltiplos de regressão de Poisson com variância robusta, conforme modelo conceitual de determinação previamente elaborado, adaptado de Olinto et al.8. Realizou-se análise hierarquizada dos dados. As variáveis de cada bloco foram introduzidas simultaneamente. Dentro de cada bloco as variáveis que não apresentaram significância estatística (p < 0,05) no teste de Wald foram retiradas uma a uma, respeitando-se a ordem decrescente dos valores p. Variável retirada que ocasionou alteração em mais de 10,0% na magnitude das RP das variáveis do bloco retornaram para o modelo24. Foram considerados fatores associados ao déficit de crescimento as variáveis que, após ajuste para os fatores do mesmo nível hierárquico ou superior, apresentaram no modelo final valor de p < 0,05.

As variáveis testadas foram:

  • 1º bloco: local de moradia (zona urbana e rural);

  • 2º bloco: socioeconômico e ambiental (tercil do índice de riqueza), escolaridade materna (analfabeta, um a quatro, e cinco ou mais anos de estudo), tipo de domicílio (madeira beneficiada/alvenaria e paxiúba ou barraco), número de cômodos do domicílio (um, dois ou três, quatro ou mais cômodos);

  • 3º bloco: características maternas e de acesso aos serviços de saúde (altura da mãe em quartis), índice de massa corporal materno (baixo peso, eutrófica, sobrepeso e obesa), número de gestações (quartil), esquema vacinal em dia (sim e não), consulta pré-natal (não fez, três ou menos; e quatro ou mais consultas), acompanhamento pelo serviço de saúde (sim e não);

  • 4º bloco: aleitamento materno e dieta complementar (tempo de aleitamento materno exclusivo/antes e após 30 dias), introdução de leite de vaca (ponto de corte baseado na mediana);

  • 5º bloco: morbidades (diarreia nos 15 dias que antecederam a pesquisa, pneumonia 12 meses anteriores à entrevista) todas dicotômicas: sim e não.

As análises foram realizadas no software Stata versão 10.0 (Stata Corp., College Station, Estados Unidos).

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Fundação Hospital Estadual do Acre (FUNDHACRE), com protocolo de pesquisa nº 171/ 2005, de acordo com os requisitos da Resolução do Conselho Nacional de Saúde (CNS 466/2012) e suas complementares.

RESULTADOS

No presente estudo foi identificado déficit de A/I em 35,8% (IC95% 31,5 - 40,3) das crianças, com 11,5% (IC95% 8,9 - 14,8) apresentando comprometimento grave. A prevalência de déficit de A/I foi mais elevada na área rural, sobretudo entre crianças com ascendência indígena. Esse último grupo apresentou também a maior prevalência de déficit grave de A/I (20,3%; IC95% 13,7 - 28,3). O déficit geral de P/I foi de 7,3% (IC95% 5,2 - 10,1), com maior ocorrência também entre crianças com ascendência indígena residentes na área rural. O déficit de P/A foi de 0,8% (IC95% 0,3 - 2,3). A prevalência de sobrepeso entre as crianças de Jordão foi baixa (2,1%; IC95% 1,1 - 3,9; n = 10). Na Tabela 1 são apresentados os indicadores antropométricos segundo local de moradia e ascendência indígena.

Tabela 1: Déficit de altura e peso para idade segundo ascendência indígena e local de moradia de crianças (< 5 anos) de idade residentes no município de Jordão, Acre, 2005. 

IC95%: intervalo de confiança de 95%; A/I: altura para idade; P/I: peso para idade; *sem informação de ascendência indígena (pelo menos um dos pais ou avós indígenas) n = 18.

A média de idade das crianças do estudo foi de 29,1 meses, com desvio padrão (DP) de 16,9 meses (dados não apresentados em tabela). O déficit de A/I elevou-se com o aumento da idade, sendo maior entre as crianças com dois anos ou mais, se distribuindo igualmente entre os sexos. As crianças residentes na área rural de Jordão apresentaram o dobro da prevalência de déficit de A/I em comparação às residentes na área urbana. Em relação às variáveis socioeconômicas, crianças de famílias pertencentes ao menor terço de riqueza apresentaram a maior proporção de déficit de A/I. Foi observado grande número de mães analfabetas ou que estudaram até a quarta série. A média de altura das mães de crianças foi de 150,9 cm (DP = 6,5 cm; dados não apresentados em tabela). Crianças cujas mães possuíam menor altura apresentaram maior proporção de déficit de A/I (Tabela 2).

Tabela 2: Prevalência de déficit de altura por idade segundo variáveis biológicas, sociodemográficas e maternas em crianças (< 5 anos) residentes no município de Jordão, Acre, 2005. 

A/I: altura para idade; RP: razão de prevalência; IC95%: intervalo de confiança de 95%; *teste χ2 (p < 0,05); #ascendência indígena (pelo menos um dos pais ou avós indígenas).

Em relação à cobertura de ações dos serviços de saúde, destaca-se a expressiva parcela de mães que não tiveram a gestação de seus filhos menores de cinco anos acompanhada por profissional de saúde, bem como a elevada proporção de crianças que não apresentavam seu esquema vacinal em dia no momento da entrevista. A prevalência do déficit de A/I foi maior entre crianças cujas mães não fizeram acompanhamento pré-natal e entre aquelas que não estavam com esquema vacinal em dia (Tabela 3). As crianças de Jordão apresentaram prevalência de diarreia de 45%. Entre as que possuíam ascendência indígena, esse percentual foi de 53%, e nas sem ascendência indígena foi de 40% (dados não apresentados em tabela).

Tabela 3: Prevalência de déficit de altura para idade segundo assistência a saúde, aleitamento materno e morbidade em crianças (< 5 anos) residentes no município de Jordão, Acre, 2005. 

A/I: altura para idade; RP: razão de prevalência; IC95%: intervalo de confiança de 95%; *teste do χ2 (p < 0,05).

As práticas alimentares infantis também apresentaram características peculiares e preocupantes. A mediana de aleitamento materno exclusivo foi de 15 dias (média = 45,5 dias; DP = 71,7 dias) e a introdução de leite de vaca de 30 dias (média = 68,5 dias; DP = 100,4 dias). Crianças amamentadas de forma exclusiva pelo período mínimo de 30 dias ou mais apresentaram prevalência de déficit de A/I 40,0% menor do que aquelas desmamadas antes desse período. Crianças que tomaram leite de vaca antes desse mesmo período também apresentaram maior proporção de déficit de A/I (Tabela 3).

A Tabela 4 apresenta os fatores associados à desnutrição infantil na população estudada. Após ajuste para as variáveis sexo, idade e ascendência indígena, a variável local de moradia inserida no primeiro bloco permaneceu associada ao déficit de A/I. Dentre as variáveis inseridas no segundo bloco, apenas o índice de riqueza e o tipo de domicílio permaneceram associadas à baixa A/I. Do terceiro bloco, mantiveram-se associadas às variáveis: altura materna e possuir cartão de vacinas em dia. Do quarto bloco, apenas a introdução do leite de vaca antes de 30 dias de idade foi mantida. Nenhuma variável do bloco de morbidades da criança permaneceu no modelo múltiplo final.

Tabela 4: Fatores associados à desnutrição infantil em crianças (< 5 anos) residentes no município de Jordão, Acre, 2005. 

A/I: altura para idade; RP: razão de prevalência; IC95%: intervalo de confiança de 95%; *ajustadas por outras de nível igual ou superior seguindo o modelo conceitual hierárquico. #ascendência indígena (pelo menos um dos pais ou avós indígenas).

DISCUSSÃO

Foi verificada uma alta prevalência de déficit de estatura entre as crianças residentes no município de Jordão2,25, classificada como grave pela OMS26. Esse achado pode ter decorrido de um processo prolongado de privação alimentar ou episódios graves ou recorrentes de morbidades, que podem ter afetado o crescimento dessas crianças durante os primeiros anos de vida27. O excesso de peso foi pouco prevalente nessa região (2,1%), concentrando-se entre as crianças com ascendência indígena residentes na zona urbana do município.

A prevalência de déficit de estatura verificada neste estudo (35,8%) foi próxima à encontrada para o conjunto dos países em desenvolvimento (32,0%)28 e para os países que compõem a África Subsaariana (38,0%), região extremamente pobre e árida, com alta prevalência de HIV28. Jordão se distancia muito das prevalências de desnutrição verificadas para a América Latina e Caribe (16,0%)28 e do cenário nutricional do Brasil (7,0%) e da Região Norte (14,8%)12, com os déficits de estatura encontrados nesse município ficando próximos aos registrados no país na década de 1970 (32,9%)29, sugerindo situação de atraso de mais de 30 anos em relação à realidade nacional. Esses dados mostram que a população pré-escolar de Jordão convive com limitadores de crescimento, parcialmente superados pela maioria dos países latinos Americanos e do Caribe para o conjunto dos municípios do Brasil e mesmo para outros segmentos populacionais vulneráveis do território brasileiro, como crianças quilombolas, do estado de Alagoas (11,5%)30, do semiárido do Nordeste (Paraíba) nas zonas urbanas (12,9%) e rural (16,8%)31 e até mesmo em outras localidades do interior do estado do Acre (< 10,8%)9.

Também são observadas diferenças importantes nas prevalências dos déficits de estatura entre vários segmentos populacionais no interior do próprio município. As crianças com ascendência indígena de Jordão apresentaram prevalência desse agravo 2,1 vezes a observada entre crianças sem ascendência indígena. No primeiro grupo, a prevalência de baixa estatura (50,8%) foi superior às verificadas entre algumas populações indígenas aldeadas (34,1%) do Mato Grosso do Sul (Kaiowá e Guaraní)32 e inferiores às dos Yanomami de Roraima (80,5%)13, revelando que mesmo entre os indígenas o Norte apresenta elevadas prevalências de desnutrição.

A prevalência de déficits de estatura encontrada em Jordão para crianças com ascendência indígena residentes na área rural (59,4%) foi superior à estimada para população indígena brasileira (25,7%) e a da região Norte (40,8%), segundo informações do primeiro Inquérito Nacional de Saúde Indigena33. Essas informações apontam para heterogeneidade de cenários nutricionais presentes no município, revelando a complexidade desse fenômeno, mesmo em uma localidade aparentemente muito homogênea, com crianças que possuem ascendência indígena apresentando prevalências semelhantes às verificadas para as populações indígenas aldeadas.

Em virtude do número expressivo de crianças com ascendência indígena, diferenças de potencialidades genéticas não podem ser completamente descartadas para a população de Jordão. Sabe-se que crianças nos primeiros anos de vida crescem de modo muito semelhante em todo mundo34, fazendo com que diferenças de potencialidade sejam avaliadas com cautela, assim como hipóteses genético-evolutivas de adaptação do corpo ao ambiente amazônico35. No entanto, fatores socioeconômicos ligados à dificuldade de acesso a alimentos, hábitos alimentares, condições de higiene e de saneamento provavelmente apresentam influência preponderante na determinação de uma maior prevalência nessa população do que apenas diferenças genéticas36, especialmente entre indígenas, atribuídas, sobretudo ao processo de incorporação dos povos tradicionais ocorrer nas classes sociais menos favorecidos37. As poucas informações epidemiológicas disponíveis para essa localidade apontam um quadro de elevada morbimortalidade por doenças infecciosas e parasitárias, sobretudo diarreias e pneumonia, o que reforça as condições adversas em que vive essa população.

Embora seja um município com características predominantemente rurais, observou-se diferença acentuada nas prevalências de déficits de estatura quando se comparou as crianças residentes na área urbana e rural do município de Jordão. Para o Brasil, dados da Pesquisa Nacional sobre Demografia e Saúde (PNDS) 200612 sugerem uma diminuição das diferenças entre as prevalências de déficit desse agravo quando se compara essas duas localidades, com a zona rural apresentando prevalência apenas 1% maior do problema, revelando uma melhoria no cenário econômico, sanitário, de saúde e alimentar no meio rural, que favoreceu o crescimento infantil. Também foi observado nas últimas décadas um intenso fluxo migratório do campo para a cidade, que certamente impactou nesse resultado positivo alcançado para o país em seu contexto rural14,38. No entanto, essa diferença é aproximadamente duas vezes maior em Jordão, indicando que nessa localidade as diferenças urbano/rural ainda são expressivas. Isso pode refletir a importância que o acesso a bens e serviços disponíveis39, mesmo em núcleos urbanos com desenvolvimento limitado, possui na determinação da constituição física da criança. Viver na área rural de municípios do interior da Amazônia, como é o caso de Jordão, traz uma série de outras implicações. Por exemplo, a realização das atividades cotidianas é dificultada por diferentes barreiras físicas (barrancos, varações, áreas alagadas e muita lama do período de chuva), bem como a necessidade de se enfrentar longas viagens para se deslocar até a cidade, muitas vezes sob forte sol, fatores que podem provocar ainda mais sobrecarga ao organismo infantil.

Dentre as variáveis maternas e de acesso aos serviços de saúde analisadas, a altura da mãe e a manutenção do esquema vacinal em dia mostraram associação estatisticamente significante com o déficit de estatura da criança. A altura materna também possui importância na identificação de diferenças na prevalência de déficit de crescimento em Jordão, com esse achado sendo corroborado por outros autores2,5,6,11. Essa relação pode estar associada a limitações no crescimento fetal no útero materno40. A manutenção do esquema vacinal em dia mostra a importância do acesso a ações básicas de saúde, bem como auxilia na prevenção de episódios infecciosos, outro fator importante para o desenvolvimento de déficit de crescimento41. O papel das doenças infecciosas sobre os déficits de altura tem sido bem documentado e atribuído, entre outros fatores, a um desvio do gasto energético para o combate do processo infeccioso em detrimento do crescimento42.

A introdução de leite de vaca foi precoce e inadequada, sendo estatisticamente associada com déficit de estatura. Esses resultados podem relacionar-se ao fato do leite de vaca apresentar características diferentes das apresentadas pelo leite materno, como concentração de proteína e acidez muito maiores43, o que ocasiona uma irritação da parede intestinal aumentando o risco de desenvolver diarreia, além de causar micro-hemorragias que agravam ainda mais esse quadro44.

Os resultados apresentados devem ser considerados à luz das limitações do estudo. Em virtude de dificuldades logísticas, não foi possível utilizar uma amostra aleatória na zona rural do município, o que pode ter ocasionado uma subestimação das prevalências dos déficits de estatura por não terem sido incluídas crianças residentes em áreas mais afastadas da zona urbana do município, como as moradoras das cabeceiras dos rios. Esse fato foi minimizado na identificação de fatores associados pelo ajuste através da variável zona de moradia.

Não foi possível obter informações sobre peso ao nascer em virtude da maioria dos partos ocorrerem nos domicílios. As avaliações de parasitose intestinal e do consumo alimentar nessa população também não foram realizadas, devido a limitações orçamentárias e dificuldades logísticas. O levantamento de informações in loco em área de difícil acesso, como é o caso de Jordão, especialmente em sua área rural, constitui iniciativa ímpar que aperfeiçoará a compreensão da desnutrição no interior da Amazônia e o seu melhor enfrentamento por parte dos serviços de saúde - uma vez que essa região do Brasil apresenta um grande número de municípios com características semelhantes, e que por demandarem incrementos orçamentários e logística desafiadora são geralmente excluídos de investigações e até mesmo de ações por partes de gestores.

CONCLUSÃO

O estudo identificou elevada prevalência de déficit de estatura nas crianças de Jordão, especialmente entre aquelas residentes na área rural e que possuíam ascendência indígena. Esses achados ressaltam a influência que viver em localidades de difícil acesso, com significativas desigualdades sociais e de saúde, exerce no estado nutricional infantil, realidade comum em regiões do interior da Amazônia. A desnutrição se manifestou de forma heterogênea mesmo em um cenário aparentemente homogêneo, indicando inter-relações complexas dos fatores relacionados à desnutrição nesse município. O trabalho aponta a influência que fatores como o isolamento e o grande contingente de populações vulneráveis podem ter na manutenção de elevadas prevalências de desnutrição. São necessárias investigações mais abrangentes, a fim de elucidar a influência dessas complexas inter-relações na magnitude do déficit de crescimento nos diferentes segmentos populacionais existentes no município, que podem contribuir no entendimento da manutenção do problema na região Norte do país.

AGRADECIMENTOS

À Prefeitura Municipal de Jordão. À equipe da Pastoral da Criança e do Polo de Saúde Indígena. Aos gestores e profissionais de saúde das Unidades Básicas de Saúde. A todas as mães e crianças participantes do estudo.

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Fonte de financiamento: Ministério da Saúde, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Secretaria de Estado da Saúde do Acre (SESACRE), Fundação de Tecnologia do Acre (FUNTAC), edital PPSUS - PROJ0551141

Recebido: 16 de Março de 2015; Aceito: 14 de Dezembro de 2015

Autor correspondente: Thiago Santos de Araújo. Centro de Ciências da Saúde e do Desporto, Universidade Federal do Acre, Campus universitário de Rio Branco, Rodovia BR 364, km 04, Distrito Industrial, CEP: 69920-900, Rio Branco, AC, Brasil. E-mail: thiagoacre@gmail.com

Conflito de interesses: nada a declarar

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