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Revista de Economia Contemporânea

On-line version ISSN 1980-5527

Rev. econ. contemp. vol.16 no.3 Rio de Janeiro Sept./Dec. 2012

https://doi.org/10.1590/S1415-98482012000300001 

BIOGRAFIA

 

Interpretar e transformar o mundo: o propósito de Aloísio Teixeira*

 

 

Maria Mello de Malta

Doutora em Economia pela Universidade Federal Fluminense, professora adjunta do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e coordenadora do Laboratório de Estudos Marxistas José Ricardo Tauile (LEMA). Contato: mariammalta@yahoo.com.br

 

 

Quem ouviu seu próprio nome sendo chamado pela voz do professor Aloísio Teixeira jamais esquecerá. O timbre de sua voz parece ter sido artisticamente escolhido para dar notícias importantes, trazer a novidade e ser portador de ideias provocadoras. Sorte daqueles que o puderam ouvir durante os 67 anos em que viveu sua família no Brasil. Nessas quase sete décadas, atuou no enfrentamento à ditadura militar, interpretou e contribuiu para o pensamento econômico brasileiro, formulou e executou políticas importantes para o país. Especialmente, Aloísio Teixeira deixou sua marca na construção da universidade brasileira do 21º século.

O Instituto de Economia da UFRJ teve o privilégio de tê-lo como seu professor titular ao longo de sua trajetória acadêmica. No entanto, é impossível compreender sua marca e a falta que ele faz sem percorrer, ainda que com a distância que um curto texto de homenagem permite, a trajetória de sua formação como intelectual. Combatente das lutas pela universidade pública, pela soberania nacional, pela democracia e pelo socialismo, desde a juventude, aglutinou intelectuais e políticos críticos para pensar a mudança no Brasil. No dia 23 de julho de 2012, quando faleceu, Aloísio Teixeira deixava um legado político e acadêmico inigualável.

 

1. ENSINO E FORMAÇÃO PERMANENTE: TEORIA E PRÁTICA

Aloísio é marcante em toda amplitude de sua humanidade. Filho e pai dedicado, amigo para todas as horas, professor indefectível, intelectual teoricamente orientado, porém aberto e criativo, e companheiro de luta daqueles que Brecht referiria como "os que lutam a vida inteira", simplesmente imprescindível. Essas características combinadas no corpo de um leitor voraz, apaixonado pela música e cientista crítico tornavam sua presença uma deliciosa aula permanente. Tendo o marxismo como opção e o magistério como vocação, formou várias gerações, convidando-as a pensar o Brasil, regando nossas mentes com a generosidade de compartilhar suas mais íntimas dúvidas e ideias. Tinha como conselho permanente o trecho de A Internacional Comunista que afirma "façamos nós por nossas mãos tudo o que a nós nos diz respeito". E fazia.

Nascido em 1944, no início dos anos 1960, entrou para o Partido Comunista Brasileiro (PCB), militando no Comitê Universitário do Estado da Guanabara quando era estudante de engenharia. O grupo de companheiros que formou nessa fase da militância o acompanhou a vida inteira até 23 de julho de 2012, estando quase todos os presentes em sua última homenagem. Foi primeiro-secretário do Comitê Universitário a partir de 1969. "Caiu" em meados daquele ano, quando passou seis meses na prisão, sofrendo as consequências da violência com que a ditadura brasileira tratava seu contraditório. Hora marcada para tortura, mas a determinação de não quebrar o levava a buscar alternativas para deixar a mente organizada. Contava a experiência de jogar xadrez, sem tabuleiro, com seu vizinho de cárcere, sujeito de quem não conhecia o semblante, mas a quem considerava exímio jogador. Referia-se sempre com muito carinho à sua companheira desta época, Maria Tereza, também membro do Comitê Universitário e mãe de suas duas filhas. Afirmava que ela fora fundamental para conseguir manter-se vivo naqueles dias. Durante a fase da prisão, teve a casa onde morava junto com seus pais no Posto Seis, em Copacabana, incendiada num atentado de vandalismo do aparelho da repressão. Julgado à revelia, foi para a clandestinidade até que se passassem os quatro anos necessários para a prescrição da pena de um ano à qual fora condenado.

No período de clandestinidade, organizou a Assessoria do Comitê Central do PCB. Naqueles anos, preparou detalhadamente a ida do grupo de estudos de O Capital (Marx, 1885, 1867) para um curso de formação em Moscou. Compunha este grupo, entre outros companheiros, sua irmã Maria Lucia Teixeira Werneck Vianna, sua mulher, Maria Tereza, Carlos Nelson Coutinho, Júlio Mourão, Ana Maria Malin e Luiz Werneck. É também desta época a formação dos laços com companheiros de vida inteira, como José Paulo Neto e Leandro Konder, na organização da intervenção do partido naquela conjuntura política.

Retornando à vida oficial, optou pelo estudo de economia e se formou economista no ano de 1978. Três anos depois, ingressou como professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A experiência inicial no magistério foi simultânea aos seus estudos para formação como mestre. Participou de uma pesquisa coordenada pela professora Maria da Conceição Tavares na qual foi formulada uma interpretação crítica sobre o funcionamento do sistema capitalista mundial e do padrão monetário internacional após o fim de Bretton-Woods. A referida pesquisa envolvia vários professores recém-chegados à Faculdade de Economia e Administração (FEA) da UFRJ e pesquisadores associados ao Instituto de Economia Industrial (IEI) da universidade.

Maria da Conceição Tavares o convenceu a participar como professor assistente do curso Experiências Industriais Comparadas, na pós-graduação do IEI, no qual apresentaria os resultados desta pesquisa coletiva. Quem teve aulas ou compartilhou cursos com Aloísio sabe o cuidado e o prazer com o qual preparava cada detalhe daquilo que iria dizer em sala de aula; por isso, a partir da preparação deste curso, foi capaz de montar a excelente dissertação de mestrado publicada como Texto para Discussão nº 25 do IEI em 1983. O movimento da industrialização nas economias capitalistas centrais no pós-guerra (Teixeira, 1983) virou referência dos cursos sobre o tema sem jamais ter sido editado. É um texto primoroso, como todos os que Aloísio produzia, e uma pesquisa de altíssima qualidade, ainda não superada por qualquer outra sobre o tema para o período de referência.

Nesta época, já casado com Beatriz, sua companheira até seu último dia, e tendo Lucas, o primeiro de seus três filhos, nascido, Aloísio elaborou uma linda dedicatória em sua dissertação na qual revela a importância de seus companheiros de luta para o retorno à sua vida fora da clandestinidade. Anos mais tarde, já na década de 1990, esta agenda de pesquisa ainda o instigava. Influenciado pelo trabalho A retomada da hegemonia norte-americana, de Maria da Conceição Tavares (1985), debatido em seminários no IEI, publicou o artigo Crise de hegemonia e desestruturação da ordem mundial (Teixeira, 1992), escreveu sua tese de doutorado e participou do projeto "Globalização financeira, neoliberalismo e política macroeconômica: uma perspectiva estratégica" no âmbito de uma parceria do então IEI-UFRJ e do Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Tal parceria visava estudar o comportamento do sistema monetário internacional desde o período do padrão ouro-libra até o período posterior ao rompimento do padrão de Bretton-Woods. Naquela época, identificava a possibilidade de o Japão ser "a maior potência financeira do globo", mesmo que os Estado Unidos pudessem permanecer como a maior economia do mundo e continuassem a exercer um papel imperial nas relações internacionais, questionando a hegemonia americana pela perda de uma das pernas do tripé de sua sustentação.

No entanto, ainda no final da década, após a leitura do livro de Charles de Kindleberger, Movimentos internacionais de capital (2007) – tão importante para sua reformulação de perspectiva que decidiu traduzi-lo na coleção Clássicos Record do Pensamento Econômico, de cuja concepção participou nos anos 2000 –, acabou produzindo um excelente texto, publicado pela Revista Economia e Sociedade, publicação do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas, intitulado O império contra-ataca: notas sobre os fundamentos da atual dominação norte-americana (Teixeira, 2000). Nesta nova leitura do tema, afirmava que "a hipótese que formulamos é que a concentração de poder em mãos dos Estados Unidos e o desequilíbrio que caracteriza as relações internacionais atualmente se fundam em mutação ocorrida na natureza dessa forma elementar ou dessa célula fundamental das sociedades capitalistas: a mercadoria universal ou o equivalente geral da mercadoria" (Teixeira, 2000, p. 2), reconstituindo a visão de que o tripé de base da hegemonia americana se mantinha no novo século que se abria.

 

2. EXPERIÊNCIA NA REDEMOCRATIZAÇÃO E O TEMA DA SEGURIDADE

Se alguns temas o motivaram por toda a vida acadêmica, o movimento da política o atraiu sempre, como as grandes óperas. Com o fim da ditadura militar, seu expressivo trabalho político e acadêmico dos mais de 20 anos anteriores o fez receber convites para participar daquilo que se via na época como um governo que levaria o Brasil para o verdadeiro desenvolvimento, agora sob direção democrática. Em 1986, aceitou assumir a Superintendência Nacional de Abastecimento (SUNAB) no contexto do Plano Cruzado. No ano seguinte, foi Secretário Especial de Abastecimento e Preços do Ministério da Fazenda, mas a importância do movimento político que se expressou na Assembleia Nacional Constituinte tomou de assalto seu peito militante e o levou a contribuir com formulações estruturantes do capítulo da Seguridade Social na Constituição que ali se escrevia para o país. Coerentemente a este movimento, em 1988, assumiu o cargo de Secretário Geral da Previdência e Assistência Social.

As políticas sociais e a questão da seguridade social em sua dimensão de relação entre previdência, saúde e assistência social também foram grande temas de sua produção acadêmica. Jamais atuou politicamente sem construir os debates teóricos e políticos nos quais escolhia desembainhar suas ideias e críticas.

Na luta pela seguridade social e na construção de políticas públicas democráticas, foram suas parceiras intelectuais sua irmã Maria Lúcia Teixeira Werneck Vianna e sua esposa Beatriz Azeredo, além de vários orientandos e companheiros de reflexão. Entre muitos, alguns textos importantes que escreveu sobre o tema foram O financiamento da seguridade social em 1989: novos caminhos, velhos problemas (Teixeira, 1989); Do Seguro à seguridade: a metamorfose inconclusa do sistema previdenciário brasileiro (Teixeira, 1990); A política econômica como restrição ao desenvolvimento do sistema de saúde (Teixeira, 1999), como capítulo do livro Financiamento e gestão do setor de saúde; e Notas sobre a regulação dos planos de empresas no Brasil, publicado na revista Regulação & Saúde em 2002 (Teixeira et al., 2002).

Além disso, orientou no programa de pós-graduação em economia e no programa de pós-graduação em serviço social, ambos na UFRJ, várias teses e dissertações sobre questões das políticas públicas sociais no Brasil. Dentre estas teses orientadas, destaca-se o trabalho de Denise Gentil, muitas vezes referido no debate recente sobre a falsa crise da seguridade social no Brasil. Desta forma, Aloísio permaneceu confrontando-se com os temas escolhidos para sua inserção na prática política na redemocratização ao longo de toda a vida.

 

3. RETORNO À UNIVERSIDADE, O TEMA DO MARXISMO E AS INTERPRETAÇÕES DO BRASIL

A década de 1990 marcou seu retorno à universidade. Nesta década, concluiu seu doutorado pela UNICAMP defendendo a tese O ajuste impossível – um estudo sobre a desestruturação da ordem econômica mundial e seu impacto sobre o Brasil (Teixeira, 1993), publicada como livro no ano seguinte pela Editora da UFRJ (Teixeira, 1994). Voltou a ministrar cursos na graduação e na pós-graduação do Instituto de Economia da UFRJ (nascido nos anos 1990 pela fusão da Faculdade de Economia da FEA e o IEI), a partir dos quais montou grupos de estudo e de pesquisa com seus estudantes, que vinham de toda a universidade.

Seus cursos de leituras dos Grundrisse, de Karl Marx (2011), e Tópicos em História do Pensamento Econômico deram origem ao Grupo de Estudos Marxistas (GEMA), cujos trabalhos floresceram com o livro Utópicos, heréticos e malditos (Teixeira, 2002), e à fundação do Laboratório de Estudos Marxistas (LEMA) junto com o professor José Ricardo Tauile, em 2005.

Marx, segundo o próprio Aloísio, organizou definitivamente a matriz de seus pensamentos e era o fundamento de seu marco teórico, mas o objeto de reflexão de sua dedicação era o Brasil. Seus cursos sobre crises políticas e crises econômicas no Brasil, transformações globais e a economia brasileira, e as duas versões e inúmeras edições do curso Intérpretes do Brasil, resultaram em uma motivação: discutir a necessidade de criação de um espaço de estudos que transpusesse todas as barreiras disciplinares juntando pesquisadores dos pensamentos social, econômico, jurídico, literário, musical e tecnológico brasileiro para o estudo e a formulação de interpretações sobre o Brasil.

Foi também nos anos 1990 que concorreu pela primeira vez para a reitoria da UFRJ, tendo sido o candidato escolhido pelo voto da maior parte da comunidade universitária. No entanto, sofreu um golpe do Ministério da Educação (MEC), quando o Ministro Paulo Renato de Souza – seu contemporâneo na Unicamp – preteriu seu nome na lista tríplice por de outro candidato recebedor de menos de 9% do total de votos. Eterno combatente pela democracia, Aloísio assumiu o assento de representante de professores titulares do Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas (CCJE) no Conselho Universitário, de onde travou dura batalha contra a intervenção então instalada.

Entre 2003 e 2011, dirigiu a UFRJ de forma democrática, sempre aberto a ouvir e dar espaço à apresentação do contraditório, possibilitando um ambiente de debate e criatividade raramente vivido pela universidade brasileira. Reviveu a universidade de um período de sombras, reorganizando-a administrativamente, recolocando na pauta dos conselhos superiores e na comunidade da UFRJ o debate sobre o papel da universidade pública no Brasil, e lutando no MEC, na Associação Nacional de Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (ANDIFES) e em cada fórum que pudesse pela expansão de vagas, estrutura e financiamento do ensino superior público, gratuito, universal e de qualidade.

Esta bela trajetória esteve sempre entremeada de duas deliciosas paixões com as quais animava e seduzia seus amigos e companheiros: a torcida pelo Botafogo e a culinária inovadora.

Aloísio realizou tudo o que de melhor sonhou e que estava no cardápio das possibilidades da história do seu tempo. Foi um homem que nesta vida estendeu seu abraço a um número inimaginável de pessoas. Por tudo isso, podemos dizer que, entre tantos louros, um facho de luz: Aloísio, a tua estrela solidária nos conduz!

 

REFERÊNCIAS

KINDLEBERGER, C. P. Movimentos internacionais de capital. Rio de Janeiro: Editora Record, 2007.         [ Links ]

MARX, K. Grundrisse. Manuscritos econômicos de 1857-1858: esboços da crítica da economia política. São Paulo: Boitempo Editorial, 2011.         [ Links ]

MARX, K. O Capital: O processo de produção do capital. Alemanha, 1867. v. 1.         [ Links ]

MARX, K. O Capital: O processo de circulação do capital. Alemanha, 1885. v. 2.         [ Links ]

TAVARES, M. C. A retomada da hegemonia norte-americana. Revista de Economia Política, v. 5, n. 2, abr./jun., 1985. Disponível em: <http://www.rep.org.br/pdf/18-1.pdf>. Acesso em: 30 nov. 2012.         [ Links ]

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TEIXEIRA, A. O movimento da industrialização nas economias capitalistas centrais no pós-guerra. Texto para Discussão, IEI/RJ, n. 25, 1983.         [ Links ]

 

 

* A autora agradece a carinhosa ajuda de Ana Maria Malin, Angela Ganem e Maria Lucia Teixeira Werneck Vianna, sem a qual este texto jamais poderia ter sido escrito.

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