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Revista de Economia Contemporânea

On-line version ISSN 1980-5527

Rev. econ. contemp. vol.17 no.1 Rio de Janeiro Jan./Apr. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S1415-98482013000100007 

Uma análise de custo-benefício do museu da imagem e do som da cidade do Rio de Janeiro (*)

 

A cost-benefit analysis of the museum of image and sound in Rio de Janeiro

 

 

Ronaldo Seroa da MottaI; Ramon Arigoni OrtizII

IDoutor em Economia pela University College London, professor de Economia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e das Faculdades IBMEC, e sócio da Ecometrika. Contato: seroadamotta.ronaldo@gmail.com
IIDoutor em Economia e sócio da Ecometrika. Contato: ramon.arigoni.ortiz@gmail.com

 

 


RESUMO

Este artigo apresenta uma análise de custo-benefício do novo Museu da Imagem e do Som (MIS) que o Governo do Estado do Rio de Janeiro em parceria com a Fundação Roberto Marinho está construindo na cidade do Rio de Janeiro. O museu vai ampliar o acervo da produção cultural carioca, tanto a sua história quanto à sua produção futura. Nosso estudo estima inicialmente os benefícios associados ao novo museu relativos ao: (i) valor de não uso ou cultural; e (ii) valor de uso turístico aplicando o método de valoração contingente seguindo as recomendações e procedimentos estimativos consagrados na literatura, em especial para controle do viés de escopo e protesto. Ao compararmos esses benefícios aos respectivos custos de implantação, estimamos uma taxa interna de retorno entre 25,5% e 54,8%, indicando que o projeto do novo MIS apresenta uma alta viabilidade social.

Palavras-chave: Valor cultural; valor turístico; valoração contingente; museu; Rio de Janeiro.
CLASSIFICAÇÃO JEL: H41.


ABSTRACT

This article presents a cost-benefit analysis of the new Museum of Image and Sound (MIS) that the State Government of Rio de Janeiro, in partnership with the Roberto Marinho Foundation, is building in the city of Rio de Janeiro. The museum will expand the collection the cultural production of the city, as much in regards to its history as to its future production. Our study initially estimates the benefits associated with the new museum regarding (i) the value for non-use, or cultural services, and (ii) the value for tourist services, using the contingent valuation method with split samples and estimations procedure suggested in the literature to control for scope and protest biases. When comparing these benefit estimates to their respective building and operation costs, an internal return rate of between 25.5% and 54.8% is determined indicating that the new MIS is highly feasible in the social terms.

Keywords: Cultural values; tourism values; contingent valuation; museum; Rio de Janeiro.


 

 

1. INTRODUÇÃO

O Museu da Imagem e do Som (MIS) foi inaugurado em 1965 e representou um gênero pioneiro no Brasil de museu dedicado a reunir e guardar a memória da produção cultural no Brasil. Possui, hoje, um dos acervos mais expressivos e diversificados da memória da cultura brasileira e é utilizado, atualmente, como fonte para pesquisadores, porém é pouco conhecido pelo o grande público.

A Secretaria de Estado de Cultura e a Fundação Roberto Marinho são parceiras na construção da nova sede e modernização do Museu da Imagem e do Som (MIS), contando com investimentos diretos da própria Secretaria de Estado da Cultura, com um empréstimo do Banco Interamericano de Desenvolvimento e também com patrocínios do setor privado, diretos e pela lei federal de incentivo à cultura, tendo como patronos as Organizações Globo, Itaú e Natura, e patrocinadores a Vale do Rio Doce, IBM, Ambev e Light.

O novo Museu da Imagem do Som (MIS) pretende se transformar em uma das maiores atrações do turismo nacional e internacional. O acervo será digitalizado e disponibilizado para o público por meio de uma exposição de longa duração, que usará as mais modernas tecnologias interativas. Além disso, todo o acervo estará disponível em ambiente digital para consulta e pesquisa.

O MIS pretende ser um museu que retrata a identidade carioca representada por suas manifestações artísticas. O Rio de Janeiro, capital informal da criatividade e da produção cultural do Brasil, abrigara importantes eventos internacionais nos próximos anos. Milhares de turistas nacionais e estrangeiros, além de moradores locais que estarão usufruindo de maneira mais intensa da cidade durante esses eventos, terão um lugar onde poderão sentir, mais a fundo, o que e ser carioca. Além de seu acervo próprio, também o acervo do Museu Carmen Miranda, hoje localizado em edifício de instalações precárias, será incorporado ao novo MIS.

O projeto arquitetônico do novo MIS foi escolhido por meio de um concurso internacional de ideias, efetuado em 2009. O escritório Diller Scofidio & Renfro, de Nova Iorque foi o vencedor. O projeto tem como inspiração o calçadão de Copacabana, de onde apropriam a ideia da "verticalização" do calçadão, criando um acesso externo ate o topo da edificação. A museografia está sob a responsabilidade de Daniela Thomas e Felipe Tassara, e a curadoria é do jornalista Hugo Sukman.

Este estudo realiza uma análise de custo-benefício do projeto de reconstrução e ampliação do Museu da Imagem e do Som (MIS), Rio de Janeiro, Brasil. Para tal, estimamos inicialmente os valores dos benefícios culturais associados ao museu para depois compararmos aos seus custos de implantação.

Enquanto os custos de implantação são derivados de projetos arquitetônicos e de engenharia, a estimação dos benefícios culturais está associada aos ganhos de bem-estar que o museu pode oferecer. Bens e serviços culturais, da mesma forma que bens e serviços ambientais, podem possuir valor de uso e valor de não uso. Por exemplo, a visita a um sítio cultural pode gerar benefícios recreativos e, tanto para financiar esse uso quanto evitar seu congestionamento, pode-se cobrar um preço por esse uso e tratá-lo à semelhança de um bem privado racionado via preços1.

Já os valores de não uso, associados à preservação ou existência do bem ou serviço cultural (BSC), teriam uma característica de bem público, tal como definido pela teoria econômica. Isso porque o valor cultural, nesse caso, pode ser aproveitado por inúmeros indivíduos ao mesmo tempo (não rivalidade) e uma vez disponível não há como negar seu acesso a um consumidor (não exclusão). Nesses casos é difícil coletar um preço pelo uso do recurso. Assim, preços não servem para racionar o uso e gerar receitas para sua conservação, podendo, assim, resultar na sua degradação. Essa dificuldade de precificação, entretanto, não significa que o BSC não gere valor e não afete o bem-estar da sociedade. Ao contrário, o valor de nãouso pode ser percebido por muitos indivíduos, mesmo aqueles que não usam de alguma forma o BSC, mas gostariam de preservá-lo pelo seu valor intrínseco independentemente de alguma forma de uso. Ou seja, uma forma de consumo de não uso2.

Assim sendo, perdas de BSC são indesejáveis e os indivíduos estariam dispostos a pagar pelo seu uso, como também evitar sua perda ou degradação, pois tanto o uso quanto a sua preservação (não uso) geram ganhos de bem-estar ou utilidade. Então, haveria uma disposição máxima a pagar (DAP) que cada indivíduo percebe como aquela que vale o ganho de bem-estar gerado pelo uso ou preservação de BSC que, assim, reflete o valor cultural daquele BSC ao indivíduo. Quando os indivíduos pagam pelo uso, o ganho de bem-estar, chamado de excedente do consumidor gerado pelo uso, seria a diferença entre a DAP pelo uso e o preço efetivamente pago. Mas se o consumo é gratuito, a DAP logo se iguala ao excedente do consumidor3.

Como podemos, então, medir a DAP se só observamos preços e, em alguns casos de consumo gratuito, nem os preços? Essa tem sido a área de valoração econômica que avançou muito nas últimas décadas na economia ambiental (Freeman, 1979; Pearce e Turner, 1990; Hanley et. al., 1997; Seroa da Motta, 2006). Em resumo, podemos medir quanto cada visitante estaria disposto apagar de várias formas.

Quando se trata de valores de uso as preferências são reveladas, como por exemplo, nos custos de viagem que as pessoas incorrem para visitar um sítio cultural que, quando correlacionados com variáveis de visitação, oferecem uma aproximação da disposição a pagar dos visitantes em relação aos benefícios recreativos. É o chamado método do custo de viagem e há vários exemplos de sua aplicação em BSC (Fonseca e Rebelo, 2010; Vincente e Frutosa, 2010; Alberini e Longo, 2006; Forrest et al., 2000).

Da mesma forma, preferências são reveladas nos preços de moradia em uma região onde se encontra um sítio natural indicando como a disposição a pagar por imóveis varia com características culturais. É o chamado método dos preços hedônicos que também tem sido aplicado na valoração de BSC (Coulso e Leichenko, 2001; Ruijgrok, 2006; Noonan, 2007).

Ou podemos ainda estimar esse valor da disposição a pagar (DAP) diretamente com uma pesquisa junto a uma amostra da população, perguntando quanto estes estariam dispostos a pagar para visitar ou preservar o sítio. É o chamado método da valoração contingente. Esse método é o único que captura valor de não uso já que o benefício da preservação não se esgota no custo da visita ou da moradia próxima ao BSC. Esse método tem recebido o maior esforço empírico de valoração na recente literatura de valoração cultural e, por conta disso, já foi objeto de uma resenha extensiva, como, por exemplo, em Navrud e Ready (2001) que analisaram 27 estudos e de outro estudo de meta-análise por Nooman (2003) que analisou 129 estudos. Entre os estudos relacionados a museus destacamos Bedate et. al. (2009) e Sanz et al. (2003) para museus espanhóis, Bravi et. al. (2002) e Santagata e Signorello (2000) para museus italianos e Martin (1994) para museus canadenses.

Nosso estudo estima tanto o valor cultural (não uso) do museu junto à população da cidade do Rio de Janeiro como o valor de visitação junto aos turistas brasileiros e estrangeiros. Nos dois casos adotaram-se pesquisas de valoração contingente.

A seguir apresentamos nosso modelo de estimação dos benefícios culturais seguido dos procedimentos de pesquisa e análise dos resultados. Com base nesses resultados realizamos na seção seguinte uma análise de custo-benefício. Ao final concluímos.

 

2. A ESTIMAÇÃO DOS BENEFÍCIOS CULTURAIS

A seguir descrevemos o modelo adotado e os procedimentos de pesquisa para sua aplicação e nas subseções seguintes os resultados da valoração dos benefícios ambientais.

2.1. O MODELO ADOTADO4

Assumimos uma função de utilidade esperada do indivíduo consumidor de BSC como u (j, y; s), em que j = 1, se o indivíduo tem acesso a BSC e zero quando ele não tem acesso. O termo y é a renda do consumidor e s é um vetor de atributos que afetam a decisão de consumir o BSC. Logo u (j, y; s) é composta de um componente observável v (j, y; s) e outro não observável εj, tal que u (j, y; s) = v (j, y; s) + εj.

Seja a utilidade esperada (u) do indivíduo i igual a u1 = u (1, y - PGTO, s) quando tem acesso ao BCS com um pagamento (PGTO), e a utilidade esperada daqueles que não querem ter acesso e não pagar seja u0 = u (0, y; s). Logo, o indivíduo decidirá se aceita pagar ou não se:

ou

Admitindo uma distribuição para o termo do erro εj, a diferença ε0 - ε1 seria essa distribuição, como por exemplo em modelos Logit (distribuição logística) e Probit (distribuição normal). Ou seja, a probabilidade de que o proprietário aceita o pagamento solicitado seria quando Δv se iguala à diferença de utilidade na equação (2) (Hanemann, 1984 e Maddala, 1983).

Dois questionários foram aplicados: um para medir a DAP dos residentes do município do Rio de Janeiro para a preservação da memória audiovisual (ou valor de não uso ou existência do novo MIS), com uma amostra domiciliar de 1.000 questionários aplicados; e outro para medir a DAP dos turistas brasileiros e estrangeiros para visitarem o novo MIS (valor de uso turístico ou recreativo do novo MIS) em uma amostra de intercepto com 1.000 questionários (500 turistas brasileiros e 500 estrangeiros) realizada em diversos pontos turísticos da cidade.

Além da renda, captamos outros atributos dos entrevistados. Incluímos perguntas específicas sobre o domicílio, a família, a escolaridade e a relação com as questões culturais.

Nas resenhas de valoração contingente anteriormente citadas, os autores confirmam alguns problemas metodológicos, que são também detectados na aplicação ambiental de valoração contingente e que podem gerar uma medida enviesada da diferença de utilidade na equação (2), tais como: (i) insuficiente informação dos atributos culturais dificultando a compreensão do BSC gerando viés de escopo; e (ii) alta incidência de valor nulo com viés de protesto.

Seguindo a literatura especializada em viés de escopo (Carson, 1997; Smith e Osborne, 1996; Hanemann, 1994; Loomis, Lockwood e DeLacy, 1993) utilizamos uma técnica de pesquisa para mitigar esse problema, a saber, pesquisa presencial pessoal com informação detalhada do BSC a ser valorado, usando inclusive recursos visuais.

Entre os indivíduos que não querem pagar há os que realmente não assinalam valor ao BSC, mas há os que mesmo tendo um valor positivo se negam a revelar por rejeição ao cenário ou a forma de financiamento do BSC e, assim, protestam com a não participação. Para mitigar o viés de protesto utilizamos técnicas de pesquisa consagradas na literatura (ver resenha em Meyerhoff e Liebe, 2010) e utilizadas em todos os cinco estudos de museus anteriormente citados. Primeiro, o mecanismo de pagamento para valor de não uso na forma de doação voluntária a um fundo próprio do museu com execução monitorada e transparente e para valor de uso na forma de um valor de entrada. Segundo, aplicamos ambos com formato dicotômico no qual o respondente aceita ou não pagar um valor solicitado.

Mesmo com a adoção dessas técnicas a literatura citada reconhece que há, ainda, alta incidência de protestos. Todos os estudos de museus anteriormente citados apresentam um alto grau de não aceitação, que chegou a gerar, nos casos dos museus espanhóis, por exemplo, em Bedate et al. (2009) e Sanz et al. (2003) taxas de protesto de, respectivamente, 18% e 40% da amostra.

Assim, há diferentes propostas de como tratar essas respostas de protesto. A literatura divide-se em alguns propondo tratar essas respostas com valor zero (Halstead et al., 1992; Meyerhoff e Liebe, 2006) e outros sugerindo retirá-los da amostra usada no cômputo dos resultados (Mitchell e Carson, 1989; Dziegielewska e Mendelsohn, 2007)5.

Assim, adotamos perguntas específicas para identificar as motivações a não aceitar o pagamento oferecido separando razões econômicas (insuficiência de renda ou falta de preferência pelo BSC) das que conformam protesto ao mecanismo de pagamento e não ao BSC (desconfiança do uso do recurso por falta de credibilidade no governo ou por acharem que já pagam muito dinheiro ao governo).

Usamos análise de regressões para a identificação dos fatores determinantes para a decisão de protestar e de aceitar pagar o valor de pagamento solicitado. A análise de regressão visa relacionar estatisticamente uma variável (dependente) com outras variáveis (chamadas variáveis independentes) que sejam explicativas da variável dependente, segundo formas funcionais e distribuições de frequência adotadas pelo analista.

Na identificação econométrica utilizamos os modelos que são recomendados para os casos em que a variável dependente é dicotômica, em nosso caso é a resposta (sim ou não) ao valor de pagamento solicitado. Na análise de protesto usamos somente um modelo Probit, mas na estimativa da DAP média utilizamos os modelos Probit, Logit e o Turnbull nãoparamétrico (ver Haab e McConnell, 2002).

Com isso, realizamos testes para identificar se as respostas da DAP foram dadas aleatoriamente ou obedeceram a algum critério socioeconômico ou comportamental por parte dos entrevistados. Por exemplo, esperamos que entrevistados com maior renda mensal, com maior nível educacional ou com maior interesse por temas relacionados com a cultura audiovisual estejam dispostos a contribuir para o Fundo MIS com valores mais altos.

Em todos os modelos testamos todas as variáveis explicativas disponíveis no banco de dados e excluímos dos modelos finais aquelas que não se mostraram estatisticamente significativas. A exceção a essa regra é a variável renda, pois esse é um teste típico em estudos de valoração contingente (estimativas da DAP são teoricamente dependentes da renda do entrevistado).

Utilizamos também os resultados das regressões (os coeficientes estimados nos modelos) e os valores médios amostrais das variáveis para estimar valores médios da DAP.

Optamos por retirar da amostra os indivíduos que apresentaram um comportamento de protesto. Em outras palavras, para efeito da estimação da DAP média da amostra, quando desta retiramos os indivíduos que protestam estamos admitindo que a DAP dos que protestam é igual à DAP média amostral.

2.2. ESTIMATIVAS DE VALOR DE NÃO USO

A amostra para estimar valor de não uso obtida na pesquisa de residentes da cidade do Rio de Janeiro está balanceada em termos de sexo e educação dos entrevistados, correspondendo estas aproximadamente às estatísticas populacionais do município do Rio de Janeiro.

Dos resultados de uma análise descritiva da amostra podemos destacar que 70,5% dos entrevistados disseram que se interessam por temas relacionados com a cultura; 84,6% declaram que é importante a preservação da memória da imagem e do som da cultura brasileira; 50% consideraram muito importante a construção da nova sede do MIS. Ressaltamos que as respostas positivas da DAP apresentam um alto grau de confiabilidade, uma vez que 93,3% dos entrevistados que disseram contribuir para o Fundo MIS estão seguros de que pagariam o valor informado.

Em se tratando da variável de entendimento do questionário, a maioria absoluta (98,3%) revela ter achado o questionário de fácil compreensão, o que sugere que o instrumento utilizado na pesquisa está adequado. A Tabela 1 mostra algumas estatísticas descritivas de variáveis importantes, como renda e idade dos entrevistados.

 

 

Dentre as respostas que identificam as motivações a não aceitar contribuir com o valor solicitado para o Fundo MIS, três indicavam razões econômicas para o não pagamento ("tenho outros compromissos a pagar e, no momento, não tenho como me comprometer com este"; "não acho que o novo MIS seja importante e, assim, prefiro apoiar outras iniciativas"; e "não tenho interesse em museus e centros culturais"); e outras duas respostas indicam comportamento de protesto ("acho que esta é uma obrigação do governo" e "não acredito em iniciativas de governo").

Essas motivações de protesto atingiram 33% do total da amostra ou 54% dos que não aceitam pagar para o Fundo MIS. Com um modelo Probit analisamos os determinantes do protesto, e como observado na Tabela 2, a probabilidade de protestar contra o pagamento de contribuição para o Fundo MIS não está relacionada com a renda do entrevistado e sim como o grau de importância que o entrevistado dá a construção da nova sede do MIS (quem menos dá importância tem maior probabilidade de protestar) e se o entrevistado é estudante (não estudantes têm maior probabilidade de protestar). Essas são variáveis que são plausíveis para explicar tanto a falta de interesse quanto a rebeldia e, portanto, consideramos essas respostas como protesto e seus questionários não foram inclusos na estimação da DAP.

 

 

Em relação aos determinantes de aceitação do pagamento solicitado, como mostram os resultados na Tabela 3 relativos ao modelo Probit e Logit, além do valor do pagamento, são significativas as variáveis da renda do entrevistado; a importância que o entrevistado dá à construção da nova sede do MIS e se o entrevistado pretende visitá-la.

 

 

Dependendo dos modelos econométricos utilizados, os resultados na Tabela 4 indicam que a disposição média a pagar se situa no intervalo entre R$ 13,06 e R$ 26,78. Essas estimativas da DAP por residência foram multiplicadas pelo total de residências na cidade do Rio de Janeiro (Censo IBGE, 2010), que totalizou 2.144.445 residências. Logo, o valor de existência total (VE) do MIS para os residentes na cidade do Rio de Janeiro foi estimado entre R$ 28 e 57 milhões anuais.

 

 

2.3. ESTIMATIVAS DE VALOR DE USO

Na amostra de turistas usada para estimar valor de uso turístico, o grau de escolaridade da amostra de turistas pode ser considerado elevado (66,2% com nível superior completo ou mais) e talvez em consequência do alto grau de instrução, a renda média da amostra (R$ 7.412) também pode ser considerada elevada. Observa-se que, apesar do pouco conhecimento por parte dos turistas a respeito do MIS (79,2% nunca ouviram falar do MIS), é grande o interesse demonstrado pelos turistas em relação à nova sede do MIS, pois 95,3% estariam dispostos a visitar a nova sede e 89,1% estariam dispostos a pagar para visitar a nova sede do MIS. Ou seja, não há protesto no valor de uso.

É grande também o grau de confiabilidade das respostas positivas da DAP, uma vez que 93,3% dos entrevistados que aceitaram pagar o valor solicitado para visitar a nova sede do MIS demonstraram segurança de que pagaria o valor informado. Em se tratando da variável de entendimento do questionário, a maioria absoluta (99,2%) revela ter achado o questionário de fácil compreensão, o que sugere que o instrumento utilizado na pesquisa está adequado para os entrevistados. A Tabela 5 mostra algumas estatísticas descritivas dessa amostra.

 

 

Analisamos com um modelo Probit a decisão em pagar para visitar o museu, dos turistas brasileiros e estrangeiros juntos. Como mostram os resultados da Tabela 6, as variáveis que determinam a decisão em pagar para visitar a nova sede do MIS são bastante plausíveis e estão associadas ao grau de interesse do entrevistado em temas audiovisuais e o grau de importância dado à construção da nova sede.

 

 

Em seguida analisamos a decisão de aceitar o pagamento solicitado. Como se observa na Tabela 7, para os turistas estrangeiros a renda e o grau de importância atribuído à construção do novo MIS explicam essa decisão, como também o valor do pagamento solicitado.

 

 

Para os turistas brasileiros, como mostra a Tabela 8, a variável renda não aparece significativa e sim a de escolaridade com sinal negativo, indicando que pessoas com maior nível de instrução pagariam menos para visitar o museu. Esse resultado inesperado pode ser, na verdade, devido à resistência do respondente brasileiro a revelar sua verdadeira renda a entrevistadores em abordagens em lugares abertos devido à sensação de insegurança existente a época na cidade.

 

 

Outras variáveis relevantes para explicar a decisão de pagar para visitar o novo MIS seriam o interesse por temas audiovisuais e o conhecimento prévio do entrevistado a respeito do novo MIS, além do valor solicitado para pagamento.

Dependendo do modelo econométrico utilizado, a disposição média a pagar de um turista estrangeiro para uma visita a nova sede do MIS se situa no intervalo entre R$ 23,39 e R$ 26,19, conforme mostra a Tabela 9. Essas estimativas da DAP foram multiplicadas pelo total de turistas estrangeiros visitantes da cidade do Rio de Janeiro em um ano (982.538, segundo o Anuário Estatístico 2010 do Ministério do Turismo), ajustado pelo percentual de turistas estrangeiros que afirmaram estar dispostos a visitar o novo MIS (92,6%). O valor anual de uso turístico do novo MIS para o turista estrangeiro foi estimado entre R$ 22 milhões e R$ 23,8 milhões para o grupo de turistas estrangeiros.

 

 

A disposição média a pagar de um turista brasileiro para uma visita a nova sede do MIS se situa no intervalo entre R$ 27,43 e R$ 31,86, acima um pouco do turista estrangeiro, o que pode estar indicando algum viés de escopo ao capturar valor de não uso cultural.

Essas estimativas da DAP foram multiplicadas então pelo total de turistas brasileiros visitantes da cidade do Rio de Janeiro em um ano (4.315.000, fonte: Pesquisa FIPE - Ministério do Turismo, 2007), ajustado pelo percentual de turistas brasileiros que afirmaram estar dispostos a visitar o novo MIS (98,0%). O valor anual de uso turístico do novo MIS para o turista brasileiro foi estimado entre R$ 116 e R$ 134,7 milhões para o grupo de turistas brasileiros.

 

3. RESULTADOS DA ANÁLISE DE CUSTO-BENEFÍCIO

Para sermos conservadores na análise de custo-benefício (ACB) realizada, utilizamos os limites inferiores das estimativas dos benefícios anteriormente apresentadas e comparamos essas estimativas aos custos do novo museu6.

Nesse sentido, foram obtidas estimativas dos custos de investimentos (capital) e operação. Os custos de capital para as fases de concepção do projeto e construção totalizaram, a preços de 2011, um valor de R$ 150,7 milhões e foram calculados com base no projeto de engenharia que foi contratado.

Os custos operacionais foram estimados para pessoal fixo e outras despesas com base em inferência de custos observados em outros museus no Brasil e resultaram, respectivamente, em valores anuais, a preços de 2001, em R$ 3,8 e 5,5 mil. O cronograma do projeto prevê o início da operação do novo MIS no primeiro semestre de 2014 e por esse motivo incluímos, neste ano, metade dos custos de operação, que foram estimados por ano.

O período de análise foi de 30 anos. O fluxo de turistas que visitariam o museu foi estimado a partir de dados do Ministério do Turismo (Anuário Estatístico 2010 e Pesquisa FIPE 2007) e ajustados pelos percentuais de turistas em nossas amostras que declararam interesse em visitar o novo MIS.

Com base nesses custos e benefícios, a taxa interna de retorno (TIR) do investimento foi estimada em 54,8% (benefícios líquidos de R$ 1,1 bilhão), o que sugere um alto retorno dos investimentos e a viabilidade econômica do projeto novo MIS.

Para testar a sensibilidade da ACB aos procedimentos adotados, realizamos uma análise de sensibilidade. Por exemplo, mesmo não considerando o valor de não uso e considerando metade do fluxo estimado de turistas, além da taxa de desconto de 15% a.a., a TIR continua alta e positiva em torno de 25,5%. Em suma, em todos os cenários projetados, o projeto do novo MIS apresenta uma alta viabilidade social.

 

4. CONCLUSÕES

Este estudo analisou a viabilidade econômica do novo Museu da Imagem e do Som (MIS) na cidade do Rio de Janeiro, Brasil. Para tal, estimamos inicialmente os benefícios associados ao: (i) valor de não uso ou cultural; e (ii) valor de uso turístico aplicando o método de valoração contingente seguindo as recomendações e procedimentos estimativos consagrados na literatura, em especial para controle dos vieses de escopo e protesto.

Embora não tenhamos conseguido eliminar totalmente esses vieses, nossos resultados foram de acordo com o esperado. Como a resenha da literatura (Navrud e Ready, 2001; Nooman, 2003) observava, também constatamos que valores de uso geralmente são maiores que os valores de não uso. E as variáveis que explicam os benefícios culturais são: as que dão importância ao acervo do museu; e as que se referem à preferência por atividades audiovisuais.

O valor da DAP média de não uso do residente da cidade estaria, assim, no intervalo entre R$ 13,06 e R$ 26 e o valor de uso entre R$ 23,39 e R$ 31,86. Comparando esses benefícios aos custos do novo museu, estimamos uma taxa interna de retorno entre 25,5 e 54,8%. Em suma, o valor cultural percebido pela população da cidade e o valor de uso atribuído pelos turistas indicam que o projeto do novo MIS apresenta uma alta viabilidade social.

 

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Artigo recebido em 10/10/2012 e aprovado em 08/03/2013.

 

 

* Estudo conduzido para a Fundação Roberto Marinho dentro "Termo de Referência para Contratação de Estudos de Valoração Econômica dos Benefícios do Museu da Imagem e do Som (MIS) Copacabana - Rio de Janeiro" do Programa Nacional de Desenvolvimento do Turismo (PRODETUR RJ). Os autores agradecem as valiosas sugestões de Mônica Rodrigues Dias Pinto e Rosalina Soares ambas da Fundação Roberto Marinho.
1 Inclusive diferenciando preços por critérios distributivos.
2 O debate sobre a natureza dos valores de não uso e sua possibilidade de mensuração permeou, por muito tempo, a literatura de valoração ambiental. Os textos seminais sobre valor de não uso de Mitchell e Carson (1989) e Arrow et al. (1993) tiveram suas críticas em Hausman (1993) e Diamond e Hausman (1994). Mais tarde diversos manuais pacificaram a questão, entre eles, Bateman et al (2002) e Alberini e Kahn (2006).
3 Essa abordagem econômica é contestada por alguns especialistas culturais que rejeitam a possibilidade de o valor de não uso ser avaliado individualmente e/ou ser resultante de troca que o indivíduo faz no consumo através da sua restrição orçamentária (Klamer, 2003) ou economistas que questionam empiricamente que exista altruísmo por parte dos indivíduos em relação à preservação cultural (Brooks, 2004).
4 O modelo está apresentado para o caso de valor de uso (visitação), mas pode ser interpretado também para o caso de valor de não uso do MIS.
5 Outra forma seria uma estimação conjunta ou em dois estágios com respostas de participação e de pagamento (Strazzera et al., 2003).
6 No questionário de valor de uso obtivemos quantos dias a mais o turista ficaria na cidade por conta do museu e, assim, estimamos que essa estadia prolongada pudesse chegar a uma receita líquida de quase R$ 100 milhões por ano, dependendo da hipótese de gastos diários desses turistas. Devido à incerteza desses gastos, tal montante não foi considerado na ACB aqui apresentada. No questionário de valor de não uso havia uma pergunta, no formato aberto, sobre o valor máximo que o entrevistado pagaria na entrada no museu caso desejasse visitá-lo no futuro para tentar medir o valor de uso junto aos residentes. Conforme esperado, os valores informados estavam fortemente correlacionados com o valor do pagamento solicitado inicialmente ao valor de não uso, resultante do viés de ancoragem (DeShazo, 2002). Por essa razão não incluímos também esse valor na ACB.

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