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Revista Brasileira de Zootecnia

Print version ISSN 1516-3598On-line version ISSN 1806-9290

R. Bras. Zootec. vol.35 no.2 Viçosa Mar./Apr. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-35982006000200035 

RUMINANTES

 

Exigências nutricionais em macronutrientes minerais (Ca, P, Mg, Na e K) para novilhos de diferentes grupos genéticos

 

Macrominerals (Ca, P, Mg, Na, and K) requirements for young bulls from different genetic groups

 

 

Fernando de Paula LeonelI; José Carlos PereiraII; Ricardo Augusto Mendonça VieiraIII; José Antônio de FreitasIV; Alecssandro Regal DutraV; Adhemar Ventura de LimaVI; Marinaldo Divino RibeiroI; Marcone Geraldo CostaI

IPós-Graduação em Zootecnia do DZO/CCA/UFV
IIDepartamento de Zootecnia - UFV, Viçosa, MG, CEP 36571-000. Bolsista do CNPq
IIILZNA/CCTA/UENF
IVUFPR Campus Palotina
VUEG Goiânia
VIFENORTE/UENF

 

 


RESUMO

Determinaram-se as exigências em macronutrientes minerais (Ca, P, Mg, Na e K) utilizando-se 44 novilhos não-castrados, pertencentes a quatro grupos genéticos (Nelore; F1 Nelore x Aberdeen-Angus; F1 Nelore x Pardo-Suíço e F1 Nelore x Simental), com média de 10 e 11 meses de idade e peso vivo inicial de 362 ± 35 kg. A ração experimental foi composta de feno de capim-braquiária (Brachiaria decumbens, Stapf.), farelo de soja, milho (grão moído), melaço em pó e suplementos de macro e micronutrientes inorgânicos. As exigências líquidas para ganho de peso, em cada macronutriente, foram obtidas por meio da derivada primeira de suas respectivas equações, estimadas a partir de regressão não-linear do conteúdo do nutriente (Ca, P, Mg, Na e K), em função do peso de corpo vazio do animal. Para conversão do peso vivo em peso de corpo vazio, utilizou-se a equação obtida a partir da regressão do peso corporal vazio dos animais experimentais em função de seus pesos imediatamente antes do abate. As exigências de mantença foram estimadas de acordo com as recomendações do NRC e ARC e os coeficientes de absorção adotados para os cinco macronutrientes foram aqueles propostos pelo ARC. O teste de identidade de modelos indicou não haver diferenças entre as equações de regressão para os minerais entre os quatro grupos genéticos estudados. Não foram verificadas, pela análise de variância, diferenças entre as exigências de macrominerais entre os diferentes grupos genéticos.

Palavras-chave: bovino de corte, nutrição, novilhos, retenção mineral


ABSTRACT

The objective of this trial was to determine the macrominerals requirements (Ca, P, Mg, Na, and K) for young bulls from different genetic groups. Forty-four young bulls from the following genetic groups were used: Nellore, F1 Nellore x Aberdeen-Angus, F1 Nellore x Brown Swiss, and F1 Nellore x Simmental. Animals averaged 362 ± 35 kg of initial body weight and between 10 to 11 months of age. Diet contained signal grass hay (Brachiaria decumbens, Stapf.), soybean meal, ground corn, molasses, and macro and microminerals premix. The net requirements for weight gain of each macromineral were obtained by the first derivative of their respective equations generated from non-linear regression of the mineral content (Ca, P, Mg, Na, and K) in function of the animal empty body weight. The equation obtained from regressing empty body weight on weights taken immediately before slaughter was used for the conversion of body weight into empty body weight. The macrominerals requirements for maintenance were estimated using the NRC and ARC models recommendation while absorption coefficients used were those proposed by the ARC model. The model test of identity indicates no difference comparing regression equations for all studied macrominerals among the four genetic groups.

Key Words: beef cattle, minerals, mineral retention, nutrition, steers


 

 

Introdução

Na produção animal, tem-se como objetivo principal o fornecimento de proteína de alta qualidade para atender às necessidades alimentares da população, devendo ser, acima de tudo, economicamente viável, a um custo financeiro acessível, que permita a aquisição pelas classes sociais de menor renda. No Brasil, os bovinos concorrem principalmente com suínos e frangos e contribuem de forma significativa para satisfazer à demanda protéica da população (Pádua, 1999).

Contudo, para o sucesso da bovinocultura, é necessária atenção à alimentação, pois esse item é responsável por uma parcela considerável dos custos de produção. Logo, a determinação mais exata das exigências nutricionais em energia, proteína, minerais e vitaminas para a desejada taxa de ganho de peso dentro do sistema de produção é essencial para a sustentabilidade da atividade.

Embora os macronutrientes minerais estejam presentes no corpo dos animais em menores proporções que, por exemplo, as frações protéicas e lipídicas, são responsáveis por funções vitais no organismo (Coelho da Silva, 1995). Deficiências em um ou mais desses elementos podem resultar em desordens nutricionais sérias, ocasionando no animal desempenho produtivo e reprodutivo aquém de seu potencial.

A exigência total de cada macroelemento mineral é obtida por meio da soma das exigências para mantença e produção, utilizando-se mais freqüentemente o método fatorial para predição das necessidades de minerais para bovinos (ARC, 1980). A partir da correção da exigência total pelo coeficiente de absorção do elemento inorgânico no trato digestivo do animal, obtém-se a exigência dietética de elemento mineral.

Ressalta-se que a maior parte dos bovinos abatidos no Brasil é criada em pastagem, composta geralmente por espécies forrageiras de elevado potencial de produção de matéria seca (plantas C4), o que implica baixos teores em macronutrientes minerais, em razão do fator de diluição.

Outro fator crítico à nutrição mineral dos bovinos na pecuária brasileira é a localização dos sistemas de produção, marginalizada quanto à fertilidade dos solos, refletindo negativamente nos teores de minerais nas plantas, alimento básico dos bovinos.

Esses e outros fatores explicam os históricos de deficiências em minerais, como fósforo e magnésio, que, no passado, inviabilizaram a produção de bovinos sem suplementação em muitas regiões brasileiras.

O melhoramento genético, a implantação de novas espécies forrageiras e a racionalização do manejo possibilitaram a obtenção de maiores taxas de ganho de peso em bovinos, o que, de acordo com o princípio da conservação da matéria, resulta em naturais acréscimos na demanda por nutrientes.

Assim, objetivou-se com este trabalho apresentar modelos matemáticos para estimativa do conteúdo em minerais no corpo para ganho de peso de novilhos de corte. Avaliou-se, ainda, o efeito do grupo genético sobre a retenção dos nutrientes minerais (Ca, P, Mg, Na e K) no ganho de peso destes animais.

 

Material e Métodos

O experimento foi realizado no Instituto Melon de Estudos e Pesquisas, Campus da Fazenda Barreiro LTDA, localizado no município de Silvânia, Estado de Goiás.

Foram utilizados 44 novilhos não-castrados, pertencentes a quatro grupos genéticos: Nelore (NEL), F1 Nelore x Aberdeen-Angus (NELxAB), F1 Nelore x Pardo-Suíço (NEL x PS) e F1 Nelore x Simental (NEL x SIM) com média de 10 a 11 meses de idade e peso vivo inicial de 362 ± 35 kg, mantidos em baias individuais com 16 m2.

Três animais de cada grupo genético (12 no total) foram abatidos no início do experimento, servindo de referência para a estimativa da composição corporal daqueles mantidos no experimento até atingirem o peso de abate pré-estabelecido.

As rações, formuladas para se obterem ganhos médios de 1,2 kg/animal/dia, foram constituídas à base de volumoso, feno de capim-braquiária (Brachiaria decumbens, Stapf.), e concentrado, farelo de soja, milho (grão moído), melaço em pó e macronutrientes inorgânicos complementares1.

A distribuição das rações foi feita uma vez ao dia, em quantidade para permitir aproximadamente 10% de sobras. As quantidades de ração fornecida e de sobras foram registradas diariamente e, uma vez por semana, foram coletadas amostras da ração e das sobras, separadamente.

Os animais foram pesados inicialmente e a cada 30 dias (sem jejum prévio) e, quando se aproximaram do peso de abate pré-estabelecido (500 kg), foram submetidos a jejum prévio (16 horas) e abatidos.

Após o abate, o trato gastrintestinal foi esvaziado, minuciosamente lavado e pesado, computando-se os pesos de carcaça, dos órgãos e dos demais componentes do corpo para determinação do peso do corpo vazio (PCVZ).

Para cada animal abatido, foram coletadas amostras de cabeça, couro, pés, rúmen, retículo, omaso, abomaso, intestino delgado, intestino grosso, mesentério, gordura interna, coração, fígado, rins, baço, língua, sangue, esôfago, traquéia e aparelho reprodutor.

As carcaças foram pesadas no dia do abate e mantidas a -5ºC durante 18 horas. Decorrido esse período, procedeu-se à coleta de uma amostra representativa da carcaça esquerda, correspondente à seção da 9ª à 11ª costela (seção HH), segundo técnica descrita por Hankins & Howe (1946).

A partir das proporções de músculo, tecido adiposo e ossos na seção HH, foram determinadas as proporções desses tecidos na carcaça, por meio das equações a seguir (Hankins & Howe, 1946):

Músculo: Y = 16,08 + 0,80 X
Tecido adiposo: Y = 3,54 + 0,89 X
Ossos: Y = 5,52 + 0,57 X

em que X é a porcentagem dos componentes da costela.

As amostras de carne, gordura, órgãos e vísceras foram moídas em máquina apropriada, enquanto as de couro (congelado) e ossos foram seccionadas utilizando-se "serra fita". Em seguida, todas as amostras foram mantidas em estufa de ventilação forçada a 65ºC, por 72 horas. Quando retiradas, constituíram-se na "matéria pré-seca gordurosa" (MPSG), que foi tratada com éter de petróleo e passou a ser designada matéria pré-seca pré-desengordurada (MPSPDG). Em seguida, a MPSPDG foi processada em moinho de bola e acondicionada em sacos plásticos.

As amostras de sangue, por sua vez, foram levadas diretamente para a estufa de ventilação forçada, onde foram mantidas por 72 horas. Em seguida, foram submetidas ao processamento em moinho de bola, sendo acondicionadas em sacos plásticos e armazenadas em freezer até a fase de análise laboratorial.

As análises químicas foram realizadas no LNA do DZO/UFV, efetuando-se a preparação da solução mineral para determinação dos macronutrientes minerais por via úmida, de acordo com a metodologia descrita por Silva & Queiroz (2002). Obtida a solução mineral, foram feitas as diluições para leitura nos equipamentos. O teor de fósforo foi determinado por colorimetria; os de cálcio e magnésio, em espectrômetro de absorção atômica; e os de sódio e potássio, em fotômetro de chama.

Os conteúdos corporais em macronutrientes minerais dos animais experimentais foram determinados a partir de suas concentrações na MPSPDG nos diferentes componentes do corpo (gordura, músculos e ossos da seção H, órgãos, vísceras, couro etc).

O peso na matéria natural de cada componente foi multiplicado pela porcentagem de MPSPDG, obtendo-se o conteúdo de MPSPDG em kg (Equação 1):

Equação 1: MPSPDG(kg) = MN(kg) x MPSPDG(%), em que MN é matéria natural.

Como os resultados das análises químicas foram transformados em porcentagem da MPSPDG, o somatório do produto de todos os componentes corporais resultou no conteúdo total do mineral no corpo vazio do animal (Equação 2).

Equação 2: , em que Xi = % do mineral no componente corporal e Yj = kg de MPSPDG do componente.

O PCVZ dos animais foi determinado pelo somatório dos pesos de carcaça, cabeça, pés, couro, sangue, cauda, órgãos e vísceras.

A regressão estimada para a peso de corpo vazio (PCVZ) em função do peso dos animais vivos (PV) foi a seguinte:

PCVZ = 0,8942 x PV - 16,995, R2 = 0,8942

O delineamento experimental utilizado foi o inteiramente casualizado. Para a predição dos conteúdos líquidos dos macronutrientes minerais no corpo dos animais, foram ajustadas equações de regressão do conteúdo corporal de minerais (Ca, P, Mg, Na e K), de acordo com o peso de corpo vazio (PCVZ). Todo o procedimento foi feito segundo o ARC (1980), diferenciando apenas no fato de não se ter linearizado o modelo pela logaritmização. Assim, o modelo estatístico foi o seguinte:

em que Yijk = observação referente ao conteúdo do mineral k no i-ésimo animal, pertencente ao j-ésimo grupo genético, com i variando de 1 a 8 e j variando de 1 a 4; a = constante inerente ao modelo; b = coeficiente de regressão do conteúdo do mineral k, conforme o PCVZ, para o grupo genético j, em que, j = 1 F1 Nelore x Aberdeen-Angus; 2 Nelore; 3 F1 Nelore x Pardo-suíço; 4 F1 Nelore x Simental; Mij = massa de corpo vazio (em kg) do i-ésimo animal ao j-ésimo grupo genético; eijk = erro aleatório associado à observação, suposto normal e independentemente distribuído com média 0 e variância s2, ou seja, eijk ~ N(0;s2).

As análises de regressão não-linear para construção das equações e a análise de variância dos dados, a 5% de significância (p<0,05), foram realizadas por meio do Statistical Analysis System for Windows (SAS 8.0, 1995). Na comparação entre grupos genéticos, quanto à composição corporal e às exigências em macronutrientes minerais, utilizou-se o teste de identidade de modelos não-lineares, de acordo com técnica proposta por Regazzi (2003), para se verificar a possibilidade de usar um modelo comum para todos os grupos genéticos, reunir dois ou três grupos em um modelo ou adotar um modelo para cada grupo genético. O procedimento estatístico baseia-se nas seguintes hipóteses: : a1 = a2 = a3 = a4, : pelo menos um ai é diferente dos demais: : b1 = b2 = b3 = b4, : pelo menos um bi é diferente dos demais, : a1 = a2 = a3 = a4 e b1 = b2 = b3 = b4, : pelo menos uma igualdade é uma desigualdade sendo que ai e bi correspondem, respectivamente, aos a1 e b1 dos modelos.

As exigências líquidas em macronutrientes (Ca, P, Mg, Na e K) para ganho de 1 kg de peso foram calculadas pela derivada primeira dos modelos não-lineares, obtidos a partir da relação alométrica (Brody,1945; Kleiber, 1975), como segue:

Y '= abMb-1; em que: Y '= exigência líquida do mineral (em g) para ganho de 1,0 kg de ganho de peso; a e b = constante inerente ao modelo e coeficiente de regressão, respectivamente, das equações de predição dos conteúdos corporais em minerais (Ca, P, Mg, Na e K); M = massa do corpo vazio em kg.

As exigências dietéticas foram obtidas por meio do somatório das exigências líquidas para mantença e para ganho de peso, dividido pelo coeficiente de absorção do macronutriente mineral.

As exigências de cada macronutriente para mantença foram consideradas como perdas endógenas inevitáveis nos processos metabólicos e estimadas de acordo com as recomendações dos sistemas ARC (1980) e NRC (1996).

 

Resultados e Discussão

A equação obtida por meio da regressão do PVCZ, conforme o peso vivo (Figura 1) e seus intervalos de confiança dos parâmetros da regressão na Tabela 1, baliza valores médios para o PCVZ em 85% do peso do animal vivo (PV). Esses valores são inferiores aos estimados pelas equações obtidas por Véras et al. (2001) e àqueles apresentados por Paulino et al. (2004), extraídos da simples relação PCVZ/PV, que fornece valores de PCVZ de, aproximadamente, 89% do PV.

 

 

Essa diferença, apesar de pequena, pode ser explicada pelo fato de que esses autores trabalharam com animais de raças zebuínas, que, geralmente, possuem menor relação "peso da digesta/peso corporal total", atribuída ao menor volume do trato gastrintestinal de animais dessa raça. As constatações de Carvalho (1989) confirmam esta afirmação, pois, em novilhos Nelore, Holandês, ½ sangue Nelore x Holandês e ¾ Nelore x Holandês, verificou valores de relação PCVZ/PV que variaram de 0,86 (Nelore) a 0,80 (Holandês), ficando os mestiços em posição intermediária.

Os conteúdos dos macronutrientes minerais (Ca, P, Mg, Na e K) retidos no corpo de cada animal foram submetidos à análise de regressão não-linear, em função do peso de corpo vazio dos animais. Com o ajuste dos dados, foi possível modelar equações para a estimativa dos conteúdos de cada um dos minerais estudados no corpo vazio dos animais. Os parâmetros dessas equações podem ser observados na Tabela 2.

 

 

O teste de identidade de modelos não-lineares (Regazzi, 2003) aplicado às equações de regressão do conteúdo dos macronutrientes Ca, P, Mg, Na e K, em função do PCVZ, revelou não haver diferenças (P>0,05) entre os quatro grupos genéticos. Portanto, adotou-se uma equação comum para a estimativa do conteúdo desses minerais no corpo dos animais dos quatro grupos.

As estimativas do conteúdo de minerais no corpo dos animais utilizados neste trabalho, obtidas pelos respectivos modelos, forneceram valores cujas relações valores estimados/valores observados foram próximas de 1 para os cinco minerais estudados e seus desvios-padrão, iguais a 0,24; 0,35; 0,26; 0,13 e 0,11, respectivamente, para cálcio, fósforo, magnésio, sódio e potássio.

Não foram detectadas pelo teste "F" da análise de variância diferenças para a retenção dos minerais entre os diferentes grupos genéticos (p<0,05).

Estrada (1996), em estudo com novilhos Nelore, F1 Nelore x Holandês e F1 Nelore x Angus, analisou, pelo teste de identidade proposto por Graybill (1976), a regressão dos dados linearizados e não verificou diferenças entre as equações para estimativa dos cinco macronutrientes (Ca, P, Mg, Na e K) para os grupos F1 Nelore x Holandês e F1 Nelore x Angus. Porém, essas estimativas diferiram daquela estimada para o grupo Nelore.

Paulino et al. (1999), utilizando a mesma metodologia de comparação e as mesmas variáveis, não verificaram diferenças entre as equações de predição do conteúdo dos cinco minerais citados para quatro raças zebuínas.

Pires et al. (1993a), trabalhando com animais Nelore, Nelore x Marchigiana e Nelore x Limousin, constataram que a equação para estimativa do conteúdo corporal em cálcio no grupo Nelore diferiu daquelas dos grupos Nelore x Marchigiana e Nelore x Limousin, que não diferiram entre si. Todavia, os autores não observaram diferenças entre os três grupos para a estimativa da equação de predição do conteúdo corporal em fósforo.

Para o magnésio, Pires et al. (1993b) notaram diferenças entre as equações para predição do conteúdo do macronutrriente no corpo dos animais dos três grupos. Para o sódio e potássio, contudo, o teste de identidade não comprovou diferenças entre as equações dos três grupos genéticos.

Essa heterogeneidade dos resultados indica a necessidade de refinamento da metodologia para as análises do conteúdo de minerais no corpo dos animais experimentais.

Considerando-se um novilho de 400 kg e a exigência de mantença recomendada pelo NRC (1996), o valor do coeficiente de absorção estimado pelo ARC (1980) e a relação PV/PCVZ igual a 1,196 (PCVZ: 400, 1,196 = 334) balizada neste trabalho, as necessidades dietéticas em cálcio podem ser estimadas de acordo com a Equação 3:

Ca (g/dia) = [(15,4/1000x400) + (GMDx0,1715x334(0,904)]/0,68,

o que resulta em exigência dietética em 57,35 g Ca d-1.

O ARC (1965) estimou as exigências dietéticas de cálcio para um novilho de 400 kg de massa corporal ganhando 1 kg, em 37,2 g d-1, ou seja, 65% dos 57,35 g estimados neste estudo. Os 31 g recomendados pelo NRC (1996) para a mesma condição representam apenas 54% da estimativa da Equação 3.

Os trabalhos encontrados na literatura nacional que apresentaram estimativas de exigências dietéticas em cálcio mais próximas desse estudo foram os de Carvalho (1989), que estimou em 47,87 g d-1, e de Silva Sobrinho (1984), 41,26 g d-1. Ressalta-se que a ausência de uma metodologia unificada para a estimativa das exigências líquidas de mantença e de coeficientes de absorção únicos para cada elemento impossibilita a comparação criteriosa entre os valores de exigências dietéticas de elementos minerais estimados nos diferentes trabalhos.

Considerando-se ainda o mesmo animal supracitado, as recomendações para a exigência de mantença e o coeficiente de absorção dos sistemas supracitados, as necessidades dietéticas em fósforo podem ser estimadas de acordo com a Equação 4:

P (g/dia) = [(16/1000x400) + (GMDx27,89x334(-0,2205)]/0,58,

que resulta em 24,38 em g P d-1.

Este valor se aproxima da maioria dos encontrados na literatura nacional. Estrada (1996), em estudo com animais Nelore, F1 Nelore x Holandês e F1 Nelore x Angus, determinou exigências dietéticas de fósforo em 28,18 g d-1 para os animais Nelore e em 26,24 g d-1 para os mestiços. Entretanto, adotou as recomendações do AFRC (1991) como exigências para suprir as perdas endógenas desse mineral. Paulino et al. (1999), adotando as mesmas recomendações para as exigências de mantença em animais de quatro raças zebuínas, estimaram em 26,09 g d-1 as exigências dietéticas de fósforo para um animal de 400 kg. Soares (1994), empregando a mesma metodologia, balizou essas exigências em 25,49 g d-1.

O ARC (1965) estimou o valor de 28,6 g d-1, enquanto, com o mesmo sistema revisto em 1980, a recomendação foi reduzida para 21 g d-1. No NRC (1996), a recomendação foi 36% inferior ao valor estimado neste trabalho (Equação 4). Contudo, considerando-se o valor 0,68 para o coeficiente de absorção do elemento, as exigências preditas neste trabalho são de 19,39 g d-1, valor próximo aos 18 g diários recomendados pelo sistema americano.

A exigência dietética em magnésio para um novilho de 400 kg pode ser calculada de acordo com a Equação 5:

Mg (g/dia) = [(3/1000x400) + (GMDx0,04x334(0,541)]/0,17,

A solução da Equação 5 resulta em 12,53 g d-1 como exigência dietética de magnésio, o que supera em 32% as recomendações britânicas (ARC, 1980).

No Brasil, Silva Sobrinho (1984), em estudo envolvendo novilhos Nelore, Holandês e Nelore x Holandês, quantificou as exigências dietéticas de magnésio em 11,8 g d-1para um animal com 400 kg de massa corporal, ganhando 1 kg diariamente. Soares (1994), por sua vez, estimou essas exigências em 9,33 g d-1 e Paulino et al. (2004), em 8,38 g diários.

A biodisponibilidade do magnésio para bovinos é baixa e variável, constituindo-se em uma contradição entre os valores estimados para as exigências dietéticas do macronutriente nos diferentes trabalhos.

Carvalho (1989) afirma que a disponibilidade do magnésio em forragens é de 10 a 25% e em grãos e concentrados, de 30 a 40%. Coelho da Silva (1995) ressaltou as variações individuais na absorção do elemento por bovinos, advertindo que essas diferenças podem ocorrer até em gêmeos homozigóticos da espécie.

Todavia, cita-se que a estimativa das exigências do elemento para ganho de peso, extraídas do modelo proposto neste trabalho, fornece valores mais elevados que aqueles reportados por Paulino et al. (1999) e Véras et al. (2001), de 0,21 g d-1 para um animal de 400 kg ganhando diariamente 1 kg de peso. Os valores obtidos por esses autores corroboram aqueles reportados por Lana et al. (1992) e Paulino et al. (2004), de 0,21 e 0,25 g de magnésio por dia, respectivamente, como exigências líquidas de um animal em situação semelhante.

Com base no exemplo trabalhado, a exigência dietética em sódio pode ser estimada pela Equação 6:

Na (g/dia) = [(6,8/1000x400) + (GMDx2,0931x334(-0,0785)]/0,91, resultando em 4,45.

Considerando consumo de MS de 2,4% do peso do animal vivo, os 4,45 g d-1 estimados representam aproximadamente 0,05% de sódio na ração total, valor próximo do recomendado pelo NRC (1996) como exigência nutricional do mineral.

A partir de dados compilados de vários trabalhos nacionais, Fontes (1995) determinou uma equação na qual se estima a exigência líquida para ganho de peso de um animal de 400 kg em 0,93 g Na kg-1 ganho, o que representa 70% da estimativa obtida pela Equação 6.

Estrada (1996) desenvolveu seus estudos com novilhos Nelore, F1 Nelore x Holandês e F1 Nelore x Angus e estimou as exigências dietéticas do elemento em 4,08 g d-1 para os animais Nelore e em 3,93 g diários para os mestiços, que representam, respectivamente, 92 e 88% dos 4,45 g estimados neste trabalho pela Equação 6.

Paulino et al. (1999), em bovinos de quatro raças zebuínas, determinaram as exigências dietéticas em 4,03 g Na d-1 para um animal de 400 kg ganhando diariamente 1 kg. Carvalho (1989), para animais de mesma massa e igual taxa de ganho, estimou as exigências dietéticas do elemento em 4,71 g d-1. Silva Sobrinho (1984), por sua vez, estimou essas exigências em 4,6 g d-1.

O NRC (1996) elaborou uma equação para estimar as necessidades líquidas do macronutriente potássio para mantença, que envolve as perdas urinárias, fecais, salivares, sudoríferas e o consumo de matéria seca pelo animal. Desse modo, considerando-se o mesmo novilho de 400 kg, com a mesma taxa de ganho de peso, consumindo matéria seca em uma proporção de 2,4% de seu peso corporal e o coeficiente de absorção adotado para o elemento pelo ARC (1980), podem-se estimar as exigências dietéticas em potássio conforme a Equação 7:

A solução da Equação 7 resulta no valor de 46,51 g K d-1 como exigência do mineral.

O ARC (1980) recomendou como exigências em potássio a quantia de 43,38 g d-1, que é 7% inferior aos 46,51 g diários estimados neste estudo. O NRC (1996) propõe como necessidades dietéticas de potássio a proporção de 0,6% do elemento na matéria seca consumida diariamente pelo animal. Seguindo essa relação, a quantia estimada pelo modelo proposto resulta em 0,5% de potássio na matéria seca total consumida.

Comparando com valores estimados em pesquisas realizadas no Brasil, constata-se certa consonância com os resultados da maioria dos trabalhos.

Soares (1994), utilizando bovinos machos não-castrados de diferentes grupos genéticos, estimou as exigências dietéticas em potássio para um animal de 400 kg ganhando 1 kg diariamente em 43,08 g d-1, enquanto Paulino et al. (1999), em animais zebuínos, determinou exigências de 45,28 g d-1.

Estrada (1996), em pesquisa envolvendo animais de diferentes grupos genéticos, e Paulino et al. (2004), com novilhos anelorados, estimaram exigências dietéticas de potássio que, em média, são 94% das obtidas neste estudo.

 

Conclusões

Não foram verificadas diferenças entre as equações de regressão para os cinco nutrientes entre os quatro grupos genéticos estudados. Também não foram constatadas diferenças entre as retenções desses nutrientes no corpo dos animais.

 

Literatura Citada

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Recebido: 16/03/05
Aprovado: 15/09/05

 

 

Correspondências devem ser enviadas para: jcarlos@ufv.br
1 Carbonato de cálcio, fosfato bicálcico, óxido de magnésio, enxofre elementar (flor de enxofre), cloreto de sódio, cloreto de potássio, sulfato de cobalto, sulfato de cobre, iodato de potássio, sulfato de manganês, selenito de sódio e sulfato de zinco.

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